Mostrando postagens com marcador David Ayer. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador David Ayer. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Corações de Ferro


Quase não existem regras (ou seria melhor dizer clichês) que a realização de David Ayer (de “Esquadrão Suicida”) não segue dentro dos cânones dos filmes de guerra ambientados na Segunda Guerra Mundial.
Prova mais contundente de que o estilo de Ayer como diretor não exatamente prima pela forma sobre o conteúdo, mas pela caracterização antes da profundidade, “Corações de Ferro” parece preocupar-se mais com o figurino impecavelmente realista, com a direção de arte meticulosa (em meio à qual o tanque é o exemplo mais formidável) e com todas as caprichadas facetas técnicas e visuais do que propriamente com a coerência do que está sendo contado.
Fury é o nome do tanque de guerra capitaneado com mão de ferro pelo exigente e rude Sargento ‘Wardaddy’ Colliers (Brad Pitt, bastante à vontade num personagem autoritário e solene). Embora seja retratado durante a maior parte do tempo como alguém severo, Colliers é quem mantem sua equipe unida e segura ao longo de todas as incertezas da guerra.
Quando um de seus condutores morre, um novo membro se integra à já veterana equipe, o idealista e ingênuo Norman (o jovem Logan Lerman).
De imediato, a equipe –formada pelo crédulo Boyd (Shia LaBeouf, tentando e falhando como sempre), Grady (Jon Bernthal, uma boa presença) e Gordo (o ótimo Michael Peña), todos brutalizados pelo combate –rejeita seus modos civilizados e seu discurso de ética em meio à guerra.
As circunstâncias da guerra –ou melhor dizendo as circunstâncias de todo o filme hollywoodiano de guerra –irão modificar essas impressões: Colliers mostrará, na aridez do campo de batalha, que tem um coração; Norman descobrirá sua própria capacidade de matar (e com ela sua coragem); os outros soldados revelarão que são capazes de ser bons e leais amigos; e todos formarão uma espécie de família (ainda que esses laços padeçam de profundidade), cuja unidade será posta severamente à prova no desfecho.
Se há uma obra que parece orientar “Corações de Ferro” num nível mais onipresente do que se poderia esperar, é “O Resgate doSoldado Ryan”: Da pirotecnia empregada sem modéstia por David Ayer, ao estilo despojado de sua encenação, na estrutura de sua própria trama e até na proposta do filme como um todo, tudo remete ao trabalho de Spielberg que foi tão transgressor no fim dos anos 1990 quando foi lançado.
Da mesma forma. a premissa parece aproveitar um bocado a idéia central de um notável cult dos anos 1980, "A Fera da Guerra", de Kevin Reynolds, também ele quase todo ambientado dentro da tensão claustrofóbica de um tanque de guerra.
Alguém podia, no entanto, avisar David Ayer que muita gente conhece tais filmes: Gente o suficiente para perceber o quanto o trabalho dele acaba indo muito além da mera homenagem ou referência.
Da forma como é concebido, “Corações de Ferro” é tecnicamente bem feito o bastante para satisfazer plenamente àqueles expectadores que gostam de um filme de guerra que prima pela ação, sem importar-se tanto com a trama ou os personagens.
Quem esperar um capricho autoral que defina melhor a construção das cenas ou o rumo das atuações, ou mesmo um trabalho onde se possa identificar um esforço original de fato e não um arremedo de tudo que já foi feito antes, poderá acabar tendo que exercitar a paciência.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Esquadrão Suicida

Como cinema comercial, “Esquadrão Suicida” se coloca num meio termo que instiga a indiferença. Não é ruim o suficiente para merecer a rejeição do público, mas está longe de ser aquela produção sensacional sugerida incessantemente na campanha de marketing.
Esse é o grande problema do diretor David Ayer: Não compreender o fato implícito de que o repertório de personagens reunidos por sua premissa pedia por um realizador que ressaltasse o sarcasmo e a ironia naturalmente embutida na situação.
Estes são, afinal, vilões tornados heróis pelas circunstâncias.
E a personagem a fazer todas essas engrenagens funcionarem é, também ela, a melhor coisa do filme: A tenaz, implacável e de certa forma imoral Amanda Waller, interpretada com necessária pronúncia pela extraordinária Viola Davis.
Partindo de um raciocínio até bastante lógico, ela deduz que as catástrofes ocorridas em função da existência de Superman (muitas delas concentradas no último filme, “Batman Vs Superman”) levam à necessidade de que o governo monte uma espécie de força-tarefa com os únicos super-poderosos que têm em mão, e que ironicamente vêem a ser criminosos condenados.
Dentre eles, alguns se destacam na narrativa.
É claro, desde os trailers, que a linda Margot Robbie seria uma Arlequina no mínimo, interessante, e em alguns momentos mais inspirados a atriz faz jus à essa expectativa, mas, notem bem, só em alguns...
Ótimo personagem é também o Pistoleiro (e uma chance cada vez mais rara para Will Smith mostrar seu talento e brilhar), que ganho um background bem mais elaborado que os outros personagens, justificando assim a escalação de um astro para interpretá-lo (ainda que esse plot seja um dos muitos recursos que santifica os supostos “vilões” tirando deles justamente a graça e o diferencial que poderiam ter).
Mas o banho de água fria mais perene talvez seja o Coringa de Jared Leto, que não apenas dá uma contribuição irrisória para a trama (é um mero coadjuvante de luxo, sem muita ligação com a trama principal), como também, no que diz respeito à sua aguardada atuação, fica na metade do caminho entre um registro gangster-psicopata como o de Jack Nicholson (em “Batman”, de Tim Burton) e os trejeitos e elementos icônicos (e de exatidão irrestrita) de Heath Ledger, em “Batman-Cavaleiro das Trevas”.
Não é um personagem absolutamente fora do tom como o Lex Luthor de Jesse Einsenberg, mas Leto, normalmente tão certeiro e talentoso, não corresponde à tudo que se espera dele. Contudo, isso pode nem ser culpa dele: Da forma como está disposto no roteiro, o Coringa era um personagem impertinente, que nem precisa ser acrescentado. Ele pode surpreender ainda, no vindouro filme do Batman.
O Esquadrão Suicida, propriamente dito, que dá nome ao filme (composto também por El Diablo, Killer Croc e Katana) é cooptado em campo de batalha pelo tenente Rick Flag (Joel Kinnaman, o “Robocop” de José Padilha), cuja missão é tentar fazer com que seus integrantes andem na linha e cumpram a missão de salvar o mundo.
Tudo é muito bem produzido, e envolto por cenas espetaculares de ação que não deixam o ritmo cair. Mas, tudo é também um bocado formulaico, desprovido de algo que lhe dê um lampejo próprio de originalidade. Lembra muito “X-Men-Apocalypse”, lançado este ano, e que também resumia-se rapidamente à uma situação genérica de “heróis lutando contra vilões”.
Não há aquele deboche delicioso que caracteriza, e distingue os anti-heróis, e que norteava tão bem a narrativa de “Deadpool”. Não há o senso de humor ácido nem a percepção profundo de espetáculo pop de “Guardiões da Galáxia”, com o qual este filme parecia forçar uma similaridade.
No final das contas, “Esquadrão Suicida”, realizado por um estúdio que ainda está aprendendo e tateando a melhor forma de moldar uma adaptação dos quadrinhos, é um filme muito mais simples do que dá a entender.

Encará-lo dessa maneira é o melhor meio para se divertir durante suas duas horas e meia.