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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O Lado Sombrio de Hollywood - 1ª Temporada


 Lançada pela HBO, esta série documental em seis episódios esmiúça algumas das situações mais alarmantes surgidas nos bastidores de Hollywood, revelando ao público informações que talvez não fossem de seu conhecimento e mostrando que desdobramentos ocasionados atrás das câmeras podem ser infinitamente mais sórdidos do que podemos imaginar. Com duração de um longa-metragem (cerca de uma hora e vinte e oito minutos), cada episódio traz as observações técnicas, profissionais e éticas da jornalista Scaachi Koul e do psiquiatra Dr, Drew Pinsky, as duas únicas presenças recorrentes em toda série.

No primeiro episódio, somos introduzidos à trama que provavelmente mais escapou ao conhecimento do público (até porque, entre outras coisas, sucedeu-se num período em que a internet não trazia tanta abrangência assim), as obscuras revelações sobre o ator Stephen Collins. Revelado ainda nos anos 1970, graças à participações em “Jornada Nas Estrelas-O Filme” e na série de TV “Tales of Gold Monkey”, Collins rapidamente subiu ao estrelato graças a uma soma favorável de predicados como boas atuações, carisma e ótimas relações-públicas, no entanto, o depoimento de uma jovem que encontrou-se com ele nos anos 1980 – e que transcorre, paralelo à sua ascensão nos anos 1990 – vai desmascarar um lado sombrio que passou completamente despercebido do público e do meio hollywoodiano que o havia enaltecido.

Indícios já estavam lá, desde sempre, como aponta o Dr. Pinsky ao notar sua propensão para escrever romances de cunho erótico com estranhos desvios de comportamento, porém, a reputação de Collins seguia inabalável, ainda mais solidificada depois que ele foi escolhido para interpretar o Pastor Eric Camden na série de apelo religioso/familiar “7º Céu”. Elogiada como uma das mais salutares séries da TV da época pelos valores que passava episódio após episódio (e tendo revelado a estrela Jessica Biel), “7º Céu” durou impressionantes 11 temporadas (de 1996 até 2007) e Stephen Collins foi ovacionado como um dos mais queridos atores da televisão norte-americana por público e crítica.

Foi somente em 2014 que a bomba explodiu e revelações da ex-esposa expuseram Stephen Collins que, em rede nacional, admitiu ter cometido abusos sexuais contra meninas menores de idade nos anos 1970.

No episódio 2 são mostrados alguns casos problemáticos de atores-mirins que enfrentaram revezes imensuráveis quando deixaram de ser criança.

Como Brian Bonsall, intérprete do jovem Andy Keaton, na época com apenas seis anos de idade, na série “Family Ties” – ou “Caras & Caretas” – aquela que revelou Michael J. Fox, antes mesmo de “De Volta Para O Futuro”. Encerrada a série após sete temporadas, Brian (como é passível de acontecer a muitas crianças pequenas no meio) não soube lidar com o término de sua “família” fictícia – que para ele era real – e o resultado foi uma adolescência e juventude problemática, envolvida com drogas e marginalidade.

São mostrados também os casos de Dee Jay Daniels (jovem ator afro-descendente que fez sucesso interpretando o caçula do seriado “The Hugleys”, de 1998 a 2002), de Zachery Ty Bryan (que aos sete anos fez parte do elenco da série de Tim Allen, “Home Improvement”) e Orlando Brown (parte do elenco de “That’s So Haven”, do Disney Channell, de 2003 a 2007). Todos foram incapazes de lidar com a fama quando ela revelou, em algum momento, suas facetas fugazes e ilusórios – e todos decaíram no consumo de drogas ilícitas, no envolvimento com a criminalidade – embora alguns, como Brian e Dee Jay tivessem sido capazes de se reabilitar.

O episódio 3 fala sobre os percalços de abuso profissional perpetrados na famosa série infanto-juvenil dos anos 1990, “Power Rangers”, que começou como um aproveitamento picareta da parte do criador  Haim Saban de sobras de seriados japoneses com direitos autorais comprados a preço de banana (!), com o inesperado sucesso avassalador na TV, a prática de utilizar somente as cenas de ação (e acrescentar cenas de diálogos com elenco norte-americano) transformou “Power Rangers” num fenômeno e seu jovem elenco, em astros. Contudo, o sucesso não trouxe garantias nem estabilidades: O produtor Saban submetia os atores à jornadas físicas extenuantes (a série, afinal, envolvia artes marciais) e seus salários eram negociados por valores irrisórios. As temporadas que se seguiram (num total de assombrosas 28 temporadas, além de especiais para a TV e longas de cinema!), ainda que cada vez mais endinheiradas na produção graças ao sucesso de audiência, provaram que os atores eram descartáveis; eles podiam ser substituídos por outros, sempre que reclamassem, exigissem pagamentos mais justos ou condições  menos severas -e o documentário mostra que foi exatamente esse o destino de Audri Bubois, intérprete original da Ranger Amarela, substituída ainda no episódio-piloto pela asiática Thuy Trang por discordar das políticas de pagamento, e da própria Thuy Trang, que enfrentou, mais tarde, terríveis revezes por tentar lutar por seus direitos e os de seus colegas. O episódio, entretanto, reserva um tempo todo especial para falar de Jason David Frank, intérprete de Tommy Oliver, inicialmente o Ranger Branco e, depois, o Ranger Verde -de longe, o mais icônico dentre todos os atores que participaram de “Powers Rangers” (e o mais duradouro dentre todos também), Jason David Frank se tornou, para os fãs, uma espécie de representante da série em infindáveis excursões por convenções em todo solo norte-americano. Porém, todo o carinho dos fãs não foi capaz de afastá-lo de seus problemas pessoais, do vício em drogas e das crises de depressão que culminaram em seu suicídio em 19 de novembro de 2022.

O quarto episódio foca no reallity show do Canal Bravo, “The Real Housewifes” e seus bastidores pra lá de conturbados, sobretudo, a origem da fortuna de Danielle Staub (uma das estrelas da edição de Nova Jersey do programa), relacionada ao tráfico de drogas; a situação ilícita de Jen Shah (da edição de Salt Lake City), condenada por fraude e lavagem de dinheiro; e (o  relato mais alarmante dentre todos) a terrível condição de violência doméstica sofrida por Taylor Armstrong nas mãos de seu então marido.

O quinto episódio é sobre a Família Von Erich cujos seis irmãos, filhos do lutador Fritz ‘Iron Claw’ Von Erich se tornaram famosos entre os anos 1960 e 70. Entretanto, como uma espécie de maldição reservado à algumas celebridades, cada um dos seis – Jack, Kerry, Kevin, Chris, Mike e David – encontrou um desfecho trágico acometido por diferentes transtornos psicológicos, restando somente Kevin (o principal entrevistado) como único sobrevivente.

Os percalços da Família Von Erich foram transformados num longa-metragem para cinema, “Garra de Ferro”, dirigido por Sean Durkin (de “Martha, Marcy, May, Marlene”), com Zach Efron, Lilly James e Harris Dickinson no elenco, no entanto, as liberdades poéticas em relação à realidade foram tantas que diversos depoimentos (incluindo o do próprio Kevin Von Erich) surgem tentando esclarecer ou corrigir muitas passagens do filme.

O sexto e último episódio aborda várias situações que envolvem stalkers das Celebridades – quando fãs perdem a consciência de seus limites e transformam a admiração por seus ídolos em obsessão – inclusive trazendo o caso mais famoso e aqui tratado com mais superficialidade: O stalker que chegou a invadir a casa de Sandra Bullock!

São também esmiuçados os casos das cantoras Taylor Swift e, em especial (com depoimento da própria), Ashanti, entre outros.

domingo, 21 de junho de 2026

Imperdoável


 Produzido pela Netflix (assim como “Bird Box”, outro grande sucesso estrelado por Sandra Bullock), “Imperdoável” –ou “Unforgivable” é adaptado da série de TV inglesa, “Unforgiven”, inédita no Brasil, estrelada por Suranne Jones e dirigida por David Evans. De fato, nota-se o quanto o enredo de “Imperdoável” se ramifica em diversos outros personagens atrelados ao drama de sua protagonista, multiplicando suas sub-tramas num recurso que remete mesmo aos expedientes das séries de TV.

Contudo, a opção aqui, apesar desses despercebidos elementos narrativos, é dar uma solidez cinematográfica ao material, e nisso o trabalho da diretora Nora Fingscheidt acaba lembrando muito os contundentes dramas independentes norte-americanos.

Sandra interpreta (e muito bem) a protagonista, Ruth Slater que, quando a trama começa, está saindo da penitenciária na qual permaneceu encarcerada nos últimos vinte anos. Depois de tanto tempo presa, Ruth já não parece ser capaz de funcionar em sociedade. É uma pessoa calada, acuada e introspectiva. E para piorar, além das severas circunstâncias em que precisa se manter durante esse frágil período de liberdade condicional, existem as complicações do crime pelo qual ela foi condenada –do qual inicialmente, não sabemos muito, mas cujos elípticos flashbacks vão, aos poucos, tentando nos esclarecer.

Ruth matou um policial quando tinha vinte anos –um crime ao que tudo indica acidental, todavia, nada disso serve de atenuante para aqueles que se voltam contra ela, por pura simpatia à polícia.

Na árdua tentativa de se readaptar, Ruth vai morar num albergue suburbano, arruma emprego numa fábrica processadora de pescados (o único que ela obtém apesar de possuir referências melhores) e consegue uma segunda ocupação ao ajudar uma OMG na construção de um abrigo para sem-tetos. Enquanto se incumbe dessa rotina, ela recebe ocasionais visitas de seu rigoroso agente da condicional, Vincent Cross (o ótimo Rob Morgan, de “Não Olhe Para Cima” e “Confronto No Pavilhão 99”) e estabelece uma relutante amizade com o colega de trabalho Blake (Jon Bernthal).

Existem ainda os filhos do policial que ela matou, o irascível Keith (Tom Guiry, de “Tigerland-O Caminho da Guerra”) e o retraído Steve (Will Pullen) que eram crianças na ocasião do homicídio –mas que agora, diante da revoltante notícia da liberdade de Ruth, pensam seriamente em planejar um ato de justiça com as próprias mãos.

Há o casal, formado por Vincent D’Onofrio e Viola Davis, novos moradores da casa onde Ruth morou, e dentro da qual se sucedeu o tal crime; sendo advogado, John Ingram (personagem de D’Onofrio) é procurado por Ruth para que encontre meios legais, que não burlem as rígidas regras da condicional, a fim de estabelecer um contato entre Ruth e sua irmã pequena que, desde o nascimento Ruth havia criado, e desde que foi presa nunca mais teve notícias, apesar das milhares de cartas que, nesses anos todos, ela escreveu.

A irmã de Ruth, Katie (Aisling Franciosi, de “Drácula-A Última Viagem do Demeter”), agora com 25 anos, mal lembra dela e vive com seus pais adotivos, Michael e Rachel Malcolm (Richard Thomas, da versão televisiva de “It-A Coisa” e Linda Emond, de “Old Boy” e “Across The Universe”) e com sua irmã Emily (Emma Nelson).

Todos são fios narrativos que, de uma maneira ou de outra, convergem para a trama principal de Ruth, revelando já próximo do final algumas informações surpreendentes que podem alterar a percepção de alguns expectadores sobre muito do que vinha sendo mostrado no filme, ainda que dificilmente isso haveria de dissipar a excelente composição dramática de Sandra Bullock, provando pela enésima vez que é uma atriz muito mais versátil e capaz do que as bem-sucedidas comédias românticas levavam a crer. O filme cresce quando ela está acompanhada por bons parceiros de cena, caso de Rob Morgan, Vincent D’Onofrio, Viola Davis e –vá lá –Jon Bernthal, mas se percebe o ritmo moroso e o andamento desanimado da direção toda a vez que os membros mais frágeis do elenco dão as caras.

domingo, 30 de junho de 2024

Poção do Amor Nº 9


 Entre uma obscuridade quase cult e o esquecimento completo, a comédia romântica “Poção do Amor Nº 9”, de 1992, foi um dos primeiros filmes a contar com a presença de Sandra Bullock, bem antes dela se tornar famosa. Como toca neste tipo de situação, ela é, aqui, mais coadjuvante do que protagonista ainda que, como acontece em muitos casos, sua presença não demore à gradativamente começar a se destacar.

O protagonista de fato deste filme, escrito e dirigido por Dale Launer (ele escreveu e produziu a comédia “Meu Primo Vinny”), é Paul Matthews, interpretado por Tate Donovan (que, em algum momento antes, durante ou depois das filmagens, namorou Sandra). Paul é o típico romântico dos anos 1980, é sensível e consciente até demais da própria insignificância –essa baixa auto-estima não lhe deixa ter sucesso com as mulheres; na verdade, as rejeições que Paul coleciona, nas suas frustrantes saídas noturnas, são vexaminosas! No desespero absoluto para com essa falta de sorte com o sexo oposto, Paul busca um auxílio místico: A exótica cigana Madame Ruth (a veterana Anne Bancroft) que lhe entrega um produto com a promessa de mudar tudo: Uma poção do amor!

Contudo, Paul é um bioquímico competente e suas pesquisas, ao lado da amiga e colega Diane Farrow (Sandra, numa personagem inicialmente desengonçada e feia, mas que vai se tornando absurdamente linda com o avanço da trama), também ela sofrendo de baixa auto-estima e desejosa de encontrar a alma gêmea, visam descobrir de onde provem o verdadeiro efeito milagroso da poção e, se possível, analisá-lo! Assim, os dois descobrem que a fórmula funciona a partir de feromônios poderosos que interagem na natureza –como os hormônios naturalmente exalados pelas fêmeas dos chimpanzés, que deixam os machos da espécie simplesmente loucos por elas! –que o tal efeito (que se dá curiosamente por meio do som da voz) dura cerca de quatro horas, restando assim o teste em... humanos!

Após muita persistência da parte dos dois, eles desenvolvem uma versão spray da poção do amor (que, segundo a cigana, vem a ser o composto de nº 8), bastando borrifá-lo na própria boca para que sua voz, quando ouvida, tenha o efeito desejado nas pessoas que almejam seduzir. E, de fato, Paul se torna um conquistador implacável –não há mulher que consiga lhe dizer não! –e Diane não tarda a fisgar um belo partido, primeiro, um milionário italiano (interpretado por Adrian Paul que, poucos anos depois, faria a série televisiva inspirada em “Highlander-O Guerreiro Imortal”), e logo depois, ninguém mais ninguém menos do que o próprio príncipe da Inglaterra (!) vivido pelo ator Dylan Baker (de “Treze Dias Que Abalaram O Mundo”).

Apesar disso, ambos (Paul e Diane) acabam se apaixonando pelas únicas pessoas nas quais não testaram realmente a poção: Um pelo outro –é particularmente encantadora a cena em que a personagem de Sandra vai buscar Paul que está preso em uma delegacia e, ainda com a poção fazendo efeito, evita de falar com ele usando a voz e tenta se comunicar por meio de pantomina (ali já estão todos os elementos que viriam a fazer dela, inevitavelmente, uma estrela).

Contudo, Diane acaba, ainda assim, marcando casamento com outro cara, o metido a playboy Gary (Dale Midkiff, de “Cemitério Maldito”). Para Paul não há outra explicação: Somente o uso inescrupuloso da poção do amor por parte de Gary haveria de fazer Diane comportar-se de tal maneira e, ao pedir auxílio à cigana, ela lhe concede o único exilir capaz de colocar toda essa confusão em ordem novamente: A poção do amor nº 9.

Baseado numa canção dos anos 1960 (que já toca durante os créditos iniciais, cantada pela banda “The Searchers”) e acometido de diversos maneirismos narrativos característicos da então recém-terminada década de 1980 (isso sem contar as roupas, as músicas, os penteados, a ambientação...), “Poção do Amor Nº 9” é tão datado que passa até mesmo uma sensação agridoce que por vezes soterra seu humor –também ele estranho na mescla, hoje não muito usual, entre uma comédia mirabolante e pretensamente ferina e um romantismo de viés masculino, para não dizer machista (as personagens femininas, mesmo a de Sandra, são construídas com rasura e indiferença propositais) –entretanto, não obstante todo esse anacronismo, é possível acompanhá-lo do início ao fim sem perder o interesse.

terça-feira, 18 de junho de 2024

28 Dias


 Na carreira de Sandra Bullock, “28 Dias” é um corpo tão curioso quanto transitório. É uma obra que gera desconforto pela linguagem bastante ultrapassada de sua narrativa, dessas difíceis de vincular a uma estrela famosa. Ao mesmo tempo, conserva elementos capazes de sustentar a atenção do público –embora, no frigir dos ovos, esses elementos venham quase todos da presença de sua atriz principal.

Na transição dos anos 1990 para 2000, Sandra Bullock já havia se consolidado como uma estrela do cinema. Quase que instantaneamente, porém, ela experimentou os revezes de uma carreira acompanhada de perto por milhões de fãs e por uma horda de interesseiros opinando à respeito: Na esteira dos sucessos “Velocidade Máxima” e “Enquanto Você Dormia” –indiscutivelmente os filmes que a levaram ao estrelato –ela emplacou, por sucessivas razões distintas, fracassos como “A Rede” (uma mera escolha mau feita de projeto), “Corações Roubados” (um péssimo filme do qual ela participou apenas por convite de um amigo, o ator Denis Leary) e “Velocidade Máxima 2” (sem keanu Reeves, um fracasso e um vexame homérico, até hoje a única produção da qual ela se arrepende de ter participado). Convencida por esses tropeços de que deveria conduzir de uma nova maneira sua carreira, Sandra abriu a produtora Fortis Films e passou a interferir com maior autoridade nos filmes dos quais participava e, embora os resultados verdadeiramente positivos tenham até que demorado a chegar, ao menos, nos anos subsequentes, ela foi capaz de se desvencilhar de fracassos.

“28 Dias” reflete a preocupação de Sandra, enquanto estrela de cinema, em estar presente em obras de um mínimo de cunho social e moral –o filme, dirigido por Betty Thomas, se debruça sobre os efeitos colaterais do alcoolismo.

Gwen Cummings (Bullock) é uma moça de vida social, digamos, ativa. Ela e seu namorado, Jasper (Dominic West, de “300”) sabem pela noite nova-iorquina e, no decurso da bebedeira, aprontam até altas horas da madrugada. Com o tempo, esse clico vicioso (embriagar-se, esquecer de todas as confusões que fizeram e, no dia seguinte, começar tudo de novo) os engole por completo. Ela só começa a ter uma tênue noção do prejuízo que seu hábito etílico provoca em sua vida durante o casamento da irmã (Elizabeth Perkins), no qual Gwen pega um carro alcoolizada e colide contra a varanda de uma casa.

A pena negociável, para Gwen escapar da cadeia, é frequentar por vinte oito dias um centro de reabilitação e se livrar do vício que –numa atitude comum –ela insiste não ter. Inicialmente arredia para com tudo e para com todos (sobretudo com a tarimbada recepcionista, interpretada por Margo Martindale e com o conselheiro –e ex-viciado –vivido por Steve Buscemi), Gwen aos poucos vai tomando contato com a fauna de habitantes desajustados do lugar e com eles, constrói um vínculo de inesperada amizade: Sua colega de quarto Andrea (Azura Skye, de “EDTV”), viciada em heroína aos 17 anos de idade e obcecada por um dramalhão folhetinesco que passa na TV; o outrora famoso jogador de beisebol Eddie viciado em drogas e sexo (Viggo Mortensen, pouco antes da revelação como Aragorn em “O Senhor dos Anéis”); o homossexual, dançarino e neurótico contumaz Gerhardt (Alan Tudyk, de “Rogue One” e “Tucker & Dale Contra O Mal”); a idosa e solícita Bobbie (Diane Ladd, de “Coração Selvagem”) e muitos outros.

A medida que redescobre quem é longe do efeito intermitente da embriaguez, Gwen passa a se relacionar melhor com os outros à sua volta –até mesmo na ressentida relação com a irmã –e se dá conta da influência um tanto prejudicial e propícia ao vício de Jasper.

Embora haja visivelmente boas intenções e algum engajamento da parte de Sandra Bullock, enquanto estrela famosa, ao envolver-se num projeto que centraliza temas difíceis como o vício em geral, pertinentes a qualquer fórum de discussão, a produção do filme desperdiça inúmeras chances de fazer algo melhor; não apenas a química entre Sandra e Viggo acaba negligenciada (um casal atraente, carismático e talentoso cujos personagens, apesar de uma ou outra sugestão não engatam romance nenhum) como a própria direção de Betty Thomas, ao buscar um tom harmonioso entre o pesado tema abordado e um leveza características de outros filmes de Sandra Bullock, termina não encontrando um registro adequado resultando superficial. Realizado com câmeras digitais que ocasionalmente entregam uma certa insuficiência orçamentária, e carregado de um incômodo aspecto de produção televisiva –em especial, na forma com que chega a um desfecho claudicante e desanimado –pode-se afirmar que “28 Dias” não foi capaz de escapar da irrelevância; o fato de estar sendo citado vinte e quatro anos depois de sua realização, se restringe ao único de detalhe de destaque que é sua atriz principal.

domingo, 9 de junho de 2024

Uma Secretária de Futuro


 O saudoso diretor Mike Nichols sempre teve uma versatilidade desigual, essa capacidade, somada ao talento para sintonizar as sutilezas da atuação (oriundo de sua formação teatral) ajudou a moldar inúmeros projetos singulares que compõem a sua filmografia. Nela, há de tudo um pouco. Das raras comédias a concorrer à prestigiada estatueta de Melhor Filme na cerimônia do Oscar 1989 (prática que infelizmente perdura até hoje), “Uma Secretária de Futuro” é um título que se destaca: Por sua simpatia perene junto ao público que tornou-o um sucesso de bilheteria; pela escolha espetacular, primorosa e espirituosa de intérpretes, todos perfeitos (algo no qual Nichols era craque); e pela junção adequada, funcional e certeira de elementos, tais como um bom roteiro, boas atuações e uma ótima direção.

Interpretada com fulgor fora do comum por Melanie Griffith (uma atriz com algo de alternativo que, na época, dificilmente seria uma escolha convencional para um papel como este), Tess McGill é uma das muitas assalariadas que luta por ter lugar ao sol na disputada (e machista) Nova York da década de 1980. Todos os dias, ela pega a balsa que a leva da suburbana Nova Jersey –onde tenta levar uma vida doméstica, pacata e pretensamente estabelecida ao lado do noivo (Alec Baldwin) –para a competitiva e inclemente Manhattan, onde estão os tubarões corporativistas da bolsa de valores que normalmente atuam como seus patrões; Tess é secretária.

Um deles (Oliver Platt) não tarda a lhe preparar uma armadilha: Julgando ser uma entrevista de emprego para um cargo melhor, Tess acaba na limusine de um executivo disposto à seduzí-la –uma ponta de um ainda desconhecido Kevin Spacey, da época em que atuava mais como comediante. Como pedir demissão na situação financeira de classe média-baixa em que vive é um risco e tanto, Tess tem consciência da urgência em arrumar outro ganha-pão. E ela julga que sua sorte pode finalmente mudar quando começa a trabalhar para a empoderada e discursivamente encorajadora Katharine Parker (Sigourney Weaver, afiadíssima) –afinal, com uma mulher como chefe, imagina Tess, as chances de crescer profissionalmente se tornam reais, longe da indulgência tipicamente masculina, não é mesmo?

Contudo, não é exatamente isso que acontece: Ao sugerir uma ideia bastante original e arguta que teve para Katharine –a de investir, não em emissoras de TV, no ramo de propaganda, mas em emissoras de rádio, por conta dos valores e das complexidades de negociações serem infinitamente mais razoáveis –Tess descobre que Katharine tentou lhe passar a perna. Durante uma tumultuada semana em que Katharine sofre uma fratura andando de esqui, Tess fica sabendo que ela lhe roubou a ideia e iniciou negociações preliminares com um tal de Jack Trasker (Harrison Ford, no auge de sua fase galã). Ao aproveitar-se da ausência de Katharine para passar-se por uma das acionistas a fim de conduzir a negociação, Tess inicia uma relação profissional promissora ao lado de Jack, que acaba progredindo para uma relação mais íntima também –e em ambos os casos, Tess sabe que terá a competição acirrada e desleal de Katharine.

A narrativa que Mike Nichols constrói em “Uma Secretária de Futuro” é, até hoje, pra lá de saborosa: Não apenas ele faz uso imodesto dos elementos de comédia romântica presentes na trama (os encontros e desencontros entre Tess e Jack são simultaneamente deliciosos de se acompanhar) como também se vale de um expediente muito comum em obras graciosas dos anos 1980, onde um, ou uma, protagonista finge, por razões até que nobres, guardadas as proporções, ser aquilo que não é, e cria toda uma farsa a um só tempo divertida e tensa com data de validade para terminar (pois, mentira, apesar dos pesares, ainda tem perna curta!), premissa que funcionou para as mais diversificadas produções como “Tootsie”, “Quase Igual Aos Outros”, “Um Príncipe Em Nova York”, “Tocaia” e tantas outras, aliado a isso, ele ainda elabora uma observação contundente, envolvente e cheia de propriedade, do competitivo mercado de trabalho yuppie dos anos 1980, amparada numa personagem principal cheia de iniciativa, pioneira das personagens femininas a se posicionar com independência e auto-afirmação perante os homens em um universo predominantemente masculino.

Em tempo: Já a adentrar os anos 1990, algum executivo da NBC teve a ideia de criar uma série de TV inspirada em “Uma Secretária de Futuro” –ou “Working Girl”, seu título original –e a atriz que interpretou Tess McGill nos oito episódios que essa série pouquíssimo lembrada durou foi uma ainda desconhecida Sandra Bullock!

sábado, 23 de março de 2024

Amor À Segunda Vista


 Tendo o astro britânico Hugh Grant vindo, alguns anos antes, de realizações como “Quatro Casamentos e Um Funeral” e “Um Lugar Chamado Notting Hill” –hoje certamente clássicos do gênero comédia romântica –e a estrela Sandra Bullock vindo de obras como “Enquanto Você Dormia”, era natural que, em algum momento, eles fossem reunidos num único filme a fim de fazer aquilo que faziam de melhor: Encantar o público em romances inofensivos e adocicados.

Havia certamente um outro motivo por trás disso: Tendo sido todos esses filmes citados produzidos na década de 1990, enquanto que este foi lançado em 2002, já corriam alguns anos que, tanto Sandra quanto Hugh, não protagonizavam um sucesso de bilheteria expressivo –e olha que o gênero comédia romântica nem tinha sofrido um severo desgaste como houve na última década! –dessa forma, a ideia dos produtores, era unir as forças e o carisma junto ao público dos dois astros (uma manobra muito comum no cinema norte-americano) para beneficiar ambos com um novo sucesso de bilheteria. Não foi o que houve –como muitos filmes antes realizados por eles, “Amor À Segunda Vista” passou quase que em brancas nuvens pelos cinemas (também pudera, numa temporada que contou com produções como o primeiro “Homem-Aranha”, de Sam Raimi, “O Senhor dos Anéis-As Duas Torres” e “Harry Potter e A Câmara Secreta”, não haveria de ser uma comédia romântica genérica que iria se destacar...) sendo muito pouco lembrado hoje em dia.

A razão é bem evidente: É bem fácil confundi-lo com inúmeras outras comédias românticas realizadas antes e depois tal é a comodidade com que tudo é nivelado aqui. Sandra vive Lucy Kelson, um ativista nova-iorquina; Hugh, com sua habitual fleuma britânica, irredutível seja no constrangimento, seja na seriedade, vive George Wade, um magnata de família bilionária famosa no setor imobiliário, O contexto em que os personagens existem os separa (e ainda os faz opostos um ao outro), mas as circunstâncias (como rege a cartilha dos romances holllywoodianos) haverão de aproximá-los: Quando Lucy tenta interceder junto à George para que não seja demolido um prédio antigo em Coney Island (que, ainda por cima, serve como centro comunitário), George vê em Lucy algo que falta em seus funcionários usuais –e que lhe cobram o tempo todo em seu escritório: Alguém capaz de lhe chamar a atenção para inúmeros detalhes sociais e humanos que, normalmente, passam completamente batido ao desinteressado George.

Sob a promessa de manter o centro comunitário intacto –um desejo que Lucy herdou dos pais, moradores daquele local –ela começa a trabalhar para ele e, valendo-se dos conhecimentos adquiridos na faculdade de Direito (mas nunca postos em prática profissionalmente e nem financeiramente) Lucy começa a se destacar na empresa a ponto de, em pouco tempo, George se descobrir incapaz de ser um advogado funcional sem ela por perto.

Na inevitável simplificação proporcionada pelo roteiro, essa dependência existencial e prática é, desde os primeiros minutos, uma paixão disfarçada, mas, a despeito da obviedade gritante aos olhos do público, os dois personagens envolvidos levarão todo um filme para descobrir isso –somente quando Lucy dá um ultimato, isto é, quando fica farta de ser a babá de um adulto playboy e pede um aviso prévio de demissão, e com isso, acaba estipulando um prazo de validade para a convivência dos dois, é que os protagonistas começam a se dar conta de seus sentimentos.

É bem provável que o grande motivo para que “Amor À Segunda Vista” tenha sido incapaz de chamar muita atenção para si em sua época –e para que, hoje, continue sendo uma produção sem maiores atrativos –é sua total ausência de um diferencial artístico mais contundente. Sandra Bullock é, como sempre, encantadora, mas já haviam dúzias de filmes exatamente iguais (e por vezes melhores que este) onde ela encantava também; e Hugh Grant já não oferecia qualquer novidade no papel do rapaz inglês tímido, ainda que sedutor e de humor depreciativo. Mesmo a ideia de colocá-los juntos não desperta maiores interesses, visto a pouca química que ambos demonstram.

As carreiras de Sandra e Hugh seguiriam nessa espécie de marasmo por mais alguns filmes –sobretudo a dele, que foi meio que retomada em anos recentes com participações em filmes infanto-juvenis como “Paddington” e “Wonka”; enquanto que Sandra Bullock se reinventaria como atriz e como estrela em produções de maior estatura, revelando nela uma intérprete formidável e destemida.

Hoje, a grande razão para “Amor À Segunda Vista” ser lembrado é, curiosamente, uma ponta não-creditada, não-explicada e completamente aleatória de Donald Trump (!), mostrado numa cena que resume bem o filme: Feita para ser uma graciosa novidade, mas tão insossa que mal lembramos dela.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

O Demolidor


 Nas décadas recentes, surgiu uma espécie de listagem, na internet, apontando todos os tópicos em que esta ficção científica de ação lançada em 1993 conseguiu acertar acerca de como supostamente o ‘futuro’ seria. Tal precisão notável, não provém, de forma alguma, do quanto o filme se propôs sério, nem tampouco profético, mas da curiosa e inesperada predisposição para a comédia que surge quase involuntariamente no roteiro, escrito entre outros, por Daniel Waters (o mesmo do cáustico, questionador e sarcástico “Atração Mortal”) –ao dar asas à imaginação e conceber um futurismo social aludido pelas improváveis considerações de autores como Aldous Huxley (“Admirável Mundo Novo”) e George Orwell (“1984”), o roteiro de “O Demolidor” satiriza os indivíduos criados numa sociedade oriunda de regras progressivas sob um prisma politicamente correto que corresponde a muito do que se tornou corriqueiro nos dias de hoje. E isso, além do eficiente divertimento que ele promove, deu ao filme um improvável e surpreendente aspecto profético.

No ano de 1996 –três anos, portanto, afrente do ‘presente’ no qual “O Demolidor” foi lançado –o policial John Spartan (Sylvester Stallone) e o bandidão Simon Phoenix (Wesley Snipes, ótimo), ainda que inimigos mortais e de lados opostos da Lei, são sentenciados a uma mesma e inovadora pena, a Crio-Prisão –graças à uma armação de Phoenix na qual seus reféns terminam mortos e Spartan, acusado. A Crio-Prisão trata-se de uma sentença futurista na qual criminosos condenados são congelados por criogenia, até que os anos da pena acabem passando e, ao final, são libertados, descongelados, e têm implantes de memória que os fazem se integrar com mais facilidade à sociedade.

Entretanto, no ano de 2032, quando uma fusão entre duas metrópoles cria a pacífica e utópica San Angeles –na qual o crime inexiste e, portanto, as forças policiais já não têm ideia de como lidar com ele! –o perigoso Simon Phoenix é tirado de sua animação suspensa e, dotado da fúria psicótica com a qual ficou conhecido, passa a promover um terror injustificado na pacata cidade. A saída para os perplexos e ineficientes policiais do futuro é descongelar o único homem que foi capaz de detê-lo no passado, o também condenado policial John Spartan.

Embora o filme dirigido pelo diretor Marco Brambilla não fique a dever aos fãs de Stallone no quesito cenas de ação, é na sua gaiata e divertida tentativa de adaptação àquele bizarro mundo futurista que a trama de “O Demolidor” mais parece se concentrar, e é nesses momentos que encontra um êxito mais nítido –a interação dele com a policial Lenina Huxley (a sempre maravilhosa Sandra Bullock, ainda desconhecida, numa personagem que leva o sobrenome de Aldous Huxley e o nome da protagonista de “Admirável Mundo Novo”, Lenina Crowne) é hilariamente deliciosa justamente pelo choque e contraste de comportamentos entre o jeito despachado, inofensivo e asséptico dela e das pessoas de 2032, e a atitude brucutu, mal-humorada e indignada de Spartan, absolutamente inconformado com os rumos tomados pelo futuro, no qual as pessoas são multadas automaticamente por falar palavrões (!), a comida se converteu numa dieta saudável, alienada e irredutível (alguém lembrou do movimento vegano?) e as maneiras minimamente ríspidas (que o diga a agressividade propriamente dita) foram abolidas.

Digno de encabeçar com facilidade qualquer lista dos melhores filmes de Stallone na década de 1990, “O Demolidor” oferece aos fãs tudo o que se pode esperar de um filme de Sylvester Stallone –ação bem conduzida e bem realizada, pancadaria e um enredo nítido e bem delineado da Lei contra o crime, o bem contra o mal –contudo, seu grande diferencial e a surpresa com a qual acometeu expectadores daqueles tempos vem do delicioso desmazelo de seu humor futurista e suas piadas que, por mais que pudessem soar fantasiosas até mesmo aos realizadores na época, terminaram antecipando alguns elementos hoje bem reais. Logo abaixo, uma singela lista de alguns tópicos que “O Demolidor” acertou em cheio na sua despreocupada sátira futurista:

-Pessoas buscando auto-estima (e outras soluções práticas da vida) nos recursos digitais.

-Reuniões virtuais feitas por home-office.

-A carreira política de Arnold Schwarzenegger (!).

-Comando ativado por voz em residências.

-Moeda digital.

-Comprimidos substituindo a alimentação comum.

-Telefones portáteis que acessam a internet.

-Carros elétricos autônomos.

-Leis antifumo.

-Polícia de pensamento (ou Patrulha Ideológica).

-Germafobia (ou o medo patológico de germes, a hipocondria crônica).

-Controle de armamento.

domingo, 31 de dezembro de 2023

Tempo de Matar


 Em meados de 1996, o diretor Joel Schumacher, por incrível que possa parecer, se encontrava em destaque em Hollywood. Responsável por isso foi a dobradinha de filmes que ele lançou no período, sendo um deles a sua primeira incursão no universo do Homem-Morcego a substituir Tim Burton, “Batman Eternamente” (que embora tenha conquistado o descontentamento da crítica teve boa bilheteria, fracasso foi, de fato, o filme seguinte, “Batman & Robin”), e o outro, este mezzo suspense, mezzo filme de tribunal, “Tempo de Matar”, adaptado da obra de John Grisham (autor que estava em alta naqueles tempos tendo diversas produções adaptadas de seus livros).

É possível notar, através desse exemplo, que o fracasso, às vezes, ensina muito mais que o sucesso: Embora nunca tenha sido um grande diretor, foi depois desta produção relativamente aclamada que Schumacher perpetrou sua mais infame bizarrice cinematográfica, entretanto, foi logo depois do vexame incalculável de “Batman & Robin” que ele teve o bom senso de conduzir a carreira por meio de realizações menores, nas quais o controle do diretor era mais garantido, e o resultado qualitativo, mais certo de ser obtido. Mas, “Tempo de Matar” vale assim esse alarde que, à época, suscitou? Nem tanto.

No sempre segregado e sempre em polvorosa, Mississipi, no sul dos EUA, uma garotinha da comunidade negra é agredida e estuprada por dois rapazes brancos racistas que vão imediatamente à julgamento, sob a quase certeza de absolvição diante das impunes legislações sulistas. No entanto, o indignado pai da criança, Carl Lee Hailey (Samuel L. Jackson), se antecipa à qualquer sentença e metralha os dois criminosos dentro do tribunal, fazendo justiça com as próprias mãos.

É Carl Lee quem agora está no banco dos réus, prestes a ser condenado por homicídio. Sua defesa é assumida pelo jovem e idealista advogado Jake Brigance (Matthew McConaughey, no papel que o revelou à Hollywood após várias participações menores em produções pequenas) que não faz ideia –mas, fará! –de todas as imbricações e desdobramentos que acarretará sua decisão de defender um acusado negro numa comunidade como a do Condado de Canton.

Com a cidade em iminência de virar um barril de pólvora –de um lado os manifestantes negros exigindo veementemente absolvição, de outro, os asseclas da Ku Klux Klan, restaurada no lugar pelos esforços do vingativo irmão de um dos assassinados, vivido por Khiefer Sutherland –Brigance deve enfrentar, nos tribunais, a voracidade inescrupulosa do procurador Rufus Buckley (Kevin Spacey), a desvantajosa antipatia do Juiz Omar Noose (Patrick McGoohan, de “Coração Valente”) e a real ameaça que toda essa circunstância representa a ele e à sua família. Para auxiliá-lo, Brigance conta com o apoio do mentor Lucien Wilbanks (Donald Sutherland), do amigo e parceiro em advocacia Harry Rex Vonner (o histriônico Oliver Platt) e com a inteligência aguçada da jovem estudante Ellen Roark (Sandra Bullock, mais coadjuvante do que protagonista, embora tenha o nome em primeiro nos créditos).

É certamente uma trama urgida com a eficiência e a competência de quem compreendia esse gênero como ninguém –e provavelmente, ela deve funcionar melhor no livro original –ainda assim, apesar de seus bons momentos, o filme é pedante, dirigido com pieguice. Ficam patentes o descontrole de Schumacher para com emoções que deveriam ser mais contidas e a incapacidade dele em extrair atuações bem calibradas de seu elenco vasto e estelar: Em geral, bons atores, Sandra Bullock e Matthew McConaughey se contentam em ter suas belezas evidenciadas e seus egos massageados; quem salva a pátria, no fim das contas, é o sempre ótimo Samuel L. Jackson –grande ator, sua carreira merecia muito mais do que a única indicação ao Oscar (Melhor Coadjuvante por “Pulp Fiction”) que até hoje ele recebeu.

sábado, 16 de dezembro de 2023

Forças do Destino


 Da série “filmes que desapareceram no tempo e na memória”, a comédia romântica “Forças do Destino” é uma produção sem muito sentido e sem muita noção, feita na época pra capitalizar em cima dos estrelatos relativamente recentes de Sandra Bullock e Ben Affleck. Naqueles anos 1990 de então, tinha-se muito aquela coisa de investir no carisma de astros para carregar obras de gênero fácil que, com tramas formulaicas e testadas, arregimentavam, sem muito esforço, plateias aos cinemas. Não é preciso nenhuma dificuldade para perceber que “Forças do Destino”, lançado em 1999, é exatamente isso; escrito com estranho desmazelo, interpretado com inspiração oscilante por todo o elenco e dirigido com opções estéticas e narrativas que hoje soam de gosto duvidoso, é um filme que, na maior parte do tempo, nos faz perguntar o que levou estrelas em ascensão como Sandra e Ben (ela havia feito “Enquanto Você Dormia” e começava a se sagrar como a nova rainha das comédias românticas em Hollywood; ele participou, no ano anterior o block-busterArmageddon”), a aceitar esse projeto.

Ele está longe de ser uma catástrofe, não me entendam mal (catástrofe mesmo foi “Contato de Risco”, que Ben Affleck estrelou poucos anos depois, mas essa é outra história...), mas é um filme que, não raro, coloca seus protagonistas em situações vexatórias, na maioria das vezes constrangedoras (sem, no entanto, apelar àquele humor inconsequente dos filmes dos anos 1980), e cuja premissa não fornece motivações boas o suficiente sequer para o próprio enredo existir, que o diga para o público comprar tudo o que se sucede em cena.

Tudo começa com o personagem Ben Holmes (o próprio Ben Affleck, com a mesma cara de novinho de “Gênio Indomável”) na sua despedida de solteiro, em Nova York. Ben está prestes a se casar com Bridget (Maura Tierney, de “O Mentiroso”) e, apesar de ser bom-moço e da convicção no matrimônio que tenta ostentar, não lhe faltam circunstâncias que lhe sugerem a armadilha que o casamento pode representar –é como se o filme (que aliás, é escrito por Marc Lawrence e dirigido por Bronwen Hughes) fizesse o tempo todo uma espécie de propaganda anti-matrimonial a incitar o personagem principal; e, por consequência, o público em relação aos rumos a que trama haverá de tomar.

Uma vez em Nova York, Ben deve tomar o avião para Savannah, na Flórida, onde Bridget o aguarda para enfim realizarem a cerimônia, e nesse ínterim, convidados não param de chegar. Contudo, eis que o avião –que ele toma lado à lado da tresloucada personagem de Sandra Bullock, Sarah –tem uma pane e acaba não conseguindo decolar. Com ambos coincidentemente tendo de estar em Savannah muito antes dos horários dos próximos voos (ela precisa estar lá para executar uma venda imobiliária), Sarah e Ben resolvem, digamos, unir forças para conseguirem chegar na cidade o quanto antes, obtendo caronas alternativas, em carros, trens, ônibus e no que aparecer –e claro, confusões se seguem nesse processo.

Em princípio, pode lembrar bastante a premissa básica do clássico oitentista “Antes Só Do Que Mal Acompanhado”, do diretor John Hugues (nenhum parentesco com a diretora Bronwen Hugues), com Ben Affleck repetindo o papel de Steve Martin, enquanto Sandra Bullock é a força da natureza que transforma a viagem numa sucessão de confusões, assim como o falecido John Candy, mas não é bem assim: O filme se revela frouxo e desbotado em seu humor sem graça, inadequado nos momentos de seriedade em que pretende discutir certos aspectos da vida a dois, e falho no romance, uma vez que Ben Affleck consegue o feito inacreditável de não possuir química alguma com a maravilhosa Sandra Bullock –que, não se engane, é a melhor coisa do filme a despeito da personagem contraditória, desregrada, bipolar e incoerente que ela tenta interpretar.

Como o filme de qualidades e intenções duvidosas que é, “Forças do Destino” permite aos expectadores atuais enxergarem muito melhor seu lapsos abissais hoje do que na época em que foi feito: Como comédia romântica, ele parece estranhamente focar muito mais a atenção de seu roteiro (já bem pouco atencioso) no protagonista masculino e sua dúvida pouco original em assumir o casamento, do que na personagem feminina, uma vez que esse é o procedimento de maior parte das comédia românticas funcionais (isso porque a diretora é uma mulher!!), além de ser um verdadeiro pecado desperdiçar Sandra Bullock no auge da beleza, da formosura e do magnetismo (logo, ela estrelaria uma sucessão prejudicial de projetos rasteiros como este, até enfim fazer as pases com o sucesso, em “Miss Simpatia”, mas, essa também é outra história...). Resta somente o elemento curioso no fato de que, indo na contra-mão do gênero à que pertence, o desfecho contraria muito do que o próprio filme vinha discorrendo, inclusive em níveis subliminares, para levar o personagem de Ben a terminar junto com sua noiva, e a personagem de Sandra resolver seus próprios assuntos pendentes por conta própria –ou seja, eles não terminam juntos! O que, longe de ser um mérito, deve ter também frustrado o público-alvo para o qual supostamente este trabalho haveria de ter sido feito.

Para piorar ainda mais a situação desde filme inconstante e insípido, naquele ano de 1999, o cinema norte-americano testemunhava uma revolução temática e qualitativa com o lançamento de verdadeiros clássicos modernos, onde novos realizadores exploravam os limites do cinema como nunca antes, tais como “Matrix”, “Clube da Luta”, “Quero Ser John Malkovich”, “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”, “Requiem Para Um Sonho” e “Três É Demais”. Já não havia mais, portanto, espaço para comédias românticas bobinhas e abiloladas feitas a toque de caixa.

domingo, 1 de outubro de 2023

Trem-Bala


 Ao lado de Chad Stahelski, o diretor David Leitch conduziu uma espécie de revolução no cinema hollywoodiano de ação –ancorados na formidável mitologia de “John Wick”, as novas produções não mais se satisfaziam na pancadaria descerebrada que dominou o gênero a partir dos anos 1980. Agora, os filmes de ação têm um entendimento singular de cinema (não somente com notáveis referências que vão desde obras obscuras do cinema de Hong-Kong até menções apaixonadas a trabalhos cultuados do cinema mudo, mas também exercícios de virtuosismo técnico que, não raro, incluem planos-sequências formidáveis e desafiadores construídos num único take) e uma exuberante contribuição da habilidade artística, instintiva e corpórea de seus dublês (ofício primeiro de Stahelski), isso tudo, sem esquecer quesitos antes negligenciados como interpretação (tais filmes ostentam sempre talentosos atores como não deixa mentir o ótimo Keanu Reeves), roteiro (seus enredos mergulham em meandros que apresentam profundidade e dramaturgia) e direção (o conhecimento narrativo pulsa, em igual entusiasmo, com o conhecimento da ação) –em suma, agora, filmes de ação são cinema de verdade.

A diferença entre os dois grandes responsáveis por essa pequena revolução temática, Stahelski e Leitch, é que, enquanto Stahelski aprecia a estrutura interna da movimentação dos corpos em conflito, e disso faz toda uma coreografia com propósito e sentimento, Leitch é apaixonado pelos elementos que impulsionam, dentro da trama, esses mesmos corpos em conflito. Dessa convicção veio a adaptação de quadrinhos nunca menos que sensacional “Atômica” e, agora, este “Trem-Bala”, cuja trama, inspirada, por sua vez, no romance de Kotarô Isaka, caminha pelos sinuosos desdobramentos da comédia, adentra os intrincados flashbacks de um neo-noir moderno e se ramifica em diversos personagens, assumindo pontos de vista, interrompendo o fluxo narrativo para regressar no tempo e narrar histórias paralelas que, às vezes, vão complementar a história principal de formas inesperadas. Em suma: Enquanto promove ação ininterrupta e pancadaria refinada num nível que Chuck Norris e Jean-Claude Van Damme jamais poderiam sonhar em seus áureos tempos, David Leitch também se permite brincar com a narrativa de forma elaborada e sofisticada.

A premissa que urge “Trem-Bala” é complexa –e vai se complicando e se fragmentando ainda mais a medida que o filme avança –embora desenvolvida dentro de uma circunstância simples: O filme muito pouco sai de dentro da ambientação do trem-bala do título, um transporte high-tech de alta-velocidade que singra todo o Japão.

É dentro dele que o assassino Ladybug (Brad Pitt, divertidíssimo) irá, aos poucos, desvendar a missão que lhe foi confiada –e que é, em si, uma baita enrascada! Sob instruções via celular de sua contratante Maria (uma ponta luxuosa de Sandra Bullock, devolvendo o favor da participação especial de Pitt em “Cidade Perdida”), Ladybug deve roubar uma maleta contendo dinheiro de dois outros passageiros do trem, os gêmeos Lemon e Tangerine (Brian Tyree Henry e Aaron Taylor Johnson, que de gêmeos não têm nada). O problema é que os gêmeos também têm seus próprios contratempos; a missão deles é levar o dinheiro (contido na maleta) e uma espécie de refém (Logan Lerman), um viciado que vem a ser filho do temido chefão do crime, White Death (Michael Shannon). Nem bem o trem sai da estação, a maleta é roubada (por Ladybug) e o refém é morto (por alguém cuja identidade ainda é um mistério) colocando Lemon e Tangerine com um grande abacaxi nas mãos. Eles têm que encontrar um meio de livrarem-se dessa confusão antes do trem-bala chegar à última estação –quando não terão escapatória (nem eles, nem Ladybug) das mãos cruéis de White Death.

Há, em meio ao frenesi dos demais passageiros do trem, outros personagens que acrescentam mais densidade e intriga a essa sucessão de tumultos: Kimura (Andrew Koji), assassino de aluguel disposto a vingar um acidente sofrido pelo filho cujo papel, dentro do trem, termina sendo o de marionete nas mãos da manipuladora Prince (Joey King, na personagem mais enervante do filme), uma patricinha dissimulada e aparentemente inocente que planeja a morte que praticamente todos os personagens (!); a Vespa (Zazie Beetz, de “Deadpool 2” e “Coringa”) uma assassina sorrateira especializada em envenenamento; Wolf (o rapper Bad Bunny), um assassino mexicano à bordo do trem, também ele, em busca de vingança; e uma espécime rara de cobra (!?), surrupiada do zoológico local, dona de um veneno capaz de levar a vítma de sua mordida à morte por hemorragia em 30 segundos (!), e que por conta desse mero detalhe é essencial à história.

Cada um desses personagens é norteado por seu próprio propósito e sua própria trama, e é dessa forma que suas trajetórias se cruzam (ou melhor, se colidem!) à bordo do trem-bala, quando seus objetivos e motivações entram em conflito à medida que o trem avança, e sua trama, pontuada de alianças refeitas e desfeitas, de mortes e perseguições, revelações e segredos de última hora, vai se afunilando até a apoteótica estação final, quando diretor David Leitch terá exibido todo o seu espetacular leque de recursos para brindar o público com um dos mais inventivos, divertidos e insanos filmes a mesclar comédia e ação em níveis impraticáveis em muito tempo.

domingo, 17 de setembro de 2023

Cidade Perdida


 A escritora Loretta Sage (Sandra Bullock) é uma daquelas autoras de best-sellers aventureiros que vive uma vida diametralmente oposta a das heroínas que cria: Doméstica, banal, conveniente, ainda tão mais acomodada devido ao fato de ter enviuvado.

Todavia, como toda a trama previsível e comercial que une aventuras à moda antiga com comédia romântica, Loretta está fadada a experimentar, na vida real, as peripécias que tanto escreveu para suas personagens –e está aí, na diferença ora constrangedora, ora inusitada, entre a ficção vistosa e a realidade inclemente, o grande charme almejado pelo filme dirigido pelos irmãos Adam e Aaron Nee.

Enfurnada em sua casa e pouco interessada no mundo lá fora, Loretta é arrancada de sua inércia por sua ativa e opinativa editora Beth (Da’Vine Joy Randolph) que lhe cobra o mais recente livro de sua série de sucessos literários, todos protagonizados pelo inverossivelmente galante Dash McMahon. Contudo, o sucesso, da forma como veio, não parece satisfazer Loretta –porque ao escrever as aventuras de sua heroína, ela sente estar criando literatura de baixa qualidade e, sobretudo, porque tal sucesso parece vir menos pelo teor esforçado de seus escritos e mais pelo apelo visual das capas, nas quais tornou-se tradição aparecer, caracterizado como Dash, o modelo Alan Caprison (Channing Tatum) que, de fato, arranca suspiros das leitoras.

É no constrangedor evento de lançamento do último livro que Loretta acaba sendo sequestrada pelo jovem, excêntrico e abilolado bilionário Abigail Fairfax (Daniel Radcliffe) destinada a fazer parte de um plano tão estranho quanto ele: Ajudá-lo a decifrar o paradeiro da mítica Coroa de Fogo, relíquia de uma cidade perdida localizada em uma ilha no Oceano Atlântico que, à propósito, é citada no mais recente livro de Loretta.

Com Loretta em perigo, resta à Alan contratar o aventureiro da vida real Jack Trainer (Brad Pitt, numa participação hilária) para fazer o que, em tese, seu personagem faria: Resgatar a moça em perigo e salvar o dia.

Contudo, diante de desdobramentos cada vez mais improváveis, Alan e Loretta veem-se sozinhos em meio à selva da tal ilha, perseguidos pelos capangas sem-noção de Fairfax e levados, pelo súbito faro arqueológico redescoberto de Loretta, a seguir o rastro de pistas que podem levar à Coroa de Fogo –e à diversas armadilhas também.

Paradisíaca, frenética e pontuada de lances cômicos tanto quanto de ganchos nem sempre oportunos para o romance, “A Cidade Perdida” apesar do fato incômodo de não entregar nenhuma novidade de fato (sua mescla de aventura com romance a lembrar deliberadamente o clássico “Tudo Por Uma Esmeralda” remete imediatamente à ‘sessão da tarde’) funciona graças às suas espirituosas presenças do elenco, em especial, seu par central: No papel do herói romântico em potencial, Channing Tatum surpreende, revelando inesperadas doses de vulnerabilidade e hesitação –e encontrando justamente aí, um engraçado diferencial para o seu personagem –já Sandra Bullock escuta o tempo todo (em especial das farpas que saem da boca do desagradável vilãozinho) que está velha demais para esse tipo de aventura. Pura provocação –ela está linda, e sua personagem, divertidíssima!

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Um Sonho, Dois Amores


 É bastante curioso notarmos neste filme (datado de 1993) que a pouco conhecida Samantha Mathis (de “Psicopata Americano”) tem como coadjuvante uma ainda jovem Sandra Bullock –“Velocidade Máxima” e “Enquanto Você Dormia” seriam realizados nos anos seguintes, e só então, Sandra se tornaria uma estrela, o que explica, porque aqui é Samantha quem ganha o protagonismo –mas, já se percebe com facilidade, na capacidade quase espontânea de Sandra roubar todas as cenas, que ela ainda iria longe. Entretanto, “The Thing Called Love” se destaca também por outras duas razões: Uma, seu diretor, Peter Bogdanovich, foi uma grande promessa em meados dos anos 1970 –época da Nova Hollywood –e seu filme é permeado por uma certa desilusão, característica de um diretor bastante tarimbado no manejo de narrativas dramáticas, cujo estilo nunca se mostrou de todo palatável. E a outra, seu astro, River Phoenix, que faleceria de overdose naquele mesmo ano de 1993, fazendo deste o seu último trabalho.

O mundo dá mesmo muitas voltas: River Phoenix era um grande amigo pessoal de Keanu Reeves, e os dois fizeram juntos, poucos anos antes, “Garotos de Programa”, de Gus Van Sant; já, Keanu e Sandra se encontraram no ano seguinte, 1994, em “Velocidade Máxima”, e fariam juntos ainda “A Casa do Lago”, em 2006.

Mas, voltemos ao filme: A jovem nova-iorquina Miranda Presley (Samantha Mathis, bela, ainda que limitada) sonha em ser cantora de música country e, como tantos outros, decide pegar a estrada e perseguir seu sonho em Nashville, onde espera se tornar uma estrela. Lá, ela descobre o Bluebird Cafe, um bar local conhecido por revelar em seu palco inúmeros talentos musicais, contudo, devido à um atraso, Miranda não tem a oportunidade de se apresentar, tendo de se contentar com a ocupação de garçonete, chance de emprego oferecida pela dona do lugar, Lucy (K.T. Oslin). Nas semanas que se seguem, ela conhece novos forasteiros, também eles em busca de seu lugar no céu da fama: James Wright (River Phoenix), do Texas, Kyle Davidson (Dermot Mulroney) e Billy (Anthony Clark), vindos de Connecticut, e Linda Lue Linden (Sandra, um alívio cômico inebriante), do Alabama. Unidos por sua desilusão em comum (nenhum deles consegue qualquer resultado positivo nas disputadas audições), eles se tornam amigos, ainda que Miranda, com o tempo, acabe no meio de uma espécie de competição amorosa entre James e Kyle.

Para além de um filme romântico e musical banal, a obra de Bogdanovich acompanha esses personagens ao longo dos anos, registrando, ao som reflexivo da música country, a gradual transformação de seus sentimentos, sejam eles de amor ou de amizade, e revelando as tortuosas vicissitudes sofridas pelos relacionamentos a medida que a vida, enfim, se sucede.

Bonito e melancólico (característica enfatizada pelos arranjos das músicas), "The Thing Called Love" é um trabalho hoje esquecido de Peter Bogdanovich, no qual seu olhar agridoce e lírico sobre as mazelas espirituais e sentimentais de uma geração desiludida muito faz lembrar seu magistral "A Última Sessão de Cinema"; como naquela obra, Bogdanovich não se furta em expor seu lado cinéfilo ao evocar a narrativa reflexiva e austera de John Ford, cuja referência mais marcante se dá na cena em que os personagens assistem ao brilhante (e igualmente desiludido) “O Homem Que Matou O Facínora”.

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

As Bem-Armadas


 Comédias já foram um lugar comum no cinema comercial norte-americano. Não mais. Expectadores e críticos de cinemas nos últimos anos certamente notaram a escassez do gênero nos circuitos comerciais. A razão para isso é, certamente, a cultura do politicamente correto (na qual, todo o assunto abordado, seja ele qual for, é passível de ofender os envolvidos, conforme as palavras erradas forem usadas) e, por consequência, a cultura do cancelamento (na qual, uma vez considerado ofensivo –mesmo que nem sempre o seja –um filme, uma obra, uma pessoa, ou qualquer coisa que seja, é taxada pelos moralistas de plantão à solta pela internet e se torna alvo de injúrias, difamação, rejeição e desprezo). Comediantes não podem mais fazer piada sob o risco de virarem alvo em potencial do próprio tema que abordaram, e com isso, as comédias, em especial, aquelas de humor mais afiado e, de repente, crítico, deixaram de serem feitas.

É, portanto, necessário relembrar, de tempos em tempos, algumas dessas obras. “As Bem-Armadas”, realizado há dez anos atrás, não é exatamente um filme tão antigo, porém, conferi-lo hoje já provoca aquela sensação de estarmos vendo um trabalho realizado numa época diferente. Seu apelo de público foi –e até hoje continua sendo –a reunião em cena de duas atrizes que sempre estiveram em estado de graça: A estrela Sandra Bullock (no mesmo ano em que foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz pelo esplêndido “Gravidade”) e a comediante Melissa McCarthy.(dois anos depois de ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “Missão Madrinha de Casamento”, aliás, repetindo a parceria com o diretor daquele filme, Paul Feig).

Sandra é Sarah Ashburn, agente do FBI cujo comportamento rígido, reto e certo lhe proporcionou a garantida antipatia da maior parte de seus pares investigadores. Melissa é Shannon Mullins, policial da cidade de Boston que, por sua vez, tem –até demais! –o traquejo das ruas: é desbocada, indisciplinada e mundana. Ambas, mulheres da lei tão antagônicas, elas são –claro! –colocadas como parceiras pela força das circunstâncias: A agente federal é designada e seguir o rastro de um misterioso líder do tráfico de drogas a partir da pista descoberta através de um meliante que a policial prendeu.

Pouquíssimo disposta a abrir mão de sua investigação para a Agente Ashburn (até porque seu irmão ex-presidiário, vivido por Michael Rapaport, está envolvido com os traficantes), a Detetive Mullins acaba aceitando-a como aliada. Assim sendo, no decurso da tumultuada investigação e da aproximação assim exigida, as personagens descobrem que, por trás das incompatibilidades extremas, podem criar um laço de companheirismo e amizade capaz de sobrepujar todas as diferenças –e o diretor Paul Feig aproveita assim para explorar cada instante da notável sintonia que Sandra e Melissa conseguem obter em cena.

Ambas talentosas, hábeis em fazer comédia (mérito que nem toda a atriz que se preze tem, nem mesmo algumas conceituadas) e conhecidas por serem pessoas de fácil convivência nos bastidores, a dupla principal é, de fato, o coração do filme, e o diretor nem se preocupa em esconder isso. O enredo do filme –tolo no fim das contas, se pararmos para pensar que os propósitos da trama policial levam somente à expedientes cômicos –sua fauna de histriônicos coadjuvantes –que até reúne alguns nomes de destaque como Thomas F. Wilson (o Biff de “De Volta Para O Futuro”), Demian Bichir e Marlon Mayans –e todas as decisões do projeto visam circundar e centralizar suas protagonistas. E elas fazem bem seu papel: Ninguém no filme consegue capturar mais a atenção do que elas, nem protagonizar uma piada que seja mais divertida –embora aquelas que não têm muita graça também apareçam vez ou outra.

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Bird Box


 Embora seja adaptado do romance de Josh Malerman, o filme da Netflix, dirigido por Susanne Bier e o perigo central cuja trama impulsiona parecem uma mescla dos conceitos de “Um Lugar Silencioso”, de John Krazinski, “Ensaio Sobre A Cegueira”, de Fernando Meirelles, e –pasmem –o péssimo “Fim dos Tempos”, de M. Night Shyamalan. Em princípio, numa manobra convencional, ainda que intrigante, de estilo, não nos é fornecido maiores informações acerca da ameaça pela qual observamos tantos personagens exprimir temor, e devido a qual notamos todo o mundo parece ter sucumbido –na verdade, manter-se nas entrelinhas é um artifício que o filme de Bier preserva até o film, e é algo com o qual o expectador deve, afinal, conformar-se.

Sabemos, por dedução, sugestão e alguns indícios parcos, que são seres invisíveis (a nós, expectadores, pelo menos) e que, quando avistados, induzem as pessoas a um irreversível surto suicida, daí as já emblemáticas vendas nos olhos que os personagens usam quase todo o tempo –se o livro de Josh Malerman traz mais esclarecimentos sobre a procedência dessa ameaça, de onde vem ou do que se trata, isso se restringiu mesmo à fonte literária, pois, o filme de Susanne Bier se resume a isso, focando tudo o mais de sua narrativa no esforço de sobrevivência –capturado em dois tempos distintos –de sua protagonista.

Sorte do filme ela ser maravilhosa: Ou melhor, sorte do filme ela ser Sandra Bullock. Quase recém-saída do primoroso “Gravidade”, de Alfonso Cuarón, Sandra interpreta Malorie Hayes que, quando o filme começa, se vê no permanente estado de aflição ao qual os sobreviventes são condicionados. O mundo está em frangalhos. O perigo espreita por todos os lados. Nenhum lugar é seguro e, para piorar, ela tem a responsabilidade de zelar pela vida de duas crianças, uma menininha (Vivien Lyra Blair) e um garotinho (Julian Edwards). Há, porém, uma esperança: Um duvidoso sinal de rádio indica que, ao descer as corredeiras de um rio, eles podem encontrar um refúgio onde estarão seguros. A jornada, contudo, será árdua, complicada ainda pelo fato de que Malorie terá de encontrar uma maneira de desvencilhar-se de perigos mortais (aos quais, normalmente, seria necessário ter os dois olhos bem abertos para deles escapar) sem remover as vendas de seus olhos e dos olhos das crianças.

Vez ou outra, a intercalar esse tenso percurso, a narrativa de Bier regressa no tempo, para cinco anos antes, quando Malorie ainda se achava grávida (esperando a menina ou o menino?) e, ao lado da irmã (vivida por Sarah Paulson) testemunhou o início de toda a misteriosa catástrofe, em princípio, nos noticiários de TV dando conta de um perigo desconhecido na Rússia, mas, logo em meio às ruas da própria cidade onde vivia –e o trabalho da diretora Bier, nesse trecho, é verdadeiramente brilhante, sabendo moldar ritmo e atmosfera com precisão surpreendente para uma diretora oriunda de pequenas obras dinamarquesas, algumas delas inclusas no movimento Dogma 95.

Malorie consegue se refugiar numa casa –circunstância na qual o filme irá ocupar sua maior parte de tempo –na companhia de vários outros sobreviventes: Greg (D.B. Wong, de “Jurassic Park”) o solícito proprietário; Douglas (o sempre ótimo John Malkovich) um homem niilista disposto a abrir mão dos escrúpulos para preservar a própria vida; Tom (Trevante Rodhes, de “O Predador”) um jovem ex-combatente; Charlie (Lil Rel Howery, de “Corra!”) um aspirante a escritor; Cheryl (Jackie Weaver, de “O Lado Bom da Vida”); Lucy (Rosa Salazar, de “Alita-Anjo de Combate”) uma policial em treinamento; Felix (o cantor Machine Gun Kelly) um mero andarilho; e a jovem e assustada Olympia (Danielle Macdonald, de “Lady Bird-A Hora de Voar”), também dela, grávida, assim como Malorie.

Alternando esses dois blocos de tempo –cinco anos antes e depois –o filme registra o expediente conhecido de obras de gênero dessa natureza, onde o grupo experimenta os inevitáveis estágios da privação confinados num ambiente ao redor do qual o mundo que conheciam entra em colapso. Eles discutem possibilidades, veem o tempo passar, a comida se acabar, planos para incursar no perigoso mundo lá fora são feitos e, aos trancos e barrancos, executados e, no processo, coadjuvantes mais triviais vão sendo descartados. Enquanto isso, acompanhamos Malorie nas tensas horas dentro do barco com as crianças, a medida que os flashbacks esclarecem como e por meio de quais circunstâncias, ela foi parar lá.

É uma obra enxuta, objetiva e despretensiosa se pararmos para pensar que não pretende reinventar a roda e revisita com modéstia (e considerável eficácia) um gênero muito explorado pelo cinema nos últimos anos. O trabalho satisfatório de Susanne Bier, a produção caprichada e válida da Netflix, contudo, não serviriam para nada não fosse a presença de Sandra Bullock: Linda, experiente e de um carisma à toda prova, ela se mostra uma rocha sólida à qual a narrativa pode se apoiar sem medo. Os tempos de mocinha de comédias românticas ficaram para trás: Ela até pode de fato fazê-las (pois, continua sensual e encantadora) mas, já mostrou ser uma atriz capaz de tirar de letra os mais desafiadores projetos.