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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Homem-Formiga e A Vespa - Quantumania


 O despachado Scott Lang (Paul Rudd, absoluto no papel) tem o poder de (na maioria das vezes) diminuir e (ocasionalmente) crescer, e ficar gigante. Na proposta peculiar de seus poderes e no temperamento resiliente e bem-humorado para com os revezes caóticos que cercam sua vida e sua família, Scott –ou, mais precisamente, Homem-Formiga –resume à perfeição os tópicos que nortearam o Universo Marvel, seja nos quadrinhos ou no cinema: Um herói imperfeito, muito longe de ser capaz de integrar o Panteão dos Deuses, a espelhar com descontração e espirituosidade, o próprio expectador. No terceiro longa-metragem que ganhou para si, “Homem-Formiga e A Vespa-Quantumania”, Scott já chega de uma jornada tumultuada e particular vinda de outros dois filmes (nos quais foi introduzida a mitologia por trás de seus poderes, no primeiro; e os potenciais desdobramentos a envolver o tal Reino Quântico, no segundo), e finalmente, de todo um esforço narrativo que o atrela ao Universo Marvel Cinematográfico do qual sempre fez parte, continuando, por sua vez, de onde herói parou em sua última aparição, o extraordinariamente marcante “Vingadores-Ultimato”.

Assim, na sua capacidade de crescer e diminuir, Scott é uma alegoria ambulante, falante e saltitante da capacidade muito humana de se desvencilhar dos problemas e dar a volta por cima –e tantos são os tópicos com os quais o bem-intencionado diretor Peyton Reed tem de lidar que ele já deixa, no início do filme, essa analogia completamente explícita ao público, no monólogo inicial do personagem, acompanhado de uma entrevista para a divulgação de um livro que ele mesmo escreveu: Ex-presidiário, ex-ladrão e outrora negligente pai de família, Scott tomou caminhos tortuosos que o fizeram um dos Vingadores e um dos vários heróis responsáveis pelo salvamento do planeta Terra. Agora, a andar pela rua Scott recebe tapinhas nas costas e copos de café gratuitos... ele também teve sua vida amorosa endireitada, graças a inebriante presença de Hope Van Dyne (Evangeline Lilly), convertida na heroína Vespa durante o segundo filme.

A questão de ser pai negligente, contudo, foi um pouco mais difícil de ser superada: Ao perder o contato por cinco anos com a filha Cassie (Kathryn Newton, substituindo a jovem Emma Fuhrmann que viveu a personagem em “Ultimato”), por conta dos acontecimentos dos filmes anteriores, Scott viu a filha saltar de uma criança para uma jovem mulher, e agora procura recuperar o tempo perdido. Mas, Cassie tem muito do pai: Na melhor das intenções, envolve-se em encrencas das quais padece para sair. É assim que, um tanto quanto auxiliada pelo gênio do Dr. Hank Pym (Michael Douglas), ela desenvolve um aparelho de acesso ao Reino Quântico, o universo microscópico referenciado nos filmes anteriores do Homem-Formiga e que, em “Ultimato”, serviu para executar uma audaz viagem no tempo. Isso, entretanto, acende o alarme em Janet Van Dyna (Michelle Pfeiffer), mãe de Hope e esposa de Hank –ela esteve presa, por trinta anos, no Reino Quântico, antes de ser resgatada, e mantêm em segredo as turbulentas peripécias que lá vivenciou. Mal ela tem tempo para alertar os demais personagens disso e são todos eles –Scott, Cassie, Hope, Hank e Janet –sugados para dentro do Reino Quântico, onde todo o restante do filme se passará.

Cumprindo uma promessa que pairava no ar desde “Homem-Formiga e A Vespa”, o filme mostra que havia toda uma civilização, com fauna, flora e tecnologia, dentro do Reino Quântico, e como a maioria esmagadora de filmes comerciais a retratar um outro mundo, “Quantumania” tem por referência-mor o incontornável “Star Wars”, de George Lucas. É impossível não associá-lo em cenas como a da cantina espacial, ou quando o herói e sua filha encontram os rebeldes alienígenas daquele lugar retratados com uma imodesta proliferação de efeitos visuais.

O elemento que, de fato, vem a trazer uma certa relevância à “Quantumania” –relevância essa que, sejamos honestos, ficou faltando na maior parte dos filmes e séries da Fase 4 da Marvel –vem a ser seu antagonista, Kang, o Conquistador, interpretado com presença majestosa, sólida e fascinante por Jonathan Majors. E o roteiro (a cargo de Jeff Loveness) e a direção até que se empenham em sua apresentação: Um ser vindo das intermináveis realidades alternativas do Multiverso, Kang é mostrado inicialmente como alguém amigável, embora seja a sutileza percebida no temor incontido dos personagens coadjuvantes e de Janet que vá acrescentando pouco a pouco algum suspense em sua iminente aparição. A questão é que Kang deve ser o grande vilão a complicar a vida dos Vingadores no próximos filmes –como o foi Thanos (Josh Brolin) na saga anterior –e, para tanto, sua introdução aqui é realizada com cuidado, planejamento e perspicácia: Exilado no Reino Quântico (por quem, ainda não fica exatamente claro), Kang dispõe de tecnologia avançada e inigualável –com a qual foi capaz de conquistar todo aquele mundo paralelo –e só não partiu de lá com seus vastos e ameaçadores recursos porque um detalhe irrisório no núcleo de energia de sua nave o impede de fazê-lo. Detalhe este que os poderes miniaturizadores de Scott são capazes de resolver. A fim de convercer Scott a ajudá-lo, portanto, Kang aprisiona e ameaça a vida de Cassie, obrigando o Homem-Formiga a elaborar um arriscado plano para salvá-la e sair, com todo seu pessoal, do Reino Quântico.

Embora seja redundante afirmar, “Quantumania” entrega a mesma junção frenética, colorida e descontraída de ação vertiginosa, efeitos visuais vastos e comédia rasgada com a qual a Marvel Studios já acostumou seu público. O manejo bem azeitado de seus realizadores e algumas presenças genuinamente inspiradas de seu elenco (sobretudo, os sensacionais Paul Rudd e Jonathan Majors) o elevam num nível acima de produções recentes da Marvel como “Shang Chi e A Lenda dos Dez Anéis”, “Eternos” ou “Thor-Amor & Trovão”, mas ele padece de um tom demasiado infanto-juvenil que muito agrada ao diretor Peyton Reed (e somente a ele...) e seu desfecho pede por um pouco mais de contundência e menos do final feliz a la Disney como nos é tão desconfortavelmente imposto. No saldo final, felizmente, seu acertos acabam contando muito mais que seus erros.

domingo, 18 de setembro de 2022

Os Fantasmas Contra - Atacam


 Das tantas transposições que “A Christmas Carol”, de Charles Dickens, publicado em 1843, recebeu para a tela grande, “Os Fantasmas Contra-Atacam”, de Richard Donner, ocupa um lugar curioso, por inúmeras razões: É realizado por um diretor (Donner, tendo um ano antes entregado o primeiro “Máquina Mortífera”) que não tinha maior desenvoltura para a comédia (ainda que em sua gênese, o conto de Dickens, deveras não fosse uma); possuía uma aura de traquinagem cultural típica dos anos 1980 com uma ligeira desconstrução da obra que almeja homenagear; e ainda oferecia a chance de conferir um desempenho sempre caótico, notável e melindroso do grande Bill Murray, talvez um dos mais perfeitos atores do cinema para incorporar sem ranço a avareza compulsiva do protagonista. Tudo isso somado, hoje, ao fato de que “Os Fantasmas Contra-Atacam” se tornou uma produção pouco conhecida do grande público faz do ato de rememorá-lo um interessante exercício de resgate de um trabalho que merece muito uma segunda chance do expectador.

“Scrooged” –título original do filme sendo que “Os Fantasmas Contra-Atacam” foi um picareta título nacional bolado para aproveitar o grande sucesso de Murray em “Os Caça-Fantasmas” –começa nos dias que precedem o feriado do Natal. Contudo, para o personagem principal, Frank Cross (Bill Murray, em toda sua impecável fleuma de indiferença cínica), as festividades natalinas nada significam: O objetivo dele é, acima de tudo, fazer com que a programação vespertina da emissora de TV da qual é um executivo implacável funcione com perfeição; e nesse objetivo não estão incluídas a consideração e a compaixão por seus subalternos. Tanto é que, já na véspera de Natal, ele demite sem misericórdia um funcionário.

Talvez por conta dessa atitude –ou, talvez por conta de todo o acúmulo de apatia que norteou a vida de Frank nos últimos anos –ele recebe a curiosa visita sobrenatural de seu mentor já falecido Lew Hayward (o veterano John Forsythe, cuja deterioração cadavérica é recriada pela maquiagem com humor macabro). Ao contrário do que Frank inicialmente supunha, Lew não lhe aparece para referendar seus atos ranzinzas diante da máxima do ‘sucesso a qualquer custo’, mas, sim para lhe explicar o quanto errou em vida. e do quanto não deseja que o mesmo se repita com ele. Por causa disso, ele adverte Frank: Ele receberá a visita de três fantasmas que lhe mostrarão tudo o que a ambição e a antipatia não lhe deixaram ver.

Assim, seguindo a estrutura narrativa já clássica concebida por Dickens, Frank recebe a visita do irrequieto Fantasma dos Natais Presentes (Carol Kane, de “Valentino, O Ídolo, O Homem”), na verdade, uma fada que não lhe poupa bordoadas na cabeça (!), e que o leva para testemunhar, invisível e inaudível, o Natal de outras pessoas que, naquele momento, se esforçam para fazer felizes umas às outras; já o Fantasma dos Natais Passados (o impagável David Johansen) surge caracterizado como um taxista capaz de viajar no tempo e, a bordo de seu taxi, leva David a vislumbrar os dolorosos percalços do Natal de sua própria família quando criança e, de certa forma, a gênese de boa parte de sua amargura; por fim, o terceiro e último, o Fantasma dos Natais Futuros (um espectro obscuro, silencioso e ameaçador), termina por lhe confrontar com um futuro cinzento e lúgubre onde seu comportamento contaminou até mesmo a adorável Claire (Karen Allen, de “Cruising”), o grande amor de sua vida que, de uma pessoa iluminada, otimista e calorosa, se tornou um poço de amargura a espelhar o comportamento do próprio Frank.

Como é bastante comum numa obra edificante regida de humor onde o protagonista vai de encontro à ética, “Scrooged” perde muito de sua graça, fluidez e inspiração quando adentra seu inevitável desfecho sentimental, embora seja possível, também ali, identificar alguma emoção genuína. Até chegar lá, entretanto, o filme de Donner oferece ao público uma atualização bastante requintada e divertidamente sarcástica dos valores imortalizados no conto de Dickens, além de um formidável aparato técnico onde se sobressaem com pomba e circunstância os arrojados efeitos visuais e de maquiagem.

sexta-feira, 5 de março de 2021

Viagem A Darjeeling


 Uma vez mais voltando um olhar carinhoso ao exótico, o diretor e roteirista Wes Anderson emoldura este tragicômico drama familiar com as cores berrantes da cultura indiana onde ele ambientou sua trama numa manobra que em princípio parece aleatória.

No entanto, no aprofundamento dos conceitos de renascimento pessoal encontrados em sua premissa e na ideia universal de trajetórias individuais escritas pelas divindades a conectar os seres humanos podemos compreender então o quão deliberada é a relação que o diretor estabelece entre sua obra e a cultura que retrata.

Não que seu filme supere a barreira do elitismo que as vezes assola o cinema alternativo: Manhoso em suas expressões dramáticas e narrativas, “Viagem A Darjeeling” resulta numa das obras menos acessíveis de um diretor com grande pendor artístico, é verdade, mas cujos maiores méritos costumam ser a forma com que suas incursões no estranho e no absurdo cativam de imediato o expectador.

Não aqui: Separados por uma variedade de incompatibilidades pessoais, emocionais e triviais, três irmãos, Peter, Francis e Jack (Adrien Brody, Owen Wilson e Jason Schwartzman, respectivamente) se veem, por uma série de casualidades, lado a lado numa viagem empreendida através da Índia, num trem, logo após deixarem uma cerimônia de casamento –prólogo revelado durante um flashback.

Cada um se vê martirizado por um fator diferente: Peter chafurda na futilidade em que se refugiou a fim de proteger-se da influência dos familiares; Francis reflete os transtornos de sua alma nos ferimentos físicos muitos reais que carrega (e que o levam a ostentar bandagens no cabeça durante todo o filme); e Jack não é capaz de sentir-se vivo se não houver, em seus discursos lamuriosos, uma mulher pela qual choramingar.

Nesse trajetória geográfica –e, portanto, física –esses três irmãos, três almas torturadas pelas próprias escolhas, irão perpetrar uma busca espiritual –e, portanto, metafísica –atrás da expiação de suas neuroses, o que os leva assim, ao reencontro carregado de expectativa e preenchimento, com a mãe, vivida por Anjelica Huston, em tese, a gênese indireta de todas as neuroses que exibem na vida adulta.

Diretor e roteirista, Wes Anderson vislumbra as fissuras emocionais de uma família disfuncional através de um filme deliberadamente desigual, onde as cenas obedecem bem menos à orientação de um melodrama convencional, e muito mais ao absurdo alegórico de um cinema alternativo feito de sarcasmo e linguagem avidamente simbólica.

Diferente de outros projetos seus, não foi desta vez que o talento de Anderson foi capaz de tornar adorável e envolvente uma mistura tão esquisita e improvável.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Ilha dos Cachorros


 Wes Anderson tem uma forma toda especial de mostrar-se a um só tempo contundente, tocante, desconcertante e lúdico em suas narrativas. Essas características normalmente se ressaltam quando ele trabalha com animações. “Ilha dos Cachorros” é seu segundo trabalho dentro desse território, antecedido unicamente por “O Fantástico Senhor Raposo”.

Nele –num reflexo bastante crítico da concepção de Anderson ao olhar a sociedade moderna –os humanos são menos compreensíveis que os animais; isso porque os cães não só narram a trama e participam dela ativamente na maior parte do tempo (com diálogos existencialistas e tudo o mais), mas também porque tudo se ambienta no Japão, e os personagens humanos falam somente o idioma de lá, sendo que o filme propositadamente omite as legendas das passagens em japonês –com exceção, de trechos traduzidos por intérpretes, legendas pontuais (e raras), e uma única personagem (uma aluna de intercâmbio) que fala a língua ocidental.

E é curioso notar assim o fascínio  e a intransponibilidade comunicativa que o Japão exerce tanto em Wes Anderson, como em Sofia Coppola (e seu “Encontros e Desencontros”), eles que têm em seu cinema muitas coisas em comum; muito mais do que apenas a presença de Bill Murray em suas obras –que aliás, aqui aparece dublando o personagem Boss!

Sendo assim, de modo geral, a trama de teor político que se descortina ao público é, em grande medida, expressada pelo ponto de vista dos cachorros: Após uma breve introdução de uma lenda segunda a qual o Japão –ou mais precisamente a cidade de Megasaki –viu-se polarizado entre apreciadores de cães e adoradores de gatos, acompanhamos, no futuro, os cães se tornarem alvo de uma manobra política do prefeito Kobayashi para serem dizimados, ao levarem a culpa pela disseminação de um vírus.

Os cães são assim exilados numa ilha –a Ilha do Lixo –e por lá abandonados. Anos depois, um grupo de cães (entre os quais está o narrador da história) testemunha a chegada de uma aeronave à ilha. Ela trás o jovem Atari Kobayashi, sobrinho do prefeito, indo atrás do seu cão guarda-costas, Spots (voz de Liev Schreiber), o primeiro animal para lá enviado.

Todavia, o paradeiro de Spots não é fácil de ser encontrado: Tudo indica que (se sobreviveu...) ele foi parar em algum lugar do extremo oposto da ilha, dominado por um grupo de cães selvagens de hábitos canibais!

Enquanto Atari tenta chegar lá, auxiliado meio a contra gosto pelo desiludido vira-lata Chief (voz de Bryan Cranston), as autoridades de Megasaki preparam uma medida para exterminar de uma vez a mal-fadada ilha dos cachorros: A fim de abafar a descoberta de que o vírus é perfeitamente curável (o que torna assim o retorno dos cães para o continente possível), o prefeito Kobayashi, ignorante da presença do sobrinho por lá, quer aprovar uma erradicação total à ilha, onde cães-robôs disseminarão um composto venenoso a partir de wasabi (!) que matará todos os seres vivos que estiverem lá.

Datado de 2018, é incrivelmente curioso, como um elemento essencial da narrativa de “Ilha dos Cachorros” remete ao cenário de 2020: O do vírus usado para manipular os anseios da população com fins políticos e certamente unilaterais.

Para além desse viés visionário, o diretor Wes Anderson ainda criou uma animação emocionante e pertinente, sobre a intolerância, sobre a intoxicante incapacidade de comunicação, e sobre a necessidade fundamental da preservação animal e ambiental.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Uma Mulher Para Dois

O título nacional de “Mad Dog And Glory” periga confundi-lo na percepção de alguns cinéfilos –ou pretendentes a cinéfilos –com o clássico “Jules e Jim-Uma Mulher Para Dois”, de François Truffaut.
Esta, na verdade, é uma comédia dos anos 1990 que sofre constante ameaça de ser esquecida pelo tempo, como tantas outras obras.
No final dos anos 1980, tendo roteirizado o aclamado “A Cor do Dinheiro” e o sucesso “Vítimas de Uma Paixão”, o escritor Richard Pryce estava com a bola toda, logo, não tardou a fazer o mesmo que todos os artistas que veem o próprio ego ser inflamado por uma boa maré de sorte: Imaginou-se um autor.
O produto desse momento de vaidade é “Mad Dog And Glory”, sobretudo, porque nele se identificam maneirismos de um roteirista que tateia as convenções à procura dos momentos chavões do gênero para neles incutir um refinamento inesperado e uma personalidade tida por singular. Por conta disso, o filme que supostamente seria uma comédia não é, veja só, assim tão engraçado... o que deveria ser um romance não mergulha tanto dos dilemas dos enamorados quanto dá a entender e... se havia intenção na premissa de Pryce de abarcar algum outro gênero, nada nele sugere tal coisa.
O que sobra são méritos que acabam atribuídos a outras presenças do filme –e que, às vezes, podem até resultar de algum acaso!
Robert De Niro vive o policial Wayne Dobie, a quem os amigos apelidaram (sabe-se lá porque!) de Mad Dog –nada em seu comportamento submisso e inerte faz lembrar um ‘Cão Raivoso’; aliás, nada nele faz lembrar outros personagens da galeria de Robert De Niro.
Ao presenciar um assalto casual, Wayne acaba conhecendo o gangster Frank Milo, vivido magnificamente por Bill Murray.
E leva até um certo tempo para nos darmos conta da descomunal ironia de colocar Bill Murray interpretando um mafioso diante de Robert De Niro: Pareceria um tremendo engano dos diretores de casting se o talento dos intérpretes não tornasse tudo imediatamente convincente, e se, em sua espirituosidade, isso já não fizesse parte da brincadeira proposta pelo diretor John McNaughton.
Frank, por sinal, é um gangster pouco usual. É ameaçador e controlador, mas deseja levar divertimento aos outros como comediante de stand up e, apesar da rudeza de seus instintos iniciais, ele intenciona fazer amizade com Wayne.
Todavia, na sua atitude gangster truculenta, a amizade de Frank já alicia certos aspectos da vida de Wayne: Ele despacha para morar com ele por uma semana a garçonete Glory (Uma Thurman, jovem e linda), na intenção de fazer com que a beldade proporcione um pouco de satisfação à sua vida solitária.
Glory tem uma dívida para com Frank, e morre de medo dele, logo, ela insiste para Wayne que, se não tem muita disposição em manter uma amizade com Frank (afinal, ele é tira, Frank é mafioso), ao menos finga estar contente com a presença dela para não deixá-la em maus lençóis.
Assim, muito na galhofa, oscilando entre a leveza de um possível romance e a pretensão de ser todo original, o roteiro de Pryce vai moldando as situações que se seguem. Ele contou, é bem verdade, com a sorte de ter um diretor como McNaughton, perito em tornar qualquer andamento envolvente.
Saído das fileiras de obras independentes com o admirável e tenso cult-movie “Henry-Retrato de Um Assassino”, McNaughton realizou esta espécie de comédia dramática, um surpreendente salto de estilo ao assumir uma produção comercial, não só mudando radicalmente de tom, abordagem e gênero, mas provando versatilidade ao saber lidar com um material tão diferente –e ele voltaria a fazer novamente, anos depois, ao realizar o noir erótico “Garotas Selvagens”.
Escorregadio como era, o roteiro de Pryce poderia representar uma armadilha para qualquer diretor menos capaz, nas mãos de McNaughton é um romance inconstante, porém, ameno e simpático que se sustenta até o fim, e tem o mérito inconteste de revelar uma faceta mais sombria e de magnífico humor negro em Bill Murray (disparado a melhor presença de todo o elenco), a juventude sensual e palpitante de Uma Thurman antes de “Pulp Fiction”, e um lado mais sensível, de ator romântico, em Robert De Niro –se bem que, nesse quesito, ele fica um pouco a dever...

quinta-feira, 19 de março de 2020

Zumbilândia - Atire Duas Vezes

O primeiro “Zumbilândia” até por seu grau de acerto em tantos níveis de sua proposta de diversão pedia, há tempos, por uma continuação.
O problema é que essa continuação demorou um bocado para sair, como atestam os longos dez anos que separam este e o primeiro filme.
Durante esse período tentou-se emplacar uma mal-fadada (e hoje pouco lembrada) série de TV oriunda do filme, de resultado pífio, os zumbis se tornaram uma presença constante e sob ameaça de defasagem na cultura pop graças ao seriado “The Walking Dead” e o seu elenco, sobretudo Emma Stone e Jesse Eisenberg (ela, vencedora do Oscar por “La La Land-Cantando Estações”; ele, indicado ao Oscar por “A Rede Social”), adquiriu renome e reconhecimento a ponto de ser um pouco estranho vê-los de volta aos seus alucinados personagens de início de carreira.
E é exatamente isso, estranhamento, que mais emana desta sequência: Em parte também pelo humor nem sempre funcional que contamina alguns momentos, tornando evidente uma já esperada incapacidade em recuperar a química precisa do filme original.
No mundo pós-apocalíptico conhecido por Zumbilândia, segundo a narração de Columbus (Jesse Eisenberg, envelhecendo rápido), reencontramos ele, sua namorada Wichita (a maravilhosa Emma Stone), a irmã dela, Little Rock (Abigail Breslin, longe da menininha vista no primeiro filme) e o impagável Tallahassee (Woody Harrelson, sempre fabuloso) ocupando a própria Casa Branca dos EUA, e por lá se estabelecendo como num lar.
Contudo, passado algum tempo, a rotina incomoda as mulheres: Little Rock sente-se sufocada pelo cuidado demasiado de Tallahassee, que ainda a vê como criança, enquanto que Wichita reluta em aceitar o pedido de casamento de Columbus.
Diante dessa inadequação, as duas partem para a estrada, deixando os dois em circunstâncias muito parecidas com as quais começaram o primeiro filme. Columbus, porém, não demora a achar algum consolo; e se envolve com a alienada patricinha Maddison (Zoey Deutch, de “O Artista do Desastre”, entregando uma atuação espantosa) cuja falta de noção soa ocasionalmente irreal no contexto de sobrevivência do filme.
Entretanto, a própria Wichita foi abandonada por Little Rock –que resolveu fugir junto de um hippie pacifista (!) –e agora, precisa do auxílio de Columbus e Tallahassee para seguir sua pista até Graceland (onde cruzam com os personagens de Rosario Dawson, Luke Wilson e Thomas Middleditch) e de lá para a comunidade denominada Babilônia –um lugar criado por uma nova e inacreditável geração de hippies que aboliram os uso de armas de fogo; mesmo que cercados de zumbis (!).
O grupo dos protagonistas chega lá a tempo de salvá-los de uma grande encrenca: Às três categorias conhecidas de zumbis, os Homers (os burros e lerdos), os Hawkings (dotados de inesperada inteligência) e os Ninjas (os silenciosos e ágeis que atacam furtivamente), soma-se uma nova, os T-800s (tal e qual o antagonista de “O Exterminador do Futuro”, mais fortes, mais resistentes e mais robustos, os quais dois tiros usuais na cabeça –como no título! –não são meramente capazes de pará-los!), e é justamente uma horda ensandecida deles que busca invadir a pacífica Babilônia.
Nota-se os esforços contínuos dos roteiristas Rhet Reese, Paul Winnick (ambos do primeiro filme) e Dave Callaham, além de seu elenco, para tornar este segundo filme tão divertido e engraçado quanto o primeiro. As soluções encontradas pelo roteiro podem até envolver e garantir alguma graça durante o tempo de duração do filme, mas ele nunca consegue igualar a inspiração flagrante do original –em parte, porque comédia é algo que se faz com espontaneidade, item escasso na maior parte do filme, substituído por uma histeria que o diretor Ruben Fleischer parece confundir com comicidade.
Não é de todo o ruim: Há alguns momentos realmente engraçados, a sintonia entre os protagonistas (salvo, talvez, o deslocamento de Abigail Breslin) continua afinada e carismática, e um ou outro acréscimo no elenco contribui com novas risadas, porém, há algo de muito errado no filme quando percebemos que sua melhor cena, anos-luz a frente de todas as outras, é a sequência surpresa nos créditos finais com a sensacional participação de Bill Murray.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Osmosis Jones

Vez ou outra é possível descobrir, no desigual manancial criativo que foram os períodos das décadas de 1980 e 90, uma obra a representar um corpo absolutamente estranho em qualquer filmografia. É o caso deste “Osmosis Jones” lançado já no fim dos anos 1990 que, sem o exuberante aparato técnico de “Uma Cilada Para Roger Rabbit” ou sem o atrevimento artístico de “Cool World-Mundo Proibido”, uniu, em sua proposta e narrativa, filme em live-action e desenho animado valendo-se simplesmente do princípio básico da ideia: Tem-se aqui uma radiografia bem humorada do que se passa dentro do corpo humano em casos de crises (ou seja, doenças) e, toda vez que o filme deixa seus atores de carne e osso para adentrar a impraticável encenação no interior do organismo, ele se torna animação.
“Osmosis Jones”, veja bem, não é, e nem faz a menor questão de ser, algo documental ou didático: As reações do corpo registradas podem até guardar algum embasamento científico (fruto de um afinco minimamente dedicado ao roteiro), mas seus realizadores encobrem isso ostentando uma recriação do corpo humano em tons de aventura policial, com as intrigas políticas, o submundo da criminalidade e os códigos de conduta dos homens da lei –não raro, assumindo por meio disso, vários expedientes da produção cinematográfica do gênero.
São quase dois filmes tão distintos e incompatíveis entre si que os esforços em conectá-los numa mesma premissa acaba gerando uma estranha curiosidade.
O primeiro desses filmes mostra Frank (Bill Murray), um cara de meia-idade completamente relapso com sua higiene e sua alimentação, para desespero da filha pequena, Shane (Elena Franklin) que, mesmo com pouca idade, já compreende as consequências do desleixo do pai –e teme pela saúde dele.
Trabalhando num zoológico, Frank come, por birra, um ovo cozido emporcalhado que acaba por levar um terrível vírus ao seu organismo.

O que dá a deixa para o segundo filme se iniciar: É acionado o sistema imunológico –representado aqui como uma força policial sujeita à corrupções, complicações na hierarquia e disputas de egos entre seus agentes –que, em princípio, julga ser aquele um problema corriqueiro; todos sabem que Frank vive comendo porcaria!
É um desacreditado agente da Imunidade, Osmosis Jones (voz de Chris Rock) quem fareja instintivamente uma ameaça singular naquele caso: O vírus denominado Thrax (voz de Laurence Fishburne) assume as características de um senhor do crime e, em seus tentaculares atos prejudiciais ao organismo, ele vai de um extremo a outro no corpo de Frank –da unha encravada no dedão do pé até as áreas do cérebro onde mora a elite!
 A extensão caústica de seus poderes começa, pouco a pouco, a minar a integridade física de Frank, levando-o a sucumbir.
De um lado assim, temos o filme de comédia, dirigido pelos irmãos Peter e Bobby Farelli que, como em todas as suas obras, por sinal, ostenta um teor inclinado para o grosseiro, humor que o sempre excelente Bill Murray tira de letra na sua implacável interpretação de um indivíduo assolado por todos os males da displicência alimentar.
Do outro, temos a aventura policialesca de Osmosis Jones, cujo relutante parceiro (filmes sobre duplas de policiais sempre têm um) vem a ser um agente designado ao organismo por um cápsula de remédio, o altivo e dedicado Trix (voz de David Hyde Pierce).
Esse filme animado, de amplitude e escopo muito maior, é dirigido pelo especialista em animação Tom Sito concedendo ao seu trabalho um estilo referencial completamente distinto dos Farelli –essa incongruência não afeta o resultado como um todo de “Osmosis Jones”; as transições (uma ou outra até bem inspirada) deixam claro que, na maior parte do tempo, a mesma trama é compartilhada por dois filmes completamente diferentes, e fazem desse aspecto um dos motivos de graça da produção. Além do quê, quando se fazem necessárias emendas mais elaboradas para que a relação entre os núcleos díspares tenha propósito junto à narrativa (sobretudo, em seu clímax), o roteiro de Marc Hyman exibe a devida coerência e perspicácia.
O grande calcanhar de Aquiles de “Osmosis Jones” é, no entanto, a plateia a quem ele se dirige: A animação, o filme a emoldurá-la e a trama que costura ambos não têm vocação para envolver crianças pequenas (salvo a simplicidade lúdica no designer dos personagens); e a união do humor abertamente escrachado com o film noir à bordo das células do organismo não parece ter uma faixa específica do público à qual se destinar.
Eis, portanto, o fator que pode ter levado a um injusto esquecimento este peculiar e intrigante exercício cinematográfico de junção de gêneros.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Os Caça - Fantasmas

Durante a década de 1980, o diretor Ivan Reitman e o roteirista (e também ator) Harold Ramis, comediantes da segunda geração do grupo “National Lampoon’s” –lembrando que a primeira geração contava com o impagável John Belushi –tiveram a ideia de conceber um filme que reeditasse grandes uniões cômicas do passado, como “O Gordo e O Magro” e “Os Três Patetas”. Aproveitaram para agregar à premissa um senso de aventura que predominava nos grandes sucessos do período e eis que surgiu a ideia de uma equipe de improváveis defensores do mundo contra ameaças sobrenaturais, revestido de certo cinismo que os fazia, na maior parte do tempo, encarar aquele como um trabalho regular, e ainda pontuado por um viés machista que, nos anos que se seguiram, foi ficando até mais evidente para as novas gerações de expectadores.
Dessa forma, encontramos assim o malandro e melindroso Peter Venkman (Bill Murray), o inventor intelectual Egon Spengler (Harold Ramis) e o teórico e inseguro Ray Stantz (Dan Akroyd), desacreditados professores de uma universidade (isso porquê insistiam numas pouco plausíveis teorias a respeito de aparições espectrais e sobrenaturais) que, ao serem demitidos e perderem financiamento para suas pesquisas, adotam uma forma inovadora e prática de ganhar dinheiro: Passam a compor um quarteto (finalizado pela presença do assalariado Winston Zedmore, interpretado por Ernie Hudson) e a oferecer seus serviços como caça-fantasmas, já que as almas de outro mundo não param de incomodar os nova-iorquinos, e não há ninguém disponível para fazer o serviço.
No entanto, as aparições fantasmagóricas têm um propósito –esclarecimento que virá durante a averiguação de um caso específico, o da aflita Dana Barrett, vivida pela bela e elegante Sigourney Weaver –e isso pode acabar levando os caça-fantasmas a terem de salvar o mundo todo.
Não obstante o clássico comercial que o filme se tornou a partir dos anos 1980, não restam dúvidas da inclinação insidiosamente machista nas entrelinhas do filme (que hoje respondem pelas maiores ressalvas feitas a este divertido filme): A personagem de Sigourney Weaver é tratada com interessado desprezo pelo protagonista, e tudo só piora quando é possuída pela entidade do mal na segunda metade do filme, virando um pastiche inverossímil de ninfomaníaca; isso sem falar na personagem rasa e ofensivamente caricata da secretária Janine (Annie Potts, de “Crimes de Paixão”); uma das cenas iniciais, com Peter Venkman tentando um acanalhada e discutível tentativa de sedução de uma estudante em meio a um projeto universitário; e, principalmente, uma cena injustificável (sobretudo, para um filme comercial supostamente indicado para toda a família) onde, durante o sonho do personagem Ray, vemos ele receber sexo oral de uma fantasma (!): Foram justificativas mais que suficientes para a viabilização de uma refilmagem, em 2016, que por sua vez trazia um time só de mulheres.
Se desconsiderarmos aquelas nítidas expressões de mau gosto –uma característica que sempre interferiu no trabalho de Ivan Reitman –sobra em “Os Caça-fantasmas” uma empolgante aventura cômica e sobrenatural, com enlaces de criatividade que nem sua malfadada continuação, nem sua refilmagem foram capazes de equiparar.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

O Fantástico Senhor Raposo


Diretor de filmes live-action com frequência divididos entre a seriedade do drama e o surrealismo da comédia, Wes Anderson se valeu, aqui, do expediente da animação com a qual pode expressar seu estilo em condições que a encenação humana não permitia: Usando de personagens personificados por animais (dublados por um time espetacular de estrelas), de um domínio visual e cênico ainda maior do que aquele que exercia antes e despindo-se de certa dualidade inerente aos filmes encenados por atores, onde a atuação mascara a idealização, Anderson narrou um gracioso conto sobre as pulsões primitivas que nos norteiam.
Ainda que imensamente divertido, engana-se, contudo, quem supõe que esta é uma obra para crianças: “O Fantástico Sr. Raposo” é suficientemente adorável e leve para agradar aos pequenos, mas certamente é aos adultos que a narrativa parcimoniosa, um pouco cínica e cheia de subtexto quer falar.
O Sr. Raposo é... bem, uma raposa. Ele e sua esposa vivem a rotina normalmente arriscada de animais selvagens que vivem de roubar galinheiros. Raposo até sugere opções para sua esposa –qual caminho seguirem para voltar à toca, por exemplo –para deixá-la com uma agradável impressão de consideração; entretanto, ela nunca toma as decisões de fato: Raposo sempre a instiga pela escolha que ele deseja.
Com efeito, quando ela anuncia que espera um filhote –o quê exige que Raposo aposente-se da vida arriscada de ladrão de galinhas e arrume um trabalho mais tranquilo –o marido até consente. Mas, também isso se torna uma promessa vazia: Alguns anos depois de sossegar em sua toca, Raposo muda-se com a família para uma árvore cuja vizinhança inclui três fazendas cheias de iguarias tentadoras –e, logo, seu instinto não tarda a levá-lo a arquitetar estratagemas para roubar as galinhas de uma, as carnes defumadas de outra, e as preciosas garrafas de cidra de mais outra.
É nessa última que Raposo descobre um proprietário capaz de dispor de seus recursos para caçá-lo (e à todos os seus) custe o que custar.
Inspirado num livro do mesmo Roald Dahl que concebeu a premissa de “A Fantástica Fábrica de Chocolates”, o filme de Anderson emprega a subterfúgio óbvio de usar protagonistas animais numa animação para uma reflexão não tão óbvia: Até que ponto o instinto primário se sobrepõe às nossas escolhas.
Junto dessa questão, a condução descontraída de Anderson leva à outras mais: Quão erradas são tais escolhas mesmo que deixemos nosso instinto falar mais alto? Não estamos sendo, afinal, condizentes com nós mesmos?

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Ed Wood

Dando continuidade ao seu propósito como cineasta de enaltecer o obscuro e o indesejado, Tim Burton optou, nesta segunda colaboração com Johnny Depp (o primeiro foi o sensacional “Edward-Mãos de Tesouras”) uma fonte inesperada: Nada de criaturas fantásticas ou seres macabros, nada de histórias fantasiosas ou tramas sobrenaturais, o tema deste filme é a vida e a carreira daquele considerado o “pior diretor de todos os tempos”, Ed Wood –isso, pelo menos, até Tommy Wiseau tirar o posto de Pior Filme de Todos os Tempos de seu “Plan 9 From The Other Space” com “The Room”, mas essa é outra história...
Edward Davis Wood Jr. (vivido com maneirismo e brilho por Depp) é, como todo profissional apaixonado por seu ofício, um entusiasta. Tamanha é sua paixão que, nos percalços para conseguir realizar um filme, Wood não se dá conta da qualidade rasteira do que produz –isso para ele parece ser o de menos. E é o de menos também para o diretor Burton e para o roteiro escrito por Scott Alexander e Larry Karaszewski (que depois escreveriam também o ótimo “O Povo Contra Larry Flint”): Em seu relato, ganha destaque a fauna exótica e notável –e plenamente identificável com as criaturas estranhas pelas quais Burton nutre admiração –de colaboradores que Ed Wood reúne ao seu redor, que contribuem à frente e atrás das câmeras para realizar seus filmes, mas também agem como uma família disfuncional com suas peculiaridades e manias.
Entre eles, está o outrora astro Bela Lugosi, em fase decadente (personificado com irônica sensibilidade por Martin Landau, ganhador do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), que se torna uma presença constante em alguns dos trabalhos de Wood.
Acima de tudo, o filme é uma oportunidade para observar Burton, cujo registro cinematográfico quase sempre prima pelo fantasioso, narrar acontecimentos reais e ainda mais impregnados pela afeição em comum da metalinguagem –nesse sentido, apesar do inusitado da afirmação, “Ed Wood” é como se fosse o seu “8 e ½“: São hilárias as cenas em que Ed Wood executa suas filmagens displicentes (como quando um ator, atacado em cena pelo que deveria ser um monstro tentacular, tem de movimentar os tentáculos com suas próprias mãos), ou os erros crassos que entravam mesmo assim nos filmes (quando George Steele, um de seus atores, muito grande para interpretar um morto-vivo que sai do túmulo, entala no caixão; ele pede ajuda e dois contra-regras vão lá segurar seus braços enquanto Wood ordena ao câmera que “Continue filmando! Continue filmando!”), as descobertas das manias cada vez mais excêntricas (o hábito de vestir-se de mulher que culminou na realização de “Glenn Or Glenda”, e a resignada aceitação da esposa, vivida por Patrícia Arquette, a mais esse desvio) e até a breve cena em que ele troca uma idéia com Orson Welles (Vincent D’Onofrio), o que lhe dá motivação e inspiração para fazer o seu próprio “Cidadão Kane”; justamente o Pior Filme de Todos Os Tempos, “Plan 9 From The Outher Space” –que Wood realizou com energia e fôlego, completamente ignorante da ruindade atroz de sua produção.
Bem no fundo, Tim Burton parece se identificar com Ed Wood exatamente nisso: No fato incontornável de que o criador apaixonado não consegue quantificar o amor de seus expectadores, somente o seu próprio, durante o ato de criação.

Daí o fato de “Ed Wood” ser filmado em um belíssimo preto & branco –não há, afinal, meio-termo na concepção de uma arte como o cinema, cujo combustível é, quase sempre, o amor incondicional de seus artesões.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Zumbilândia

Dos mais divertidos filmes de mortos-vivos que agregam humor em sua premissa –e esse sub-gênero possui exemplares assim aos borbotões –“Zumbilândia”, do diretor Ruben Fleischer, de 2009, se sobressai de forma notável por reunir, ao lado do veterano Woody Harrelson, um time de jovens atores que ainda daria muito o que falar –haviam ali Abigail Breslin, poucos anos depois de ter feito “Pequena Miss Sunshine”, a sensacional Emma Stone (vencedora do Oscar de Melhor Atriz por “La La Land-Cantando Estações”) e Jesse Eisenberg (indicado ao Oscar de Melhor Ator por “A Rede Social”) –por ostentar uma irresistível natureza cult (até hoje, não superada por outras pretensas imitações que vieram depois), por mesclar as características inerentes de filme de mortos-vivos de forma admirável à um humor peculiar, descontraído e bastante acessível, e por ser, de fato, um filme muito bem realizado.
A intenção dos roteiristas Rhett Reese e Paul Wernick (que depois escreveriam “Deadpool”) foi conceber algo até então inédito na TV: Uma série de zumbis –em 2009, eles não tinham ainda virado lugar-comum com a série de sucesso “The Walking Dead”. A idéia era que a trama se estendesse por vários capítulos: O episódio-piloto terminaria na cena em que Columbus (Eisenberg) e Tallahassee (Harrelson) são roubados pelas duas meninas pela primeira vez.
Com seu plano de série rejeitado, eles transformaram “Zumbilândia” num roteiro de cinema.
A trama se passa assim num EUA assolado pela existência de letais hordas de mortos-vivos, uma Zumbilândia.
Lá, seus personagens levam o nome do lugar de onde vieram ou para onde pretendem ir.
Columbus, outrora alienado nerd pouco afeito a deixar a comodidade de seu apartamento, consegue sobreviver por preservar uma série de estranhas regras, justamente os mesmos maneirismo que antes o tornavam anti-social. Após sobreviver por muito pouco ao ataque de sua deliciosa vizinha (Amber Heard) transformada em zumbi, ele pega a estrada e seu caminho cruza-se com o de Tallahassee, um alucinado texano viciado em Twinkies (um bolinho norte-americano) e especializado em matar zumbis das formas mais ecléticas possíveis. A eles, mais tarde irá se juntar uma dupla de irmãs, a sensual e desconfiada Wichitta (Emma Stone, sempre apaixonante), e a jovem e precoce Little Rock (Abigail Breslin). Esse inusitado grupo decide rumar em direção a Costa Oeste, em meio a esse mundo pós-apocalíptico.
A despeito de todas as regras e paradigmas do sub-gênero de mortos-vivos serem seguidos com zelo e atenção, o filme de Fleischer logo adquire características empáticas que o destacam da leva comum de filmes de zumbi –sua narrativa passa a dar mais atenção à graça genuína que pulsa do personagem de Harrelson (que recebe uma ajuda e tanto quando encontra seu ídolo, Bill Murray em pessoa, numa seqüência hilária durante uma parada em Hollywood), ao romance hesitante e bonitinho que surge entre os personagens de Eisenberg e de Emma, e ao senso envolvente de aventura, do que à atmosfera de terror propriamente dita, ou à seqüências mais gráficas e sangrentas.
“Zumbilândia” é, pois, uma distorção da categoria a que pertence –como o próprio gênero de zumbi foi uma distorção dos filmes tradicionais de terror –e, nesse ímpeto consegue fazer o expectador rir e vibrar com seus cativantes personagens.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Os Excêntricos Tenenbaums

Mais uma ode à estranheza, aos marginalizados, aos tipos bizarros que Wes Anderson tanto aprecia enaltecer. Entretanto, há sempre uma particularidade nas singulares criaturas que o diretor gosta de transformar em centros de suas narrativas: Deles parte um ímpeto irreprimível para criar.
Assim é Max Fischer, o aluno fracassado, porém, entusiasta e incansável de “Rushmore”; ou o pesquisador de moral duvidosa, mas de inabalável gosto pelo desconhecido em “A Vida Marinha de Steve Sizou”.
Todos –e outros mais –buscam no intelecto uma fuga para as limitações da vida.
Assim, como os Tenenbauns.
Realizado logo após “Rushmore” ter surpreendido o mundo, “Os Excêntricos Tenenbauns” fala sobre uma família de crianças superdotadas e de como essa condição se transfigurou, na idade adulta, mais como uma sina do que como um dom. A figura paterna –aqui representada pelo espetacular personagem de Royal Tenenbaun, majestosamente vivido por Gene Hackman –surge como o catalisador principal das mazelas, mas a exemplo dos outros protagonistas de Anderson, ele é também um amálgama carinhoso, carismático e encantador de inúmeras falhas e defeitos humanos.
Longe da família por motivos que não tardam a ficar evidentes –como suas recorrentes falhas de caráter –Royal descobriu que tem câncer, ele deseja então reunir-se com sua ex-esposa (Angélica Hunston), agora de casamento marcado com o novo namorado (Danny Glover, hilário), e com seus filhos, o metódico Chas (Ben Stiller) cuja obsessão minimalista por segurança contamina seus filhos pequenos; a escritora prodígio Margot (Gwyneth Paltron), mesmerizada num casamento completamente apático com seu ex-professor (Bill Murray); e Richie (Luke Wilson) que exilou-se numa longa viagem de cargueiro pelo mar devido à atração incestuosa que nutre desde sempre por Margot (!).
Além deles, há também a ocasional presença de Eli Cash (Owen Wilson), amigo inseparável dos Tenenbauns desde a infância.
A reunião de familiares tão idiossincráticos rende um filme em si incomum, como é do agrado de seu realizador, um perspicaz observador das peculiaridades insignificantes que o olhar ordinário deixa passar.
Ao justapor duas facetas completamente diferentes da família –uma usina de neuroses e, ao mesmo tempo, um refúgio de empatia e amor –e vislumbrar por meio disso uma obra cinematográfica de notável ressonância emocional, o diretor Wes Anderson corrobora também com uma premissa que pareceu não conseguir deixar de lado: A família, e os esforços de seus membros em continuar encontrando um laço e uma unidade. Afinal de contas, vem a ser este enredo mais uma vez o foco de Wes Anderson no irregular e perdido “Viagem À Darjeling”, também ele com Angélica Huston.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Feitiço do Tempo

Uma das melhores comédias realizadas nos anos 1990, este trabalho brilhante do diretor Harold Ramis equilibra certa reflexão filosófica com um humor irresistível e prazeroso, obtido graças ao fato do ator Bill Murray, assim como vários membros da equipe técnica e do elenco, estar em estado de graça.
Murray usa de seu impecável retrato do cinismo –cujo uso constante só não o rotulou porque Murray sempre ostentou uma insuspeita competência muito pouco reconhecida –para interpretar Phil Connors, o arrogante repórter de uma emissora de TV que, no dia registrado em questão, vê sua impaciência ser posta a teste durante o período em que, muito a contragosto, deve ir para a gélida cidadezinha de Punxsutawney (que nome, hein?!), na Pensilvânia, cobrir o evento chamado, Dia da Marmota.
Ele acorda –insatisfeito com as acomodações do hotel onde está hospedado –faz seu serviço (que basicamente resume-se a cobrir a evento em que a população assiste à uma marmota sair de dentro da terra) e dedica-se então a aporrinhar sua equipe (a produtora interpretada pela bela Andie McDowell e o cameraman interpretado por Chris Elliott) para ir embora logo de uma vez. Para sua indignação, não é o que acontece: A previsão do tempo alerta sobre uma nevasca, obrigando-os a ficar por lá.
É nesse ponto, contudo, que o filme de Harold Ramis dá sua maravilhosa guinada: Sem quaisquer explicações, sejam de ordem fantástica, literária ou até mesmo figurada, o dia se repete –Phil acorda na manhã seguinte e descobre que está vivendo novamente o dia anterior, e que somente ele parece se dar conta desse detalhe.
E no dia seguinte, tal loucura torna a acontecer, e no outro depois dele, sucessivamente. Phil se vê preso no que parece ser uma versão cômica de alguma premissa que ficaria muito bem num dos episódios da série de TV, “Além da Imaginação”.
Conforme se adapta à sua condição de existência contínua em um único dia, Phil experimenta as diferentes etapas que a mente humana atravessa rumo a uma espécie de amadurecimento: Perplexidade, euforia, graça, irritação, angústia, desespero e, por fim, aceitação.
“Feitiço do Tempo” não se enquadra naquela categoria de filmes, sobretudo comédias, que certos expectadores assistem com o superficial intuito de se divertir e depois esquecer (embora seja, sim, inapelavelmente divertido); ele se vale do humor para oferecer ao público uma noção descontraída e vívida do conceito de karma e dharma, o ciclo que engloba o objetivo de atingir equilíbrio e sabedoria e, por conseguinte, o domínio da psique, além de incluir o famoso conceito do Eterno Retorno, de Friedrich Nietzsche, nas entrelinhas graciosas de seu enredo.
Eis, então, o pulo do gato: Um filme divertido, otimista e contagiante, provido também de inúmeras camadas de interpretação.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Tootsie

É sempre bom lembrar do gênio versátil que tinha o falecido diretor Sydney Pollack.
Daquela que é possivelmente uma de suas fases mais produtivas –os anos 1980 –surgiu um de seus trabalhos mais apreciados pelo público: O maravilhoso “Tootsie”.
Nele, somos agraciados com mais uma extraordinária atuação de Dustin Hoffman, mas, todavia, aqui as coisas são diferentes: Dustin interpreta não apenas o ator Michael Dorsey, talentoso, porém desempregado em razão dos constantes embates que seu gênio criativo o leva a travar com os diretores (e que por isso, o restringe às insuficientes aulas de interpretação); Dustin também interpreta Doroty Michaels, a personagem feminina em quem Michael se traveste para enfim conquistar um emprego como parte de um elenco fixo de uma novela, e ter, afinal, dinheiro para pagar as contas.
Aos trancos e barrancos, ele vai mantendo sua farsa a despeito das complicações que aparecem: Uma namorada de quem ele tenta esconder tudo; o sucesso cada vez maior da personagem que está interpretando (na novela!); os avanços assanhados do diretor do programa.
É quanto ele se apaixona por uma colega de trabalho (interpretada por uma belíssima Jéssica Lange, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante) que as coisas ameaçam começar, de fato, a dar errado.

Perspicaz, o diretor Pollack (que aqui dá algumas investidas como ator no papel do agente perplexo de Michael) ampara todo o roteiro, e o humor que dele advém, em seu magistral elenco –onde (não havia como ser diferente) brilha a inacreditável desenvoltura de Dustin Hoffman.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Flores Partidas

Ao receber uma carta anônima de uma suposta ex-namorada do passado afirmando que ele tem um filho que nunca conheceu, homem de meia-idade, solteiro e bem de vida empreende, um pouco a contra gosto, uma busca, indo atrás das mulheres que amou, e que seriam então a possíveis mães de um filho seu. Alguns desses relacionamentos terminaram deixando uma sensação de estranhamento, outros acabaram de forma catastrófica.
Há um curioso quiproquó ao analisarmos este filme colocando-o lado a lado da obra-prima de Sofia Coppola, “Encontros e Desencontros”, que trazia o papel da vida de Bill Murray: O estilo alternativo de Sofia como diretora, feito de minúcias visuais e sonoras, amparado em sutilezas imperceptíveis aos blockbusters bebe, e muito, de uma fonte da qual o tarimbado Jim Jamursch é uma das principais vertentes.
É claro que ele mesmo tem suas próprias influências, e algumas remetem ao cinema francês, mas penso que esse assunto possa ser abordado na resenha de algum outro filme seu.
O próprio Jamursch, vindo de um intervalo considerável de tempo sem filmar, ao realizar este novo trabalho, apropriou-se do astro do filme de Sofia (Murray) permitindo que se estabelecesse entre as duas obras uma similaridade ainda mais nítida e flagrante. Jamursch exerce um cinema independente vago, disperso, sem maiores preocupações em corresponder às expectativas do público ou acelerar a lentidão da narrativa. E ele deixa perceptível uma certa desilusão de sua parte, refletido em um niilismo perene que pontua seu filme (embora haja aqueles que podem argumentar que ele estava lá na maioria de seus trabalhos), em contraponto à ânsia de observar e descobrir o cerne de todo o vazio que pulsa dos trabalhos de Sofia.

A jornada movida pelo personagem de Murray é pontuada pelos ecos de uma vida pregressa que se desconfigura a medida que as mulheres com quem viveu (Sharon Stone, Frances Conroy, Jéssica Lange, Julie Delpy, uma irreconhecível Tilda Swinton) aparecem para dar novo prisma à sua percepção daquilo que se passou (e por vezes, sua percepção de si mesmo), todavia a busca por respostas sempre se revela traiçoeira: Essas mulheres entram, elas próprias, em contradição. Como também parece entrar em contradição, por vezes, o próprio Jamursch, ao concluir a circularidade frustrante que representa ser o próprio fluxo da vida. Nessa plena capacidade de contagiar o expectador com esse desânimo existencial, sua trama ganha interesse graças a Bill Murray,sempre um ator notável, ainda que repetindo em muitos aspectos o personagem que havia interpretado no magistral "Encontros e Desencontros".

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Anjo do Desejo

Existem filmes tão equivocados em sua proposta que é difícil determinar o quê pretendiam dizer, ou o quê, no fim das contas, são.
Este conto algo lisérgico sobre decadência parece ensaiar uma tentativa de ser um drama, uma referência tênue, gaiata e muito hesitante à “Monstros”, de Todd Browning, arrisca virar uma história de amor, mas esbarra na falta de química atroz do par central, e acaba encerrando-se num final circular que, embora até interessante, nada acrescenta ao todo.
O problema talvez seja –como veremos mais adiante –os três principais nomes envolvidos na produção: O ator Mickey Rourke (que à despeito de seu talento, aqui mostra-se completamente perdido), a atriz Megan Fox e o diretor Micht Glazer, que trabalha num roteiro de sua própria autoria.
Mickey Rourke é Nate Poole, um trompetista que vive à duras penas nas empoeiradas cidades do meio-oeste americano, vivem de tocar em espeluncas e boates de strip-tease. Logo no início ele é abordado por um matador contratado que o leva para o deserto a fim de executá-lo por ter mexido com a mulher errada. E nessas primeiras cenas já se percebe a incapacidade do diretor em dar qualquer fôlego narrativa à elas.
Poole é salvo, sem maiores explicações, por atiradores índios vestidos de branco (!) e, a partir daí, caminha a esmo pelo deserto, terminando por deparar-se com um circo de aberrações.
É curioso notar que, embora o roteiro pertença ao diretor, ele não soube enfatizar o aspecto absurdo e surreal que pulsa de sua trama, e optou por uma condução que soa desanimada e desanimadora o tempo todo.
Por isso, já não nos importamos muito quando o personagem de Rourke encontra Lilly (Megan Fox, ratificando sua incapacidade como atriz), uma bela jovem que, sabe-se lá como, possui duas asas nas costas (como um anjo), e que por isso é a atração principal do lugar. Poole a convence a fugir dali com ele e, embora haja uma conexão amorosa que se consuma, ele a sua como moeda de troca numa negociação que envolve o gangster que havia encomendado sua morte (Bill Murray, graças à Deus uma coisa que presta neste filme!).
Assim, além da pretensão em carregar seus personagens (sobretudo o protagonista) em tintas ambíguas, que terminam apenas lhe conferindo uma prejudicial apatia, a produção não diz a que veio, seja como romance, como suspense, drama alegórico ou qualquer coisa que seja.
Mickey Rourke e Megan Fox estão tão ruins em cena que parecem competir quem tem o rosto de botox mais inexpressivo (acho que é Mickey Rourke!) e, como eles são os protagonistas, isso corresponde a noventa e cinco por cento de todo o filme!!!

O desfecho (quando surge uma cena que revê seu prólogo e dá novo significado à trajetória da obra como um todo) poderia até valorizar o filme, se a mediocridade de tudo o que veio antes não tivesse estragado toda a receita.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Mogli - O Menino Lobo

A criatividade visual esbanjada pelo diretor Jon Favreau pulsa em cada fotograma desde seu novo trabalho, mais um da série onde os estúdios Disney transportam para a encenação live-action seus clássicos animados.
E é com satisfação que se conclui que “Mogli” é, até agora, o melhor de todos eles.
Após o início, com “Alice No País das Maravilhas”, de Tim Burton arriscando efeitos em 3D pós-“Avatar” (e a continuação “Alice Através do Espelho” foi lançada este ano, mas essa é uma outra história...), e os subseqüentes “Malévola”, com Angelina Jolie, e "Cinderella", o estúdio está pronto para (re) explorar o filão de suas marcas: Estão engatilhados uma versão de “A Bela e A Fera”, e “A Pequena Sereia” para os próximos anos.
Mas é “Mogli” que vem mostrar (a despeito da bilheteria imensa do açucarado “Malévola”) que isso tudo pode funcionar.
Orfão encontrado na selva pela pantera Baquera (a voz apropriada e solene do grande Ben Kingsley), o filhote de homem, Mogli (o surpreendente garotinho Neel Sethi), é levado para ser criado pelos lobos, os mais adequados à essa tarefa. Mas, com o passar dos anos, Mogli atrai a fúria do tigre Shere Khan (na voz poderosa e amedrontadora de Idris Elba), que usa o medo para controlar toda a selva, e obriga Mogli a tentar regressar às aldeias dos homens, buscando refúgio.
Nessa tentativa de fuga da sanha de Shere Khan, Mogli encontra o urso Balu (a voz divertida e reconfortante de Bill Murray), cuja despojada filosofia de vida oferece uma alternativa amena aos dilemas que as circunstâncias lhe impõem.
Não há como negar que “Mogli” oferece uma bela evolução do talento de Jon Favreau como realizador. Após dar o pontapé inicial no bem-sucedido Universo Marvel Cinematográfico com “Homem de Ferro”, Favreau viu seu estilo ficar cada vez oprimido pelas diretrizes da indústria na sua continuação e no caótico e equivocado “Cowboys & Aliens”. Voltando às suas raízes do cinema independente, Favreau encarou espontaneamente uma produção quase de guerrilha com o singelo e simpático “Chef”, belo trabalho que pareceu lhe restaurar as energias para este projeto, por natureza, imerso nas logísticas complexas da computação gráfica: Durante grande parte do filme, tudo é gerado por computador, tanto os animais, quanto a exuberante floresta que os envolve, exceto seu pequeno protagonista, o quê só salienta o notável trabalho do jovem Neel Sethi, e a austeridade da direção de Jon Favreau.

O projeto em si faz muito lembrar, por isso mesmo, o premiado “As Aventuras de Pi” de Ang Lee, onde também vemos um jovem protagonista hindu às voltas com personagens e todo um mundo de situações inusitadas que jamais ganhariam forma senão pela magia proporcionada pelos milagrosos efeitos visuais da atualidade.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Três É Demais

Talvez, "Rushmore" ("Três É Demais" no Brasil) continue sendo o melhor filme de Wes Anderson, a despeito da aclamação e genuína excelência de muitos de seus trabalhos que vieram depois.
Não é nem o fato de que seu estilo era, então, algo novo e surpreendente.
Na verdade, "Rushmore" reúne elementos que o tornam um filme sem igual.
O título do filme se refere à prestigiada escola na qual o estudante Max Fischer (Jason Schwartzman) estuda, e que por isso, se sente realizado por completo. Max, entretanto, não é exatamente o exemplo de grande aluno que essa escola tem: Seu ponto forte não é inteligência, nem tampouco força física; Max é entusiasmado e, de um certa maneira torta, empreendedor, participa de todas as atividades extracurriculares que a escola tem à disposição.
Um belo dia, essa condição à qual ele se estabeleceu começa a ser ameaçada quando ele se apaixona por uma das professoras, a viúva Rosemary Cross (Olivia Willians, que no mesmo ano participou de "O Sexto Sentido"). Como se não bastasse, sua amizade com um indiferente filantropo de Rushmore, o milionário Herman Blume (um genial Bill Murray), fica abalada sendo que os dois se enamoram dela.
A narrativa de Wes Anderson espertamente subverte as expectativas do público, levando-o a imaginar, por uma sucessão de sequências hilárias e assimetricamente filmadas que esse é, em tudo e por tudo, um filme gaiato e superficial (ainda que prazerosamente engraçado), mas aos poucos, o avanço conciso e inesperado da história impõe uma maturidade que o tom cartunesco parecia disfarçar, e o filme de Anderson começa a cativar e a surpreender, seus personagens revelam-se cheios de camadas, e o filme em si, mostra-se uma obra completa de cinema. Certamente, uma das mais gratificantes dos anos 1990.