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sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Amsterdam


 Escrito e dirigido pelo mesmo David O’Russell que surpreendeu público e crítica com “O Lado Bom da Vida” e “Trapaça”, “Amsterdam” passou despercebido quando foi lançado em 2022. A intriga verborrágica, mirabolante e intrincada que ele descortina (ainda que ampara em fatos reais, a chamada Conspiração Empresarial de 1933) não caiu no gosto dos expectadores, e a condução de O’Russell –como sempre, inclinada ao fascínio por tipos disfuncionais e por uma sistemática estranheza –não ajudou a tornar mais apetecível uma obra que, em sua indefinição, parece não pertencer a gênero nenhum: Durante suas mais de duas horas de duração, “Amsterdam” reúne elementos de film noir, suspense conspiratório, drama, comédia de humor negro e thriller político, tudo numa roupagem desigual que remete à década de 1930.

O enredo cheio de melindres gira em torno de três grandes amigos: Os soldados Burt Berendsen (Christian Bale), Harold Woodman (John David Washington, de “Resistência”) e a enfermeira Valerie (Margot Robbie). Em meados de 1918, Burt e Woodman se conheceram no front da Primeira Guerra Mundial e logo foram despachados para o hospital em que Valerie servia. A amizade foi instantânea –bem como o romance entre Harold e Valerie –e os três logo fugiram para Amsterdam a fim de viver um sonho até o limite do tolerável.

Entretanto, Burt, casado com a abastada Beatrice Vandenheuvel (Andrea Riseborough), precisou voltar para a América, trazendo Harold à reboque. Quinze anos depois, os dois trabalham numa clínica médica de quinta categoria para soldados veteranos em Nova York –Burt como médico-cirurgião, Harold como advogado –quando são procurados por Elizabeth Meekins (a cantora Taylor Swift), certa de que seu pai, o Senador Meekins, não morreu de causas naturais ao voltar de uma viagem à Europa.

Durante a autópsia, perpetrada por Burt e pela enfermeira Irma St. Clair (Zoe Saldaña), eles descobrem que o Senador foi envenenado e, quando dão por si, são tragados para dentro de um furacão: Na sequência, Elizabeth é assassinada, a culpa recai sobre Burt e Harold que logo se tornam os principais suspeitos aos olhos da polícia –personificada nos paspalhos personagens de Matthias Schoenaerts e Alessandro Nivola. Ao fugirem, Burt e Harold dão início à sua própria investigação a fim de limpar seus nomes, quando reencontram novamente Valerie, e vão descobrindo uma trilha de pistas que irá levá-los até um influente político de Washington (Robert De Niro) e, por fim, à uma terrível verdade acerca de um mal inominável que começa a despontar em certos governos totalitários da Europa, como a Itália e a Alemanha, E acredite, essa é só a ponta do iceberg!

Uma sinopse descrita em características normais não dá conta das idas e vindas, da deliberada excentricidade e da atmosfera de incomum ironia que persiste durante todo o tempo no filme de O’Russell, e embora esse elemento seja certamente grande parte de seu charme e diferenciação, ele é também seu calcanhar de Aquiles –o diretor O’Russell sempre foi muito afeito à esquisitices pontuais em suas narrativas. Em alguns casos, esse gosto curioso e apurado resultou em obras que foram capazes de contornar o estranhamento para surpreender ou até emocionar seu público; em outros –sobretudo seus trabalhos de início de carreira como a bizarra comédia romântica “A Mão do Desejo”, o inconformista “Flying With Disaster” e o filme sobre e para loucos (!) “Huckabees” –o produto final acabava sendo tão distante das convenções que simplesmente não se revelava palatável ao público. É esse o caso, aqui, de “Amsterdam”.

Não é que não seja um bom trabalho (ele é), não é que seu elenco não esteja bem (Christian Bale, pra variar, se mostra excelente, e os nomes estelares da produção só mostram o quanto a reputação de O’Russell é positiva), não é que o roteiro seja ruim (muito pelo contrário, ele reúne com certa maestria elementos díspares que poderiam, com menos talento, jamais surgirem tão bem ordenados numa narrativa) e nem que a direção de O’Russell deixe a desejar (seu manejo das inúmeras facetas de gêneros que se presta a abordar é extremamente elegante e inspirado,e nunca soa forçado ou cansativo), mas o fato é que “Amsterdam”, na sua originalidade tão contundente, provavelmente, está condenado a ser um cult-movie, uma obra incompreendida que, nos anos ou décadas por vir, será redescoberta por cinéfilos e admiradores que o enaltecerão, observando nele as qualidades que não foram notadas na sua época.

domingo, 1 de outubro de 2023

Trem-Bala


 Ao lado de Chad Stahelski, o diretor David Leitch conduziu uma espécie de revolução no cinema hollywoodiano de ação –ancorados na formidável mitologia de “John Wick”, as novas produções não mais se satisfaziam na pancadaria descerebrada que dominou o gênero a partir dos anos 1980. Agora, os filmes de ação têm um entendimento singular de cinema (não somente com notáveis referências que vão desde obras obscuras do cinema de Hong-Kong até menções apaixonadas a trabalhos cultuados do cinema mudo, mas também exercícios de virtuosismo técnico que, não raro, incluem planos-sequências formidáveis e desafiadores construídos num único take) e uma exuberante contribuição da habilidade artística, instintiva e corpórea de seus dublês (ofício primeiro de Stahelski), isso tudo, sem esquecer quesitos antes negligenciados como interpretação (tais filmes ostentam sempre talentosos atores como não deixa mentir o ótimo Keanu Reeves), roteiro (seus enredos mergulham em meandros que apresentam profundidade e dramaturgia) e direção (o conhecimento narrativo pulsa, em igual entusiasmo, com o conhecimento da ação) –em suma, agora, filmes de ação são cinema de verdade.

A diferença entre os dois grandes responsáveis por essa pequena revolução temática, Stahelski e Leitch, é que, enquanto Stahelski aprecia a estrutura interna da movimentação dos corpos em conflito, e disso faz toda uma coreografia com propósito e sentimento, Leitch é apaixonado pelos elementos que impulsionam, dentro da trama, esses mesmos corpos em conflito. Dessa convicção veio a adaptação de quadrinhos nunca menos que sensacional “Atômica” e, agora, este “Trem-Bala”, cuja trama, inspirada, por sua vez, no romance de Kotarô Isaka, caminha pelos sinuosos desdobramentos da comédia, adentra os intrincados flashbacks de um neo-noir moderno e se ramifica em diversos personagens, assumindo pontos de vista, interrompendo o fluxo narrativo para regressar no tempo e narrar histórias paralelas que, às vezes, vão complementar a história principal de formas inesperadas. Em suma: Enquanto promove ação ininterrupta e pancadaria refinada num nível que Chuck Norris e Jean-Claude Van Damme jamais poderiam sonhar em seus áureos tempos, David Leitch também se permite brincar com a narrativa de forma elaborada e sofisticada.

A premissa que urge “Trem-Bala” é complexa –e vai se complicando e se fragmentando ainda mais a medida que o filme avança –embora desenvolvida dentro de uma circunstância simples: O filme muito pouco sai de dentro da ambientação do trem-bala do título, um transporte high-tech de alta-velocidade que singra todo o Japão.

É dentro dele que o assassino Ladybug (Brad Pitt, divertidíssimo) irá, aos poucos, desvendar a missão que lhe foi confiada –e que é, em si, uma baita enrascada! Sob instruções via celular de sua contratante Maria (uma ponta luxuosa de Sandra Bullock, devolvendo o favor da participação especial de Pitt em “Cidade Perdida”), Ladybug deve roubar uma maleta contendo dinheiro de dois outros passageiros do trem, os gêmeos Lemon e Tangerine (Brian Tyree Henry e Aaron Taylor Johnson, que de gêmeos não têm nada). O problema é que os gêmeos também têm seus próprios contratempos; a missão deles é levar o dinheiro (contido na maleta) e uma espécie de refém (Logan Lerman), um viciado que vem a ser filho do temido chefão do crime, White Death (Michael Shannon). Nem bem o trem sai da estação, a maleta é roubada (por Ladybug) e o refém é morto (por alguém cuja identidade ainda é um mistério) colocando Lemon e Tangerine com um grande abacaxi nas mãos. Eles têm que encontrar um meio de livrarem-se dessa confusão antes do trem-bala chegar à última estação –quando não terão escapatória (nem eles, nem Ladybug) das mãos cruéis de White Death.

Há, em meio ao frenesi dos demais passageiros do trem, outros personagens que acrescentam mais densidade e intriga a essa sucessão de tumultos: Kimura (Andrew Koji), assassino de aluguel disposto a vingar um acidente sofrido pelo filho cujo papel, dentro do trem, termina sendo o de marionete nas mãos da manipuladora Prince (Joey King, na personagem mais enervante do filme), uma patricinha dissimulada e aparentemente inocente que planeja a morte que praticamente todos os personagens (!); a Vespa (Zazie Beetz, de “Deadpool 2” e “Coringa”) uma assassina sorrateira especializada em envenenamento; Wolf (o rapper Bad Bunny), um assassino mexicano à bordo do trem, também ele, em busca de vingança; e uma espécime rara de cobra (!?), surrupiada do zoológico local, dona de um veneno capaz de levar a vítma de sua mordida à morte por hemorragia em 30 segundos (!), e que por conta desse mero detalhe é essencial à história.

Cada um desses personagens é norteado por seu próprio propósito e sua própria trama, e é dessa forma que suas trajetórias se cruzam (ou melhor, se colidem!) à bordo do trem-bala, quando seus objetivos e motivações entram em conflito à medida que o trem avança, e sua trama, pontuada de alianças refeitas e desfeitas, de mortes e perseguições, revelações e segredos de última hora, vai se afunilando até a apoteótica estação final, quando diretor David Leitch terá exibido todo o seu espetacular leque de recursos para brindar o público com um dos mais inventivos, divertidos e insanos filmes a mesclar comédia e ação em níveis impraticáveis em muito tempo.

sábado, 22 de julho de 2023

Flash


 Falar sobre filmes de superheróis, hoje, é evocar todo um contexto no qual estão inseridos como o universo provavelmente compartilhado que eles habitam do lado de lá das telas, e também, a situação, periclitante ou não, que a produção vivencia do lado de cá. Em “Flash” há muito o que se falar nos dois casos, e nenhum é uma história muito curta: Primeiramente, temos o herói velocista vivido por Ezra Miller (de quem este é o primeiro filme solo), finalmente alçado ao status de protagonista numa trama em que almeja usar de sua supervelocidade para voltar no tempo e impedir o assassinato da sua mãe (a maravilhosa Maribel Verdú, de “E Sua Mãe Também”), crime do qual seu inocente pai (Ron Livingston, de “Band Of Brothers” e “Como Enlouquecer Seu Chefe”, substituindo Billy Crudup dos outros filmes) é acusado.

No entanto, como bem sabem todos os expectadores de “De Volta Para O Futuro”, mexer com o tempo acarreta pesadas repercussões no presente, e é aí que o filme dirigido com notável habilidade por Andy Muschetti começa a se complicar um pouco: “Flash” faz parte do Universo DC nos cinemas, perpetrado por Zack Snyder em seus três primeiros filmes: Esboçado em “Homem de Aço”, ampliado com algum desleixo em “Batman Vs Superman” e bastante comprometido com as turbulências ocasionadas na produção de “Liga da Justiça” –a Liga da Justiça, inclusive, da qual o Flash faz parte, comparece, na bombástica cena de abertura –logo, viajar no tempo, no contexto da sua narrativa, significa revisitar eventos ocorridos nos filmes anteriores, neste caso específico, a chegada do General Zod (Michael Shannon) à Terra, episódio que proporcionou a revelação do Superman (Henry Cavill, que aqui nem aparece) ao mundo, como visto em “Homem de Aço”. Mas, a intervenção de Flash, ou melhor, Barry Allen, no continuum espaço-tempo provocou uma espécie de efeito-borboleta: A maioria dos membros da Liga da Justiça não parece existir nesse mundo, incluindo Superman, assim, aliado a uma versão sua daquela realidade (o ator Ezra Miller faz um incrível trabalho desempenhando com credibilidade duas versões distintas do mesmo personagem), Barry vai à Mansão Wayne tentar encontrar o Batman e, quem ele encontra, ao invés do personagem vivido por Ben Affleck, é o Bruce Wayne interpretado por Michael Keaton, o Batman de 1989, do filme que praticamente deu o estopim para as tentativas de adaptações de histórias em quadrinhos dos últimos trinta e quatro anos!

Ao tentarem juntos descobrir o paradeiro do Superman, os dois Flashs e o veterano Batman descobrem que, nesta nova realidade, quem terminou vindo para a Terra foi sua prima, Kara Jor-El (Sasha Calle, pouco aproveitada) que se encontra, por sua vez, presa na União Soviética como objeto de estudo daqueles militares.

Não há dúvidas de que, para os fãs mais crescidos e nostálgicos, a visão de Michael Keaton retomando seu papel de Batman é um deleite e tanto –ainda mais quando este ótimo ator vale-se de cada instante de filme para roubar completamente a cena e provar que guardadas algumas proporções e distinções, ele é, sim, um dos melhores intérpretes de Batman. No entanto, há um grave problema enfrentado por “Flash”, o filme, e que se reflete na pífia bilheteria que esta superprodução amargou: A despeito de um ou outro momento genuinamente divertido (e de ser, no cômputo geral, um bom filme) “Flash” não passa a sensação de euforia e entusiasmo que se esperaria de um trabalho com essa proposta –a Marvel Studios, valendo-se de mote muito semelhante em “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa” levou plateias à vibrarem nas salas de cinema.

Em parte porque desde o primeiro momento de filme, estamos cientes de que “Flash” se passa num universo já moribundo; meses antes de seu lançamento, já sabíamos que a Warner havia contratado James Gunn para reformular todo o Universo DC, recomeçando tudo do zero com novos atores. Ou seja, “Flash”, de Andy Muschetti, representa então os estertores finais, o último suspiro de um mundo com seus minutos contados. Ter consciência disso tira toda a satisfação que, por ventura poderia existir em momentos descontraídos como os esforços a la Marty McFly de Barry Allen em refazer sua realidade como era antes (e não ajuda nada as cenas profusas de efeitos visuais serem adornadas por gráficos que parecem visivelmente mal acabados), nem nas aparições-surpresa que surgem na tela durante o clímax (e que poderiam ser o ponto alto do filme, mas não o são porque os realizadores não sabem explorar o potencial da mitologia que manejam com a mesma habilidade que a Marvel Studios) ou na cena pós-créditos, construída para ser divertida mas que, por razões óbvias, termina sendo completamente vazia. Não haverá uma continuidade em relação a qualquer coisa que se vê aqui, logo, não há qualquer peso nas consequências sugeridas no roteiro, para o bem e para o mal. E o filme de Andy Muschetti, a despeito de todas as suas boas intenções, não se sustenta sozinho para ser, no fim das contas, um projeto válido e digno, mesmo que mal-fadado.

segunda-feira, 13 de junho de 2022

8 Mile - Rua das Ilusões


 Como todo artista apaixonado pela arte que exerce, o rapper Eminem, em sua estréia cinematográfica, queria a energia das ruas a definir a vibração musical de seu filme.

Para a plena realização de seu intento, ele conseguiu para “8 Mile” o diretor Curtis Hanson, um habilidoso apreciador da natureza humana e profundo entendido dos códigos a determinar o gênero de um filme –vide seus formidáveis “Los Angeles-Cidade Proibida” e “Garotos Incríveis”.

Eminem vive (e muito bem!) o jovem Jimmy ‘Rabbit’ Smith, morador do subúrbio de Detroit, membro de um grupo de amigos que obedece todas as características dos jovens suburbanos norte-americanos: Falam em gírias, vestem-se de modo informal, extravasam constantemente sua agressividade latente e têm, na maioria das vezes, um pé já fincado na criminalidade.

Jimmy nutre certa consciência –em grande parte motivado pela condição alcoólatra da própria mãe (Kim Basinger) –mas convive com circunstâncias que insistem em marginalizá-lo.

As agruras de Jimmy se acumulam até culminarem na fabulosa cena do duelo de rappers ao final do filme, onde Eminem justifica toda a árdua provação que experimentou na arte da atuação ao longo do filme ao demonstrar, com seu talento musical irreprimível, porque este filme é todo dele –e porque sua presença, inteligência e perspicácia como músico, compartilhada certamente com o personagem que interpreta, é o que difere Jimmy da fauna medíocre e sem futuro que o rodeia.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Entre Facas e Segredos


 Após a polêmica recepção de “Star Wars-OsÚltimos Jedi” –que apesar de suas elevadas qualidades, dividiu os fãs –o roteirista e diretor Rian Johnson dedicou-se a um projeto capaz de acomodar sem estranhezas suas qualidades como realizador: Um suspense pontuado de enigmas a serem desvendados, no melhor estilo Aghata Christie.

Nele podemos, portanto, notar a grande especialidade de Johnson: Compor uma história cheia de mistérios e guinadas súbitas, onde cada elemento contribui para a manutenção de um suspense ferino, irônico e eficiente.

Uma semana depois que o escritor de best-sellers Harlan Thrombey (Christopher Plummer, sempre maravilhoso) é encontrado morto, sua jovem e dedicada enfermeira, Marta (Ana De Armas, sensacional) é chamada à mansão da família para uma nova rodada de interrogatórios. Desta vez, quem presta consultoria à polícia –já ávida por encerrar o caso dando a morte como suicídio –é o detetive particular Benoit Blanc (Daniel Craig, magnífico com um estudado sotaque do Kentuchi) que fora contratado por um misterioso cliente anônimo.

De imediato, Blanc identifica o ninho de cobras (e a coleção de suspeitos em potencial) que é a família do falecido: A indulgente filha mais velha, Linda (Jamie Lee Curtis), além de casada com o infiel Richard (Don Johnson), tem como filho o almofadinha Ramson (Chris Evans); o filho caçula, Walt (Michael Shannon), despido de qualquer talento, nada mais faz do que gerenciar de modo medíocre a fortuna produzida pelo pai; e a nora, Joni (Toni Collete), viúva do filho do meio, é uma socialite que procura extorquir dinheiro do milionário usando a faculdade da filha (Katherina Langford) como justificativa.

Na noite em que Harlan apareceu morto, todos tiveram seu tapete puxado pelo patriarca –e todos, portanto, tinham razões para matá-lo.

Contudo, o detetive Blanc identifica na humilde Marta uma peculiaridade que pode ajudá-lo em sua investigação: Por uma curiosa condição fisiológica, Marta vomita toda a vez que tenta mentir –entretanto, ainda assim, ela tem lá seus segredos à esconder!

A trama de “Entre Facas e Segredos” é um novelo que o roteiro não se furta de tornar ainda mais intrincado a medida que vai avançando sua narrativa (ou regressando, visto que muito dela se abastece de flashbacks que revitalizam algumas informações e, não raro, oferecem percepções opostas de informações previamente fornecidas); o que só denuncia o talento inquestionável de Johnson no equilíbrio de inúmeros elementos que regem o gênero, e no manejo hábil e esperto de detalhes que num momento parecem meros adereços, para no instante seguinte revelarem-se peças cruciais de suas imprevistas reviravoltas.

Um corpo inusitado no cinema norte-americano por sua inteligência e sagacidade, “Entre Facas e Segredos” faz o expectador vibrar de tempos em tempos com as guinadas magistrais de sua premissa, e com o teor incrivelmente envolvente de sua investigação, além de brindar o público com um elenco vasto, talentoso e estelar.

Um filmaço.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Amor Bandido

Terceiro filme do diretor Jeff Nichols, “Mud” é antecedido por “Separados Pelo Sangue” e “O Abrigo”. Todos são dotados de um forte senso comunitário e de uma predisposição em avaliar as características idiossincráticas e comportamentais de uma região, com ênfase nos Sul dos EUA.
Muito interessa a Nichols as criaturas tão sonhadoras quanto defeituosas geradas em determinado contexto da América –e todos os seus trabalhos até aqui dedicam seu tempo em focar nas consequências de suas escolhas e de seus objetivos.
Aqui, a câmera de Nichols acompanha Ellis (Tye Sheridan) e Neckbone (Jacob Lofland), dois garotos que passam seu tempo percorrendo as regiões desoladas dos rios que singram o Mississipi, onde moram.
Numa dessas idas e vindas, eles encontram um barco abandonado, e dentro dele, refugiando-se, acham Mud (Matthew McConaughey), um rapaz crescido também naquela região que lhes pede ajuda. Ao longo dos dias que se seguem, eles lhe levam comida e outros itens, enquanto Mud lhes conta histórias, não necessariamente verdadeiras, sobre como foi parar lá, e como de lá planeja sair junto com a mulher que é o amor de sua vida, Junniper (Reese Witherspoon, que curiosamente nunca chega a se encontrar em cena com McConaughey).
Existem homens misteriosos por perto, a tentar rastrear Mud com propósitos vingativos, assim como a polícia.
Trazido pelo rio, como qualquer outro artefato que lhe desperta maior ou menor fascínio, Mud é, aos olhos de Ellis, uma senha para o conhecimento de um mundo adulto onde se encontram elementos intrigantes –como as relações assim consumadas com o sexo oposto –e outros nem tão satisfatórios assim –o relacionamento já em frangalhos de seu pai (Ray McKinnon, de “Um Sonho Possível” e “Ford Vs Ferrari”) e sua mãe (Sarah Paulson, de “Virada No Jogo”) e o próprio histórico criminoso de Mud.
Bom diretor, Jeff Nichols mantém um excelente nível com este trabalho notável, onde as particularidades inerentes ao drama e ao suspense caminham juntas na consolidação gradual de algumas metáforas bem pontuadas em sua narrativa –o barco que Mud vai recuperando pouco a pouco com a ajuda dos meninos ou o iminente desmantelamento da casa onde a família de Ellis mora, num alegórico rito de crescimento que atravessa o filme, impregnado pela sensação de que a qualquer momento algo terrível pode acontecer.
Essa excelência garante que o emprego dos simbolismos não sobrecarregue o filme tornando “Mud” ao mesmo tempo um suspense sobre os caminhos tortuosos da vida (ganhando ares de ação policial e até mesmo faroeste em seu clímax), um drama do ponto de vista de um garoto onde os relacionamentos adultos em foco jamais encontram um ponto de equilíbrio e uma história de aprendizado e amadurecimento sobre a aceitação das desventuras inevitáveis.
É também mais um exemplo da surpreendente evolução ocorrida na carreira de Mathew McConaughey que, como o personagem-título Mud, entrega uma atuação no mínimo formidável.

sábado, 23 de maio de 2020

Cecil Bem Demente

Primeiro nome à frente das transgressões perpetradas pelo cinema americano independente nos anos 1970 e 80 (com obras trash e contraventoras como “Pink Flamingos”, de 1972, “Polyester”, de 1981 e “Hairspray-E Éramos Todos Jovens”, de 1988), o diretor John Walters se tornou ligeiramente moderado com a ascensão de realizadores de um cinema bem mais agressivos nas últimas décadas –e que, sob muitos aspectos, ele próprio ajudou a inspirar.
Lançado no ano 2000, “Cecil Bem Demente” é um trabalho que justapõe o estilo intencionalmente chocante de John Walters à uma espécie de redundância com a qual ele correu o risco de ser relacionado, moldando uma trama repleta de paralelos perceptíveis somente para aqueles que enxergarem além de sua muralha de non-sense.
Em Baltimore, a cidade-cenário de todos os filmes de Walters, uma improvável estréia de um blockbuster traz para o lugar a estrela da produção, Honey Whitlock (Melanie Griffith) que, no minimalismo de seu estereótipo, é uma celebridade toda gentil e amável com a massas, mas grosseira e rude com os indivíduos.
Aqui e ali, as câmeras de Walters vão flagrando outros personagens coadjuvantes ao redor dela, deixando bem claro que algum tipo de plano subversivo está em progresso.
Com efeito, durante seu discurso que antecipa a apresentação do filme, Honey é sequestrada num ato terrorista. Contudo, mais tarde, no cativeiro, ela descobre que seus sequestradores tem intenções inusitadas: São todos membros do elenco e da equipe liderada pelo insano diretor Cecil Bem Demente (Stephen Dorf) que, levando a expressão ‘filmagem de guerrilha’ ao pé da letra, resolve rodar seu filme –uma obra sobre a revolta armada contra o sistema dos estúdios hollywoodianos –tendo por protagonista sua estrela-refém, e com as cenas de seu roteiro executadas em locais reais.
Leia-se, o cinema (exibindo a comédia “Patch Adams”) que eles invadem e explodem é um cinema de verdade; os expectadores que eles afrontam, são pessoas que realmente estavam na plateia; os executivos de Hollywood que eles atacam durante uma conferência para uma superprodução, são produtores de estúdios de fato, representantes do cinema comercial que eles abertamente querem confrontar.
Com essa premissa contaminada por seu estilo caótico e caricato, Walters expõe os antagonismos histriônicos entre os extremos distintos do cinema –a arte e a indústria –convertendo todos os personagens no ápice da paródia a que se propõem, e encontrando nessa dinâmica tresloucada uma empatia que somente seu público específico será capaz de apreciar: Ao seu jeito, Walters vislumbra a redenção de seus intratáveis personagens, evidenciando a gradual metamorfose da própria Honey que, de refém coagida e forçada a atuar no filme de guerrilha, se torna uma adepta da ‘causa’.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Tigerland - O Caminho da Guerra

Entre o fim da década de 1990 e o começo da década de 2000, o diretor Joel Schumacher, à sombra do fracasso retumbante de “Batman & Robin”, viu-se diante de uma necessidade de se provar como realizador. A partir de diversos filmes feitos sem maiores pressões mercadológicas, uma coisa logo ficou bem clara: Quanto mais econômico era o orçamento e maior era a autonomia criativa, maior era também a qualidade de seus filmes; e quanto mais dinheiro (e pressão) envolvidos, mais risível era o trabalho de Schumacher (excluindo-se possivelmente apenas a superprodução “O Fantasma da Ópera”).
Foi o drama de guerra “Tigerland” que iniciou essa fase de projetos de baixo orçamento, aberto às experimentações estéticas. E foi também aqui que se revelou o talento do irlandês Colin Farrell, com quem Schumacher ainda faria “Por Um Fio”.
Farrell vive Roland Bozz, um recruta como tantos outros capturado na máquina política norte-americana para ser treinado pelo exército e enviado para lutar no Vietnam.
Bozz, como pode-se presumir, é um rebelde. Entretanto, sua contestação é de uma natureza muito especial: Inteligente, observador e perspicaz juíz da natureza humana, Bozz não só consegue desestabilizar a beligerância de seus superiores, como também identifica, entre seus colegas, aqueles que escondem suas razões pessoais para não ir à guerra; e consegue assim encontrar as fissuras no sistema para tirá-los do exército.
Tigerland termina sendo o nome do campo onde se dará o último estágio do treinamento dos recrutas: Um lugar que recria, com exatidão inóspita e perigosa, as condições cruéis, e não raro fatais, do próprio Vietnam.
À sua maneira antimilitarista, o filme de Schumacher presta um tributo especial à “Os Rapazes da Companhia C” na maneira com que organiza sua narrativa; excluindo, porém, a ida ao Vietnam.
No protagonismo enfatizado do carismático personagem de Colin Farrell, na atenção algo melodramática prestada aos dramas individuais de cada recruta, e nos rumos objetivos de sua trama, o diretor não esconde suas intenções pacifistas, ainda que haja um indisfarçável fetichismo pelos soldados e pelos aspectos militares, facetas que a manhosa narrativa, com estudada câmera na mão, tenta, mas não consegue ocultar.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

A Forma da Água


O diretor Guillermo Del Toro sempre afirmou que os monstros nunca o decepcionaram. Com efeito, ele dedicou toda sua curiosa filmografia em lançar sobre eles um olhar completamente distinto do que tantos outros fizeram –distinto, inclusive, de outros grandes diretores do gênero de terror.
Se “Espinha do Diabo” enxergava sofrimento e tristeza no sobrenatural, e “O Labirinto do Fauno” justapunha o mundo fantástico que cerca os monstros como uma alternativa aos desabonos da realidade –ambos, seus maiores trabalhos até então –em “A Forma da Água”, Del Toro utiliza uma apaixonada homenagem à “O Monstro da Lagoa Negra” para falar sobre as sensações da exclusão, sobre a maldade inerente à natureza humana e sobre o amor.
E na visão singular que ele dedica à tudo que é monstruoso, não poderia ser outro senão Del Toro a conceber tal história, tão incrivelmente insólita quanto universalmente tocante.
A protagonista Elisa (numa interpretação absolutamente brilhante de Sally Hawkins) é muda e trabalha como faxineira numa instalação militar em Baltimore. Seu vizinho e melhor amigo é Giles (Richard Jenkins, também ele brilhante), um artista homossexual, amargurado pela chegada da meia-idade sem que antes experimentasse a plenitude da vida.
A melhor amiga de Elisa é Zelda (Octavia Spencer, com sua excelência habitual), sua colega de trabalho que conhece sua própria parcela de discriminação e descaso.
A instalação que as duas cuidam de limpar diariamente é um local turbulento na década de 1960 de então: A Corrida Espacial e a Guerra Fria acirraram os nervos normalmente acirrados dos militares e eles exigem, sem o menor tato, progressos de seus cientistas em relação aos avanços dos soviéticos.
É quando surge um espécime inusitado num dos tanques de água: Uma criatura aquática capturada na América do Sul (incorporada com fascinante expressividade gestual por Doug Jones) que desperta maravilhamento nos cientistas em geral, e a necessidade de destruição no perverso chefe de segurança em particular, vivido com corajoso rigor por Michael Shannon.
Furtivamente e sem que mais ninguém perceba, Elisa e a criatura se encontram dia após dia, e passam a cultivar uma identificação que nasce a partir do fato de não haver (e não poder haver) palavras entre eles (Elisa é, afinal, muda, e a criatura não compreende a linguagem humana). O silêncio torna a relação recíproca e igualitária (e Del Toro derrama encantamento no modo preciosista com que registra o nascimento do amor) e logo os dois estabelecem uma espécie de vínculo que começa como assombro, prodrige para a ternura, e em seguida para a atração sexual!
Porém, a criatura sofre pois os militares que o têm sob seu julgo estão dispostos a matá-lo em breve, o quê obriga Elisa a elaborar um arriscado plano para tirá-lo de lá.
Há infindáveis definições para o grande vencedor do Oscar 2018 de Melhor Filme e Melhor Direção (que divide com “OSenhor dos Anéis-O Retorno do Rei” a honraria de serem os dois únicos filmes de fantasia do cinema premiados na categoria principal): ele é, antes de mais nada, uma história de amor; um amor sexual, com erotismo e tudo o mais (com direito a cenas de nudez e sexo lindamente filmadas). Mas, ele é também uma ode ao desajuste, ao valor humanista de se abraçar a diferença e despir-se de preconceitos –e, nesse sentido, não apenas a atenção de Del Toro recai sobre o inusitado e encantador casal protagonista, mas, também sobre o personagem de Giles, e o do Dr. Hoffstetler (Michael Stuhlbarg), um caso raro de um soviético retratado com carinho e gentileza num filme americano ambientado na Guerra Fria (deve ser porque o diretor é mexicano...).
“A Forma da Água” também é outra coisa: Uma homenagem ao cinema.
No clima fantasiosamente embriagante que empresta à narrativa, nas sucessivas referências que pontuam as cenas –que vão desde o evidente “A Bela e A Fera” até “Splash-Uma Sereia Em Minha Vida”, com direito à um desconcertante momento musical que converte a fotografia maravilhosamente colorida em um filme preto & branco –e no carinho singular que confere a cada um dos personagens (detalhe esse que eleva este filme um degrau acima de todas as outras obras de sua filmografia) Del Toro realizou assim um dos mais poderosos manifestos em favor da tolerância no cinema.
Um filme digno de aplausos que expulsa o ódio da alma encantando o coração.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Animais Noturnos

Elegância é a palavra chave no cinema de Tom Ford. A elegância que já impregnava cada detalhe em cena de sua auspiciosa estréia, “Direito de Amar”, continua a ditar o visual acachapante e lindo deste seu novo e notável trabalho.
Todavia, como atestam as desconcertantes cenas iniciais, existe espaço também, nesse esmero visual, para a feiúra: Em enquadramentos milimetricamente bem escolhidos e bem iluminados, mulheres velhas, gordas e nuas dançam em câmera lenta diante de uma câmera que parece fetichizá-las.
O grotesco, como veremos mais a frente, será um tópico que o filme de Ford perseguirá durante toda sua duração –e seu contraponto com a beleza gráfica, e com o curioso dado de que ela não trás plena felicidade, é um dos estranhos questionamentos que ele levanta.
Amy Adams, em toda sua beleza e excelência, é Suzan, curadora de um museu de arte moderna em Los Angeles. Ela se ressente pelo fato de sua vida e seu casamento de aparências não lhe proporcionarem satisfação: Isso não a deixa dormir.
Ela já havia sido casada antes, com Edward (Jake Gyllenhaal, que interpreta também o protagonista na história dentro da história), um escritor que ela deixou há dezenove anos.
Uma noite, Suzan recebe uma encomenda: Um manuscrito de um livro que Edward escreveu em sua homenagem.
Ela começa a leitura (cada vez mais obsessiva) do tal livro cuja trama guarda, de forma alegórica, uma inesperada ressonância com o matrimônio que tiveram. Não fosse a direção refinada de Ford, essa trama serviria também, à uma típica produção exploitation dos anos 1970: Família composta pelo marido (Gyllenhaal), pela esposa (Isla Fisher) e pela filha adolescente atravessa os desertos do centro-oeste americano à noite.
Tentam ultrapassar um carro ocupado por desordeiros liderados pelo ameaçador Ray (Aaron Taylor-Johnson), mas acabam arrumando encrenca com o grupo. Eles fazem seu carro parar e, após uma discussão extremamente tensa, carregam a mulher e a filha para outro lugar, deixando o marido à pé na estrada.
Com a ajuda de um policial (Michael Shannon) ele as procura dando início a uma escalada de momentos trágicos.
A condução vai assim contrabalançando essa trama árdua, violenta e desesperadora, com o dia a dia de Suzan e suas memórias ocasionais e elípticas da relação que teve com Edward, deixando que quaisquer analogias que sejam estabelecidas entre essas três linhas narrativas fiquem por conta do expectador.
Uma obra que justapõe as percepções da violência reprimida e/ou extravasada, os diferentes âmbitos de mundo em que elas se deflagram, e as conseqüências disso tudo no íntimo dos personagens, narrada com enorme perícia.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Os Indicados Ao Oscar 2017

Hoje, quinta feira, 24 de Janeiro, conhecemos os filmes que disputarão o grande prêmio do cinema no próximo dia 26 de Fevereiro, numa exibição bonita que abriu mão da tradicional apresentação ao vivo.
Eis os indicados:

MELHOR FILME
"A Chegada"
"Um Limite Entre Nós"
"Até O Último Homem"
"A Qualquer Custo"
"Estrelas Além do Tempo"
"La La Land-Cantando Estações"
"Lion-Uma Jornada Para Casa"
"Manchester À Beira-Mar"
"Moonlight-Sob A Luz do Luar"

E "La La Land-Cantando Estações" chega pronto para fazer história com um número recorde de indicações (foram 14, somente dois filmes antes dele atingiram esta marca, sendo eles “A Malvada” e “Titanic”), podendo sair da cerimônia de entrega com um feito raro no cinema. Seus maiores concorrentes acabam sendo os elogiadíssimos “Moonlight” e “Manchester À Beira-Mar”.
Até lá, dá para lamentar um pouco a nem tão surpreendente ausência de “Deadpool” –mas, talvez, fosse pedir demais do Oscar mesmo... –e comemorar com a merecida lembrança de “A Chegada”.

DIREÇÃO
"A Chegada", Denis Villeneuve
"Até O Último Homem", Mel Gibson
"La La Land-Cantando Estações", Damien Chazelle
"Manchester À Beira-Mar", Kenneth Lonergan
"Moonlight-Sob a Luz do Luar", Barry Jenkins

Já era hora mesmo de Denis Villeneuve receber uma indicação de Melhor Diretor (que poderia ter vindo por qualquer um de seus últimos trabalhos), mas ela chega num momento em que dificilmente o prêmio escapará das mãos hábeis do jovem Damien Chazelle.
De resto é um bocado interessante ver a Academia render-se à primorosa execução de filme de guerra realizada por Mel Gibson em “Até O Último Homem”, cujas indicações soam como um reconhecimento (e uma redenção) proporcionados pela Academia. Também pudera: Comparados às denúncias de estupro de Nate Parker –outrora um potencial candidato ao Oscar por seu elogiado porém esquecido “O Nascimento de Uma Nação” –os escândalos de Mel parecem brincadeira de criança.

ATRIZ
Isabelle Huppert, "Elle"
Ruth Negga, "Loving"
Natalie Portman, Jackie
Emma Stone, "La La Land-Cantando Estações"
Meryl Streep, "Florence-Quem É Essa Mulher?"

A indicação de Meryl Streep se deve em grande parte pela repercussão de seus discurso anti-Trump no Globo de Ouro. Rezamos para que isso não interfira na premiação propriamente dita, uma vez que seu trabalho é bastante fraco se comparado à suas magníficas concorrentes, sobretudo o trabalho ímpar entregue por Isabelle Huppert, em “Elle”.
Dito isso, a maior concorrente de Huppert é mesmo a apaixonante Emma Stone que pelo ovacionado “La La Land” vem ganhando diversos prêmios. Também premiada, mas perdendo considerável força com o avanço da temporada de premiações está Natalie Portman e sua atuação em “Jackie”.
Correndo por fora, o belo trabalho de Ruth Negga em “Loving” vem representar a única lembrança da Academia ao filme.

ATOR
Casey Affleck, "Manchester À Beira-Mar"
Andrew Garfield, "Até O Último Homem"
Ryan Gosling, "La La Land-Cantando Estações"
Viggo Mortensen, "Capitão Fantástico"
Denzel Washington, "Um Limite Entre Nós"

Dificilmente o prêmio escapará das mãos do mais cotado: O talentoso Casey Affleck, que já vem sendo amplamente reconhecido na temporada de prêmios. Mas as lembranças nesta categoria a tornam uma vitrine do que de melhor, em termos interpretativos, o ano de 2016 entregou: Denzel Washington, primoroso como sempre em "Um Limite Entre Nós”; o jovem Andrew Garfield superando a mal-fadada experiência como Homem-Aranha; Viggo Mortensen provando sua excelência num personagem brilhante; e Ryan Gosling, sempre ótimo, no filme-sensação da temporada.

ATRIZ COADJUVANTE
Viola Davis, "Um Limite Entre Nós"
Naomie Harris, "Moonlight-Sob a Luz do Luar"
Nicole Kidman, "Lion-Uma Jornada Para Casa"
Octavia Spencer, "Estrelas Além do Tempo"
Michelle Williams, "Manchester À Beira-Mar"

Este certamente será o ano de Viola Davis: Ao menos nesta categoria poucas (ou quase nenhuma) concorrentes têm chance contra ela.
Isso se a maré de favoritismo até lá não mudar a favor do grande trabalho de Naomi Harris em “Moonlight” (um filme que ainda pode surpreender), ou de Nicole Kidman no ainda pouco visto “Lion”.

ATOR COADJUVANTE
Mahershala Ali, "Moonlight-Sob A Luz do Luar"
Jeff Bridges, "A Qualquer Custo"
Lucas Hedges, "Manchester À Beira-Mar"
Dev Patel, "Lion-Uma Jornada Para Casa"
Michael Shannon, "Animais Noturnos"

Teimando em contrariar o Globo de Ouro, a Academia ignorou o premiado Aaron Taylor Johnson, indicando seu colega de elenco, Michael Shannon, na única menção ao elogiado filme de Tom Ford.
As chances parecem concentradas em Mahershala Ali, que tem no veterano Jeff Bridges aparentemente seu único concorrente mais forte. Mas ainda pode ser que Dev Patel, ou mesmo Lucas Hedges venham a surpreender –o olhar do SAG Awards ainda repousa sobre todos eles.

FOTOGRAFIA
"A chegada"
"La La Land-Cantando Estações"
"Lion-Uma Jornada Para Casa"
"Moonlight-Sob A Luz do Luar"
"Silêncio"

LONGA DOCUMENTÁRIO
"Fogo No Mar", Gianfranco Rosi
"I Am Not Your Negro", Raoul Peck
"Life, Animated", Roger Ross Williams
"O.J.-Made In America", Ezra Edelman
"A 13ª Emenda", de Ava DuVernay

CURTA DOCUMENTÁRIO
"Extremis"
"4.1 Miles"
"Joe's Violin"
"Watani-My Homeland"
"The White Helmets"

FILME ESTRANGEIRO
"Terra de Minas" (Dinamarca)
"Um Homem Chamado Ove" (Suécia)
"O Apartamento" (Irã)
"Tanna" (Austrália)
"Toni Erdmann" (Alemanha)

A França perdeu a chance de estar nesta categoria (talvez, como favorito!) ao deixar de indicar o brilhante “Elle” como representante do país. Ficou de fora, e os cinco indicados terminaram com títulos pouco significativos, não havendo nenhum favorito.
Dito isso, há alguma chance de “Um Homem Chamado Ove” prevalecer.

MIXAGEM DE SOM
"A Chegada"
"Até O Último Homem"
"La La Land-Cantando Estações"
"Rogue One-Uma História Star Wars"
"13 horas-Os Soldados Secretos de Benghazi"

EFEITOS VISUAIS
"Horizonte Profundo-Desastre No Golfo"
"Doutor Estranho"
"Mogli-O Menino Lobo"
"Kubo e As Cordas Mágicas"
"Rogue One-Uma História Star Wars"

Páreo duro. Pelo menos três dos melhores blockbusters do ano disputam ferrenhamente esta categoria, na qual ambos não apenas amparam suas narrativas, como também oferecem novas possibilidades para o emprego dos efeitos visuais.
São eles, a exuberância técnica e fascinante de “Mogli-O Menino Lobo” que recria todo um mundo ao redor do pequeno protagonista Neel Sethi; o aprimoramento e o aperfeiçoamento, um patamar além, do que “A Origem” já fez (e também do que o Universo Marvel vinha fazendo no cinema) de “Doutor Estranho”; e a recriação sem precedentes de mundos, criaturas e personagens (e seus intérpretes) realizada em “Rogue One”.
Se fosse para escolher, eu ficaria com “Rogue One”!

MAQUIAGEM
"Um Homem Chamado Ove"
"Star Trek:-Sem Fronteiras"
"Esquadrão Suicida"

O melhor trabalho de maquiagem é “Star Trek-Sem Fronteiras”. Ponto.
Resta, contudo, conferir se este não é um gesto político da Academia lembrando um filme achincalhado pela crítica de um grande estúdio (no caso, “Esquadrão Suicida”, da Warner), mas que teve grande recepção de público –o elemento, afinal, que mantém a indústria.

FIGURINO
"Aliados"
"Animais Fantásticos e Onde Habitam"
"Florence-Quem É Essa Mulher?"
"Jackie"
"La La Land-Cantando Estações"

EDIÇÃO DE SOM
"A Chegada"
"Horizonte Profundo-Desastre No Golfo"
"Até O Último Homem"
"La La Land-Cantando Estações"
"Sully-O Heroi do Rio Hudson"

DIREÇÃO DE ARTE
"A Chegada"
"Animais Fantásticos e Onde Habitam"
"Ave, César"
"La La Land-Cantando Estações"
"Passageiros"

TRILHA SONORA
"Jackie"
“La La Land-Cantando Estações"
"Lion-Uma Jornada Para Casa"
"Moonlight-Sob A Luz do Luar"
"Passageiros"

A Academia aproveitou as categorias técnicas para lembrar de alguns filmes que ficaram de fora dos prêmios principais. Como o sucesso “Animais Fantásticos...”, e os esquecidos “Ave, César”, dos Irmãos Coen, e “Sully”, colaboração de Clint Eastwood e Tom Hanks.
Quem levou a melhor foi o irregular “Passageiros” cuja data de lançamento facilitou sua lembrança entre os votantes

CANÇÃO ORIGINAL
"Audition (The fools who dream)", de “La La Land-Cantando Estações"
"Can't stop the feeling", de "Trolls"
"City of stars", de "La La Land-Cantando Estações"
"The empty chair", de "Jim-The James Foley Story"
"How far I go", de "Moana-Um Mar de Aventuras"

Comparecendo com duas indicações numa mesma categoria, é improvável que “La La Land- Cantando Estações" fique sem o prêmio. Ele deve vir pela música mais mencionada e comentada do filme, “City of stars”, cantada (e muito bem) por Ryan Gosling, mas a minha preferida vai sempre continuar sendo a emocionante “Audition” na voz de Emma Stone –um dos grandes momentos do filme.
Fica até difícil para os outros concorrentes.

ROTEIRO ORIGINAL
"A Qualquer Custo"
"La La Land-Cantando Estações"
"O Lagosta"
"Manchester À Beira-Mar"
"20th Century Women"

ROTEIRO ADAPTADO
"A Chegada"
"Um Limite Entre Nós"
"Estrelas Além do Tempo"
"Lion-Uma Jornada Para Casa"
"Moonlight-Sob A Luz do Luar"

A Academia lembrou-se do inusitado “O Lagosta” na categoria de roteiro original, o quê pouco significa diante da força de “La La Land-Cantando Estações".
Na de roteiro adaptado, “Moonlight” e “Lion” devem disputar pau a pau o prêmio, ficando provavelmente com o primeiro. Mas, não seria nada ruim ver “A Chegada” pegando a todos de surpresa!

LONGA DE ANIMAÇÃO
"Kubo e As Cordas Mágicas"
"Moana-Um Mar de Aventuras"
"Minha Vida de Abobrinha"
"A Tartaruga Vermelha"
"Zootopia"

O fato de “Kubo e As Cordas Mágicas” ter duas indicações (além desta, a de efeitos visuais) dá uma ligeira impressão de favoritismo, mas isso se dissipa quando vemos que ali está o genial “Zootopia”, que andou levando quase todos os prêmios a que concorreu e é mesmo uma obra de animação que cresce com o tempo.
Muito legal a lembrança da Academia ao belíssimo “A Tartaruga Vermelha”.

CURTA ANIMADO
"Blind Vaysha"
"Borrowed Time"
"Pear Cider and Cigarettes"
"Pearl"
"Piper"

EDIÇÃO
"A Chegada"
"Até O Último Homem "
"A Qualquer Custo"
"La La Land-Cantando Estações"
"Moonlight-Sob A Luz do Luar"

CURTA-METRAGEM
"Ennemis Intérieurs", Slim Azzazi
"La Femme Et Le TGV", Timo von Gunten e Giacun Caduff
"Silent Nights", Aske Bang e Kim Magnusson
"Sing', Kristof Deak e Anna Udvardy
"Timecode", Juanjo Gimenez

No dia 26 de Fevereiro descobriremos quais favoritos se confirmarão, e quais darão espaço para inesperados vencedores.