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sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Império dos Sonhos - A História da Trilogia Star Wars


 Hoje, “Star Wars” é mais que uma simples saga cinematográfica; é um marco comparável à poucos na cultura pop que reúne uma legião intratável de adoradores e depreciadores que o amam e o odeiam com igual intensidade.

Motivo para isso é seu sucesso incomensurável –que há tempos já extravasou as fronteiras do cinema indo para a animação, quadrinhos, literatura, videogames e séries de TV –e a capacidade de apreender, em toda sua vasta mitologia, um fascínio por elementos imediatamente identificáveis e por personagens inconfundíveis.

O documentário capitaneado por Edith Becker e Kevin Burns, realizado em 2004 para aproveitar o lançamento dos três primeiros filmes em DVD, foi registrado enquanto a polêmica “Trilogia Prequel” (composta de “A Ameaça Fantasma”, “O Ataque dos Clones” e “A Vingança dos Sith”) ainda estava sendo realizada, e muito antes de haverem planos para uma “Trilogia Sequel” (que consiste de “O Despertar da Força”, “Os Últimos Jedi” e “A Ascensão Skywalker”) ou do boom que a saga sofreu nos anos recentes ao ser comprada pela Disney e multiplicar seu cânone em séries animadas, derivados e inúmeras outras obras. Portanto, ao filme resta somente registrar o nascimento da obra que originou todo esse vasto universo e que, sabe-se, resume-se aos exemplares da hoje chamada “Trilogia Clássica” (que alberga os seminais “Uma Nova Esperança”, “O Império Contra-Ataca” e “O Retorno de Jedi”), cujo dado mais surpreendente seja talvez o de que, tantas obras e ramificações depois, continuam entre os produtos de mais alta qualidade reconhecida seja entre fãs ou críticos.

O que muita gente não sabe, foram as dificuldades homéricas enfrentadas por George Lucas para conceber sua visão –e que encontraram muitos obstáculos devido às inovações que ele vislumbrou em sua realização –e nem a forma (ou o contexto) com que a chamada ‘Febre Star Wars’ dominou o Planeta Terra naqueles turbulentos, mas à sua maneira inocentes, anos 1970.

O documentário explora, em tom notadamente enaltecedor, o pioneirismo do grupo formado ao redor de George Lucas e de como usaram de vasta criatividade para moldar imagens (e sons) que logo entrariam para a História. Acompanhamos a tenacidade de Lucas enquanto criador ao insistir numa aventura de ficção científica construída em circunstâncias que eram, então, sem precedentes: Obras desse cunho, para obter respeito e aprovação crítica, deveriam ser adultas e cerebrais, caso contrário, caíam na desonrosa pecha de produções infantis –o que, muitos à época  insistiram, “Star Wars” seria.

Igualmente sem precedentes foi a opção de Lucas em assumir os direitos sobre o merchandising dos produtos oriundos do filme, algo que, ao longo do tempo, se mostrou um acerto milionário e que, entre outras coisas, definiu o sistema mercadológico do cinema comercial norte-americano dali para frente.

O documentário é respeitoso. Ele omite fatos espinhosos como o romance fora das telas entre Harrison Ford e Carrie Fisher ou o breve problema de vício em drogas dela, porém, ele se estende para além do primeiro filme ao focar na realização também de “O Império Contra-Ataca”. Assim, descobrimos que, em 1980, Lucas depositou todas as suas fichas na continuação, investindo toda a fortuna que havia adquirido com o sucesso do primeiro filme; embora muitos acreditassem, desdenhosamente, que ele já tivesse dinheiro para dar e vender.

Os depoimentos do diretor Irvin Keshner expõem claramente as decisões que levaram a sequência a ser ainda mais memorável que o filme anterior, e as escolhas que levaram aos grandes momentos da saga, como a revelação da paternidade de Darth Vader –mantida em segredo, na cena, até do próprio ator Mark Hammil –e o fenomenal desfecho, com o gancho explícito para a terceira parte.

O último terço dá conta, assim, da realização, aguardada com muito expectativa pelo público, de “O Retorno de Jedi”, quando “Star Wars” já havia se sagrado como uma das grandes franquias do cinema moderno, e seus astros, Hammil, Ford e Fisher, já eram tão reconhecidos que a produção teve de usar títulos alternativos para diblar curiosos –prática esta que também passou a ser adotada por Hollywood.

O documentário ainda traz depoimentos maravilhosos de realizadores direta ou indiretamente influenciados por “Star Wars”, seja nas suas inovações técnicas, seja na inspiração que exerceu quando eles eram fãs –entre essas ilustres aparições estão Steven Spielberg, Francis Ford Coppola (chapas de George Lucas que, inclusive, acompanharam a gestação do conceito de “Star Wars”), Peter Jackson, Jeffrey Katzenberg e John Lasseter. Todos eles e outros convidados (além de outros segmentos mais!) fornecem um panorama do que foi “Star Wars”, não somente o retumbante fenômeno cultural, mas também os fascinantes contratempos enfrentados em sua gênese, e a personalidade pacata, colaborativa e divertida de seu criador, George Lucas, por vezes mostrado como o gestor de inúmeras mentes criativas (algumas mais prodigiosas que a dele próprio) no centro desse furacão que mudou o cinema para todo o sempre.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Os Irmãos Cara-de-Pau


 Não é nada difícil de entender as razões que transformaram “The Blues Brothers”, de John Landis, em um cult-movie: Irrequieto e dançante do início ao fim, o filme consegue um raro equilíbrio entre o ritmo eletrizante, os sucessivos desdobramentos episódicos que acompanham os protagonistas (e que os emolduram com uma aura inspirada e inconsequente de desenho animado) e um humor fervilhante e irresistível, dos mais bem administrados dos anos 1980.

O filme narra a epopéia caótica, musical e hilária dos Irmãos Blues, o rechonchudo Jake (o irreverente John Belushi),recém-saído da cadeia onde esteve por cinco anos, e o magrelo Elwood (Dan Akroyd, ligeiramente abobado). Crescidos num orfanato, os dois, outrora músicos que viviam e respiravam jazz, têm o estiloso hábito de usar ternos pretos e óculos escuros em todas (e até nas mais inadequadas!) ocasiões; maneirismo emprestado de seu grande ídolo, o zelador Curtis (Cab Calloway, a primeira de inúmeras participações especialíssimas que virão). Jake e Elwood tomam para si o objetivo de quitar os impostos pendentes do orfanato em que cresceram impedindo sua demolição. A inspiração vem num culto regido pelo reverendo personificado por James Brown: Reunir sua antiga banda e juntar dinheiro honesto o suficiente –uma vez que a freira que os criou (vivida com singular aura messiânica por Kathleen Freeman) os proibiu de obter dinheiro ilicitamente. Dessa maneira, os Irmãos Blues procuram, um a um, os integrantes de seu famoso conjunto, o ‘Blues Brothers’ –incluindo seu trompetista (Tom Malone), agora um maitrê num restaurante chique onde eles aprontam poucas e boas; e seu guitarrista (Matt Murphy), agora cozinheiro numa lanchonete a serviço da esposa (Aretha Franklyn, num dos grandes momentos do filme). Ah, e eles também param numa loja de instrumentos musicais, gerenciada por ninguém mais, ninguém menos do que Ray Charles!

Nesse percurso, Jake e Elwood são perseguidos pela misteriosa ex-noiva de Jake (Carrie Fisher, num papel extremamente cartunesco e que demora a se esclarecer) que munida de bazucas (!), lança-chamas (!!), metralhadoras (!!!) e outros utensílios, tenta matá-los a toda hora –aquela aura de desenho animado de que falei...

Conforme os planos começam a dar errado (eles não conseguem agentes e, com isso, têm de se apresentar em inferninhos pouco rentáveis), os Irmãos Blues apelam para uma apresentação definitiva num grande anfiteatro, alugado com o ‘auxílio’ de um gangster (Steve Lawrence); todavia, até chegar nesse ponto, a trilha de destruição que os apalermados Blues Brothers vão deixando já colocou em seu encalço toda polícia de Illinois, bem como um grupo de ensandecidos e ridículos neo-nazistas!

Brilhantemente dirigido por John Landis, que jamais deixa que o filme se acomode num estilo simplório ou numa circunstância que reduza a marcha insana de seu roteiro, “Os Irmãos Cara-de-Pau” é quase um tour-de-force, um exemplo virtuosístico de narrativa conduzida num crescendo que leva à seqüência final, uma das perseguições de carro mais destrutivas da história do cinema, quando a afiadíssima dupla central tem poucas horas para chegar à Tesouraria do município de Chicago e saudar todas as dívidas do orfanato –numa missão que eles passam o filme todo dizendo ser de providência divina! –trazendo, ao fim, uma de suas mais sensacionais aparições especiais: Steven Spielberg!

Há pouco nexo no desenvolvimento de seu enredo, ele é povoado de piadas e gags que, no contexto errado, seriam infames e até sem graça (e parece um milagre que todas funcionem brilhantemente até os dias de hoje), e certamente sua realização prescinde de qualquer mensagem subliminar, entretanto, “Os Irmãos Cara-de-Pau” é o raro tipo de obra que resulta muito mais que apenas a soma de suas partes: É um trabalho incomparável, funcional e envolvente (a pífia e tardia continuação, lançada no ano 2000, é um exemplo do quão impossível é repetir sua mágica), encantador em sua primazia cinematográfica, tão assombroso quanto insuperável nas cenas antológicas, divertidas e vertiginosas que enfileira, e um convite eterno e constante ao riso frouxo.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Star Wars - Episódio 9 - A Ascensão Skywalker

Existe uma diferença estrutural na forma com que cada uma das três trilogias que agora integram a “Saga Star Wars” foi concebida: A primeira, e tida por unanimidade pelos fãs como a melhor, embora tenha saído da mente do criador George Lucas, foi executada por três diretores diferentes –o primeiro (“Uma Nova Esperança”), pelo próprio Lucas; o segundo (“O Império Contra-Ataca”) por Irvin Kershner; e o terceiro (“O Retorno de Jedi”) por Richard Marquand –a trilogia prólogo, por sua vez, foi inteiramente escrita e dirigida por George Lucas, então numa fase da vida e da carreira em que, do alto de sua fortuna pessoal e da aclamação mundial de “Star Wars” dentro da cultura pop, podia dar-se ao luxo de fazer o que bem entendesse –daí esses três filmes (“A Ameaça Fantasma”; “O Ataque dos Clones” e “A Vingança dos Sith”) resultarem tão artisticamente canibais para com o próprio conceito da saga.
Assim, quando George Lucas vendeu sua propriedade intelectual (a Lucasfilm) para a Disney, iniciou-se uma nova trilogia com o empolgante episódio VII dirigido por J.J. Abrahams (“O Despertar da Força”) e o controverso, ainda que excelente, filme seguinte de autoria de Rian Johnson (“Os Últimos Jedi”). O que nos leva a este “A Ascensão Skywalker” no qual, pela primeira vez na saga, um diretor, J.J. Abrahams, regressa para capitanear um episódio sem ser o criador da saga em pessoa.
E não um episódio qualquer: “A Ascensão Skywalker” toma para si uma série de duras responsabilidades; quer encerrar toda trama iniciada nos primeiros filmes (hoje, clássicos); quer também dar um desfecho satisfatório (e, se possível, vibrante) para os novos personagens introduzidos a partir do episódio VII; e ainda por cima, ao longo da sucessão de eventos desta trama, contornar as decisões polêmicas tomadas no episódio anterior que terminaram por revelar o lado negro (terrivelmente imaturo e intolerante) de seus fãs.
O filme começa com a informação, já difundida nos trailers, de que o perverso Imperador Cheev Palpatine (Ian McDiarmid) de alguma maneira não morreu, ao contrário do que se supunha no final de “O Retorno de Jedi”.
Isso leva o lado do bem, a Resistência, e o lado do mal, a Primeira Ordem, a uma corrida para ver quem o encontra primeiro; a Resistência, para neutralizá-lo de uma vez por todas –tarefa que a Jedi em treinamento, Rey (Daisy Ridley, a formidável protagonista desta nova trilogia), tem dúvidas se possui poder o bastante para fazê-lo –e a Primeira Ordem, comandada agora por Kylo Ren (o excelente Adam Driver), para consolidar-se em definitivo como o Império do Mal que sempre foi, visto que tudo o que transcorreu até então teria assim sido um plano de Palpatine desde o começo; o que leva todos os personagens e as motivações que os impulsionam à fatídica Ordem Final que encerrará essa ‘guerra nas estrelas’ de uma vez por todas.
É sabido –até por ele próprio! –que J.J. Abrahams é um autor muito bom em iniciar histórias de modo promissor, mas não em terminá-las (como corroboram suas séries “Felicity”, “Alias-Codinome Perigo”, “Lost” e “Person Of Interess”) e isso fica evidente nas incertezas de sua narrativa, tão convicta, vigorosa e enxuta em “O Despertar da Força”, mas aqui mostrando-se pela primeira vez hesitante e insegura.
Certamente não foi uma tarefa simples esta da qual ele se incumbiu e, guardadas as vastas proporções da produção, o escopo megalomaníaco do roteiro e a complexidade nas diversas linhas narrativas, ele conseguiu entregar um trabalho maravilhoso, coerente até mesmo no aproveitamento da personagem Léia, de Carrie Fisher, que morreu muito antes do início desta produção, e que aparece em cena graças à várias cenas descartadas, reaproveitadas dos dois filmes anteriores. Contudo, os fãs (sempre exigentes), os críticos e os detratores irão dizer que, dentre os três capítulos desta nova trilogia, “A Ascensão Skywalker” é o mais fraco.
E eles têm um prato cheio em mãos: Dirão que o roteiro é pedante ao contrariar diversos fatos de “Os Últimos Jedi” apenas para agradar a audiência, que a introdução de Palpatine na premissa é descabida e pouquíssimo convincente servindo só para suprir a ausência de um antagonista realmente bom.
Mas, a verdade é que, na qualidade de encerramento oficial de uma saga que praticamente definiu o cinema comercial moderno, não havia nada que pudesse corresponder a toda a expectativa que assolou “A Ascensão Skywalker”. As multidões que certamente abarrotarão as salas de cinema, gostem do trabalho de J.J. Abrahams ou não, se encontram numa situação em que esperam algo mais que um simples filme.
E um filme é tudo que irão receber.
Um filme grandioso, frenético, emocionante, repleto de momentos espetaculares e, por que não, mágicos, mas, no fim das contas, só um filme.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Star Wars - Episódio 8 - Os Últimos Jedi

Tarefa complicada essa assumida por Rian Johnson: Dar continuidade, neste segundo filme da terceira trilogia da saga “Star Wars”, ao enredo e aos personagens concebidos por J.J. Abrahams em “O Despertar da Força”.
Não apenas isso: Suprir os anseios de tantos fãs –que ao longo desses últimos dois anos, elaboraram milhares de teorias sobre quem seriam os pais de Rey (a maravilhosa Daisy Ridley) e de qual seria o seu futuro –e responder a contento inúmeras perguntas que ficaram sem resposta; isso tudo e ainda segurar o rojão da inevitável expectativa de que –sendo este o capítulo do meio –ele teria de igualar em qualidade, espanto e ressonância emocional o adorado “O Império Contra-Ataca”, preferido de nove entre dez fãs da saga criada por George Lucas.
Por tudo isso é um tanto injusto que muitos já reclamem que o filme é longo demais (não é), que sua primeira parte é muito arrastada (nem tanto) e que o trabalho de Johnson, como diretor, não consegue obter o mesmo encanto de Abrahams no filme anterior (longe disso...).
O quê Rian Johnson faz –e, talvez, isso explique a reação rabugenta de alguns –é subverter as expectativas.
Quando “O Despertar da Força” encerrou-se, Rey enfim encontrava Luke (Mark Hamill), o assim alardeado último jedi para devolver a ele seu sabre de luz e convidá-lo, digamos assim, para juntar-se à Resistência, comandada por sua irmã Léia (Carrie Fisher, falecida poucos meses após as filmagens), na luta contra a Primeira Ordem, um resquício do que foi o Império Galáctico.
Por dois anos, os fãs tinham certeza de que, o filme que se desdobraria a partir daí, mostraria Rey sendo treinada por Luke, e de lá partindo para enfrentar as forças do mal.
Porém, o roteiro de Johnson contorna completamente o óbvio, preferindo mostrar o lado humano dos heróis, as discordâncias dentro da nobre Resistência e a fragilidade de uma causa em meio à guerra.
Após a destruição da Base Starkiller, no fim do último filme. Descobrimos que não há muito que comemorar para a Resistência, afinal, a Primeira Ordem sabe a localização de seu reduto e apesar da derrota ainda tem recursos para esmagá-los –e, na cena formidável que abre o filme, já começa a movê-los para fazer exatamente isso!
É também nessa cena em que Rian Johnson explora suas particularidades como diretor (mais atento aos detalhes inesperados do que Abrahams), e começa amostrar a que veio o personagem mais desperdiçado do outro filme, Poe Dameron (o ótimo Oscar Isaac), que obtém aqui uma extraordinária importância e solidez junto a trama.
Só então, após nos contextualizar na trama dos outros personagens para além do final enganosamente feliz do filme anterior, que Johnson nos leva de volta à cena que encerrou o filme de Abrahams, para prosseguir além dela de maneira desconcertante: Luke, veja só, não quer nada com a resistência e seu exílio justifica a negativa para o pedido da jovem. Ele conhece muito bem as vicissitudes da Força, que Rey está só começando a notar.
Também Finn (John Boyega), o outro protagonista, ao lado de Rey, introduzido em “O Despertar da Força”, tem lá seus problemas: Ao lado da dedicada e idealista Rose (Kelly Marie Tran), ele precisa infiltrar-se num destróier inimigo e desabilitar o mecanismo prodigioso que está permitindo à Primeira Ordem caçar e exterminar a Resistência por toda a galáxia. Para tanto, eles têm como peça fundamental o auxílio algo duvidoso de um escorregadio trapaceiro (Benicio Del Toro, cujo personagem, para surpresa de muitos, não tem tanta importância assim no final das contas). Enquanto Finn, Rose e o dróide BB-8 se arriscam nessa empreitada, cabe a Poe Dameron impedir que o comando indulgente de uma nova oficial (Laura Dern, uma surpresa) comprometa o quê ainda resta da Resistência.
Do outro lado da contenda, Kylo Ren (Adam Driver, excelente), sobrinho de Luke, filho de Léia e assassino de Han Solo, seu pai, é confrontado com suas limitações e frustrações. Mais do que ameaçar o favoritismo cultivado com ele junto ao maquiavélico Líder Supremo Snoke (Andy Serkis), elas o afastam de seu objetivo mais pessoal de fato: Igualar o poder e a lenda de seu avô, Darth Vader.
O trabalho de Rian Johnson então faz pela saga o quê ele já mostrou fazer bem em outros grandes filmes, como “Vigaristas” e “Looper-Assassinos do Futuro”: Explorar um ambiente, mesmo que fantástico e orquestrar as motivações íntimas com as conseqüências épicas e dessa conjugação extrair momentos surpreendentes.
E Johnson sabe manipular as ferramentas narrativas que têm em mãos: Ele entrega momentos reveladores e instigantes durante o prolongado período em que Rey confabula com Luke em seu exílio –trecho esse que representa o maior alvo das reclamações do filme –observa com um apuro muito mais atento que Abrahams as variações psicológicas mais sutis de seus personagens –e, nesse sentido, sem entregar nenhuma surpresa (e a partir de um ponto, elas serão inúmeras!), as ramificações acerca das personalidades de Rey e de Kylo Ren são as mais notáveis –e elabora cenas brilhantes e espetaculares, marca registrada de uma saga famosa pela proeminência de seus efeitos especiais, mas aqui tratadas com um refinamento e uma singularidade visual flagrantes: Sendo os melhores exemplos, a impressionante sequência de sacrifício de uma das personagens dentro de um cruzador da Resistência, e a batalha final em um deserto de areia vermelha coberto de sal.
Durante todos esses percalços, Johnson trata de conduzir seu roteiro com a precisão de quem quer (e em diversas passagens consegue) fazer algo até inédito em “Star Wars”: Surpreender o público com lances sofisticados e emocionantes de uma trama pontuada por reviravoltas.

“Star Wars” está em um outro nível agora, e nesses próximos dois anos até o “Episódio IX” só podemos supor para onde esses personagens e sua instigante dinâmica revelada aqui irão nos levar.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Harry & Sally - Feitos Um Para O Outro

Harry Burns e Sally Albright se conheceram ainda jovens, na pouco frutífera interação de uma longa carona –Harry era o namorado de uma grande amiga para quem Sally prestou um favor levando-o até Nova York.
Os anos se passaram com eles reencontrando-se em outra situação: Um vôo interurbano no qual a interação foi ainda menos satisfatória. Pois um punhado de anos precisou se passar –e com eles uma série de relacionamentos frustrados de ambas as partes –para que os dois ao menos concordassem em manter uma amizade.
Sem no entanto perceber que se amam.
Em princípio, portanto, o filme do diretor Rob Reiner (do maravilhoso “Conta Comigo” e “A Princesa Prometida”) parece falar sobre a tese chauvinista de que não existe amizade real entre homens e mulheres. Só, em princípio: Seu objetivo, bem mais descontraído e espirituoso, é avaliar as minúcias contraditórias e, não raro, engraçadas, dos relacionamentos (atestado nas cenas que intercalam as passagens de tempo, e que mostram o depoimento de vários casais), especialmente nos momentos em que tais facetas se mostram nítidas. Quando a atração e o interesse se expressa à revelia da consciência ou mesmo do querer dos interessados.
Á frente do elenco (que inclui ainda, Carrie Fisher, a princesa Léia de “Star Wars”), Billy Cristal e Meg Ryan exalam química e simpatia –ele, preciso em seu timing cômico, o quê compensa o pouco interesse que desperta no público feminino; ela, ótima no retrato tão cativante quanto neurótico que pinta da mulher moderna nova-iorquina.
Uma seqüência em especial (famosíssima) ilustra muito bem o humor ferino, equilibrado e pulsante que o filme irradia: Quando Sally, diante das negativas Harry, prova para ele, no meio de uma lanchonete lotada, que uma mulher pode, sim, fingir um orgasmo totalmente convincente.
Filmado pelo diretor Rob Reiner como numa reprodução em todos os pormenores charmosos do estilo de Woody Allen –intenção à qual o roteiro cheio de diálogos afiados de Nora Ephron dá pleno respaldo –“Harry & Sally” é visto como a pedra fundamental do sub-gênero comédia romântica por ter revelado ao mundo a forma com que a atriz Meg Ryan se mostrava perfeita à categoria (ela construiu sua carreira durante a década de 1990 com filmes exclusivamente desse gênero), e por ser também um exemplo perfeito de como essa fórmula simples (e recriada à exaustão por filmes que vieram depois) pode funcionar plenamente quando executada com talento.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Star Wars - Episódio 7 - O Despertar da Força

Eu vi. Eu finalmente vi, no esplendor do cinema Imax, o que deve ter sido o filme mais aguardado do ano. 
E foi um prazer. 
Era como se estivesse testemunhando um acontecimento muito especial: E na verdade estava; eu estava presenciando, enquanto aquela obra fluida e deliciosa transcorria na tela, um importante capítulo da história da cultura pop sendo escrita. 
Deve ter sido uma sensação parecida com a que teve o público de 1978, quando assistiram à “Star Wars-Episódio 4-Uma Nova Esperança” pela primeira vez. Aquele espanto. Aquela euforia. “O Despertar da Força” fez com que eu reencontrasse o garotinho de 12 anos que vive dentro de mim e isso, eu sei por experiência, não é algo que um filme consegue fazer com facilidade. 
O que provavelmente você sabe, é que “O Despertar da Força” se passa trinta anos depois dos acontecimentos de “O Retorno de Jedi” e que, enquanto introduz novos personagens e uma nova história que levará a uma nova trilogia, revela também o quê se passou nesses trinta anos com os personagens já conhecidos como Luke Skywalker, Han Solo e a Princesa Léia. 
O que você não sabe é quem esses novos personagens são. Contudo, conforme vai assistindo o filme, num artifício muito bem elaborado pelo departamento de marketing que conseguiu manter absolutamente tudo em segredo a respeito deles, esse mistério só é elucidado onde deveria mesmo: Na sala de cinema, o quê diga-se, é raro nestes tempos em que a internet possibilita sabermos de antemão todas as surpresas do filme antes mesmo de assisti-lo. 
O que você irá descobrir é o trabalho criterioso, apaixonado, emocionado e emocionante que o diretor J.J. Abrahams dedicou a saga (ele foi escolhido à dedo pela Disney depois que ela comprou os direitos do criador George Lucas). 
Os novos personagens (minha predileta é, de longe, Rey, interpretada por Daysi Ridley, a mais sensacional protagonista feminina que a saga jamais teve) são tão carismáticos quanto os antigos (e aqui não há como não ressaltar Han Solo, personificado com brilho e entusiasmo por Harrison Ford), e a trama remete à muitos elementos que fizeram a magia da trilogia original. 
O quê nos leva às questões: Este filme é tão bom quanto os “Star Wars” originais? Tão bom quanto “Império Contra-Ataca”? Ele apaga o gosto frustrante deixado na boca pelos capítulos da nova trilogia? 
A resposta para todas elas é sim! (Inclusive para aquela possivelmente polêmica questão do meio) 
Daqui a alguns anos estaremos falando de “O Despertar da Força” com o mesmo assombro e carinho com o qual relembramos os três filmes originais da saga.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Star Wars - Episódio 6 O Retorno de Jedi

Conforme vai envelhecendo George Lucas se torna cada vez menos propenso a cometer audácias, trocando qualquer ousadia por um conformismo “família”. 
Essas características, que minaram a nova trilogia de “Star Wars”, já se mostravam presentes no último capítulo da trilogia original. Não ajudou muito, também, substituir o bom diretor de “Império Contra-Ataca”, Irving Keshner, pelo operário-padrão Richard Marquand (o único filme dele, além deste que pude conferir foi “Quando Setembro Chegar”, um drama romântico pra lá de genérico protagonizado por Karen Allen). Reza a lenda, que Lucas queria para dirigir “O Retorno de Jedi” ninguém menos do que David Lynch (e só podemos imaginar a doideira que sairia dessa união!). 
Enfim, dando continuidade ao encerramento em aberto de “Império...”, este filme começa quando Luke e seus amigos retornam ao planeta Tatooine para resgatar Han-Solo, prisioneiro nas mãos do asqueroso Jabba The Hutt. Logo, eles seguirão para junto da Aliança Rebelde a fim de organizar um plano definitivo contra o Imperador Palpatine e seu Império Galáctico. O confronto se dará nas imediações do arborizado planeta Endor, onde Luke, cada vez mais senhor da Força, travará o duelo final contra seu antagonista e pai, Darth Vader. 
O encerramento da saga "Star Wars", terminou com um pouco menos do assombro e surpresas proporcionados pelos capítulos anteriores, mas ainda assim consegue ser um entretenimento espetacular, divertido e, por que não, mágico. 
O desenlace final de personagens tão queridos, e sobretudo a redenção de Darth Vader não tinha como não cair no gosto do público. Agora, resta-nos aguardar pelo vindouro “StarWars-O Despertar da Força” que é, oficialmente o episódio 7, o que tira deste filme aqui o título de “último capítulo de Star Wars”.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Star Wars - Episódio 5 O Império Contra-Ataca

Cheguei ao meu longa preferido da saga, e aquele que assisti mais vezes. E, é com satisfação que constato que ele permanece sensacional!
Perseguido por Darth Vader e o Império Galáctico, o jovem aprendiz de Jedi, Luke Skywalker refugia-se junto do restante da Aliança Rebelde no gélido Planeta Hooth, mas não tardam a ser encontrados por seus algozes. 
Logo, Luke terá de rumar para o Planeta Dagobah, atrás de um certo Mestre Jedi chamado Yoda para que ele dê continuidade ao seu treinamento, já que seu mestre, Obi-Wan, fôra morto por Darth Vader no filme anterior. Nesse meio tempo, os amigos de Luke, Han-Solo, Leia, o peludo Chauwbacca e C3PO fogem para Bespim, a Cidade das Nuvens tentando em vão despista o Império. Capturados, eles servirão de isca para uma armadilha onde Vader irá confrontar Luke com uma revelação surpreendente. 
Em tudo e por tudo superior ao filme anterior. 
Considerado também pelos fãs o melhor dos "Star Wars", e não é à toa. A entrada de um diretor mais habilitado, Irving Keshner (substituindo o criador em pessoa, George Lucas) proporcionou ao filme uma narrativa mais sofisticada, mais bem resolvida, que praticamente sanou muitos dos pequenos problemas do ótimo primeiro filme, por exemplo, a canastrice de alguns intérpretes como a princesa Léia, Carrie Fisher, (que estava a beira do irritante e ligeiramente deslocada, em sua postura) aqui ela está até mais sensual e interessante, além de visivelmente mais à vontade em seu papel, o quê se reflete, de modo geral, em todo o elenco. 
O roteiro, escrito por Lawrence Kasdan (o quê me enche de esperança para o vindouro “Star Wars-O Despertar da Força”já que ele também está roteirizando) é magnífico dando profundidade à mitologia, não só com a bombástica, e já lendária, revelação de Darth Vader, mas também com pequenos e espirituosos detalhes como o fato de Vader matar todos os ocupantes do cargo de almirante toda a vez que uma falha aparece em seus planos, passando assim esse ingrato posto para outro infeliz. E o quê dizer da emoção e tensão palpáveis que há no duelo de sabres de luz entre Darth Vader e Luke? Ainda considero este (apesar das estripulias, piruetas e saltos mortais dos confrontos filmados na trilogia mais recente) o melhor dentre todos os duelos de sabre de luz da saga inteira! 
Se há um “Star Wars” capaz de nos fazer vibrar de verdade, é este daqui!

sábado, 12 de dezembro de 2015

Star Wars - Episódio 4 Uma Nova Esperança

Até então, a "Trilogia Clássica de Star Wars", iniciada em 1977 quando os planos ambiciosos de consolidar uma saga de vários filmes ainda não apareciam, era tido como o final da história (embora ela tenha ganhado continuidade na literatura).
Agora, com a nova trilogia preparada pela Disney, as coisas mudaram: Os episódios IV, V e VI são, portanto, o 'meio' da história; e certamente, merecem uma revisão para capturarmos alguns elementos dos novos filmes. 
Uma coisa que sempre me cativou em “Star Wars” é que, dentre todas as grandes franquias cinematográficas, ela é uma das poucas que é cinema puro. 
Salvo “De Volta Para O Futuro”, “Indiana Jones” e alguns filmes de terror, “Star Wars” é a única série que já surgiu como filme, não sendo adaptação de livro, nem oriunda de uma série de TV e nem de uma HQ, nem nada. Antes de reclamem, ainda não considero “Avatar” uma série, já que ainda não ganhou continuações. 
Mas, enfim, vamos voltar ao assunto: Os robôs R2-D2 e C3PO servem de pivô introdutório, não apenas aos personagens principais, mas à todo o universo que constitui "Star Wars" quando aparecem, perplexos e desorientados, na fenomenal batalha que abre o filme de Lucas.
E tal recurso narrativo, bastante inteligente, foi aproveitado do brilhante "A Fortaleza Escondida", do mestre Akira Kurosawa (do qual, um dia desses, entrego uma resenha).
Detentores de uma mensagem capaz de frustrar os planos destruidores dos vilões envolvendo a temível 'Estrela da Morte', R2-D2 e C3PO encontram no desértico e longínquo planeta Tatooine o jovem fazendeiro Luke Skywalker, junto do qual procuram o sábio veterano de confrontos intergalácticos Obi-Wan Kenobi.
Luke e Obi-Wan são personagens arquétipos (e não há mal nenhum nisso): Luke é o jovem preso a uma existência de comodidade e insatisfação que, literalmente, sonha com as estrelas. Obi-Wan (na interpretação sublime do magnífico Alec Guinness) é o sábio providencialmente plantado pela narrativa para guiá-lo em seu caminho, embora a iniciativa, e a decisão de trilhá-lo, pertençam ao próprio Luke,
Juntos, eles partem para resgatar a princesa Leia, refém do maligno Darth Vader e do Império Galáctico, encontrando pelo caminho outras figuras icônicas da cultura pop como o contrabandista Han Solo e seu parceiro alienígena Chewbacca.
Essa receita arrojada, propondo um tratamento carregado de minúcia à uma premissa irrestritamente fantasiosa ao mesmo tempo em que mantinha uma simplicidade estrutural na compreensão de seus desdobramentos terminou moldando um dos grandes fenômenos do cinema. "Star Wars" revolucionou o conceito de filmes comerciais com sua mistura de mitologia, efeitos especiais de ponta e a luta do bem contra o mal. 
Só podemos supor a loucura e espanto que deve ter sido quando ele estreou nos cinemas em 1977, mostrando algo que nunca havia sido visto antes. O resultado de tamanha audácia terminou ganhando sete merecidíssimos Oscars em categorias técnicas.
É o primeiro filme idealizado e executado de uma série de seis longa-metragens planejados dentro de uma cronologia incomum: O mundo se viu chocado e aflito quando, no lançamento da continuação, "O império Contra-Ataca", ficou definido que aquele era o quinto episódio e este, portanto, o quarto (!). Alguns se perguntavam "onde estão os outros três filmes?!" Foi somente a partir de 1999 que George Lucas concebeu os episódios I, II e III, preenchendo retroativamente as lacunas deixadas ao longo dos filmes; sobretudo, no que diz respeito à importantes eventos passados (e que dão conta, principalmente, da origem do vilão Darth vader).
PS: Estou vendo as versões originais, e não aquelas versões com cenas adicionais e efeitos especiais acrescentados anos depois por George Lucas. A cena da taverna, onde Han Solo discute com o alienígena Greedo, e termina por surpreendê-lo (e à platéia, também) com um tiro fulminante e inesperado por baixo da mesa, fica muito mais legal sem a intervenção politicamente correta de George Lucas.