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sábado, 27 de julho de 2024

Deadpool & Wolverine


 E já aviso de antemão, leitor ocasional ou não, este texto contém os famigerados spoilers, logo, se você aprecia uma experiência cinematográfica com surpresas intactas, leia depois de ter visto o filme!

Após os eventos de “Deadpool 2”, o mercenário Wade Wilson, mais conhecido como Deadpool (Ryan Reynoldos, desempenhando em estado de graça como sempre) procura por Happy Hogan (Jon Favreau) a fim de ingressar nos Vingadores –naquela época, 2018, vale lembrar, além dos acontecimentos de “Deadpool 2”, ainda estávamos às vésperas dos eventos bombásticos de “Vingadores-Guerra Infinita”. Durante a cena –que mais lembra uma mera entrevista de emprego –Happy convence Wade de que ele não necessariamente leva jeito para ser superherói (não no sentido altruísta do termo) e acaba convencendo-o a aposentar seu uniforme. De volta à sua realidade (para a qual ele pode ir e voltar graças ao aparelho fornecido por Cable em “Deadpool 2”, diga-se), Wade se torna um vendedor de carros e assim passam-se seis anos.

É no aniversário de Wade –no qual, providencialmente se reúnem os seus melhores amigos, ou seja, os coadjuvantes que estiveram ao lado dele em seus dois filmes –que o filme, agora dirigido por Shawn Levy, começa de verdade: Wade é visitado por agentes da AVT (Agência de Variância Temporal, mostrada na série “Loki”) e levado até sua sede onde recebe do funcionário Paradox (Matthew McFadyen, de "Orgulho e Preconceito") uma notícia indigesta. O seu universo (que corresponde ao universo mais ou menos bagunçado de filmes da Fox) está morrendo! Segundo Paradox, todo universo tem uma ‘âncora’, um ser tão essencial àquela realidade que sua morte pode levar à desintegração de todo o universo. A ‘âncora’ do universo de Wade morreu –no caso, Wolverine (vivido como todo mundo sabe, com excelência por Hugh Jackman, há uns vinte anos), no filme “Logan”. Dessa forma, Wade, agora uma vez mais dentro do traje de Deadpool, precisa quebrar as regras da própria AVT (que o tinha levado para lá a fim de chamá-lo a integrar a Linha Sagrada, isto é, o universo oficial do MCU) para encontrar nas infinitas realidades alternativas do multiverso, um substituto apropriado, uma ‘âncora’ que substitua aquela que seu universo perdeu –em outras palavras, um outro Wolverine!

E começam aí, então, o festival de referências que fazem de “Deadpool & Wolverine” uma obra assim tão sedutora: Nas variações de Wolverine que acompanhamos Deadpool encontrar com tanta descontração, vemos versões em live-action de segmentos que farão a felicidade dos fãs de quadrinhos como o Wolverine extraído de “A Era do Apocalypse” (na qual ele não possui uma das mãos!); a versão conhecida como ‘Caolho’; uma versão interpretada pelo ex-Superman Henry Cavill (!); uma recriação de sua primeira aparição nas HQs, quando enfrentou o Hulk; e até mesmo a recriação de uma das capas clássicas das revistas, onde foi crucificado num imenso X de madeira. Ao fim dessa busca, resta somente uma versão apropriada de Wolverine para Deadpool levar consigo, uma versão renegada (ainda que trajando, enfim, o icônico colante amarelo dos quadrinhos e das animações), junto da qual ele retorna à AVT, somente para serem enviados por Paradox ao Voidt, ou Vazio –se você assistiu a série “Loki”, então sabe que trata-se de uma dimensão onde são despejados os sobreviventes indesejados de realidades condenadas que, por algum motivo ou outro, conseguem escapar da eventual obliteração.

Contudo, o Voidt agora está diferente: Por conta de acontecimentos bem reais (no caso, a compra dos estúdios da 20th Century Fox pela própria Walt Disney Company e, portanto, a aquisição desta de todas as propriedades intelectuais daquele estúdio), o Voidt está repleto de personagens oriundos do Universo Marvel da Fox nos cinemas, que reúne os filmes dos X-Men, (num total de onze filmes) os do Quarteto Fantástico (ambas as versões de 2005 e 2015) e os do Deadpool. E claro que, com  isso, o filme de Shawn Levy não haverá de desperdiçar a oportunidade de entregar sequências extasiantes aos expectadores, que apelam ao fã com aparições surpresas (algumas absolutamente sensacionais) capazes de despertar a mesma euforia indescritível que algumas cenas de “Vingadores-Ultimato” o fizeram há cinco anos atrás.

Embora seja uma obra longe da perfeição –e muitos críticos sisudos já correram apontar isso, destacando como exemplo a superficialidade do roteiro em inúmeros trechos, ignorando o fato de que as filmagens de “Deadpool & Wolverine” se sucederam durante a greve dos roteiristas de Hollywood em 2023, o que impediu muitas cenas de ganharem o devido polimento –o filme de Shawn Levy ainda assim tem bom senso e perspicácia o suficiente para sinalizar ao público com tudo aquilo que funcionou muito bem antes deles: O humor incontido e inconsequente de seu irreprimível protagonista (o filme tem a mais alta classificação indicativa permitida pela Marvel Studios até então); as referências inúmeras, algumas um tanto difíceis de se apanhar pelos não-iniciados nos filmes desse certamente vasto universo de heróis; e as sequências vibrantes, feitas para entregar instantes, situações e manobras muito esperadas e almejadas pelos fãs de carteirinha que provavelmente sairão acalentados e saciados do cinema, como há muito tempo não faziam, sob a alegação de que a Marvel havia perdido o jeito para agradar seu público.

“Deadpool & Wolverine” vem provar que não: Ainda há muitas emoções e surpresas a serem entregues ao público. Desde que sejam concebidas por artesões absolutamente capazes e competentes, e tão apaixonados pelo material que manejam quanto seus fiéis expectadores.

domingo, 16 de julho de 2023

A Proposta


 Reunir em cena os astros Sandra Bullock e Ryan Reynolds já é, em si, um trunfo comercialmente promissor: Carismáticos, engraçados e certamente atraentes, eles já representam um chamariz para ambos os públicos, masculino e feminino. A partir dessa consciência de escalação, percebemos que é preciso bem pouco para que “A Proposta” funcione. E é bem isso mesmo: O roteiro escrito por Pete Chiarell (roteirista padrão de Hollywood habituado a escrever para grandes e genéricas franquias) segue a fórmula usual das comédias românticas, a direção de Anne Fletcher se contenta em fornecer uma condução fluida às cenas e ocasionalmente lembra de envolver a tudo com uma fotografia de cartão-postal. A trama não tem nada de mais. A produção não tem nada de mais. Entretanto, eles têm Sandra Bullock e Ryan Reynolds em cena, e isso já segura o filme muito bem.

Sandra é Margaret Tate, uma executiva canadense, ferrenha funcionária de uma editora nova-iorquina de livros, vista por seus subalternos como uma versão literária da Miranda Prestley de “O Diabo Veste Prada” –a própria chefe infernal em pessoa!

E dentre seus subalternos, nenhum sente mais essas agruras na pele do que seu assistente Andrew Paxton (Ryan Reynolds), rapaz que busca, há três anos, galgar os degraus da hierarquia da empresa a fim de realizar seu sonho de virar editor.

O enredo do filme começa a tomar forma quando o roteiro pega ligeiramente emprestado o mote de um dos clássicos da comédia romântica, o maravilhoso “Green Card-Passaporte Para O Amor”: Margaret está para ser deportada para o Canadá (e, portanto, prestes a perder o emprego) quando os agentes da imigração detectam elementos irregulares em seu visto. A única forma de resolver prontamente esse problema é se casando. E eis que, do alto de sua incapacidade para levar em conta os problemas alheios, Margaret afirma para todos –seus chefes e seu fiscal de imigração –que está de casamento marcado com Andrew!!!

A ideia, para ela, soa simples: Eles se casam, legalizam sua situação em solo americano, uma vez que ao casar o cônjuge automaticamente adquire cidadania e, depois das coisas resolvidas, divorciam-se meses depois.

Todavia, há um problema, ou melhor, dois: O primeiro, é que Andrew não foi devidamente consultado sobre isso –e ele haverá de descontar os anos de maus tratos de Margaret por conta dessa nova situação. O segundo, que ninguém, exceto eles dois, devem saber desse arranjo; o que significa mentir até mesmo para a família dele. Com um fiscal da imigração (Denis O’Hare, de “A Legião Perdida”) no pé deles –casamentos de fachada são, muito provavelmente, uma prática comum para se burlar a lei –os dois devem convencê-lo numa entrevista realizada separadamente de que, como noivos, ambos conhecem minuciosamente a vida um do outro. Para Andrew a tarefa é simples; tão habituado ele está com as exigências de ordem pessoal de sua chefe que ele sabe desde sua preferência de café até as tatuagens que removeu no esteticista, contudo, para Margaret, Andrew é uma incógnita –alguém que, em três anos de convívio, ela sequer se preocupou em conhecer.

Para recuperar o tempo perdido e preparar-se para a entrevista, marcada para a segunda-feira, ela deve passar o fim de semana com ele, e aprender o máximo que puder. No entanto, Andrew está de viagem marcada para o Alasca (!?!) onde vive sua família, e onde se darão as festividades do aniversário de sua avó (a lendária Betty White).

É assim que, sob a necessidade de manter o disfarce de noivos perante todos –incluindo sua amável mãe (Mary Steenburgen) e seu desconfiado pai (Graig T. Nelson, de “Poltergeist”) –Andrew e Margaret arrumam as malas e seguem para o Alasca. Lá, entre algumas confusões e saias-justas, opera-se a inevitável mágica das comédias românticas: Margaret revela ser mais adorável e humana do que até então dera a entender, e começa a se afeiçoar genuinamente por Andrew que, por sua vez, mostra-se alguém mais interessante do que o mero capacho que ele aparentava ser.

“A Proposta” não é nenhuma obra-prima; muito dele é esquemático e forçado, inclusive algumas piadinhas fora de hora, e alguns de seus personagens são tão mal elaborados que chega a dar constrangimento (caso da ex-namoradinha vivida por Malin Ackerman, claramente uma personagem que não diz a que veio), além de que Sandra Bullock, linda, simpática e cativante que é, não consegue convencer ninguém, durante a primeira metade de filme, da personagem megera, intimidadora e calculista que supostamente seria. De memorável mesmo, talvez, seja uma breve cena de nudez que ela (maravilhosa!) compartilha com Ryan Reynolds.

Mas, esses são pecados menores numa comédia romântica que se encarrega de entregar ao público a dose de romance açucarado e humor inofensivo e transbordante que as comédias românticas em geral entregam –e nesse sentido, “A Proposta” é certeiro, até mesmo pelo fato de revelar abertamente o quanto Sandra e Ryan estão se divertindo a valer em cena com seus personagens, sejam eles bem escritos, bem dirigidos e bem aprofundados, ou não.

Em tempo (1): Não confundir este filme com o espetacular faroeste australiano de mesmo título nacional lançado em 2005, dirigido por John Hillcoat.

Em tempo (2): No ano de 2012, “A Proposta” ganhou uma refilmagem indiana, estrelada por Dileep e Mamta Mohandas, intitulada “My Boss”.

sábado, 30 de julho de 2022

Tempo de Crescer


Impregnado de maneirismos do cinema independente norte-americano, este melancólico e agridoce drama sobre os humores da criação se pretende gracioso ao mesmo tempo que profundo, inteligente ao mesmo tempo que inteligível, e acessível ao mesmo tempo que singular; e tão transparentes são essas suas pretensões que elas se destacam em meio ao que deveria chamar a atenção de fato: A carpintaria dramática, a motivação dos personagens e a história.

Richard Dunn (Jeff Daniels, sempre competente) é um escritor cujos hábitos excêntricos começam a se somar em proporção inversa à sua disposição para escrever novos livros.

Dessas neuras, o sintoma mais aparente e desconcertante é o surgimento de uma espécie de amigo imaginário, um super-herói nos moldes do Superman –mas, também ele meio que afetado pelas mediocridades de um americano médio –o Capitão Excelente (Ryan Reynolds, num papel feito ironicamente antes do fracasso “Lanterna Verde” e do sucesso “Deadpool”).

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Alerta Vermelho


 Um dos maiores sucessos dos últimos tempos da Netflix, “Alerta Vermelho” sacia o público não apenas com a fórmula usual de montagem frenética, fotografia exuberante e ação extravagante, mas também com um trio estelar de carisma inabalável: Gal Gadot, Dwayne “the Rock” Johnson e Ryan Reynolds.

O tipo de escalação que, em si, já seria apelo de sobra para a produção –caso você não lembre, Gal é a intérprete da “MulherMaravilha”; The Rock fez, entre muitos outros, a “Saga Velozes e Furiosos”; e Reynolds é o “Deadpool” –o filme, escrito e dirigido por Rawson Marshall Thurber (da comédia “Família do Bagulho”), ainda agrega elementos divertidamente exagerados que, em sua maior parte, evitam as similaridades mais banais com filmes de ação genéricos para evocar elementos de sub-gêneros mais refinados, como thrillers de espionagem ao estilo James Bond e filmes de assalto.

The Rock é John Hartley, agente analista de perfil do FBI. Reynolds é Nolan Booth, um ladrão especializado em roubos impossíveis, e dos objetos preciosos mais inestimáveis. O caminho de ambos se cruza, aparentemente por acaso, quando lhes chama a atenção a histórias de três ovos incrustados de pedras preciosas, relíquias que pertenceram à Cleópatra: Um deles, exibido na Itália (palco do roubo vertiginoso que abre o filme); o segundo bem guardado numa coleção particular na Espanha; e o terceiro cujo paradeiro é, na opinião de muitos, um completo mistério.

Reunir os três é, para qualquer caçador de preciosidades que se preze, um verdadeiro desafio. Daí o interesse de Booth neles. Todavia, não tarda para que Hartley o capture –numa das primeiras dentre as muitas reviravoltas do filme, as quais se equilibram umas sobre as outras sem se importar com a verossimilhança.

Supondo que o caso foi encerrado, Hartley se prepara para voltar aos EUA, entretanto, é preso numa cilada: Seus documentos foram apagados, sua identidade no FBI foi adulterada e, após a descoberta de que o ovo recuperado é falso, as suspeitas do roubo inevitavelmente se transferem de Booth para ele –e eis que Hartley vai para a mesma penitenciária na Sibéria que ele!

É nesse ponto que “Alerta Vermelho” finalmente revela o terceiro (e sensacional) vértice de seu triângulo de protagonistas: Gal Gadot, linda, hábil e brilhante num astuto e irônico papel vilanesco. Ela revela ter planejado tudo, a incriminação de Hartley e a captura de Booth, e agora, espera que ambos fujam de lá para que indiquem à ela a localização do terceiro ovo –segredo que, por razões ainda misteriosas, somente Booth conhece.

Os dois, contudo, têm seus próprios planos: Hartley quer prender a ladra e restaurar sua carreira e inocência; Booth deseja, em algum momento, escapar de todos eles, de preferência, com algum tesouro debaixo do braço. E nesse processo, ambos devem forjar uma improvável parceria que, pouco a pouco, adquire nuances de genuíno companheirismo.

A despeito do roteiro pretensamente elaborado (cheio de guinadas imprevistas de última hora, desafios high-tech, aliados que viram inimigos e inimigos que viram aliados) e da ação construída com excesso de zelo e suas inserções digitais (problema que também assolava veja só, o sucesso “Jungle Cruise” igualmente com The Rock), é seu impecável trio principal quem sustenta “Alerta Vermelho” e oferece ao público seu verdadeiro diferencial: The Rock e Ryan Reynolds brindam o filme, de ponta a ponta, com uma dinâmica engraçada, definida por suspeitas de ambas as partes, brincadeiras e piadinhas ácidas um com o outro (The Rock faz o estilo mais sério, enquanto Reynolds é o irreprimível piadista de tiradas sarcásticas) e, no fim, por isso mesmo, constroem uma dupla por quem o público não tarda a torcer; a linda Gal Gadot que, por inúmeros fatores poderia ser o ponto fraco do trio (menos tempo de cena, personagem feminina e, por isso mesmo, supostamente não tão bem desenvolvida), tira de letra esses detalhes roubando cada uma das cenas em que aparece com uma presença radiante, charmosa e incontrolável –e ajuda muito ela ser o arauto para praticamente todas as viradas-surpresas da trama!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Lanterna Verde


 O cinema comercial é um mar melindroso de se navegar, mais ainda se o seu objetivo vai além do sucesso propriamente dito de um único filme, mas almeja plantar uma semente que leve a toda uma franquia. O público em geral tem um paladar que pede por fórmulas confortáveis, mas que não se prendam à repetição mecânica, sendo temperadas com alguma ousadia e contravenção para se fazer minimamente surpreendente em algum momento.

A Marvel Studios fez escola, e sucesso estrondoso, sabendo administrar esse cardápio.

Muitos foram os que tentaram e não conseguiram. Nesse sentido, uma das primeiras tentativas da DC Comics –que, pelo seu catálogo vasto de conhecidos super-heróis, era a aposta mais óbvia à seguir os passos da Marvel –foi esta produção de 2011 que, pelo perfil dos envolvidos (era dirigida por Martin Campbell, que quatro anos antes entregou o fenomenal “Cassino Royale”; e estrelada por Ryan Reynolds, então um astro em potencial), pelo apelo de seu personagem (uma criação uma bocado original que, nos quadrinhos, ombreia em relevância tanto com Superman quanto com Batman), e pelos indícios inicialmente demonstrados pelo próprio filme (cujas primeiras imagens e trailers apontavam para uma realização visualmente caprichada, com ação e personalidade), prometia acender o estopim que poderia colocar os heróis da DC no cinema.

Se tudo parecia no lugar –e, de certa maneira, realmente estava –“Lanterna Verde” tornou-se uma prova de que, se há um elemento que garante a qualidade (ou falta dela) em um projeto desde sua gênese, este é o roteiro: Escrito pelo quinteto Greg Berlanti, Marc Guggenheim, John Broome, Michael Greenberg e Michael Goldenberg, “Lanterna Verde” desperdiça as facetas épicas embutidas na origem do herói (da qual este filme se incumbe sem maiores entusiasmos) para tentar fazer uma comédia inapropriada na maior parte do tempo –e isso acaba contaminando o bom diretor Campbell que, se consegue imprimir sua experiência na execução de cenas flúidas e bem filmadas, equivoca-se ao optar por um estilo diferenciado de edição onde sequências distintas, como lembranças, se sobrepõem à outras cenas sem um propósito narrativo que as entrelaçasse e sem uma emoção que as fizesse válidas.

Em meio à todo esse equívoco, Ryan Reynolds interpreta o piloto Hal Jordan, cujo destino, ele mal sabe, é tornar-se um super-herói: Nos confins da galáxia, a criatura Paralax, um mal constituído de medo (ou, ao menos, essa é a pífia definição que ele recebe...) inicia o seu trajeto para consumir mundos. A Tropa dos Lanternas Verdes, guardiões de vários setores da galáxia, é enviada para detê-lo, mas Abin Sur (Temuera Morrison, de “Aquaman”), o lanterna verde do setor onde está a Terra, é atingido e cai, moribundo, em nosso planeta. Seguindo o protocolo, ele envia seu poderoso anel mágico para procurar uma alma corajosa e benevolente, digna de substituí-lo, e eis que ele escolhe Hal Jordan.

Dotados desses novos poderes –que, como é de se supor, vai gradativamente aprendendo a usar –Jordan entra em contato com os alienígenas da Tropa de Lanternas Verdes –entre os quais Kilowog (voz de Michael Clarke Duncan), Tomar-Re (voz de Geoffrey Rush) e Sinestro (Mark Strong, num personagem que seria o possível vilão da continuação) –passa a treinar para seu iminente confronto com Paralax –no qual, é claro, ele desempenhará papel crucial! –e descobre-se o herói que jamais imaginou ser.

Em algum momento dessa jornada, existem os desnecessários acréscimos de um núcleo humano, a dar conta de uma trama sucedida aqui na Terra, e que mostra o vilanesco Hector Hammond (Peter Sarsgaard) sendo contaminado pela matéria que gerou Paralax e virando, ele próprio, o monstrengo da vez, ameaçando com isso a vida de seu pai, o Senador Hammond (Tim Robbins) e da agente do governo Amanda Waller (Angela Bassett, num papel interpretado depois por Viola Davis em “Esquadrão Suicida”); há também a introdução do inevitável interesse romântico do herói, nas curvas sensacionais de Carol Ferris (a belíssima Blake Lively, que depois casou-se com Reynolds na vida real).

Não faltam boas intenções à “Lanterna Verde”, e nem tampouco possibilidades, sejam elas artísticas ou técnicas, que o tivessem transformado num grande filme, todavia, a ineficiência atroz de seu roteiro e sua sucessão quase inacreditável de lapsos (inclusive, alguns grotescos de inverossimilhança e continuidade) o sabotam de tal maneira que, chegando perto do fim, a sacada derradeira e patética com a qual o bem vence o mal já nem espanta mais o público, insensibilizado por um filme tão erroneamente construído.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Eu Queria Ter Sua vida


Comédias que versam em torno do tema da troca de corpos não são nenhuma novidade no cinema, e “Eu Queria Ter Sua Vida”, de David Dobkin (da cultuada comédia “Penetras Bons de Bico”), encontra nessa redundância a maior de suas complicações.
O roteiro até tem momentos que soam injustificados (e que são contornados, em geral, pela desenvoltura notável da dupla protagonista); seu humor confunde audácia com baixaria; e não raro há passagens inteiras em que o mau gosto predomina (embora não falte à direção uma austeridade pontual para saber desvencilhar-se desse cacoete), porém, nenhum desses aspectos representa um problema com o qual a produção não saiba lidar –seu verdadeiro calcanhar de Aquiles é o incontornável fato de que o filme se apoia numa estrutura previsível, pelo simples fato de que existem dezenas de filmes sobre o mesmo mote a precede-lo.
Ao passo que são melhores amigos, Dave e Mitch não poderiam ser mais diferentes.
Dave (Jason Bateman, bastante à vontade) é responsável, pai da família, casado com a compreensiva Jamie (Leslie Mann, protagonizando, inclusive, desinibidas cenas de nudez) e, no trabalho –ao qual se dedica com um pouco de excesso –está à beira de ser chamado para ser sócio de uma firma de advocacia.
Mitch (Ryan Reynolds, ocasionalmente convincente), por outro lado, não possui responsabilidades –seu medíocre ganha-pão é como ator –e manteve-se solteiro e sem filhos; mas não sem conquistas, que volta e meia aparecem em seu apartamento. Seu pai (Alan Arkin) também marca presença, sempre tentando se acertar com o filho imaturo.
Numa noite de happy hour, Dave confessa sua injúria pela atribulada vida familiar, enquanto Mitch retruca reclamando da falta de estabilidade e da solidão acarretada pela solteirice. Quando os dois se dão conta de que estão cobiçando a vida do outro (e o dizem em voz alta) uma magia se opera: Eles estão mijando no que supõem-se ser uma fonte dos desejos (!), e eis que têm assim seus corpos trocados!
Agora, é o inconsequente Mitch quem habita o corpo do comportado Dave; e deve, portanto, passar-se por ele justamente num momento crucial de sua vida.
Com efeito, Dave, travado que só ele, precisa passar-se por Mitch em sua rotina diária, o quê significa aprender a ostentar uma descontração que ele jamais soube expressar.
Tal e qual obras como o oitentista “Vice-Versa”, o brasileiro “Se Eu Fosse Você”, a ótima animação “Your Name” e a comédia “Sexta-Feira Muito Louca” (o original e a refilmagem), os dois personagens cujas mentes foram trocadas têm um tortuoso caminho até descobrir, no corpo do outro, as qualidades que antes não tinham; e no processo, reveem a própria amizade e suas escolhas pessoais –há também a consequente busca pelo meio de reverter o feitiço, o que se dará somente no trecho final, quando a lição moral estará devidamente assimilada.
Em algum momento, o personagem de Dave começa a se revelar um pouco mais rico e interessante que o de Mitch, mas nada disso parece ser problema para o diretor Dobkin: Sua prioridade é ser engraçado e ele sacrifica muito da narrativa nesse intento, sobretudo, quando erra a mão em sequências que resultam pesadas demais, como a cena em que Mitch precisa atuar num pornô-soft (ao lado da veterana Taaffe O’ Connell, de “Galáxia do Terror”).
Se o filme se sobressai aos seus deméritos é certamente por conta do convincente trabalho dos dois atores principais; embora no princípio pareça que não vão dar conta do recado, Bateman e Reynolds encenam a troca de mentes e de personalidades de seus personagens com precisão surpreendente, atraindo o interesse do expectador em acompanha-los nessa confusão.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Deadpool 2

Por mais interessante, inovador e divertido que fosse “Deadpool” ele ainda se prestava a melhoramentos, já que os roteiristas Rhett Reese e Paul Wernick contentaram-se com um filme de origem, assumiram uma produção de baixo-orçamento (junto da qual vinha mais liberdade autoral e a possibilidade de uma censura alta) e abraçaram um caráter, digamos, ‘vira-lata’ para o filme.
Com a saída do diretor Tim Miller, devido à diferenças criativas com o astro Ryan Reynolds, e a entrada do ótimo David Leitch (co-diretor de “John Wick” e diretor de “Atômica”), “Deadpool 2” evolui assim para uma produção classe A, com um orçamento generoso condizente com a bilheteria e a repercussão positiva que o trabalho anterior obteve.
Com o seu status-quo de anti-herói estabelecido desde o final do primeiro filme, e ao lado do amor de sua vida, Vanessa (a brasileira Morena Baccarin), Wade Wilson, o assim chamado Deadpool (interpretado por Ryan Reynolds com uma compreensão singular do personagem) dá início à uma varredura inconsequente da bandidagem –e as cenas que se seguem, além de unir a galhofa deliciosa e politicamente incorreta que fez o sucesso do outro filme, traz também a excelência técnica no registro da ação que o diretor Leitch ostentou em suas obras anteriores.
Ainda que bastante previsível, o roteiro tece uma tragédia que dá um novo rumo à trajetória de Deadpool enquanto anti-herói a caminho de ser herói.
Ele vai parar na Mansão X, onde o mutante Colossus, desde o filme anterior, tenta convencê-lo a juntar-se aos X-Men.
Pouco a pouco, a trama de Deadpool –que só não resvala no tédio graças à presença extraordinária de Reynolds e ao bem calibrado humor sarcástico –vai colidir com outra trama: A de Cable (Josh Brolin, arrasando num personagem que foi disputado a tapa por muitos atores em Hollywood).
Vindo do futuro (no melhor estilo “Exterminador do Futuro” cuja menção, inclusive, é feita), Cable irá valer-se de seus poderes high-tech e seu braço biônico para mudar a história na qual um vilão homicida extermina sua família. No presente, tal vilão não passa de uma criança, o carismático orfão Russel (Julian Dennison) que sofre maus-tratos na impiedosa instituição em que foi jogado.
Para Cable, neutralizar aquele que um dia será o destruidor de sua família é uma missão para a qual ele se faz implacável.
Para Deadpool, espiritualmente mais inclinado à redenção do que outrora, o garoto merece a chance de tornar-se alguém melhor, entretanto, diante do colosso que representa Cable, ele conclui que não pode fazê-lo sozinho –neste ponto, Colossus e os X-Men se injuriaram novamente com suas atitudes e o deixaram –e, portanto, resolve montar um grupo, o X-Force!
A seleção e apresentação dos membros de tal grupo é praticamente um show cômico à parte, mas, o que realmente importa é uma única personagem: A sensacional Dominó, vivida pela fulgurante Zazie Beetz, cujos superpoderes –sorte em um nível absurdo –são empregados numa sucessão espetacular de cenas tão engraçadas quanto bem orquestradas.
Repleto de trocadilhos e farpas rápidas, além de referências ainda mais infindáveis do que no primeiro filme –detalhes que tornam prazerosas inclusive as inúmeras revisões –“Deadpool 2” tem o mérito de acrescentar à receita renovadora de humor auto-consciente a percepção singular do diretor Leitch para com as cenas de pancadaria e perseguição –dificil dizer qual das tantas é a mais primorosa!

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Vida

Em princípio, percebe-se uma característica seguida à risca pelo diretor Daniel Espinosa, neste filme, vinda da cartilha elaborada por Ridley Scott desde que realizou “Alien” e suas tentativas de prólogo, “Prometheus” e “Alien-Covenant”: A escolha incomum e criteriosa de intérpretes interessantes e diversificados para viver o número reduzido de personagens.
Habitando a Estação Espacial Internacional, em órbita na Terra, estão, portanto, o veterano das Forças Armadas Norte-Americanas convertido em voluntário espacial Jordan (Jake Gyllenhaal, sempre eficiente), a astronauta inglesa Miranda (Rebecca Ferguson, de “Missão Impossível-Nação Secreta”), o cientista sul-africano Derry (Ariyon Bakare), o encarregado canadense dos procedimentos de segurança Adams (Ryan Reynolds, o “Deadpool” em pessoa que já havia participado de “Protegendo O Inimigo”, um dos trabalhos anteriores de Espinosa), a suboficial russa Golovkina (Olga Dihovichnaya) e o capitão japonês Sho (Hiroyuki Sanada, que já havia sido capitão na espaçonave de “Sunshine-Alerta Solar).
Munido desse elenco, de uma premissa tão básica que já se imagina o plot do filme ao olhar para seu pôster, e centrado na intenção de fazer uma agradável fusão narrativa entre os elementos icônicos do “Alien” original com os aspectos mais autênticos e realistas (e, por isso mesmo, mais amedrontadores) da obra-prima “Gravidade”, de Alfonso Cuarón, Espinosa conseguiu construir um terror espacial que supera com folgas as duas últimas tentativas do próprio Scott em refazer seu “Alien”.
Orbitando nosso planeta, a tripulação da Estação Espacial Internacional intercepta uma sonda vinda de Marte e a recebe com o entusiasmo de quem sabe que ela trás descoberta incalculáveis para a ciência.
A maior delas, um ser protozoário logo batizado Calvin, será fonte de inúmeras surpresas: Com o tratamento adequado, a forma de vida desperta de sua inanição e passa a crescer em ritmo exponencial. Logo, ganha tamanho suficiente para caber na mão do encantado Derry, a despeito dos alertas constantes dos demais tripulantes, sobretudo, Jordan e Adams, os mais interessados na segurança.
Como é sintomático nos personagens envolvidos em tramas aterrorizantes, sejam elas num casarão, ou numa espaçonave, o assombro irá interferir na objetividade e o pânico será disparado na primeira atitude incoerente: Uma falha na segurança levará eles a temer pela vida de Calvin, e assim tentar um procedimento de desfibrilação. Mas, a forma de vida interpreta aquilo como uma tentativa de ataque e volta-se contra todos eles, revelando, na evolução implacável de seu organismo um perigo mortal para todos eles.
Espelhado no ser concebido por Ridley Scott, a criatura de “Vida” cresce a muda de forma, avançando por estágios da mesma maneira que alcança novas áreas da estação e elimina um a um dos tripulantes.
Se, na visão de Scott, a criatura alienígena agregava mais significado à medida que evoluía, junto com sua narrativa, de um perigo justificadamente orgânico, para um simbologismo que contaminava a própria nave, no trabalho profundamente referencial de Espinosa, as analogias meio que se perdem na tentativa única e até válida de realizar um grande trabalho de suspense –o quê muitos nem isso conseguem hoje em dia.
Seu final, contudo, é de uma inesperada contundência ao deixar de lado o reflexo involuntário do cinema comercial onde os protagonistas prevalecem por meio de soluções implausíveis e surpreender o expectador com uma crueldade verdade extraída de Darwin: Viver para uma determinada forma de vida significa levar outra forma de vida a morrer.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Deadpool

Uma sinceridade desesperada pulsa do personagem principal. E tão desesperada ela é que ele dirige-se à platéia na já alardeada quebra da quarta parede que o filme promove (ele tira sarro de outros personagens, e de si próprio, dos atores que os interpretam, e até mesmo das ocasionais limitações orçamentárias da produção). Esse é um dos muitos elementos com sabor de ineditismo que o filme tem.
“Deadpool” é, como seu personagem-título, todo sarcasmo e energia, inclusive nas generosas cenas de ação. Mas, assim como o bom-mocismo mais cedo ou mais tarde aparecerá para nortear os atos do inconseqüente protagonista (motivados quase que integralmente pela agradável presença da bela brasileira Morena Baccarin), também o seu filme não irá fugir, em alguns momentos, daquelas típicas manobras de obras de apelo comercial: E estamos, afinal, diante de um filme sobre a origem de um personagem da Marvel. Mesmo que um dos mais desiguais.
Wade Wilson é um ex-fuzileiro que passou a disponibilizar suas habilidades em combate como uma espécie de mercenário. Desbocado e politicamente incorreto, ele se ajusta com perfeição em meio à escória onde obtem seus serviços. É por lá que conhece Vanessa Carlysle, por quem vem a se apaixonar. A felicidade dura até Wade descobrir que tem câncer e decidir se submeter a uma experiência radical. Ele adquire fabulosos poderes de regeneração mas, ao mesmo tempo, isso lhe desfigura o rosto, o quê lhe obriga a usar, para suas empreitadas como mercenário, um traje vermelho bem ao estilo histórias em quadrinhos.
O anti-herói Deadpool é um caso de personagem que surgiu como coadjuvante e foi, aos poucos, ganhando mais e mais popularidade. No início dos anos 1990, época de suas primeiras aparições nas HQs, talvez fosse inconcebível imaginar um filme todo só para ele. Na verdade, era inconcebível até em 2009, quando, já interpretado por Ryan Reynolds, ele fez sua primeira (e catastrófica) aparição cinematográfica no equivocado “X-Men Origens Wolverine”. Era um caso de um personagem tão mal caracterizado, tão sub-aproveitado e desperdiçado que parecia impossível recuperá-lo. Mas, aos trancos e barrancos, o ator Ryan Reynolds persistiu até convencer o estúdio da 20 Century Fox neste filme solo, dirigido com precisão e empolgação pelo estreante Tim Miller, primordialmente fiel à essência do personagem nos quadrinhos e –graças ao bom Deus –descartando por completo as presepadas feitas naquele outro filme.
O resultado quase não parece um filme real, mas um daqueles delírios loucos, desenfreados, carregados de euforia e intensidade nos quais os fãs sonham ver devidamente retratado no cinema o seu personagem tão cultuado. Deadpool merecia mesmo um filme assim.