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sábado, 8 de agosto de 2026

Vivo Ou Morto - Um Mistério de Entre Facas e Segredos


 Neste “Vivo Ou Morto” já chegou-se num ponto em que o ator Daniel Craig interpreta o personagem Benôit Blanc como alguém que ele conhece e compreende integralmente (processo que ele certamente também experimentou vivenciando o agente 007), em que o roteiro e a direção de Rian Johnson já se acostumaram de tal forma a manipular o intrincados elementos do gênero policial investigativo, que sua condução é instintiva, sua descoberta das reviravoltas pontuais (e até inevitáveis) em seu plot é tão orgânica quando a capacidade de dissimulação plantada habilmente em seus personagens.

Terceira parte de uma trilogia iniciada com “Entre Facas e Segredos” e continuada com “Glass Onion” – e adquirida, do segundo exemplar em diante, pela Netflix – este “Vivo Ou Morto” traz toda a habilidade para tramas articuladas com infindável ardil por seus personagens que Johnson tão bem soube esbanjar em praticamente todas as produções que assinou, sendo superior à “Glass Onion”, porém, ainda inferior ao primeiro filme, o melhor de todos.

Antes do protagonista Benôit Blanc dar as caras, somos apresentados aos demais protagonistas desta trama – até porque, Blanc, diferente dos outros personagens, prescinde de apresentações, funcionando agora quase como um mestre de cerimônias – a começar pelo principal de todos, o padre Jud Duplenticy (o carismático Josh O’Connor, de “Dia D”), um ex-boxeador que largou os rings para dedicar-se à batina após matar um oponentes à socos. Por seu temperamento (e por saber muito bem como usar seus punhos quando provocado), Padre Jud é enviado à longínqua paróquia de Nossa Senhora da Perpétua Fortaleza, comandada pelo Monsenhor Wicks (Josh Brolin), cujos métodos de pregação, Jud vai perceber com o passar dos dias, vão muito além do meramente não ortodoxo: Wicks possui uma oratória agressiva, egocêntrica e prepotente e mantém cativo um grupo muito específico de fiéis que aliena com sua pregação raivosa. Qualquer outra pessoa da fora (e isso inclui o próprio Jud) é excluída quase que imediatamente.

Os fiéis em questão: A serviçal da igreja Martha Delacroix (Glenn Close) e seu marido, Samson Holt (Thomas Adden Church), ambos habituados a surgirem repentinamente nos momentos mais inoportunos; o médico Dr. Nat Sharp (Jeremy Renner), um poço de amargura desde o abandono da ex-esposa; o escritor fracassado Lee Ross (Andrew Scott, de “1917”); a jovem violoncelista Simone Vivane (Cailee Spaeny, de “Alien-Romulus”) presa a uma cadeira de rodas que aguarda, resignada, por um milagre; a advogada Vera Draven (Kerry Washington) obrigada pelo pai a criar um irmão adotivo com quem nunca se acertou; e o próprio irmão adotivo Cy Draven (Daryl McCormack, de “Boa Sorte, Leo Grande”), rapaz indiferente e esnobe, obcecado em fazer sucesso como influencer do youtube.

Todas pessoas ostentando neuroses que deveriam ser curadas pela fé, mas que o Monsenhor Wicks tão somente manipulou para continuarem suas fanáticas devotas. Cada um deles tinha um motivo para dar cabo do Monsenhor Wicks – principalmente após uma reunião à portas fechadas que culminou num rompimento completo entre Wicks e todos eles – e Padre Jud, mais do que todos eles, chegou a exprimir suas intenções numa confissão.

O problema é que, numa homilia matutina, o Monsenhor Wicks acaba realmente morto, esfaqueado nas costas, num recinto apertado sem espaço para uma segunda pessoa e sem quaisquer meios de ser invadido.

Como tal crime foi perpetrado? E quem está por trás dele?

A comunidade logo aponta o dedo para o novato Padre Jud que, em desespero, recorre aos conhecimentos prodigiosos de dedução e investigação do detetive Benôit Blanc chamado à cidadezinha pela xerife local, Geraldine Scott (Mila Kunis).

Tendo conferido as duas obras anteriores, é fácil para o expectador antecipar o que encontrará nesta produção aqui: Como em “Entre Facas e Segredos” e “Glass Onion”, Rian Johnson reúne, em torno de seu protagonista Blanc, um time vasto de personagens excêntricos e com motivações obscuras, interpretado por um elenco repleto de estrelas do cinema hollywoodiano. E como nos outros filmes, está aqui também o enredo muito decalcado dos clássicos intrincados de Agatha Christie, onde o crime só termina elucidado após diversas pistas se revelarem falsas e toda uma teia de segredos a interligar as mais diversas e inesperadas atitudes for revelada.

Contudo, o quê não é tão fácil assim antecipar é como Rian Johnson haverá de manejar todos esses ingredientes, sobretudo, quando e quais serão as reviravoltas surpreendentes que arremessarão os acontecimentos para rumos totalmente inesperados. Seu roteiro até mesmo brinca com essa possibilidade, sugerindo certas surpresas iminentes só para subverter algumas expectativas e seguir surpreendendo. O uso imodesto e ininterrupto de tal recurso pode soar um pouco mirabolante e improvável para o público, mas Rian Johnson o faz com tanta convicção e com tanto conhecimento de causa que o resultado mais diverte do que confunde.

terça-feira, 16 de maio de 2023

Glass Onion - Um Mistério de Entre Facas e Segredos


 Prova do poder abrangente conquistado pela Netflix, a medida que o já estabelecido formato de streaming ganha cada vez mais adesão do público, a plataforma comprou os direitos do sensacional “Entre Facas e Segredos”, de seu criador em pessoa, Rian Johnson, para ter exclusividade absoluta sobre sua continuação, este notável “Glass Onion” –e certamente sobre outras continuações mais que virão.

Seguindo a linha e estilo investigativo de Agatha Christie (as história de Hercule Poirot, como “O Assassino No Expresso do Oriente”) e Arthur Conan Doyle (as histórias de Sherlock Holmes), os filmes dessa nova série centralizam-se no detetive Benôit Blanc (vivido com entusiasmo fulgurante por Daniel Craig), um gênio da dedução prática e do raciocínio rápido que leva, sobre suas influências ancestrais e literárias já citadas, a vantagem de pertencer ao presente, e portanto, à um mundo onde as tramas rocambolescas e intrincadas de investigação veem adornadas com as usuais peculiaridades da vida moderna, como as mídias digitais, o comportamento das pseudo-celebridades e, neste caso em questão, as circunstâncias muito particulares da pandemia: Em seu arrojo, “Glass Onion” é uma das primeiras produções hollywoodianas a ambientar sua trama –ainda que vagamente –dentro do período característico e lastimável do lockdown iniciado em 2020, no qual Benôit Blanc, dono de uma mente brilhante e inquieta –e, por isso mesmo, ávida por desafios ao seu intelecto –está quase a enlouquecer dentro da segurança de seu apartamento.

Contudo, um inesperado caso a ser resolvido vem atender seus anseios: Um convite inusitado para um fim-de-semana junto de vários amigos pessoais do excêntrico bilionário Miles Bron (Edward Norton) em sua luxuosa ilha particular, a fim de participar de uma estranha brincadeira na qual o mistério a ser desvendado vem a ser o de seu iminente assassinato (!). No entanto, há um outro mistério pairando no ar: Ninguém conhece Benôit Balnc (salvo sua alardeada fama, claro), e Benôit Blanc não conhece ninguém. Quem, então, enviou-lhe o convite para que participasse da reunião?

Tal convite, diga-se, é entregue no prólogo, aos demais convidados, na forma de uma caixa enigmática e elaborada a qual eles devem decifrar vários enigmas até abrí-la por completo (no melhor estilo “Código Da Vinci”) para então encontrar o cartão de convite; e tais convidados são: A candidata à senadora Claire Debella (Kathryn Hahn, de “Um Amor A Cada Esquina” e da série “WandaVision”); a fútil modelo Birdie Jay (Kate Hudson) em vias de chegar à precoce aposentadoria da profissão; o cientista Lionel Toussaint (Leslie Odom Jr.), o digital influencer Duke Cody (Dave Bautista), junto de sua ostensiva namorada Whiskey (Madelyn Cline, de “Boy Erased”) e a maior responsável pela fortuna de Miles, Cassandra Brand (Janelle Monáe, de “Estrelas Além do Tempo”) e, por conta de um golpe aplicado no passado pelo próprio Miles, tida pelos demais como persona non grata na ilha.

Todos –talvez, com a exceção de Cassandra e do próprio Benôit –se encontram lá, menos pela forte amizade por Miles Bron, e mais porque cada um, por diferentes razões, depende dele e de seu dinheiro para manter o elevado status de vida, e todos se tornam suspeitos quando, em determinado momento, mortes começam a acontecer –e nenhuma se trata da morte de Miles, veja só!

Como todo o bom suspense que se preza –e que parece fazer muito o gosto do diretor e roteirista Rian Johnson, apaixonado por tramas complexas –nada é o que parece ser, e revelações pontuais acabam não apenas modificando por completo as relações inicialmente presumidas entre os personagens, como também dando rumo completamente inesperado ao próprio filme. Está aqui, pois, um verdadeiro desafio aos expectadores que se acreditam capazes de tentar antecipar e adivinhar as vindouras guinadas de um argumento.

Além de urgir com rara concisão uma trama cheia de admiráveis reviravoltas –algumas tão radicais que podem soar em princípio implausíveis –e contar com um elenco absolutamente estelar e bem calibrado na composição dos integrantes dessa intriga (além dos já citados, também Hugh Grant, Angela Lansbury e Ethan Hawke fazem pequenas participações), Rian Johnson conduz tudo com um vibrante bom humor, conferindo fina ironia à ocasional morbidez e charme irrestrito ao andamento investigativo. Se continuar nesse elevado nível de qualidade, o personagem Benôit Blanc haverá de se consagrar como o protagonista da melhor sequência de filmes de detetive nos tempos atuais.

domingo, 20 de novembro de 2022

Algumas Previsões Para o Oscar 2023


 Tudo Em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo

Louvado por muitos como o melhor filme de 2022, o trabalho dos diretores Daniel Kwan e Daniel Scheinert é uma obra surpreendente que ousa, inclusive, ao tratar do tema de multiverso no mesmo ano em que a toda-poderosa Marvel Studios discorreu sobre o mesmo assunto no blockbuster “Doutor Estranho No Multiverso da Loucura”.

Todavia, o filme de Kwan e Scheinert vai além: Ele aborda reflexões existenciais numa roupagem que combina drama, humor e ação numa mesma proporção sem acomodar-se em genêro nenhum.

Um choque de ineditismo que lembra o feito das Irmãs Wachowsky em 2000 com o cult-movieMatrix”. Naquela época, entretanto, a Academia de Artes Cinematográficas não estava pronta para tamanha inovação (e ainda assim, “Matrix” saiu-se com quatro prêmios técnicos), e agora, estariam os votantes prontos para finalmente premiar a grande surpresa do ano?


Elvis

A música não deixa Baz Luhrman; Baz Luhrman não deixa a música. Após duas décadas de seu aclamado “Moulin Rouge”, o diretor australiano retorna –de certa maneira –ao gênero que lhe foi tão caro, desta vez, contando uma história que a tempos o cinema andava devendo: Uma biografia digna e emocionante de ninguém mais, ninguém menos, do que Elvis Presley, o Rei do Rock.

De quebra, “Elvis” ainda revela o talento hiperlativo do jovem Austin Butler que entrega um trabalho primoroso  ao cantar, dançar e atuar como Elvis, tirando de letra um desempenho que representaria um desafio para qualquer um.


The Fabelmans

Naquele que parece ser sua obra mais pessoal, o gigante Steven Spielberg volta suas lentes para uma trama auto-biográfica que gira em torno de sua própria família.

Realizado num esquema independente –tática que Spielberg, habituado à superproduções, não adotava havia décadas –“The Fabelmans” estreou no Festival de Toronto, berço de algumas das mais aclamadas obras independentes da temporada, e vem conquistando larga aprovação da crítica, além de uma quase garantida oportunidade no Oscar, caminho que, é bem verdade, quase todas as realizações de Spielberg acabam trilhando.

Os mais entusiasmados dão como certa a indicação de Melhor Atriz para Michelle Williams.


Babylon

Todos os três trabalhos anteriores do diretor Damien Chazelle –“Whiplash-Em Busca da Perfeição”, “La La Land-CantandoEstações” e “O Primeiro Homem” –tiveram belas campanhas no Oscar. Sua quarta realização promete manter essa constante; também pudera: Com um elenco estelar –que inclui Margot Robbie, Brad Pitt e Tobey Maguire –“Babylon” aborda o deslumbramento e os escândalos que cercaram os astros da fase áurea do cinema na década de 1920.


The Whale

O diretor Daren Aronofsky adora pegar grandes intérpretes e arremessá-los para fora de suas zonas de conforto: Foi assim com Mickey Rourke em “O Lutador”, com Natalie Portman em “Cisne Negro” e com Jennifer Lawrence em “Mãe!”.

Não obstante a eventual incompreensão de parte da crítica, ele obtém certa aclamação com isso, e as coisas parecem seguir um rumo bastante parecido com o novo “The Whale”.

Trazendo de volta à ribalta o desaparecido Brendan Fraser –que, muitos garantem, estar entregando a atuação de sua vida! –Aronofsky criou um drama sobre o processo árduo de rejeição, recuperação e aceitação centrado num personagem obeso, homossexual e depressivo, tendo recebidos aplausos de pé em sua estréia no Festival de Veneza.


Top Gun-Maverick

Uma grata surpresa para muitos e uma produção saudada como a grande prova de que financeiramente o cinema havia enfim superado o hiato de público ocasionado pela pandemia, a continuação do cultuado clássico oitentista “Top Gun” ostentou tamanha qualidade técnica e artistica quando aportou nas salas de cinemas que logo foram cogitadas as possibilidades dele concorrer ao Oscar.

As chances maiores repousam nas categorias técnicas é claro –as sequências de combate aéreo são particularmente um show de fotografia, montagem e efeitos visuais –embora existam aqueles que apostem numa colher de chá nas categorias mais artísticas –o roteiro segue uma fórmula razoável para a continuação que se propõe, mas é assinado por Christopher McGuarie, que ganhou o Oscar de Roteiro Original por “Os Suspeitos” –além da forte possibilidade de repetir, tal e qual o anterior em 1987, a vitória na categoria de Melhor Canção Original –desta vez com “Hold My Hand”, composta e interpretada por Lady Gaga.


The Batman

Outro que certamente marcará presença nas categorias técnicas –minha aposta vai especialmente para Melhor Maquiagem e Cabelo graças à assombrosa transformação de Colin Farrell no mafioso Pinguim –o filme dirigido por Matt Reeves revelou-se de tal forma surpreendente (afinal, alguns ainda tinham lá suas ressalvas com o fato do ótimo Robert Pattinson interpretar Bruce Wayne/Batman) que não apenas foi recebido como o melhor filme do Batman realizado até hoje (superando até as aplaudidas produções de Christopher Nolan) e Pattinson agraciado como o melhor dentre todos os intérpretes do herói, como seus fãs praticamente exigem um mínino de reconhecimento no Oscar.


Até Os Ossos

A última vez em que o diretor Luca Guadagnino e o jovem astro Timothée Chalamet se juntaram foi no elogiadíssimo romance homossexual “Me Chame Pelo Seu Nome”.

Agora, eles adicionam à mistura novos nomes consagrados, como Mark Rylance e Chloe Sevigny, e uma inusitada pitada de canibalismo e o resultado é o desconcertante “Até Os Ossos” que promete seguir um caminho de aclamação muito parecido.


Glass Onion-Um Mistério de Entre Facas e Segredos

Quando foi anunciada a sequência da pérola de suspense “Entre Facas e Segredos”, a Netflix não perdeu tempo: Tratou de pagar um valor estratosférico para o astro Daniel Graig voltar ao personagem do detetive Benoit Blanc, negociou a exclusividade da produção com o diretor Rian Johnson (de “Star Wars-Os Últimos Jedi”) e certificou-se de trazer um elenco tão arrojado, numeroso e célebre quanto o notável filme anterior (entre outros estão Kate Hudson, Ethan Hawke, Edward Norton, Dave Bautista e Kathryn Hahn).

Assim que foi lançado na plataforma, “Glass Onion” arrebatou público e crítica revelando-se espantosamente superior ao filme original, qualidades que, garantem os apreciadores, não haverão de passar despercebidas aos membros da Academia.


Avatar-O Caminho da Água

Por fim, é impossível não mencionar um dos mais aguardados filmes do ano –senão O mais aguardado: Lá se vão treze anos desde que o diretor James Cameron tomou o mundo de assalto com a revolucionária tecnologia 3D e com a criação assombrosa do planeta Pandora em “Avatar”.

O tempo decorrido só fez aumentar a expectativa dos fãs em torno da continuação (que é prometida como a primeira de outras três!) e fomentou a promessa de que o efeito 3D, desta vez, seria ainda mais arrebatador aos sentidos do público.

“Avatar-O Caminho da Água” ainda não estreou (teve, quando muito, alguns trailers exibidos nos cinemas), mas os expectadores não têm dúvidas de que ocupará um lugar de destaque na próxima cerimônia do Oscar (e em outros prêmios também), até porque, entre outros talentos, Cameron é brilhante na construção de continuações: O seu “Exterminador do Futuro 2” é, e provavelmente sempre será, imbatível do quesito de continuação tão válida e pertinente quanto o original; e ele também assinou “Aliens-O Resgate”, a única sequência verdadeiramente dotada de tanto brilho e originalidade quanto o primeiro “Alien”.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Entre Facas e Segredos


 Após a polêmica recepção de “Star Wars-OsÚltimos Jedi” –que apesar de suas elevadas qualidades, dividiu os fãs –o roteirista e diretor Rian Johnson dedicou-se a um projeto capaz de acomodar sem estranhezas suas qualidades como realizador: Um suspense pontuado de enigmas a serem desvendados, no melhor estilo Aghata Christie.

Nele podemos, portanto, notar a grande especialidade de Johnson: Compor uma história cheia de mistérios e guinadas súbitas, onde cada elemento contribui para a manutenção de um suspense ferino, irônico e eficiente.

Uma semana depois que o escritor de best-sellers Harlan Thrombey (Christopher Plummer, sempre maravilhoso) é encontrado morto, sua jovem e dedicada enfermeira, Marta (Ana De Armas, sensacional) é chamada à mansão da família para uma nova rodada de interrogatórios. Desta vez, quem presta consultoria à polícia –já ávida por encerrar o caso dando a morte como suicídio –é o detetive particular Benoit Blanc (Daniel Craig, magnífico com um estudado sotaque do Kentuchi) que fora contratado por um misterioso cliente anônimo.

De imediato, Blanc identifica o ninho de cobras (e a coleção de suspeitos em potencial) que é a família do falecido: A indulgente filha mais velha, Linda (Jamie Lee Curtis), além de casada com o infiel Richard (Don Johnson), tem como filho o almofadinha Ramson (Chris Evans); o filho caçula, Walt (Michael Shannon), despido de qualquer talento, nada mais faz do que gerenciar de modo medíocre a fortuna produzida pelo pai; e a nora, Joni (Toni Collete), viúva do filho do meio, é uma socialite que procura extorquir dinheiro do milionário usando a faculdade da filha (Katherina Langford) como justificativa.

Na noite em que Harlan apareceu morto, todos tiveram seu tapete puxado pelo patriarca –e todos, portanto, tinham razões para matá-lo.

Contudo, o detetive Blanc identifica na humilde Marta uma peculiaridade que pode ajudá-lo em sua investigação: Por uma curiosa condição fisiológica, Marta vomita toda a vez que tenta mentir –entretanto, ainda assim, ela tem lá seus segredos à esconder!

A trama de “Entre Facas e Segredos” é um novelo que o roteiro não se furta de tornar ainda mais intrincado a medida que vai avançando sua narrativa (ou regressando, visto que muito dela se abastece de flashbacks que revitalizam algumas informações e, não raro, oferecem percepções opostas de informações previamente fornecidas); o que só denuncia o talento inquestionável de Johnson no equilíbrio de inúmeros elementos que regem o gênero, e no manejo hábil e esperto de detalhes que num momento parecem meros adereços, para no instante seguinte revelarem-se peças cruciais de suas imprevistas reviravoltas.

Um corpo inusitado no cinema norte-americano por sua inteligência e sagacidade, “Entre Facas e Segredos” faz o expectador vibrar de tempos em tempos com as guinadas magistrais de sua premissa, e com o teor incrivelmente envolvente de sua investigação, além de brindar o público com um elenco vasto, talentoso e estelar.

Um filmaço.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Vigaristas


 O estilo de Rian Johnson encontra certa similaridade com o de Martin McDonagh, embora seja despido, diferente dele, de um contumaz fatalismo.

Johnson tem um apreço fora do comum pelos rumos quase sempre imprevistos que um roteiro é capaz de dar à narrativa e, sob a luz dessa percepção, praticamente todos os seus filmes são construídos –inclusive o incompreendido “Star Wars-Episódio VIII-Os Últimos Jedi”.

Datado de 2008, “Vigaristas” acompanha as peripécias de dois irmãos, Stephen (o inspiradíssimo Mark Ruffalo) e Bloom (Adrien Brody) por um mundo muito parecido com o nosso em suas características humanas, sociais, intelectuais e culturais.

Contudo, há uma série de elementos que conspiram a favor da ideia de que tal mundo onde transcorre a história é outro que não o real: Nele, os personagens dialogam numa verve poética e despojada, onde sentimentos e considerações insólitas fazem parte corriqueira do ato de interagir; e algumas leis da física e da ciência se aplicam com curiosa ambiguidade, contribuindo para o caráter deliberadamente inesperado da história.

O ofício de Stephen e Bloom nada mais é que aplicar golpes que provêm um certo meio de vida aos dois, e à Bang Bang (Rinko Kikuchi), a intrigante garota japonesa que os acompanha quase sempre como ajudante.

Stephen planeja tais golpes com a astúcia desigual de sua mente aguçada e Bloom, com suas feições de inocência crônica, trata de camuflar os embustes.

Mas, essa característica de Bloom não é fingimento: Ele realmente encontra certa perplexidade no ato do irmão enganar a tudo e a todos sistematicamente; e um sentimento de remorso o ronda toda vez que acontece.

À esse sentimento, somam-se uma série de outros mais, quando os dois irmãos decidem enganar a jovem Penelope Stamp (Rachel Weisz, luminosa) para dela usufruir da fortuna; a ideia é que Bloom, com seu jeitão de bom-moço, seduza a garota.

Entretanto, se isso vem a acontecer –inclusive, porque Penelope é, também ela, astuta e cheia de truques –o sentimento é recíproco: Bloom encontra em Penelope alguém por quem se importar, e ele não deseja vê-la prejudicada por mais um dos golpes do irmão.

Na atenção sempre interessada e interessante dessa dinâmica, o filme de Johnson passeia por verdades e inverdades, mentiras e golpes armados que fascinam pela forma sempre inesperada com que acabam se descortinando ao público, oferecendo contínuo atrativo à narrativa.

Nessa direção cheia de esperteza e segurança de Johnson, o brilho de Weisz e Brody é inconteste, mas é Mark Rufallo e seu vigarista a um só tempo perigoso e apaixonante, afetuoso e nada confiável, que torna antológica a experiência de ver o filme.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Star Wars - Episódio 8 - Os Últimos Jedi

Tarefa complicada essa assumida por Rian Johnson: Dar continuidade, neste segundo filme da terceira trilogia da saga “Star Wars”, ao enredo e aos personagens concebidos por J.J. Abrahams em “O Despertar da Força”.
Não apenas isso: Suprir os anseios de tantos fãs –que ao longo desses últimos dois anos, elaboraram milhares de teorias sobre quem seriam os pais de Rey (a maravilhosa Daisy Ridley) e de qual seria o seu futuro –e responder a contento inúmeras perguntas que ficaram sem resposta; isso tudo e ainda segurar o rojão da inevitável expectativa de que –sendo este o capítulo do meio –ele teria de igualar em qualidade, espanto e ressonância emocional o adorado “O Império Contra-Ataca”, preferido de nove entre dez fãs da saga criada por George Lucas.
Por tudo isso é um tanto injusto que muitos já reclamem que o filme é longo demais (não é), que sua primeira parte é muito arrastada (nem tanto) e que o trabalho de Johnson, como diretor, não consegue obter o mesmo encanto de Abrahams no filme anterior (longe disso...).
O quê Rian Johnson faz –e, talvez, isso explique a reação rabugenta de alguns –é subverter as expectativas.
Quando “O Despertar da Força” encerrou-se, Rey enfim encontrava Luke (Mark Hamill), o assim alardeado último jedi para devolver a ele seu sabre de luz e convidá-lo, digamos assim, para juntar-se à Resistência, comandada por sua irmã Léia (Carrie Fisher, falecida poucos meses após as filmagens), na luta contra a Primeira Ordem, um resquício do que foi o Império Galáctico.
Por dois anos, os fãs tinham certeza de que, o filme que se desdobraria a partir daí, mostraria Rey sendo treinada por Luke, e de lá partindo para enfrentar as forças do mal.
Porém, o roteiro de Johnson contorna completamente o óbvio, preferindo mostrar o lado humano dos heróis, as discordâncias dentro da nobre Resistência e a fragilidade de uma causa em meio à guerra.
Após a destruição da Base Starkiller, no fim do último filme. Descobrimos que não há muito que comemorar para a Resistência, afinal, a Primeira Ordem sabe a localização de seu reduto e apesar da derrota ainda tem recursos para esmagá-los –e, na cena formidável que abre o filme, já começa a movê-los para fazer exatamente isso!
É também nessa cena em que Rian Johnson explora suas particularidades como diretor (mais atento aos detalhes inesperados do que Abrahams), e começa amostrar a que veio o personagem mais desperdiçado do outro filme, Poe Dameron (o ótimo Oscar Isaac), que obtém aqui uma extraordinária importância e solidez junto a trama.
Só então, após nos contextualizar na trama dos outros personagens para além do final enganosamente feliz do filme anterior, que Johnson nos leva de volta à cena que encerrou o filme de Abrahams, para prosseguir além dela de maneira desconcertante: Luke, veja só, não quer nada com a resistência e seu exílio justifica a negativa para o pedido da jovem. Ele conhece muito bem as vicissitudes da Força, que Rey está só começando a notar.
Também Finn (John Boyega), o outro protagonista, ao lado de Rey, introduzido em “O Despertar da Força”, tem lá seus problemas: Ao lado da dedicada e idealista Rose (Kelly Marie Tran), ele precisa infiltrar-se num destróier inimigo e desabilitar o mecanismo prodigioso que está permitindo à Primeira Ordem caçar e exterminar a Resistência por toda a galáxia. Para tanto, eles têm como peça fundamental o auxílio algo duvidoso de um escorregadio trapaceiro (Benicio Del Toro, cujo personagem, para surpresa de muitos, não tem tanta importância assim no final das contas). Enquanto Finn, Rose e o dróide BB-8 se arriscam nessa empreitada, cabe a Poe Dameron impedir que o comando indulgente de uma nova oficial (Laura Dern, uma surpresa) comprometa o quê ainda resta da Resistência.
Do outro lado da contenda, Kylo Ren (Adam Driver, excelente), sobrinho de Luke, filho de Léia e assassino de Han Solo, seu pai, é confrontado com suas limitações e frustrações. Mais do que ameaçar o favoritismo cultivado com ele junto ao maquiavélico Líder Supremo Snoke (Andy Serkis), elas o afastam de seu objetivo mais pessoal de fato: Igualar o poder e a lenda de seu avô, Darth Vader.
O trabalho de Rian Johnson então faz pela saga o quê ele já mostrou fazer bem em outros grandes filmes, como “Vigaristas” e “Looper-Assassinos do Futuro”: Explorar um ambiente, mesmo que fantástico e orquestrar as motivações íntimas com as conseqüências épicas e dessa conjugação extrair momentos surpreendentes.
E Johnson sabe manipular as ferramentas narrativas que têm em mãos: Ele entrega momentos reveladores e instigantes durante o prolongado período em que Rey confabula com Luke em seu exílio –trecho esse que representa o maior alvo das reclamações do filme –observa com um apuro muito mais atento que Abrahams as variações psicológicas mais sutis de seus personagens –e, nesse sentido, sem entregar nenhuma surpresa (e a partir de um ponto, elas serão inúmeras!), as ramificações acerca das personalidades de Rey e de Kylo Ren são as mais notáveis –e elabora cenas brilhantes e espetaculares, marca registrada de uma saga famosa pela proeminência de seus efeitos especiais, mas aqui tratadas com um refinamento e uma singularidade visual flagrantes: Sendo os melhores exemplos, a impressionante sequência de sacrifício de uma das personagens dentro de um cruzador da Resistência, e a batalha final em um deserto de areia vermelha coberto de sal.
Durante todos esses percalços, Johnson trata de conduzir seu roteiro com a precisão de quem quer (e em diversas passagens consegue) fazer algo até inédito em “Star Wars”: Surpreender o público com lances sofisticados e emocionantes de uma trama pontuada por reviravoltas.

“Star Wars” está em um outro nível agora, e nesses próximos dois anos até o “Episódio IX” só podemos supor para onde esses personagens e sua instigante dinâmica revelada aqui irão nos levar.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Looper - Assassinos do Futuro

Realizador do ainda vindouro “Star Wars-Episódio VIII” e de alguns episódios da série "Breaking Bad", além do curioso filme “Vigaristas”, Rian Johnson constrói este surpreendente conto de ficção científica lembrando muito o estilo rocambolesco e fascinante de Christopher Nolan, oferecendo uma percepção inusitada do tempo e de suas manipulações ocasionadas por esse tipo de trama.
A verdade é que Johnson tem uma visão incomum sobre os elementos paradigmáticos que regem um gênero e, se já foi prazeroso vê-lo brincar com isso em “Vigaristas”, aqui é incrível testemunhar os caminhos inesperados com os quais ele dá solidez ao seu roteiro.
2044. No universo de criminalidade urbana concebido por Johnson, os personagens (à um passo da marginalidade) convivem com uma realidade tão inacreditável quanto paradoxal: Nos trinta anos à frente as viagens no tempo serão uma possibilidade, ainda que ilegal. Dessa forma, execuções são realizadas enviando os condenados ao passado para serem eliminados por atiradores denominados "loopers".
E nada mais proveitoso, rentável e tranquilo do que lucrar com a morte de alguém que não necessariamente morreu “ainda”...
Assim, os “loopers” enriquecem obedecendo a mais rígida e banal das disciplinas: Matam quem se teleporta vindo do futuro no horário e lugar estabelecido, livram-se do corpo e vão colher os frutos de uma missão cumprida.
Mas a carreira dos "loopers" é também fugaz. Mais cedo ou mais tarde, eles recebem a si mesmos, vindos do futuro, para exterminar, evento que costuma encerrar suas carreiras, permitindo que passem a aproveitar os anos que lhes resta de vida.
Providencialmente, um desses “loopers”, Joe (o ótimo Joseph Gordon-Levitt, ator que, de uma forma ou de outra, sempre aparece nos filmes de Rian Johnson), falha em executar seu "eu futuro" (personificado, por sua vez, por Bruce Willis, num interessante trabalho de equivalência de trejeitos com Gordon-Levitt) que agora se encontra a solta, disposto ao que tudo indica, a cumprir uma missão a fim de alterar o futuro. Missão essa que parece relacionada a um misterioso garotinho vivendo numa fazenda com sua jovem mãe (a bela Emily Blunt).
Dessa maneira, é justo e correto dizer que não é um, mas vários os filmes que se descortinam em “Looper-Assassinos do Futuro”.
Há o filme inteiramente centralizado na figura de Gordon-Levitt, e que joga interessante luz sobre o dia-a-dia dos “loopers”, com personagens inclusive que, à despeito de se mostrarem curiosos, serão meio que descartados no segmento seguinte, o segundo filme que “Looper” é, e que inicia-se com a chegada de Bruce Willis. Um novo filme, que joga uma luz interessante sobre os eventos expostos no começo, e parece atrair ainda mais a atenção do expectador: Então, este não é mais um filme de ação genérico, como a enganosa presença de Willis poderia, em princípio, sugerir.
O terceiro filme dentro de “Looper” –e que responde por seu terço final –é o mais incomum de todos. Johnson joga fora a ambientação urbana e coloca seus personagens, assim como o elaborado conceito fantástico que os cercam, em uma fazenda (!), onde escolhas atrozes e surpreendentes terão de ser feitas.

Eis aqui, portanto, uma prova e tanto de que pode ser este cara, Rian Johnson, a fazer o melhor de todos os “Star Wars”!