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domingo, 3 de julho de 2022

Agente 86


 Há tempos Hollywood tinha interesse em revisitar a bem-sucedida série dos anos 1960 “Agente 86” e, se possível, fazer dela um sucesso de público aos olhos de uma nova geração de expectadores.

A oportunidade surgiu quando a estrela do comediante Steve Carell foi revelada em “O Virgem de 40 Anos” –talentoso, de um humor afiado e de certa maneira sintonizado com o público atual (timing garantido por sua presença também numa outra série, “The Office”, versão americana de um show originalmente inglês), Carell era de fato a escolha perfeita para interpretar Maxwell Smart, o famoso Agente 86; até mesmo parecido com Don Adams, o engraçado intérprete original, ele era!

Na trama, Maxwell Smart, um mero analista e agente júnior do departamento norte-americano de contra-espionagem intitulado C.O.N.T.R.O.L. tem a chance de sua vida para provar seu valor aos olhos de seu Chefe (o ótimo Alan Arkin, que esteve ao lado de Carell em “Pequena Miss Sunshine”), e sair da sombra do superestimado Agente 23 (Dwayne ‘The Rock’ Johnson, num de seus primeiros personagens cômicos e mais distanciados dos sisudos heróis de ação): Promovido a agente de campo, quando outros mais experientes se veem expostos graças aos resultados de uma conspiração, Smart, agora com o codinome de Agente 86, deve executar uma missão tendo por companheira a também não muito experiente Agente 99 (Anne Hathaway, uma bela escalação), onde têm de despistar os perigosos integrantes da C.A.O.S., um sindicato do crime cujo líder, Siegfried (Terence Stamp), cultiva planos de dominação mundial.

Se a sinopse da produção soava genérica em relação a qualquer aventura de espionagem que se preza, isso já era sinal de que o filme dirigido por Peter Segal (de “Ajuste de Contas” e “Tratamento de Choque”) não fazia o menor esforço em seguir por um caminho diferenciado: “Agente 86” abraçava todos os reflexos condicionados e peculiaridades do gênero para, no máximo, tentar lhes atribuir uma sátira que seja original, esquecendo, contudo, que satirizar a realidade (o panorama sócio-político em foco nas premissas de espionagem, no caso) não é nem nunca foi sinal de inovação ou ineditismo. Nota-se certa pretensão em “Agente 86”: Apesar de alguns acertos em sua realização, salta aos olhos o fato de que esta é, essencialmente, uma obra ‘de origem’ –nela, os elementos que definem o protagonista e a mitologia que o cerca vão sendo agregados aos poucos, indicando, portanto, necessidade de uma continuação –e, mais que isso, o objeto central de todo um planejamento (logo à reboque de seu lançamento, foi lançado também, direto para homevideo, um spin-off, “Agente 86- Bruce & Loyd Fora de Controle”, protagonizado por dois personagens coadjuvantes, vividos por Mais Oka e Nate Torrence), o que, dada sua tímida repercussão, não materializou-se nos planos ambiciosos que o estúdio tinha.

A meia hora final chega a agregar um ritmo vertiginoso à mistura, o que termina potencializando muito melhor seu humor de desenho animado e a extrema adequação de Steve Carell, Anne Hathaway e Alan Arkin aos seus personagens –eles se revelam bastante inspirados na caracterização dos papéis de Adams, Barbara Feldon e Edward Platt, respectivamente. Mas, é uma constatação um pouco desfavorável que um filme promissor só venha a encontrar-se de fato em seu terço final.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Dumbo

Um dos responsáveis pela inauguração do filão de adaptações em live-action dos clássicos animados da Disney, com “Alice No País das Maravilhas”, o diretor Tim Burton retorna ao, vamos dizer, sub-gênero que ajudou a criar com esta versão com atores de carne e osso de “Dumbo”.
Ao contrário de produções que tentaram revisionar obras consagradas mas ainda relativamente contemporrâneas, como “A Bela e A Fera” e os posteriores “Aladdin” e “O Rei Leão”, Burton sabiamente optou por revisitar um trabalho do passado –como também o fez Jon Favreau em “Mogli-O Menino Lobo", talvez, o melhor filme dessa categoria até então –beneficiando sua realização não somente com a repaginação técnica da trama e de suas sequências assim reproduzidas e resgatadas, mas agregando valores culturais que não estavam em voga na época da animação original –datada de 1941 –como, por exemplo, o politicamente correto: O “Dumbo” original é notório, entre outras coisas, por uma representação de cunho desprezivelmente racista observada na caracterização de um grupo de corvos.
Tal e qual em ambos os casos (desenho e filme), Dumbo é o filhote de elefante completamente rejeitado pelo dono do Circo Medici (Danny De Vito) no qual nasceu e ao qual pertence. O motivo: O filhote tem imensas orelhas nas quais vive tropeçando ao caminhar.
As primeiras mudanças no filme de Burton –bastante necessárias –surgem já no núcleo de protagonistas: A animação tinha, quando muito, humanos inexpressivos e pouco relevantes à história. Aqui, é pelo olhos das duas crianças, a menina Milly (Nico Parker) e o garoto Joe (Finley Hobbins), que vemos a trajetória de Dumbo se desenvolver.
Os dois são filhos de Holt Farrier (Colin Farrell), outrora um astro do circo como cowboy e domador de cavalos, mas relegado a função de cuidador de elefantes após voltar mutilado –sem um dos braços –da Primeira Guerra Mundial.
É essa família quem adota Dumbo quando todos os outros mais, incluindo o Sr. Medici, tentam livrar-se dele e afasta-lo de sua mãe.
Entretanto, Milly e Joe descobrem uma particularidade em Dumbo: Suas grandes orelhas permitem a ele a capacidade inesperada de voar!
E eis que o filme de Burton, numa estrutura narrativa mais bem resolvida diante da fonte original, toma a deliberada decisão de começar de fato onde a animação terminava: No original, Dumbo descobria só perto do fim o dom de voar e sua transformação em estrela no circo representa assim a redenção alcançada por meio do sucesso.
Já aqui, atingir o estrelato significa, para o elefantinho, o início de suas desventuras. A fama singular de um elefante que voa atrai para perto do Sr. Medici alguém infinitamente mais ambicioso e inescrupuloso, o Sr V.A. Vandemere (Michael Keaton, minimalista em sua vilania), proprietário de um circo de última geração, luxuoso e sofisticado –quase uma espécie de versão sombria de Walt Disney. Ele enreda o Sr. Medici em suas artimanhas e inclui Dumbo em seu próprio espetáculo a fim de ve-lo num número acrobático com sua esposa, a malabarista Colette (a francesa Eva Green, presente nos últimos três filmes de Burton).
Para garantir que tal achado não escape de suas garras, Vandemere pretende afastar Dumbo de sua mãe definitivamente, nem que para isso tenha de sacrificar o animal.
É pois o reencontro de Dumbo com sua mãe, e posteriormente a fuga dos dois para um lugar livre e natural, o objetivo enquanto final feliz da narrativa, algo que não era sequer esboçado na animação de 1941, mas era visto como imprescindível neste filme pelo público ainda durante sua pré-produção; e o diretor Burton, ao lado do roteirista Ehren Kruger (de “Transformers 2-A Vingança dos Derrotados”) foram de encontro à essas expectativas ecológicas.
Um trabalho de encher os olhos em função dos vastos efeitos visuais –aspecto no qual as adaptações em live-action dos clássicos da Disney parecem encontrar seu ponto forte e principal –e embevecido de decisões narrativas que recolocam a trama no elefantinho de orelhas grandes em um novo e certamente mais válido contexto para as novas gerações, “Dumbo”, no conformismo de exibir seu vistoso aparato técnico, é uma produção onde Tim Burton faz aquilo que se espera dele em termos estéticos –e isso já pode ser visto como êxito –embora falhe ao atingir picos de intensidade e de genialidade e nem tampouco alcance o patamar de reconhecimento artístico à época conquistado pelas animações que a Disney agora quer reformular.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Eu Queria Ter Sua vida


Comédias que versam em torno do tema da troca de corpos não são nenhuma novidade no cinema, e “Eu Queria Ter Sua Vida”, de David Dobkin (da cultuada comédia “Penetras Bons de Bico”), encontra nessa redundância a maior de suas complicações.
O roteiro até tem momentos que soam injustificados (e que são contornados, em geral, pela desenvoltura notável da dupla protagonista); seu humor confunde audácia com baixaria; e não raro há passagens inteiras em que o mau gosto predomina (embora não falte à direção uma austeridade pontual para saber desvencilhar-se desse cacoete), porém, nenhum desses aspectos representa um problema com o qual a produção não saiba lidar –seu verdadeiro calcanhar de Aquiles é o incontornável fato de que o filme se apoia numa estrutura previsível, pelo simples fato de que existem dezenas de filmes sobre o mesmo mote a precede-lo.
Ao passo que são melhores amigos, Dave e Mitch não poderiam ser mais diferentes.
Dave (Jason Bateman, bastante à vontade) é responsável, pai da família, casado com a compreensiva Jamie (Leslie Mann, protagonizando, inclusive, desinibidas cenas de nudez) e, no trabalho –ao qual se dedica com um pouco de excesso –está à beira de ser chamado para ser sócio de uma firma de advocacia.
Mitch (Ryan Reynolds, ocasionalmente convincente), por outro lado, não possui responsabilidades –seu medíocre ganha-pão é como ator –e manteve-se solteiro e sem filhos; mas não sem conquistas, que volta e meia aparecem em seu apartamento. Seu pai (Alan Arkin) também marca presença, sempre tentando se acertar com o filho imaturo.
Numa noite de happy hour, Dave confessa sua injúria pela atribulada vida familiar, enquanto Mitch retruca reclamando da falta de estabilidade e da solidão acarretada pela solteirice. Quando os dois se dão conta de que estão cobiçando a vida do outro (e o dizem em voz alta) uma magia se opera: Eles estão mijando no que supõem-se ser uma fonte dos desejos (!), e eis que têm assim seus corpos trocados!
Agora, é o inconsequente Mitch quem habita o corpo do comportado Dave; e deve, portanto, passar-se por ele justamente num momento crucial de sua vida.
Com efeito, Dave, travado que só ele, precisa passar-se por Mitch em sua rotina diária, o quê significa aprender a ostentar uma descontração que ele jamais soube expressar.
Tal e qual obras como o oitentista “Vice-Versa”, o brasileiro “Se Eu Fosse Você”, a ótima animação “Your Name” e a comédia “Sexta-Feira Muito Louca” (o original e a refilmagem), os dois personagens cujas mentes foram trocadas têm um tortuoso caminho até descobrir, no corpo do outro, as qualidades que antes não tinham; e no processo, reveem a própria amizade e suas escolhas pessoais –há também a consequente busca pelo meio de reverter o feitiço, o que se dará somente no trecho final, quando a lição moral estará devidamente assimilada.
Em algum momento, o personagem de Dave começa a se revelar um pouco mais rico e interessante que o de Mitch, mas nada disso parece ser problema para o diretor Dobkin: Sua prioridade é ser engraçado e ele sacrifica muito da narrativa nesse intento, sobretudo, quando erra a mão em sequências que resultam pesadas demais, como a cena em que Mitch precisa atuar num pornô-soft (ao lado da veterana Taaffe O’ Connell, de “Galáxia do Terror”).
Se o filme se sobressai aos seus deméritos é certamente por conta do convincente trabalho dos dois atores principais; embora no princípio pareça que não vão dar conta do recado, Bateman e Reynolds encenam a troca de mentes e de personalidades de seus personagens com precisão surpreendente, atraindo o interesse do expectador em acompanha-los nessa confusão.

terça-feira, 27 de março de 2018

Gattaca - A Experiência Genética

Para o roteirista Andrew Niccol a fama veio pelo roteiro de “O Show de Truman”, estrelado por Jim Carrey e dirigido pelo australiano Peter Weir, mas Niccol sempre foi um autor completo, inclusive encarando também a direção de suas obras, como foi o caso de “Gattaca”, lançado um ano antes de “Truman”.
Há um visível paralelo a ser estabelecido entre esses dois filmes e os demais que integram sua filmografia; que incluem “S1mone”, “O Senhor das Armas” e “O Preço do Amanhã”.
Todos, de uma forma ou de outra, versam sobre a manipulação da vida, sobre as mazelas que o artificialismo pode impor à condição humana e, de uma certa maneira, essa postura aproxima seu cinema de um estilo de pesadelo pós-moderno que remete, em muitos aspectos, à obra literária do escritor Phillip K. Dick.
É sintomático, portanto, que “Gattaca” seja uma ficção científica.
O futuro que Andrew Niccol materializa em seu filme é esteticamente monocromático, estéril e impessoal, as pessoas não manifestam –e, por vezes, nem mesmo têm –sentimentos, e a própria tecnologia (predominante na questão genética) já fez das trajetórias humanas algo pré-determinado: Nesse futuro, os nascimentos não ocorrem por meio de concepção natural, são em sua maioria bebês gerados em laboratório com aprimoramento genético fazendo deles mais forte, mais inteligentes, mais saudáveis e, no instante do nascimento, com sua aptidão futura já definida em seu DNA.
As crianças nascidas de maneira normal são os chamados “filhos da fé” e por carregarem as imperfeições inerentes à natureza sofrem discriminação.
“Gattaca” é, pois, a história de Vincent (Ethan Hawke) um desses “filhos da fé” –ele sofreu desde pequeno a comparação com o irmão mais novo, este sim, gerado em laboratório e fonte de orgulho para os pais. Até o dia em que disse basta e saiu de casa em busca de seu sonho: Tornar-se astronauta e ir para o espaço.
O problema é que tal ofício é restrito aos aprimorados geneticamente, deixando Vincent de fora. A saída é apelar para a clandestinidade: Vincent faz um arranjo com negociadores de uma espécie de mercado negro e se propõe a protagonizar uma arriscada e arrojada farsa. Ele passa a dividir sua morada com o aprimorado Jerome (Jude Law, num dos papéis que o revelaram), que um acidente deixou em cadeira de rodas, e após uma série de pequenas cirurgias, fica com o aspecto físico, a altura e o peso idênticos aos dele.
A jogada é que, nesse mundo automatizado onde os fios de cabelo, os resquícios de pele e até a urina coletada servem de registros de identidade, Vincent pode se passar por Jerome, usando seus vestígios genéticos, e enganar a todos, para que o considerem um aprimorado e permitam que ingresse na Corporação Gattaca, onde poderá viajar ao espaço.
A armação de Vincent e Jerome funciona maravilhosamente bem –tão bem que, Vincent até arrisca envolver-se com a linda e aprimorada Irene Cassini (Uma Thurman) –até que ocorre um assassinato dentro da corporação, e as investigações movidas pelos detetives Hugo (Alan Arkin, sempre sensacional) e Anton (Loren Dean) apontam para a possibilidade de um não-aprimorado estar entre eles e ser, além de tudo, autor do crime.
Imprimindo ao seu filme um ritmo deliberadamente lento e um distanciamento que, na opinião de alguns, obstrui o envolvimento do expectador com os personagens, o diretor Andrew Niccol faz de “Gattaca” um exemplar de ficção científica em seus termos mais radicais e espartanos –uma obra brilhante de fantasia que reflete as inquietações do mundo real por meio da construção estupenda de um futuro provável e engenhoso.
Um grande e fascinante trabalho que merecia ser mais conhecido do público.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

O Quê É Isso, Companheiro?

A indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro para “O Quatrilho”, de Fabio Barreto, em 1996, foi uma espécie de reconhecimento aos esforços da fase da Retomada do cinema brasileiro –era apenas isso, uma indicação, não restando dúvidas de que os demais indicados eram superiores e tinham muito mais chance de ganhar.
Já, em 1998, com “O Quê É Isso, Companheiro?”, de Bruno Barreto (irmão de Fabio), as chances eram um pouco maiores.
Não levou do mesmo jeito.
No entanto, “O Quê É Isso, Companheiro?” representa nitidamente um salto de qualidade e sofisticação na forma de fazer cinema que os realizadores brasileiros estavam redescobrindo.
É curioso como, ao analisar o filme, inclusive levando em conta suas muitas qualidades, ficam evidentes as segundas intenções do diretor em relação ao prêmio e à visibilidade que ele almejava dentro e fora do país.
Veterano na área, inclusive com uma das maiores bilheterias do cinema nacional, “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, no currículo, Bruno Barreto realizou uma obra com nítidas pretensões de soar inteligível e acessível aos expectadores de outro país, não somente o Brasil –diferente do modesto “O Quatrilho”, com sutilezas culturais e regionais que provavelmente só se compreendiam aqui (ainda mais especificamente na região sul) –reconstituindo os eventos que envolveram o seqüestro, em terras brasileiras, de um embaixador americano (vivido por Alan Arkin, com o brilho de sempre).
Ambientado nos anos 1960 e, portanto, historicamente relevante no retrato da luta armada contra a ditadura que promovia (um assunto pouco aproveitado pela filmografia brasileira), o filme lança um olhar algo maniqueísta sobre os militantes ativos responsáveis pelo seqüestro, Fernando (Pedro Cardoso), Maria (Fernanda Torres), Marcão (Luis Fernando Guimarães), René (Claudia Abreu), Jonas (Matheus Nachtergale, ótimo) e Júlio (Caio Junqueira), mostrados com hesitante humanidade, ampla condescendência e subliminar simpatia, enquanto que se vale de uma inapropriada ironia ao mostrar os agentes do governo, interpretados por Marco Ricca e Maurício Gonçalves –particularmente artificial é a cena onde torturam um prisioneiro enquanto dialogam sobre futilidades domésticas, nela as fraquezas da direção de Bruno Barreto ficam mais nítidas.
Seu registro unilateral dos percalços da História recente do Brasil só não é mais contundente que sua inclinação para satisfazer o ponto de vista norte-americano: Coadjuvante indiscutível do filme, o político seqüestrado de Alan Arkin é tratado nos breves diálogos que possui como o personagem mais austero e sensato do filme, soando ideologicamente superior ao personagem de Cardoso, com quem ele mais interage.
Não obstante esse elaborado plano para cair nas graças da Academia de Artes Cinematográficas, a narrativa elegante de Bruno Barreto emula com precisão os elementos do diretor Costa Gravas (um mestre no que diz respeito a suspenses de natureza política) em sua busca paulatina por algo a denunciar e em seus astutos empregos de ferramentas de ficção e de dramaturgia para equilibrar o aspecto historicamente relevante com a funcionalidade enquanto obra de cinema.
Não funciona como um relógio, e a insistência de Barreto em fazer concessões engessa o ritmo em muitos momentos, mas foi um passo considerável no caminho para um cinema cada vez mais qualitativo feito no Brasil.

sábado, 11 de novembro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2007

Veio a ser num dos mais ecléticos e irregulares anos do Oscar que a lenda Martin Scorsese conquistou seu tão aguardado prêmio. E ele ainda veio por um filme menor que, além de ser uma refilmagem (da produção chinesa "Conflitos Internos"), está a anos-luz de distância qualitativa de trabalhos que o mestre já entregou e que ainda viria a entregar.
Coisas do Oscar...
De resto, Academia deu uma ligeira esnobada na chamada “Trilogia Latina”, que comportava alguns dos melhores filmes do ano (quiçá, da década!): “Babel”, tão cotado que estava levou só o prêmio de Melhor Trilha Sonora; “Filhos da Esperança” –talvez, o melhor de todos –mal foi lembrado nas indicações; e “O Labirinto do Fauno”, ainda que tenha obtido a merecida marca de três estatuetas técnicas, amargou a derrota na categoria de Melhor Filme Estrangeiro para o politizado “A Vida dos Outros”.
Coisas do Oscar...
Surpresa mesmo talvez tenha sido ver o favoritíssimo Eddie Murphy perder o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante para o maravilhoso Alan Arkin por “Pequena Miss Sunshine” que –começo a concluir –era, de longe, o melhor dentre os indicados à Melhor Filme.
Fazer o quê?
Coisas do Oscar...

MELHOR FILME
"Os Infiltrados"

MELHOR DIREÇÃO
"Os Infiltrados", Martin Scorsese

MELHOR ATRIZ
Helen Mirren, "A Rainha"

MELHOR ATOR
Forest Whitaker, "O Último Rei da Escócia"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Jennifer Hudson, "Dreamgirls-Em Busca de Um Sonho"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Alan Arkin, "Pequena Miss Sunshine"

MELHOR FOTOGRAFIA
"O Labirinto do Fauno"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Uma Verdade Inconveniente"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"The Blood of Yingzhou District"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"A Vida dos Outros" (Alemanha)

MELHOR MIXAGEM DE SOM
"Dreamgirls-Em Busca de Um Sonho"

MELHORES EFEITOS VISUAIS

MELHOR MAQUIAGEM
"O Labirinto do Fauno"

MELHOR FIGURINO
"Maria Antonieta"

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"Cartas de Iwo Jima"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"O Labirinto do Fauno"

MELHOR TRILHA SONORA
“Babel"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"I Need To Wake Up", de "Uma Verdade Inconveniente"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Pequena Miss Sunshine"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Os Infiltrados"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Happy Feet-O Pinguim"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"The Danish Poet"

MELHOR MONTAGEM
"Os Infiltrados"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"West Bank Story”

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A Pantera Cor-de-Rosa dos Anos 1960 aos 80

A Pantera Cor-de-Rosa (1963)
Na teoria, a idéia era completamente diferente: Fazer uma comédia que enaltecesse a fleuma britânica do astro David Niven, o protagonista de fato deste primeiro filme no papel de Charles Lytton, uma espécie de ladrão aventureiro cheio de charme –quase uma versão cômica do protagonista de “Ladrão de Casaca”, de Alfred Hitchcock, vivido por Cary Grant –que almeja roubar o precioso diamante conhecido como Pantera Cor-de-Rosa em poder da belíssima princesa Dahla (Claudia Cardinale, esplêndida) ao mesmo tempo em que tem um caso com a mulher do investigador da Scotland Yard indicado para encontrá-lo.
Foi justamente no personagem desse investigador, o Inspetor Jacques Clouseau, que a equação se inverteu; pois foi escalado para vivê-lo um promissor comediante inglês chamado Peter Sellers cujas improvisações inventivas, inesperadas e francamente engraçadas deram vida inesperada ao personagem.
Apesar do maior tempo em cena e da maior importância na trama do personagem de Niven, era o Inspetor Clouseau quem conseguiu convencer o público de que se tratava do grande herói do filme: O quê era para ser uma celebração do estrelado de David Niven tornou-se a descoberta de um novo talento.
O diretor Blake Edwards ainda segue aquilo que se esboçava no roteiro –uma comédia de erros transcorrida em grande parte num chalé das montanhas onde todos os personagens se reúnem, na qual Charles Lytton se vê privilegiado todo o tempo, fazendo de Clouseau, com freqüência, o coadjuvante tolo que sempre terminava enganado –no entanto, a soma de todas as improvisações de Sellers provoca um desequilíbrio na narrativa.
Diante das consciências desses detalhes inesperados que moldaram a produção é possível perceber esse estranho reflexo involuntário deste primeiro filme –o de tratar como personagem principal o assaltante verdadeiramente pouco interessante enquanto restringe o tempo de Clouseau.
O público, mesmo o de hoje, não comprou essa idéia, e muitos são os que consideram Clouseau o protagonista mesmo deste filme inicial.
Também vale mencionar o sucesso do personagem animado que tradicionalmente protagoniza os créditos iniciais junto da inconfundível trilha sonora assinada por Henry Mancini.

Um Tiro No Escuro (1964)
Dessa forma, já no ano seguinte, foi providenciada uma continuação, desta vez com Clouseau como seu protagonista oficial.
O resultado, felizmente, era inevitável: Melhor, mais engraçado e bastante superior ao primeiro filme que empalidece consideravelmente na comparação, esta foi a produção estabeleceu, inclusive, uma série de elementos que compuseram a, digamos, ‘mitologia’ da série “Pantera Cor-de-Rosa”. Eles surgem com alguma sutileza aqui, mas foram se intensificando à medida que passaram a fazer parte dos filmes que se seguiram, como o perplexo e desafortunado Chefe Dreyfuss (vivido brilhantemente por Herbert Lom) que desejava ver Clouseau o mais longe possível, e o mordomo Kato (Burt Kwouk) instruído a sempre atacar seu patrão (!), para que assim se mantivesse hábil nas artes marciais.
A trama pode até soar como uma mera desculpa para as gags hilárias e geniais de Sellers, mas, na verdade partiu de uma peça teatral originalmente estrelada por Walter Mathau. Foi sob apelo de Peter Sellers que Blake Edwards envolveu-se no projeto (junto do roteirista William Peter Blatty que, anos depois, escreveria “O Exorcista”), tendo em algum momento a idéia de converter o enredo num filme protagonizado por Clouseau.
Tudo gira em torno da investigação de um homicídio cometido na mansão de um milionário. Seguido de outros mais (numa paródia das obras de suspense ao estilo de Agatha Christie), esse crime tem o Inspetor Clouseau designado para sua solução, cujos métodos incomuns (para não dizer completamente atrapalhados e insanos!) de investigação rejeitam a principal suspeita, uma bela camareira (Elke Sommer), para se concentrar em técnicas nada convencionais para encontrar os verdadeiros culpados.
Este “Um Tiro No Escuro” é, também, o único dos filmes estrelados por Sellers que não trás o personagem animado da Pantera Cor-de-Rosa em seus créditos iniciais.

Inspetor Clouseau (1968)
Quatro anos depois de “Um Tiro No Escuro” houve uma produção –hoje bastante desconhecida, rara e difícil de achar –na qual o estúdio da MGM tentou dar uma espécie de continuação independente para a série: Eles substituíram o diretor Blake Edwards por Bud Yorkin (ainda que Edwards tivesse escrito o argumento), e o protagonista Peter Sellers por Alan Arkin, no papel de Jacques Clouseau. Isso e mais o fato do filme não contar com a memorável trilha sonora de Henry Mancini contribuíram muito para “Inspetor Clouseau” ser visto como um episódio não-oficial da série.
Aqui, Clouseau é requisitado como um representante da Scotland Yard para auxiliar as investigações de alguns policiais norte-americanos nos EUA.
A capacidade imensurável de Clouseau arrumar confusões, contudo, suplanta com margem a boa recomendação que o levou a ser chamado e ele termina seqüestrado pelos criminosos que deveria capturar.
Mais que isso: Ele tem se rosto replicado em várias máscaras que esses mesmos criminosos usarão para praticar uma onda de crimes e jogar a culpa sobre ele.
Num registro cômico mais sutil e gracioso –diferente da genial e explosiva comédia física de Peter Sellers –o grande ator Alan Arkin dá uma versão mais polida e amena para o personagem, o quê parece ter sido a inspiração para Steve Martin quando ele também viveu Clouseau numa refilmagem de “A Pantera Cor-de-Rosa” em 2006.

A Volta da Pantera Cor-de-Rosa (1975)
Dez anos depois da realização de “Um Tiro No Escuro”, o ator Peter Sellers e o diretor Blake Edwards finalmente harmonizaram suas então alardeadas ‘diferenças criativas’ para engatar uma sucessão de filmes consecutivos estrelados pelo Inspetor Clouseau durante a década de 1970.
O primeiro foi este “A Volta...” que começa com uma trama que remete ao primeiro filme: Uma vez mais o diamante conhecido como a Pantera Cor-de-Rosa é roubado. Desta vez, entretanto, restam poucas dúvidas de quem foi: Certamente, Charles Lytton, o ladrão elegante que supostamente seria o protagonista do primeiro filme (e que aqui é interpretado não por David Niven, mas sim por Christopher Plummer, que acrescenta novas sutilezas ao personagem).
A grande ironia é que Lytton, agora, é inocente.
E com o implacável, ainda que incontrolavelmente atrapalhado Clouseau em seu encalço, tudo o que ele pode fazer é mover uma investigação para descobrir, ele próprio, o responsável.

A Nova Transa da Pantera Cor-de-Rosa (1976)
O filme seguinte, um dos mais adorados da série na opinião de muitos fãs, trazia uma premissa que, se avaliarmos as circunstâncias deixadas desde “Um Tiro No Escuro”, acabava sendo um caminho natural: O Chefe de Polícia Dreyfuss, farto das estripulias inacreditáveis de seu subordinado Clouseau (que, a despeito delas sempre se dava bem), entra em colapso e se torna um vilão megalomaníaco que, por sua vez, somente o próprio Clouseau é capaz de deter.
Dentre todos os episódios da série, este é o que assume com mais intensidade sua característica de ‘desenho animado’, refletida no comportamento dos personagens, no estilo do humor e da comicidade e na construção cartunesca de muitas cenas.
O resultado é tremendamente divertido.

A Vingança da Pantera Cor-de-Rosa (1978)
Curiosamente, o filme seguinte, realizado dois anos depois, encontrava uma forma de ignorar por completo a trama de “A Nova Transa...” mostrando mais uma vez o Chefe Dreyfuss como o superior aflito de Clouseau –e, como era tradição na série, alvo involuntário e constante de suas trapalhadas –e não como o grande vilão derrotado no filme anterior: Afinal, o talentoso Herbert Lom era uma escada sem igual para o gênio cômico de Sellers.
Para alguns, a única explicação plausível é que “A Nova Transa...” se inseria no que talvez fosse uma realidade paralela, mas os realizadores contornaram isso com uma boa dose de non-sense: O gangster Phillipe Douvier (Robert Webber) organiza um atentado contra a vida do Inspetor Jacques Clouseau que é então dado como morto.
Diante da notícia da morte de Clouseau, Dreyfuss sara quase que instantaneamente e, como num passe de mágica, está restabelecido em seu cargo na Scotland Yard (!), encarregado de encontrar os responsáveis pelo crime.
Mas, Clouseau não morreu, porém irá manter isso em segredo para poder descobrir a identidade de seus inimigos, valendo-se inclusive do talento para disfarces que ele julga ter (!).

A Trilha da Pantera Cor-de-Rosa (1982)
Era notória a insatisfação de Peter Sellers para com os rumos de sua carreira: Não lhe agradava adquirir fama mundial graças a um filme do qual ele declaradamente não gostava como a série da Pantera Cor-de-Rosa. O público, por outro lado, amava. O quê levava o estúdio e o diretor Blake Edwards à apelos que, a cada filme, iam ficando cada vez mais dramáticos na tentativa de convencer Sellers a viver novamente o Inspetor Clouseau.
Após “A Vingança...” o roteiro preparado para virar um filme, que jamais chegou a se concretizar, se chamava “O Romance da Pantera Cor-de-Rosa”. Isso porque infelizmente Peter Sellers faleceu, vitimado por um fulminante ataque cardíaco.
Edwards, contudo, tinha uma última carta na manga: Algumas cenas adicionais, filmadas por Sellers e deixadas de fora da edição de “A Vingança...”. Bastava construir um roteiro minimamente plausível que acomodasse tais cenas –a participação de Clouseau, no filme, soma cerca de uns quinze minutos –e depois preencher o restante do filme com uma trama não muito convincente que envolve uma jornalista (a comediante Joanna Lumley) que passa então a investigar o abrupto desaparecimento do próprio Clouseau no curso de uma investigação.

A Maldição da Pantera Cor-de-Rosa (1983)
Embora tivesse afirmado –ainda durante a fase de produção e lançamento de “A Trilha da Pantera Cor-de-Rosa” –que nenhum outro ator poderia interpretar Clouseau, Blake Edwards se mostrou, já na década de 1980, mais do que disposto a tentar dar uma continuidade à trama da Pantera Cor-de-Rosa, correspondendo as expectativas do público ao gancho narrativo deixado pelo filme anterior que, sabemos, tratava-se de uma colagem de cenas com um fiapo de roteiro como pretexto para costurá-las.
A ironia e curiosidade da coisa é o ator escolhido por Edwards para tentar dar continuidade de onde Sellers, devido ao seu falecimento, parou: O ainda então James Bond, Roger Moore! O estranho é que não há sequer um esforço para caracterizar Moore, na esperança de que, ao menos em figurino ou maquiagem, ele se assemelhe ao Clouseau de Sellers –algo que, pelo menos, Alan Arkin se dispôs a fazer...
Para facilitar o trabalho de Moore, a participação de Clouseau (que é sempre bom lembrar, estava desaparecido desde o filme anterior) é reduzida ao mínimo neste filme, protagonizado, por sua vez, por outro detetive atrapalhado, Clifton Sleigh (Ted Wass, incapaz de igualar o talento cômico de Peter Sellers), um nova-iorquino escolhido para descobrir o misterioso paradeiro de Clouseau.
Houve nítidas intenções de prosseguir com a série mesmo depois da partida de Sellers, e elas são particularmente notáveis neste filme –em especial, nos fortes ganchos narrativos e nas cenas inconclusivas ao final que enunciam continuações (que jamais vieram), em especial, ao trazer de volta, numa breve ponta, David Niven, mais uma vez como Charles Lytton.

A crítica e, sobretudo, o público decretaram: A série “A Pantera Cor-de-Rosa”, infelizmente, havia mesmo morrido com o genial comediante que lhe tinha dado vida; os planos para dar continuidade à esta trama, quaisquer que fossem, jamais foram materializados, e Blake Edwards passou mais uma década inteira antes de se aventurar a tentar fazer algo dentro daquela série. Infelizmente, isso terminou acontecendo em 1993, com um dos filmes mais catastróficos de sua carreira, “O Filho da Pantera Cor-de-Rosa”, com o italiano Roberto Benigni, mas isso... é uma outra história.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Edward - Mãos de Tesouras

Era uma vez um menininho que se sentia incompleto. Seu aspecto algo soturno o tornava desajustado em meio às pessoas normais, e seus dons artísticos despertavam fascínio em alguns e desconfiança em outros. O nome desse menininho era Tim Burton.
Quando cresceu, ele aprendeu a expressar as inquietações de ser diferente através da arte que adotou como sua, o cinema, e assim surgiram filmes pessoais e peculiares como o curta-metragem “Frankenweenie” e o longa “Os Fantasmas Se Divertem”.
Após o imenso êxito que ele obteve com sua adaptação de “Batman”, em 1989, ele conseguiu viabilização dos estúdios para criar uma história que há muito tempo estava em seu coração.
Essa história se chamava “Edward-Mãos de Tesouras”.
Era sobre um rapaz construído de maneira artificial (no melhor estilo “Frankenstein”, um dos filmes prediletos do jovem Burton) por um velho inventor (Vincent Price, numa atuação tocante) que, por ironia do destino, morre antes de finalizá-lo: Exatamente quando estava prestes a substituir as tesouras afiadas que lhe serviam de mãos, por mãos humanas de verdade.
O rapaz, Edward (um jovem Johnny Depp que agarra o papel com unhas e dentes), fica então sozinho naquele castelo no alto de uma montanha, até que surge Peggy (a maravilhosa Dianne Wiest), uma vendedora da Avon que se compadece de sua solidão e o leva para sua casa.
Vivendo em sociedade, Edward atravessa por fases previsíveis: Primeiro é recebido com a euforia do ineditismo com que são tratadas as novidades, mas, depois, passa a sofrer a maledicência típica daqueles que não compreendem o diferente.
Depois de se apaixonar pela filha de Peggy, Kim (Winona Ryder, belíssima) e de ser enganado pelas mentiras do namorado dela (um vilanesco Anthony Michael Hall), ele passa a ser perseguido.
Tim Burton permite que as emoções muito pessoais –fruto de experiências que ele mesmo deve ter vivido –transpareçam em seu registro algo melancólico desse comportamento preconceituoso e mesquinho que o ser humano não raro adquire em coletividade, mas ele o faz com um senso de humor contagiante e um lirismo que afasta qualquer impressão de rancor deste seu trabalho, talvez o melhor de sua carreira.
Com “Edward-Mãos de Tesouras”, Tim Burton, afinal, encontrou a si mesmo: A partir deste filme ele enfim consolidou o estilo que já tateava com expressão em seus trabalhos anteriores e que seria a pedra fundamental para a escolha de praticamente todos os seus projetos daqui por diante; um estilo que se reflete numa forte identidade visual, obtida, sobretudo, graças aos hiperlativos valores na direção de fotografia de Stefan Czapsky, na direção de arte de Bo Welch, e na emocionante trilha sonora de Danny Elfman, provavelmente a melhor de sua carreira. Foi aqui, também que ele conheceu aquele que pode ser considerado seu ator-fetiche, Johnny Depp, aquele que melhor incorporou o alter-ego, e as expectativas autorais que saíram da mente de Burton, em filmes diversos como “Ed Wood”, “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”, “Sweeney Todd-O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” e tantos outros.
Como é sintomático em sua carreira, Burton conduz o filme à um desfecho que homenageia os filmes de monstro de antigamente que ele tanto amou, onde a criatura (Edward) era sempre vista sendo perseguida pelos moradores da aldeia até seu solitário castelo. Mas, “Edward-Mãos de Tesoura” é também um conto de fadas, e Burton não deixa que ele termine numa nota de consternação –ao fim, descobrimos que Edward é o grande responsável por criar a neve, numa forma de celebrar o mundo que ele conheceu (e no qual descobriu o amor), mas, para o qual não é seguro voltar.
Como Burton, sua criação é o artista, enfim, que expressa suas angústias e felicidades através de sua arte, e consegue o feito de embelezar um pouquinho mais o mundo com ela.

domingo, 23 de abril de 2017

Argo

A produção dirigida por Ben Affleck é um filme primoroso nos mais diversos aspectos, mas talvez, o mais interessante deles é que promove uma junção vistosa, homogênea e relevante entre um cinema sério, de conotações sócio-políticas (e providencialmente baseado em fatos reais) com o entretenimento típico (do qual o próprio Affleck, como ator, participou de inúmeros exemplares), feito puramente para que a tensão, quando suscitada, intensifique a catarse do desenlace seguinte; e nesse aspecto, a direção de Ben Affleck é de uma perspicácia louvável.
Fim dos anos 1970. Sob enorme tensão política, a embaixada americana é invadida no Teerã. Seis de seus funcionários escapam com vida para as ruas e buscam refúgio na embaixada canadense. Sua segurança, porém, deve durar pouco. Correndo contra o tempo, o agente da CIA, especialista em extrações, Tony Mendez (Affleck em interpretação contida e minimalista), elabora uma missão das mais improváveis: Sair daquele país com a identidade de uma equipe cinematográfica canadense que foi lá atrás de locações para um filme de ficção científica intitulado "Argo" –o mundo e a cultura pop, afinal, experimentavam uma febre por filmes de ficção científica iniciada por um certo “Star Wars”!
Para viabilizar essa missão, é criada uma produtora de cinema em funcionamento (contando com os autênticos realizadores vividos por John Goodman e Alan Arkin) e todo um processo ilusório de filmagem que engana os próprios profissionais da área.
O fabuloso Vencedor do Oscar 2013 de Melhor Filme é um prodigioso trabalho do diretor Ben Affleck na construção magistral de uma atmosfera crescente, constituído de uma dosagem refinada (e calibrada à perfeição) de suspense e ritmo. “Argo” se torna fascinante justamente em sua postura, na qual coloca questões culturais, políticas e diplomáticas em segundo plano (sem, no entanto, tirar deles sua importância para com a narrativa) e elege o próprio cinema como o herói da trama e grande salvador dos personagens indefesos e encrencados.
Dentre os últimos ganhadores do Oscar é o mais assumidamente divertido em muito tempo.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

O Sucesso A Qualquer Preço

A origem teatral do projeto é imposta poderosamente na direção de James Foley que engessa a narrativa o tempo todo em um único ambiente. Existem, quando muito, pequenos lapsos do roteiro de David Mamet que esboçam situações em outros lugares, mas o cenário é essencialmente o escritório de vendas aonde a tensão vai ganhando corpo graças principalmente ao majestoso elenco masculino.
Glengarry Glen Ross é a firma de vendas imobiliárias em Chicago que se beneficia, sobretudo, da lábia tarimbada de seus corretores: O calejado Shelley (Jack Lemmon); o irascível Dave (Ed Harris); o titubeante George (Alan Arkin); além do gerente tentacular e impiedoso Williamson (Kevin Spacey) e do representante da empresa titular, Blake (Alec Baldwin).
Homens endividados de classe média nos idos dos anos 1990, eles precisam ofertar, enaltecer e vender seu produto de porta em porta. A comissão garante que o sucesso de suas vendas seja proporcional ao lucro que obtêm. Todavia, nenhum deles se mostra satisfeito com tal sistema, ao contrário, muitos deles vêem, desesperados, clientes que lhes consomem tempo precioso de conversa e terminam não comprando nada.
A única exceção é Ricky Roma (Al Pacino, formidável), o campeão de vendas absoluto do escritório.
A fim de incentivar o mesmo ímpeto nos outros desanimados vendedores, a empresa disponibiliza certos bônus que vão além da comissão, em troca de um aumento quase inumano no índice de vendas. Para pressioná-los, o fantasma da demissão paira sobre todos.
É quando alguns deles começam a elaborar planos mais ilícitos.
O ambiente parece uma panela de pressão onde os ânimos e os propósitos vão se somando até a tensão chegar a níveis notáveis. A direção de Foley e o roteiro de Mamet são perspicazes ao trabalhar um conto enxuto (menos de uma hora e meia de duração), objetivo e incisivo sobre as desesperanças da agitada vida moderna, a analogia implacável da seleção natural, as ironias do drama e a máxima de que nada é fácil para ninguém.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Pequena Miss Sunshine

Não há como negar que existe uma fórmula para se fazer certos filmes dentro do cinema independente norte-americano, por meio da qual alguns realizadores visam um apelo específico junto ao público, uma atenção da crítica obtida em geral pelo caminho mais fácil, e normalmente uma identificação com obras já consagradas que preservem inadvertido carinho junto à seus cultuadores.
O exemplo máximo dessa fórmula costuma sempre ser o saboroso “Pequena Miss Sunshine”.
Misto de roteiro espirituoso, acertos inquestionáveis de elenco e fôlego narrativo, ele se assume como aquele misto de comédia e drama, centrado numa família disfuncional e que, para todos os efeitos, é um retrato simpático dos fracassados da América, os desiludidos sonhadores da classe média baixa que se escondem à sombra do “american way of life”.
A tal família em questão (e que reúne diversos personagens carregados idiossincrasias e peculiaridades) embarca numa kombi para, todos juntos, fazer uma verdadeira migração até outra cidade onde será realizado o concurso de beleza mirim "pequena miss sunshine",do qual a caçula da família, a pequena Olívia (Abigail Breslin, uma graça), deseja ardentemente participar. A família de Olivia é, como não podia deixar de ser, uma coleção de figuras desajustadas: seu pai (Gregg Kinnear), um homem assombrado pela ideia do fracasso e viciado no programa de auto-ajuda que ele mesmo criou; seu avô (o oscarizado Alan Arkin), homem rabugento e lascivo, ainda que cativante; seu tio (Steve Carell), um homossexual depressivo e suicida; seu irmão (Paul Dano), um jovem esquisito que fez voto de silêncio para ingressar na academia militar; e sua mãe (Toni Collette) que se ilude ao tentar assumir o papel de ponto de equilíbrio de todos eles. A precária viagem que farão servirá para todos entenderem melhor a si mesmos.
É uma espécie de tendência surgida no cinema independente (e como toda tendência tem uma conseqüência nociva) surgida justamente a partir da consagração deste filme, ganhador dos Oscar (merecidos) de Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Roteiro Original.
De fato, o equilíbrio de gêneros e humores atende a quase todas as fatias de público, e sua postura algo alternativa garante interesse dos mais intelectuais: É, por assim sim, uma receita de como fazer um filme que todo mundo irá gostar.
O único problema é quando isso afeta uma das mais prolíficas vertentes do cinema norte-americano, já bastante judiado pelas imposições dos blockbusters de estúdios.