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sexta-feira, 5 de maio de 2023

Guardiões da Galáxia Volume 3


 Já dissera Tony Stark (Robert Downey Jr.) em “Vingadores-Ultimato”: O fim faz parte da jornada. Pois é exatamente isso que vem reiterar este terceiro volume da trilogia concebida por James Gunn, também ela dentro do Universo Marvel Cinematográfico, cujo mérito maior talvez seja o de ter provado, perante toda a indústria, que sim, personagens outrora obscuros e absolutamente desconhecidos, quando tratados com refinamento, talento e uma equipe competente à frente e atrás das câmeras podem converter-se em ícones pop de tanto ou mais sucesso que os personagens já famosos e estabelecidos. “Volume 3” representa, em inúmeros aspectos, o fim da jornada. É o fim dessa equipe que conduziu fãs e expectadores casuais pelos recônditos do espaço sideral do MCU, e é, acima de tudo, uma despedida do próprio James Gunn à esses personagens –aos quais ele não deixa de declarar em cada instante de filme um amor incondicional –prestes à assumir a importante função de chefe da DC Studios, concorrente da Marvel.

Para tanto, vindo todos esses personagens de dois longa-metragens anteriores –e da expressiva participação em pelo menos outros dois filmes dos “Vingadores” –“Volume 3” acaba tendo assim muitas pontas soltas para unir. Existe, por exemplo, a situação romanticamente incerta entre Peter Quill (Chris Pratt) e Gamorra (Zoe Saldana), ela assassinada por Thanos em “Vingadores-Guerra Infinita”, mas, tendo retornado como uma versão alternativa (e nada benigna) de si mesma de outra realidade –e, portanto, sem qualquer vínculo com a equipe que antes virou sua família e sem qualquer memória do romance que construiu, aos trancos e barrancos, com o apaixonado Quill; há também a situação de Adam Warlock (Will Poulter), ser poderoso ainda que ingênuo, criado pela alienígena Ayesha (Elizabeth Debicki), como nos foi mostrado numa das cenas pós-crédito do “Volume 2”, com o intuito inicial de vingança contra os Guardiões da Galáxia. Mas, acima de tudo, há Rocket Racoon (voz de Bradley Cooper), o guaxinim humanóide e cibernético que, ao lado do homem-árvore Groot (voz de Vin Diesel), é um dos personagens favoritos dos fãs desde o primeiro filme. James Gunn foi providencial ao reservar toda a triste e dolorosa história de origem de Rocket para este último capítulo: É seguro afirmar, Rocket é o coração de “Guardiões da Galáxia-Volume 3”.

Sua história –contada em pontuais flashbacks que revelam sua criação pelas mãos do cruel, detestável e poderoso Alto-Evolucionário (Chukwudi Iwuji, num dos mais odiosos vilões da Marvel) –é de uma tristeza, uma angústia e um desamparo que chega a espantar quem está habituado à galhofa e ao humor constante de James Gunn. Mal dá pra acreditar que um personagem praticamente gerado por computador em sua íntegra seja capaz de comover de tal maneira. Rocket precisa de ajuda. Para salvá-lo, os Guardiões da Galáxia –que, mais que um grupo, se consolidaram praticamente como uma família –formados por Quill, Nebula (Karen Gillan), Drax (Dave Bautista), Manthis (Pom Klementieff) e Groot, partem, de seu reduto em Luganenhum, para a Contra-Terra, planeta-laboratório onde o Alto-Evolucionário conduz seus experimentos atrozes brincando de Deus com a vida de incontáveis criaturas inocentes, tendo uma delas sido Rocket, no passado.

Contudo, o tempo mostrou que Rocket é mais do que um experimento imperfeito como seu criador acreditava: Sua inteligência evoluiu, diante da necessidade de viver e de sobreviver, tornando-o algo mais do que o Alto-Evolucionário almejava. Agora, porém, ele quer Rocket de volta, pois, na ânsia de trilhar o caminho de sonhou, apesar de todas as suas perdas e decepções, Rocket foi capaz de evoluir –e o Alto-Evolucionário não sabe como ele o fez, nem como repetir isso em suas outras criações; só sabe que irá dissecar cada fibra de Rocket para descobrir.

No caminho para tentar salvar a vida de Rocket –infectado por uma espécie de vírus plantado nele por Adam Warlock num ataque –os Guardiões da Galáxia, obviamente, vão se cruzar com Gamorra, agora aliada aos Saqueadores, piratas espaciais liderados por Stakar (Sylvester Stallone, numa ponta de puxo), cujos laços com Quill (como namorada) e com Nebula (como irmã) podem, quem sabe, serem restaurados nesse percurso.

É claro que, sendo este o alardeado Volume Final, espera-se deste filme, sobretudo, em sua parte final, as imprevistas guinadas definitivas que haverão de selar o desfecho da maior parte dos personagens (e a Marvel Studios já se provou capaz de fazê-lo com emoção e contundência em “Ultimato”) e, possivelmente, até mesmo uma morte impactante a marcar este como o encerramento da história que começou no primeiro filme. Hábil, travesso e inteligente, James Gunn –em estado de graça, seja no roteiro, seja na direção –brinca, inclusive, com isso o tempo todo. Ele nos leva de uma emoção à outra, saltando com inédita e elevada habilidade do casual e confortável bom humor à emoção incontida e inebriante, e revela, neste terceiro trabalho com os Guardiões, uma nova faceta: A capacidade de realizar uma obra inesperadamente tensa.

Elaborado com a usual e reconhecida profusão de efeitos visuais que a Marvel Studios habitualmente entrega, e para tanto, dono de uma amplitude técnica invejável, “Guardiões da Galáxia-Volume 3” tem uma trama recheada de idas e vindas frenéticas, ora divertidas, ora atordoantes, e vale-se brilhantemente do fato –um trunfo sem igual para a Marvel –de que já conhecemos esses personagens, nos importamos com eles, sentimos com mais empatia e eficácia suas agruras e lamentamos com muito mais autenticidade suas tristezas, e isso faz com que sua última aventura seja, afinal, uma despedida nossa também. Uma emoção verdadeira, da qual partilhamos com imenso prazer.

Obrigado pela aventura, Guardiões.

domingo, 26 de abril de 2020

Família do Bagulho - Uma Viagem Muito Louca

Muito bom e muito válido poder conferir filmes de comédia quando eles não mais são realizados.
“Família do Bagulho” nem está tão longe assim no tempo –seu lançamento é de 2013 –mas, ainda assim faz parte de um estilo de filme comercial (a comédia besteirol) que não são mais realizados em função do ‘politicamente correto’, postura que os estúdios hollywoodianos não se atrevem mais a alfinetar.
Na trama construída com a devida superficialidade que atende aos propósitos cômicos –e muito dela em cima do afiado timing cômico de seus astros principais –temos um traficante de meia idade chamado David (Jason Sudeikis, de “Passe Livre”) que, graças a um assalto perde o dinheiro de seu fornecedor de drogas, Brad (vivido com incômoda afetação por Ed Helms, de “Se Beber Não Case”). A dívida pode ser paga com uma simples viagem até o México de onde David pode vir com uma certa quantia de droga –e ainda obter algum lucro.
Em algum momento, ele se dá conta de que a jornada só será realmente perigosa (com a possibilidade de ser parado pela polícia ao cruzar a fronteira) se ele aparentar ser o traficante que é.
Explica-se: Mudando as roupas, o corte de cabelo, e conseguindo a adição de um trailer e um grupo de ‘atores’ que interpretem sua ‘família’, ele pode fazer o trajeto disfarçado de inocente americano em férias, sem levantar suspeitas.
Assim, além de si próprio, David leva Kenny (Will Poulter), seu jovem e ingênuo vizinho, como seu filho; a sem-teto Casey (Emma Roberts) como sua filha; e, a cereja no topo do bolo, a stripper Rose (Jennifer Aniston) como sua esposa. Detalhe: Salvo o inocente Kenny todos eles mal se conhecem –e, no pouco que se conhecem, já se detestam!
É claro que, a partir de um determinado ponto dessa viagem, eles passam a confundir a atuação com a realidade, desenvolvendo laços e admiração genuína entre si –um recurso sentimentalista para levar a trama a evidentemente avançar, mas que, felizmente, não ganha tanta ênfase assim a ponto de comprometer toda a diversão.
Dirigido por Rawson Marshall Thurber, o filme se ampara nesse conceito singelo e non-sense ao extremo para fazer graça –uma fórmula que, por anos, impulsionou comédias no circuito comercial, algumas com notável êxito, outras com lamentável fracasso.
“Família do Bagulho”, no que se pretende, atinge perfeitamente seus objetivos: Se não chega a ser brilhantemente hilariante, consegue ao menos se manter envolvente e entregar com relativa regularidade e ritmo, situações cheias de humor simultaneamente; como o policial mexicano (Luiz Gusman) que se mostra disposto a aceitar uma propina da família; e a longa participação de outra família –esta real! –que resolve acompanhar os protagonistas quando o trailer deles enguiça, formada pela pai (Nick Offerman) –que se revela agente anti-drogas (!) –a mãe (Kathryn Hahn, de “Viajar É Preciso”  e “Um Amor A Cada Esquina” ambos com Aniston) e a bela filha (Molly Quinn, de “João, Maria e A Bruxa da Floresta Negra”), que se engraça com o inexperiente Kenny.
É a senha para um dos momentos mais famosos do filme (um exemplo de seu humor que equilibra tanto gracejo quanto constrangimento): Compadecidas dele, que não sabe nem nunca soube beijar garotas por sua falta de experiência, Rose e Casey (que, veja bem, estão a interpretar sua mãe e sua irmã!) resolvem se revezar para ensiná-lo a beijar na boca –e na empolgação a coisa toda ameaça resvalar na putaria, para o êxtase da assanhada testemunha, David.
Portanto, situações de incesto indireto, sugestões de swing (orgias!), gags envolvendo fetiches, órgãos genitais e outras peculiaridades não são tabus ofensivos o bastante para que os realizadores não extraiam disso uma piada. E isso porque o filme é uma produção de estúdio abertamente comercial (como atestam a presença de Aniston e Sudeikis, astros norte-americanos). A verdade era que havia essa saudável insolência para com assuntos delicados que agregava inspiração aos artistas, sobretudo, do humor; hoje em dia, essa liberdade já não existe mais –num mundo dominado pela vigilância das redes sociais, onde ninguém se surpreende com nada, mas todo mundo se ofende com tudo, comédias descompromissadas e ácidas já não encontram mais seu lugar nem seu público.
Que pena.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Midsommar - O Mal Não Espera A Noite

Numa manobra que está se tornando comum entre realizadores recentes de filmes de terror, a nova obra de Ari Aster, diretor de “Hereditário”, pode ser encarada como um pós-terror: Um filme onde os expedientes do terror servem a um estudo meticuloso, inédito e por vezes rebuscado das aflições íntimas do personagem, ao mesmo tempo que, na auto-consciência de sua narrativa, transfigura os próprios códigos de gênero sem, no entanto, deixar de ser terror.
É um equilíbrio delicado, difícil de ser atingido e mantido, mas que Aster conseguiu executar com méritos em “Hereditário”, e que repete com primor aqui.
Se é possível apontar um cerne imediatamente perceptível na premissa de “Midsommar” diria que é o relacionamento de Dani (a maravilhosa Florence Pugh) e Christian (Jack Reynor, de “De Repente Pai”).
Quando o filme começa, numa série criteriosa de takes que já remetem “Hereditário”, os dois são as duas faces defeituosas de uma mesma moeda: Um relacionamento de fissuras tão evidentes que já se prevê um fim.
Ela lida com a própria carência e dependência. Ele, em meio a uma roda de conversa com os amigos, delibera o provável fim do namoro.
Uma tragédia, porém, dá novo rumo ao que parece inevitável –numa cena onde Aster já assombra o público com sua capacidade para evidenciar o teor poderosamente sinistro dos acontecimentos –e, ao mesmo tempo, arremessa a trama para onde seu realizador planeja: Após um trágico episódio pessoal, Christian já não tem condições de terminar com Dani e, em vez disso, acaba levando-a para onde iria com seu grupo de amigos; a uma comunidade pagã na Suécia, acompanhar os festejos de um festival que, eles esperam, serviria de base para sua tese na faculdade.
A medida que adentram as florestas idílicas do lugar, onde a tal Comunidade Midsommar se localiza, os personagens experimentam um afastamento bastante nítido da civilização, de seus aborrecimentos e desilusões (no caso de Dani), mas também, de suas certezas de segurança e suas zonas de conforto (no caso de todo eles).
Ari Aster é um diretor extremamente perspicaz. Na condução e na encenação, ele nos deixa observar características de seus personagens que, se a princípio parecem adjetivos que meramente os definem enquanto arquétipos do drama, são na verdade elementos que compõem o conceito sobre o qual ele deseja desde o começo versar.
Está em foco o desconforto de Dani, que ela sente, mas se esforça para ignorar. O desconforto de compreender que os amigos de Christian (sobretudo, os dois interpretados por Will Pourter e William Jackson Harper) a enxergam quase como uma intrusa na dinâmica de amizade que haviam planejado; e que o próprio Christian não está, também ele, longe de ver as coisas dessa maneira.
Quando esse grupo de protagonistas chega à Midsommar, o desconforto passa a ser parte fundamental da construção da narrativa (nos takes primorosos da direção de fotografia, no comentário desestabilizador da trilha sonora, e na decisão impetuosa de fazer um filme de terror todo à luz do dia), desta vez, não apenas o desconforto de Dani, mas também o de todos eles, ao se darem conta de que o festival pagão que planejavam testemunhar não é algo tão inocente quanto acreditavam.
De início, eles tentam convencer uns aos outros de que os indícios macabros que presenciaram são reflexos condicionados deles próprios, em resposta a uma cultura que não foram ensinados a compreender. E embora essa percepção seja um dos tópicos de fato da narrativa, é no protagonismo de Dani e de seu flagelo íntimo que o filme não tarda a novamente se concentrar: Logo, os outros personagens vão sendo descartados como forma de afunilar  a premissa numa analogia à qual voltamos à questão do relacionamento em colapso: Os olhares de Christian em direção à outra garota; a aproximação não despida de segundas intenções de Pelle (Vilhelm Blomgren) para junto de Dani.
São nos vinte minutos finais que “Midsommar” mostra ao público que os indícios de que algo estava errado não eram, afinal, apenas indícios –o que converte o conceito da comunidade pagã e dos francamente bizarros e aterradores costumes que a norteiam numa alegoria violenta e implacável do companheirismo e do entendimento que, por necessidade, deve existir em todo relacionamento saudável.
“Midsommar” não é tão aterrorizante com seus sustos quanto é provocativo com suas ideias, mas seu resultado final é uma prova do talento desigual de Ari Aster num gênero cinematográfico que costuma padecer de vozes singulares que digam algo realmente novo.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Maze Runner - A Cura Mortal


Na cronologia interna do filme contam alguns meses desde que o grupo de Thomas –os mesmos que lutaram para escapar do Labirinto no primeiro filme –sofreu mais do que uma simples perda: Eles foram de certa forma traídos por um deles, a bela Teresa (Kaya Scodelario), que deixou-os e passou a trabalhar arduamente na corporação C.R.U.E.L., responsável por todos os pesadelos que eles viveram.
Na cronologia do mundo real –aquela que importa para nós, expectadores –lá se vão três anos desde 2015, quando foi lançado “Maze Runner-A Prova de Fogo”, que encerrou-se em tal gancho.
As filmagens estavam programadas (e sendo executadas) para que a janela de tempo fosse a mesma entre o primeiro e o segundo filme (cerca de um ano), mas então um grave acidente envolvendo o astro da produção, Dylan O’ Brien, quase pôs tudo a perder.
Na época especulou-se até a possibilidade de “Maze Runner” ser engavetada, deixando a saga sem um desfecho, mais eis que agora temos “A Cura Mortal” para podermos conferir o fim de toda a história.
É notável perceber que, apesar de todos os revezes, a direção de Wes Ball continua tão inspirada quanto objetiva: Sua eficiência resulta do salutar fato de que ele não almeja fazer mais do que é capaz; “A Cura Mortal”, como os filmes que o precederam, entrega ação e suspense nos níveis intensos a que espera o público. E tudo o mais é lucro.
Felizmente, há, sim, algo mais.
Thomas (que O’ Brien interpreta sem um pingo de hesitação pelo acidente sofrido) e os demais sobreviventes desse desolado mundo futurista concebido pelo escritor James Dashner vivem sob uma rotina de guerrilha. A cena eletrizante que abre o filme acompanha uma tentativa –que se revela, depois, frustrada –de recuperar outro dos seus, Minho (vivido por Ki Hong Lee, certamente um dos preferidos dos fãs).
Mas, essa busca os levará ainda mais longe. Para a assim chamada última cidade restante no mundo, uma metrópole cercada por muralhas gigantescas que deixam de fora os excluídos e fugitivos (como Thomas e sua turma), dentro da qual a C.R.U.E.L. e seus cientistas trabalham para criar uma cura para o vírus Fulgor –e foi a busca por essa cura que levou Thomas e os outros a virarem praticamente ratos de laboratório do primeiro filme, e serem brutalmente perseguidos no segundo.
Dentro dessa cidade, eles sabem, também está Teresa, trabalhando com a Dra. Ava Paige (Patricia Clarkson) a potencial vilã desta história –embora esse e outros conceitos sejam maravilhosamente embaralhados por novas revelações (incluindo o reaparecimento quase milagroso de um dos personagens mais interessante da saga).
O episódio final de “Maze Runner” então inverte a equação do filme original (se antes precisavam sair do labirinto, agora, eles precisam achar um meio de entrar!) para confrontar os personagens com suas próprias escolhas –incluindo Teresa cuja importância na trama é de uma ambiguidade notável –enquanto enfatiza ainda mais a importância de Thomas na resolução de todos os ganchos narrativos.
O diretor Wes Ball faz um bom trabalho –tanto que sua inexperiência só é perceptível já na reta final quando, um tanto já enamorado dos personagens e da premissa, ele parece perder um pouco de sua admirável objetividade e mostra-se indeciso entre qual instante de fato deve, afinal, abandoná-los.
Algo perfeitamente perdoável diante de personagens tão carismáticos e de uma trama tão envolvente.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Detroit Em Rebelião

Na esteira das duas últimas grandes obras da diretora Kathryn Bigelow, “Guerra Ao Terror” e “A Hora Mais Escura” (todos eles realizados em colaboração com o roteirista Mark Boal), este “Detroit Em Rebelião” esteve por muito tempo cotado para integrar as lista dos filmes indicados ao Oscar 2018, o quê, sabe-se, não aconteceu, provavelmente em face da produção ser uma obra de extremo teor alarmante, algo que pode ter saturado público e crítica ao longo de um 2017 tão pontuado por discursos de denúncia e em prol da diversidade.
O filme vem envolto na habilidade insuspeita que sua diretora tem de deixar os nervos do expectador à flor da pele.
Não poderia ser diferente.
O ano é 1967, auge da luta pelos direitos civis. O lugar é a zona oeste de Detroit, local segregado de bairros predominantemente negros onde o policiamento encontra constante conflito com a população indignada.
A narrativa de Bigelow começa seu filme de forma abrangente, oferecendo ao expectador informações de sobra para que ele se contextualize, se ambiente e compreenda o barril de pólvora no qual os conflitos raciais transformaram a cidade.
A diretora recorre a quase uma hora de filme para passear em situações breves, porém, pertinentes, oscilando entre personagens, criando um panorama amplo.
Aos poucos, contudo, ela vai se concentrar em alguns personagens específicos: O policial racista Krauss (Will Pouter, de “O Regresso” e “Maze Runner-Correr Ou Morrer”) que freqüentemente perde o controle e a razão na execução de seu dever; o trabalhador negro Dismukes (John Boyega, de “Star Wars-O Despertar da Força”) que acumula dois empregos, um dos quais vigia noturno de uma loja; os dois amigos Fred (Jacob Latimore, também de “Maze Runner”) e Larry Cleveland (Algee Smith) que sonham com o sucesso de um grupo musical do qual fazem parte.
Estes personagens têm sua trajetória entremeada quando o filme já quase chega ao seu segundo terço, quando a diretora Bigelow enfim começa a elucidar o fato real que aqui se dispôs a reconstituir: Reunidos no motel Algiers, ao lado de outras pessoas (como o ex-combatente do Vietnam interpretado por Anthony Mackie, e duas jovens brancas de Ohio), Fred e Larry estão entre os presentes imediatamente abordados pela polícia –entre os quais o oficial Krauss, um grupo de soldados da Guarda Nacional e mais o próprio Dismukes.
Ouviram-se tiros lá fora –na realidade, uma brincadeira de um dos rapazes com uma arma de espoleta –e todos invadiram o motel dispostos a obter a confissão de um sniper a qualquer custo.
Liderados pelo inconstante Krauss, os policiais e os soldados exercem uma pressão psicológica insuportável entre os suspeitos e logo, diante da frustração de não haver provas concretas que viessem embasar seu ato violento, começam a oferecer perigo real à vida de todos eles.
Como fez especialmente em “A Hora Mais Escura”, o roteiro de Mark Boal pega um evento real nebuloso e preenche suas lacunas com a liberdade proporcionada pela ficção, mas impelida por uma sensibilidade emocional e uma austeridade factual que tornam quase inquestionável a precisão de seu relato.
Nada no filme esconde a analogia que a trama e suas circunstâncias estabelecem com outro lamentável evento da história americana (e intrinsecamente ligado à filmografia de Bigelow): A invasão militar promovida por George Bush ao Iraque sob alegações de que haveriam armas de destruição em massa.
O roteiro coeso e firme de Boal aliado à formidável direção de Bigelow rende um trabalho longo, aflitivo e poderoso que exige nervos de aço do expectador.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Maze Runner

   O pouco que se sabe é uma regra: Todo o mês, um novato surge no labirinto!
   É assim que tomamos conhecimento de tudo; através dos olhos do recém-chegado Thomas (Dylan O’ Brien). Como todos os quase cinqüenta garotos que vieram antes dele, Thomas teve suas lembranças apagadas (de inicio, sequer lembra o próprio nome) e seu estado ao emergir dentro do misterioso elevador de carga na Clareira é de perplexidade.
   A Clareira vem a ser um campo com floresta localizado no centro de um gigantesco labirinto e dele separado por imensas muralhas de pedra. Toda manhã as portas da muralha se abrem. Toda noite, elas se fecham. Ou seja: Os jovens que sobrevivem lá dentro têm todo o dia para tentar encontrar uma saída (o quê, nos três anos em que lembram de estar lá, jamais o conseguiram). À noite, eles sabem, não é prudente estar no labirinto: Criaturas perigosas (e monstruosas), apelidadas “verdugos”, rondam àquele lugar a partir do momento em que as portas se fecham.
   É nessa condição imutável –e toda ela proveniente do conceito de William Golding para “O Senhor das Moscas” –que surgiu uma espécie de sociedade composta por esses garotos perdidos, e que o protagonista Thomas vai, aos poucos, compreender em “Maze Runner-Correr Ou Morrer”.
   Os jovens criaram inúmeras regras para conviverem entre si. A mais importante delas: Todos estão terminantemente proibidos de entrar no labirinto. Os únicos autorizados para tanto são os “corredores”, selecionados entre os garotos mais rápidos.
   Assim que chega, o novato que surge todo o mês é avaliado e incluído em algum dos grupos: Os “corredores”; os “socorristas” (que zelam pela saúde de todos); ou os “construtores” (responsáveis pelas plantações que alimentam a todos e pelas estruturas da Clareira).
  Um conjunto de regras que funciona apesar da relativa curiosidade indomável que Thomas demonstra desde que chegou, isso pelo menos até a chegada da primeira garota a surgir no labirinto, a enigmática Teresa (Kaya Scodelario), cuja presença vem acompanhada de uma série de mudanças que colocarão tudo a perder.
   Tem-se então uma premissa na qual estão expostos e avaliados muitos das inclinações humanas referentes aos anseios primitivos do homem: Fascinante, por exemplo, o caso do personagem Gali (Will Poulter), que imediatamente hostiliza Thomas e seu intuito impetuoso de sair do labirinto e levar a todos consigo; para Gali, o labirinto não é uma prisão, mas o seu lar, todo o mundo que ele conhece e no qual se sente à vontade, e ele está pronto para neutralizar qualquer elemento que busque tirá-lo dessa sua zona de conforto.
   Quando ficam claros os passos largos e frutíferos que Thomas está dando na direção de finalmente deixarem o labirinto (e descobrirem a razão de terem sido lá deixados), a reação de Gali é uma desesperada indignação, um ultraje perante aquele invasor que se atreveu a tentar alterar um ciclo equilibrado que para ele funcionava com harmonia, e no qual não enxergava razão para abandonar.
   Em meio à aventura, necessariamente carregada de tensão e empolgação, que se segue, várias outras questões de ressonância moral e social vão surgir.
   Austero e atento às entrelinhas, o diretor Wes Ball soube ressaltar essas e muitas outras variações reflexivas embutidas na trama, preservando a verve filosófica que o romance de James Dashner parecia extrair do clássico de Golding e impondo um ritmo preciso e alucinante, construindo uma das melhores sagas juvenis dos últimos tempos. Qualidade que se mantêm mesmo comparando-o à “Harry Potter” e “Jogos Vorazes”, provavelmente os melhores produtos desse sub-gênero.
   Uma pena que a personagem Teresa, da forma como está, oferece poucas oportunidades para a bela Kaya Scodelario brilhar: Muito pouco sabemos dela durante a maior parte do tempo, e ela própria opta pelo silêncio ao invés de expressar o que sente ou pensa. E isso não muda muito no filme seguinte. Por falar nele...

   No segundo filme, “Maze Runner-A Prova de Fogo” acompanhamos os personagens a partir do ponto em que o primeiro filme os deixou: O mundo do lado de fora do labirinto não é tão seguro e tranqüilo quanto imaginavam.
   Ao que parece, um vírus capaz de transformar pessoas em zumbis dizimou grande parte da humanidade e Thomas e seu grupo, por se encontrarem numa espécie de laboratório de testes (era algo assim que o labirinto era...), são cobaias em potencial para a elaboração de uma cura.
Nessas condições, eles fogem do refúgio que lhes prometia abrigo, mas que no final das contas era só mais uma prisão, e ganham as extensões arenosas do deserto, à procura do misterioso grupo armado denominado “Braço Direito”.
   Novos personagens surgem para tornar mais nebulosa e ambígua a definição de heróis e vilões da trama. A explicação da existência do lúdico labirinto do primeiro filme mostra-se cheia de meandros complexos que aproximam “Maze Runner” do terreno da ficção científica distópica. O direto Wes Ball continua prodigioso e não permite que a brutal alteração de cenário e atmosfera em relação ao primeiro filme afete seu trabalho, entregando uma obra pulsante, ágil e enérgica, que não perde o fôlego nem mesmo quando sua duração excessiva ameaça pesar sobre a narrativa no ato final.
   O gancho final de “A Prova de Fogo” deixa tudo em aberto –no melhor estilo “Império Contra-Ataca” –para o episódio final, “A Cura Mortal”, e aí temos o curioso e inusitado fato que pode tornar “Maze Runner” uma saga singular no cinema comercial: Durante as filmagens do terceiro filme, um acidente tirou da ação o protagonista Dylan O’ Brien, isso e mais a inesperada gravidez de Kaya Scodelario levaram os estúdios da Fox a adiarem indefinidamente as filmagens de “A Cura Mortal” (que se achavam na metade).
   Ninguém sabe se o estúdio tem planos de retomar a realização do projeto, o que demandaria ainda mais custos em seu orçamento e acarretaria uma logística complicada para reunir todo o elenco e a equipe técnica novamente.
   Se a Fox optar pelo caminho mais fácil, e desistir do projeto depois que O’ Brien se recuperar, então “Maze Runner” entrará para a história como uma série sensacional e empolgante cujos fãs jamais tiveram a chance de ver como terminava.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O Regresso

 Se há algo que este filme ratifica, é o virtuosismo cada vez mais aplicado de Alejandro Gonzales Iñarritu. Ele pega uma trama de uma simplicidade gutural e a potencializa em um grande filme sobre vingança que ultrapassa as duas horas de duração. 
Não é o quê ele conta, mas como ele conta. 
A câmera de Emmanuel Lubezki elabora quadro de um esplendor inédito no cinema em 2015. Poucos foram os filmes capazes de rivalizar com esse acabamento visual: Puxando da memória, talvez, só “Mad Max-Estrada da Fúria” e “A Colina Escarlate” são capazes de lhe igualar nesses termos. Aqui, Iñarritu entrega uma obra completamente distinta de seu trabalho anterior, “Birdman”. Se o outro filme era uma dissertação sobre as diferentes percepções da arte e do processo criativo em si, “O Regresso” abandona qualquer um desses intelectualismos. Á exemplo do que Kubrick fazia, o filme de Iñarritu contraria e contradiz seu trabalho anterior pela simples mudança brusca de tema, ambientação e conceito. 
Leonardo Dicaprio (numa atuação carregada de precisão, expressividade e silêncio) é Hugo Glass, caçador e rastreador veterano da fronteira gelada dos EUA com o Canadá. Em meados do fim do século XIX, ele e seus conhecimentos soa necessários à uma empreitada que um grupo de  soldados e mercenários pagos empreendem á territórios longínquos e inóspitos, atrás de carne e couros valiosos. Lá, há muito perigo. Inclusive na forma de tribos hostis que não hesitam em atacá-los já nas espetaculares cenas iniciais do filme. Durante a árdua volta para a civilização, Glass é atacado por um urso imenso, em mais uma cena brilhantemente montada e orquestrada por Iñarritu. Seus ferimentos indicam morte iminente, e suas condições certamente atrasarão a tropa, mas o capitão (Domhnall Gleeson) não deseja deixá-lo para trás, ao contrário do rancoroso Fitzgerald (Tom Hardy, brilhante). Logo monta-se uma equipe para cuidar dele enquanto a tropa prossegue. Essa equipe inclui Fitzgerald, e dois jovens, um deles o filho metade indígena de Hugo Glass. 
Ao verem-se sozinhos, as intenções de Fitzgeral se revelam: Ele mata a sangue frio o filho de Glass, e depois enterra o próprio vivo, sob a relutante testemunha do outro jovem. Contudo, Glass não morre, e trava uma odisséia em meio à paisagem inóspita e gelada para procurar e achar Fitzgerald e consumar o desejo de vingança que queima dentro dele desde então. 
Ainda que seja a mola que impulsiona o filme e o seu protagonista, a vingança em si não é o cerne de “O Regresso”. Durante a maior parte de sua duração é o trajeto que Glass fará até atingir seu objetivo o verdadeiro mote do filme. O grande tema de “O Regresso” portanto, acaba sendo o embate do homem com a natureza. E é a partir dessas cenas que o diretor Iñarritu encontra a força de seu filme: Cada tomada é imbuída de um esforço sem igual de autenticidade e legitimidade técnica para com a ilustração da frágil condição humana perante um cenário tão lindo e tão selvagem.