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domingo, 21 de junho de 2026

Imperdoável


 Produzido pela Netflix (assim como “Bird Box”, outro grande sucesso estrelado por Sandra Bullock), “Imperdoável” –ou “Unforgivable” é adaptado da série de TV inglesa, “Unforgiven”, inédita no Brasil, estrelada por Suranne Jones e dirigida por David Evans. De fato, nota-se o quanto o enredo de “Imperdoável” se ramifica em diversos outros personagens atrelados ao drama de sua protagonista, multiplicando suas sub-tramas num recurso que remete mesmo aos expedientes das séries de TV.

Contudo, a opção aqui, apesar desses despercebidos elementos narrativos, é dar uma solidez cinematográfica ao material, e nisso o trabalho da diretora Nora Fingscheidt acaba lembrando muito os contundentes dramas independentes norte-americanos.

Sandra interpreta (e muito bem) a protagonista, Ruth Slater que, quando a trama começa, está saindo da penitenciária na qual permaneceu encarcerada nos últimos vinte anos. Depois de tanto tempo presa, Ruth já não parece ser capaz de funcionar em sociedade. É uma pessoa calada, acuada e introspectiva. E para piorar, além das severas circunstâncias em que precisa se manter durante esse frágil período de liberdade condicional, existem as complicações do crime pelo qual ela foi condenada –do qual inicialmente, não sabemos muito, mas cujos elípticos flashbacks vão, aos poucos, tentando nos esclarecer.

Ruth matou um policial quando tinha vinte anos –um crime ao que tudo indica acidental, todavia, nada disso serve de atenuante para aqueles que se voltam contra ela, por pura simpatia à polícia.

Na árdua tentativa de se readaptar, Ruth vai morar num albergue suburbano, arruma emprego numa fábrica processadora de pescados (o único que ela obtém apesar de possuir referências melhores) e consegue uma segunda ocupação ao ajudar uma OMG na construção de um abrigo para sem-tetos. Enquanto se incumbe dessa rotina, ela recebe ocasionais visitas de seu rigoroso agente da condicional, Vincent Cross (o ótimo Rob Morgan, de “Não Olhe Para Cima” e “Confronto No Pavilhão 99”) e estabelece uma relutante amizade com o colega de trabalho Blake (Jon Bernthal).

Existem ainda os filhos do policial que ela matou, o irascível Keith (Tom Guiry, de “Tigerland-O Caminho da Guerra”) e o retraído Steve (Will Pullen) que eram crianças na ocasião do homicídio –mas que agora, diante da revoltante notícia da liberdade de Ruth, pensam seriamente em planejar um ato de justiça com as próprias mãos.

Há o casal, formado por Vincent D’Onofrio e Viola Davis, novos moradores da casa onde Ruth morou, e dentro da qual se sucedeu o tal crime; sendo advogado, John Ingram (personagem de D’Onofrio) é procurado por Ruth para que encontre meios legais, que não burlem as rígidas regras da condicional, a fim de estabelecer um contato entre Ruth e sua irmã pequena que, desde o nascimento Ruth havia criado, e desde que foi presa nunca mais teve notícias, apesar das milhares de cartas que, nesses anos todos, ela escreveu.

A irmã de Ruth, Katie (Aisling Franciosi, de “Drácula-A Última Viagem do Demeter”), agora com 25 anos, mal lembra dela e vive com seus pais adotivos, Michael e Rachel Malcolm (Richard Thomas, da versão televisiva de “It-A Coisa” e Linda Emond, de “Old Boy” e “Across The Universe”) e com sua irmã Emily (Emma Nelson).

Todos são fios narrativos que, de uma maneira ou de outra, convergem para a trama principal de Ruth, revelando já próximo do final algumas informações surpreendentes que podem alterar a percepção de alguns expectadores sobre muito do que vinha sendo mostrado no filme, ainda que dificilmente isso haveria de dissipar a excelente composição dramática de Sandra Bullock, provando pela enésima vez que é uma atriz muito mais versátil e capaz do que as bem-sucedidas comédias românticas levavam a crer. O filme cresce quando ela está acompanhada por bons parceiros de cena, caso de Rob Morgan, Vincent D’Onofrio, Viola Davis e –vá lá –Jon Bernthal, mas se percebe o ritmo moroso e o andamento desanimado da direção toda a vez que os membros mais frágeis do elenco dão as caras.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

A Cela


 Em sua pressuposta originalidade e em sua forçosa diferenciação, “A Cela” quer ser vários filmes, todos eles de uma certa natureza cult, todavia, do começo ao fim e sem lá muita esperança, o roteiro de Mark Protosevich (de “Doutor Estranho” e “Eu Sou A Lenda”) luta contra o fato inerente e incontornável de que, no final das contas, o filme dirigido por Tarsem Singh (de “Imortais” e “Espelho Espelho Meu”) é uma produção hollywoodiana infectada por cada um dos reflexos condicionados de uma obra presunçosa e genérica. E a despeito dos esforços para agregar elementos transgressores e experimentais aqui e ali (todos com timidez flagrante) são os clichês que prevalecem.

O  primeiro filme que “A Cela” quer ser é “Seven-Os Sete Crimes Capitais”, e isso se vê num sem-fim de tentativas de imitar e aludir às muitas das cenas da obra-prima de David Fincher; não à toa, “A Cela”, num primeiro momento é sobre a caçada à um psicopata. Tal psicopata, construído (como os demais personagens) sem um aprofundamento mais contundente que lhe dê respaldo ou maiores ressonâncias junto à trama, é interpretado por Vincent D’Onofrio, ótimo ator que, aqui, faz curiosamente o oposto do que fez em “Nascido Para Matar”, de Stanley Kubrick. Explica-se: Em “Nascido Para Matar”, D’Onofrio era o único ator a desempenhar um personagem de fato, o único a possuir todo um arco de transformação e mudança (no qual seu personagem, ingênuo e desajeitado, tinha sua mente espatifada numa insanidade homicida) enquanto todos os outros assumiam arquétipos básicos para o enredo. Em “A Cela” é nada mais que um arquétipo o personagem que D’Onofrio vivencia, um psicopata que mata mulheres, em circunstâncias específicas (no caso, ele as sequestra e, após deixá-las para morrer aos poucos num tanque de água, desova seus corpos pelas estradas) e que tem tirado o sono dos agentes do FBI, mais especialmente o Ag. Peter Novak (Vince Vaughn) obcecado em encontrar a última jovem dada como desaparecida, Julia (Tara Subkoff, de “Foxcatcher”), que Novak tem certeza ser uma de suas mais recentes vítimas.

Numa manobra (que, de novo, lembra sucessivamente “Seven” em seus desdobramentos), Novak e seu parceiro do FBI, Gordon Ramsey (Jake Webber), conseguem capturar o psicopata, de nome Carl Stargher, contudo, ele sucumbe a uma infecção viral causada pela esquizofrenia e entra em coma.

Sem qualquer pista do paradeiro de Julia (que, segundo o modus operandi de Starguer, deverá morrer nas próximas 40 horas quando o tanque de água se encher automaticamente), só resta aos agentes um recurso quase radical: Um procedimento experimental onde uma psicóloga, a Dra. Catherine Deane (Jennifer Lopez, jovem, belíssima e terrível atriz!), consegue invadir através de realidade virtual a mente de um paciente comatoso. O problema é que a Dra. Deane é uma psicóloga infantil, e seus pacientes consistem basicamente de crianças, enquanto Stargher é um psicopata!

Ainda assim, convencida pela urgência em salvar a vida da desaparecida, a Dra. Deane aceita o pedido do Ag. Novak e usa da tecnologia para adentrar a mente repleta de distorções e perversidades de Stargher.

Muito do resultado final de “A Cela” não seria o mesmo sem os esforços do designer de produção Tom Foden (de “A Vila”), ou os figurinos de Eiko Ishioka (de “Drácula de Bram Stoker”) e a maquiagem de Michele Burke (categoria na qual o filme foi indicado ao Oscar 2001, perdendo para “O Grinch”), embora o filme de Tarsem Singh se esforce na busca por um radicalismo estético e uma contundência embutida na própria proposta de adentrar uma mente psicótica, a obra só não afunda completamente no risível de suas limitações narrativas graças ao aparato visual que manifesta imagens bastante interessantes da psiquê deturpada, convertida em cenários e ambientações de pesadelo com forte referência nos quadros de artistas como Damien Hirst, Odd Nerdrum e H.R. Giger.

A viagem ao interior de mente só ganharia uma realização válida, satisfatória enquanto cinema e brilhante em sua execução, muitos anos depois, com a animação “Divertida Mente”.

domingo, 25 de setembro de 2022

O Juiz


 O sucesso sempre costuma ser uma faca de dois gumes: Notadamente relacionado ao Homem de Ferro, da Marvel Studios, que interpretou ao longo das últimas duas décadas (e cuja identificação intérprete/personagem salvou sua carreira), o astro Robert Downey Jr., como em outros casos, a despeito de seu colossal e reconhecido talento, encontrou dificuldades em ir além da sombra de seu famoso personagem, sobretudo, aos olhos de uma nova geração de expectadores que não conferiram suas brilhantes atuações numa fase mais jovem (como, por exemplo, “Chaplin”).

Assim sendo, este drama de tribunal “O Juiz”, dirigido por David Dobkin (diretor de “Eu Queria Ter A Sua Vida” e de “Penetras Bons de Bico”) contraria as tendências notavelmente cômicas de seu realizador –ainda que em menor grau elas estejam lá –para explorar as sutilezas dramáticas de seu astro principal.

De volta à cidadezinha onde cresceu –e para onde pretendia nunca mais voltar –em razão do falecimento de sua mãe, Hank Palmer (Downey Jr. provando amplamente sua funcionalidade), um ambicioso advogado retoma a complicada relação com o pai, Joseph (Robert Duvall que, em 2014, cravou ironicamente uma indicação ao Oscar que a campanha promocional tanto tentou obter para Downey Jr.), um juiz rígido e linha dura.

Dias depois, surge uma acusação de atropelamento e homicídio contra Joseph que se vê então no banco dos réus. O filho irá defendê-lo, trazendo a tona, assim, vários rancores do passado que podem ou não ajudar a elucidar o ocorrido.

Acima de tudo, este eficiente (ainda que bem longo) drama de tribunal é um veículo para o astro Robert Downey Jr. cuja participação parece onipresente em cena –potencializada possivelmente pelo fato dele ser um dos produtores executivos e de sua esposa, Suzan Downey, ser produtora do filme.

Ele faz por merecer: sua atuação, como sempre, é afiada, equilibrada, temperada de lampejos espirituosos de humor, e nunca fora do tom. Ele é auxiliado pelo sempre excelente Robert Duvall e pelo ótimo elenco de apoio.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Gavião Arqueiro


 Dentre os heróis originais a integrarem os Vingadores, o único que jamais conseguiu ganhar um filme-solo foi, infelizmente, o Gavião Arqueiro, vivido pelo competente Jeremy Renner. Na verdade, o Gavião Arqueiro foi (e, em grande medida, ainda é) sistematicamente subaproveitado dentro do Universo Marvel –basta lembrarmos de sua participação, boa parte dela como um comparsa hipnotizado de vilão, em “Vingadores”. A série “Hawkeye”, do Disney Plus, prometia corrigir esse lapso.

Como todas as demais séries lançadas pela Marvel em 2021 –“WandaVision”, “Falcão & Soldado Invernal” e “Loki” –esta chega narrativamente atrelada a todos os diversos filmes da Marvel Studios que a precederam, e seus acontecimentos, certamente irão reverberar em inúmeros projetos que ainda estão por vir. Na verdade, isso é bem nítido: Como parece ser inerente aos trabalhos mais recentes da Marvel, “Gavião Arqueiro” é uma trama sobre a passagem de bastão, onde uma nova geração surge para preencher o lugar dos combatentes veteranos e cansados, e nesse sentido, a série é também sobre Kate Bishop (a maravilhosa Hailee Steinfeld), até mais do que sobre Clint Barton, codinome do Gavião Arqueiro –detalhe que ameaça colocá-lo para escanteio dentro da própria série que protagoniza.

O primeiro episódio, dentre seis, começa inspirado: Testemunhamos os eventos de 2021, do primeiro filme dos Vingadores, contudo, não do já conhecido ponto de vista dos heróis, mas do ângulo da pequena Kate, então uma garotinha de apenas nove anos, que vê, estarrecida, das dependências em frangalhos de seu apartamento, a devastadora Batalha de Nova York. Algo em meio àquele caos chama a atenção de Kate: Um herói, munido de arco e flecha, enfrenta os alienígenas e salva a vida das pessoas (incluindo a dela própria). ele não é provido de superpoderes, não tem um martelo mágico, nem uma armadura tecnológica. Ele conta apenas com sua habilidade e vigor. É o Gavião Arqueiro.

Nos dias atuais, Kate já é uma moça com vinte e tantos anos, mas a inspiração do Gavião Arqueiro, de certa forma a definiu: Ela é prodigiosa em arcoaria. Já, a Batalha de Nova York foi devidamente assimilada pela cultura pop; Foi convertida em um musical –“Rogers-The Musical” –exibido nos palcos off-Broadway; é essa peça teatral que vemos Clint Barton assistindo com os filhos enquanto ainda digere os acontecimentos de “Vingadores-Ultimato”, entre eles, a morte de sua melhor amiga, Natasha Romanoff (Scarlett Johansson). Esses contratempos e mais as árduas missões ao longo dos anos passaram a afetar seriamente a sua audição –numa manobra oriunda dos premiados quadrinhos escritos por Matt Fraction, que serve de produtor-consultor desta série,

Os caminhos de Kate e Clint, é óbvio, estão fadados a se cruzarem. E isso ocorre quando, por acaso, Kate veste o traje de Ronin –a identidade vigilante adotada por Clint quando sua família foi blipada por Thanos em “Vingadores-Guerra Infinita” –e acaba na mira de uma gangue nova-iorquina ávida por vingança, a Gangue do Agasalho (?!), também oriunda da graphic-novel de Matt Fraction.

Clint então precisa livrar Kate –que na empolgação assume o papel de sua parceira/pupila/ajudante –do encalço da Gangue do Agasalho, e de sua perigosa líder, Maya (Alaqua Cox), uma surda-muda hábil em artes-marciais, enquanto corre contra o tempo para tentar passar o Dia de Natal junto de sua família –a série busca emular assim, as narrativas ágeis e descontraídas de alguns filmes natalinos, aos quais, inclusive, a produção faz referência. Entretanto, tudo é somente a ponta do iceberg: A trama de “Gavião Arqueiro” se ramifica a medida que descobrimos mais a respeito de seus inúmeros personagens, como Eleanor Bishop (a ótima Vera Farmiga), mãe de Kate, que guarda terríveis segredos envolvendo o assassinato de um ricaço; ou o noivo dela, o bon vivant Jack Duquesne (Tony Dalton), um espadachim de habilidade um tanto suspeita (na realidade, ele próprio um importante personagem de histórias mais antigas da Marvel); até mesmo Laura Barton (Linda Cardelini), esposa de Clint, dona de um passado misterioso que ameaça voltar para persegui-la, algo que seu marido não pode deixar; ou Yelena Belova (a sempre sensacional Florence Pugh) que, desde a cena pós-créditos de “Viúva Negra” sabemos ter Clint Barton na mira por acreditar ser ele o responsável pela morte de sua irmã, Natasha Romanoff; e, para a alegria de inúmeros fãs de quadrinhos, a aparição-surpresa, já nos episódios finais, do verdadeiro vilão da trama, um personagem (e um ator) que fará o público vibrar.

De fato, mais do que enfim conceder um tão aguardado protagonismo ao Gavião Arqueiro –embora nesse quesito ele também seja compensador –esta série prepara o terreno para os novos personagens que estão chegando ao Universo Marvel, sendo a mais notável aqui a mocinha Kate Bishop, que a talentosa Haille Steinfeld transforma numa heroína  com a qual é impossível o público não se encantar. Mas, não é só ela: A produção dedica quase um episódio inteiro para evidenciar a química extraordinária que ela compartilha com a Yelena Belova de Florence Pugh –certamente as caras mais proeminentes daqueles que estarão a frente dos Vingadores no futuro. A produção sempre competentíssima de Kevin Feige tira imenso proveito do formato estendido e episódico da série e trabalha seus carismáticos personagens com minúcia, parcimônia e minimalismo, fazendo com que acompanhá-los, seja em momentos de ação, de humor ou de drama, torne-se  uma experiência nunca menos que deliciosa.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Conquistas Perigosas


 Assim como o cinema comercial, o cinema independente norte-americano é ocasionado por certas fórmulas. “The Necessary Death Of Charlie Countryman” –ou “A Morte Necessária de Charlie Countryman”, título literal deste “Conquistas Perigosas” –até que começa orientado por esse tipo de fórmula: O drama pesado marginal e silencioso, onde os personagens perscrutam, com contundente pose, as aflições da vida suburbana.

O protagonista Charlie, vivido por Shia LaBeouf (numa atuação que, longe de ser brilhante, ao menos desvencilha-se dos cacoetes irritantes que ele desenvolveu em alguns projetos), vive as agruras de testemunhar os últimos dias de vida da própria mãe (Melissa Leo), e quando tal fatalidade enfim se concretiza, sente-se perdido.

Visitado pelo fantasma dela (!), ele recebe o tardio conselho de partir em viagem em busca de si mesmo, sugerindo-lhe a cidade de Bucareste.

Logo após esse princípio depressivo e convencional, o filme dirigido por Fredrik Bond começa a demonstrar algum fôlego próprio, e alguma autenticidade a medida que pontas soltas justapostas com enganosa aleatoriedade começam a se juntar numa narrativa, senão equilibrada ou harmoniosa, pelo menos com certeza envolvente: No avião, Charlie faz uma relutante amizade com o romeno de meia-idade Victor (Ion Caramitru) que vem a falecer antes mesmo do avião chegar ao destino final (!). O último desejo de Victor era que Charlie entregasse para a filha dele, Gaby (Evan Rachel Wood) um gorro que ele comprou para ela nos EUA.

Contudo, Charlie apaixona-se pela moça e, junto com o amor hesitantemente correspondido, veem também as encrencas; Gaby havia antes se envolvido com o perigoso Nigel (Mads Mikkelsen), truculento assassino que não larga mais do pé do desafortunado americano. Junto de Nigel –e por motivos que o roteiro não consegue ou não se importa em esclarecer de maneira satisfatória –está também o gangster Darko (Til Schweiger, de “Bastardos Inglórios”) e ambos estão interessados numa certa fita, registro visual de um flagrante comprometedor para os dois, e que Victor usava, até então, para afastar Nigel de Gaby.

Agora, cabe a Charlie a tarefa de ajudar Gaby e livrá-la da presença desses antagonistas em sua vida –ou assim ele acredita. Apesar da trama sinalizar com elementos descontraídos de aventura e romance –e de fato trazer muitas cenas que correspondem a esses gêneros –a direção de Fredrik Bond almeja imprimir características mais estilosas ao resultado: Na dramaturgia algo esquizofrênica que preenche seu andamento –onde o filme se perde em sub-tramas estranhas, como a dos amigos drogados de Charlie vividos por James Buckley e Rupert Grint –a direção tenta evocar um estilo que lembra muito o de Sofia Coppola, com uma etérea trilha sonora e sua visão agridoce e alternativa da condição abstrata dos jovens na sociedade contemporânea.

Essas opções de ordem narrativa dão sabor ao prato, não restam dúvidas, mas, dificilmente o filme e seu cômputo geral (seja ele bom ou ruim) escapam do fato de que o espalhafatoso estilo empregado pouco acrescenta realmente a uma obra que não almeja ser mais que entretenimento.

sexta-feira, 29 de março de 2019

Uma Noite de Aventuras

Após demonstrar ótimo tino comercial com os excelentes roteiros de “Os Goonies” e “Gremlins”, Chris Columbus teve, em 1987, a oportunidade de estrear como diretor neste “Uma Noite de Aventuras” que, se não é um clássico inabalável do período, conserva hoje intactos sua diversão, seu ritmo e sua empatia com o expectador –e muito disso se deve pela presença inebriante e encantadora da pra lá de carismática Elisabeth Shue no papel da jovem babá Chris.
No descontraído início do filme, ao som da contagiante “Then He Kissed Me”, dos “The Crystals”, Chris dança exaltada com a iminente noite ao lado do namorado, o displicente Mike (Bradley Whitford, que aparece já bem envelhecido em “Corra!”).
Contudo, uma desculpa esfarrapada dele frustra os planos da jovem que se vê então disponível para atender os apelos de um casal amigo da família: Eles, que irão a uma festa no centro da cidade, precisam de uma babá que cuida de seus dois filhos, o adolescente Brad (Keith Coogan), que é apaixonado por Chris, e a garotinha Sara (Maia Brewton), aficionada pelo herói da Marvel, “Thor”; tenha isso em mente na hora de conferir a ótima participação especial de Vincent D'Onofrio.
Parecia uma noite tranquila e normal, porém, numa habilidade para converter o banal em extraordinário característica de John Hugues (não à toa, o próprio Columbus veio a dirigir “Esqueceram de Mim”, produzido por ele), o roteiro apresenta Brenda (Penelope Ann Miller), melhor amiga de Chris que decide fugir de casa (!), sem dar-se conta de que não tem um tostão no bolso (!!).
Brenda está, assim, na rodoviário de Manhatan, sem dinheiro para ir ou vir –e precisa da amiga para que, pelo menos, tenha uma carona para voltar embora!
A contragosto, Chris mete Sara e Brad –e mais Daryl (Anthony Rapp), o melhor amigo dele –dentro do carro e segue para a cidade.
É o início dos absurdos sucessivos e deliciosos do filme: Ainda na via rápida, o pneu do carro de Chris fura; eles são atendidos por um motorista de reboque com uma mão de gancho que, no entanto, mostra-se simpático –mas, ele não deixa de envolve-los em mais confusões quando, num rompante, os leva até sua casa no subúrbio, a fim de tirar satisfações com a esposa infiel. E assim, Chris e as três crianças sem vêem perdidos, sem carro e sem dinheiro numa parte perigosa da cidade.
Tão perigosa que vão parar dentro de um carro roubado pelo simpático ladrão Joe (Calvin Levels). Nem tão simpáticos são seus chefes (os verdadeiros vilões do filme) que passaram toda a noite perseguindo Chris e as crianças por uma razão bastante pitoresca: Daryl e Brad descobrem (como inúmeros outros personagens) que Chris vem a ser a cara da Miss Março, a Playmate da revista Playboy daquele mês (numa sacada maliciosamente inocente bem típica dos anos 1980), e por conta disso, é essa revista que os rapazes pegam do escritório dos bandidões (sem saber que eles fizeram importantes anotações sobre seus roubos no pôster central da revista!).
Quase como uma versão juvenil de “Depois de Horas”, de Martin Scorsese (uma referência que certamente deve ser levada em conta), o filme vai enfileirando situações uma após a outra que vão colocando a babá e as crianças nos mais diversos apuros. Leve, mas sem ser demasiadamente pueril, é um filme que até hoje impressiona pelo equilíbrio com que executa sua premissa: Nos tempos de hoje, não seria improvável identificar no filme, em meio a uma revisão, elementos politicamente incorretos, ou uma excessiva ingenuidade na condução dos eventos, mas o bom trabalho de Chris Columbus na direção, se não atinge picos de genialidade, encontra desenvoltura de sobra para explorar o humor, a tensão e o frenesi fazendo deste um entretenimento saborosíssimo –aquilo que, em sua despretensão, ele sempre se propôs a ser.

quinta-feira, 28 de março de 2019

Kill The Irishman

Dono do redundante título “O Mafioso” aqui no Brasil, este é o melhor trabalho até então do roteirista e diretor Jonathan Hensleigh que já havia até assinado uma das várias tentativas de adaptar o anti-herói “O Justiceiro” da Marvel (aquela estrelada por Thomas Jane).
As diferenças qualitativas abissais entre as duas obras denunciam ou o espetacular salto de refinamento e sofisticação executado por Hensleigh aqui, ou as consequências para lá de positivas de quando bons artesãos têm liberdade criativa e não sofrem interferência dos estúdios em seus projetos.
“Kill The Irishman” começa em 1975, não no princípio de sua trama baseada em fatos reais, mas justamente num dos momentos mais inacreditáveis da história de seu protagonista Danny Greene (Ray Stevenson que, por sua vez, estrelou outra tentativa de adaptação do Justiceiro, “Em Zona de Guerra”): Quando ele escapa (por um triz!) da explosão de uma bomba plantada dentro de seu carro!
É dessa dicotomia –a de que por mais inacreditável que seja, de fato aconteceu –que se alimenta o filme; a partir dali ele retrocede quinze anos. Descendente de irlandeses (e entusiasmado proclamador disso), o grandalhão Danny Greene sempre foi um humilde proletário de Cleveland, cuja instrução que o destacava vinha de sua natureza autodidata.
Trabalhando desde jovem nas docas portuárias, ele conviveu cedo com as máfias locais –a começar pelos corruptos líderes sindicais (representados no personagem de Bob Gunton, de “Um Sonho de Liberdade”).
É aí que Greene adentra esse mundo: Buscando eleger-se Presidente do Sindicato para defender adequadamente os direitos de seus companheiros.
Já nesse cargo, Greene conhece o mafioso John Nardi (Vincent D’Onofrio) de quem se torna amigo. Ao lado dele, Greene passa a galgar alguns degraus da máfia de Cleveland, sobretudo, depois que é preso por pagamentos de propina e liberado sem denunciar nomes.
Ele passa a atuar como cobrador para o agiota Shondor (Christopher Walken), e mais tarde começa a alimentar esperanças de ser um empresário honesto.
Entretanto, o empréstimo milionário pedido a um gangster siciliano (Paul Sorvino) é extraviado por um entregador drogado –o que não impede Greene de contrair a dívida que, ao recusar-se a pagar, o transforma no inimigo n° 1 da máfia de Cleveland.
As infindáveis tentativas frustradas de mata-lo, parecem cenas extraídas da ficção tal é o grau de improbabilidade com o qual Greene consegue escapar delas.
Sua história é narrada pelo policial Joe Manditski (Val Kilmer) que testemunhou a maior parte desses acontecimentos e relutou em aproximar-se de Greene, de quem terminou se tornando amigo.
Ágil do início ao fim –num estilo que referencia sem a menor dúvida o trabalho de Martin Scorsese em “Os Bons Companheiros” –este magnífico trabalho se ampara no talento fulgurante da montanha de carisma chamada Ray Stevenson; ele consegue fazer justiça a um personagem realmente de facetas complicadas para qualquer ator; Greene era grande e truculento, mas também astuto e inteligente; era violento, mas não raro cortês e cativante; era corrupto e corruptível, mas inquestionavelmente empático. O seu sucesso em incorporar cada uma dessas nuances é o que garante a diversão deste filmaço.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Sete Homens e Um Destino

Péssimo sinal acerca da pouca criatividade que acomete Hollywood: Agora temos até mesmo a refilmagem da refilmagem!
Ainda que a maioria dos envolvidos, na produção e no marketing, tenham agido como se o “Sete Homens e Um Destino” de 1960 fosse uma obra original e não uma adaptação para o gênero de faroeste da mesma premissa básica do quintessencial “Os Sete Samurais”, de Akira Kurosawa, entretanto, se repararmos, ainda ali, havia uma faísca de inventividade (transpor a mesma trama para outra época, outro lugar e outro contexto permitindo, quem sabe, a alteração de toda sua percepção), todavia, o quê se tem aqui é, à princípio, uma repaginação passo a passo.
Contudo, em cerca de vinte minutos, o novo filme já está a oferecer elementos de sobra para a satisfação do expectador, tão escanteada por produções de péssima qualidade lançadas nesse ano de 2016 (e, talvez, por ser também um remake, quando penso nisso, é o catastrófico “Ben-Hur”, de Timur Bekmanbetov, que me vem a mente).
O gênero do faroeste já oferece um grande repertório de clássicos inestimáveis, conduzidos por verdadeiros mestres. Tais filmes são exemplares o suficiente para que o diretor Antoine Fuqua (aqui em sua terceira colaboração com o astro Denzel Washington) assista e observe como se faz. Ele ainda tem a seu favor um roteiro composto por minúcias astutas escrito por Nic Pizzollato (criador da série “True Detective”) que reinventa situações e constrói sólidos e distintos personagens.
Entre eles, Sam Chisolm (Washington, ótimo, dando continuidade à tradição dos faroestes de Quentin Tarantino, herdada dos exemplares dos anos 1970, com protagonistas negros), um honrado caçador de recompensas que coloca sua pistola a serviço dos apelos de uma viúva (a bela Haley Bennett) cuja aldeia precisa se ver livre da opressão provocada por um hostil comprador de terras (Peter Sarsgaard, esbaldando-se como vilão) que deseja vê-los despossuídos.
E aí, nesse ponto de partida, já se vê a pertinente referência que o roteiro deste filme faz com a atualidade: Não apenas é lembrada a questão da representatividade (não somente com o gesto de nomear o majestoso Denzel Washington como protagonista, mas ao dar grande peso e sentido na trama à uma personagem feminina que Não se torna interesse amoroso de nenhum dos heróis), como também o mote central –que nas versões pregressas resumia-se à tentativa dos oprimidos em livrar-se dos opressores –gira em torno da posse de terras,  e do monopólio do poder refletindo muitos aspectos da crise econômica que tem afligido os EUA e o mundo.
É lógico que, no percurso para cumprir a tarefa que resolve aceitar, Chisolm irá recrutar outros pistoleiros de aluguel como ele: O hábil Josh Faraday (Chris Pratt, de “Guardiões da Galáxia”, uma boa presença); o lendário atirador Goodnight Robicheaux (Ethan Hawke, fantástico nessa reunião com o astro Washington e o diretor Antoine Fuqua, quinze anos depois dos três realizarem “Dia de Treinamento”); assim como seu braço direito, o oriental manuseador de facas Billy Rocks (Lee Byung-Hun); o fora-da-lei mexicano Vasquez (Manuel Garcia-Rulfo); o truculento e implacável eremita Jack Horne (Vincent D’ Onofrio, tão sensacional quanto em sua personificação como Rei do Crime na série do “Demolidor”); e o pele-vermelha honrado e habilidoso no arco e flecha Red Harvest (Martin Sensmeier). Um conjunto de carismáticos personagens (como se pode ver) quase tão cativante quanto os divertidos e impetuosos cowboys do filme de John Sturgess, porém composto por toda a diversidade que os tempos politicamente corretos exigem numa produção deste escopo.
É esse grupo que, conduzido pela boa direção de Fuqua (talvez, seu melhor trabalho até então), ruma de encontro ao apocalíptico confronto final, uma junção hábil de ritmo, atmosfera, efeitos especiais, fotografia, montagem e trilha sonora (com um aproveitamento digno e nada vulgar da trilha clássica de Elmer Bernstein) cuja exuberância o cinemão hollywoodiano adora poder ostentar.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Nascido Para Matar

Os filmes anteriores do diretor Stanley Kubrick que abordavam a guerra foram o poderoso “Glória Feita de Sangue” e o épico “Spartacus”, sempre adotando um viés por meio do qual a observação se estendia para além do conflito, convertendo o projeto em algo diferente.
Mas, “Nascido Para Matar”, seu penúltimo trabalho, é um filme de guerra com todas as letras. Kubrick almejava pôr em perspectiva a “beleza do combate”, e vislumbrar com sua narrativa sempre inquisitiva, a forma como os homens abandonam as ideologias que os movem para entregar-se ao êxtase da batalha.
E, do início ao fim, ele põe em prática seu detalhismo metódico para expor esse argumento.
A primeira e impecável parte de “Nascido Para Matar” se passa num campo de treinamento militar onde paulatinamente suas câmeras mostram o processo de remoção de identidade dos recrutas voluntários (a primeira cena, onde todos têm seus cabelos podados é só o início) para transformá-los em soldados selvagens prestes a lutar no Vietnam.
Nesse entrecho, Kubrick já trata de povoar seu filme com elementos memoráveis: O sargento insanamente militarista interpretado com som e fúria por R. Lee Ermey; a profundidade de campo obtida pelas lentes em foco contínuo que registram o treinamento obcecado dos recrutas; a sucessão irônica, impiedosa e desumana de tarefas e procedimentos; e a gradativa imersão na loucura do desleixado soldado interpretado com brilhantismo por Vincent D’ Onofrio (que atualmente dá um show no papel de Rei do Crime na série do “Demolidor”).
Num corte seco –como lhe é de praxe –Kubrick arremessa o público na segunda parte de seu filme, quando a teoria do treinamento dá lugar à prática do combate propriamente dito e seu protagonista, Joker (interpretado por Matthew Modine) se vê em pleno Vietnam às voltas com inúmeros absurdos registrados no campo de batalha –tão mais absurdos por serem retratados com total despojamento por Kubrick, longe das alegorias e do surrealismo que Coppola impôs em seu “Apocalypse Now”.
Na visão de Kubrick, a guerra é uma circunstância atroz, sanguinária e irônica que expõe as facetas mais primitivamente pecaminosas do homem: A luxúria das prostitutas vietnamitas que dialogam com os soldados num bisonho sotaque inglês; a vaidade dos despreparados oficiais americanos que só pensam em sorrir para as câmeras; a sanha homicida incontrolável dos operadores de metralhadora; a avidez dos jovens soldados ao usar suas armas e descobrir o próprio poder de matar.
Tudo na narrativa de Kubrick especula a tremenda adequação que as emoções da guerra encontram na hostilidade inerente à condição humana, e partir daí vislumbra os ecos de uma esperança que ele por ventura se permite cultivar.