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domingo, 4 de maio de 2025

Thunderbolts*


 Quando a Marvel Studios lançou a pra lá de bem-sucedida dobradinha, “Vingadores-Guerra Infinita” e “Vingadores-Ultimato”, em 2018 e 2019, não imaginava estar criando uma verdadeiro cilada para si mesma e para suas vindouras produções a serem elaboradas futuramente –ao conceber duas obras que, em si, atingiam ápices cinematográficos antes inimagináveis, a Marvel estabeleceu um patamar altíssimo, padrão para as expectativas que seu público teria em relação à obras que viessem depois.

Embora realmente tenham havido, depois disso, filmes oscilantes em qualidade –e desse fato alimentar uma constante e aborrecida discussão sobre a saturação das adaptações de histórias em quadrinhos junto ao público –a Marvel ainda conseguiu, vez ou outra, entregar algo de qualidade. Afinal, para cada presepada como “Thor-Amor e Trovão”, havia um passatempo satisfatório como “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”, para cada deslize como “Homem-Formiga e A Vespa-Quantumania” ou “As Marvels”, havia um belo trabalho como “Guardiões da Galáxia Vol. 3” ou “Deadpool & Wolverine”.

Bem, em 2025, a Marvel Studios, se não foi capaz de fazer “Capitão América-Admirável Mundo Novo” tão memorável quanto seus pares, ela conseguiu, com este “Thunderbolts*” entregar aos expectadores tudo aquilo que, no geral, sempre deles se espera –uma obra vibrante, com personagens cativantes e envolventes do início ao fim, bem conjugada no manejo de uma trama que oscila, com desenvoltura e descontração, entre a ação, o humor e o drama.

Grupo clandestino e marginalizado de anti-heróis nos quadrinhos da Marvel –mais ou menos que é “O Esquadrão Suicida” na DC Comics –os Thunderbolts são, tal e qual os Vingadores, uma junção de vários personagens, oriundos de diversos filmes e séries que a Marvel Studios foi produzindo ao longo dos anos; com o adendo de que, diferente dos heróicos e nobres protagonistas à toda prova de antes, agora temos aqui personagens ambíguos, sobreviventes no limiar de suas próprias falhas traumáticas, das experiências defeituosas e das trajetórias torpes que a cada um foi imposta. E o diretor Jake Schreier (de "Cidades de Papel") espertamente soube ancorar esses elementos um tanto quanto diferenciais na narrativa absorvente, política e intrigante que conduz com seu filme.

Pode-se partir do princípio que o eixo em torno do qual “Thunderbolts*” gira é Yelena Belova (Florence Pugh, maravilhosa), a ‘Nova Viúva Negra’, introduzida no Universo Marvel em “Viúva Negra”, sendo irmã adotiva de Natasha Romannof, a Viúva Negra ‘original’, e amargurada desde a morte desta em “Ultimato” –Yelena assume, em “Thunderbolts*”, um protagonismo que Natasha jamais teve a chance de ter num filme dos Vingadores. Além dela, seu ‘pai’, Alexei Shostakov (David Harbour), o Guardião Vermelho, surge como o grande alívio cômico do filme, roubando com carisma inabalável, muitas das cenas em que aparece. Operando nas sombras, e agindo com a ambivalência moral que pouquíssimas vezes vimos em Natasha, Yelena vai finalmente deixando para trás o luto pela irmã, enquanto começa, pouco a pouco, a questionar as missões nebulosas designadas a ela por Valentina Allegra de Fontaine (Julia Loius-Dreyfus, perniciosa feito uma cobra!). Executiva de alto nível em Washington, e encarregada da C.I.A., Valentina enfrenta, no Senado, uma tentativa de impeachment capitaneada, entre outros, por Bucky Barnes (Sebastian Stan, cada vez mais sensacional), devido às atividades nada ortodoxas do Serviço de Inteligência durante a sua gestão. Para continuar no jogo do poder e evitar o impeachment, Valentina vale-se de Yelena para ‘queimar arquivos’ referentes às inúmeras experiências ilícitas que andou autorizando para criar toda uma nova geração de superhumanos a fim de substituírem os tão saudosos Vingadores.

É assim que Yelena termina numa base de operações científicas longínqua, encrustrada numa montanha, onde aparentemente deve dar cabo da Fantasma (Hannah John-Kamen), uma operativa com poder de intangibilidade cuja origem foi revelada em “Homem-Formiga e A Vespa”. No entanto, lá Yelena encontra também o Agente Americano, John Walker (Wyatt Russell), o ex-Capitão América mostrado na minissérie “Falcão e O Soldado Invernal”, enviado para neutralizá-la, além da Treinadora (Olga Kurilenko), também vista em “Viúva Negra” –e, após alguns atritos, todos chegam à conclusão de que foram para lá despachados a fim de se matarem, pois, como tudo o mais, eles são indícios vivos das travessura ilegais que Valentina tem autorizado por baixo dos panos, e devem ser, assim, eliminados. Junto deles, há também o misterioso Bob Reynolds (Lewis Pullman, filho do ator Bill Pullman) cuja atitude normal e amedrontada esconde o fato de que foi cobaia numa experiência que pode fazer dele um dos seres mais poderosos do Universo Marvel: O Sentinela.

Adentrar mais na trama de “Thunderbolts*”, que se desdobra para muito além disso, seria revelar spoilers que certamente comprometeriam a diversão –e fica, portanto, aquela orientação básica, usual à todo lançamento de um filme da Marvel Studios, de evitar a internet (e os spoilers) até que se tenha visto o filme!

Adornado de um clima sombrio e fatalista que poucos filmes da Marvel em geral chegaram a adotar –até porque, neste caso, isso reflete bastante as personalidades alquebradas e em constante conflito pessoal dos anti-heróis aqui reunidos –“Thunderbolts*” é dirigido e roteirizado com primordial atenção à essas facetas desiguais de seus personagens, levando em conta cada uma de suas motivações para a composição do arco de história que os fará uma equipe e os colocará, no clímax fabuloso, na improvável condição de heróis –e por mais que Yelena e Bucky possuam um respaldo de protagonismo muito maior na importância final, todos aqui têm seu momento.

É um consenso entre crítica e público que “Thunderbolts*” é um grande acerto da Marvel Studios, resta saber se eles seguirão conseguindo atender as difíceis exigências de seu público nos próximos projetos –e pelo menos um desses projetos ganha aqui um gancho narrativo e tanto na sua empolgante cena pós-créditos!

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Viúva Negra


 Com sua história ambientada entre “Capitão América-Guerra Civil” e “Vingadores-Guerra Infinita”, “Viúva Negra” terminou sendo realmente lançado após “Homem-Aranha Longe de Casa”, o que o torna circunstancialmente um filme anacrônico dentro da cronologia do Universo Marvel Cinematográfico –tendo, além disso, sido atrasado em um ano de seu lançamento em cinema por conta da pandemia.

Com essas condições desfavoráveis a lhe pesar, até é admirável que ele seja uma obra tão fluente, agradável e vívida, quando olhamos para além da muralha de críticas rabugentas que ele recebeu.

É um dos mais fracos filmes da Marvel Studios? Nem sob um decreto (esse demérito ainda pertence à “Thor-O Mundo Sombrio” e à “Vingadores-A Era de Ultron”), o seu grande problema é que a Marvel habituou o público a um crescendo notável de qualidade ao longo de seus bem-sucedidos filmes –e essa qualidade intensificou-se nos últimos lançamentos (“Pantera Negra” foi até indicado ao Oscar de Melhor Filme!). Manter esse patamar é, portanto, uma tarefa árdua e, se “Viúva Negra” não o cumpre com totalidade, ao menos, preserva dignidade o bastante para ombrear as excelentes obras mais recentes.

Seu lançamento padece de uma falta absoluta de timing? Com certeza –entre outras coisas, porque a Viúva Negra já deveria ter ganho seu próprio filme muitos anos antes (o produtor Kevin Feige só se convenceu a realizá-lo após forte insistência popular), e porque, diante da consciência do desfecho definitivo que a personagem ganha em “Vingadores-Ultimato”, muito da trama, dos perigos e do suspense no filme acabam perdendo sua razão de ser –afinal, já sabemos de antemão o que acontecerá com a heroína.

Logo após um prólogo que parece sugerir a origem da protagonista em sua infância –mas, que tão somente fornece a origem da dinâmica de ‘família disfuncional’ que une os personagens a rodear a protagonista nesta obra –surgem os créditos iniciais (coisa rara nos filmes da Marvel) ao som de uma versão de “Smell Like Teen Spirit” e, num salto temporal rumo à vida adulta da personagem principal, acompanhamos Natasha Romanoff fugindo das autoridades e das consequências de suas escolhas em “Guerra Civil”.Como a espiã indefectível que é, ela tenta se esconder de tudo e de todos.

Contudo, em seu esconderijo, ela encontra uma encomenda despachada por sua irmã, Yelena Belova (a fabulosa Florence Pugh), garotinha que havia aparecido naquele prólogo.

Como a própria Natasha, Yelena foi capturada para o Programa Sala Vermelha, que formava as Viúvas Negras quando ainda eram crianças, transformando-as em assassinas treinadas a serviço da União Soviética. O destino de Natasha, sabemos, a levou a integrar a S.H.I.E.L.D. e, mais tarde, os Vingadores; já o destino de Yelena, que o filme trata de revelar (de forma até mais abrangente do que os detalhes nebulosos da origem de Natasha), foi tornar-se, também ela, uma Viúva Negra, entretanto, diferente da irmã que teve a sorte de encontrar o Gavião Arqueiro pela frente (levando-a aos EUA e colocando-a num caminho de redenção), Yelena continuou prisioneira da Sala Vermelha e do manipulador líder do programa, o amoral Dreykov (Ray Winstone). É numa missão quase corriqueira que Yelena inala uma dose de gás experimental, um antídoto para o controle bioquímico que ela a as outras Viúvas Negras sofreram, e que as fazem letais para com seus alvos e subservientes para com seu líder.

De posse das poucas cápsulas desse antídoto, Yelena envolve Natasha em sua cruzada para descobrir a misteriosa localização da Sala Vermelha e libertar todas as Viúvas Negras. O que significa reencontrar também o ‘pai’ delas, Alexei, também conhecido como Guardião Vermelho, uma espécie de Capitão América Soviético (vivido com humor nem sempre apropriado por David Harbour), bem como sua ‘mãe’, Melina (Rachel Weisz, sempre elegante e sólida).

Embora se pretenda um filme de espionagem, com todas as suas missões, traições, reviravoltas e agentes duplos, “Viúva Negra” acaba sendo, na realidade, um filme de ação bem mais comum do que se pretende –a notória pouca disposição da Marvel Studios para ousar simplifica o desenvolvimento de sua trama, resultando ela num corre-corre desenfreado no qual as perseguições e sequências de ação surgem bem elaboradas, como era de se esperar. Ainda assim, “Víúva Negra”, na bem urgida cinematografia que emprega não chega a surpreender com sua narrativa (“Capitão América-Soldado Invernal” já fez isso antes), nem tampouco a inovar com o empoderamento de suas protagonistas femininas (a própria Marvel se antecipou a isso com “Capitã Marvel”) –tivesse sido realizado anos antes (quando lançar um filme de Natasha Romanoff ainda seria pertinente) talvez a Marvel Studios colhesse vários louros por sua realização (pois, Scarlet Johansson, realmente, se impõe com primor e circunspecção ao papel), da forma como está, “Viúva Negra” ainda entrete e agrada, mas sofre de algo que os projetos da Marvel Studios foram felizes em evitar: Irrelevância.

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Resgate


 Os Irmãos Russo começaram a colher os louros por terem realizado quatro dos melhores filmes da Marvel Studios –“CapitãoAmérica-O Soldado Invernal”, “Capitão América-Guerra Civil”, “Vingadores-Guerra Infinita” e “Vingadores-Ultimato” –quando tiveram aval para fazer esta outra adaptação de uma história em quadrinhos de sua própria co-autoria financiada pela Netflix, desta vez, uma trama sem super-heróis ou histórias fantasiosas e mirabolantes. Aqui eles entram como produtores e argumentistas, deixando a direção a cargo de Sam Hargrave cuja habilidade nas cenas de ação salta aos olhos.

John Wick” fez escola. E é numa vibração muito parecida que este filme urgente e bem realizado se desenvolve –num personagem com bastante similaridade, Chris Hemsworth surge um pouco mais truculento e menos estiloso do que Keanu Reeves, no entanto, igualmente carismático e supino no papel de Tyler, um protagonista sobre o qual pouco sabemos exceto que trata-se de um ‘extrator’: Alguém capaz de tirar uma pessoa sequestrada dos lugares mais inexpugnáveis.

Isso o torna o homem perfeito para encarar a missão de tirar o jovem Ovi Mahajan (Rudhraksh Jaiswal) de Dhaka, localizada em Bangladesh. Filho de um líder do tráfico de drogas, Ovi foi sequestrado por Amir Asif (Priyanshu Painyuli), gangster ávido por deixar o segundo lugar que ocupa como barão do crime e ascender ao topo. O garoto está confinado em algum lugar das intermináveis favelas da cidade que Amir Asif controla como se fosse seu jardim, e é de lá que Tyler precisa tirá-lo. Antes mesmo da missão ser posta em prática já sabemos de antemão que ela tem chances mínimas de ser bem-sucedida: Se por um lado os sequestradores dominam toda a cidade e caçam o extrator e seu protegido pelos mais improváveis esconderijos, por outro, o próprio contratante do protagonista (Randeep Hooda) já faz planos para traí-lo: Ele não dispõe do dinheiro para pagar a alta quantia que Tyler pede por seus serviços, assim, muito mais barato para ele (e seguro para sua família) é tentar mantar Tyler no instante em que tiver concluído sua incumbência –a entrega do garoto.

Entretanto, este filme leva ao extremo a máxima de que nada, absolutamente nada, sai como o planejado: De perseguições motorizadas em plenas ruas de favela –com direito a um dos planos-sequências mais brilhantes dos últimos anos –até tiroteios a céu aberto e confrontos físicos para além da mais vigorosa resistência humana, a invencibilidade do protagonista, bem como sua prodigiosa experiência é colocada à prova.

“Resgate” é a epítone dos filmes de ação como eles hoje são considerados: Construções narrativas, perfomáticas e técnicas em torno de um protagonista invencível amparadas, quase sempre no carisma de seu astro, na habilidade de seu diretor, no desempenho físico de seus dublês, e no realismo flagrante de seus efeitos visuais. Os realizadores dessa nova safra ainda têm o trunfo de encontrar, nas brechas eventuais dessas premissas, concebidas para ser puro frenesi em detrimento de trama e prosa, instantes onde depositam elementos que agregam algo a uma certa dramaturgia assim sugerida, ou até a uma mitologia em gestação –sim, porque apesar do apoteótico desfecho onde não sobra pedra sobre pedra, “Resgate” sabe (e quer) se encerrar deixando a plateia salivando por mais.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Guerra dos Mundos

Foi com a clássica obra literária de H.G. Wells –já adaptada numa produção antiga de Sci-Fi em 1953, por Byron Haskin, na famosíssima transmissão radiofônica de Orson Welles em 1938 e em outros trabalhos menos expressivos –que o diretor Steven Spielberg finalmente se prestou a realizar uma refilmagem; ainda que seu filme busque se afastar (sobretudo, na predominante opção da modernização) da maior parte das comparações com os filmes já realizados a partir do texto.
Retomando a colaboração com o astro Tom Cruise, que resultou no memorável “Minority Report-A Nova Lei”, e novamente adentrando o terreno da ficção científica, Spielberg constrói uma obra que estranhamente contraria tudo o que, dentro deste tema, ele havia feito antes: Se em “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” e em “E.T. O Extraterrestre”, os alienígenas de outro mundo ocupavam uma visível (e frequentemente simbólica) posição de afeto na consideração do diretor, aqui, ele cede ao antagonismo fácil e previsível de obras como “Independence Day” –que se inspirou profundamente na obra de Wells –e, mais especialmente, “Sinais” de M. Night Shyamalan.
E tal qual em “Sinais”, é do ponto de vista de uma família norte-americana comum (e disfuncional) que Spielberg opta por observar uma invasão alienígena ao planeta Terra.
Tom Cruise é Ray Ferrier, o relapso pai de família que deve cuidar de seus filhos durante o fim de semana, o adolescente Robbie (Justin Chatwin que foi o Goku na versão live-action de “Dragon Ball”) e Rachel (a então criança-prodígio de Hollywood, Dakota Fanning).
Quando ocorre a invasão –embevecida do trajeto sem igual de Spielberg ao lidar com espetaculares efeitos visuais –a inaptidão de Ray para cuidar dos próprios filhos é colocada à prova, na faceta em que melhor enxergamos as inquietações temáticas que mais definem Spielberg: O gesto quase involuntário de sempre introduzir em suas premissas um pai ausente dividido entre o amor aos filhos e a incompetência de sua paternidade.
Tudo o mais, estranhamente, vai na contramão do que o realizador habituou seu público a esperar dele: Uma falta de criatividade que assombra diversos momentos-chaves de sua narrativa (sobretudo, no que diz respeito à tentativa de deixar de lado o personagem de Justin Chatwin), o retrato nada lisonjeiro dos invasores alienígenas e a insistente perda da inocência de Rachel diante das atrocidades diretas e indiretas acarretadas pela invasão –e que se torna mais incômoda de ser acompanhada pela interpretação histérica de Dakota Fanning.
Pai e filhos, assim, singram as paisagens transfiguradas dos EUA a fim de encontrar refúgio junto da mãe das crianças (Miranda Otto, de “O Senhor dos Anéis-As Duas Torres”), divorciada de Ray e que se encontra em outra cidade longe do conflito.
A partir da segunda metade, surge no filme o paranóico personagem de Tim Robbins que parece tentar acrescentar mais tensão ao filme e converter sua narrativa em algo mais intimista e claustrofóbico, mas na final das contas, serve apenas para encher lingüiça mesmo, resultando desimportante.
Claro que as cenas de confronto com os alienígenas e os momentos em que vislumbramos o emprego de sua superior tecnologia bélica valem plenamente o espetáculo; Spielberg não poupa esforços para construir sequências memoráveis que parecem unir ao realismo de “O Resgate do Soldado Ryan” a incredulidade assombrosa da ficção científica –no entanto, apesar  dessa esmerada (e no fim das contas, belíssima) pirotecnia, também ali se vê uma falha: Na similaridade que o projeto de Spielberg acaba encontrando com “Sinais” –onde também vemos uma família tentando sobreviver a uma invasão alienígena ao planeta Terra –as suas inúmeras cenas grandiosas, vastas em efeitos computadorizados, perdem de longe para a poderosa e instigante sugestão de ameaças que não podemos ver, mas que se encontram bem próximas, existente na narrativa de Shyamalan.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

O Segredo de Brokeback Mountain

Um dos grandes trabalhos da carreira de Ang Lee, pelo qual ele conquistou seu primeiro Oscar de Melhor Diretor (o segundo viria por “As Aventuras de Pi”), este filme vinha, como era de se imaginar, embalado num tema controverso: O romance proibido entre dois homens.
O curioso é que o tratamento dado pelo diretor Lee conduzia a história como qualquer romance, ignorando o gênero dos protagonistas envolvidos: Uma forma austera e admirável de se abordar uma trama que poderia involuntariamente resvalar em várias posturas sócio-políticas.
O filme em si agradou público e crítica e a maior polêmica que o cercou envolvia mais os veículos de mídia que não lhe davam o devido enaltecimento, e os prêmios que lhe eram negados por um suposto preconceito (um deles, o Oscar de Melhor Filme).
A narrativa de Lee, que se estenderá pelo filme ao longo de décadas, começa nos anos 1960, ao apresentar, com minúcia exclusiva e detalhamento cuidadoso os dois cowboys que serão protagonistas do filme, Ennis Del Mar e Jack Twist (Heath Ledger e Jake Gyllenhaal, ambos de um brilhantismo interpretativo à toda prova).
E aí já tem-se a primeira manobra notável de sua premissa: Os personagens principais deste romance homossexual são também figuras emblemáticas de um gênero cuja postura e atitude é sempre relacionada à uma arraigada masculinidade tradicional: O western.
Ennis e Jack empregam-se para trabalhar como pastores de ovelhas durante uma temporada na montanha de Brokeback, para juntar dinheiro cada um movido por suas próprias razões.
Durante o longo período em que têm tão somente a companhia um do outro, os dois homens acostumados e criados num ambiente de rústica masculinidade apaixonam-se, contra tudo aquilo que lhes foi ensinado. E o tempo que Ang Lee dispõe para relatar o nascimento dessa ligação afetiva é uma das muitas escolhas brilhantes que passam despercebidas do expectador: Tão certeira, centrada e incisiva é sua direção e o tratamento com o qual aborda o roteiro que corremos o risco de achar que este grande trabalho foi feito com facilidade.
Ao voltarem da montanha, e de volta cada um para suas próprias vidas (Jack é peão de rodeio; Ennis, um pobre criador de gado) eles casam-se e têm filhos, sem jamais se esquecerem. Durante as décadas que virão, os dois buscarão momentos fugazes juntos na montanha Brokeback, único lugar onde podem expressar seu amor.
Tudo neste filme tematicamente ousado evita a panfletagem, ou o escândalo. Sereno, Ang Lee reveste o filme com uma percepção apurada de que todos os seres têm uma equivalente necessidade em querer ser feliz, e sobre inúmeros aspectos, esse é o norte para o qual apontam as motivações de seus personagens e de sua própria história. O preconceito, quando existe, é registrado como algo irrisório que pouco, no final das contas, importará.

Como em todos os seus magistrais trabalhos, Ang Lee, aqui, também volta seu olhar para aqueles que mais lhe interessam: Os personagens cuja inadequação para com as normas vigentes serve de empecilho para que se tornem aquilo que desejam ser, e em sua grandeza, por vezes, se resignam à miserável condição do drama humano.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Esquadrão Suicida

Como cinema comercial, “Esquadrão Suicida” se coloca num meio termo que instiga a indiferença. Não é ruim o suficiente para merecer a rejeição do público, mas está longe de ser aquela produção sensacional sugerida incessantemente na campanha de marketing.
Esse é o grande problema do diretor David Ayer: Não compreender o fato implícito de que o repertório de personagens reunidos por sua premissa pedia por um realizador que ressaltasse o sarcasmo e a ironia naturalmente embutida na situação.
Estes são, afinal, vilões tornados heróis pelas circunstâncias.
E a personagem a fazer todas essas engrenagens funcionarem é, também ela, a melhor coisa do filme: A tenaz, implacável e de certa forma imoral Amanda Waller, interpretada com necessária pronúncia pela extraordinária Viola Davis.
Partindo de um raciocínio até bastante lógico, ela deduz que as catástrofes ocorridas em função da existência de Superman (muitas delas concentradas no último filme, “Batman Vs Superman”) levam à necessidade de que o governo monte uma espécie de força-tarefa com os únicos super-poderosos que têm em mão, e que ironicamente vêem a ser criminosos condenados.
Dentre eles, alguns se destacam na narrativa.
É claro, desde os trailers, que a linda Margot Robbie seria uma Arlequina no mínimo, interessante, e em alguns momentos mais inspirados a atriz faz jus à essa expectativa, mas, notem bem, só em alguns...
Ótimo personagem é também o Pistoleiro (e uma chance cada vez mais rara para Will Smith mostrar seu talento e brilhar), que ganho um background bem mais elaborado que os outros personagens, justificando assim a escalação de um astro para interpretá-lo (ainda que esse plot seja um dos muitos recursos que santifica os supostos “vilões” tirando deles justamente a graça e o diferencial que poderiam ter).
Mas o banho de água fria mais perene talvez seja o Coringa de Jared Leto, que não apenas dá uma contribuição irrisória para a trama (é um mero coadjuvante de luxo, sem muita ligação com a trama principal), como também, no que diz respeito à sua aguardada atuação, fica na metade do caminho entre um registro gangster-psicopata como o de Jack Nicholson (em “Batman”, de Tim Burton) e os trejeitos e elementos icônicos (e de exatidão irrestrita) de Heath Ledger, em “Batman-Cavaleiro das Trevas”.
Não é um personagem absolutamente fora do tom como o Lex Luthor de Jesse Einsenberg, mas Leto, normalmente tão certeiro e talentoso, não corresponde à tudo que se espera dele. Contudo, isso pode nem ser culpa dele: Da forma como está disposto no roteiro, o Coringa era um personagem impertinente, que nem precisa ser acrescentado. Ele pode surpreender ainda, no vindouro filme do Batman.
O Esquadrão Suicida, propriamente dito, que dá nome ao filme (composto também por El Diablo, Killer Croc e Katana) é cooptado em campo de batalha pelo tenente Rick Flag (Joel Kinnaman, o “Robocop” de José Padilha), cuja missão é tentar fazer com que seus integrantes andem na linha e cumpram a missão de salvar o mundo.
Tudo é muito bem produzido, e envolto por cenas espetaculares de ação que não deixam o ritmo cair. Mas, tudo é também um bocado formulaico, desprovido de algo que lhe dê um lampejo próprio de originalidade. Lembra muito “X-Men-Apocalypse”, lançado este ano, e que também resumia-se rapidamente à uma situação genérica de “heróis lutando contra vilões”.
Não há aquele deboche delicioso que caracteriza, e distingue os anti-heróis, e que norteava tão bem a narrativa de “Deadpool”. Não há o senso de humor ácido nem a percepção profundo de espetáculo pop de “Guardiões da Galáxia”, com o qual este filme parecia forçar uma similaridade.
No final das contas, “Esquadrão Suicida”, realizado por um estúdio que ainda está aprendendo e tateando a melhor forma de moldar uma adaptação dos quadrinhos, é um filme muito mais simples do que dá a entender.

Encará-lo dessa maneira é o melhor meio para se divertir durante suas duas horas e meia.