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sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Asteroid City


 As obras de Wes Anderson flertam a todo o instante com o estranhamento. Um filme seu corresponde ao caminhar sobre uma corda bamba; o grande achado em seu cinema é o equilíbrio improvável entre a queda drástica rumo à incompreensão e à esquisitice que sempre o assombram e a continuidade de dinâmicas, premissas e dramas que se preservam interessantes, emocionantes e inteligíveis graças ao seu talento. Entretanto, num ou noutro caso pode haver um escorregão –e o exemplo mais patente disso é, na filmografia de Wes Anderson, “A Vida Marinha de Steve Sizou”. À ele junta-se agora este “Asteroid City”.

Como o fizera em “O Grande Hotel Budapeste”, Anderson começa explorando uma narrativa de metalinguagem na qual o filme a se desenrolar mais afrente é, na realidade, um peça de teatro –filmada em preto & branco, na intenção de diferenciar a encenação da trama principal –cujo autor Conrad Earp (Edward Norton) e todo seu séquito de intérpretes são introduzidos ao público pela narração algo irônica e vintage do ator Bryan Cranston.

Quando a peça se iniciar –e o filme, por conta disso, adquirir cores –irá se iniciar também sua trama principal; que, numa das ironias do projeto, tem muito pouco, ou quase nada, de teatral: Asteroid City é o nome de um lugarejo que mal pode ser definido como cidade; um apanhado de instalações (um hotelzinho; uma oficina; um restaurante; um posto militar e pouco mais que isso) que, em meados da década de 1950, cercam o local onde, anos antes, um asteróide lendário caiu. E sua cratera, com todas as ênfases turísticas, se encontra lá. A câmera de Anderson explora –com sua típica observação fria e simétrica –todo esse ambiente aberto num dos primeiros takes, indicando a propriedade hiperlativa da direção de arte e da direção de fotografia, criando juntas, em conjugação, um cenário a um só tempo irreal, impressionante e paradoxalmente autêntico que se enquadraria bem numa narrativa de Federico Fellini, não fosse a pontual e infalível modernidade de suas inserções digitais.

O elenco reunido em “Asteroid City” é vasto e espetacular, daqueles que pouquíssimos diretores tem gabarito capaz de reunir num único projeto, e eles defendem, todos, personagens capturados em suas excentricidades, perplexos diante de uma tristeza a brotar de lugares inesperados. Há, por exemplo, Augie Steenbeck, vivido por Jason Schartzman, que levou os quatro filhos (um rapazinho e três garotinhas trigêmeas) para Asteroid City a fim de finalmente revelar a eles que sua mãe (vivida por Margot Robbie, numa breve cena como a atriz que a interpretaria) faleceu à três semanas (!?). Com seu carro avariado –devido à uma pane que o incompetente mecânico local (Matt Dillon) é incapaz de consertar –eles resolvem ficar por lá, à espera de seu sogro, Stanley (Tom Hanks) que, a despeito da ligeira indisposição com Augie, segue para lá de carro para resgatá-los. Existem ainda June (Maya Hawke), jovem professora tentando administrar os interesses ocasionais de seus jovens  alunos; Midge Campbell (Scarlett Johansson) dona de casa em crise cuja relação com a filha (Grace Edwards) acentua ainda mais sua predisposição à depressão; J.J. Kellog (Liev Schreiber) um turista eventual, constantemente à beira de um ataque de nervos graças às provocações do próprio filho; além de toda fauna de estudantes, pais, professores e cientistas de uma convenção científica realizada lá (a reunir rostos como Sophia Lillis, Rupert Friend, Tlida Swinton e outros); e os militares basicamente representados pelo oficial displicente e indiferente (Jeffrey Wright) e seu subalterno (Tony Revolori).

O vazio existencial estranhamente cômico de cada um desses personagens ganha um novo viés quando Asteroid City é visitada por um alienígena (Jeff Goldblum) –cuja aparição converte brevemente o filme numa animação, outra área de atuação do diretor Wes Anderson, vide o maravilhoso “Ilha dos Cachorros” –e o governo ordena que seja imposta uma quarentena. Confinados naquele espaço, todos os personagens estabelecem uma rotina por meio da qual não apenas convivem uns com os outros, mas também com suas próprias idiossincrasias –material que faz muito o gosto do diretor –sem que aquilo jamais gere, na realidade, um microcosmos: O trabalho de Wes Anderson, bem como sua visão particular de cinema e de mundo, terminam sendo pessoais e peculiares demais para que se possa estabelecer algum tipo de analogia. E quando cai a pergunta “Então sobre o quê exatamente versa o filme?” é quando os problemas de “Asteroid City” começam a se acumular de verdade.

Diferente de outros trabalhos de Wes Anderson nos quais sua sensibilidade conseguiu alcançar o público, emocionando-o ou levando-o a refletir (ou ambos), em “Asteroid City” há um distanciamento resultante, tal é a sensação de alienação que a situação mirabolante e os personagens idiossincráticos, somados, passam ao expectador. “Asteroid City” poderia ser sobre a paranóia atômica de outros tempos, numa curiosa equação com o presente, mas é deveras gaiato e caricatural para isso; poderia ser sobre a pluralidade norte-americana e de como mentalidades e posicionamentos mais nos afastam do que nos aproximam, mas é inacessível em sua insistência no alternativo. Termina sendo um trabalho modorrento e desafiador para os expectadores menos pacientes, capaz de agradar aos fãs incondicionais do diretor, e somente a eles.

quarta-feira, 31 de março de 2021

O Poder e A Lei


 É curioso que este “The Lincoln Lawyer” seja, para muitos, o marco zero da chamada ‘McConassence’ –o processo pelo qual, através de um punhado de filmes, Matthew McConaughey provou que não era um mero galã de filmes românticos, mas sim um ator capaz, competente e destemido –uma vez que ele é consideravelmente menos reconhecido do que os demais títulos que pavimentaram o caminho do astro rumo ao Oscar de Melhor Ator, tais como “Magic Mike”, “Killer Joe”, a primeira temporada de “True Detective”, o próprio “Clube de Compras Dallas” e “Interestelar.

Em termos cronológicos, no entanto, não restam muitas dúvidas de que foi aqui onde tudo começou.

McConaughey vive Michael Haller, um advogado de Los Angeles tarimbado em achar os atalhos em meio às tortuosas cirandas de crimes, flagrantes, delitos e audiências que compõem a rotina judicial. Também é um tanto quanto hábil em ignorar a ressaca moral originada do fato de defender clientes que quase nunca são tão inocentes assim.

No roteiro de John Romano meticulosamente bem inserido nos meandros e expedientes de filmes de tribunal –embora “The Lincoln Lawyer” custe um pouco a se revelar como um –a dualidade a que se presta a atividade do protagonista está esboçada em diversos aspectos de sua vida, inclusive a pessoal: Haller é ex-marido de Maggie McPherson (Marisa Tomei), com quem tem uma filha, e que, por ironia, é justamente promotora de justiça; a ex-esposa, com quem Haller, portanto, precisa manter uma convivência senão dotada de harmonia, ao menos, dotada de camaradagem, tem por ofício exatamente a oposição ao que ele faz, lançar mão de argumentos para incriminar os mesmos meliantes que Haller liberta.

Entretanto, a premissa caminha mesmo em direção ao pulo do gato quando Haller é chamado para defender um réu num julgamento enganosamente simples: Um ricaço (Ryan Phillipe)  foi acusado de espancar uma jovem prostituta. Haller deve inocentá-lo evidenciando o fato de que ela talvez tenha armado para extorquir dinheiro dele.

Se no início tudo parece transcorrer como mais um caso, dos tantos que ocupam, sem maiores preocupações, os dias do desprendido advogado, logo, porém, um detalhe banal acende um alerta em Haller. O caso parece, subitamente, adquirir ligação com outro, sucedido anos atrás, e que resultou na condenação do cliente de Haller.

De alguma forma, os dois casos estão relacionados, e o cliente atual de Haller pode não ser tão inocente quanto afirma.

Contudo, na condição de advogado de defesa, suas mãos estão atadas: Cabe a Haller se esforçar em inocentar seu cliente, qualquer resultado diferente seria prejudicial para sua imagem e carreira, ainda que os indícios de que ele defende agora um sociopata, vão se acumulando.

O filme dirigido com bastante eficácia por Brad Furman lança assim uma pergunta ao expectador: Quais providências tomar quando se descobre, já na metade de um processo judiciário, que o seu cliente deveria, e merecia, ser condenado?

Não é tão simples a resposta, e nem mesmo o filme de Brad Furman pretende nela chegar por meio de um caminho simplista: Quando o julgamento finalmente toma conta da narrativa na absorvente segunda metade, as cartas já se encontram dispostas na mesa apenas para que a direção e o roteiro as trabalhem com perícia e minimalismo, atentos às minúcias de ordem dramática e às reviravoltas imprevistas.

Muito pouco disso funcionaria se a frente de tudo não estivesse um ator expressivo capaz de conduzir a plateia por uma trama pontuada de diálogos e termos complexos: Como um prestidigitador que engana o público com sua agilidade nas mãos, a atuação de McConaughey captura a atenção do expectador mesmo quando o filme, em seu mergulho sem ressalvas nas engrenagens jurídicas, não oferece razões para merecê-la.

Um truque e tanto num filme que termina fazendo jus a essa atenção recebida.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Ilha dos Cachorros


 Wes Anderson tem uma forma toda especial de mostrar-se a um só tempo contundente, tocante, desconcertante e lúdico em suas narrativas. Essas características normalmente se ressaltam quando ele trabalha com animações. “Ilha dos Cachorros” é seu segundo trabalho dentro desse território, antecedido unicamente por “O Fantástico Senhor Raposo”.

Nele –num reflexo bastante crítico da concepção de Anderson ao olhar a sociedade moderna –os humanos são menos compreensíveis que os animais; isso porque os cães não só narram a trama e participam dela ativamente na maior parte do tempo (com diálogos existencialistas e tudo o mais), mas também porque tudo se ambienta no Japão, e os personagens humanos falam somente o idioma de lá, sendo que o filme propositadamente omite as legendas das passagens em japonês –com exceção, de trechos traduzidos por intérpretes, legendas pontuais (e raras), e uma única personagem (uma aluna de intercâmbio) que fala a língua ocidental.

E é curioso notar assim o fascínio  e a intransponibilidade comunicativa que o Japão exerce tanto em Wes Anderson, como em Sofia Coppola (e seu “Encontros e Desencontros”), eles que têm em seu cinema muitas coisas em comum; muito mais do que apenas a presença de Bill Murray em suas obras –que aliás, aqui aparece dublando o personagem Boss!

Sendo assim, de modo geral, a trama de teor político que se descortina ao público é, em grande medida, expressada pelo ponto de vista dos cachorros: Após uma breve introdução de uma lenda segunda a qual o Japão –ou mais precisamente a cidade de Megasaki –viu-se polarizado entre apreciadores de cães e adoradores de gatos, acompanhamos, no futuro, os cães se tornarem alvo de uma manobra política do prefeito Kobayashi para serem dizimados, ao levarem a culpa pela disseminação de um vírus.

Os cães são assim exilados numa ilha –a Ilha do Lixo –e por lá abandonados. Anos depois, um grupo de cães (entre os quais está o narrador da história) testemunha a chegada de uma aeronave à ilha. Ela trás o jovem Atari Kobayashi, sobrinho do prefeito, indo atrás do seu cão guarda-costas, Spots (voz de Liev Schreiber), o primeiro animal para lá enviado.

Todavia, o paradeiro de Spots não é fácil de ser encontrado: Tudo indica que (se sobreviveu...) ele foi parar em algum lugar do extremo oposto da ilha, dominado por um grupo de cães selvagens de hábitos canibais!

Enquanto Atari tenta chegar lá, auxiliado meio a contra gosto pelo desiludido vira-lata Chief (voz de Bryan Cranston), as autoridades de Megasaki preparam uma medida para exterminar de uma vez a mal-fadada ilha dos cachorros: A fim de abafar a descoberta de que o vírus é perfeitamente curável (o que torna assim o retorno dos cães para o continente possível), o prefeito Kobayashi, ignorante da presença do sobrinho por lá, quer aprovar uma erradicação total à ilha, onde cães-robôs disseminarão um composto venenoso a partir de wasabi (!) que matará todos os seres vivos que estiverem lá.

Datado de 2018, é incrivelmente curioso, como um elemento essencial da narrativa de “Ilha dos Cachorros” remete ao cenário de 2020: O do vírus usado para manipular os anseios da população com fins políticos e certamente unilaterais.

Para além desse viés visionário, o diretor Wes Anderson ainda criou uma animação emocionante e pertinente, sobre a intolerância, sobre a intoxicante incapacidade de comunicação, e sobre a necessidade fundamental da preservação animal e ambiental.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Contágio

Em tempos de Coronavírus, este filme lançado em 2011 (durante a comoção do H1N1, a gripe suína) voltou a ganhar relevância na lembrança dos expectadores. Trata-se de uma superprodução conduzida por Steve Sodenbergh com a mesma elegância que ele dedicou à sua obras menores e independentes.
Vitimada por um vírus desconhecido após uma viagem internacional, americana moradora de Minnesota (e interpretada por Gwyneth Paltrow) morre no leito hospitalar sem razões aparentes, logo seguida de seu filho de sete anos.
Ela deixa viúvo seu marido (Matt Damon, provavelmente o protagonista em meio à tantos astros) e os médicos com uma perturbadora interrogação acerca do quê a matou.
Nas cenas simultâneas mostradas por Sodenbergh fica claro que houve contágio: No aeroporto, uma estagiária em Londres, um assalariado de Hong Kong e um executivo do Japão também acabam infectados por ela.
O episódio em solo americano, imediatamente seguido de vários outros, aciona o Centro de Controle de Doenças dos EUA, cujos profissionais (entre eles, Laurence Fishburne, Kate Winslet, Bryan Cranston e Jennifer Ehle) correm para catalogar os efeitos da doença e conter seu rápido avanço identificando cada uma das pessoas contaminadas –que em poucos dias eles perceberão ser milhares.
Logo, um digital influencer (Jude Law) passa a valer-se do fato de ter sido um dos primeiros a noticiar o surto, e gera pânico com suas declarações bombásticas destituídas de embasamento e senso de responsabilidade.
São também enviados profissionais (Marion Cotillard e Chin Han) para investigar a origem do vírus (ao que tudo indica em Macau) enquanto equipes de geneticistas correm contra o tempo para criar uma vacina para o que logo se torna uma ameaça de nível global.
É curiosa a forma com que Sodenbergh aborda os desdobramentos humanos da crise –evidentemente acometida de características muito mais dramáticas do que os exemplos recentes da vida real –ostentando um elenco numeroso e estelar, mas, deixando claro em sua narrativa que essas presenças são, ainda assim, efêmeras diante das implicações ocasionadas de absurdo que se sucedem: A personagem de Marion é sequestrada por aldeões interessados em usá-la como refém para barganhar e tornarem-se os primeiros da fila quando houver uma vacina; o personagem de Jude Law, de olho em lucro pessoal, passa a coagir a população que segue suas orientações para não acreditar no Centro de Controle de Doenças, nem mesmo quando uma cura é finalmente processada; o vírus se alastra com mais intensidade devido à desorganização logística das autoridades locais que, a partir de determinado momento, têm de lidar até com uma greve de funcionários da área de saúde; todavia, nada gera mais caos do que o medo disseminado pela mídia sensacionalista (não dá uma sensação de déja-vú?), o que leva pessoas a estocar comida e o exército a fechar fronteiras; e a própria concepção da vacina (obtida no terço final do filme) se dá pela ação de personagens que desafiaram as normas e a burocracia (como o médico vivido por Elliott Gould e a sensacional personagem de Jennifer Ehle) para agilizar o salvamento de vidas humanas.
Com este filme austero e incisivo, Sodenbergh usa de seu talento para analisar os efeitos de uma epidemia, não tanto pelo aspecto científico e orgânico da doença em si, mas a partir das distintas ações e reações flagradas nos diferentes e diversos personagens que ele bota em cena que, de modo geral, representam os sentimentos cosmopolitas, evasivos e não raro egoístas do ser humano diante dessas situações.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

O Artista do Desastre

Não havia como James Franco interpretar Tommy Wiseau nesta reconstituição apaixonante, apaixonada e heróica dos bastidores do filme “The Room” (hoje dono do infame título de pior filme de todos os tempos) se ele também não viesse a dirigir a produção. Como também não haveria como ele dirigir esta produção se não viesse também a interpretar, ele próprio, o seu protagonista: A personalidade de Wiseau (ou ao menos aquela inacreditável faceta que ele permitiu revelar ao mundo) é indissociável da fauna curiosa e, não raro, perplexa que ele reuniu ao seu redor, da iniciativa inconseqüente e destrambelhada de se lançar como cineasta e do filme absurdamente bizarro que disso tudo resultou.
O grande brilho deste trabalho é, portanto, a compreensão incondicional que James Franco possui dos estranhos impulsos de vaidade que acometeram seu protagonista e que foram interpretados pelo público em geral como cacoetes bisonhos de alguém sem noção. Da mesma forma que sua atuação emula uma admiração salutar, sua narrativa reconhece algo mais onde todo o resto enxergou só galhofa: Uma vontade genuína de expor seus sentimentos por meio da arte.
Do início ao fim os olhos da plateia –porque Wiseau é um personagem deveras singular para isso –o hesitante candidato a ator Greg Sestero (Dave Franco, irmão de James) só consegue superar suas inibições no palco graças ao incentivo um tanto estranho vindo do mais estranho ainda Tommy, que James Franco interpreta com o primor equilibrado e imersivo que lhe valeu o Globo de Ouro 2018 de Melhor Ator em Comédia ou Musical.
Esquisito num nível quase irreal, Tommy Wiseau é aquele tipo de personagem que seria completamente inacreditável se não existisse de fato: Fala com um sotaque bisonho e frequentemente indiscernível, tem um comportamento completamente fora da realidade e preserva um mistério em torno de si mesmo (e de como ele conseguiu ter tanto dinheiro) que torna tudo ainda mais intrigante –ele conta para todos que veio de Nova Orleans, crente de que alguém acredita nesse papo furado!
Justamente por conta dessa alienação extrema experimentada por ele, Wiseau transforma o melhor amigo Greg no foco central de seus planos de vida e juntos os dois vão morar em Los Angeles, tentar a sorte como atores profissionais.
Os primeiros anos –o filme se inicia no fim da década de 1990 –os confrontam com diversos infortúnios e rejeições e, sem conseguir emprego, eles têm a ideia de fazer, eles mesmos, um filme para que possam estrelar como atores.
Tommy, o dono afinal de todo o dinheiro que vai bancar a maluquice, escreve o roteiro que ele mesmo estrela, dirige e produz, com Greg como seu principal coadjuvante.
“O Artista do Desastre” se incumbe assim de todo o non-sense que rondou de ponta a ponta as filmagens de “The Room”, desde cenários desnecessariamente confeccionados em estúdio, até presepadas inacreditáveis (todas elas, claro, protagonizadas, por Wiseau), algumas inclusive que podem ser conferidas no próprio filme que acabou realizado, uma das obras mais absurdas e sem pé nem cabeça da história do cinema –e, por isso mesmo, um fenômeno cult como atestam os depoimentos reais no começo de Kevin Smith, J.J. Abrahams, Lizzy Caplan, Adam Scott e muitos outros..
Embora houvesse material para tanto, o que James Franco realiza não é uma comédia escrachada, mas um esforço conciliatório de chamar o público a compreender a quase sempre incompreensível personalidade de Wiseau, aproximar-se dele, vencer as barreiras de sua esquisitice e vê-lo como um pessoa de verdade.
Na interpretação minuciosa com a qual consegue replicar sem afetação os trejeitos de seu protagonista (e isso, em si, é quase um milagre) e na condução algo estóica do cinema independente em gestação que registra, o filme realizado por Franco pulsa de admiração e bem-querer, seguindo pelo caminho das pedras para ser nem tanto uma comédia de riso frouxo, mas, um belo trabalho sobre cinema e para cinema onde está em foco uma das mais fascinantes, patéticas e tocantes personalidades a aparecer nas telonas.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Godzilla


A vontade do ótimo diretor Garreth Edwards em emular Steven Spielberg é tanta que ele a extrapola: As cenas que sugerem a presença do famoso monstro nas quais mais se sugere do que se mostra remetem imediatamente às cenas elaboradas em “Jurassic Park” e principalmente em “Tubarão”.
Jovem e talentoso, Edwards (cujo crédito como realizador do interessante e independente “Monstros” certamente viabilizou seu passe para este projeto) compreendeu que havia a necessidade de uma referência cinematograficamente mais salutar nesta nova versão do cultuado lagartão hipônico depois da péssima produção de 1998, dirigida por Rolland Emmerich.
E Edwards dá a cara à tapa: Honra não apenas as lições de Spielberg como também realiza uma cena inteira com a arrepiante trilha sonora de Ligety para “2001-Uma Odisséia No Espaço”, de Kubrick; confere ao seu filme um elenco povoado de rostos não só famosos, mas indiscutivelmente competentes (o japonês Ken Watanabe, a inglesa Sally Hawkins, Aaron Taylor-Johnson, Elizabeth Olsen, Bryan Cranston, Julliete Binoche); e finca o pé numa caracterização absolutamente fiel ao Godzilla no designer que ele se apresenta nos filmes originais –mesmo aqueles que padeciam de uma produção rudimentar.
Um longo prólogo (que dura mais do que o necessário) mostra os personagens de Cranston e Binoche (que infelizmente não têm tempo de tela o bastante) às voltas com uma estarrecedora descoberta dele: Após sucessivas pesquisas, uma raça desconhecida de monstros que se alimentam de radiação, os Mutos, é descoberta (e despertada) no Japão.
Anos depois do ocorrido –que a própria corporação envolvida no caso mantém cercada de mistério –e com as investigações à cargo do filho dos envolvidos naquele ocorrido (o papel de Aaron Talor-Johnson), os monstros retornam, agora nos dias atuais, novamente reanimados por radiação. E desta vez, sua sanha de destruição se revela implacável e inacobertável!
Ao mesmo tempo, surge uma criatura abissal e imensurável: o Godzilla. Rastreando esses perigos catastróficos em potencial, as autoridades norte-americanas elaboram o único plano possível: confrontá-los com suas mais poderosas armas.
Entretanto, a saída talvez esteja em permitir que o próprio Godzilla dê cabo de todos eles.
Além da luxuosa produção –que não poupa esforços ao estender a trama para diversos continentes numa notável escala global –e da sua peculiar percepção das cenas de destruição, bem como a forma pouco usual de reger o drama, que conferem sabor ao filme, o trabalho de Edwards ostenta uma nítida intenção de afastar-se às comparações com o “Godzilla” de Emmerich, e nesse esforço de se levar a sério acaba gerando uma estranha incongruência entre a sisudez de sua narrativa (e na seriedade compenetrada de seus intérpretes) e a natureza escapista do filme; Godzilla, afinal, ainda é um lagarto gigante de obras com apelo infanto-juvenil de matinê.
Se falta algum senso de humor para lembrar esse detalhe, o filme de Edwards ao menos compensa esse estoicismo com um belíssimo refinamento.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O Vingador do Futuro 1990 e 2012


Uma das mais sensacionais aventuras protagonizadas por Arnold Schwarzenegger, “Total Recall” talvez tenha sido o primeiro blockbuster a unir o kistch desavergonhado e charmoso dos anos 1980 com o cinismo (já típico no cinema do holandês Paul Verhoeven) que viria a definir uma certa postura da indústria nos anos 1990.
Como muitos filmes fantasiosos daquele período, “O Vingador do Futuro” exige certa cumplicidade dos expectadores de hoje, certo entendimento da maneira precariamente incisiva com que eram realizadas e compreendidas as coisas.
Só essa consideração já viabiliza em si a presença de Schwarzenegger interpretando um operário da construção civil no futuro –papel de homem comum que, em si, soaria incabível a alguém como ele, mas que o filme de Verhoeven faz com que seja uma das razões para a diversão.
Schwarzenegger é assim Douglas Quaid. Morador do planeta Terra do ano de 2048, casado com a bela e estranhamente condescendente Lori (Sharon Stone, pouco antes do sucesso de “Instinto Selvagem”, por sinal, do mesmo Verhoeven), ele começa a perceber estranhos indícios de que a vida que vive não lhe parece bastar.
Movido por essa despropositada indignação, Quaid decide encarar um inovador "pacote de férias" onde ao invés de uma dispendiosa viagem, a companhia encarregada lhe proporciona implantes de memória destinados a simular uma viagem para qualquer lugar do sistema solar.
Quaid escolhe ir para Marte, no entanto, algo sai errado e ele se vê perseguido por misteriosos agentes, muitos interessados em matá-lo de uma vez.
Ao que tudo indica, já haviam outros implantes de memória em sua mente, e ele nunca foi um mero operário. Em busca de respostas ele ruma para o planeta Marte de fato, onde um importante papel numa insurreição o aguarda.
Para os padrões de filmes que Schwarzenegger havia protagonizado –e mais ainda, para os padrões da platéia que ele construiu com esses filmes –a trama de “O Vingador do Futuro” é demasiada complexa e intrincada; e sendo ela baseada em livro de Phillip K. Dick, com seus costumeiros questionamentos sobre quem e o que somos, não poderia ser mesmo diferente.
A junção de facetas tão aparentemente incompatíveis (um roteiro melindroso cheio de ramificações e reviravoltas que confundem a elucidação e um filme de ação de aparência descerebrada, com um astro de filmes de ação notoriamente descerebrados) parece ser, contudo, o grande diferencial em torno do qual o diretor Paul Verhoeven revela de fato entusiasmo em trabalhar: A partir desses elementos absolutamente desconcertantes no que tange a um filme de intenções tão assumidamente comerciais, o holandês maluco entrega um filme sanguinolento, ágil, sensual e repleto de variados e à época realmente impressionantes efeitos especiais.


Ao orquestrar, em 2012, um corre-corre frenético abarrotado de efeitos especiais que buscava refilmar o sucesso dos anos 1990 com Schwarzenegger, o diretor Len Wiseman (de “Anjos da Noite”) realizou um produto comercial –exemplo perfeito do tipo de cinema que ele exerce –assombrado por diversas outras obras além daquela que ele tentou atualizar: Também oriundos da mente do escritor Phillip K. Dick, “Blade Runner” e “Minority Report” são talvez ainda mais determinantes para as opções visuais encontradas aqui, assim como a trama rocambolesca (ou talvez, pretensamente rocambolesca) costurada ao redor de mistérios nebulosos da mente que busca remeter à atmosfera hipnótica de “A Origem”.
Se Paul Verhoeven abraçou o inusitado de seu filme como uma escolha convicta de estilo, Wiseman quer optar vaidosamente pela elegância: No papel que antes soou tão desigual em Schwarzenegger aqui está o (bom) ator Colin Farrell que, justamente por sua adequação, nada acrescenta ao personagem.
A trama continua a se ambientar num futuro distante (e as maravilhas tecnológicas, agora materializadas por efeitos digitais de última geração, cuidam de distanciar ainda mais esse mundo da realidade). Nada de Marte desta vez: Por mais que a Terra encontre-se quase inabitável, as únicas regiões povoadas do planeta são a F.U.B. (a metrópole rica e elitizada) e a "Colônia" (uma espécie de favela high-tech), ambas conectadas por um grande elevador que atravessa o núcleo do planeta.
Em meio a uma dissidência entre o governo opressor que impõe subserviência ao proletariado e a resistência daqueles que buscam igualdade, o operário Doug Quaid (Farrell) descobre que as memórias que possuía até então lhe foram implantadas, e que sua real identidade é a de um importante agente da resistência, o quê pode explicar a violenta perseguição da qual ele passa a ser vítima.
A diferença mais pontual entre os dois filmes (e a que têm mais inspiração também) surge aí. A melhor sacada de Wiseman foi fundir dois personagens do filme anterior num só: O perseguidor vilanesco vivido por Michael Ironside e a esposa de embuste interpretada por Sharon Stone são combinados na personagem sarcástica, implacável e divertida de Kate Beckinsale (por sinal, esposa de Len Wiseman e também protagonista de “Anjos da Noite”).
Pena que, talvez como conseqüência disso, os outros personagens careçam tanto de brilho: A mocinha tão bem intencionada que dá sono de Jessica Biel (particularmente muito má empregada na reformulação de uma das cenas mais interessantes do filme original) e o líder dos perseguidores, um vilão completamente raso vivido pelo normalmente excelente Bryan Cranston.
Este novo “Total Recall” foge dos enigmas intrincados do filme anterior, optando por uma trama de perseguição que, em sua maior parte, soa mais inteligível e acessível. E todas as escolhas do diretor Wiseman vão, aos poucos, impondo uma atmosfera que de fato afasta-se do trabalho de Verhoeven.
Entretanto, chega um ponto em que Wiseman precisa e deve dizer a quê seu filme veio afinal –é quando o novo “Vingador do Futuro” dá suas mais espetaculares escorregadas: Se o tom kistch imposto pelo diretor Verhoeven funcionava muito bem no filme de 1990, aqui a seriedade de Len Wiseman lhe tira muito da graça que poderia ter tido.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Power Rangers

A gênese da série “Power Rangers” foi das mais picaretas: Basicamente, a produtora Saban adquiriu os direitos de exibição daqueles seriados japoneses, como “Changeman” –que chegou a ser exibido no Brasil em meados dos anos 1980 –e, naquela mania norte-americana de tentar evitar material estrangeiro, fizeram uma espécie de “adaptação”; as cenas de diálogos, nas quais a trama era inserida e o elenco principal era mostrado, foram substituídas por um elenco americano no melhor estilo “Malhação”, enquanto que as cenas que envolviam ação, lutas, e efeitos especiais foram mantidas –recurso possível porque os heróis japoneses sempre usavam máscaras que lhes escondiam todo o rosto. O resultado era uma colagem quase sempre mambembe e desvairada –“Power Rangers” desenvolvia assim histórias próprias e um bocado descerebradas.
Essa tática extremamente barata garantiu longevidade à série e, nesse processo, dezenas de seriados com super-heróis japoneses foram reciclados.
O tempo passou e “Power Rangers”, apesar de toda sua aura fuleira, virou objeto de nostalgia.
Isso serve mais ou menos para chegarmos ao longa-metragem para cinema, lançado em 2017 –ele não é o primeiro: Quando a série ainda era exibida, nos anos 1990, foi realizado um longa-metragem para cinema com o elenco original, ligeiramente superior à série, o quê, convenhamos, não quer dizer muita coisa...
Mas, com este novo filme as coisas são diferentes.
Os personagens, a trama e a mitologia que criou-se em torno da série ganham aqui um respeito que o produto original nunca fez por merecer.
Dirigido com disposição por Dean Israelite o filme compensa a condução de atores frouxa e afetada com uma técnica narrativa sempre admirável: O filme já se inicia com dois momentos muito interessantes; o prólogo que rapidamente estabelece a história de Zordon e os ‘rangers’ e a cena seguinte onde a câmera registra um acidente de dentro do carro e realiza diversos giros de 360 graus.
A trama que segue a partir daí depõem a favor do bom-senso de seus realizadores que usaram da mais palatável dentre todas as referências cinematográficas para esse tipo de filme –“O Clube dos Cinco”, de John Hugues.
As semelhanças são até gritantes: Começa em uma sala de detenção (até o cenário lembra bastante o filme de Hugues!), e trata então de apresentar seus personagens –o esportista descolado, Jason (Dacre Montgomery); a patricinha rejeitada pelas outras, Kimberly (Naomi Scott); o nerd inteligente, divertido e vítima eventual de bulliyng, Billy (RJ Cyler). Aos três, mais tarde, somam-se o rebelde descendente de orientais Zack (Ludi Lin) e a desajustada Trini (Becky G).
Juntos, eles encontram a nave na qual as informações acerca dos ‘rangers’ –assim como o espírito de Zordon (Bryan Cranston), nela confinado –irão lhes revelar o destino heróico que lhes aguarda.
Era de se supor que a presença dos mais veteranos Bryan Cranston e Elizabeth Banks (como a carnavalesca vilã Rita Repulsa) compensasse a inexperiência dos atores mais jovens, contudo, ao invés de solidez, eles ostentam o mesmo desleixo.
Mas, o filme, verdade seja dita, beneficia-se de uma expectativa bastante amena em relação ao projeto –quem em sã consciência, mesmo que aficcionado em “Power Rangers” na infância –encararia o filme esperando uma obra-prima?
Do jeito como está, o trabalho de Israelite, embora não escape de algumas falhas pontuais (ritmo apressado em muitos momentos, caracterização afetada, edição irregular), é muito bom: É o tal caso em que os acertos compensam amplamente os erros.

domingo, 23 de abril de 2017

Argo

A produção dirigida por Ben Affleck é um filme primoroso nos mais diversos aspectos, mas talvez, o mais interessante deles é que promove uma junção vistosa, homogênea e relevante entre um cinema sério, de conotações sócio-políticas (e providencialmente baseado em fatos reais) com o entretenimento típico (do qual o próprio Affleck, como ator, participou de inúmeros exemplares), feito puramente para que a tensão, quando suscitada, intensifique a catarse do desenlace seguinte; e nesse aspecto, a direção de Ben Affleck é de uma perspicácia louvável.
Fim dos anos 1970. Sob enorme tensão política, a embaixada americana é invadida no Teerã. Seis de seus funcionários escapam com vida para as ruas e buscam refúgio na embaixada canadense. Sua segurança, porém, deve durar pouco. Correndo contra o tempo, o agente da CIA, especialista em extrações, Tony Mendez (Affleck em interpretação contida e minimalista), elabora uma missão das mais improváveis: Sair daquele país com a identidade de uma equipe cinematográfica canadense que foi lá atrás de locações para um filme de ficção científica intitulado "Argo" –o mundo e a cultura pop, afinal, experimentavam uma febre por filmes de ficção científica iniciada por um certo “Star Wars”!
Para viabilizar essa missão, é criada uma produtora de cinema em funcionamento (contando com os autênticos realizadores vividos por John Goodman e Alan Arkin) e todo um processo ilusório de filmagem que engana os próprios profissionais da área.
O fabuloso Vencedor do Oscar 2013 de Melhor Filme é um prodigioso trabalho do diretor Ben Affleck na construção magistral de uma atmosfera crescente, constituído de uma dosagem refinada (e calibrada à perfeição) de suspense e ritmo. “Argo” se torna fascinante justamente em sua postura, na qual coloca questões culturais, políticas e diplomáticas em segundo plano (sem, no entanto, tirar deles sua importância para com a narrativa) e elege o próprio cinema como o herói da trama e grande salvador dos personagens indefesos e encrencados.
Dentre os últimos ganhadores do Oscar é o mais assumidamente divertido em muito tempo.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Trumbo - Lista Negra

Um daqueles trabalhos de se ampara quase que integralmente no primor de seu ator principal (e o magnífico Bryan Cranston é um suporte espetacular diga-se de passagem), esta obra, apesar de tudo, representa um salto e tanto de sofisticação para seu diretor, o possivelmente subestimado Jay Roach: Ele finalmente começa a fazer para o cinema a transição que havia feito na TV –e que lá rendeu-lhe larga consagração; exclusivamente televisivos foram o ótimo “Recontagem”, e o ainda melhor “Virada de Jogo”, com Julianne Morre.
Todas obras pertinentes e de postura séria, reveladoras de um diretor preocupado e atento aos meandros numerosos dos pormenores que compõem a política, e que afetam a vida do cidadão comum.
E no cinema, o quê Jay Roach fez?
Comédias rasteiras, divertidas é verdade, mas vulgares até, do porte de “Entrando Numa Fria” (aquele com Robert De Niro e Ben Stiller) ou “Os Candidatos” (com Will Ferrel).
Dava a impressão que Roach reservava sua faceta de cineasta mais sério, mais ambicioso e mais capaz para a TV.
Com “Trumbo” ele parece finalmente harmonizar essas duas metades distintas como realizador num longa-metragem cinematográfico. Há humor aqui também, mas é um humor empregado com minúcia e astúcia, feito mais para pontuar o andamento da narrativa e dela não fazer um desafio enfadonho ao expectador, assim como serve igualmente para salientar uma das muitas características notáveis de seu biografado.
Uma correção: “Trumbo” não é exatamente uma biografia.
Roach apropria-se do trecho mais significativo da vida do roteirista Dalton Trumbo, para com isso construir uma trama pulsante sobre o direito à liberdade de expressão: O período no qual, logo após ser contratado por um estúdio por um valor recorde, ele é incluído na famigerada ‘lista negra’ na Hollywood dos anos 1940, quando uma paranóia anticomunismo gerada a partir do fim da Segunda Guerra Mundial deu início à Guerra Fria e a uma chamada ‘caça às bruxas’ nos EUA.
Trumbo, comunista convicto e declarado, logo se torna persona non grata em Hollywood (sendo encarcerado, inclusive!) a despeito de seu talento sem igual como escritor e de sua considerável retidão moral como ser humano. Nessa condição, ele se vê obrigado a usar pseudônimos ou outras pessoas para assinar seus roteiros que, independente disso, conquistam grande sucesso chegando até a ganhar (em dois casos específicos: “A Princesa e O Plebeu” e “Arenas Sangrentas”), o Oscar da Categoria –os quais ele ficou anos se poder receber!
Esses percalços (cadeia, empobrecimento e árdua redenção), assim como os de sua família, são mostrados ao longo de décadas. Em meio à essa jornada, Roach não tem pudor em eleger Bryan Cranston como nosso condutor, plenamente consciente da sintonia incomum que ele conquista com o papel –não só é um trabalho de primorosa reconstituição gestual, como também é uma atuação brindada por trejeitos planejados e organizados com carinho e zelo, emoldurando assim as frases espirituosas e afiadas que ele dizia.
Felizmente, o elenco de apoio consegue refletir a competência de um protagonista tão bom (caso contrário, o filme padeceria de um incômodo desequilíbrio): Diane Lane, ainda linda e pontual, como sua esposa, Cleo; Elle Fanning, doce e expressiva, como sua filha, Nikola; Helen Mirren, britanicamente perversa como Hedda Hopper; Michael Stuhlbarg como Edward G. Robinson; Louis C.K. como Arlen Hird; e John Goodman como Frank King.
Agora é só aguardar e torcer para que este filme acertado, fluido e prazeroso seja apenas o primeiro de várias outras obras cinematográficas que venham a revelar o cineasta completo que é Jay Roach.

sábado, 23 de abril de 2016

O Resgate do Soldado Ryan

Existem alguns filmes que já nascem clássicos. Ao assistí-los, somos invadidos por aquela rara sensação de que, por mais recentes que sejam, estamos vendo uma obra destinada a ser um clássico moderno, um filme do qual gerações iram falar e comentar nos anos vindouros.
Poucas foram as vezes em que tive essas sensação, mas um delas ocorreu em 1999, quando vi pela primeira vez “O Resgate do Soldado Ryan”, e fiquei assombrado já em sua meia hora inicial, quando testemunhamos a cena da invasão das praias da Normandia pelos aliados, e somos arremessados num caos assombroso de destruição e morte.
É uma cena que Spielberg atreveu-se a filmar com inéditos realismo e transgressão, valendo-se de uma linguagem documental e de uma montagem nunca menos que primorosa. A forma como ele escolheu registrar este filme poderoso tornou-se moda em todos os filmes subseqüentes que tratavam de cenas de conflito, ainda que em 1986, um filme desconhecido, o bielo-russo “Vá e Veja” já trouxesse muitos dos artifícios muito bem empregados por Spielberg.
Contudo, o filme que se segue àqueles trinta primeiros minutos acachapantes não é menos que magnífico: Sobreviventes daquele mesmo episódio, um grupo de soldados liderados pelo capitão Miller (Tom Hanks em uma de suas mais sensacionais interpretações) acaba por receber a mais incomum das missões; em uma guerra onde todos morrem aos borbotões, eles são incumbidos de encontrar e trazer de volta para casa um único soldado, James Francis Ryan, o mais novo de cinco irmãos, todos falecidos em combate.
Como no também primordial “A Lista de Schindler” salvar uma única vida, como os soldados iram descobrir, vale todo o esforço do mundo.
Um passo definitivo na direção do cineasta sério e respeitado que Spielberg veio a se tornar, “Soldado Ryan” é repleto de considerações e momentos magníficos, onde percebemos a diferença que faz um grande diretor: Sua maturidade surge em diversas situações, como na do soldado covarde que deixa um alemão matar seus inimigos ou na comovente revelação de quem o ancião do início do filme realmente é, e os motivos que o levaram até aquele cemitério. Spielberg parece por vezes se conter em sua tentativa de manipular as emoções do espectador; sua abordagem intenciona ser o de um documentarista, tanto que demoramos a perceber o quanto é bela e funcional a trilha sonora de John Willians.

Tal qual outros primorosos filmes que vieram depois, como “Munique”, Lincoln” ou “Ponte dos Espiões”, o diretor, famoso por fantasias como “E.T.”, parece abordar a História como forma de lembrar que a maldade que deflagrou acontecimentos atrozes no mundo é um lembrete, para que eles nunca se repitam.

domingo, 1 de novembro de 2015

Drive

Dublê de corridas cinematográficas de dia e piloto de fugas criminosas a noite, jovem motorista vive sua vida alheio àqueles que estão ao seu redor. Sua bela vizinha e seu filho pequeno são quem começam a romper essa curiosa blindagem que parece separá-lo do resto do mundo. Mas as coisas mudam.
Antes encarcerado, o marido da jovem consegue liberdade e trás consigo problemas perigosos que a ameaçam e ao menino também.
Agora, o "Garoto" (que é como chamam o motorista- quando o chamam) deve valer-se de habilidade e astúcia se quiser protegê-los. Desse modo, sua jornada contra a escória humana (e de certa forma, em direção à escória humana) o transfigura no mais trágico dos personagens: Em nome do amor que sente por ela, ele acaba por tornar-se um assassino, cujos atos, o diretor Nicholas Winding Refn (do notável "Guerreiro Silencioso") trata de reprovar por meio de peculiares comentários que ele parece fazer das cenas que elabora: na ausência de uma trilha sonora que lhes dê embasamento (embora a trilha musical, por assim dizer seja retro e espetacular!); na decisão cheia de bravura de não fazer deste um filme genérico da ação; e no modo quase cirúrgico com que extrai qualquer resquício de heroísmo ao mostrar as cenas do “Garoto” eliminando bandidos com desconcertante riqueza de detalhes sádicos, e ainda deixando muito claro a transformação nociva que essas atitudes gradativamente operam em sua persona.
Para tanto, o diretor conta com uma atuação rica e criteriosa de Ryan Gosling, cujos trejeitos que ele dá ao seu protagonista anônimo não são meros cacoetes, mas sinais de identificação e reconhecimento, amostras de uma personalidade que vemos se transformar.
Winding Refn aproveita também para homenagear elementos do cinema americano que vão dos faroestes de Clint Eastwood à brutalidade de Quentin Tarantino, ainda que ao fim, o filme adquira percepções metafísicas que remetem ao seu próprio cinema, e (de novo) à “Guerreiro Silencioso”.
Todavia, não há como negar: é por “Drive” que ele haverá de ser por um longo tempo lembrado.