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sábado, 8 de agosto de 2026

Vivo Ou Morto - Um Mistério de Entre Facas e Segredos


 Neste “Vivo Ou Morto” já chegou-se num ponto em que o ator Daniel Craig interpreta o personagem Benôit Blanc como alguém que ele conhece e compreende integralmente (processo que ele certamente também experimentou vivenciando o agente 007), em que o roteiro e a direção de Rian Johnson já se acostumaram de tal forma a manipular o intrincados elementos do gênero policial investigativo, que sua condução é instintiva, sua descoberta das reviravoltas pontuais (e até inevitáveis) em seu plot é tão orgânica quando a capacidade de dissimulação plantada habilmente em seus personagens.

Terceira parte de uma trilogia iniciada com “Entre Facas e Segredos” e continuada com “Glass Onion” – e adquirida, do segundo exemplar em diante, pela Netflix – este “Vivo Ou Morto” traz toda a habilidade para tramas articuladas com infindável ardil por seus personagens que Johnson tão bem soube esbanjar em praticamente todas as produções que assinou, sendo superior à “Glass Onion”, porém, ainda inferior ao primeiro filme, o melhor de todos.

Antes do protagonista Benôit Blanc dar as caras, somos apresentados aos demais protagonistas desta trama – até porque, Blanc, diferente dos outros personagens, prescinde de apresentações, funcionando agora quase como um mestre de cerimônias – a começar pelo principal de todos, o padre Jud Duplenticy (o carismático Josh O’Connor, de “Dia D”), um ex-boxeador que largou os rings para dedicar-se à batina após matar um oponentes à socos. Por seu temperamento (e por saber muito bem como usar seus punhos quando provocado), Padre Jud é enviado à longínqua paróquia de Nossa Senhora da Perpétua Fortaleza, comandada pelo Monsenhor Wicks (Josh Brolin), cujos métodos de pregação, Jud vai perceber com o passar dos dias, vão muito além do meramente não ortodoxo: Wicks possui uma oratória agressiva, egocêntrica e prepotente e mantém cativo um grupo muito específico de fiéis que aliena com sua pregação raivosa. Qualquer outra pessoa da fora (e isso inclui o próprio Jud) é excluída quase que imediatamente.

Os fiéis em questão: A serviçal da igreja Martha Delacroix (Glenn Close) e seu marido, Samson Holt (Thomas Adden Church), ambos habituados a surgirem repentinamente nos momentos mais inoportunos; o médico Dr. Nat Sharp (Jeremy Renner), um poço de amargura desde o abandono da ex-esposa; o escritor fracassado Lee Ross (Andrew Scott, de “1917”); a jovem violoncelista Simone Vivane (Cailee Spaeny, de “Alien-Romulus”) presa a uma cadeira de rodas que aguarda, resignada, por um milagre; a advogada Vera Draven (Kerry Washington) obrigada pelo pai a criar um irmão adotivo com quem nunca se acertou; e o próprio irmão adotivo Cy Draven (Daryl McCormack, de “Boa Sorte, Leo Grande”), rapaz indiferente e esnobe, obcecado em fazer sucesso como influencer do youtube.

Todas pessoas ostentando neuroses que deveriam ser curadas pela fé, mas que o Monsenhor Wicks tão somente manipulou para continuarem suas fanáticas devotas. Cada um deles tinha um motivo para dar cabo do Monsenhor Wicks – principalmente após uma reunião à portas fechadas que culminou num rompimento completo entre Wicks e todos eles – e Padre Jud, mais do que todos eles, chegou a exprimir suas intenções numa confissão.

O problema é que, numa homilia matutina, o Monsenhor Wicks acaba realmente morto, esfaqueado nas costas, num recinto apertado sem espaço para uma segunda pessoa e sem quaisquer meios de ser invadido.

Como tal crime foi perpetrado? E quem está por trás dele?

A comunidade logo aponta o dedo para o novato Padre Jud que, em desespero, recorre aos conhecimentos prodigiosos de dedução e investigação do detetive Benôit Blanc chamado à cidadezinha pela xerife local, Geraldine Scott (Mila Kunis).

Tendo conferido as duas obras anteriores, é fácil para o expectador antecipar o que encontrará nesta produção aqui: Como em “Entre Facas e Segredos” e “Glass Onion”, Rian Johnson reúne, em torno de seu protagonista Blanc, um time vasto de personagens excêntricos e com motivações obscuras, interpretado por um elenco repleto de estrelas do cinema hollywoodiano. E como nos outros filmes, está aqui também o enredo muito decalcado dos clássicos intrincados de Agatha Christie, onde o crime só termina elucidado após diversas pistas se revelarem falsas e toda uma teia de segredos a interligar as mais diversas e inesperadas atitudes for revelada.

Contudo, o quê não é tão fácil assim antecipar é como Rian Johnson haverá de manejar todos esses ingredientes, sobretudo, quando e quais serão as reviravoltas surpreendentes que arremessarão os acontecimentos para rumos totalmente inesperados. Seu roteiro até mesmo brinca com essa possibilidade, sugerindo certas surpresas iminentes só para subverter algumas expectativas e seguir surpreendendo. O uso imodesto e ininterrupto de tal recurso pode soar um pouco mirabolante e improvável para o público, mas Rian Johnson o faz com tanta convicção e com tanto conhecimento de causa que o resultado mais diverte do que confunde.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Ressaca de Amor


Impregnado do senso de humor norte-americano e algo sofisticado que virou tendência após o sucesso de “Ligeiramente Grávidos”, de Judd Aptow (que, aliás, é produtor do filme), este “Ressaca de Amor” é –como todas as outras produções que vieram dessa trupe –uma observação bem-humorada (ao seu jeito) das idiossincrasias sentimentais, ainda que todo o seu enredo se abasteça sistematicamente de tristeza e sofrimento.
Peter (Jason Segel, também roteirista do filme) sofre copiosamente pelo fora que recebeu. Seu namoro com Sarah Marshall (Kristin Bell) já era deprimente antes mesmo disso: Atriz famosa, ela era estrela da série de TV onde ele era apenas o compositor da trilha sonora.
Aconselhado a afogar as mágoas numa viagem paradisíaca, Peter vai para um resort no Havaí e se hospeda no mesmo hotel onde descobre, mais tarde, que sua ex também está (!), agora acompanhada do novo namorado, a estrela do rock Aldous Snow (Russel Brand, cujos trejeitos estranhamente lisérgicos roubam com facilidade a cena).
O personagem de Brand, diga-se, ganhou logo depois um filme só seu, “O Pior Trabalho do Mundo”, dirigido pelo mesmo Nicholas Stoller que se encarrega deste “Ressaca de Amor” –mas, voltemos ao protagonista: Apesar de sua má sorte e da comiseração de Peter, a providência vem em seu socorro –como toca num filme de ficção maniqueísta –na forma da linda recepcionista do hotel (Mila Kunis, deslumbrante) que resolve ajudá-lo.
Da forma como se desenvolve, “Ressaca de Amor” não esconde que é metade dor de cotovelo (a rejeição retratada em todas as suas angústias ora ridículas, ora comoventes; a ex-namorada com ares de megera), metade fantasia masculina (a personagem da recepcionista que não somente é linda e compadecida, mas também disponível, perspicaz, inteligente e carinhosa; tudo que a ex não é).
O que vemos então, nesta amostra imperfeita, mas longe de ser lamentável, do estilo de humor difundido por Aptow e sua turma, é um filme que começa falando sobre a incapacidade de aceitar a separação, e pouco a pouco se torna uma comédia romântica –para alguns, uma ilustração ácida e debochada da imatura mentalidade masculina que parte do ressentimento para ir de encontro à idealização.

quarta-feira, 21 de março de 2018

O Destino de Júpiter

É fato que as Irmãs Wachowsky nunca mais conseguiram repetir o feito (um tanto quanto singular) de criar algo tão antológico e marcante quanto “Matrix” –nem em suas bem acabadas continuações elas chegaram a obter esse êxito.
Não que não tivessem tentado: Nas últimas décadas, eles... ops, desculpem, elas (!) entregaram uma versão live-action para cinema frenética, ainda que pouco eficaz, do anime “Speed Racer”, e uma ambiciosa (e presunçosa) adaptação do complexo romance de David Mitchell, “A Viagem”.
A sua tentativa mais próxima, contudo, de criar uma saga nos mesmos moldes comerciais de “Matrix” foi mesmo este “O Destino de Júpiter” que ironicamente parece beber da fonte de outra grande saga da ficção científica: “Star Wars”.
Embora ainda haja algo que remete ao conceito de “Matrix” na premissa de um mundo fantástico que se esconde debaixo de uma fachada de realidade normal, é certamente a criação de George Lucas que mais influencia os seres extraterrestres e as intrigas espaciais de ordem intergaláctica que norteiam este filme freqüentemente estranho, onde é difícil dizer se essa estranheza resulta por ser proposital ou porque as realizadoras não tiveram desenvoltura para evitá-la.
Interpretada com a habitual solidez da belíssima Mila Kunis, a protagonista, a jovem Júpiter Jones, vem a ser filha de imigrantes ucranianos que vivem em Nova York a encarar os revezes de uma vida paupérrima: Sua rotina é acordar de madrugada e limpar latrinas.
Todavia, Júpiter (cujo nome lhe foi dado pelo pai, apaixonado astrônomo falecido) como dita a cartilha hollywoodiana de tramas com tal apelo, não é uma pessoa comum –e isso se nota quando surgem em seu encalço seres vindos do espaço, uns desejosos de matá-la, outros, de protegê-la. E nesse ponto, as Wachowsky perdem completamente a chance de realizarem o aplicado trabalho de ação que exerceram em sua obra mais famosa, dando às cenas vertiginosas de “Destino de Júpiter” um registro convencional e desanimado.
A resposta para as atribulações mirabolantes que se abatem sobre a perplexa protagonista na primeira parte do filme é inesperada: Júpiter vem a ser a encarnação de uma rainha espacial do passado, em cuja herança está todo o planeta Terra!
Uma vez que ela, agora descoberta, se tornou alvo das conspirações de seus próprios herdeiros (entre os quais o mais proeminente é um efeminado e constrangedor Eddie Redmayne, pouco antes de levar o Oscar de Melhor Ator por “A Teoria de Tudo”), ela precisa contar com a ajuda do agente Caine (Channing Tatum, visivelmente o fetiche das diretoras), uma mistura atlética e supina de canino e humanóide (!), já que afinal todos os traiçoeiros membros de sua ‘família real’ estão de olho da Terra que, na realidade, trata-se do maior celeiro (!) de hospedeiros de todo o universo –as raças mais evoluídas têm uma tecnologia que os permite migrar de um corpo jovem para outro sem jamais serem alcançados pelo envelhecimento e pela morte.
Assim sendo, tal e qual seu cultuado "Matrix", as Irmãs Wachowski tentaram criar uma trama inusitada (no que, a princípio, elas seriam exímias), onde as camadas normais da realidade ocultam um mundo todo diferente, dotado de mitologia e complexidade próprias. Sua intenção se perde da pretensão de fazer desta uma nova e grandiloquente saga –pontuada por suas descabidas reflexões existenciais de botequim –e na execução frouxa cujos equívocos vão se acumulando até soarem incabíveis: Para se ter uma idéia do desleixo, existem dois clímax que se sucedem da mesma forma e com as mesmas justificativas (quase como uma mesma cena repetida duas vezes!).
O detalhismo rebuscado, e o esmero visual poderiam até ter feito deste um espetáculo acima da média, não tivessem desta vez as Wachowski errado de maneira tão espetacular: Esta tremenda demonstração de negligência resultou em vergonhosas indicações de Piores do Ano no Framboesa de Ouro 2015, concorrendo diretamente com “Cinqüenta Tonsde Cinza”.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Oz - Mágico e Poderoso

O próprio diretor Sam Raimi admitiu que não estava animado com a idéia de um filme que revisitava o universo do clássico “OMágico de Oz”, de Victor Fleming, mas o roteiro escrito por Mitchell Kapner e David Lindsay, inspirado em elementos pouco conhecidos da série de livros de L. Frank Baun, ambientados em Oz, e repleto de espertas referências ao clássico terminou o conquistando.
E o estilo de Raimi, uma junção deliberadamente gaiata entre modernidade e anacronismo, funciona muito bem na narrativa desta história.
Voltamos aproximadamente trinta anos no tempo em relação à história na qual a menina Dorothy vai para Oz através de um furacão. Ou seja, neste roteiro, Dorothy ainda não nasceu e aquela que é sua tia Annie (vivida por Michelle Williams, que voltará, mais tarde, em outra personagem), ainda jovem, se acha indecisa entre casar com aquele que será seu futuro marido e um flerte ainda inicial com o mágico (vivido com entusiasmo por James Franco que trabalhou com Raimi em sua trilogia do “Homem-Aranha”).
Em algum momento desse prólogo em preto & branco (e também achatado num formato de tela quadrado 4:3 adotado por Raimi), o expectador mais informado sabe que haverá um furacão e que por meio deste, o mágico será conduzido ao espetacular e aí então colorido mundo de Oz (e não só as cores despontam esplendorosas em cena, como a tela também adquire o formato widescreen).
O mágico –um personagem de moral questionável no qual a atuação de Franco remete aos trejeitos normalmente associados à Johnny Depp –se encontra assim num mundo dotado de magia de verdade, com personagens genuinamente dotadas de magia, como a bruxa do oeste Theodora (a linda Mila Kunis), a primeira a encontrá-lo, e as demais bruxas, Evanora, do Leste (Rachel Weisz) e Glinda, do Sul (novamente, Michelle Williams).
Fugindo do que se supõe por óbvio num filme como este, o roteiro ludibria protagonista e plateia mostrando Theodora e Evanora como personagens boas para revelar suas intenções reais a partir da metade do filme, quando Glinda é introduzida e conhecemos melhor o funcionamento dos antagonismos na Terra de Oz –Theodora, aliás, é um caso mais elaborado de uma personagem complexa que sofre uma metamorfose ao longo da trama, e a atriz Mila Kunis se encarrega maravilhosamente bem do recado.
Como numa espécie de tradição herdada do filme original, neste daqui, ao longo de sua aventura em Oz, o mágico encontra alguns personagens de peculiaridade temática e visual que irão lhe acompanhar em sua jornada: O subserviente macaco com asas Finley (voz de Zack Braft) e a delicada menina de porcelana (voz da jovem Joey King).
Aquela que talvez seja a sacada mais referencial e apaixonada de Sam Raimi surge perto do final, quando o plano engendrado pelo mágico se revela. Engenhoso, cheio de estratégia e carregado de ilusionismo, o tal plano consiste de derrotar o poder das bruxas com a única magia mais poderosa que a delas: A magia do cinema.
Ainda que colorido e notadamente infanto-juvenil, o trabalho exercido por Raimi não deixa de incluir alguns reflexos involuntários do diretor de filmes de terror que ele é: E “O Mágico de Oz” em si, sempre agregou, nas entrelinhas de sua mitologia, características de perversidade, incorreção política e sadismo que casam muito bem com o assombro abrupto, algo adolescente, dos filmes de terror de Raimi.

Claro que, devido ao tamanho da produção e ao alcance do filme, esta nova obra traz uma mensagem diferente do enredo pessoal e individualista –da mocinha que tão somente queria voltar para casa –falando, agora, dos esforços altruístas em ajudar toda uma comunidade e, no processo, amarrar devidamente alguns ganchos narrativos ao icônico filme de 1939.

sábado, 24 de junho de 2017

Amizade Colorida

O terreno das comédias e dos romances –e sua miscelânea, as comédias românticas –têm particular interesse no registro dos relacionamentos modernos.
O cinema mais descontraído e comercial esbaldou-se, ao longo dos anos, com registros bem-humorados dessas transformações de comportamento –que o digam clássicos do gênero, como “Adivinhe Quem Vem Para Jantar”.
Atualmente, embora nossa sociedade apresente uma certa inércia em termos de mudanças comportamentais, ocorre uma ou outra característica que reflete o nosso tempo.
E, no que diz respeito, a tentar adaptar-se da melhor forma possível às complicações do sexo, o ser humano está sempre tentando.
A idéia do relacionamento aberto, sem vínculos de obrigação entre duas pessoas, mas sob o acordo de proporcionar prazer ao seu par sempre que requisitado, não é assim tão nova (na verdade, ela não é nem um pouco nova!), mas ela certamente adquiriu novos recursos e novos propósitos com o advento das mídias digitais, dos celulares e da velocidade da informação em si –que, acima de tudo, transformou essencialmente os relacionamentos.
É o ponto de partida deste filme que –sinal dos tempos –não foi o único, naquele ano, a tratar desse assunto; também a comédia “Sexo Sem Compromisso”, com Ashton Kutcher e Natalie Portman, abordou o mesmo assunto, porém, de maneira risível e sem talento.
Este revela-se um filme muito melhor.
Ambos desiludidos com suas histórias de amor recentes, uma caça-talentos nova-iorquina (MIla Kunis, linda e cativante) e um diretor de arte vindo de L.A. (o engraçado Justin Timberlake) fazem uma combinação: Usufruir juntos dos benefícios do sexo permanecendo os bons amigos que são. Aos trancos e barrancos, e com as ocasionais complicações, eles vão levando seu acordo da forma mais descompromissada possível, mas ainda sim, aos poucos, um relacionamento real começa a surgir.
Com essa premissa e um ímpeto de observação espirituoso e perspicaz acerca das relações modernas e dos hábitos singulares dos moradores de uma metrópole, o diretor de "A Mentira", Will Gluck, elabora uma obra com intenções mais amplas que o seu bom trabalho anterior, mas, entrega no final, um entretenimento afável e romântico muito beneficiado pelo esperto entrosamento de seu casal central.

sábado, 10 de outubro de 2015

Cisne Negro

Os músculos podem doer, as unhas dos pés podem se quebrar (em cenas que, por vezes, transferem a angústia dessa dor para o expectador), mas a disposição da jovem bailarina (Natalie Portman) que protagoniza “Cisne Negro” em se superar e superar a capacidade de suas pares parece ser capaz de ignorar tudo isso.
Em alguns momentos, é bem verdade, tal dedicação não parece vir dela –aparenta, sim, ser a extensão da criação imposta pela própria mãe (Bárbara Hershey), e que reflete na jovem os anseios que antes ela alimentava para si.
Mas são muitas as coisas que aqui podem aparentar, e não necessariamente ser.
Nina, a jovem bailarina, inicia o árduo processo de treinamento da execução do balé "O Lago dos Cisnes". Dona da disputada vaga de protagonista, ela tem uma pressão a mais sobre seus ombros; deve interpretar não só a faceta do inocente e frágil Cisne Branco (papel ao qual ela se encaixa com perfeição), mas também o selvagem e sensual Cisne Negro (cuja interpretação, alguns acreditam, ela não é capaz de executar).
Ao longo dos fatigantes ensaios, ela vivencia tensões e paranóias manifestadas em cenas que podem não necessariamente pertencer à realidade, e tem de conviver com a exuberância de uma sexy bailarina rival (Mila Kunis) que parece possuir e ostentar os adjetivos que lhe faltam.
Natalie Portman está brilhante nesta tensa e fascinante obra do grande diretor Daren Aranofski, que pega elementos narrativos emprestados de várias fontes completamente distintas: A ambiguidade circular, e o registro brilhante do isolamento e da loucura executados por Roman Polanski no magistral "O Inquilino"; a ambientação algo européia que remete a um refinamento oriundo do mundo do balé presente em “Sapatinhos Vermelhos” e “Étoile” (cuja trama também girava em torno de uma bailarina oprimida pelos assombros do mundo real e do irreal); e a atmosfera dúbia, carregada de significados e múltiplas interpretações da fantástica animação japonesa "Perfect Blue".