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quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Adivinhe Quem Vem Para Jantar

Por volta de 1967, o mundo experimentava grandes mudanças comportamentais, e o diretor Stanley Kramer, sempre adepto de uma pequena transgressão, soube trabalhar, na reflexão embutida neste “Guess Who’s Coming To Dinner” alguns dos tópicos que se faziam socialmente urgentes naquele período, como o racismo e o movimento dos direitos civis.
Curioso notar o quanto a premissa básica deste filme tem em comum com o brilhante (e recente) “Corra!”, de Jordan Peele –prova de que o tema que ocupa seu cerne, e o excelente filme que dele resulta, continuam extremamente relevantes e atuais.
Os jovens John Prentice (Sidney Poitier) e Joanna Drayton (Katharine Houghton) voltam do Hawaí para cidade-natal dela, São Francisco, completamente apaixonados –e tão radiante é seu amor que eles já alimentam intenções precoces de se casar.
Há, no entanto, um problema para aqueles contundentes anos 1960 de então: John é negro, e Joanna é branca. O que explica de pronto as reações pasmadas deste ou daquele figurante que já nesse prólogo cruzam seu caminho (como o motorista de táxi que lhes dá carona).
A grande complicação do casal está no âmbito familiar: Nem Joanna contou para seus pais a etnia de John, nem John revelou a seus pais que a moça com quem casará é branca.
Deveras, é esse processo perplexo de revelação o eixo principal do filme e sua razão, por assim dizer, de graça –a reação dos pais de Joanna à novidade espelha assim a reação de toda a sociedade a que pertencem (e por que não da plateia que assitiu o filme nos cinemas), seja na sua honestidade, seja no seu cinismo: Christina (a grande Katharine Hepburn), a mãe, inicialmente reage com espanto, depois resignação e, por fim, com solidariedade irrestrita ao jovem casal.
Todavia, Matt (Spencer Tracy, magnífico), o pai, tem objeções que ele vê como fatores realistas a serem levados em conta –e, numa demonstração talvez de respeito e de sua compreensão da contravenção existencial que sua união representa, John deposita na decisão de Matt o futuro de seu matrimônio com Joanna: Se até o jantar daquela mesma noite (que se complica ainda mais com a inclusão dos pais de John como convidados), Matt conceder sua aprovação, eles se casarão; se não, John respeitará sua vontade, mesmo que isso magoe Joanna e à ele próprio.
O diretor Kramer demarca sua narrativa numa circunstância teatral quebrada apenas em uma ou outra ocasião corriqueira (como quando Matt e Christina saem para tomar um sorvete, ou quando John e Joanna vão buscar os pais dele no aeroporto) para, em seus momentos mais intensos, concentrar-se na interação reflexiva e moral de seus personagens.
Embora lembrado na crônica cinematográfica como uma grande comédia, os risos que o filme suscita são, quando muito nervosos: É por vezes muito sério o tema trabalhado para que se faça graça demais –em contrapartida, o diretor sabe frisar pormenores bastante delicados e significativos em sua observação do preconceito, como a inesperada discriminação institucionalizada da própria empregada doméstica dos Drayton (que também é negra!) para com o novo namorado da filha deles; na concepção dela (certamente ignorante da inferioridade que isso lhe impõe) os negros devem saber o seu lugar, e por isso ela trata o gentil John com hostilidade.
Ao longo da noite em que aquelas duas famílias deverão colocar suas considerações à limpo e à luz das inevitáveis mudanças sociais, a obra de Stanley Kramer revela, em sua simplicidade poderosa, uma abrangência fora do comum para questões pertinentes que precisavam adquirir expressão naqueles tempos –e que ainda precisam.
O cinema é, pois, um meio de superar as barreiras que nos afastam, e estabelecer meios salutares para compreendermos uns aos outros. Neste grande e necessário filme, Stanley Kramer disserta sobre isso ao deslumbrar o expectador com uma trama urgida e roteirizada com perfeição louvável e encenada por um elenco nunca menos do que majestoso, onde certamente se destacam as presenças luminosas e emocionantes de Spencer Tracy e Katharine Hepburn.

sábado, 27 de abril de 2019

Os Vencedores do Oscar 1934

Embora seja um dos recordistas em números de Oscar de Melhor Diretor conquistado –ele perde apenas para John Ford, com um Oscar a mais –Frank Capra não teve uma experiência muito boa em sua primeira indicação (por “Dama Por Um Dia”), na cerimônia de 1934: Tendo sido anunciado os três indicados (que eram, além dele, Frank Loyd, por “Cavalgada”, e George Cukor, por “Quatro Irmãs”), Capra ouviu o apresentador Will Rogers afirmar “É o meu amigo, Frank!” quando leu o nome do vencedor no envelope.
Capra já havia levantado e chegava às escadarias do palco quando ele avisou que o ganhador era Frank Loyd, por “Cavalgada” (!), que na ocasião também arrebatou o prêmio de Melhor Filme.
Por “Os Amores de Henrique VIII”, o grande Charles Laughton levou o Oscar de Melhor Ator, enquanto que, na categoria de Melhor Atriz a disputa foi acirradíssima entre Diana Wynard, por “Cavalgada” (até hoje muitos críticos afirmam ser ela a real merecedora do prêmio), e Katherine Hepburn, por “Manhã de Glória” –culminando da vitória dessa última.
Nesse ano foi instituída a categoria (descartada anos depois) de Melhor Diretor Assistente que neste ano não contemplou um filme específico, mas premiou todo o conjunto de indicados.

MELHOR FILME
"Cavalgada"

MELHOR DIREÇÃO
"Cavalgada", Frank Loyd

MELHOR ATRIZ
Katharine Hepburn, "Manhã de Glória"

MELHOR ATOR
Charles Laughton, "Os Amores de Henrique VIII"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Quatro Irmãs"

MELHOR HISTÓRIA ORIGINAL
"A Única Solução"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Adeus às Armas"

MELHOR DECORAÇÃO DE INTERIORES
"Cavalgada"

MELHOR SOM
"Adeus às Armas"

MELHOR DIRETOR ASSISTENTE
Charles Barton, Scott Beal, Dewey Starkey, Charles Dorian, Fred Fox, William Tummel, Gordon Holligshead

sábado, 18 de agosto de 2018

Os Vencedores do Oscar 1968


O período transitório de ferozes transformações sócio-políticas dos anos 1960 chegou à Academia de Artes Cinematográficas por volta do final da década.
Um reconhecimento desse empenho e do papel cada vez mais significativo do cinema em refletir a realidade de sua época –mais até do que apresentar entretenimento, como outrora –foi a premiação, como Melhor Filme, do urgente “No Calor da Noite” que tinha no racismo o seu tema explosivo. De lá saiu também o ganhador de Melhor Ator: Rod Steiger.
Katharine Hepburn venceu o prêmio de Melhor Atriz por um filme gracioso onde repetia a já crepuscular parceria com Spencer Tracy –e cujo tema, desta vez contextualizado em comédia, era também o racismo.
Restou a “Bonnie & Clyde-Uma Rajada de Balas”, um dos grandes filmes da noite –quiçá, do cinema! –apenas os prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante, para Estelle Parsons e de Fotografia; enquanto George Kennedy levou o de Melhor Ator Coadjuvante pelo hoje não muito lembrado “Rebeldia Indomável”.
A cerimônia também refletiu, em alguns de seus premiados, as mudanças sexuais da época; em “A Primeira Noite de Um Homem” (Melhor Diretor) e “Trens Estreitamente Vigiados” (Melhor Filme Estrangeiro).

MELHOR FILME
"No Calor da Noite"

MELHOR DIREÇÃO
"A Primeira Noite de Um Homem", Mike Nichols

MELHOR ATRIZ
Katharine Hepburn, "Adivinhe Quem Vem Para Jantar"

MELHOR ATOR
Rod Steiger, "No Calor da Noite"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Estelle Parsons, "Bonnie & Clyde-Uma Rajada de Balas"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
George Kennedy, "Rebeldia Indomável"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Bonnie & Clyde-Uma Rajada de Balas"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Trens Estreitamente Vigiados" (Tchecoslováquia)

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"O Fabuloso Doutor Dolittle"

MELHORES EFEITOS SONOROS
"Os Doze Condenados"

MELHOR FIGURINO
"Camelot"

MELHOR SOM
"No Calor da Noite"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Camelot"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
“Positivamente Millie"

MELHOR TRILHA SONORA ADAPTADA
"Camelot"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Talk To The Animals", de "O Fabuloso Doutor Dolittle"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Adivinhe Quem Vem Para Jantar"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"No Calor da Noite"

MELHOR MONTAGEM
"No Calor da Noite"

sábado, 11 de agosto de 2018

Os Vencedores do Oscar 1969


No ano de 1969 não apenas foi premiado um filme musical como também britânico, o luxuoso “Oliver!” –que transpõe para o gênero musical a obra literária de Charles Dickens, adaptada em 2002, também por Roman Polanski –isso num ano em que tínhamos entre os indicados nas categorias técnicas uma das maiores obras de cinema de todos os tempos, “2001-Uma Odisséia No Espaço”, de Kubrick, que levou um módico prêmio de Efeitos Especiais.
Cliff Robertson (o tio Ben na versão de Sam Raimi para o “Homem-Aranha”) ganhou o prêmio de Melhor Ator vivendo com propriedade um desajustado mental na ficção científica “Os Dois Mundos de Charly”, tirando o Oscar das mãos do magnífico Ron Moody, de “Oliver!”.
Não havia como recusar o Oscar de Atriz Coadjuvante para Ruth Gordon, por “O Bebê de Rosemary” –até porque esta terminou sendo a única honraria que a obra-prima de Polanski recebeu –e, embora eu considere o trabalho de Gene Wilder em “Primavera Para Hitler” muito melhor, quem levou o de Ator Coadjuvante foi o hoje desconhecido Jack Albertson, por “A História de Três Estranhos”.
Todavia, o grande acontecimento da cerimônia de 1969 foi o do empate histórico entre suas duas atrizes principais: Tanto a grande Katharine Hepburn, (por “O Leão No Inverno”), como Barbra Streisand (por “Funny Girl”) receberam a mesma quantia de votos e acabaram levando ambas o prêmio de Melhor Atriz!

MELHOR FILME
"Oliver!"

MELHOR DIREÇÃO
"Oliver!", Carol Reed

MELHOR ATRIZ
Katharine Hepburn, "O Leão No Inverno" e Barbra Streisand, "Funny Girl"

MELHOR ATOR
Cliff Robertson, "Os Dois Mundos de Charly"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Ruth Gordon, "O Bebê de Rosemary"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Jack Albertson, "A História de Três Estranhos"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Romeu e Julieta"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Guerra e Paz" (União Soviética)

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"2001-Uma Odisséia No Espaço"

MELHOR FIGURINO
"Romeu e Julieta"

MELHOR SOM
"Oliver!"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Oliver!"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
“O Leão No Inverno"

MELHOR TRILHA SONORA ADAPTADA
"Oliver!"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"The Windmills Of Your Mind", de "Crown-O Magnífico"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Primavera Para Hitler"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"O Leão No Inverno"

MELHOR MONTAGEM

sábado, 5 de maio de 2018

Os Vencedores do Oscar 1982

Está certo que 1982 –a se julgar pelos indicados a Melhor Filme –foi um ano atípico para o cinema norte-americano em geral, e para a Academia de Artes Cinematográficas em particular (que normalmente se mostra hesitante em abraçar o cinema comercial), mas ninguém pode negar a surpresa de ver um filme pequeno, pouco alardeado e sem favoritismo algum como “Carruagens de Fogo” levar o prêmio de Melhor Filme quando haviam clássicos instantâneos na competição como o sensacional “Os Caçadoresda Arca Perdida”, de Spielberg, ou o magistral “Atlantic City”, de Louis Malle.
A atmosfera de ‘homenagem e reconhecimento’ impregnou, pelo menos as categorias principais de intérpretes conferindo o prêmio de Melhor Ator e Melhor Atriz para os veteraníssimos Henry Fonda (que recebeu a estatueta no hospital, pelas mãos da filha, Jane) e Katharine Hepburn, ambos pelo mesmo filme, o outonal “Num Lago Dourado”.
Maureen Stapleton levou o prêmio de Atriz Coadjuvante pelo amplamente reconhecido “Reds”, de Warren Beatty (que, pela empreitada levou o Oscar de Diretor), e o grande John Gielgud conquistou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por uma comédia datada (e hoje quase desconhecida) protagonizada por Dudley Moore, o mediano “Arthur-O Milionário Sedutor”.
O ano de 1982 teve, ao menos, uma inovação: Foi nesse ano instituída a categoria de Melhor Maquiagem, após décadas de apelos vindos dos profissionais da área. O primeiro filme agraciado com a estatueta foi merecidamente “Um Lobisomem Americano em Londres”.

MELHOR FILME
"Carruagens de Fogo"

MELHOR DIREÇÃO
"Reds", Warren Beatty

MELHOR ATRIZ
Katharine Hepburn, "Num Lago Dourado"

MELHOR ATOR
Henry Fonda, "Num Lago Dourado"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Maureen Stapleton, "Reds"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
John Gielgud, "Arthur-O Milionário Sedutor"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Reds"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Mephisto" (Hungria)

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Os Caçadores da Arca Perdida"

MELHOR MAQUIAGEM
"Um Lobisomem Americano em Londres"

MELHOR FIGURINO
"Carruagens de Fogo"

MELHOR SOM
"Os Caçadores da Arca Perdida"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Os Caçadores da Arca Perdida"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
“Carruagens de Fogo"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Best That You Can Do", de "Arthur-O Milionário Sedutor"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Carruagens de Fogo"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Num Lago Dourado"

MELHOR MONTAGEM
"Os Caçadores da Arca Perdida"

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Uma Aventura Na África

Para o maleável Charlie Allnut, beberrão dono do pequeno barco The African Queen, a vida em uma colônia alemã na África, durante a Primeira Guerra Mundial é um recurso válido, justificável e cômodo para afastá-lo dos problemas indesejáveis. Longe da dualidade moral melindrosa e cínica do Ricky Blame, de “Casablanca”, e certamente de sua estampa sofisticada e refinada, Charlie é um tipo novo de anti-herói para o currículo de Humphrey Borgat: Um rabugento que não apenas procura demonstrar sua indiferença em relação ao altruísmo e à compaixão, mas que também deixa transparecer essa postura na aparência desleixada que se permite cultivar.
Charlie, porém, tem lá seus lampejos de bondade: Ele leva provisões às vilas ribeirinhas cuja inacessibilidade ocasiona os moradores de alguma carência.
Será numa dessas vilas em que ele se encontrará com Rose Sayer, uma missionária solteirona britânica em ajuda ao irmão, um pastor presbiteriano; em sua verve discursiva, petulante, espalhafatosa e encantadora Rose é uma das muitas personagens notáveis para as quais Katherine Hepburn emprestou sua maestria.
E reunir dois monstros sagrados como Bogart e Hepburn em um só filme, tenha ele a premissa que tiver, já é, por si, um convite ao deleite irrevogável do expectador. Todavia, o diretor John Huston (que sempre apreciou o potencial camaleônico de Bogart em personagens sempre distintos, vide seus “O Falcão Maltês” e “O Tesouro de Sierra Madre”) faz muito mais: Quando por fim a guerra chega até os confins onde estão, culminando com a morte do irmão de Rose, ela convence Charlie a descer o rio, enfrentando corredeiras e soldados inimigos, a fim de bombardear um navio de guerra alemão.
Em seu percurso, estes notáveis e irresistíveis personagens encontrarão perigos, partilharão uma espécie inédita (para eles próprios) de intimidade, descobrirão entre si uma sintonia e uma cumplicidade ímpares e, ao fim terão protagonizado um dos melhores filmes de aventura do cinema.