Em sua pressuposta originalidade e em sua forçosa diferenciação, “A Cela” quer ser vários filmes, todos eles de uma certa natureza cult, todavia, do começo ao fim e sem lá muita esperança, o roteiro de Mark Protosevich (de “Doutor Estranho” e “Eu Sou A Lenda”) luta contra o fato inerente e incontornável de que, no final das contas, o filme dirigido por Tarsem Singh (de “Imortais” e “Espelho Espelho Meu”) é uma produção hollywoodiana infectada por cada um dos reflexos condicionados de uma obra presunçosa e genérica. E a despeito dos esforços para agregar elementos transgressores e experimentais aqui e ali (todos com timidez flagrante) são os clichês que prevalecem.
O
primeiro filme que “A Cela” quer ser é “Seven-Os Sete Crimes Capitais”,
e isso se vê num sem-fim de tentativas de imitar e aludir às muitas das cenas
da obra-prima de David Fincher; não à toa, “A Cela”, num primeiro momento é
sobre a caçada à um psicopata. Tal psicopata, construído (como os demais
personagens) sem um aprofundamento mais contundente que lhe dê respaldo ou
maiores ressonâncias junto à trama, é interpretado por Vincent D’Onofrio, ótimo
ator que, aqui, faz curiosamente o oposto do que fez em “Nascido Para Matar”,
de Stanley Kubrick. Explica-se: Em “Nascido Para Matar”, D’Onofrio era o único
ator a desempenhar um personagem de fato, o único a possuir todo um arco de
transformação e mudança (no qual seu personagem, ingênuo e desajeitado, tinha
sua mente espatifada numa insanidade homicida) enquanto todos os outros
assumiam arquétipos básicos para o enredo. Em “A Cela” é nada mais que um
arquétipo o personagem que D’Onofrio vivencia, um psicopata que mata mulheres,
em circunstâncias específicas (no caso, ele as sequestra e, após deixá-las para
morrer aos poucos num tanque de água, desova seus corpos pelas estradas) e que
tem tirado o sono dos agentes do FBI, mais especialmente o Ag. Peter Novak
(Vince Vaughn) obcecado em encontrar a última jovem dada como desaparecida,
Julia (Tara Subkoff, de “Foxcatcher”), que Novak tem certeza ser uma de suas
mais recentes vítimas.
Numa manobra (que, de novo, lembra
sucessivamente “Seven” em seus desdobramentos), Novak e seu parceiro do FBI,
Gordon Ramsey (Jake Webber), conseguem capturar o psicopata, de nome Carl
Stargher, contudo, ele sucumbe a uma infecção viral causada pela esquizofrenia
e entra em coma.
Sem qualquer pista do paradeiro de Julia (que,
segundo o modus operandi de Starguer,
deverá morrer nas próximas 40 horas quando o tanque de água se encher
automaticamente), só resta aos agentes um recurso quase radical: Um
procedimento experimental onde uma psicóloga, a Dra. Catherine Deane (Jennifer
Lopez, jovem, belíssima e terrível atriz!), consegue invadir através de
realidade virtual a mente de um paciente comatoso. O problema é que a Dra.
Deane é uma psicóloga infantil, e seus pacientes consistem basicamente de
crianças, enquanto Stargher é um psicopata!
Ainda assim, convencida pela urgência em salvar
a vida da desaparecida, a Dra. Deane aceita o pedido do Ag. Novak e usa da
tecnologia para adentrar a mente repleta de distorções e perversidades de
Stargher.
Muito do resultado final de “A Cela” não seria
o mesmo sem os esforços do designer de produção Tom Foden (de “A Vila”), ou os
figurinos de Eiko Ishioka (de “Drácula de Bram Stoker”) e a maquiagem de
Michele Burke (categoria na qual o filme foi indicado ao Oscar 2001, perdendo
para “O Grinch”), embora o filme de Tarsem Singh se esforce na busca por um
radicalismo estético e uma contundência embutida na própria proposta de
adentrar uma mente psicótica, a obra só não afunda completamente no risível de
suas limitações narrativas graças ao aparato visual que manifesta imagens
bastante interessantes da psiquê deturpada, convertida em cenários e
ambientações de pesadelo com forte referência nos quadros de artistas como
Damien Hirst, Odd Nerdrum e H.R. Giger.

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