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quarta-feira, 17 de junho de 2026

A História de Um Casamento


 Talvez o ápice do refinamento do cinema de Noah Baumbach, no qual os sentimentos e as relações ganham sempre uma avaliação plena de honestidade e atenção às minúcias improváveis da vida, “A História de Um Casamento” – ou “Marriage Story” – é uma obra que habilmente oscila entre o humor e o drama, alternando esses gêneros distintos com uma serenidade e uma fluidez que chegam a impressionar.

Quando a trama começa, vemos os dois protagonistas, Charlie e Nicole (Adam Driver e Scarlet Johansson, ambos estupendos), afirmando o que cada um ama no outro. Charlie e Nicole constituem um casal, mas não por muito tempo; Nicole entrou com um pedido de divórcio.

No entanto, como o filme brilhantemente reflexivo de Baumbach vai deixar bem claro, as coisas são infinitamente mais complicadas – não é que falte amor, ou mesmo respeito no casamento dos dois: Há uma falta de compatibilidade, uma ausência de diálogo, uma doação unilateral que sufoca Nicole, e ela já não suporta mais.

Ainda assim, apesar de um ou outro contratempo, oriundo do fato razoável de que nenhum dos dois está muito pronto para lidar com a situação, ambos concordam que tudo – inclusive a guarda compartilhada de seu amado filho Henry (Azhy Robertson) – pode ser resolvido sem a intervenção de advogados.

Charlie é um dramaturgo e diretor teatral em Nova York; Nicole é uma atriz – foi assim que se conheceram (durante a montagem de uma peça do próprio Charlie). Nicole, porém, é de Los Angeles, onde mora toda sua família, a mãe (Juie Hagerty, de “Apertem Os Cintos, O Piloto Sumiu!”, hilária em suas aparições) e a irmã (Merritt Wever, de “Sinais”), e para onde, durante todo o período em que estiveram juntos, ela sempre tentou convencer Charlie a se mudar.

Com a separação, Nicole agora almeja uma promissora vaga num filme-piloto para TV em Los Angeles que, se for aprovado, pode tornar-se uma série, o que a levaria a se mudar definitivamente para a Costa Oeste, junto com Henry. É justamente ao longo desse processo que ela recebe a sugestão de uma conhecida para que, apesar do que combinaram, ela contrate de fato um advogado a fim de mediar o divórcio, e assim entra na história, provocando um inesperado turbilhão, a advogada especialista em divórcio Nora Fanshaw (Laura Dern, sensacional, vencedora do Oscar 2020 de Melhor Atriz Coadjuvante).

Arremessados para dentro das engrenagens jurídicas – e de todo o viés de antagonismo que acompanham esses processos – Charlie e Nicole passam por estágios de ressentimento, de profunda transformação das próprias perspectivas financeiras (o dinheiro que poderiam guardar para a faculdade do filho é ironicamente investido nos honorários dos advogados que atuam para brigar pela guarda justamente de seu filho!), de idas e vindas, de atritos e de reconciliações, tudo na ânsia de chegar a um entendimento que a vida insiste em não concretizar.

Nada mais, o filme deixa claro, será como antes.

Charlie, tão avesso à ensolarada e superficial Los Angeles, agora tem de atravessar o país a fim de ter seus momentos com o filho, e de, não raro, sair atrás de advogados que lhe representem. Dois deles se destacam: O veterano, resignado e desenvolto Bert Spitz (o divertidíssimo Alan Alda), e o tubarão implacável, histriônico e, no fim das contas, hilariante, Jay Marotta (o saudoso Ray Liotta).

Divertido, tocante, dono de um sem fim de cenas maravilhosas (minhas preferidas, entre outras, são a engraçadíssima sequência da visita de uma avaliadora, vivida por Martha Kelly, ao apartamento de Charlie em Los Angeles; e o momento inebriante, já quase perto do fim, em que ele canta “Being Alive” num bar de karaokê em Nova York), “Marriage Story” é, como era de se imaginar, baseado na história do próprio Noah Baumbach e de seu casamento com a atriz Jennifer Jason Leight. De fato, trata-se de um trabalho verdadeiro demais para ser uma mera invenção – a traição dele brevemente mencionada numa passagem, ocorreu com a também atriz Greta Gerwig, com quem mais tarde ele acabou casando. A expiação dessas mazelas íntimas terminou rendendo uma das melhores e mais sensíveis obras a tratar do colapso de uma relação a dois em choque com diferentes realidades profissionais, financeiras e pessoais.

domingo, 3 de maio de 2020

Frances Ha

Hoje uma festejada diretora de obras concorrentes ao Oscar (“Lady Bird” e “Adoráveis Mulheres”), a atriz Greta Gerwig também chegou a ser festejada –contudo, em nichos mais alternativos –por seus desempenhos à frente das câmeras.
E certamente o maior de todos os responsáveis por isso é seu papel em “Frances Ha”.
Dirigido pelo seu marido Noah Baumbach (cujo estilo de direção se assemelha muito ao dela), “Frances Ha” acompanha, com uma evocativa fotografia em preto & branco, os percalços de desilusão da bailarina Frances, uma jovem vinda de Sacramento para tentar a sorte em meio a uma apática Nova York moderna.
Frances é uma espécie de Julietta Massina, e como a personagem dela em “Noites de Cabíria”, sua alegria para com a vida e seu otimismo esperançoso parecem não ter fim, nem noção.
Entretanto, como o próprio Fellini em “Cabíria”, Baumbach tratará de mover os fios narrativos que tecem a delicada trajetória de Frances para submeter o espírito otimista de sua protagonista a uma formidável provação.
A melhor amiga dela é Sophie (Mickey Summer, de “Feito Na América”), com quem Frances divide o apartamento. Com ela, Sophie tem uma relação que os primeiros minutos de filme fazem soar perfeita: Uma sintonia desigual, um ombro amigo para todas as horas, uma pessoa que conhece e compreende seus pensamentos antes mesmo de verbalizá-los.
No entanto, Sophie passará a morar com o namorado –gesto que a própria Frances recusou-se a fazer para não deixar a amiga sozinha! –e eis que Frances não tem lugar nesses planos. Ela é hospedada por dois amigos (Adam Driver e Michael Zegen) que lhe dão pouso provisório até conseguir algum lugar que suas finanças cada vez mais precárias possam bancar.
Mas, o que Frances parece não notar é que isso tudo é o prenúncio de uma avalanche de infortúnios: A companhia de dança na qual é ferrenha substituta nunca a tira do banho-maria para dar-lhe a chance no grupo principal; o dinheiro encarece dia a dia sem que apareça algo promissor no horizonte; e as tentativas de suprir em outras pessoas a dolorosa lacuna deixada por Sophie a fazem parecer inconveniente e irritante.
Não é: Frances é uma montanha de carisma e ternura graças à inspirada composição de Greta Gerwig. E quanto mais apaixonante ela é, tão mais aflitivo fica acompanhar suas desventuras: Num dado momento, sentindo-se vencida pela vida, Frances resolve pegar o dinheiro que lhe restava e dar um basta, indo passar um fim de semana em Paris (!).
Contudo, ao calcular destrambelhadamente o horário, ela toma um sonífero que a deixa dormindo durante todo o período que deveria usar para aproveitar a cidade-luz.
O diretor sistematicamente a devolve à Nova York, à cidade na qual tenta pertencer, mas que parece esmagá-la tentando livrar-se dela.
A grande sacada em Frances é, contudo, a luz que ela irradia, e sua incapacidade algo ingênua de não dar-se por vencida –e se Baumbach, em seu roteiro escrito em colaboração com a própria Greta Gerwig, enfileira aborrecimentos e desolações à confrontá-la, é só para registrar, em meio à essas idas e vindas, a capacidade honesta, encantadora e primordial que ela tem para acreditar num amanhã melhor. Que talvez nunca chegue...
“Frances Ha” é sobre isso, sobre a vida que vivemos em contrapartida àquela que queríamos viver; sobre as expectativas que depositamos em amizades que vão se transformando com o tempo (os encontros e reencontros subsequentes com Sophie vão dando um aperto no coração); e sobre as reflexões que cada nova geração tem de fazer diante dos esforços individuais para conquistar um lugarzinho ao sol.
Ilustrando com brilhantismo as similaridades nem sempre evidentes entre a nouvelle vague francesa e o estilo cômico e agridoce do Woody Allen dos anos 1970, o filme de Baumbach é cheio de momentos de doçura inquestionável (todos à cargo de sua maravilhosa protagonista) e captura os anseios de toda uma geração atraída pela cultura e pela efervescência da metrópole rumo à uma vida adulta, materializando-os numa das mais sensacionais personagens surgidas no início da década de 2010.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Indicados Ao Oscar 2020

E está dada a largada ao que ainda é considerado o grande prêmio do cinema:

Melhor Filme
1917
Adoráveis Mulheres
Coringa
Era Uma Vez em... Hollywood
Ford vs Ferrari
História de Um Casamento
O Irlandês
Jojo Rabbit
Parasita

“Coringa” lidera o número de indicações, com 11, seguido por “Era Uma Vez em... Hollywood” e “O Irlandês”, com 10 cada, contudo, há tempos que o número de indicações não quer dizer favoritismo na premiação –colocando as demais premiações em perspectiva, muito se aposta na obra de Quentin Tarantino que parece usufruir de fatores muito favoráveis junto ao prêmio.
E que felicidade é ver “Parasita” gozando de tantas honrarias!

Melhor Atriz
Scarlet Johansson – História de Um Casamento
Renée Zellweger – Judy-Muito Além do Arco-Íris
Charlize Theron – O Escândalo
Saoirse Ronan – Adoráveis Mulheres
Cynthia Erivo – Harriet

Melhor Ator
Joaquin Phoenix – Coringa
Adam Driver – História de Um Casamento
Antonio Banderas – Dor e Glória
Jonathan Pryce – Dois Papas
Leonardo DiCaprio – Era Uma Vez em... Hollywood

Os favoritos: Renée Zellweger e Joaquin Phoenix, sem discussão!
Quem pode ameçar a supremacia de cada um deles é, respectivamente, Charlize Theron e Adam Driver.
A inclusão de Antonio Banderas entre os melhores atores é certamente uma daquelas alegrias que vez ou outra o Oscar nos proporciona; pena elas não serem mais frequentes...

Melhor Atriz Coadjuvante
Laura Dern – História de Um Casamento
Margot Robbie – O Escândalo
Scarlett Johansson – Jojo Rabbit
Florence Pugh – Adoráveis Mulheres
Kathy Bates – Richard Jewell

Melhor Ator Coadjuvante
Brad Pitt – Era Uma Vez em... Hollywood
Anthony Hopkins – Dois Papas
Tom Hanks – Um Lindo Dia na Vizinhança
Al Pacino – O Irlandês
Joe Pesci – O Irlandês

Antes de falar sobre os possíveis ganhadores, deixem-me expressar minha felicidade pela dupla indicação de Scarlett Johansson, na categoria principal (por “História de Um Casamento”) e na de coadjuvante pelo belo trabalho de Taika Waikiki; demorou para que a Academia reconhecesse seu já comprovado talento, acima da linda mulher (e símbolo sexual) que ela é, mas quando o fez, foi com pompa e circunstância!
Como no Globo de Ouro, as presenças de Al Pacino e Joe Pesci (com destaque para o segundo) parecem ameaçar tremendamente o favoritismo de Brad Pitt que vem (merecidamente) se consolidando ao longo da temporada. Eu prefiro (inclusive em outras categorias!) infinitamente mais a homenagem esperta e camarada de Tarantino à Hollywood do que o estudo sobre o tempo, o envelhecimento e a resiliência conduzido por Scorsese. Entre as atrizes coadjuvantes, a bela surpresa na inclusão de Kathy Bates, Margot Robbie e Florence Pugh não tira a liderança nas apostas de Laura Dern, vencedora em praticamente todos os prêmios que disputou até agora –este parece ser o ano da musa de David Lynch!

Melhor Diretor
Martin Scorsese – O Irlandês
Quentin Tarantino – Era Uma Vez em... Hollywood
Sam Mendes – 1917
Bong Joon Ho – Parasita
Todd Phillips – Coringa

Melhor Roteiro Original
História de Um Casamento – Noah Baumbach
Era Uma Vez em... Hollywood – Quentin Tarantino
Parasita – Bong Joon Ho, Han Jin Won (História por Bon Joon Ho)
Entre Facas e Segredos – Rian Johnson
1917 – Sam Mendes e Krysty Wilson-Cairns

Melhor Roteiro Adaptado
Jojo Rabbit – Taika Waititi
O Irlandês – Steven Zaillian
Dois Papas – Anthony McCarten
Coringa – Todd Phillips e Scott Silver
Adoráveis Mulheres – Greta Gerwig

Um prazer ver Bong Joon-Ho e seu “Parasita” em tantas categorias, é bem provável que todas essas indicações se concretizem no único prêmio de Filme Estrangeiro, mas já está bom demais!
Com Scorsese perdendo terreno na temporada de prêmios, é de se imaginar o Oscar de Melhor Diretor ficando mesmo entre Sam Mendes (até então o favorito) e Quentin Tarantino, que deve mesmo prevalecer na categoria de Roteiro Original.
Já, entre os roteiros adaptados, “O irlandês” deve competir direto com a delicadeza e qualidade de “Adoráveis Mulheres” –e com o imenso apreço que a Academia parece nutrir pelas obras de Greta Gerwig –e com a larga aceitação de púlbico e crítica de “Coringa”, fatores que podem influenciar numa categoria sem tantos favoritos como esta.

Melhor Figurino
Jojo Rabbit
Era Uma Vez em... Hollywood
O Irlandês
Coringa
Adoráveis Mulheres

Melhor Maquiagem & Cabelo
O Escândalo
Coringa
Judy-Muito Além do Arco-Íris
Malévola-Dona do Mal
1917

Melhor Direção de Arte
Era Uma Vez em... Hollywood
1917
Jojo Rabbit
O Irlandês
Parasita

Melhor Trilha Sonora Original
Coringa
Adoráveis Mulheres
História de um Casamento
1917
Star Wars-A Ascensão Skywalker

Melhor Canção Original
“I’m Standing With You” de Superação-O Milagre da Fé
“Into the Unknown” de Frozen 2
“Stand Up” de Harriet
“(I’m Gonna) Love Me Again” de Rocketman
“I Can’t Let You Throw Yourself Away” de Toy Story 4

Melhor Fotografia
1917
Coringa
O Irlandês
O Farol
Era Uma Vez em... Hollywood

Melhor Montagem
O Irlandês
Ford vs Ferrari
Coringa
Jojo Rabbit
Parasita

Melhor Edição de Som
1917
Coringa
Ford vs Ferrari
Star Wars-A Ascensão Skywalker
Era Uma Vez em... Hollywood

Melhor Mixagem de Som
Coringa
Ad Astra
1917
Ford vs Ferrari
Era Uma Vez em... Hollywood

Melhores Efeitos Visuais
Vingadores-Ultimato
O Irlandês
O Rei Leão
1917
Star Wars-A Ascensão Skywalker

De modo geral, as categorias técnicas têm, em “1917”, seu grande favorito –até mesmo em efeitos visuais, onde se destaca o fenômeno “Vingadores-Ultimato”.
Entre surpresas de última hora (“Ad Astra” em Mixagem de Som e “O Farol” em Fotografia) e esnobadas intrigantes (sobretudo, a ausência de “Era Uma Vez em... Hollywood” em Melhor Montagem, vaga que provavelmente ficou com “Ford vs Ferrari”), temos “Rocketman”, cujo favoritismo em Melhor Canção Original terá de compensar seu esquecimento em praticamente todas as outras categorias.

Melhor Documentário
Democracia em Vertigem
American Factory
The Cave
For Sama
Honeyland

Melhor Animação
Toy Story 4
I Lost My Body
Link Perdido
Como Treinar Seu Dragão 3
Klaus

Melhor Filme Estrangeiro
Honeyland – Macedônia
Corpus Christi – Polônia
Parasita – Coreia do Sul
Les Misérables – França
Dor e Glória – Espanha

Como é até habitual, a Academia reconhece o valor do cinema brasileiro com mais frequência entre os documentários –e este ano, é “Democracia em Vertigem” que ganha a honraria –entre as animações, a grande surpresa foi a ausência de “Frozen 2”, que restrige ao peso-pesado “Toy Story 4” a tarefa de superar a súbita preferência nas premiações conquistada (sem muito mérito) por “Link Perdido” e (com largo merecimento) por “Klaus”.
Já, o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro já tem dono, embora seja sempre bacana ver uma obra de Pedro Almodovar reiterar a relevância do diretor espanhol: Será o absurdo dos absurdos se a Academia negar esse Oscar ao sul-coreano “Parasita”.

Melhor Curta Animado
Dcera (Daughter)
Hair Love
Kitbull
Memorable
Sister

Melhor Curta em Documentário
In the Absence
Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl)
A Vida em Mim
St. Louis Superman
Walk Run Cha-Cha

Melhor Curta em Live-Action
Brotherhood
Nefta Football Club
The Neighbors’ Window
Saria
A Sister

A confirmação dos favoritos ou a invalidação das maiores apostas se dará no dia 9 de fevereiro, na 92ª Cerimônia do Oscar, a ser realizada no Teatro Dolby, em Los Angeles.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Star Wars - Episódio 9 - A Ascensão Skywalker

Existe uma diferença estrutural na forma com que cada uma das três trilogias que agora integram a “Saga Star Wars” foi concebida: A primeira, e tida por unanimidade pelos fãs como a melhor, embora tenha saído da mente do criador George Lucas, foi executada por três diretores diferentes –o primeiro (“Uma Nova Esperança”), pelo próprio Lucas; o segundo (“O Império Contra-Ataca”) por Irvin Kershner; e o terceiro (“O Retorno de Jedi”) por Richard Marquand –a trilogia prólogo, por sua vez, foi inteiramente escrita e dirigida por George Lucas, então numa fase da vida e da carreira em que, do alto de sua fortuna pessoal e da aclamação mundial de “Star Wars” dentro da cultura pop, podia dar-se ao luxo de fazer o que bem entendesse –daí esses três filmes (“A Ameaça Fantasma”; “O Ataque dos Clones” e “A Vingança dos Sith”) resultarem tão artisticamente canibais para com o próprio conceito da saga.
Assim, quando George Lucas vendeu sua propriedade intelectual (a Lucasfilm) para a Disney, iniciou-se uma nova trilogia com o empolgante episódio VII dirigido por J.J. Abrahams (“O Despertar da Força”) e o controverso, ainda que excelente, filme seguinte de autoria de Rian Johnson (“Os Últimos Jedi”). O que nos leva a este “A Ascensão Skywalker” no qual, pela primeira vez na saga, um diretor, J.J. Abrahams, regressa para capitanear um episódio sem ser o criador da saga em pessoa.
E não um episódio qualquer: “A Ascensão Skywalker” toma para si uma série de duras responsabilidades; quer encerrar toda trama iniciada nos primeiros filmes (hoje, clássicos); quer também dar um desfecho satisfatório (e, se possível, vibrante) para os novos personagens introduzidos a partir do episódio VII; e ainda por cima, ao longo da sucessão de eventos desta trama, contornar as decisões polêmicas tomadas no episódio anterior que terminaram por revelar o lado negro (terrivelmente imaturo e intolerante) de seus fãs.
O filme começa com a informação, já difundida nos trailers, de que o perverso Imperador Cheev Palpatine (Ian McDiarmid) de alguma maneira não morreu, ao contrário do que se supunha no final de “O Retorno de Jedi”.
Isso leva o lado do bem, a Resistência, e o lado do mal, a Primeira Ordem, a uma corrida para ver quem o encontra primeiro; a Resistência, para neutralizá-lo de uma vez por todas –tarefa que a Jedi em treinamento, Rey (Daisy Ridley, a formidável protagonista desta nova trilogia), tem dúvidas se possui poder o bastante para fazê-lo –e a Primeira Ordem, comandada agora por Kylo Ren (o excelente Adam Driver), para consolidar-se em definitivo como o Império do Mal que sempre foi, visto que tudo o que transcorreu até então teria assim sido um plano de Palpatine desde o começo; o que leva todos os personagens e as motivações que os impulsionam à fatídica Ordem Final que encerrará essa ‘guerra nas estrelas’ de uma vez por todas.
É sabido –até por ele próprio! –que J.J. Abrahams é um autor muito bom em iniciar histórias de modo promissor, mas não em terminá-las (como corroboram suas séries “Felicity”, “Alias-Codinome Perigo”, “Lost” e “Person Of Interess”) e isso fica evidente nas incertezas de sua narrativa, tão convicta, vigorosa e enxuta em “O Despertar da Força”, mas aqui mostrando-se pela primeira vez hesitante e insegura.
Certamente não foi uma tarefa simples esta da qual ele se incumbiu e, guardadas as vastas proporções da produção, o escopo megalomaníaco do roteiro e a complexidade nas diversas linhas narrativas, ele conseguiu entregar um trabalho maravilhoso, coerente até mesmo no aproveitamento da personagem Léia, de Carrie Fisher, que morreu muito antes do início desta produção, e que aparece em cena graças à várias cenas descartadas, reaproveitadas dos dois filmes anteriores. Contudo, os fãs (sempre exigentes), os críticos e os detratores irão dizer que, dentre os três capítulos desta nova trilogia, “A Ascensão Skywalker” é o mais fraco.
E eles têm um prato cheio em mãos: Dirão que o roteiro é pedante ao contrariar diversos fatos de “Os Últimos Jedi” apenas para agradar a audiência, que a introdução de Palpatine na premissa é descabida e pouquíssimo convincente servindo só para suprir a ausência de um antagonista realmente bom.
Mas, a verdade é que, na qualidade de encerramento oficial de uma saga que praticamente definiu o cinema comercial moderno, não havia nada que pudesse corresponder a toda a expectativa que assolou “A Ascensão Skywalker”. As multidões que certamente abarrotarão as salas de cinema, gostem do trabalho de J.J. Abrahams ou não, se encontram numa situação em que esperam algo mais que um simples filme.
E um filme é tudo que irão receber.
Um filme grandioso, frenético, emocionante, repleto de momentos espetaculares e, por que não, mágicos, mas, no fim das contas, só um filme.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Os Indicados Ao Globo de Ouro 2020

Nem bem a CCXP acabou e eis que a Imprensa Estrangeira divulgou hoje os indicados ao Globo de Ouro. Segue a lista:

MELHOR FILME: DRAMA
1917
O Irlandês
Coringa
História de Um Casamento
Dois Papas

MELHOR FILME: MUSICAL OU COMÉDIA
Meu Nome É Dolemite
Jojo Rabbit
Entre Facas e Segredos
Rocketman

Curiosa e até irônica a inclusão da nova obra de Quentin Tarantino entre as comédias; mas, “Era Uma Vez... Em Hollywood” está disputando com títulos elogiadíssimos, em especial, “Meu Nome É Dolemite” e “Jojo Rabbit”, todos exigindo respeito e reconhecimento.
Na categoria drama as coisas estão ainda mais acirradas: Se “O Irlandês” e “Coringa” chegam com a força do sucesso simultâneo de público e crítica, tanto o épico de guerra “1917” quanto “História de Um Casamento”, em seus recentes lançamentos, demonstraram vigor suficiente para atingirem status de favoritos!
Como no ano passado, uma predominância de títulos oriundos de streaming se percebe entre as obras exclusivamente cinematográficas: “O Irlandês”, “História de Um Casamento”, "Dois Papas" e “Meu Nome É Dolemite” são da NetFlix.

MELHOR DIRETOR
Bong Joon-HoParasita
Sam Mendes1917
Todd Phillips, Coringa
Martin ScorseseO Irlandês
Quentin Tarantino, Era Uma Vez… Em Hollywood

Uma maravilha poder testemunhar o reconhecimento sem precedentes ao cinema sul-coreano até então. Está certo que o magistral “Parasita” pode acabar ficando só nas indicações –afinal, ele concorre com a técnica impecável e implacável de Sam Mendes (que alguns estão comparando com o virtuosismo já lendário de “O Resgate do Soldado Ryan”); com a aclamada realização de Todd Philips (a quem o Globo de Ouro já premiou em 2009 por “Se Beber Não Case”); e os trabalhos maiúsculos dos gênios Martin Scorsese e Tarantino –mas é um deleite ver o nome de Bong Joon-Ho (de obras como “O Expresso do Amanhã” e “O Hospedeiro”) ao lado de medalhões do cinema hollywoodiano.

MELHOR ATRIZ EM FILME: DRAMA
Cynthia ErivoHarriet
Scarlett JohanssonHistória de Um Casamento
Saoirse RonanAdoráveis Mulheres
Charlize TheronO Escândalo
Renée ZellwegerJudy

MELHOR ATOR EM FILME: DRAMA
Christian Bale, Ford vs. Ferrari
Antonio BanderasDor & Glória
Adam DriverHistória de Um Casamento
Joaquin PhoenixCoringa
Jonathan PryceDois Papas

Os intérpretes de drama surgem com alguns favoritismos aparentes: Entre as atrizes, o trabalho que goza, por ora, de maior aclamação junto à crítica é o de Renée Zellweger, onde ela traz Judy Garland à vida, mas há de se lembrar de Scarlett Johansson, uma atriz sempre capaz, talentosa e relevante, dona de poucas indicações ao longo de sua carreira (e nenhuma indicação ao Oscar!) num trabalho que parece ser o ponto de virada para essa injustiça.
Já, entre os atores, a ausência de Robert De Niro (por "O Irlandês") e de Adam Sandler (pelo premiado “Uncut Gems”) e o encaixe de Leonardo DiCaprio e Taron Egerton entre os intérpretes de comédia ou musical deixa a situação bastante propícia para a consagração de Joaquin Phoenix e sua ovacionada atuação em “Coringa”, seu maior competidor é, quando muito, a excelência de Adam Driver em “História de Um Casamento”.

MELHOR ATRIZ EM FILME: MUSICAL OU COMÉDIA
Ana de ArmasEntre Facas e Segredos
AwkwafinaThe Farewell
Cate BlanchettCadê Você, Bernadette?
Beanie FeldsteinFora de Série
Emma ThompsonLate Night

MELHOR ATOR EM FILME: MUSICAL OU COMÉDIA
Daniel CraigEntre Facas e Segredos
Roman Griffin DavisJojo Rabbit
Leonardo DiCaprioEra Uma Vez… Em Hollywood
Taron EgertonRocketman
Eddie MurphyMeu Nome É Dolemite

O grande problema na categoria das atrizes em comédia ou musical é a completa ausência de um nome que tenha se destacado nas bolsas de apostas até então: Emma Thompson e Cate Blanchett levam vantagem pela consagração da carreira pregressa, mas as jovens Ana de Armas e Awkwafina chegam apresentando trabalhos surpreendentes em obras que prontamente conquistaram a crítica.
Com os atores, meu gosto pessoal me leva a torcer pela performance brilhante de DiCaprio, embora os críticos tenham se rendido ao talento de Eddie Murphy que, de tempos em tempos, encontra um filme capaz de evidenciar o grande ator que é (como ocorreu em meados de 2006 com “Dreamgirls”).
De resto, é muito bom ver o reconhecimento prestado ao grande ator que Daniel Craig consegue ser quando sai de sua zona de conforto; à sensibilidade precoce do pequeno e notável Roman Griffin Davis (lembrando ser ele uma das poucas menções ao grande trabalho de Taika Waititi, “Jojo Rabbit”); e ao desempenho louvável de Taron Egerton como Elton John –cujos planos de repetir a trilha vitoriosa de Rami Malek no ano passado esbarraram na concorrência bem mais pesada deste ano!

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Kathy BatesO Caso Richard Jewell
Annette BeningO Relatório
Laura DernHistória de Um Casamento
Jennifer LopezAs Golpistas
Margot RobbieO Escândalo

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Tom HanksUm Lindo Dia na Vizinhança
Anthony HopkinsDois Papas
Al PacinoO Irlandês
Joe Pesci, O Irlandês
Brad PittEra Uma Vez… Em Hollywood

Por mais que a presença de Brad Pitt entre os indicados a Melhor Coadjuvante me encha de felicidade, é preciso admitir que Al Pacino e Joe Pesci, por “O Irlandês”, formam uma dobradinha difícil de ser superada –com a possível predileção dos votantes para o segundo.
A categoria de atrizes coadjuvantes foi uma oportunidade para o Globo de Ouro incluir grandes trabalhos esquecidos nas categorias principais, como “As Golpistas”, filme-sensação no Festival de Toronto, cuja indicação para Jennifer Lopez causou estranhamento por não ser entre as atrizes principais –é exatamente esse detalhe que pode fazer dela a favorita da categoria.
Contudo, as esplêndidas presenças de Margot Robbie e de Laura Dern não devem ser subestimadas.

MELHOR ROTEIRO
História de Um Casamento
Parasita
Dois Papas
Era Uma Vez… Em Hollywood
O Irlandês

MELHOR ANIMAÇÃO
Frozen II
Como Treinar Seu Dragão 3
O Elo Perdido

Causou surpresa a ausência de “Entre Facas e Segredos” entre os indicados à Melhor Roteiro –justamente esse que era apontado como um dos quesitos mais fascinantes do filme de Rian Johnson –o que deve deixar a disputa mais equilibrada, visto que todos são obras magistrais que primam pela mágica de uma história bem contada.
Por incrível que possa parecer, é aqui que “O Irlandês” ostenta menos favoritismo (mas, ele pode levar conforme sua premiação seja indulgente demais), deixando margem para praticamente todos os concorrentes: A sensibilidade singular de “História de Um Casamento”; a energia cinematográfica incomum de “Parasita”; o refinamento inquestionável de “Era Uma Vez... Em Hollywood”; e a primazia dramática de “Dois Papas”.
Entre as animações a briga certamente será de cachorro grande com as sequências de duas das mais bem-sucedidas animações de todos os tempos (“Frozen” e “Toy Story”) disputando diretamente.

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Beautiful Ghosts”Cats
“I’m Gonna Love Me Again”Rocketman
“Into the Unknown”Frozen II
“Spirit”O Rei Leão
“Stand Up”Harriet

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
The Farewell
Os Miseráveis
Dor & Glória
Parasita
Retrato de Uma Jovem em Chamas

Dificilmente o prêmio de filme estrangeiro será tirado das mãos mais do que merecedoras dos realizadores de “Parasita” –e essa premiação deve ser uma compensação pelas demais indicações que permanecerão sendo indicações (embora surpresas desagradáveis dessa natureza sejam até um hábito do Globo de Ouro).
Entre as canções, apesar das prováveis esperanças de alguns fãs que “Rocketman” ou mesmo o incompreendido “Cats” levem alguma coisa, a nova canção clássica de “Frozen II” deve prevalecer; não acredito que a música inédita de Beyoncée para “O Rei Leão” tenha grandes chances.

Estes são, pois, os indicados (lembrando que só falei dos prêmios referentes à cinema), a entrega dos Golden Globes será dia 5 de Janeiro de 2020.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Infiltrado Na Klan

O mais festejado trabalho do diretor Spike Lee dos últimos tempos é uma daquelas obras baseadas em fatos reais que nos impressiona a todo o instante tamanho o volume de situações inacreditáveis e circunstâncias assombrosas que as cercam –e ao testemunhá-las, como expectadores, só nos resta a admiração por uma história tão extraordinária ter encontrado meios de ser mais uma vez contada em filme.
“Infiltrado Na Klan” inicia-se com um dos takes mais famosos do clássico imortal “E O Vento Levou”; filme que (à exemplo do infinitamente mais controverso “O Nascimento de Uma Nação”, de D.W. Griffith, de 1915, que também aparecerá numa das cenas mais tensas) faz um retrato discutível da condição dos negros no sul dos EUA. Em seguida, temos uma filmagem documental onde um Alec Baldwin inspiradíssimo faz as vezes de um líder de congregação sulista em um discurso de ódio insuflado; suas hilárias tentativas de corrigir a própria entonação e veemência tornam tudo ainda mais especialmente ridículo.
E Spike Lee vai deixando bem claro que é só o começo de muitos absurdos.
São meados da década de 1970 quando, na cidade de Colorado Springs, o jovem negro Ron Stallworth (John David Washington, filho do astro Denzel Washington) consegue uma vaga no Departamento de Polícia local. Da frustrante ocupação nos arquivos, ele consegue uma promoção ao aceitar uma inevitável missão como infiltrado. Ele deve acompanhar de perto uma reunião dos Panteras Negras. É lá que ele conhece a idealista e ativista Patrice (Laura Harrier, de “Homem-Aranha De Volta Ao Lar”) com quem inicia um relacionamento todo relutante pelo fato de Ron ter de esconder que é policial.
Não é o único segredo que ele tem de manter: Trabalhando na Inteligência, Ron entra em contato com uma célula da Ku Klux Klan de Colorado Springs por telefone, e consegue estabelecer afinidade o suficiente para ser convidado para suas restritas reuniões.
Para tanto, ele precisa estabelecer uma sintonia impecável com o detetive judeu Flip Zimmerman (Adam Driver) que, por razões óbvias, deve se passar por Ron de corpo presente –ao incorporar (um ao telefone, o outro em presença física) um personagem infiltrado, eles precisam descobrir a gravidade e exatidão de um ataque terrorista planejado pela Klan dentro em breve; e que pode ter como alvo a própria Patrice!
Spike Lee se despe consideravelmente de firulas neste ótimo trabalho, ciente do início ao fim do teor sensacional da trama que tem em mãos –e do fato de que, por isso mesmo, ela fala por si; não à toa, “Infiltrado Na Klan” levou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado.
Estão lá as observações onipresentes de Lee acerca da pouco mutável situação dos negros americanos –e que, na narrativa poderosa e implacável, levam a uma sensação de indignação do expectador –assim como também estão as concepções bem sedimentadas de realidade, de espaço e tempo bem definidos, e que conectam (de forma explícita no seu final) o tema do filme com eventos urgentes e atuais que não podem ser ignorados.
“Infiltrado Na Klan” é, pois, Spike Lee em toda a sua fúria e primor.