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sexta-feira, 23 de junho de 2023

O Abominável Dr. Phibes


 Um homem desejoso de vingança. Uma plano intrincado. Uma lista de potenciais vítimas. Esses elementos, tão comuns a diversos gêneros cinematográficos, integram o enredo do estranho clássico britânico do diretor Robert Fuest que com eles compõe o que no fim das contas não passa de uma grande brincadeira: Já a adentrar os anos 1970, quando astros de outrora do quilate de Vincent Price já eram enxergados com certa decadência, e o estilo de terror da Hammer Studios já se mostrava defasado ante as narrativas audaciosas e transgressoras que emergiam (Nova Hollywood, exploitation e outras experimentações), “Dr. Phibes” e sua trama investigativa em torno de um vilão caricatural com ares de “O Fantasma da Ópera” valia-se do humor providencialmente negro para oferecer um petulante diferencial. Na Londres de 1971, pessoas começam a aparecer assassinadas por meios um tanto quanto inusitados e estilizados –as encenações de cada crime seguem uma orientação inventiva  ainda que ocasionalmente inverossímil –e o audaz Inspetor Trout (Peter Jeffrey, de “Se...”) logo suspeita ser obra de um único criminoso. As vítimas, portanto, estão interligadas: Todas compuseram uma equipe médica (tratam-se de sete cirurgiões e uma enfermeira) que fracassou ao tentar salvar a vida de Victória, esposa do Dr. Anton Phibes (Vincent Price, como sempre, maligno e vistoso em sua canastrice), dado como morto num acidente de carro quando rumava ao mesmo hospital para ver a esposa.

Cientista, médico, professor de Teologia e doutorado em música, o Dr, Phibes, é óbvio, não morreu, ao invés disso, amargou uma existência soturna, desprovido de voz (suas cordas vocais foram comprometidas no acidente), e passou os últimos anos elaborando minuciosamente seu sofisticado plano de vingança contra aqueles que ele crê terem matado Victória –plano este cujos assassinatos têm inspiração nas Sete Pragas do Egito!

No entanto, com o Dr. Phibes dado como morto, as desconfianças certeiras do Inspetor Trout não são levadas em conta pela Scotland Yard, o que leva o detetive a contar com a ajuda do Dr. Vesalius (Joseph Cotten), chefe da equipe médica que operou Victória, e possivelmente a vítima derradeira do plano do Dr. Phibes.

Cult-movie por excelência, “O Abominável Dr. Phibes” não é um filme imediatamente apetecível ou acessível; vindo de uma vervente autocaricatural que orientou algumas obras de terror naqueles anos 1970 de então, o roteiro de James Whiton e William Goldstein une deboche e perversidade macabra numa mesma proporção, resultando consideravelmente estranho aos expectadores de hoje –os investigadores dos crimes, Trout e Vesalius, oscilam entre o seriamente atrapalhado e o atrapalhadamente sério, enquanto que o gênio vilanesco, louco e desfigurado interpretado por Price só vai aparecendo aos poucos ao longo do filme –essa atmosfera nada usual é enfatizada na trilha sonora de Basil Kirchen e Jack Nathan que adorna com canções como “Charmaine” e “Darktown Strutters Ball” suas sequências de morte (!), criando um efeito desconcertante.

É uma obra cheia de personalidade, de participações se não magníficas, ao menos memoráveis (além da presença de Price, certamente fica na lembrança a atuação silenciosa e sensacional de Virginia North como Vulnavia, espécie de assistente do Dr. Phibes), de elementos até hoje notáveis em sua originalidade (a direção de arte barroca a transformar um antigo cinema em covil do vilão e cenário para seus arroubos; a direção de fotografia de Norman Warwick), todos ingredientes que constituem uma produção singular, dotada de certo charme, e que certamente ganhou ainda mais em absurdo com o passar dos anos. Uma homenagem tão travessa quanto suntuosa às obras de terror de antigamente.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

A Canção de Bernadette


 Em sua estréia no cinema, a jovem Jennifer Jones conseguiu conquistar o Oscar de Melhor Atriz em 1944 numa disputa que envolvia Ingrid Bergman (por “Por Quem Os Sinos Dobram”), Joan Fontaine (por “De Amor Também Se Morre”), Jean Arthur (por “Original Pecado”) e Greer Garson (por “Madame Curie”), além de fazê-lo interpretando uma figura santa, verdadeira armadilha para intérpretes profissionais veteranos que nem sempre conseguem se equilibrar entre o enaltecimento ao personagem e a predisposição para humanizá-lo.

Neste filme habilmente dirigido por Henry King (de “A Epopéia do Jazz” e “Suplício de Uma Saudade”), Jennifer Jones se desvencilha de cada um desses contratempos ostentando uma serenidade contagiante do início ao fim, absolutamente apropriada à pureza da personagem que vivencia.

Ela é Bernadette Soubirous, filha de uma família de pobres camponeses na cidadezinha de Lourdes, no interior da França do Século XIX.

Assolada pela tuberculose, Bernadette não consegue comparecer às aulas religiosas da paróquia local, e sua desinformação quanto aos mais simples preceitos religiosos lhe acarreta a fama de idiota entre os moradores do vilarejo.

Numa bucólica quinta-feira, Bernadette, junto da irmã e de uma amiga, vai à beira de um rio, situado na área desolada de Massabielle, nos arredores do vilarejo, a fim de catar lenha. Lá, Bernadette tem uma visão: Uma mulher de beleza celestial, e vestes que, em sua descrição, correspondem às da Virgem Maria, todavia, Bernadette se refere a ela tão somente como a ‘Senhora’.

Embora ninguém mais seja capaz de enxergar a aparição –o que abre espaço para todo o tipo de questionamento, e para maldosas especulações de que a garota estaria louca –muitos são os que se mobilizam para ver Bernadette  rezar naquele mesmo lugar após a ‘Senhora’ tê-la orientado para encontrá-la ali diariamente ao longo de 15 dias; inclusive sua mãe, uma das muitas pessoas inicialmente relutantes em relação às alegações da filha.

Contudo, é a convicção irredutível de Bernadette que convence a todos –uma garota tão simples e tão destituída de segundas intenções, não seria capaz de inventar e manter uma história como essa se fosse mentira.

Quando os mais céticos começam a cobrar uma prova de tais visões, diante do clamor popular que o caso de Bernadette vai tomando, surge uma fonte de água pura no mesmo lugar indicado por ela. A fonte tem propriedades curativas; pessoas enfermas, ou até moribundas veem-se curadas ao beber de sua água.

A história se espalha, mobilizando cada vez mais fiéis que buscam a inexplicável água milagrosa providenciada por aquela que, mais tarde, por meio da própria Bernadette se autointitulada Imaculada Conceição.

Na faltam, na trajetória de Bernadette, os desprezíveis indivíduos (comumente relacionados à autoridade) procurando detê-la e desacreditá-la a qualquer custo: O mais significativo deles é o promotor Vital Dutour, vivido por Vincent Price com a extrema generosidade em abraçar papéis vilanescos que o fez notório.

Ele faz o possível para desacreditar Bernadette –até contrata um psiquiatra com planos de interná-la em um hospício –e, mais tarde, tenta valer-se da Lei para impedir o acesso do povo às águas da fonte, isso quando a questão envolvendo Bernadette já havia chegado ao conhecimento do Vaticano que, hesitante, iniciou um árduo processo para confirmar cada um dos milagres relacionados.

Longo, solene e com frequência emocionante, o filme de Henry King esbanja a primazia do diretor e sua capacidade em capturar com objetividade, os elementos cruciais à trama numa narrativa sem firulas, tal e qual os seus pares, grandes realizadores do mesmo período. Não à toa, essa demonstração de invejável fôlego cinematográfico foi contemplada com quatro pontuais prêmios Oscar, além de Melhor Atriz, Melhor Fotografia em Preto & Branco (numa ano que contava com a excelência de “Casablanca”), Melhor Decoração de Interiores em Preto & Branco (o que seria hoje chamado de Direção de Arte) e Melhor Trilha Sonora para Drama.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Laura

“Jamais vou me esquecer do fim de semana em que Laura morreu.”
A frase que abre um dos mais brilhantes filmes noir já realizados e uma das melhores obras entregues pelo diretor Otto Premiger já trata de estabelecer a situação por meio da qual a trama encontra seu ponto de partida –e nisso há um brilhantismo que só aos poucos será percebido –o assassinato de Laura Hunt (a estonteante Gene Tierney) que ocupa o cerne da questão desde o princípio do filme.
O detetive Mark McPherson (Dana Andrews, formidável) se incumbe das investigações e de pronto esbarra nas características insólitas e escorregadias do caso, especialmente materializadas em dois personagens que não facilitam em nada seu trabalho: Shelby Carpenter (Vincent Price, majestoso em sua canalhice) o suposto noivo de Laura, e seu melhor amigo Waldo Lydecker (Clifton Webb, brilhante).
A dinâmica entre Laura, Shelby e Waldo logo se mostra intrigante nos flashbacks que a esclarecem: À sua maneira egoísta, afetada (afeminada, até) e manipuladora Waldo amava Laura, e com isso, a medida que sua amizade se tornava cada vez mais simbiótica com ela, Waldo tentava usar de seus recursos para sabotar todos os pretendentes que buscavam ganhar o coração da garota.
E Shelby era um caso incomum: Inescrupuloso, vigarista, playboy e enganador, ele mesmo já fornecia os motivos para Laura deixá-lo –e tais motivos, transcorrido o crime o fazem, na opinião de Waldo, o suspeito nº 1.
E é a partir daqui, leitor desgostoso com spoilers, que esta resenha deve deixar de interessá-lo.
O fator realmente inusitado na investigação de McPherson, no entanto, ocorre quando ele se descobre apaixonado por Laura (!) –instigado pelos relatos acerca dela e pela sua visão quase onipresente no quadro exposto em sua sala de estar.
Dono de uma narrativa primordial, o filme de Preminger equilibra uma reviravolta após a outra sem jamais perder o fio da meada, graças à uma brilhante simplicidade em sua premissa que poucos (quiçá, nenhum) filme hoje é capaz de igualar: Em determinado momento, naquela que pode ser considerada a grande (e monumental) guinada do filme, Laura aparece viva (!).
Pode parecer absurdo, mas o filme se sai de forma maravilhosa e elegante no esclarecimento desse quiproquó: Laura foi dada como morta numa sexta-feira, quando se preparava para ir passar o fim de semana numa casa de campo. Alguém assassinou, com um tiro de espingarda no rosto, um moça com suas características físicas. Durante todo o tempo em que ficou na casa de campo, Laura não recebeu quaisquer notícias, enquanto todos os seus conhecidos deduziram que ela havia morrido. Ela só voltou para casa na terça-feira à noite, encontrando lá o Tenente McPherson, que mal disfarçou seu estarrecimento –lembre-se o filme pertence à década de 1940, onde a informação não tinha os meios digitais e a agilidade que possui hoje.
Ao Tenente McPherson restam então duas novas questões: Descobrir quem, afinal de contas, foi a pessoa assassinada no apartamento de Laura, e encontrar o culpado sendo que ganhou uma nova suspeita em potencial, a própria Laura.
A complicar tudo isso, está o interesse de McPherson por Laura –que, verdade seja dita, é transformada pela narrativa de Preminger e pela atuação adorável da lindíssima Gene Tierney, num perfeito oposto das femmes fatales do gênero: Apaixonante, ela é a personagem que torcemos para ver em segurança e seu romance com o Tenente McPherson ganha a cumplicidade do expectador porque ele é o único personagem masculino a emergir com decência e dignidade em meio à tantos tipos ambíguos e dissimulados.
Uma síntese sensacional de investigação criminal repleta de lances surpreendentes e de um inesperado e marcante viés romântico, “Laura”, dentro da categoria do filme noir, só encontra rival na obra-prima “O Terceiro Homem” quando o assunto é uma narrativa absorvente que envolve o público com uma trama construída por detalhes diferenciados e fascinantes desdobramentos.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Muralhas do Pavor


Grande nome das fileiras do cinema B de terror norte-americano, o diretor e produtor Roger Corman sempre se mostrou eclético, peculiar e incansável: Sua filmografia, entre produções e direções, comporta mais de 200 títulos que passeiam por praticamente todos os gêneros, do faroeste à comédia, do policial ao terror.
E todos têm como característica uma enxuta economia de orçamento e um excessivamente prático cronograma de realização –alguns filmes eram filmados e finalizados em poucos dias.
Lançado na década de 1960 –quando Corman iniciou um cilco de adaptações de Edgar Allan Poe com um pouco mais de dinheiro do que era o seu habitual –“Muralhas do Pavor” é um dos, digamos, clássicos realizados por Corman na medida em que todas as restrições habituais enfrentadas pelo realizador (sobretudo, neste caso) não o impedem de seduzir com o mistério, intrigar com o suspense e satisfazer com a sofistação.
Dividido em três episódios (uma prática também comum à Corman), “Muralhas do Pavor” começa adaptando o conto “Morella” no qual testemunhamos o regresso de uma jovem (Maggie Pierce) ao tenebroso castelo onde vive seu pai (Vincent Price, ator predileto de Corman que comparece, em diferentes papéis, nestas três histórias). A moça, porém, não tarda e fazer uma descoberta estarrecedora: O cadáver da mãe, morta 26 anos atrás, ainda é conservado, por meio de técnicas macabras e mirabolantes, pelo pai.
O segundo conto promove uma fusão entre “O Gato Preto” (e dele acaba levando o título) e “O Barril de Amontilado” enquanto conta a trama sinistra onde um casal (Price novamente e a bela Joyce Jameson), ao fazer amizade com nuances de rivalidade com um bêbado de comportamente muito estranho (Peter Lorre, magnífico), dá início a uma série de terríveis acontecimentos.
O filme se encerra com “O Caso do Sr. Valdemar” onde um homem à beira da morte (Price) é submetido à uma sessão de hipnose com a intenção de prolongar-lhe a vida pelo excêntrico Dr. Carmichael (Basil Rathbone).
De impecável atmosfera gótica.
Todos pertencem àquele universo tenebroso –no qual o escritor Edgar Allan Poe não tardou a se revelar um mestre –onde a morte e seus desdobramentos mais sombrios e inacreditáveis encontram um meio de infectar o bem-estar dos vivos.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Edward - Mãos de Tesouras

Era uma vez um menininho que se sentia incompleto. Seu aspecto algo soturno o tornava desajustado em meio às pessoas normais, e seus dons artísticos despertavam fascínio em alguns e desconfiança em outros. O nome desse menininho era Tim Burton.
Quando cresceu, ele aprendeu a expressar as inquietações de ser diferente através da arte que adotou como sua, o cinema, e assim surgiram filmes pessoais e peculiares como o curta-metragem “Frankenweenie” e o longa “Os Fantasmas Se Divertem”.
Após o imenso êxito que ele obteve com sua adaptação de “Batman”, em 1989, ele conseguiu viabilização dos estúdios para criar uma história que há muito tempo estava em seu coração.
Essa história se chamava “Edward-Mãos de Tesouras”.
Era sobre um rapaz construído de maneira artificial (no melhor estilo “Frankenstein”, um dos filmes prediletos do jovem Burton) por um velho inventor (Vincent Price, numa atuação tocante) que, por ironia do destino, morre antes de finalizá-lo: Exatamente quando estava prestes a substituir as tesouras afiadas que lhe serviam de mãos, por mãos humanas de verdade.
O rapaz, Edward (um jovem Johnny Depp que agarra o papel com unhas e dentes), fica então sozinho naquele castelo no alto de uma montanha, até que surge Peggy (a maravilhosa Dianne Wiest), uma vendedora da Avon que se compadece de sua solidão e o leva para sua casa.
Vivendo em sociedade, Edward atravessa por fases previsíveis: Primeiro é recebido com a euforia do ineditismo com que são tratadas as novidades, mas, depois, passa a sofrer a maledicência típica daqueles que não compreendem o diferente.
Depois de se apaixonar pela filha de Peggy, Kim (Winona Ryder, belíssima) e de ser enganado pelas mentiras do namorado dela (um vilanesco Anthony Michael Hall), ele passa a ser perseguido.
Tim Burton permite que as emoções muito pessoais –fruto de experiências que ele mesmo deve ter vivido –transpareçam em seu registro algo melancólico desse comportamento preconceituoso e mesquinho que o ser humano não raro adquire em coletividade, mas ele o faz com um senso de humor contagiante e um lirismo que afasta qualquer impressão de rancor deste seu trabalho, talvez o melhor de sua carreira.
Com “Edward-Mãos de Tesouras”, Tim Burton, afinal, encontrou a si mesmo: A partir deste filme ele enfim consolidou o estilo que já tateava com expressão em seus trabalhos anteriores e que seria a pedra fundamental para a escolha de praticamente todos os seus projetos daqui por diante; um estilo que se reflete numa forte identidade visual, obtida, sobretudo, graças aos hiperlativos valores na direção de fotografia de Stefan Czapsky, na direção de arte de Bo Welch, e na emocionante trilha sonora de Danny Elfman, provavelmente a melhor de sua carreira. Foi aqui, também que ele conheceu aquele que pode ser considerado seu ator-fetiche, Johnny Depp, aquele que melhor incorporou o alter-ego, e as expectativas autorais que saíram da mente de Burton, em filmes diversos como “Ed Wood”, “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”, “Sweeney Todd-O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” e tantos outros.
Como é sintomático em sua carreira, Burton conduz o filme à um desfecho que homenageia os filmes de monstro de antigamente que ele tanto amou, onde a criatura (Edward) era sempre vista sendo perseguida pelos moradores da aldeia até seu solitário castelo. Mas, “Edward-Mãos de Tesoura” é também um conto de fadas, e Burton não deixa que ele termine numa nota de consternação –ao fim, descobrimos que Edward é o grande responsável por criar a neve, numa forma de celebrar o mundo que ele conheceu (e no qual descobriu o amor), mas, para o qual não é seguro voltar.
Como Burton, sua criação é o artista, enfim, que expressa suas angústias e felicidades através de sua arte, e consegue o feito de embelezar um pouquinho mais o mundo com ela.