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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Todos Menos Você


 Numa época em que comédias românticas já não são uma constante no circuito comercial, “Todos Menos Você” parece exalar um estranho desconforto por pertencer a esse gênero outrora tão difundido –e olha que o diretor, Will Gluck, pode ser enxergado como um especialista tendo realizado “A Mentira” e “Amizade Colorida”.

A verdade é que as intenções deste projeto aparentam ser unir os elementos de gênero que tanto fizeram sucesso no passado (com obras simbólicas como “Quatro Casamentos e Um Funeral”) com aspectos sociais da atualidade, como a representatividade e o vocabulário idiossincrático da modernidade, e executar uma espécie de releitura de William Shakespeare para a nova geração, uma vez que o roteiro é vagamente inspirado na farsa romântica “Muito Barulho Por Nada” –todavia, muito pouco do texto, do subtexto ou da meticulosidade do Bardo se manteve na adaptação. O resultado é um filme bastante desajeitado, convicto em relação a certos valores românticos que podem soar antiquados ao público jovem, e insistente numa comédia hesitante, ora disposta a ousar, ora restrita ao inofensivo.

O casalzinho em potencial, Ben e Bea (Glenn Powell e Sydney Sweeney, em ótima sintonia), têm obviamente todos os motivos do mundo para se estranharem; assim que se conhecem, até experimentam uma química promissora juntos, mas uma sucessão de mal-entendidos deixa um gosto amargo em seu primeiro e único encontro. Alguns meses depois, porém, o destino conspira colocando-os numa mesma festa de casamento: A irmão de Bea, Halle (Hadley Robinson, de “Adoráveis Mulheres”), vai se casar com Claudia (Alexandra Shipp, de “X-Men Apocalypse”), cujo irmão, Pete (o rapper GaTa), vem a ser o melhor amigo de Ben. O casamento será na Austrália, lar da família de Claudia, e portanto, todos os convidados serão recepcionados na casa do pai da noiva (Bryan Brown), incluindo Ben e Bea.

Temendo que a indisposição entre os dois estrague o clima de comemoração geral, os demais convidados –agindo mais como coadjuvantes conscientes desse romance do que convidados de um casamento normal –tentam intervir, e a emenda sai muito pior que o soneto: Inicialmente, procuram fazê-los gostar um do outro, o que só piora as coisas, em seguida, providenciam a presença da ex-namorada de Ben, Margareth (a modelo Charlee Fraser), agora namorando um surfista desmiolado (Joe Davidson), e do ex-namorado de Bea, o ainda apaixonado Jonathan (Darren Barnet).

A fim de livrarem-se dessa espécie de marcação cerrada de todos os demais, Ben e Bea resolvem que irão fingir, de fato, se darem bem. Melhor: eles irão fingir que estão tendo um flerte durante das festividades de casamento, o que talvez A) proporcione a Ben uma chance de reatar com Margareth e B) convença Jonathan a largar de uma vez do pé de Bea.

É claro que, na cartilha um tanto quanto maniqueísta das comédias românticas (e aqui, o maniqueísmo, por razões inúmeras se mostra ainda mais evidente e inverossímil) esses arranjos e as situações nascidas a partir dele irão levar os dois jovens e belos protagonistas a perceber que, a despeitos de suas picuinhas, se amam de verdade.

Àqueles expectadores mais exigentes, menos interessados nos reflexos condicionados de um gênero popular como a comédia romântica, “Todos Menos Você” terá um apelo nada eficaz e servirá como um verdadeiro teste de paciência: As circunstâncias esboçadas no roteiro fogem demais da realidade para se deixar convencer por grande parte do enredo do filme, e o turbilhão de referências que a narrativa traz (toda a ambientação do casamento remete aos clássicos do gênero “O Casamento do Meu Melhor Amigo” e “Muito Bem Acompanhada” que, por sinal, têm ambos o ator Dermot Mulroney, que também faz parte do elenco aqui) pouco faz, no fim das contas, para torná-la atraente de fato para aqueles que não sejam os já aficcionados.

O que resta à “Todos Menos Você” é o encanto natural e genuíno exalado por Sydney Sweeney (também ela atuando como produtora executiva) e a revelação relativamente satisfatória de uma veia cômica no galã e candidato à astro Glenn Powell, de “Top Gun-Maverick” e “Estrelas Além do Tempo”.

sábado, 24 de junho de 2017

Amizade Colorida

O terreno das comédias e dos romances –e sua miscelânea, as comédias românticas –têm particular interesse no registro dos relacionamentos modernos.
O cinema mais descontraído e comercial esbaldou-se, ao longo dos anos, com registros bem-humorados dessas transformações de comportamento –que o digam clássicos do gênero, como “Adivinhe Quem Vem Para Jantar”.
Atualmente, embora nossa sociedade apresente uma certa inércia em termos de mudanças comportamentais, ocorre uma ou outra característica que reflete o nosso tempo.
E, no que diz respeito, a tentar adaptar-se da melhor forma possível às complicações do sexo, o ser humano está sempre tentando.
A idéia do relacionamento aberto, sem vínculos de obrigação entre duas pessoas, mas sob o acordo de proporcionar prazer ao seu par sempre que requisitado, não é assim tão nova (na verdade, ela não é nem um pouco nova!), mas ela certamente adquiriu novos recursos e novos propósitos com o advento das mídias digitais, dos celulares e da velocidade da informação em si –que, acima de tudo, transformou essencialmente os relacionamentos.
É o ponto de partida deste filme que –sinal dos tempos –não foi o único, naquele ano, a tratar desse assunto; também a comédia “Sexo Sem Compromisso”, com Ashton Kutcher e Natalie Portman, abordou o mesmo assunto, porém, de maneira risível e sem talento.
Este revela-se um filme muito melhor.
Ambos desiludidos com suas histórias de amor recentes, uma caça-talentos nova-iorquina (MIla Kunis, linda e cativante) e um diretor de arte vindo de L.A. (o engraçado Justin Timberlake) fazem uma combinação: Usufruir juntos dos benefícios do sexo permanecendo os bons amigos que são. Aos trancos e barrancos, e com as ocasionais complicações, eles vão levando seu acordo da forma mais descompromissada possível, mas ainda sim, aos poucos, um relacionamento real começa a surgir.
Com essa premissa e um ímpeto de observação espirituoso e perspicaz acerca das relações modernas e dos hábitos singulares dos moradores de uma metrópole, o diretor de "A Mentira", Will Gluck, elabora uma obra com intenções mais amplas que o seu bom trabalho anterior, mas, entrega no final, um entretenimento afável e romântico muito beneficiado pelo esperto entrosamento de seu casal central.

domingo, 25 de outubro de 2015

A Mentira

Olive é um tipo raro de garota: uma garota legal. Tanto que aceita ser difamada na escola para poder livrar do bullying um colega homossexual. Explica-se: para que ele não apanhe nas mãos dos valentões homofóbicos, ela consente que ele espalhe para todos do colégio que eles já fizeram sexo. A história se alastra, e logo nerds perseguidos, CDFs menosprezados e todos os tipos de párias estudantis vêm até Olive implorando a ela para que deixe um boato de uma transa imaginária correr pelos corredores. Logo, essa situação deixará a menina em maus lençóis. 
Comédia divertida, ágil, extremamente prazerosa, um alívio de inteligência crítica e satisfatório esmero narrativo num gênero (comédia adolescente) normalmente tão abarrotado por bobagens repetitivas e superficiais. Em grande parte, isso se deve à adorável Emma Stone (indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz de Comédia ou Musical) que no papel de protagonista demonstra equilíbrio, desenvoltura e um carisma incontestável. 
Espirituosa também a analogia do clássico "A Letra Escarlate".