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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Homem-Aranha - Um Novo Dia


 Em “A Brand New Day”, vemos  finalmente Peter Parker lidando com as complicadas circunstâncias nas quais foi colocado ao fim de “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”: Desprovido de todo o repertório de utensílios e facilitadores tecnológicos que vinham lhe acompanhando desde “De Volta Ao Lar” – o que, na opinião de alguns fãs, não tinha muito a ver com o personagem – apagado da memória do mundo inteiro (graças a um feitiço do Dr. Estranho), incluindo seus entes mais próximos, a namoradinha M.J. (Zendaya) e o amigo Ned (Jacob Batalon), e tirado tragicamente da companhia de sua Tia May (Marisa Tomei). Em suma, completamente sozinho.

Hábil diretor de contos centrados na melancolia e em sentimentos menos falados e mais interiorizados (como atestam obras como “Temporário 12” e “O Castelo de Vidro”), Destin Daniel Cretton demonstrou alguma desenvoltura visual com a elaboração de belas e fluídas cenas de ação em “Shang-Chi e A Lenda dos Dez Anéis”, sua estréia na Marvel Studios. Agora, com este “A Brand New Day”, ele ganha uma espécie de promoção e assume, no lugar de Jon Watts (diretor dos três longas anteriores do Homem-Aranha), um personagem de maior estatura dentro do MCU.

E o resultado corre o sério risco de ser o melhor filme protagonizado pelo Homem-Aranha de Tom Holland até o momento.

Vivendo mais como Homem-Aranha do que como Peter Parker, o herói, agora quase sem nenhum vínculo afetivo, passa seus dias enfrentando as constantes dificuldades que se abatem sobre a cidade de Nova York. Todavia, lá no íntimo, ele não consegue esquecer M.J. e Ned que seguiram em frente, morando juntos, estudando e, agora, prestes a se formarem. Essa angústia parece se manifestar na fisiologia de Peter: Ele é acometido de dores de cabeça e do que parecem ser mutações nas quais o lado aracnídeo de seu organismo começa a se manifestar de maneira monstruosa sobre sua persona humana.

É a fim de inibir as consequências mais imprevisíveis desse processo que Peter acaba procurando pelo Dr. Bruce Banner (Mark Rufallo), certamente um especialista em conter o monstro dentro de si (o Hulk, no caso).

Paralelamente a essas mudanças – mas, servindo de perfeito reflexo a elas a partir de um determinado ponto – está  o mistério que ocupa boa parte do enredo do filme: Uma entidade – que parece ‘possuir’ pessoas por toda a Nova York com o nebuloso objetivo de invadir a fortificada sede do Controle de Danos – está à solta e, enquanto nem Peter, nem a polícia, compreende seus propósitos e suas motivações, essa ameaça precisa ser parada.

Mais disposto a enfatizar os dilemas de jovem adulto do protagonista do que Jon Watts (que deu prioridade à euforia juvenil), Destin Daniel Cretton salienta com mais evidência e minúcia a evolução do personagem rumo a um Homem-Aranha muito mais condizente com seu retrato nos quadrinhos, o que, em si, já é suficiente para eleger este filme como um provável favorito dos fãs, no entanto, ele ainda não está completamente livre de lapsos, em especial, no que diz respeito à condição sócio-econômica do herói (nunca fica claro, afinal, do quê Peter Parker vive e em que trabalha, visto que só o vemos atuar como Homem-Aranha) ao staff do Controle de Danos (uma herança que ainda repercute de “Vingadores” e das tantas manobras a incluir laços com o Universo Marvel) e a premissa assim esboçada da mutação aracnídea – que parecia ser central no trailers, mas que, aqui, embora muito pertinente no princípio vai dando gradualmente lugar a um outro plot twist até por fim perder completamente sua importância.

Felizmente, “A Brand New Day” é aquele tipo de filme que os acertos compensam amplamente seus erros: A dinâmica entre Peter, M.J. e Ned enfim rende emoções genuínas depois de quatro filmes, e a participação do Justiceiro é uma oportunidade e tanto para conferirmos a química sem igual entre Jon Bernthal e Tom Holland. Contudo – sem revelar spoilers – o nome que, aqui, aponta de forma promissora para o futuro da Marvel nos cinemas é a jovem Sadie Sink, compondo com excelência uma personagem cuja identidade foi aguardada às sete chaves até o lançamento do filme nos cinemas e que representa uma das tantas gratas surpresas da produção – e que, ao fim, deixa o público com um entusiasmado gostinho de quero mais.

domingo, 4 de maio de 2025

Thunderbolts*


 Quando a Marvel Studios lançou a pra lá de bem-sucedida dobradinha, “Vingadores-Guerra Infinita” e “Vingadores-Ultimato”, em 2018 e 2019, não imaginava estar criando uma verdadeiro cilada para si mesma e para suas vindouras produções a serem elaboradas futuramente –ao conceber duas obras que, em si, atingiam ápices cinematográficos antes inimagináveis, a Marvel estabeleceu um patamar altíssimo, padrão para as expectativas que seu público teria em relação à obras que viessem depois.

Embora realmente tenham havido, depois disso, filmes oscilantes em qualidade –e desse fato alimentar uma constante e aborrecida discussão sobre a saturação das adaptações de histórias em quadrinhos junto ao público –a Marvel ainda conseguiu, vez ou outra, entregar algo de qualidade. Afinal, para cada presepada como “Thor-Amor e Trovão”, havia um passatempo satisfatório como “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”, para cada deslize como “Homem-Formiga e A Vespa-Quantumania” ou “As Marvels”, havia um belo trabalho como “Guardiões da Galáxia Vol. 3” ou “Deadpool & Wolverine”.

Bem, em 2025, a Marvel Studios, se não foi capaz de fazer “Capitão América-Admirável Mundo Novo” tão memorável quanto seus pares, ela conseguiu, com este “Thunderbolts*” entregar aos expectadores tudo aquilo que, no geral, sempre deles se espera –uma obra vibrante, com personagens cativantes e envolventes do início ao fim, bem conjugada no manejo de uma trama que oscila, com desenvoltura e descontração, entre a ação, o humor e o drama.

Grupo clandestino e marginalizado de anti-heróis nos quadrinhos da Marvel –mais ou menos que é “O Esquadrão Suicida” na DC Comics –os Thunderbolts são, tal e qual os Vingadores, uma junção de vários personagens, oriundos de diversos filmes e séries que a Marvel Studios foi produzindo ao longo dos anos; com o adendo de que, diferente dos heróicos e nobres protagonistas à toda prova de antes, agora temos aqui personagens ambíguos, sobreviventes no limiar de suas próprias falhas traumáticas, das experiências defeituosas e das trajetórias torpes que a cada um foi imposta. E o diretor Jake Schreier (de "Cidades de Papel") espertamente soube ancorar esses elementos um tanto quanto diferenciais na narrativa absorvente, política e intrigante que conduz com seu filme.

Pode-se partir do princípio que o eixo em torno do qual “Thunderbolts*” gira é Yelena Belova (Florence Pugh, maravilhosa), a ‘Nova Viúva Negra’, introduzida no Universo Marvel em “Viúva Negra”, sendo irmã adotiva de Natasha Romannof, a Viúva Negra ‘original’, e amargurada desde a morte desta em “Ultimato” –Yelena assume, em “Thunderbolts*”, um protagonismo que Natasha jamais teve a chance de ter num filme dos Vingadores. Além dela, seu ‘pai’, Alexei Shostakov (David Harbour), o Guardião Vermelho, surge como o grande alívio cômico do filme, roubando com carisma inabalável, muitas das cenas em que aparece. Operando nas sombras, e agindo com a ambivalência moral que pouquíssimas vezes vimos em Natasha, Yelena vai finalmente deixando para trás o luto pela irmã, enquanto começa, pouco a pouco, a questionar as missões nebulosas designadas a ela por Valentina Allegra de Fontaine (Julia Loius-Dreyfus, perniciosa feito uma cobra!). Executiva de alto nível em Washington, e encarregada da C.I.A., Valentina enfrenta, no Senado, uma tentativa de impeachment capitaneada, entre outros, por Bucky Barnes (Sebastian Stan, cada vez mais sensacional), devido às atividades nada ortodoxas do Serviço de Inteligência durante a sua gestão. Para continuar no jogo do poder e evitar o impeachment, Valentina vale-se de Yelena para ‘queimar arquivos’ referentes às inúmeras experiências ilícitas que andou autorizando para criar toda uma nova geração de superhumanos a fim de substituírem os tão saudosos Vingadores.

É assim que Yelena termina numa base de operações científicas longínqua, encrustrada numa montanha, onde aparentemente deve dar cabo da Fantasma (Hannah John-Kamen), uma operativa com poder de intangibilidade cuja origem foi revelada em “Homem-Formiga e A Vespa”. No entanto, lá Yelena encontra também o Agente Americano, John Walker (Wyatt Russell), o ex-Capitão América mostrado na minissérie “Falcão e O Soldado Invernal”, enviado para neutralizá-la, além da Treinadora (Olga Kurilenko), também vista em “Viúva Negra” –e, após alguns atritos, todos chegam à conclusão de que foram para lá despachados a fim de se matarem, pois, como tudo o mais, eles são indícios vivos das travessura ilegais que Valentina tem autorizado por baixo dos panos, e devem ser, assim, eliminados. Junto deles, há também o misterioso Bob Reynolds (Lewis Pullman, filho do ator Bill Pullman) cuja atitude normal e amedrontada esconde o fato de que foi cobaia numa experiência que pode fazer dele um dos seres mais poderosos do Universo Marvel: O Sentinela.

Adentrar mais na trama de “Thunderbolts*”, que se desdobra para muito além disso, seria revelar spoilers que certamente comprometeriam a diversão –e fica, portanto, aquela orientação básica, usual à todo lançamento de um filme da Marvel Studios, de evitar a internet (e os spoilers) até que se tenha visto o filme!

Adornado de um clima sombrio e fatalista que poucos filmes da Marvel em geral chegaram a adotar –até porque, neste caso, isso reflete bastante as personalidades alquebradas e em constante conflito pessoal dos anti-heróis aqui reunidos –“Thunderbolts*” é dirigido e roteirizado com primordial atenção à essas facetas desiguais de seus personagens, levando em conta cada uma de suas motivações para a composição do arco de história que os fará uma equipe e os colocará, no clímax fabuloso, na improvável condição de heróis –e por mais que Yelena e Bucky possuam um respaldo de protagonismo muito maior na importância final, todos aqui têm seu momento.

É um consenso entre crítica e público que “Thunderbolts*” é um grande acerto da Marvel Studios, resta saber se eles seguirão conseguindo atender as difíceis exigências de seu público nos próximos projetos –e pelo menos um desses projetos ganha aqui um gancho narrativo e tanto na sua empolgante cena pós-créditos!

domingo, 3 de março de 2024

DUNA - Segunda Parte


 Os grandes filmes, aqueles de qualidade mais inconteste são, normalmente, os mais difíceis de serem comentados. Como colocar em palavras todo o assombro proporcionado pela produção? Como honrar o mérito ímpar dos artistas envolvidos sem fazer parecer que aquilo é meramente um deslumbramento parcial? “Duna-Segunda Parte”, de Denis Villeneuve, vem confrontar críticos e expectadores com esse inusitado dilema.

Duna-Primeira Parte” foi um épico belo e avassalador e, embora tenha sido extremamente enaltecido pela crítica que atentou para as qualidades técnicas espetaculares da realização e para a bem-sucedida transposição para cinema de elementos antes tidos como intransponíveis do clássico literário de Frank Herbert, alguns chegaram a se queixar de sua narrativa dispersa, da natureza essencialmente introdutória dos arcos construídos ali e de uma esboçada complexidade que, em função de seu final em aberto, para alguns não levava à lugar nenhum. Pois, esta “Parte Dois” vem calar cada uma dessas reclamações ao compor junto com o primeiro longa-metragem uma experiência de ficção científica bela, impactante e intrincada como há muito as telas de cinema não recebiam.

Começando exatamente no ponto em que o filme anterior terminou, “Parte Dois” reencontra Paul (Timothée Chalamet) e Jessica Atreides (Rebecca Fergunson) quando acabaram de unir-se aos Fremen, os habitantes do desértico planeta Arrakis, após terem sido alvo de uma conspiração movida pelos obscuros e brutais inimigos da Casa Harkonnen, o que lhes tirou o controle outrora outorgado pelo Imperador Galáctico (Christopher Walken) de toda a manufatura de especiaria, o material mais precioso do universo, encontrado somente nas areias de Arrakis.

A traição contra os Atreides, não tardamos a descobrir, foi um golpe orquestrado nas sombras pelo próprio Imperador, disposto a por um fim à influência crescente e preocupante dos Atreides junto às poderosas casas de nobreza da galáxia. Entretanto, todos esses inimigos conspiradores têm a convicção de que agora, o problema dos Atreides foi neutralizado, crentes de que Paul e sua mãe foram mortos junto com seus aliados.

Na realidade, Paul se encontra sob a proteção do líder Fremen Stilgar (Javier Barden) que acredita fervorosamente que ele possa ser o Lisan Al Gaib, o messias das profecias de Arrakis plantadas séculos antes pelas feiticeiras Bene Gesserit que trará a liberdade ao povo Fremen e fará de Arrakis um paraíso verde. Embora disposto a integrar-se aos Fremen (tarefa que exige dele o audacioso feito de cavalgar um dos vermes na areia, os Shai-Hulud, naquela que é uma das grandes cenas do ano) e certamente interessado em aliar-se aos seus guerreiros para levar sua retaliação aos Harkonnen e ao Imperador no seu devido tempo, Paul  tem lá seus receios em aceitar em definitivo o papel messiânico no qual muitos já o enxergam, por outro lado, sua mãe, Jessica, convertida na Madre Superiora dos Fremen, tem grande interesse em alimentar esse culto e, com isso, segue rumo ao inóspito sul de Arrakis onde se escondem as tribos fundamentalistas que acatarão cegamente a concretização dessa profecia e constituirão um exército tão descomunal que prejudicará, em apoteóticas batalhas subsequentes, a exploração de especiaria a ponto de levar o Império e todas as grandes casas da galáxia à voltar suas atenções para Arrakis.

Ao mesmo tempo, a acompanhar essa progressão épica de eventos em larga escala –e mostrados com um brilhantismo e uma energia com a qual nenhum filme recente se equipara –temos também a trajetória íntima de Paul Atreides, um salvador relutante, temeroso em aceitar um papel de tamanha atribulação num contexto infinitamente maior que ele próprio. Esses arcos dramáticos, conduzidos com perícia inquestionável pelo diretor Villeneuve, ressaltam não apenas a precisão e a excelência na atuação de Timothée Chalamet, talvez a melhor de sua carreira, como também a magnífica construção dos personagens que o cercam; o ceticismo raivoso de Chani (Zendaya, ótima) contrabalanceado por seu vínculo sentimental cada vez mais forte com Paul; a truculenta figura paterna de Gurney (Josh Brolin); o antagonismo psicótico e imprevisível de Feyd-Rautha Harkonnen (Austin Butler, absolutamente sensacional); as maquinações sinistras e calculistas das Bene Gesserit (entre elas Charlotte Hampling, oriunda já do primeiro filme, e Lea Seydoux); e a atenciosa avaliação da Princesa Irulan (Florence Pugh), historiadora do Império, a acompanhar com sua narração em off todos esses eventos.

Para muito além das tentativas de se adaptar com pompa e circunstância o tomo cultuado de Frank Herbert –a presepada lamentável de David Lynch e Dino De Laurentis, em 1984; e a produção megalomaníaca, porém, jamais materializada em um filme real de Alejandro Jodorowsky –o que Denis Villeneuve entregou aqui foi uma obra sublime do mais puro cinema: Compondo agora as duas partes de um todo harmonioso, exuberante e impecável, a Primeira e Segunda Partes de “Duna” formam um épico de ficção científica inigualável destinado a encantar (com seu visual arrebatador e sua narrativa hipnótica) gerações e mais gerações de cinéfilos.

domingo, 12 de novembro de 2023

Oppenheimer


 O cinema de Christopher Nolan sempre foi uma junção imprevista de gêneros comerciais. Ação e espionagem com thriller onírico em “A Origem”. Ficção científica em larga escala e drama familiar em “Interestelar”. Adaptação de histórias em quadrinhos com referência ao policial setentista em “Cavaleiro das Trevas”. Suspense rocambolesco com filme de época em “O Grande Truque”, e assim por diante. Há uma nova mescla em “Oppenheimer” e, na habilidade melindrosa e na insuspeita elegância com que tudo é feito, isso é um pouquinho mais difícil de ser dissecado.

Como sempre, no interesse irreprimível por seus personagens e suas trajetórias, Nolan distorce, torce e retorce o tempo a fim de acompanhar, justapor e refletir as várias etapas de suas vidas. “Como se resume toda uma vida?” é uma pergunta que surge, mais de uma vez, já na primeira parte de “Oppenheimer”. Nolan parece usar de seu filme para afirmar que tal feito não é virtualmente possível. Seu protagonista é J. Robert Oppenheimer (vivido com solidez metódica e competência instintiva por Cillian Murphy), o ‘pai da bomba atômica’. E quando o encontramos, Nolan o mostra contrapondo duas situações distintas no tempo. Em 1954, quando foi intimado a uma audiência de segurança pela Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos (AEC), e logo depois, já na qualidade de pivô para uma audiência posterior no senado norte-americano, a fim de confirmar a neutralização de sua influência política, a envolver o Almirante Lewis Strauss (Robert Downey Jr., brilhante).

O Almirante Strauss, aliás, quando surge, quase sempre nos momentos fundamentais da segunda metade da trama, parece protagonizar um outro filme à parte –e não à toa, suas cenas são mostradas por Nolan em preto & branco, numa forma de diferenciar, seus segmentos dos demais, protagonizados por Oppenheimer. Ademais, essas duas sequências de audiência (a da AEC, em cores, e a do Senado, em preto & branco) são duas circunstâncias de julgamento, onde estão em pauta questões morais que só chegaram a pesar de verdade anos depois da gênese desconcertante da bomba atômica, e do poder destrutivo que ela, por fim, revelou ao mundo. Em algum momento, desse fluxo narrativo –que Nolan converte num turbilhão de informações tecnicamente pesadas até deliberadamente harmonizar seu ritmo, num esforço de acompanhar a mente inquieta de seu personagem –o filme começa a contar, de modo um pouco mais linear, a história de Oppenheimer: Estudante de Física Quântica na Europa, onde acompanhou com entusiasmo as palestras do cientista Niels Bohr (Kenneth Brannagh), em meados da década de 1920, Oppenheimer ficou conhecido por sua dedicação e tenacidade nos círculos acadêmicos da Alemanha e da Suíça antes de voltar aos EUA, na tentativa de levar as arrojadas pesquisas no campo quântico para as universidades norte-americanas. Em Berkeley, na Califórnia, ele conhece o Prof. Ernest Lawrence (Josh Hartnett), ao lecionar no Instituto de Tecnologia, época em que suas primeiras inclinações políticas de esquerda aparecem: Ele incentiva alunos e professores para a criação de um Sindicato que representasse a categoria, e envolve-se com a ativista do Partido Comunista Jean Tatlock (Florence Pugh) para depois casar-se com a ex-comunista Kitty Puening (Emily Blunt).

Em 1942, com a Segunda Guerra Mundial em curso, e com os norte-americanos alarmados com as pesquisas avançadas em fissão nuclear dos cientistas alemães, o governo dos EUA, representado pelo General Leslie Groves (Matt Damon) convida o Dr. Oppenheimer a liderar o Projeto Manhattan com a complicada missão de ultrapassar os esforços alemães e chegar na frente da corrida armamentista para construir a primeira bomba atômica. Para tanto, Oppenheimer faz exigências inusitadas aos militares: constrói toda uma cidadezinha do zero, com infraestrutura e tudo, no vale amplo e deserto de Los Álamos, para abrigar os vários departamentos de produção que ele iria administrar a fim de que as pesquisas quânticas avançassem sem os empecilhos da sempre –como a distância dos familiares, por exemplo –e (a exigência mais difícil para o Exército Norte-Americano), fazer vista grossa às tendências comunistas deste ou daquele cientista, tido por Oppenheimer como fundamental ao projeto. Sua equipe incluía o abnegado Edward Teller (o também diretor Ben Safdie), ferrenho defensor do desenvolvimento da bomba de hidrogênio, o cauteloso e criterioso Isidor Isaac Rabi (David Krumholtz, de “Roda Gigante”), o pesquisador Enrico Fermi (Danny Deferrari) e o atencioso David L. Hill (Rami Malek).

Nos anos tumultuados entre o desenvolvimento do projeto e a criação de fato da bomba, muitas coisas acontecem –os alemães são derrotados, restando somente a oposição bélica dos japoneses no Pacífico; o presidente Dwight Eisenhower, responsável pelo início do Projeto Manhattan, morre e é substituído por Harry S. Truman (vivido por Gary Oldman); e Jean Tatlock suicida-se na banheira de sua casa –contudo, no dia 16 de julho de 1945, os esforços de Oppenheimer e sua equipe numerosa culminam no Teste Trinity, realizado num campo deserto, nas proximidades de Alamogordo, provando a viabilidade da bomba atômica, e seu poder descomunal de destruição. Na sequência, as cidades japonesas de Hiroshima e Nagazaki são escolhidas para serem os alvos da bomba, encerrando, por fim, as hostilidades da Grande Guerra.

Entretanto, os transtornos de Oppenheimer estavam longe de terminar. Quando ele –movido por temores anteriores ao Projeto Manhattan, discutidos com o sensato Prof. Einstein (Tom Conti), de que a bomba atômica seria um perigo para o mundo caso não houvesse colaboração entre as nações –busca restringir novos avanços na pesquisa de energia nuclear para fins bélicos, ele logo deixa de ser uma celebridade para, aos olhos do governo, se tornar uma figura discordante com os preceitos da Guerra Fria contra União Soviética que então se precipitou no horizonte, o que o leva à audiência de segurança da AEC, cujos depoimentos e interrogatórios (todos posicionados como ganchos pontuais dos flashbacks do roteiro), visaram descobrir as relações comunistas mantidas por Oppenheimer.

Nesse manejo assombroso que executa de uma ampla, complexa e nada simples história real e no vocabulário tecnicamente complexo que seu roteiro abraça, Nolan uma vez mais realiza cinema de gente grande, desta vez, mesclando um resgate urgente e necessário de um registro histórico imprescindível com sua evidente paixão por expedientes de suspense; Ao alterar a cronologia dos eventos como são mostrados, ele transforma a última hora (das nada modestas três que o filme possui!) num verdadeiro thrilher de mistério, para então, ao fim, regressar à intimista reflexão com Albert Einstein, e deixar o público reflexivo com as sombrias (e muito reais) possibilidades da trajetória humana.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Gavião Arqueiro


 Dentre os heróis originais a integrarem os Vingadores, o único que jamais conseguiu ganhar um filme-solo foi, infelizmente, o Gavião Arqueiro, vivido pelo competente Jeremy Renner. Na verdade, o Gavião Arqueiro foi (e, em grande medida, ainda é) sistematicamente subaproveitado dentro do Universo Marvel –basta lembrarmos de sua participação, boa parte dela como um comparsa hipnotizado de vilão, em “Vingadores”. A série “Hawkeye”, do Disney Plus, prometia corrigir esse lapso.

Como todas as demais séries lançadas pela Marvel em 2021 –“WandaVision”, “Falcão & Soldado Invernal” e “Loki” –esta chega narrativamente atrelada a todos os diversos filmes da Marvel Studios que a precederam, e seus acontecimentos, certamente irão reverberar em inúmeros projetos que ainda estão por vir. Na verdade, isso é bem nítido: Como parece ser inerente aos trabalhos mais recentes da Marvel, “Gavião Arqueiro” é uma trama sobre a passagem de bastão, onde uma nova geração surge para preencher o lugar dos combatentes veteranos e cansados, e nesse sentido, a série é também sobre Kate Bishop (a maravilhosa Hailee Steinfeld), até mais do que sobre Clint Barton, codinome do Gavião Arqueiro –detalhe que ameaça colocá-lo para escanteio dentro da própria série que protagoniza.

O primeiro episódio, dentre seis, começa inspirado: Testemunhamos os eventos de 2021, do primeiro filme dos Vingadores, contudo, não do já conhecido ponto de vista dos heróis, mas do ângulo da pequena Kate, então uma garotinha de apenas nove anos, que vê, estarrecida, das dependências em frangalhos de seu apartamento, a devastadora Batalha de Nova York. Algo em meio àquele caos chama a atenção de Kate: Um herói, munido de arco e flecha, enfrenta os alienígenas e salva a vida das pessoas (incluindo a dela própria). ele não é provido de superpoderes, não tem um martelo mágico, nem uma armadura tecnológica. Ele conta apenas com sua habilidade e vigor. É o Gavião Arqueiro.

Nos dias atuais, Kate já é uma moça com vinte e tantos anos, mas a inspiração do Gavião Arqueiro, de certa forma a definiu: Ela é prodigiosa em arcoaria. Já, a Batalha de Nova York foi devidamente assimilada pela cultura pop; Foi convertida em um musical –“Rogers-The Musical” –exibido nos palcos off-Broadway; é essa peça teatral que vemos Clint Barton assistindo com os filhos enquanto ainda digere os acontecimentos de “Vingadores-Ultimato”, entre eles, a morte de sua melhor amiga, Natasha Romanoff (Scarlett Johansson). Esses contratempos e mais as árduas missões ao longo dos anos passaram a afetar seriamente a sua audição –numa manobra oriunda dos premiados quadrinhos escritos por Matt Fraction, que serve de produtor-consultor desta série,

Os caminhos de Kate e Clint, é óbvio, estão fadados a se cruzarem. E isso ocorre quando, por acaso, Kate veste o traje de Ronin –a identidade vigilante adotada por Clint quando sua família foi blipada por Thanos em “Vingadores-Guerra Infinita” –e acaba na mira de uma gangue nova-iorquina ávida por vingança, a Gangue do Agasalho (?!), também oriunda da graphic-novel de Matt Fraction.

Clint então precisa livrar Kate –que na empolgação assume o papel de sua parceira/pupila/ajudante –do encalço da Gangue do Agasalho, e de sua perigosa líder, Maya (Alaqua Cox), uma surda-muda hábil em artes-marciais, enquanto corre contra o tempo para tentar passar o Dia de Natal junto de sua família –a série busca emular assim, as narrativas ágeis e descontraídas de alguns filmes natalinos, aos quais, inclusive, a produção faz referência. Entretanto, tudo é somente a ponta do iceberg: A trama de “Gavião Arqueiro” se ramifica a medida que descobrimos mais a respeito de seus inúmeros personagens, como Eleanor Bishop (a ótima Vera Farmiga), mãe de Kate, que guarda terríveis segredos envolvendo o assassinato de um ricaço; ou o noivo dela, o bon vivant Jack Duquesne (Tony Dalton), um espadachim de habilidade um tanto suspeita (na realidade, ele próprio um importante personagem de histórias mais antigas da Marvel); até mesmo Laura Barton (Linda Cardelini), esposa de Clint, dona de um passado misterioso que ameaça voltar para persegui-la, algo que seu marido não pode deixar; ou Yelena Belova (a sempre sensacional Florence Pugh) que, desde a cena pós-créditos de “Viúva Negra” sabemos ter Clint Barton na mira por acreditar ser ele o responsável pela morte de sua irmã, Natasha Romanoff; e, para a alegria de inúmeros fãs de quadrinhos, a aparição-surpresa, já nos episódios finais, do verdadeiro vilão da trama, um personagem (e um ator) que fará o público vibrar.

De fato, mais do que enfim conceder um tão aguardado protagonismo ao Gavião Arqueiro –embora nesse quesito ele também seja compensador –esta série prepara o terreno para os novos personagens que estão chegando ao Universo Marvel, sendo a mais notável aqui a mocinha Kate Bishop, que a talentosa Haille Steinfeld transforma numa heroína  com a qual é impossível o público não se encantar. Mas, não é só ela: A produção dedica quase um episódio inteiro para evidenciar a química extraordinária que ela compartilha com a Yelena Belova de Florence Pugh –certamente as caras mais proeminentes daqueles que estarão a frente dos Vingadores no futuro. A produção sempre competentíssima de Kevin Feige tira imenso proveito do formato estendido e episódico da série e trabalha seus carismáticos personagens com minúcia, parcimônia e minimalismo, fazendo com que acompanhá-los, seja em momentos de ação, de humor ou de drama, torne-se  uma experiência nunca menos que deliciosa.

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Viúva Negra


 Com sua história ambientada entre “Capitão América-Guerra Civil” e “Vingadores-Guerra Infinita”, “Viúva Negra” terminou sendo realmente lançado após “Homem-Aranha Longe de Casa”, o que o torna circunstancialmente um filme anacrônico dentro da cronologia do Universo Marvel Cinematográfico –tendo, além disso, sido atrasado em um ano de seu lançamento em cinema por conta da pandemia.

Com essas condições desfavoráveis a lhe pesar, até é admirável que ele seja uma obra tão fluente, agradável e vívida, quando olhamos para além da muralha de críticas rabugentas que ele recebeu.

É um dos mais fracos filmes da Marvel Studios? Nem sob um decreto (esse demérito ainda pertence à “Thor-O Mundo Sombrio” e à “Vingadores-A Era de Ultron”), o seu grande problema é que a Marvel habituou o público a um crescendo notável de qualidade ao longo de seus bem-sucedidos filmes –e essa qualidade intensificou-se nos últimos lançamentos (“Pantera Negra” foi até indicado ao Oscar de Melhor Filme!). Manter esse patamar é, portanto, uma tarefa árdua e, se “Viúva Negra” não o cumpre com totalidade, ao menos, preserva dignidade o bastante para ombrear as excelentes obras mais recentes.

Seu lançamento padece de uma falta absoluta de timing? Com certeza –entre outras coisas, porque a Viúva Negra já deveria ter ganho seu próprio filme muitos anos antes (o produtor Kevin Feige só se convenceu a realizá-lo após forte insistência popular), e porque, diante da consciência do desfecho definitivo que a personagem ganha em “Vingadores-Ultimato”, muito da trama, dos perigos e do suspense no filme acabam perdendo sua razão de ser –afinal, já sabemos de antemão o que acontecerá com a heroína.

Logo após um prólogo que parece sugerir a origem da protagonista em sua infância –mas, que tão somente fornece a origem da dinâmica de ‘família disfuncional’ que une os personagens a rodear a protagonista nesta obra –surgem os créditos iniciais (coisa rara nos filmes da Marvel) ao som de uma versão de “Smell Like Teen Spirit” e, num salto temporal rumo à vida adulta da personagem principal, acompanhamos Natasha Romanoff fugindo das autoridades e das consequências de suas escolhas em “Guerra Civil”.Como a espiã indefectível que é, ela tenta se esconder de tudo e de todos.

Contudo, em seu esconderijo, ela encontra uma encomenda despachada por sua irmã, Yelena Belova (a fabulosa Florence Pugh), garotinha que havia aparecido naquele prólogo.

Como a própria Natasha, Yelena foi capturada para o Programa Sala Vermelha, que formava as Viúvas Negras quando ainda eram crianças, transformando-as em assassinas treinadas a serviço da União Soviética. O destino de Natasha, sabemos, a levou a integrar a S.H.I.E.L.D. e, mais tarde, os Vingadores; já o destino de Yelena, que o filme trata de revelar (de forma até mais abrangente do que os detalhes nebulosos da origem de Natasha), foi tornar-se, também ela, uma Viúva Negra, entretanto, diferente da irmã que teve a sorte de encontrar o Gavião Arqueiro pela frente (levando-a aos EUA e colocando-a num caminho de redenção), Yelena continuou prisioneira da Sala Vermelha e do manipulador líder do programa, o amoral Dreykov (Ray Winstone). É numa missão quase corriqueira que Yelena inala uma dose de gás experimental, um antídoto para o controle bioquímico que ela a as outras Viúvas Negras sofreram, e que as fazem letais para com seus alvos e subservientes para com seu líder.

De posse das poucas cápsulas desse antídoto, Yelena envolve Natasha em sua cruzada para descobrir a misteriosa localização da Sala Vermelha e libertar todas as Viúvas Negras. O que significa reencontrar também o ‘pai’ delas, Alexei, também conhecido como Guardião Vermelho, uma espécie de Capitão América Soviético (vivido com humor nem sempre apropriado por David Harbour), bem como sua ‘mãe’, Melina (Rachel Weisz, sempre elegante e sólida).

Embora se pretenda um filme de espionagem, com todas as suas missões, traições, reviravoltas e agentes duplos, “Viúva Negra” acaba sendo, na realidade, um filme de ação bem mais comum do que se pretende –a notória pouca disposição da Marvel Studios para ousar simplifica o desenvolvimento de sua trama, resultando ela num corre-corre desenfreado no qual as perseguições e sequências de ação surgem bem elaboradas, como era de se esperar. Ainda assim, “Víúva Negra”, na bem urgida cinematografia que emprega não chega a surpreender com sua narrativa (“Capitão América-Soldado Invernal” já fez isso antes), nem tampouco a inovar com o empoderamento de suas protagonistas femininas (a própria Marvel se antecipou a isso com “Capitã Marvel”) –tivesse sido realizado anos antes (quando lançar um filme de Natasha Romanoff ainda seria pertinente) talvez a Marvel Studios colhesse vários louros por sua realização (pois, Scarlet Johansson, realmente, se impõe com primor e circunspecção ao papel), da forma como está, “Viúva Negra” ainda entrete e agrada, mas sofre de algo que os projetos da Marvel Studios foram felizes em evitar: Irrelevância.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Adoráveis Mulheres

Na cerimônia do Oscar 2020, “Adoráveis Mulheres” fez uma bela campanha levando o Oscar de Melhor Figurino; e na categoria principal, lá estava ele também disputando o prêmio dentre suas seis (e merecidíssimas) indicações.
Inspirado no clássico romance de Louisa May Alcott, o filme escrito e dirigido por Greta Gerwig é a oitava (!) adaptação cinematográfica do livro para cinema –a mais recente havia sido lançada em 1994, pela diretora Gillian Armstrong, com Winona Ryder –e Greta, seja no roteiro, seja na direção, constrói seu filme plenamente conciente de que cada expectador que assistir sua obra já deve ter visto pelo menos uma das versões anteriores: Ela modifica a trama e suas circunstâncias, senão na essência, ao menos no formato, alterando a ordem cronológica, recriando cenas, remodelando o convencionalismo da narrativa e, no seu audacioso final, acrescentando um elemento ambíguo de metalinguagem.
Tudo isso, confere um frescor à “Adoráveis Mulheres” que certamente poucos presumiram que ele viesse a ter: Depois que a (ótima) atriz Greta Gerwig decidiu arriscar-se atrás das câmeras dirigindo o brilhante “Lady Bird”, obtendo espetacular êxito de público e crítica, o seu projeto seguinte –a adaptação do famoso romance de Alcott –parecia um passo ambicioso, o tipo de trabalho no qual um artista se arrisca a um épico tropeço após um fenomenal acerto.
É maravilhoso ver o quanto os pessimistas se enganaram: “Adoráveis Mulheres” de Greta salta com graça e sofisticação à frente de todas as demais versões (até mesmo as clássicas!) como a melhor, mais emotiva e arrebatadora transposição de Alcott feita para as telas.
Em grande parte, graças à sensibilidade de Greta Gerwig que compreende as alegrias e angústias de suas numerosas personagens, a emoção estrutural embutida em cada arco dramático da narrativa e, talvez –na qualidade, ela própria, de roteirista –as predisposições emocionais da própria Louisa May Alcott.
Provavelmente a mais completa atriz de sua geração, a jovem Saoirse Ronan interpreta a heroína Jo March; e na cena que abre o filme –Jo, aspirante à escritora, submetendo seus manuscritos à insensibilidade de um editor antiquado e inepto –já deixa claro alguns dos tópicos inesperados, acerca do empuxo criativo que espelha a protagonista e sua autora, dos quais ela quer tratar.
Jo vive à duras penas na Nova York dos anos 1860. Mora numa pensão. Tenta vender os contos literários que produz e encontrar um lugar ao sol como escritora. Mas, a vida para uma mulher de planos independentes em meados do Século XIX não é fácil.
Alternadamente à essa aspereza da realidade –registrada na belíssima fotografia em tons azuis –o filme regressa sete anos no tempo, mostrando quando Jo e suas irmãs viviam junto de sua mãe (Laura Dern), na humilde, porém, amorosa casa da família, tentando suportar a ausência do pai (Bob Odenkirk) que foi lutar na Guerra Civil –nesse período de tempo, por sua vez, as imagens surgem em tom amarelo pastel.
Cada uma das irmãs March tinha uma personalidade distinta: Além de Jo, havia a artista Amy (Florence Pugh, dando fascínio insuspeito a uma personagem normalmente irritante); a boa moça Meg (Emma Watson); e a adoecida Beth (Eliza Scanlen).
E cada uma experimenta também diferentes aspectos nos dois pólos de tempo, separados por sete anos, dos quais a narrativa se incumbe: Amy, antes à sombra de Jo, com quem vivia às turras, agora está na Europa com a rabugenta Tia March (Meryl Streep), e enquanto tenta fisgar um marido rico, se descobre atraída pelo amigo da família Laurie (o ótimo Timothée Chamalet), outrora apaixonado por Jo; Meg, cujo temperamento equilibrava as inconstâncias de humores das outras irmãs se vê, depois, em um casamento cheio de amor, mas assolado pelas provações da pobreza; e, por fim, Beth tem um novo surto de escarlatina (um outro já havia acometido anos antes), o que obriga Jo à deixar Nova York e voltar para o município de Concord, no estado de Massachussets, para cuidar dela –bem quando Jo, tão desprendida para os assuntos românticos, começava a descobrir, no imigrante Friedrich (Louis Garrell), um possível interesse amoroso.
Indo e vindo no tempo –formato inédito dado à trama –o filme de Greta Gerwig reestrutura com inteligência sua tão famosa história estabelecendo rimas poéticas entre o antes e o depois, sublinhando novas emoções àquelas já conhecidas e dando à tudo um ar renovado e vibrante: se “Lady Bird” foi uma prova de seu talento, “Adoráveis Mulheres” é a comprovação de uma competência inquestionável (tamanho é seu brilhantismo que sequer Meryl Streep, habituada a roubar cenas, consegue fazê-lo, tal é o nível altíssimo mantido por todo o elenco); a diretora consegue obter o mesmo efeito do livro no qual nos descobrimos profundamente afeiçoados às suas personagens depois de um tempo.
Sua grande contribuição à essa obra magnífica talvez seja mesmo o final, um interessante jogo de narrativa dúbia e ambiguidade ficcional, onde Greta Gerwig discute as razões mercadológicas de um final feliz –ou romanticamente satisfatório –no que diz respeito à sua protagonista.
Podem até haverem novas versões de “Adoráveis Mulheres” em algum momento no futuro; mas, será um tremendo desafio superar o primor e as emoções irreprimíveis dessa daqui.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Midsommar - O Mal Não Espera A Noite

Numa manobra que está se tornando comum entre realizadores recentes de filmes de terror, a nova obra de Ari Aster, diretor de “Hereditário”, pode ser encarada como um pós-terror: Um filme onde os expedientes do terror servem a um estudo meticuloso, inédito e por vezes rebuscado das aflições íntimas do personagem, ao mesmo tempo que, na auto-consciência de sua narrativa, transfigura os próprios códigos de gênero sem, no entanto, deixar de ser terror.
É um equilíbrio delicado, difícil de ser atingido e mantido, mas que Aster conseguiu executar com méritos em “Hereditário”, e que repete com primor aqui.
Se é possível apontar um cerne imediatamente perceptível na premissa de “Midsommar” diria que é o relacionamento de Dani (a maravilhosa Florence Pugh) e Christian (Jack Reynor, de “De Repente Pai”).
Quando o filme começa, numa série criteriosa de takes que já remetem “Hereditário”, os dois são as duas faces defeituosas de uma mesma moeda: Um relacionamento de fissuras tão evidentes que já se prevê um fim.
Ela lida com a própria carência e dependência. Ele, em meio a uma roda de conversa com os amigos, delibera o provável fim do namoro.
Uma tragédia, porém, dá novo rumo ao que parece inevitável –numa cena onde Aster já assombra o público com sua capacidade para evidenciar o teor poderosamente sinistro dos acontecimentos –e, ao mesmo tempo, arremessa a trama para onde seu realizador planeja: Após um trágico episódio pessoal, Christian já não tem condições de terminar com Dani e, em vez disso, acaba levando-a para onde iria com seu grupo de amigos; a uma comunidade pagã na Suécia, acompanhar os festejos de um festival que, eles esperam, serviria de base para sua tese na faculdade.
A medida que adentram as florestas idílicas do lugar, onde a tal Comunidade Midsommar se localiza, os personagens experimentam um afastamento bastante nítido da civilização, de seus aborrecimentos e desilusões (no caso de Dani), mas também, de suas certezas de segurança e suas zonas de conforto (no caso de todo eles).
Ari Aster é um diretor extremamente perspicaz. Na condução e na encenação, ele nos deixa observar características de seus personagens que, se a princípio parecem adjetivos que meramente os definem enquanto arquétipos do drama, são na verdade elementos que compõem o conceito sobre o qual ele deseja desde o começo versar.
Está em foco o desconforto de Dani, que ela sente, mas se esforça para ignorar. O desconforto de compreender que os amigos de Christian (sobretudo, os dois interpretados por Will Pourter e William Jackson Harper) a enxergam quase como uma intrusa na dinâmica de amizade que haviam planejado; e que o próprio Christian não está, também ele, longe de ver as coisas dessa maneira.
Quando esse grupo de protagonistas chega à Midsommar, o desconforto passa a ser parte fundamental da construção da narrativa (nos takes primorosos da direção de fotografia, no comentário desestabilizador da trilha sonora, e na decisão impetuosa de fazer um filme de terror todo à luz do dia), desta vez, não apenas o desconforto de Dani, mas também o de todos eles, ao se darem conta de que o festival pagão que planejavam testemunhar não é algo tão inocente quanto acreditavam.
De início, eles tentam convencer uns aos outros de que os indícios macabros que presenciaram são reflexos condicionados deles próprios, em resposta a uma cultura que não foram ensinados a compreender. E embora essa percepção seja um dos tópicos de fato da narrativa, é no protagonismo de Dani e de seu flagelo íntimo que o filme não tarda a novamente se concentrar: Logo, os outros personagens vão sendo descartados como forma de afunilar  a premissa numa analogia à qual voltamos à questão do relacionamento em colapso: Os olhares de Christian em direção à outra garota; a aproximação não despida de segundas intenções de Pelle (Vilhelm Blomgren) para junto de Dani.
São nos vinte minutos finais que “Midsommar” mostra ao público que os indícios de que algo estava errado não eram, afinal, apenas indícios –o que converte o conceito da comunidade pagã e dos francamente bizarros e aterradores costumes que a norteiam numa alegoria violenta e implacável do companheirismo e do entendimento que, por necessidade, deve existir em todo relacionamento saudável.
“Midsommar” não é tão aterrorizante com seus sustos quanto é provocativo com suas ideias, mas seu resultado final é uma prova do talento desigual de Ari Aster num gênero cinematográfico que costuma padecer de vozes singulares que digam algo realmente novo.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Indicados Ao Oscar 2020

E está dada a largada ao que ainda é considerado o grande prêmio do cinema:

Melhor Filme
1917
Adoráveis Mulheres
Coringa
Era Uma Vez em... Hollywood
Ford vs Ferrari
História de Um Casamento
O Irlandês
Jojo Rabbit
Parasita

“Coringa” lidera o número de indicações, com 11, seguido por “Era Uma Vez em... Hollywood” e “O Irlandês”, com 10 cada, contudo, há tempos que o número de indicações não quer dizer favoritismo na premiação –colocando as demais premiações em perspectiva, muito se aposta na obra de Quentin Tarantino que parece usufruir de fatores muito favoráveis junto ao prêmio.
E que felicidade é ver “Parasita” gozando de tantas honrarias!

Melhor Atriz
Scarlet Johansson – História de Um Casamento
Renée Zellweger – Judy-Muito Além do Arco-Íris
Charlize Theron – O Escândalo
Saoirse Ronan – Adoráveis Mulheres
Cynthia Erivo – Harriet

Melhor Ator
Joaquin Phoenix – Coringa
Adam Driver – História de Um Casamento
Antonio Banderas – Dor e Glória
Jonathan Pryce – Dois Papas
Leonardo DiCaprio – Era Uma Vez em... Hollywood

Os favoritos: Renée Zellweger e Joaquin Phoenix, sem discussão!
Quem pode ameçar a supremacia de cada um deles é, respectivamente, Charlize Theron e Adam Driver.
A inclusão de Antonio Banderas entre os melhores atores é certamente uma daquelas alegrias que vez ou outra o Oscar nos proporciona; pena elas não serem mais frequentes...

Melhor Atriz Coadjuvante
Laura Dern – História de Um Casamento
Margot Robbie – O Escândalo
Scarlett Johansson – Jojo Rabbit
Florence Pugh – Adoráveis Mulheres
Kathy Bates – Richard Jewell

Melhor Ator Coadjuvante
Brad Pitt – Era Uma Vez em... Hollywood
Anthony Hopkins – Dois Papas
Tom Hanks – Um Lindo Dia na Vizinhança
Al Pacino – O Irlandês
Joe Pesci – O Irlandês

Antes de falar sobre os possíveis ganhadores, deixem-me expressar minha felicidade pela dupla indicação de Scarlett Johansson, na categoria principal (por “História de Um Casamento”) e na de coadjuvante pelo belo trabalho de Taika Waikiki; demorou para que a Academia reconhecesse seu já comprovado talento, acima da linda mulher (e símbolo sexual) que ela é, mas quando o fez, foi com pompa e circunstância!
Como no Globo de Ouro, as presenças de Al Pacino e Joe Pesci (com destaque para o segundo) parecem ameaçar tremendamente o favoritismo de Brad Pitt que vem (merecidamente) se consolidando ao longo da temporada. Eu prefiro (inclusive em outras categorias!) infinitamente mais a homenagem esperta e camarada de Tarantino à Hollywood do que o estudo sobre o tempo, o envelhecimento e a resiliência conduzido por Scorsese. Entre as atrizes coadjuvantes, a bela surpresa na inclusão de Kathy Bates, Margot Robbie e Florence Pugh não tira a liderança nas apostas de Laura Dern, vencedora em praticamente todos os prêmios que disputou até agora –este parece ser o ano da musa de David Lynch!

Melhor Diretor
Martin Scorsese – O Irlandês
Quentin Tarantino – Era Uma Vez em... Hollywood
Sam Mendes – 1917
Bong Joon Ho – Parasita
Todd Phillips – Coringa

Melhor Roteiro Original
História de Um Casamento – Noah Baumbach
Era Uma Vez em... Hollywood – Quentin Tarantino
Parasita – Bong Joon Ho, Han Jin Won (História por Bon Joon Ho)
Entre Facas e Segredos – Rian Johnson
1917 – Sam Mendes e Krysty Wilson-Cairns

Melhor Roteiro Adaptado
Jojo Rabbit – Taika Waititi
O Irlandês – Steven Zaillian
Dois Papas – Anthony McCarten
Coringa – Todd Phillips e Scott Silver
Adoráveis Mulheres – Greta Gerwig

Um prazer ver Bong Joon-Ho e seu “Parasita” em tantas categorias, é bem provável que todas essas indicações se concretizem no único prêmio de Filme Estrangeiro, mas já está bom demais!
Com Scorsese perdendo terreno na temporada de prêmios, é de se imaginar o Oscar de Melhor Diretor ficando mesmo entre Sam Mendes (até então o favorito) e Quentin Tarantino, que deve mesmo prevalecer na categoria de Roteiro Original.
Já, entre os roteiros adaptados, “O irlandês” deve competir direto com a delicadeza e qualidade de “Adoráveis Mulheres” –e com o imenso apreço que a Academia parece nutrir pelas obras de Greta Gerwig –e com a larga aceitação de púlbico e crítica de “Coringa”, fatores que podem influenciar numa categoria sem tantos favoritos como esta.

Melhor Figurino
Jojo Rabbit
Era Uma Vez em... Hollywood
O Irlandês
Coringa
Adoráveis Mulheres

Melhor Maquiagem & Cabelo
O Escândalo
Coringa
Judy-Muito Além do Arco-Íris
Malévola-Dona do Mal
1917

Melhor Direção de Arte
Era Uma Vez em... Hollywood
1917
Jojo Rabbit
O Irlandês
Parasita

Melhor Trilha Sonora Original
Coringa
Adoráveis Mulheres
História de um Casamento
1917
Star Wars-A Ascensão Skywalker

Melhor Canção Original
“I’m Standing With You” de Superação-O Milagre da Fé
“Into the Unknown” de Frozen 2
“Stand Up” de Harriet
“(I’m Gonna) Love Me Again” de Rocketman
“I Can’t Let You Throw Yourself Away” de Toy Story 4

Melhor Fotografia
1917
Coringa
O Irlandês
O Farol
Era Uma Vez em... Hollywood

Melhor Montagem
O Irlandês
Ford vs Ferrari
Coringa
Jojo Rabbit
Parasita

Melhor Edição de Som
1917
Coringa
Ford vs Ferrari
Star Wars-A Ascensão Skywalker
Era Uma Vez em... Hollywood

Melhor Mixagem de Som
Coringa
Ad Astra
1917
Ford vs Ferrari
Era Uma Vez em... Hollywood

Melhores Efeitos Visuais
Vingadores-Ultimato
O Irlandês
O Rei Leão
1917
Star Wars-A Ascensão Skywalker

De modo geral, as categorias técnicas têm, em “1917”, seu grande favorito –até mesmo em efeitos visuais, onde se destaca o fenômeno “Vingadores-Ultimato”.
Entre surpresas de última hora (“Ad Astra” em Mixagem de Som e “O Farol” em Fotografia) e esnobadas intrigantes (sobretudo, a ausência de “Era Uma Vez em... Hollywood” em Melhor Montagem, vaga que provavelmente ficou com “Ford vs Ferrari”), temos “Rocketman”, cujo favoritismo em Melhor Canção Original terá de compensar seu esquecimento em praticamente todas as outras categorias.

Melhor Documentário
Democracia em Vertigem
American Factory
The Cave
For Sama
Honeyland

Melhor Animação
Toy Story 4
I Lost My Body
Link Perdido
Como Treinar Seu Dragão 3
Klaus

Melhor Filme Estrangeiro
Honeyland – Macedônia
Corpus Christi – Polônia
Parasita – Coreia do Sul
Les Misérables – França
Dor e Glória – Espanha

Como é até habitual, a Academia reconhece o valor do cinema brasileiro com mais frequência entre os documentários –e este ano, é “Democracia em Vertigem” que ganha a honraria –entre as animações, a grande surpresa foi a ausência de “Frozen 2”, que restrige ao peso-pesado “Toy Story 4” a tarefa de superar a súbita preferência nas premiações conquistada (sem muito mérito) por “Link Perdido” e (com largo merecimento) por “Klaus”.
Já, o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro já tem dono, embora seja sempre bacana ver uma obra de Pedro Almodovar reiterar a relevância do diretor espanhol: Será o absurdo dos absurdos se a Academia negar esse Oscar ao sul-coreano “Parasita”.

Melhor Curta Animado
Dcera (Daughter)
Hair Love
Kitbull
Memorable
Sister

Melhor Curta em Documentário
In the Absence
Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl)
A Vida em Mim
St. Louis Superman
Walk Run Cha-Cha

Melhor Curta em Live-Action
Brotherhood
Nefta Football Club
The Neighbors’ Window
Saria
A Sister

A confirmação dos favoritos ou a invalidação das maiores apostas se dará no dia 9 de fevereiro, na 92ª Cerimônia do Oscar, a ser realizada no Teatro Dolby, em Los Angeles.