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segunda-feira, 9 de junho de 2025

Amor À Primeira Vista


 Melodrama dos anos 1980 cuja abordagem soa inversa à, por exemplo, do romântico “Amor À Flor da Pele”, de Won Kar Wai, no qual acompanhávamos a via-crusis das contrapartes traídas de dois casais envolvidos em adultério. Aqui é incontornável a romantização de um ato que, no fim das contas, é uma traição –ainda que o filme, com elegância, sutileza e parcimônia vá mascarando isso diante do expectador. Não à toa, houveram críticas, na época de seu lançamento, direcionadas exatamente à essa postura. Filmado na Estação Central de Nova York e aproveitando essencialmente o hype da reunião entre de Meryl Streep e Robert De Niro (saídos, respectivamente das produções “Silkwood-Retrato de Uma Coragem” e “Era Uma Vez Na América”), o filme dirigido por Ulu Grosbard (que havia realizado, em 1981, o drama policial “Liberdade Condicional”, com De Niro) parece se beneficiar exatamente desses detalhes para se impor, no mais, contentando-se em ser um romance ameno, sem rompantes e de baixa voltagem. Características que não o impedem de ser um bocado encantador aos olhos de seu público-alvo.

 Arquiteto, morador do subúrbio de Westchester, Nova York, Frank Raftis (Robert De Niro) é casado com Ann (Jane Kaczmarek, de “Morto Ao Chegar” e “A Vida Em Preto & Branco”), com quem tem dois filhos pequenos. Moradora nas mesmas redondezas, a artista plástica Molly Gilmore (Meryl Streep) também é casada, com Brian (David Clennon, de “Inferno Sem Saída” e “Muito Além do Jardim”). Ambos tomam o mesmo percurso de trem diariamente, porém, sem nunca se encontrar: Frank, para ir e voltar do trabalho; Molly, para visitar constantemente seu pai (George Martin, de “Sociedade dos Poetas Mortos”) que está internado num hospital em Manhattan. É durante a véspera de Natal que eles se encontram pela primeira vez, ao trombarem um com o outro acidentalmente e, sem querer, acabar trocando os livros que haviam comprado. Alguns meses depois, eles tornam a se reencontrar na estação, se reconhecem e a partir daí, adquirem o hábito de todos os dias, fazerem companhia um ao outro durante a viagem, conforme vão se conhecendo melhor. Embora saibam que ambos são casados, isso não impede que um sentimento pouco a pouco comece a nascer entre eles.

A medida que o enredo de "Falling In Love" progride é impossível não lembrar de “Desencanto”, do mestre David Lean, que aparentemente o diretor Ulu Grosbard quis refilmar muito disfarçadamente e por baixo dos panos. Ele possui a mesma premissa básica, a mesma estrutura dramática, o mesmo subtexto a envolver adultério e uma perspectiva através da qual se humaniza o casal de amantes –sem julgamentos morais que seriam suscitados com mais insistência nos tempos de hoje. Certamente, o grande trunfo desta produção até que modesta (ainda que plenamente eficaz em sua proposta) é ter Meryl Streep e Robert De Niro, dois verdadeiros monstros sagrados em cena –De Niro inclusive venceu o prêmio Sant Jordi 1986 de Melhor Ator Estrangeiro, enquanto Meryl, por sua vez, foi agraciada com o prêmio David di Donatello de Melhor Atriz Estrangeira do mesmo ano do lançamento do filme, 1984, num desempenho intimista com elementos que ela revisitou, anos mais tarde, em  "As Pontes de Madison".

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Os Indicados Ao Oscar 2024


 Já estão entre nós, desde a manhã desta terça-feira, 23 de janeiro, os indicados pela Academia de Artes Cinematográfica ao grande prêmio do cinema. Algumas certezas seguem se confirmando (como o favoritismo de “Oppenheimer”, com 13 indicações) enquanto vez ou outra aparece uma surpresa inesperada (como a ausência de “Barbie”, com 8 indicações, nas categorias de Melhor Direção e Atriz). No mais, os indicados são figurinhas que têm se repetido em todas as premiações. Vamos à lista:

MELHOR FILME

American Fiction

Anatomia de uma Queda

Barbie

Os Rejeitados

Assassinos da Lua das Flores

Maestro

Oppenheimer

Vidas Passadas

Pobres Criaturas

Zona de Interesse

MELHOR DIREÇÃO

Justine Triet, por Anatomia de uma Queda

Martin Scorsese, por Assassinos da Lua das Flores

Christopher Nolan, por Oppenheimer

Yorgos Lanthimos, por Pobres Criaturas

Jonathan Glazer, por Zona de Interesse

Este parece ser o ano de Christopher Nolan, se nenhum imprevisto ocorrer (como um súbito fortalecimento de “Assassinos da Lua das Flores”, de Scorsese, com 10 indicações ou do estranho “Pobres Criaturas”, com 11, seus únicos concorrentes aparentemente mais sólidos), os fãs do realizador de “A Origem” e “Interestelar”, e autor de uma das mais aclamadas versões do Cavaleiro das Trevas poderão comemorar o premio nas mãos de seu diretor favorito. Ainda na categoria de Direção, foi inesperada (ainda que merecida) a inclusão de Jonathan Glazer e da francesa Justine Triet ocupando o lugar que muitos davam como certo para Greta Gerwig.

MELHOR ATOR

Bradley Cooper, por Maestro

Colman Domingo, por Rustin

Paul Giamatti, por Os Rejeitados

Cillian Murphy, por Oppenheimer

Jeffrey Wright, por American Fiction

MELHOR ATRIZ

Annette Bening, por NYAD

Lily Gladstone, por Assassinos da Lua das Flores

Sandra Hüller, por Anatomia de uma Queda

Carey Mulligan, por Maestro

Emma Stone, por Pobres Criaturas

A disputa de ator está se afunilando entre a precisão louvável de Cillian Murphy e a competência à toda prova de Paul Giamatti –com ligeira preferência da crítica, por enquanto, para esse último –já entre as atrizes, boa parte do público ainda está tentando digerir a ausência de Margot Robbie (que, por “Barbie”, ainda concorre ao Oscar, sim, mas como produtora, na categoria principal), assim, a competição fica entre a composição austera da sensacional Lilly Gladstone e o festejado trabalho de Emma Stone que, por sua absoluta entrega, parece ganhar certa preferência. Eu ainda torço para Lilly Gladstone, uma vez que Emma Stone (de quem eu gosto muito) já tem o seu Oscar (por “La La Land”)

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Sterling K. Brown, por American Fiction

Robert De Niro, por Assassinos da Lua das Flores

Robert Downey Jr., por Oppenheimer

Ryan Gosling, por Barbie

Mark Ruffalo, por Pobres Criaturas

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Emily Blunt, por Oppenheimer

Danielle Brooks, por A Cor Púrpura

America Ferrera, por Barbie

Jodie Foster, por NYAD

Da'Vine Joy Randolph, por Os Rejeitados

Os fãs não vão deixar de notar que o Homem-de-Ferro (Robert Downey Jr.) concorre na mesma categoria que o Hulk (Mark Ruffalo), ambos por filmes bem diferentes; mas, Downey Jr. goza de um prestígio junto às premiações que só está fazendo aumentar –é provável que seu único oponente de peso seja Robert De Niro. A categoria das Atrizes Coadjuvantes trouxe uma das maiores surpresas dentre os indicados que foi a inclusão de America Ferrera –ela que se manteve ausente na maior parte das premiações anteriores. Talvez, uma compensação pela quantidade relativamente tímida de indicações de “Barbie”. Nessa categoria, no entanto, Da’Vine Joy Randolhp segue muito forte.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Justine Triet & Arthur Harari, por Anatomia de uma Queda

David Hemingson, por Os Rejeitados

Bradley Cooper & Josh Singer, por Maestro

Sammy Burch, por Segredos de um Escândalo

Celine Song, por Vidas Passadas

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Cord Jefferson, por American Fiction

Greta Gerwig & Noah Baumbach, por Barbie

Christopher Nolan, por Oppenheimer

Tony McNamara, por Pobres Criaturas

Jonathan Glazer, por Zona de Interesse

Após a surpreendente vitória no Globo de Ouro, “Anatomia de Uma Queda” desponta como inesperado favorito na categoria de Roteiro Original, embora “Os Rejeitados”, de Alexander Payne, ameace sua supremacia (os trabalhos de Payne costumam sempre ganhar esse prêmio); em Roteiro Adaptado, a forte concorrência de “Oppenheimer” bate de frente com a exaltada excelência de “American Fiction”; com o abalizamento de público de “Barbie” e certamente com a competência a exigir respeito de “Zona de Interesse”; por alguma razão, ainda não consigo simpatizar com “Pobres Criaturas” –efeito que quase todos os trabalhos de Yorgos Lanthimos têm sobre mim –mas, isso não o impede de crescer cada vez mais entre os votantes.

MELHOR ANIMAÇÃO

O Menino e a Garça

Elementos

Nimona

Meu Amigo Robô

Homem-Aranha Através do Aranhaverso

MELHOR FILME INTERNACIONAL

Io Capitano (Itália)

Dias Perfeitos (Japão)

A Sociedade da Neve (Espanha)

The Teacher's Lounge (Alemanha)

Zona de Interesse (Reino Unido)

O prêmio de Melhor Animação está, e sempre esteve, entre “O Menino e A Garça” e “Homem-Aranha Através do Aranhaverso” –resta descobrirmos se a Academia irá preferir ovacionar o retorno da aposentadoria em grande estilo de Hayao Myazaki (como fez o Globo de Ouro), ou honrar a qualidade inconteste da continuação de “Homem-Aranha no Aranhaverso”.

Em Filme Internacional, surpreendeu a ausência do francês “Anatomia de Uma Queda”, que está indicado na categoria principal, o que aumenta as chances do magistral “A Sociedade da Neve” e, sobretudo, de “Zona de Interesse” –este também indicado à Melhor Filme.

MELHOR DOCUMENTÁRIO

Bobi Wine: O Presidente do povo

A Memória Infinita

As 4 filhas de Olga

To Kill a Tiger

20 Dias em Mariupol

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM

O ABC da Proibição de Livros

The Barber of Little Rock

Island in Between

A Última Loja de Consertos

Nai Nai & Wai Po

MELHOR CURTA-METRAGEM

E Depois?

Invincible

Knight of Fortune

Red, White & Blue

A Incrível História Henry Sugar

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

Carta a um porco

95 Senses

Our Uniform

Pachyderme

War is Over (inspirado na musica de John & Yoko)

MELHOR TRILHA SONORA

American Fiction

Indiana Jones e a Relíquia do Destino

Assassinos da Lua das Flores

Oppenheimer

Pobres Criaturas

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

"The Fire Inside" (Flamin' Hot-O Sabor Que Mudou A História)

"I'm Just Ken" (Barbie)

"It Never Went Away" (American Symphony)

"Wahzhazhe (A Song for My People)" (Assassinos da Lua das Flores)

"What Was I Made For?" (Barbie)

“Barbie” concorre consigo mesmo na categoria de Canção Original, a única em que aparentemente ele desponta como favorito –embora ele possa surpreender nas categorias técnicas, ainda que “Oppenheimer” seja onipresente –difícil vai ser prever qual das duas canções vai ganhar, a de Billie Eilish (ganhadora do Globo de Ouro, e minha aposta) ou a de Ryan Gosling (ganhadora do Critic’s Choice)?

MELHOR SOM

Resistência

Maestro

Missão Impossível - Acerto de Contas

Oppenheimer

Zona de Interesse

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO

Barbie

Assassinos da Lua das Flores

Napoleão

Oppenheimer

Pobres Criaturas

MELHOR FOTOGRAFIA

O Conde

Assassinos da Lua das Flores

Maestro

Oppenheimer

Pobres Criaturas

MELHOR CABELO E MAQUIAGEM

Golda-A Mulher de Uma Nação

Maestro

Oppenheimer

Pobres Criaturas

A Sociedade da Neve

MELHOR FIGURINO

Jacqueline Durran, por Barbie

Jacqueline West, por Assassinos da Lua das Flores

Janty Yates, por Napoleão

Ellen Mirojnick, por Oppenheimer

Holly Waddington, por Pobres Criaturas

MELHOR MONTAGEM

Anatomia de uma Queda

Os Rejeitados

Assassinos da Lua das Flores

Oppenheimer

Pobres Criaturas

MELHORES EFEITOS VISUAIS

Resistência

Godzilla Minus One

Guardiões da Galáxia Vol. 3

Missão Impossível - Acerto de Contas

Napoleão

Os grandes blockbusters do ano surgem em peso nas categorias técnicas (em alguns casos, como franco favoritos!), como “Missão Impossível-Acerto de Contas”, ou até mesmo o esnobado “Napoleão” que só obteve reconhecimento mesmo por seus valores de produção; na categoria de Efeitos Visuais, por enquanto, é um consenso o brilhantismo de “Resistência”, embora minha torcida vá para o fabuloso “Godzilla Minus One”.

A entrega dos prêmios se dará no domingo, dia 10 de março.

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Assassinos da Lua das Flores


 Obra gigantesca de Martin Scorsese, este épico investigativo e intimista sobre a degradação moral joga luz sobre um fato histórico não muito difundido, mas dos poucos a elucidar com nitidez cristalina a predisposição aterradora para a perversidade escondida no coração da América.

Início da década de 1920. As terras pertencentes aos nativos norte-americanos Osage têm petróleo, o que faz de muitos deles, algumas das pessoas mais ricas dos EUA de então. Entretanto, os Osage não possuem a sanha gananciosa do capitalismo, o que os torna alvo da mesquinharia e dos interesses ambíguos de muitos homens brancos aproveitadores. No Condado de Osage, no estado do Oklahoma, um pólo de crescimento que agrega as duas culturas e, aos poucos, se torna palco das intrigas, um massacre lento, gradual e despercebido se sucede ao longo dos anos –os homens brancos não mais hostilizam abertamente os indígenas como no Velho Oeste poucos anos antes, agora eles querem lhes tomar o patrimônio por meio de esquemas escusos embasados pela Lei. Alguns casam-se com as mulheres de determinada família e, pouco a pouco, orquestram a morte de todos os membros (!) para ficarem com o vasto espólio financeiro pela lei de sucessão. As mortes (algumas, forjadas como suicídios; outras, nem mesmo isso) devido ao fato de ocorrerem com pessoas nativas não recebem qualquer atenção das coniventes autoridades locais.

É nessa circunstância que chega ao condado o ex-combatente Ernest Burkhart (Leonardo Dicaprio), vindo das trincheiras da Primeira Guerra Mundial, sobrinho do todo-poderoso local Will Hale (Robert De Niro). Inicialmente trabalhando como motorista, Ernest, sob orientação arguta do próprio tio, se aproxima e se casa com a jovem Mollie (a extraordinária Lily Gladstone), herdeira de uma das muitas fortunas do lugar. Mollie tem uma família numerosa –a mãe e várias irmãs –mas, não tarda a cair nas malhas insidiosas das tramóias de Wiil Hale e se tornar, com o tempo, a única restante da família (!), o que torna portanto, Ernest, o herdeiro de sua riqueza.

Não passa despercebido, ao diretor Scorsese, a curiosidade em torno do fato de que esse relato histórico assim descortinado, é um tanto quanto desconhecido do grande público, ciente do quão tal elemento traz de lastimável à História Norte-Americana; ele evidencia esse traço de vergonha, ao agregar aspectos inesperadamente patéticos na dinâmica de seus personagens principais a despeito de toda densidade e dramaticidade predominante, sobretudo, a relação de subserviência, fidelidade injustificada e dissimulação gaiata entre Ernest e Will –e nesse sentido, são primordiais as composições de Dicaprio e De Niro na ênfase humanamente errádica de seus pouco escrupulosos personagens; o que evoca, em “Assassinos da Lua das Flores”, uma narrativa que sintetiza a um só tempo “Sangue Negro” e “O Poderoso Chefão”.

O terço final do filme mostra a chegada, um tanto tardia, do FBI à Osage, enviados para lá devido a um apelo da aflita Mollie na própria corte do senado, em Washington, ao presidente em pessoa. Representado pelo personagem do ótimo Jesse Plemons (de “Ataque dos Cães”), o FBI –num dos primeiros casos verdadeiramente bombásticos de sua recente criação –se depara com os absurdos alarmantes que cercaram as centenas de homicídios perpetrados contra dos Osage. E quando “Assassinos da Lua das Flores” se converte num filme de tribunal, já em sua reta final, somos confrontados com detalhes ainda mais assombrosos e desconcertantes das práticas criminosas empregadas em Osage, à medida que o protagonismo de Ernest vai se reforçando, fazendo dele, testemunha-chave para condenação (ou absolvição) dos culpados.

Como em “O Irlandês”, Martin Scorsese elabora aqui um vasto tratado ético e cinematográfico amparado justamente no formato monumental de sua realização (as três horas de duração são ultrapassadas com relativa facilidade), e almeja através daí uma experiência sensorial de acomodação e detalhamento para o expectador que muito pouco se reflete , em ritmo e lógica, ao que é feito hoje em termos de cinema comercial.

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Tempo de Despertar


 “Foi disso que nos esquecemos. Das coisas mais simples.”

No início da década de 1990, as experiências médicas transpostas para a literatura do Dr. Oliver Sacks –que depois também renderiam o filme “À Primeira Vista” –inspiraram a realização de uma obra bela e humanista que, a despeito da ocasional falta de paciência de muitos expectadores para com melodramas, conseguiu, por sua qualidade e transparência, emocionar público e crítica. O próprio Dr. Sacks –que acompanhou de perto das filmagens –surge como um dos protagonistas, renomeado Dr. Malcolm Sayer. Um passo na evolução como cineasta da diretora Penny Marshall (realizadora do divertido “Quero Ser Grande”), “Tempo de Despertar” cumpre maravilhosamente bem seu papel –é equilibrado, escrito com minúcia e critério, interpretado com inconteste sensibilidade e dirigido com perspicácia do início ao fim –e ainda teve a audácia de, com isso, entregar cinema de qualidade. O resultado disso foi que ele tornou-se finalista ao Oscar de Melhor Filme na cerimônia de 1991 –o qual foi vencido por “Dança Com Lobos”.

O princípio de “Tempo de Despertar” mostra o jovem Leonard Lowe, ainda um pré-adolescente vivendo uma vida normal em meados da década de 1940, até que sintomas misteriosos como paralisia súbita nos membros o afastam do convívio com os amigos. Leonard tinha encefalite letárgica, mais conhecida como Doença do Sono.

O filme salta para 1969, quando o acanhado neurologista Dr. Sayer (Robin Williams, mais uma vez em um papel sério e emocionante, um ano depois do excelente “Sociedade dos Poetas Mortos”), prestando serviço no Hospital de Brainbridge, em Nova York, descobre um grupo de pacientes vitimados pela encefalite letárgica, entre eles, Leonard, agora com trinta anos (e interpretado por Robert De Niro). Acometido de um ímpeto para ajudar o próximo, o Dr. Sayer insiste em novas alternativas para encontrar a cura para os doentes –apesar da burocrática oposição da diretoria médica –e testa em Leonard um novo tipo de droga, a L-Dopa, outrora usada em casos de Mal de Parkinson.

Gradualmente, o remédio apresenta um efeito milagroso e Leonard desperta para o mundo após uma vida inteira vegetando numa cama de hospital, lapso durante o qual ele perdeu boa parte da infância e da juventude.

Com extremo lirismo e delicadeza, o filme de Marshall explora a relação médico/paciente enquanto contrapõe as curiosas distinções entre os personagens principais –Dr. Sayer é um homem tímido e introvertido, enquanto Leonard, na oportunidade de viver plenamente que redescobre, corre atrás do tempo perdido se apaixonando pela enfermeira Paula (a bela Penelope Ann Miller) –ao mesmo tempo que mostra, também, o despertar de novos pacientes da Doença do Sono, o que parece ser um verdadeiro milagre de conotações dramáticas.

Todavia, em algum momento, a obra de Marshall justifica as lágrimas copiosas que despertou nas plateias daqueles tempos e mostra, já em seu último terço, os efeitos do remédio desvanecendo e, com isso, o retorno implacável e insidioso da Doença do Sono sobre Leonard e os demais enfermos.

“Tempo de Despertar” é, pois, uma produção rara mesmo naqueles tempos de então: Despida de segundas intenções, emotiva e emocionante, carregada de valiosas lições de humanidade e sem o menor medo de ser piegas –e, com dois brilhantes intérpretes em estado de graça à sua frente, era também um filme o qual cinéfilos, fosse eles sisudos ou não, foram incapazes de fingir indiferença.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

As Idades do Amor


 Na tradição italiana de filmes em formato episódico, este trabalho do diretor Giovanni Veronesi apresenta três histórias, interligadas por irônicos momentos a conectar seus protagonistas, por um mesmo e onipresente personagem –um cupido disfarçado de motorista de táxi, interpretado pelo jovem Emanuele Propizio –e pelo tema recorrente da paixão, um ingrediente, também ele, de sabor inconfundivelmente italiano.

Assim, ao longo das três narrativas –engendradas de forma um tanto pedante pela frouxa condução –visitamos três diferentes fases da vida na qual o amor encontra caminhos inesperados para se expressar. Na primeira deles, “Juventude”, acompanhamos o casal Roberto (Riccardo Scamarcio, de “John Wick-Um Novo Dia Para Matar”) e Sara (Valeria Solarino), na flor da idade e prestes a se casar.

Roberto está apaixonado por Sara, entretanto, suas convicções sofrem um forte abalo quando parte para uma cidadezinha excêntrica na Toscana a fim de convencer proprietários a deixar um terreno reclamado por sua empresa, e lá conhece a impulsiva cantora Micol (Laura Chiatti, de “Um Lugar Qualquer”), uma espécie de musa do local, com quem todos os homens, novos e velhos, sonham ir para a cama.

Aos poucos, as circunstâncias vão aproximando Roberto de Micol e, tomado por desejo, ele vai protelando sua partida da cidadezinha que antes só lhe infernizava.

A ambivalência moral que precisava ostentar no âmbito profissional –onde representa um corporação disposta a expulsar camponeses do lugar onde moraram a vida toda –começa a interferir em sua decisão de se manter fiel à própria noiva, levando-o ao adultério e até a cogitar uma vida ao lado de Micol. Pelo menos, até o destino surpreendê-lo...

Na segunda parte, “Maturidade”, um tanto quanto mais divertida e sarcástica –a ponto até de afastar-se do conceito de romantismo inicialmente sugerido e mergulhar numa comédia mais rasgada –encontramos um vaidoso âncora de telejornal de meia-idade, Fabio (o hilário e irrequieto Carlo Verdone, de “A Grande Beleza”) que encontra, numa festa, uma mulher aparentemente fascinante, a psiquiatra Eliana Rame (Donatella Finocchiaro), que de começo já lhe derruba dentro da piscina local (!).

Uma carona aqui, um telefonema e um convite para um café ali, e Fabio já está no apartamento dela, traindo a esposa com quem o casamento caiu num certo marasmo. Mas, Fabio mal sabe a encrenca em que se meteu: Ao parar, acidentalmente numa delegacia, ele descobre que o nome real dela é Gaia (Eliana Rame é sua psiquiatra!) e que ela sobre de transtorno bipolar (!).

Agora, a mulher sedutora que inicialmente convenceu-o a mudar de atitude, num gatilho para alguma crise de meia-idade –ele chegou até a abolir os apliques de cabelo para apresentar, orgulhoso, as reportagens com sua careca natural! –converteu-se num pesadelo: Ela o persegue, obcecada em ter um filho seu, e para isso, vira sua vida do avesso!

Além de ser o melhor episódio, a terceira e última parte, “Mais Além”, beneficia-se do carisma do grande Robert De Niro e da espetacular Monica Bellucci: Ele vive Adrian, um americano que mudou-se para Roma (falando italiano fluentemente) e que, após uma viuvez e um transplante do coração, passou a encarar a vida com certa desilusão.

As tentativas do amigo Augusto (Michele Placido) em conseguir arranjo com as vizinhas são recebidas por ele com niilismo. Isso pelo menos, até Augusto ser visitado pela filha, Viola (Monica), vinda de Paris onde tinha ido morar.

Fascinado pela beleza dela, Adrian acaba descobrindo seus problemas; Viola trabalhava de stripper e deve dinheiro à agiotas, o que leva seu pai, indignado, a expulsá-la de casa. É Adrian quem a acolhe em seu apartamento, às escondidas de Augusto e, às vésperas do Dia da Marselha, a paixão termina por envolvê-los, mesmo que Adrian, naquele ponto da vida, já não tivesse maiores expectativas quanto a um envolvimento profundo com uma mulher.

Agradável na maior parte do tempo –o que se comprova visto que suas mais de duas horas passam sem maiores sofrimentos –“As Idades do Amor” é beneficiado pelo detalhe, talvez involuntário, de que não só suas histórias estão dispostas em ordem crescente de qualidade, como também as razões que as fazem interessantes parecem mais acidentes felizes do que competência de fato da parte dos realizadores: A primeira diverte na mesma medida que injuria, mas é bem curta; a segunda se torna engraçada graças aos esforços do grande ator Carlo Verdone e sua perplexidade cada vez mais incontida; e a terceira seria só mais uma trama enfadonha de romance entre indivíduos de diferentes idades, não fossem as presenças luminosas de De Niro e Monica. E isso basta para torná-la envolvente do início ao fim.

Para constar, este “As Idades do Amor” lançado em 2011 é, na verdade, o terceiro de uma série de filmes realizados pelo diretor Giovanni Veronesi; os anteriores foram “Manuale D’Amore”, de 2005, e “Manuale D’Amore 2-Capitoli Successivi”, de 2007, que também abarcam vários episódios (quatro cada um) girando em torno de enredos românticos, e muitos repetem parte do elenco deste filme (Monica Bellucci, inclusive, participa do segundo). Dentre os três, somente“As Idades do Amor” –ou “Manuale D’Amore 3” –e o primeiro, “Manual do Amor”, foram lançados no Brasil.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Uma Mulher Para Dois

O título nacional de “Mad Dog And Glory” periga confundi-lo na percepção de alguns cinéfilos –ou pretendentes a cinéfilos –com o clássico “Jules e Jim-Uma Mulher Para Dois”, de François Truffaut.
Esta, na verdade, é uma comédia dos anos 1990 que sofre constante ameaça de ser esquecida pelo tempo, como tantas outras obras.
No final dos anos 1980, tendo roteirizado o aclamado “A Cor do Dinheiro” e o sucesso “Vítimas de Uma Paixão”, o escritor Richard Pryce estava com a bola toda, logo, não tardou a fazer o mesmo que todos os artistas que veem o próprio ego ser inflamado por uma boa maré de sorte: Imaginou-se um autor.
O produto desse momento de vaidade é “Mad Dog And Glory”, sobretudo, porque nele se identificam maneirismos de um roteirista que tateia as convenções à procura dos momentos chavões do gênero para neles incutir um refinamento inesperado e uma personalidade tida por singular. Por conta disso, o filme que supostamente seria uma comédia não é, veja só, assim tão engraçado... o que deveria ser um romance não mergulha tanto dos dilemas dos enamorados quanto dá a entender e... se havia intenção na premissa de Pryce de abarcar algum outro gênero, nada nele sugere tal coisa.
O que sobra são méritos que acabam atribuídos a outras presenças do filme –e que, às vezes, podem até resultar de algum acaso!
Robert De Niro vive o policial Wayne Dobie, a quem os amigos apelidaram (sabe-se lá porque!) de Mad Dog –nada em seu comportamento submisso e inerte faz lembrar um ‘Cão Raivoso’; aliás, nada nele faz lembrar outros personagens da galeria de Robert De Niro.
Ao presenciar um assalto casual, Wayne acaba conhecendo o gangster Frank Milo, vivido magnificamente por Bill Murray.
E leva até um certo tempo para nos darmos conta da descomunal ironia de colocar Bill Murray interpretando um mafioso diante de Robert De Niro: Pareceria um tremendo engano dos diretores de casting se o talento dos intérpretes não tornasse tudo imediatamente convincente, e se, em sua espirituosidade, isso já não fizesse parte da brincadeira proposta pelo diretor John McNaughton.
Frank, por sinal, é um gangster pouco usual. É ameaçador e controlador, mas deseja levar divertimento aos outros como comediante de stand up e, apesar da rudeza de seus instintos iniciais, ele intenciona fazer amizade com Wayne.
Todavia, na sua atitude gangster truculenta, a amizade de Frank já alicia certos aspectos da vida de Wayne: Ele despacha para morar com ele por uma semana a garçonete Glory (Uma Thurman, jovem e linda), na intenção de fazer com que a beldade proporcione um pouco de satisfação à sua vida solitária.
Glory tem uma dívida para com Frank, e morre de medo dele, logo, ela insiste para Wayne que, se não tem muita disposição em manter uma amizade com Frank (afinal, ele é tira, Frank é mafioso), ao menos finga estar contente com a presença dela para não deixá-la em maus lençóis.
Assim, muito na galhofa, oscilando entre a leveza de um possível romance e a pretensão de ser todo original, o roteiro de Pryce vai moldando as situações que se seguem. Ele contou, é bem verdade, com a sorte de ter um diretor como McNaughton, perito em tornar qualquer andamento envolvente.
Saído das fileiras de obras independentes com o admirável e tenso cult-movie “Henry-Retrato de Um Assassino”, McNaughton realizou esta espécie de comédia dramática, um surpreendente salto de estilo ao assumir uma produção comercial, não só mudando radicalmente de tom, abordagem e gênero, mas provando versatilidade ao saber lidar com um material tão diferente –e ele voltaria a fazer novamente, anos depois, ao realizar o noir erótico “Garotas Selvagens”.
Escorregadio como era, o roteiro de Pryce poderia representar uma armadilha para qualquer diretor menos capaz, nas mãos de McNaughton é um romance inconstante, porém, ameno e simpático que se sustenta até o fim, e tem o mérito inconteste de revelar uma faceta mais sombria e de magnífico humor negro em Bill Murray (disparado a melhor presença de todo o elenco), a juventude sensual e palpitante de Uma Thurman antes de “Pulp Fiction”, e um lado mais sensível, de ator romântico, em Robert De Niro –se bem que, nesse quesito, ele fica um pouco a dever...

segunda-feira, 2 de março de 2020

Estão Todos Bem

Se há um hábito lamentável entre os expectadores norte-americanos –herdado, inclusive, pelas novas gerações de expectadores brasileiros –é a preguiça de assistir filmes legendados: Essa tem sido a principal justificativa dos estúdios hollywoodianos para fazerem refilmagens absolutamente desnecessárias de grandes obras estrangeiras.
Aqui, a bola da vez é o belíssimo drama familiar italiano “Estamos Todos Bem” que Giuseppe Tornatore concebeu, no início dos anos 1990, com toda sua habilidade singular para evidenciar, sem pieguice ou exagero, as alegrias e tristezas inerentes às relações –e de quebra ainda trazia um trabalho arrebatador à frente das câmeras de Marcello Mastroianni.
O escolhido para tal tarefa é o diretor e roteirista inglês Kirk Jones que fez a comédia “A Fortuna de Ned” e o infantil “Nanny McPhee”, e depois ainda faria “O Que Esperar Quando Você Está Esperando” e “Casamento Grego 2” –o tipo de diretor, como se pode ver, que produtores adoram: De estilo ameno, suave a ponto de ser sonolento, sem atrevimentos autorais e especialista em produções descontraídas e inofensivas.
E “Estão Todos Bem” é tão inofensivo que chega quase a ser nulo.
Se o filme italiano tinha Mastroianni, o norte-americano tem Robert De Niro.
Ele interpreta Frank Goode, viúvo recente cuja única ocupação real que agora preenche seus dias de aposentado é a expectativa pela chegada dos quatro filhos adultos (no original eram cinco), todos moradores de outras cidades.
Entretanto, os rebentos não vêem o visitar e, aborrecido com esse distanciamento da família –fato que sua esposa em vida nunca permitiu que se concretizasse –ele decide fazer uma série de visitas-surpresa, viajando até as moradias de um por um.
O primeiro é o artista David, de quem ele não vê nem a cor: Sumiu do apartamento onde morava em Nova York e ninguém sabe dele –e, por meio de diálogos paralelos entre os filhos, notamos que algo não acabou bem!
Em seguida, Frank vai para Chicago visitar Amy (Kate Beckinsale) que trabalha numa agência de publicidade, mora numa bela casa, tem um marido exemplar e um filho modelo.
Ou não –não passam despercebidos de Frank, indícios de que a vida perfeita que Amy deseja exibir a ele pode ser uma fachada com a qual esconde os próprios fracassos aos olhos do pai.
O mesmo se repetirá com os outros filhos: Robert (Sam Rockwell), que mora em Denver, não é o maestro de orquestra que afirmava, mas apenas um mero percussionista; e Rosie (Drew Barrymore), moradora de Las Vegas, diz ter um belo apartamento (é emprestado de um amigo) e uma vida feliz, quando na verdade tem um filho que esconde do pai, bem como suas opções sexuais.
O grande problema do filme, enquanto narrativa, é uma certa esquizofrenia crônica em negar e ao mesmo tempo aceitar sua fonte original –o filme maravilhoso de Tornatore. Nem é a comparação ingrata que as nuances sucintas de De Niro sofrem perante a espetacular atuação de Mastroianni, ou o estilo ‘sessão da tarde’ que a inclinação de Kirk Jones ao melodrama provoca em justaposição ao lirismo embriagante de Tornatore: Seu maior problema é desdobrar-se em subterfúgios para afastar-se ao máximo da semelhança com o filme italiano (com alterações pontuais em alguns aspectos da trama, aliadas a um senso mais atenuado, e mais americano, de dramaticidade), e no momento seguinte, incorporar inúmeros esforços para imitá-lo (com diferenças mínimas e pouco convincentes em sequências-chaves que se repetem de modo praticamente igual, e sobretudo, na trilha sonora de Dario Marianelli, que reprisa na cara dura muitos acordes da melodia de Ennio Morricone).
No trabalho de marketing para o lançamento daquele ano (2010) e até mesmo em entrevistas e making-off, tentou-se ocultar de todas as formas que esta era uma refilmagem de um clássico italiano da década de 1990, e é bem provável que tivessem havido muitos expectadores que não tenham ficado sabendo dessa informação de fato, mas o trabalho do operário-padrão Kirk Jones padece de um sentimento de inferioridade tamanho frente à beleza reflexiva da obra original, que mal precisamos assistí-la para compreender a imensa redundância que assombra esta produção do início ao fim.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Coringa

Tirado de sua área mais assídua de atividade, o humor, segundo o que ele mesmo chamou de ‘patrulha do politicamente correto’, o diretor Todd Phillips (de “Se Beber, Não Case” e "Dias Incríveis") resolveu deixar o gênero de comédia com um filme que é diversas coisas: Uma alegoria imbuída de sarcasmo das orientações do movimento de esquerda, e paradoxalmente um símbolo improvável para as novas gerações que a defendem; uma homenagem ao cinema suburbano, cru e violento de Martin Scorsese (saltando aos olhos, com facilidade, as similaridades com “O Rei da Comédia” e “Taxi Driver”) e. acima de tudo isso, uma adaptação de histórias em quadrinhos.
Embora, também nesse quesito, “Coringa” represente uma desconstrução: Saturada pela falha de tentar conceber um universo compartilhado que trouxesse à vida os personagens da DC Comics no cinema (a exemplo do que a Marvel Studios fez com retumbante sucesso), a Warner viu seu “Batman Vs Superman” e “Liga da Justiça” converterem-se em constrangedores fracassos –até mesmo o Coringa deu as caras no mal-fadado “Esquadrão Suicida” interpretado por Jared Leto.
A saída, aparentemente, foi desencanar de repetir os passos da Marvel e investir em projetos que, se não estavam interligados, ao menos, poderiam resultar individualmente competentes.
Nesse sentido, as coisas começaram a dar mais certo para “Mulher Maravilha”, “Aquaman” e “Shazam!”.
Deles, todavia, “Coringa” foi um projeto mais radical.
Não apenas era trazido ao centro de um longa-metragem um notório antagonista de um herói que era o protagonista de fato, o Batman –e esse conceito aproxima este filme assim da premissa de “Venom” –como a incorporação de tal personagem era desafiadora; muitos bons atores tentaram, como Jack Nicholson que fez bonito no “Batman”, de Tim Burton”, ou mesmo o infeliz Jared Leto, cuja atuação como Coringa lhe acarretou uma avalanche de críticas negativas. Mas, o feito a ser superado era mesmo o de Heath Ledger que em “O Cavaleiro das Trevas” entregou a mais perfeita, empolgante e assombrosa interpretação de Coringa do cinema –e ganhou um Oscar póstumo de Melhor Ator Coadjuvante por isso!
Para dar a cara à tapa nessa empreitada foi chamado o sempre competente Joaquin Phoenix que se desvencilha muito bem da comparação com Ledger e outros atores ao concentrar sua astuciosa interpretação naquilo que o filme de Todd Phillips tem de mais particular: Uma assim esboçada trama de origem, onde as características marcantes do personagem vão sendo incorporadas e adquiridas pouco a pouco, a medida que o roteiro concebe o surgimento do vilão a partir de realismo e drama humano –nada do tonel químico ou de qualquer referência aos quadrinhos, como “Batman-A Piada Mortal”.
Assim, conhecemos o desamparo de Arthur Fleck (Phoenix), morador da decadente cidade de Gothan City em plenos anos 1980, cuja vida é um abismo de angústia que só faz piorar: Ele trabalha como palhaço de rua enquanto nutre o sonho de prosperar como apresentador de stand-up. Ao mesmo tempo, Arthur sofre de um distúrbio neurológico que o faz gargalhar descontroladamente diante de uma situação que o deixe extremamente triste, tenso ou zangado.
E tais situações se acumulam: Ele é roubado e espancado por delinquentes, a saúde de sua mãe só piora e, como se não bastasse, um de seus colegas de trabalho conspira contra ele, levando-o a perder o emprego. Até mesmo seu ídolo da TV, Murray Franklin, apresentador de um programa de auditório (Robert De Niro, na mais explícita dentre todas as referências à “O Rei da Comédia”) faz chacota dele em seu programa.
Tudo ameaça desmoronar quando o programa de assistência social que permitia a Arthur uma sessão semanal de psiquiatria e remédios que continham seus distúrbios é cortado: Sozinho em sua neurose crescente, ele termina por ceder a instintos homicidas que o levam a matar três executivos engravatados numa noite em um metrô.
Perseguido pelas autoridades, Arthur vê, nas semanas que se seguem, o seu ato violento ganhar uma repercussão entre os indivíduos mais revoltosos e indignados da população que, a partir da imagem do palhaço assassino, podem começar uma onda de destruição em Gothan.
Ao abrir mão completa e convictamente de um herói como personagem principal, o filme de Todd Phillips evoca obras transgressivas como “Laranja Mecânica” ao dar o protagonismo a um personagem que caminha irreversivelmente rumo ao abismo da loucura, e seu filme foi tão bem construído e tão incomum em sua proposta reflexiva que houve muita gente que acabou defendendo a suposta viabilidade da mensagem “Morte aos ricos” difundida pelo Coringa, sem perceber que disso se trata a crítica e a sátira que o diretor procurar fazer do extremismo esquerdista.
“Coringa” é assim uma obra para cabeças e estômagos fortes, bem longe da normalidade convencional e da superficialidade genérica do que muitos podem esperar em uma adaptação de histórias em quadrinhos.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Ronin

O caráter desmistificador deste filme de John Frankenheimer já aparece no prólogo, quando um letreiro esclarece o significado da palavra ‘ronin’ e descobrimos, ao contrário da romantização ocasionada, sobretudo, pelo cinema, que esta é a designação dos samurais desprovidos de mestre e, portanto, de honra e de respeito. São párias, foragidos e renegados.
Numa analogia que certamente remete a “O Samurai”, de Jean-Pierre Melville, é no fim das contas um grupo com tais características, o dos indivíduos misteriosos que se reúnem num bar em Paris na cena que de fato abre o filme.
Entre eles, está Sam que, na versatilidade que o fez célebre, Robert De Niro molda com maneirismos peculiares de um truculento herói de ação temperado de um fino senso de humor.
É o primeiro indício de algo realmente desigual que “Ronin” se propõe a entregar ao público: Para começo, este não é um filme de ação onde os intérpretes são escolhidos com base em seu físico musculoso, e suas aptidões para cenas de luta e de movimentação. Frankenheimer coloca para viver seus personagens atores bons de verdade: Natascha McElhone (de “O Show deTruman”, “Solaris” e a série “Californication”) como Deirdre; o francês Jean Reno como Vincent; Stellan Skarsgard como Gregor; Skipp Sudduth como Larry; e Sean Bean, numa rápida participação, como um dos efetivos contratados cujo evidente amadorismo logo tolhe sua presença no plano.
O nebuloso intuito é o de obter uma maleta lacrada de um conteúdo que ninguém conhece, mas todos almejam.
O filme de Frankenheimer se ambienta assim num mundo muito particular, povoado de espiões, missões secretas, regras e códigos muito próprios que se desdobram ocultos em meio à vida normal européia, e como acontece em “John Wick”, embora nos sejam fornecidas poucas informações acerca desse mundo, o diretor instiga nosso fascínio permitindo o vislumbre de pequenas partes dele.
Com esse expediente ele conduz a trama servindo suas prometidas cenas de ação aos poucos, sem arroubos súbitos –Frankenheimer não tem pressa. Tudo acontece quando ele julga essencial à narrativa acontecer.
Tal como a até esperada traição de um dos aliados quando o plano inicial é posto em prática; o que oferece a senha para uma perseguição espetacular que se sucede pela Europa central.
Agora, cientes do jogo duplo do ex-KGB Gregor, os ainda aliados Sam, Vincent e Deirdre precisam reestruturar-se para cumprir sua missão e não permitir que o conteúdo da maleta caia nas mãos dos russos –embora a própria Deirdre, tão sedutora (e por isso mesmo enganosamente confiável) represente interesses do ardiloso Seamus (Jonathan Pryce), um dissidente irlandês do IRA.
Um especialista em produções de ação de caráter sério e realista, John Frankenheimer sedimentou, com “Ronin”, o seu nome como um dos grandes artesãos cinematográficos dos anos 1990. Sua perícia inconteste nas cenas de tiroteio e de perseguição automobilística, bem como sua melindrosa e envolvente narrativa de espionagem cheia de subterfúgios e desdobramentos detalhados serviram de forte inspiração, na década seguinte à festejada “Trilogia Bourne”, e permaneceram, por algum tempo, como insuperáveis no gênero.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Querida América - Cartas do Vietnam

No objetivo que normalmente almeja um documentário, o filme realizado por Bill Couturie é certeiro: Não tarda a provocar no expectador sentimentos de indignação, de perplexidade conforme dele vai se inteirando seu assunto principal, a Guerra do Vietnam.
A fonte que Couturie utiliza é de um frescor e uma sinceridade inquestionáveis: São as cartas enviadas por soldados americanos que serviram no Vietnam endereçadas às suas famílias.
Um elenco numeroso e espetacular de astros de Hollywood (Tom Berenger, Wilen Dafoe, Martin Sheen, Robert De Niro, Robert Downey Jr., Kathleen Turner, Michael J. Fox, John Savage, Sean Penn, Robin Williams e outros) garante a devida emotividade aos relatos que determinam, sozinhos, a narrativa do filme.
A montagem intercala de maneira linear e responsável os noticiários da época (rádio e TV), com filmagens ocasionais dos próprios recrutas no front, fotos e, próximo do fim, até mesmo sequências de um filme vietnamita.
O que vemos indiretamente é a progressão da guerra através das impressões subjetivas das pessoas comuns que participaram dela. A euforia de alguns recrutas pelo oportunidade de representar sua nação e visitar, com tão pouca idade, um país exótico. O assombro e as tentativas de adequação com a chegada no campo de batalha. A rotina militar que, a medida que o conflito se intensifica, logo se torna massacrante. O miasma de emoções vividos pelos soldados que alternam responsabilidade, medo de morrer, compaixão para com os colegas e avassaladora saudade de casa. As notícias que dão conta da postura do governo americano, irredutível  na gestão de Lyndon Johnson, incerta no período de eleições (que incluiu o assassinato de Bobby Kennedy), e pessimista com a vitória de Richard Nixon; esse evidente despreparo com a guerra logo gera um sentimento crescente de indignação no povo americano –sentimento este que as cartas só veem a enfatizar dando conta, neste ponto do filme, do mais absoluto horror da guerra, e da certeza amarga de que aqueles jovens (os sobreviventes, ao menos) voltarão transfigurados e dilacerados física e espiritualmente pela experiência.
Ao expor os fatos sem nenhuma encenação ou maquiagem, Bill Couturie oferece ao público um retrato ainda mais brutal, devastador e, apesar de tudo, fascinante da guerra do que muitos de seus registros ficcionais.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Machete


De tudo o que englobava o projeto “Grindhouse” era visto que o trailer-falso “Machete” era o que tinha mais potencial para virar um longa-metragem de fato.
Num hábito que lhe era até comum, Robert Rodriguez dividiu a direção de sua obra com Ethan Maniquis, que ocupou a função de montador em “Planeta Terror” e exerceu inúmeras outras colaborações com ele –foi, por exemplo, editor de efeitos visuais na trilogia “Pequenos Espiões” e em “Era Uma Vez No México” e ator em “Sin City”.
Pois, com seu auxílio, Rodriguez arregaçou as mangas e transformou –com sucesso discutível –a premissa que funcionava às mil maravilhas enclapsulada num trailer, em um filme de cento e cinco minutos de duração com todas as características que definiam o projeto que o próprio Rodriguez levou a cabo ao lado de Quentin Tarantino (marcas na imagem que simulam o envelhecimento da película; sangue e certa escatologia como apelo comercial; e toda atmosfera de produção B da época dos filmes-poeira).
Apelidado de Machete por sua predileção por armas brancas em detrimentos às armas de fogo, o personagem-título vivido com presença indubitável por Danny Trejo é, no prólogo que abre o filme determinando muito bem seu estilo, um agente federal no México.
Ao tentar libertar uma jovem coagida à prostituição (a deliciosa Mayra Leal que já de início, escancara sua nudez gratuita), ele cai numa cilada arquitetada pelo vilão Torrez (Steve Segal, pernicioso em sua canastrice) e termina destituído de seu cargo, com sua família assassinada e quase morto.
Anos mais tarde, Machete –agora levando a vida na fronteira dos EUA com o México –acaba contratado pelo milionário Michael Benz (Jeff Fahey) a fim de provocar um atentado contra um senador (Robert De Niro) cuja campanha se baseia na discriminação de parte da sociedade americana aos imigrantes latinos. A exemplo da cena inicial, essa também é mais uma cilada elaborada para fazer de Machete um bode expiatório que o levará a defrontar-se com Torrez outra vez.
Porém, Machete não é mais tão ingênuo e seu plano de vingança é, também ele, elaborado.
A despeito da crítica contumaz e algo rabugenta de que “Machete” de fato funcionava mais como trailer do que como longa-metragem, Robert Rodriguez exercita sua paixão pelas películas descerebradas dos anos 1970 e 80, valendo-se aqui de uma trama que se ramifica em dezenas de outros personagens, adquirindo desdobramentos inesperados conforme seu avanço –entre eles, a rasteira reflexão de denúncia sobre a imigração mexicana.
No fim das contas é pouco eficaz e até contraditório o fato de que ele dispõe de todo esse esforço para culminar num filme assumidamente sangrento, implausível e despretensioso.