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sábado, 11 de agosto de 2018

Os Vencedores do Oscar 1969


No ano de 1969 não apenas foi premiado um filme musical como também britânico, o luxuoso “Oliver!” –que transpõe para o gênero musical a obra literária de Charles Dickens, adaptada em 2002, também por Roman Polanski –isso num ano em que tínhamos entre os indicados nas categorias técnicas uma das maiores obras de cinema de todos os tempos, “2001-Uma Odisséia No Espaço”, de Kubrick, que levou um módico prêmio de Efeitos Especiais.
Cliff Robertson (o tio Ben na versão de Sam Raimi para o “Homem-Aranha”) ganhou o prêmio de Melhor Ator vivendo com propriedade um desajustado mental na ficção científica “Os Dois Mundos de Charly”, tirando o Oscar das mãos do magnífico Ron Moody, de “Oliver!”.
Não havia como recusar o Oscar de Atriz Coadjuvante para Ruth Gordon, por “O Bebê de Rosemary” –até porque esta terminou sendo a única honraria que a obra-prima de Polanski recebeu –e, embora eu considere o trabalho de Gene Wilder em “Primavera Para Hitler” muito melhor, quem levou o de Ator Coadjuvante foi o hoje desconhecido Jack Albertson, por “A História de Três Estranhos”.
Todavia, o grande acontecimento da cerimônia de 1969 foi o do empate histórico entre suas duas atrizes principais: Tanto a grande Katharine Hepburn, (por “O Leão No Inverno”), como Barbra Streisand (por “Funny Girl”) receberam a mesma quantia de votos e acabaram levando ambas o prêmio de Melhor Atriz!

MELHOR FILME
"Oliver!"

MELHOR DIREÇÃO
"Oliver!", Carol Reed

MELHOR ATRIZ
Katharine Hepburn, "O Leão No Inverno" e Barbra Streisand, "Funny Girl"

MELHOR ATOR
Cliff Robertson, "Os Dois Mundos de Charly"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Ruth Gordon, "O Bebê de Rosemary"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Jack Albertson, "A História de Três Estranhos"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Romeu e Julieta"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Guerra e Paz" (União Soviética)

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"2001-Uma Odisséia No Espaço"

MELHOR FIGURINO
"Romeu e Julieta"

MELHOR SOM
"Oliver!"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Oliver!"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
“O Leão No Inverno"

MELHOR TRILHA SONORA ADAPTADA
"Oliver!"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"The Windmills Of Your Mind", de "Crown-O Magnífico"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Primavera Para Hitler"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"O Leão No Inverno"

MELHOR MONTAGEM

terça-feira, 5 de junho de 2018

Nosso Amor de Ontem


Mesmo em obras magistrais como esta é difícil deixar de notar nos filmes estrelados por Brabra Streisand uma convulsiva massagem em seu ego de estrela: Essa característica aparece ressaltada em monólogos deliberados, e em closes descabidos em suas unhas bem feitas, em seu cabelo e sua maquiagem. Em contraponto, há intensidade em sua presença, seja na atuação, seja na performance que ela dedica à música-tema “The Way We Where” (ganhadora, aliás, do Oscar). Barbra é Katie Morosky, judia nova-iorquina e idealista. Ela trabalha no Departamento de Guerra em plenos anos 1940, enfatizando o patriotismo em tramas de radionovelas, e em mais um sem fim de sub-empregos. Um excesso de ocupações que preenche sua ansiedade e sua irreprimível necessidade de fazer a diferença.
Numa saída de happy hour, onde confraternizam com eventuais combatentes da Segunda Guerra Mundial, ela reencontra Hubbell Gardiner (Robert Redford, também tendo lá a sua parcela de massagem no ego).
Ela e Hubbell se conheceram uma década antes –fato que o flashback logo trata de ilustrar –quando eram apenas estudantes universitários. Ela, a idealista de sempre, politizada, cheia de iniciativas pacifistas e ideais socialistas. Ele, despreocupado, oferecia uma imagem do loiro norte-americano confortável e bem apessoado (imagem que, de fato, tem tudo a ver com Robert Redford).
Diante do fato evidente de que eram pessoas de mundos diferentes, os dois ainda assim estabeleceram uma curiosa relação de afeto; que foi retomada naquele reecontro anos depois.
Quando a guerra se encerra, Hubbell, aconselhado por Katie, busca seguir sua carreira como romancista, o quê o leva, mais tarde, quando já estão casados, à Hollywood.
Mas, é chegada a década de 1950 e com ela a assim chamada Caça às Bruxas, quando um Comitê de Assuntos Anti-Americanos no congresso passa a perseguir pessoas entre os artistas de Hollywood com possível envolvimento comunista.
As personalidades de Hubbell (afável e pouco interessado em política) e Katie (uma ativista desde sempre) inevitavelmente se defrontam.
Os efeitos do machartismo começavam a cicatrizar em Hollywood em meados dos anos 1970, quando este belo filme foi realizado, o quê em parte explica a abordagem amena com o qual a questão é executada: Na direção sempre sólida de Sidney Pollack, esta é, antes de mais nada, uma história de amor e de como as mudanças radicais experimentadas pelo mundo nesse trecho específico do século XX transfiguraram esse amor, e menos uma obra de denúncia ou panfletagem.
Apesar da rasa ideologia, pode ter sido essa opção que fez –e ainda faz –este filme ser tão incrivelmente atemporal, universal e tocante.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

O Príncipe das Marés

“Eu me espanto com o encanto, das marés do meu recanto...”
Barbra Streisand, como diretora, nunca inspirou muita confiança. Seu egocentrismo artístico e seu narcisismo notório levavam a fazer dela –que sempre estrelava os próprios filmes –o centro obrigatório de todas as atenções. O trabalho no qual ela chegou mais perto de conter tais ímpetos foi sem dúvidas o premiado “O Príncipe das Marés”.
Durante um tempo considerável de filme, ela é bem sucedida em nos convencer de que todos os colaboradores à frente e atrás das câmeras terão suas oportunidades burocraticamente administradas para brilharem com justiça equivalente.
O protagonista do filme é Nick Nolte, naquela que é uma de suas mais elogiadas atuações –e não é à toa: No papel de Tom, um treinador de futebol americano com uma perturbadora história familiar para contar, Nolte é passional, explosivo, vulnerável e magnífico (ele só perdeu o Oscar de Melhor Ator porque naquele ano de 1991 concorria com o inigualável trabalho de Anthony Hopkins por “O Silêncio dos Inocentes”).
Tom tem lá seus próprios problemas: Seu casamento com Sally (Blythe Danner, mãe de Gwyneth Paltrow) está em crise devido à uma confissão de traição dela. Nessas condições –em que avalia o quão de felicidade conquistou em sua própria vida afetiva –ele precisa ir à Nova York onde sua irmã mais jovem, Savannah (Melinda Dillon) tentou mais uma vez suicídio.
Segundo Suzan, sua psiquiatra (vivida pela própria Barbra Streisand), Savannah estava em meio ao processo de tratamento através do qual chegariam ao âmago e às razões de suas instabilidades emocionais. Durante o período em que ficará na casa da irmã, aguardando a melhora de sua condição, Tom poderá assim relatar, nas sessões com Suzan, como foi a traumática infância dela (e, por conseqüência, a dele também) na Carolina do Sul.
Nesse ponto, “O Príncipe das Marés” engata um ritmo de tom quase bergmaniano, quando os relatos de Tom –na voz grave e hipnótica de Nolte –revelam as complicadas circunstâncias de sua família: Os dois eram os filhos mais novos, dentre os três, de um casal, Henry (Brad Sullivan), um pescador bronco, alcoólatra e rude, e Lila (Kate Nelligan, indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante), uma dona de casa inepta e fútil que, apesar da condição precária e periclitante de seu lar, almejava uma vida melhor, nem que fosse longe de seus filhos e seu marido.
A narrativa de Streisand, numa condução serena que ludibria o expectador, vai descortinando assim uma trama de ressentimentos poderosos, frustrações e rancores atrozes, culminando já próximo do final em uma seqüência bastante indicativa da firmeza e da coragem em abraçar um projeto de tão contundente dramaturgia.
Existem duas facetas em “O Príncipe das Marés”, e essa responde por todas as razões pelas quais ele é lembrado como um grande filme. Mas, há um outro lado...
Paralelamente, enquanto vamos tomando conhecimento da terrível história de vida de Tom e de seus irmãos, ele e Suzan, ao longo da inevitável aproximação ocasionada pelas sessões onde ele substitui a irmã, vão construindo uma espécie de vínculo propiciado pelo fato do casamento dele estar em frangalhos, e o dela –com um renomado violinista vivido pelo ator holandês Jerome Krabbé, de vários trabalhos da fase holandesa de Paul Verhoeven –não se encontrar em situação muito melhor. Resultado: Tom e Suzan têm um caso. E o filme acaba assim infectado com todos os maneirismos banais de um romance genérico (com direito à beijo apaixonado diante da lareira e tudo) onde a diretora Streisand pode explorar à vontade sua predisposição em enaltecer os atributos artísticos da atriz Streisand!
A diretora, pelo menos, consegue chegar a um final digno, coerente e poderoso deixando de lado qualquer concessão ao romantismo e tornando “O Príncipe das Marés” uma obra dotada da insuspeita capacidade de crescer –e muito –na memória.
A despeito de seus méritos psicanalíticos (os quais o roteiro escrito por Stephen Goldblatt, Pat Conroy, Becky Johnston e Ruth Morley de fato tem), o filme se sustenta pela brilhante contundência de seu relato familiar e pela inquestionável excelência de todo o seu elenco em contraponto aos seus eventuais lapsos de drama romântico.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Essa Pequena É Uma Parada

Engana-se quem pensa que as comédias insanas foram uma contribuição dos anos 1980 ao gênero: Antes das gags visuais de Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker, já se tentava fazer uma transposição da mesma linguagem aloprada dos desenhos animados de Chuck Jones (em geral, protagonizados pelo coelho Pernalonga) para o cinema live-action.
Trata-se deste “Essa Pequena É Uma Parada”, cujo título original, “What’s Up, Doc!”, já faz referência a um bordão costumeiro do Pernalonga, adotado aqui pela mocinha tresloucada interpretada por Barbra Streinsand.
É uma trama graciosamente rocambolesca, confusa até, a partir de um determinado ponto, como ocasionalmente parece ser do agrado do diretor Peter Bogdanovich (que entregou, ao longo de sua irregular carreira, algumas comédias ligeiramente malucas).
Ele parte de um qüiproquó bastante comum nas comédias de pastelão –a maleta trocada –para então bombardear o filme com uma profusão de cenas cômicas de natureza incomum, ora metalingüísticas, ora cartunescas.
O resultado quase flerta com o bizarro.
Acompanhamos assim um jovem e estabanado estudioso de rochas (Ryan O’ Neal), e sua noiva neurótica hospedados num mesmo hotel (aliás, num mesmo andar de um hotel!), de um monte de gente encrenqueira: Dois desengonçados agentes secretos a fim de roubar documentos confidenciais um do outro; uma senhora, dona de uma maleta de jóias preciosas que é de muito interesse do gerente do hotel e de seu cúmplice; e para finalizar, uma mocinha com uns parafusos à solta (Streinsand), que providencia uma série de confusões aonde quer que vá.
Para complicar tudo, todos os personagens portam maletas absolutamente idênticas, e todas contêm algo de valor para seus portadores (e, claro, todas serão eventualmente trocadas!).
Embora fosse um dos grandes astros do período, Ryan O’ Neal era um ator limitado, não fiquei satisfeito com sua atuação em nenhum de seus trabalhos que eu vi. Foram eles: “Barry Lyndon”, de Kubrick, “Caçada de Morte, de Walter Hill, e “Love Story-Uma História de Amor”, além deste daqui (ainda preciso conferir “Lua de Papel”, sua outra colaboração com Bogdanovich). Aqui isso não é diferente: Durante boa parte do filme ele passa um desconforto no papel do abestalhado Howard, que estuda rochas. Suas tentativas de fazer comédias só se sucedem bem quando ele se resigna no papel do cara que não compreende o quê se passa ao seu redor.

Já, Barbra Streinsand, por sua vez, é um caso complicado. Ela nunca foi muito bonita, mas até consegue cativar com seu personagem (embora seja perfeitamente possível pensar em diversas atrizes da época que ficariam mais legais que ela), e ajuda muito o fato de que este filme ainda não é um daqueles onde seu estrelato exerceu um peso opressor sobre a produção.