Mostrando postagens com marcador Ryan O' Neill. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ryan O' Neill. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O Céu Se Enganou


Existe uma curiosa relação entre esta saborosa produção dos anos 1980, realizada por Emile Ardolino (diretor de “Dirty Dancing-Ritmo Quente” e “Mudança de Hábito”) e um filme bem mais contemporâneo dirigido por Jonathan Glazer (de “Sob A Pele”), com Nicole Kidman, “Reencarnação”.
O ponto de partida da premissa básica de ambos é o mesmo, guardadas as devidas proporções (enquanto este é uma comédia romântica, o filme de Glazer é, até certo ponto, um suspense dramático levado relativamente a sério): Na trama, uma bela e apaixonada mulher perde seu marido que retorna anos depois reencarnado em alguém mais jovem.
Tudo a mais nos dois filmes acaba sendo diferente –o que pode fazer com que muitos expectadores refutem a comparação, mas outra coisa também os iguala: O desfecho no qual os realizadores abrem mão completamente de fazer um desenlace mais corajoso.
E aqui, esse pequeno lapso é até minimizado porque os realizadores foram hábeis.
Corinne (Cybill Shepperd, abusando de ser linda!) é casada com Louie (Christopher McDonald, de “Thelma & Louise”). Os dois têm em Phillip (Ryan O’ Neal) seu melhor amigo –tanto que ele é sincero, já na primeira cena, em reconhecer para Louie que é apaixonado por Corinne; e isso durante a cerimônia de casamento deles!
Naquele ano de 1963, todos são felizes até que um acidente tira a vida de Louie que vai parar no céu. Lá, seus protestos o fazem parar numa fila para pessoas dispostas a voltar imediatamente à terra, reencarnados em bebês prestes a nascer. Na pressa de reencontrar Corinne, Louie não recebe uma espécie de injeção que drena dele todas as memórias da vida anterior e assim, quando ele nasce no corpo de Alex Finch (Robert Downey Jr., ainda jovem e extraordinariamente promissor), sua vida corre normal até os vinte e três anos, quando conhece a jovem Miranda (Mary Stuart Masterson), e descobre ser ela a filha de Louie, o que lhe traz de volta todas as memórias da vida pregressa, inclusive a lembrança de seu amor avassalador por Corinne.
A junção desse conceito metafísico com os expedientes de comédia romântica nem sempre se mostra perfeita: Em relação à Alex (que, na verdade é Louie), Corinne por exemplo vai de implicante à apaixonada sem trilhar o caminho da sutileza.
Ao nomear como cerne para seu enredo um tema complicado como a reencarnação, o filme de Emile Ardolino se arrisca numa direção à qual não consegue se posicionar. Exatamente como o “Reencarnação” de Jonathan Glazer: Aqui Alex e Corinne não terminam juntos, mas pelo menos os realizadores foram inteligentes ao dar ênfase do início ao fim da narrativa ao personagem de Ryan O’ Neal que, negligenciado durante boa parte do filme, acaba sendo pontual para a escolha mais conciliatória e menos audaz (certamente insatisfatória para alguns expectadores) feita pelo roteiro no final.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Caçador de Morte


A primeira perseguição de carro que abre o filme já demonstra claramente a fortíssima influência que este semi-clássico setentista exerceu em “Drive”, de Nicolas Winding Refn: A mesma cena é quase reconstituída também na abertura daquele filme, de modos a recriar o mesmo tom, o mesmo ritmo e a mesma atmosfera do trabalho de Walter Hill.
Como lhe é inerente como realizador em todos os filmes que fez e que viria a fazer depois deste, Hill impõe uma narrativa direta e reta, sem firulas.
Seus personagens são anônimos. Atendem pelas alcunhas genéricas de O Motorista, O Detetive, A Jogadora.
Ao contrário do que se poderia imaginar, Hill encontra até um certo charme nessa superficialidade: Os atores (ótimos, por sinal) se empenham em agregar algum valor psicológico a esses arquétipos e a narrativa se diverte em elaborar seus atritos.
Ryan O’ Neal, com uma gelidez que remete algo de seu trabalho em “Barry Lyndon”, de kubrick, interpreta o Motorista. Não um motorista qualquer mas um hábil piloto de fugas –talento que ele demonstra já na mencionada cena inicial, quando escapa audaciosamente das garras da polícia levando consigo uma dupla qualquer de assaltantes.
Sua fama é tão difundida que o Detetive (Bruce Dern) incumbido do caso já sabe, de antemão, que seria ele o único profissional capaz de perpetrar tal fuga. O problema é relacionar o Motorista ao crime em questão já que a única testemunha ocular realmente válida da ocasião (vivida por Isabele Adjani) vem a ser justamente uma das pessoas envolvidas na armação.
Mas, o faro para larápios do Detetive aos poucos começa a desenrolar o intrincado novelo feito de alianças frágeis entre os envolvidos no crime, levando o Motorista a fazer valer sua astúcia para escapar de quem o deseja preso.
Construído com a propriedade habitual do notável realizador que Walter Hill é, o filme tem lá seus méritos embora se posicione num local meio transitório no que tange à sua importância como filme de gênero e como cinema: Sua produção é visivelmente acima da média, mas na busca por inovação ele chegou consideravelmente atrasado se compararmos a audácia de suas cenas de perseguição com “Bullit” ou “Operação França”, dois brilhantes e marcantes desbravadores do gênero que foram lançados uns anos antes.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Lua de Papel


Sobra personalidade aos filmes concebidos por Peter Bogdanovich, sobretudo, uma personalidade definida pelo amor ao cinema, por um impulso cinéfilo que faz dele um precursor de autores referenciais que só passaram a realizar cinema anos, até décadas, depois dele como Quentin Tarantino ou até mesmo Martin Scorsese.
Muito do que é “Lua de Papel” vem desse apreço.
Realizado em preto & branco, contado por meio de planos exuberantes que remetem de pronto aos mestres John Ford e Howard Hawks, o filme se ambienta nos anos 1930 e relata uma trama graciosa, episódica de sucessivos golpes em tom de aventura. Longe de emular Frank Capra, a narrativa de Bogdanovich não deixa de detectar cinismo e desilusão com os quais tempera singularmente seu enredo.
Para tanto, é durante um velório que tudo começa.
A pequena Addie (Tatum O’ Neal, de apenas nove anos, um achado!) perdeu a mãe. Casualmente, surge na cerimônia o viajante Moze (Ryan O’ Neal, pai de Tatum na vida real e frequente presença nos filmes de Bogdanovich). Logo, ele tem a criança empurrada para si, já que irá viajar na direção da cidade onde a menina tem uma tia que cuidará dela.
Levando ela a contragosto, Moze compreende que Addie testemunhará todas as intermináveis práticas golpistas que ele usa para ganhar a vida (registradas no roteiro com extrema astúcia e inteligência), no entanto, é surpreendido por um fato: Pouco a pouco, a própria Addie –após superar o enfezamento inicial –passa a ser peça crucial de suas malandragens.
Em meio a um road-movie confesso, declarado e típico, o diretor constrói com habilidade a dinâmica de uma família disfuncional: A suspeita de que Moze possa ser o pai de Addie se mantem, mas nunca é aprofundada de fato, ainda assim, há um elo afetivo que surge cuja ameaça é seu próprio prazo de validade –mais cedo ou mais tarde, os caminhos trilhados pela dupla de vigaristas levarão à cidade na qual mora a tia de Addiem selando o fim dessa relação.
Essenciais para o resultado obtido são assim a maravilhosas atuações da dupla: Ryan O’ Neal, cheio de simpatia e expressividade, mostra que a atuação fria em “Barry Lyndon” foi, de fato, uma opção narrativa do diretor, e a pequena Tatum O’ Neal, tirando de letra uma personagem repleta de complexidades dramáticas conquistou com a tenra idade o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante.
Justamente pelos rumos conscientes que toma, e pela empatia genuína que Ryan e Tatum despertam, um dos aspectos mais louváveis de “Lua de Papel” é a maneira contundente elegante com a qual se desvencilha do sentimentalismo fácil: Do início ao fim, passando pelo desfecho consciente, condizente e coerente, o filme de Bogdanovich evita circunstâncias pedantes para entregar, em vez disso, cinema de primeira qualidade.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Barry Lyndon


O projeto de Stanley Kubrick anterior à “Barry Lyndon” foi “Laranja Mecânica”. Assim, a mente de Kubrick pareceu encontrar um meio de exorcizar a anarquia futurista à qual mergulhou a fundo vislumbrando, desta vez, o passado numa análise dotada de essencial consciência do dever, seja aquele cumprido ou aquele ao qual se falta: “Barry Lyndon” registra toda um sucessão de mau-caratismos impune evidenciados numa narrativa algo melancólica.
Ryan O’ Neal (com uma expressão excessivamente contida que serve aos propósitos do diretor) interpreta Redmond Barry, um irlandês metido a conquistador que, no século XVIII, é obrigado pelas circunstâncias a deixar sua cidade –ele sobrevive, na cena inicial do filme, a um duelo contra um errádico e indignado desafiante.
No decurso de suas inusitadas desventuras pelo mundo, ele acaba lutando na Guerra dos Sete Anos ao lado dos britânicos contra o exército prussiano e, após uma missão designada por seu oficial, junta-se a um especialista em golpes (Patrick Magee), com quem passa os anos seguintes aprimorando sua aptidão como vigarista em meio à nobreza européia.
O êxito da trapaça traz junto consigo a soberba da pretensão e Redmond resolve executar seu golpe mais ambicioso casando-se com a rica viúva Lady Lyndon (Marisa Berenson, de “Morte Em Veneza”), de quem oportunamente acaba herdando o sobrenome –título de nobreza pertencente ao falecido marido dela!
Os anos se passam na cadência analítica e distanciada imposta por Kubrick na medida em que testemunhamos a tentativa de alpinismo social do protagonista em contraponto à sua incapacidade real de integrar a elite e, próximo do final, o antagonismo relutante e sôfrego representado por seu enteado, já adulto, o quê conduz a mais uma cena de duelo –assim como no iníco –o que arremata com simetria astuciosa a narrativa.
Filmado com intenções inovadoras da parte de Kubrick –sem qualquer iluminação artifical, apenas velas e luz solar num esforço para reproduzir o trabalho de luz dos quadros da época, “Barry Lyndon”, contudo, não é uma antítese absoluta à “Laranja Mecânica”, mas uma reiteração completa de Kubrick ao seu próprio estilo perpetrada numa produção radicalmente diferente em gênero, temática e narrativa: Barry Lyndon e Alexander De Large (o protagonista de “Laranja Mecânica”) são equivalentes em suas trajetórias, no registro indiscriminado ao humor e ao drama, que permeia suas acensões e quedas.
O filme padece de um injusto reconhecimento como uma das mais subestimadas obras de Kubrick, certamente devido à escolha, um tanto apropriada para refletir a escancarada ostentação visual da produção, por uma contenção emocional que intencionalmente impede uma conexão maior com qualquer experiência de seus personagens.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Essa Pequena É Uma Parada

Engana-se quem pensa que as comédias insanas foram uma contribuição dos anos 1980 ao gênero: Antes das gags visuais de Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker, já se tentava fazer uma transposição da mesma linguagem aloprada dos desenhos animados de Chuck Jones (em geral, protagonizados pelo coelho Pernalonga) para o cinema live-action.
Trata-se deste “Essa Pequena É Uma Parada”, cujo título original, “What’s Up, Doc!”, já faz referência a um bordão costumeiro do Pernalonga, adotado aqui pela mocinha tresloucada interpretada por Barbra Streinsand.
É uma trama graciosamente rocambolesca, confusa até, a partir de um determinado ponto, como ocasionalmente parece ser do agrado do diretor Peter Bogdanovich (que entregou, ao longo de sua irregular carreira, algumas comédias ligeiramente malucas).
Ele parte de um qüiproquó bastante comum nas comédias de pastelão –a maleta trocada –para então bombardear o filme com uma profusão de cenas cômicas de natureza incomum, ora metalingüísticas, ora cartunescas.
O resultado quase flerta com o bizarro.
Acompanhamos assim um jovem e estabanado estudioso de rochas (Ryan O’ Neal), e sua noiva neurótica hospedados num mesmo hotel (aliás, num mesmo andar de um hotel!), de um monte de gente encrenqueira: Dois desengonçados agentes secretos a fim de roubar documentos confidenciais um do outro; uma senhora, dona de uma maleta de jóias preciosas que é de muito interesse do gerente do hotel e de seu cúmplice; e para finalizar, uma mocinha com uns parafusos à solta (Streinsand), que providencia uma série de confusões aonde quer que vá.
Para complicar tudo, todos os personagens portam maletas absolutamente idênticas, e todas contêm algo de valor para seus portadores (e, claro, todas serão eventualmente trocadas!).
Embora fosse um dos grandes astros do período, Ryan O’ Neal era um ator limitado, não fiquei satisfeito com sua atuação em nenhum de seus trabalhos que eu vi. Foram eles: “Barry Lyndon”, de Kubrick, “Caçada de Morte, de Walter Hill, e “Love Story-Uma História de Amor”, além deste daqui (ainda preciso conferir “Lua de Papel”, sua outra colaboração com Bogdanovich). Aqui isso não é diferente: Durante boa parte do filme ele passa um desconforto no papel do abestalhado Howard, que estuda rochas. Suas tentativas de fazer comédias só se sucedem bem quando ele se resigna no papel do cara que não compreende o quê se passa ao seu redor.

Já, Barbra Streinsand, por sua vez, é um caso complicado. Ela nunca foi muito bonita, mas até consegue cativar com seu personagem (embora seja perfeitamente possível pensar em diversas atrizes da época que ficariam mais legais que ela), e ajuda muito o fato de que este filme ainda não é um daqueles onde seu estrelato exerceu um peso opressor sobre a produção.