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domingo, 16 de agosto de 2026

A Fogueira das Vaidades


 O esteta cinematográfico Brian De Palma se popularizou com grandes obras de suspense – são aclamadas as suas variações de Alfred Hitchcock nos anos 1970 e 80 como “Trágica Obsessão”, “Dublê de Corpo” e “Vestida Para Matar” – contudo, durante a própria década de 1980, ele chegou a experimentar com alguns gêneros diferentes; tais como filme de guerra (“Pecados de Guerra”), épico gangster (“Scarface” e depois, “Os Intocáveis”), comédia (“Quem Tudo Quer Tudo Perde”) e outros. Essa busca o levou, já quase adentrando os anos 1990, à adaptação do best-seller de Tom Wolf, “A Fogueira das Vaidades” e, com isso, a uma espinhosa recepção da crítica com a qual o normalmente elogiado e enaltecido De Palma não estava muito acostumado.

Tudo começa num espetacular plano-sequência (um dos tantos exemplos de arrojo e virtuosismo técnico que De Palma adora plantar em seus filmes) onde vemos o jornalista beberrão Peter Fallow (Bruce Willis) experimentando um improvável momento de glória com a publicação de seu livro “The Real McCoy and The Forgotten Lamb”. Automaticamente percebemos que a condição de Fallow normalmente nunca foi assim de bajulação – e o próprio Fallow, com sua narração em off, irá retroceder no tempo a fim de esclarecer como ele chegou nesse improvável momento, além de também revelar, segundo ele, o verdadeiro protagonista da história, Sherman McCoy, interpretado por Tom Hanks.

Corretor de Wall Street, bem-apessoado, anglo-saxão e protestante, Sherman McCoy aparenta ser, num primeiro momento, promissor em todos os âmbitos de sua vida seja o profissional (o emprego lhe garante uma rica moradia em Manhattan) ou o pessoal (é casado com a melindrosa e perdulária socialite Judy, interpretada por Kim Cattrall). Sherman tem também como amante a insinuante Maria Ruskin (Melanie Griffith), casada com um milionário italiano muito mais velho.

Numa de suas escapadas, Sherman resolve buscar Maria no aeroporto – em regresso de uma de suas corriqueiras viagens ostensivas à Europa – e, ao decidir passar a noite com ela, envolve-se numa sucessão de eventos banais que, mais tarde, se revelam ser o estopim de sua derrocada: Na rodovia, ele perde a saída rumo à Manhattan e acaba indo parar com seu carro (e com Maria de carona) no Bronx, onde a vizinhança normalmente mais temerosa que a elegância de Manhattan logo começa a amedrontá-los. Ao parar e sair do veículo para remover um pneu que obstruía o caminho, Sherman se envolve num incidente com dois jovens moradores. Maria se apavora e, na sucessão de acontecimentos, os dois partem em alta velocidade do local, buscando voltar para onde moram e esquecer aquele breve apuro.

No entanto, um dos rapazes aparentemente machucou-se com mais gravidade do que poderia se imaginar: Ele – um certo Henry Lamb – bateu com a cabeça (logo seus familiares presumem que foi atropelado), e a escalada de complicações o deixa em coma no hospital, com sua mãe inconsolável, e com o pastor local, o irascível Reverendo Bacon (John Hancock), comprando briga com a mídia a fim de fazer estardalhaço, chamando a atenção para as causas sociais de sua comunidade.

Logo, é uma bola de neve que começa a se formar: O outrora desacreditado jornalista Peter Fallow fica sabendo da história e elabora uma matéria bombástica sobre o assunto, demonizando o motorista misterioso que não parou para prestar ajuda. A repercussão cada vez maior do caso chega ao prefeito, Abe Weiss (F. Murray Abraham), que, de olho numa reeleição, transforma a procura pelo tal motorista num circo midiático.

Quando – contra todas as hipóteses – as investigações finalmente chegam à Sherman McCoy, ele, transtornado pela culpa, cede à pressão e confessa, ainda que tenha sido Maria quem estivesse no volante na ocasião do incidente.

Os apreciadores do livro de Tom Wolf se revoltaram com o tratamento dado ao brilhante painel de cinismo e interesses políticos traçado pelo autor que resultou no filme de De Palma, em grande medida devido ao roteiro reducionista e acomodado do dramaturgo Michael Christopher (de “As Bruxas de Eastwick” e “Gia-Fama e Destruição”) que simplificou as índoles de diversos personagens a ponto de descaracterizá-los. Uma pena, visto o time de talentos sem dúvida notáveis que foi reunido – Tom Hanks havia acabado de fazer “Joe Contra O Vulcão” e anos antes tivera uma indicação ao Oscar por “Quero Ser Grande”; Bruce Willis havia se consagrado em Hollywood com “Duro de Matar” e sua continuação; e Melanie Griffith fizera só dois anos antes “Uma Secretária de Futuro”, até hoje o melhor trabalho de sua carreira, e o filme ainda tinha uma ponta de Kirsten Dunst, ainda criança, além de uma participação sólida e contundente do grande Morgan Freeman. Entretanto, aqueles que não chegaram a ler o livro de Tom Wolf ainda podem se interessar pelo resultado de quase comédia de humor negro obtido pelo diretor e pelos desenlaces novelescos de ligeiro viés moral que se sucedem em seu terço final.

terça-feira, 11 de outubro de 2022

O Último Matador


 O seminal “Yojimbo”, do mestre Akira Kurosawa, serviu de influência direta e indireta aos mais inúmeros gêneros e realizadores de cinema. Garantidamente, sabe-se que foi dele a inspiração para Leone tecer “Por Um Punhado de Dólares”, filme inaugural de sua cultuada trilogia, e também para que Corbucci constituísse o argumento de seu estupendo “Django” –em comum, todos têm hoje legiões de apreciadores e um culto cada vez mais merecido em torno de sua realização.

Basta um olhar superficial e passageiro pela premissa de “O Último Matador”, que Walter Hill lançou em 1996, para notarmos tratar-se de mais uma inspiração na obra de Kurosawa. Embora Walter Hill –um autor de vários filmes marcantes da década de 1980 que adentrou a década de 1990 encontrando dificuldade para manter a mesma relevância temática –tenha afirmado que seu filme se espelha muito mais na produção de Kurosawa (um filme de samurais, é bom lembrar) do que nos trabalhos de Leone e Corbucci, é sim com um filme de faroestes que este trabalho mais se parece –ainda que um verniz de “filme de gangster” seja imposto todo o tempo para diferenciá-lo.

Na poeirenta cidadezinha norte-americana de Jericho (ambientação que remete prontamente aos faroestes, alguns até dirigidos pelo mesmo Walter Hill), em plena Lei Seca –década de 1920, mas poderia perfeitamente ser Século XIX –surge o pistoleiro John Smith (Bruce Willis, marrento e em sua melhor forma) fugindo do que parece ter sido um tumultuado embate a tiros envolvendo gangsters para quem trabalhava como assassino de aluguel. Anti-herói até a medula –e, logo, pouco interessado na situação dos oprimidos da região –Smith nota que Jericho é polarizada entre duas facções de criminosos que disputam o controle do tráfego de bebidas: A máfia irlandesa e a italiana.

Um sobrevivente da recessão, Smith planeja acima de tudo lucrar enquanto por lá permanecer e a melhor maneira para isso é não se tornar leal a nenhum dos lados, mas, trabalhar para ambos enquanto fomenta, aqui e ali, certa discórdia que os levará à uma guerra. Por um tempo, a estratégia até que funciona e, sem ser desmascarado por nenhum dos grupos oponentes, Smith paira para lá e para cá, fazendo vítimas com seu gatilho rápido e implacável, ganhando confiança cada vez maior dos equivocados chefes das respectivas quadrilhas e, claro, enchendo os próprios bolsos de dinheiro.

No entanto, como parece ser contumaz nos mais afiados contos de dissolução moral, o destino dos incautos é selado na sua súbita inclinação à ética: A partir do momento em que Smith tem vestígios de seu senso de honra remanescente despertado, sua jogada dúbia é descoberta e ele acaba na mira do assassino Hickey (personagem para o qual a persona sibilante e ameaçadora de Christopher Walken cai como uma luva).

Na ampla experiência com o gênero que trabalha –ou com a mescla de gêneros, uma vez que sua obra engloba elementos como o pó amarelado e monocromático dos faroestes, bem como as cidadezinhas desoladas caindo aos pedaços; os tiroteios a céu aberto filmados com perícia insuspeita dos filmes de gangster e as intrigas conspiratórias acompanhadas de uma noção aprofundada e bem definida de conduta entre bandidos herdada de Michael Mann –o diretor Hill exibe, sobretudo, seu conhecimento técnico na construção de ritmos e atmosferas muito particulares, quase compartilhando com o público uma exultação juvenil pelo fato de evocar Akira Kurosawa (certamente seu ídolo) de maneira quase tão explícita: Salvo as distinções incontornáveis, este filme, mais que “Por Um Punhado...” e “Django” segue de maneira fidedigna, quase espelhada, os tópicos narrativos de “Yojimbo”, de tal forma que o terreno da homenagem quase é abandonado em favor da mais inquestionável cópia.

Há, porém, qualidade de sobra a ser apreciada em “O Último Matador”, no visual esmerado e estilizado que Walter Hill lhe impõe –fazendo parecer que esse quesito recebeu até mais atenção do que o necessário –e no capricho sinético e enérgico dedicado às cenas de tiroteio, em especial, à cena final, apoteótica como só um maestro da violência como Walter Hill é capaz de elaborar.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

A Morte Lhe Cai Bem


 Dos inúmeros apadrinhados de Steven Spielberg, cujos filmes ele produziu na década de 1980, certamente o melhor deles foi Robert Zemeckis. E, tal e qual seu mentor, Zemeckis sempre soube ousar acrescentando doses inusitadas de dramaticidade, humor negro ou até suspense, nas obras abertamente festivas e comerciais que realizava.

Mais do que um trabalho equilibrado e completo, “A Morte Lhe Cai Bem” representa um esforço em agregar gêneros distintos numa filmografia que, naquele 1992 de então, começava a ficar restrita a um tipo de gênero aos ohos do público: Zemeckis havia feito a “Trilogia De Volta Para O Futuro” e o sucesso “Uma Cilada Para Roger Rabbit”, praticamente aventuras (ainda que brilhantes) voltadas ao público infanto-juvenil. Vale lembrar que o próprio Spielberg, na mesma época, esforçava-se para livrar dessa mesma pecha, iniciando as filmagens de seu “A Lista de Schindler”.

Causando certo desconcerto ao público já na escolha de seus protagonistas, “A Morte Lhe Cai Bem” une três astros vindos de diferentes vibrações cinematográficas: A consagrada, versátil e magnífica Meryl Streep, o carismático e competente Bruce Willis (normalmente atrelado à filmes de ação) e a divertida e ocasionalmente histriônica Goldie Hawn (normalmente atrelada, por sua vez, à comédias românticas). E “A Morte Lhe Cai Bem” não é um filme de ação, não é uma comédia romântica, e certamente, também não nenhum projeto sério, no qual Meryl Streep costumava ser vista.

Meryl vive Madeline Ashton, vaidosa estrela hollywoodiana pouco a pouco sentindo os primeiros e indesejados efeitos da passagem do tempo (a lembrar um pouco a Norma Desmond de “Crepúsculo dos Deuses”). Casada com Ernest Menville (personagem de Willis), um renomado cirurgião plástico, Madeline vê os avanços, sobre seu cobiçado marido, de Helen Sharp (personagem de Goldie), sua rival da juventude, cujo retorno, de pronto, surpreende à Madeline e à todos: Helen não envelheceu um único dia desde a última vez que se viram. E sua juventude, sua pele impecável e seu corpo todo no lugar chama a atenção de Ernest ressentido não só das futilidades de Madeline como também do visível avanço do tempo sobre sua aparência.

Numa noite em que se descobre particularmente inconsolável, Madeline recebe a dica de uma misteriosa pessoa capaz de ajudá-la, e assim, encontra a feiticeira interpretada por Isabella Rosselini (tão linda e sexy que é de se lamentar que não tenha maior tempo de cena). Em linhas gerais, ela conta à Madeline sua longa trajetória na qual ajudou, no último século (!), algumas atrizes à continuar brilhando na ribalta com sua juventude preservada.

Madeline topa o acordo na mesma hora e, ao provar um elixir, tem sua beleza magicamente restaurada; Não sem uma advertência: “Cuide bem de seu corpo. Você continuará com ele por um bom tempo!”

Na comédia impiedosa de humor negro que realiza, é óbvio que não será isso que o diretor Zemeckis deixará acontecer. Já mancomunado com Helen para livrar-se de Madeline, o Dr. Menville tenta matá-la jogando-a da escada, e eis a grande surpresa: Madeline não pode mais morrer!

Mesmo com seu pescoço quebrado ostentando uma hedionda fratura (a maquiagem é prodigiosa, e os efeitos visuais ganharam o Oscar 1993), Madeline permanece viva (!), o elixir, ao que tudo indica, lhe deu vida eterna, a despeito das intempéries sofridas por seu corpo.

Ao tentar retribuir o ‘favor’ à Helen, dando-lhe um tiro de espingarda no peito (humor negro, lembre-se...),Madeline tem outra revelação: Helen também fez o tal pacto com a feiticeira (o que explica seu retorno jovem e impecável) e, como Madeline, não pode ser morta; a despeito do buraco assombroso que o tiro de espingarda lhe deu (!). Agora, Ernest deve usar de seus conhecimentos cirúrgicos para ajudar Madeline e Helen, lhes preservando a pele, impedindo seu corpo de revelar os efeitos da deterioração, e disfarçando os indícios de suas chagas mortais. Em suma, ele é, para sempre, uma espécie de escravo das duas.

Conduzindo este conto sobre vaidades levadas aos extremos improváveis do sobrenatural, Zemeckis extrai muito de sua reflexão, atmosfera, ritmo e lógica, da pertinente referência à cultuada série “Além da Imaginação” –e tão influente essa série é, dentro da sua orientação criativa, que Robert Zemeckis (ao lado do próprio Steven Spielberg) capitaneou um dos episódios de outra série, “Histórias Maravilhosas”, construída exatamente nos moldes daquela.

Usando e abusando de efeitos visuais na manutenção de seu humor –a visão de Meryl, com seu pescoço desconjuntado, e de Goldie, com uma cratera em seu peito, são incríveis! –“A Morte Lhe Cai Bem” deliberadamente recorre a ecos de Alfred Hitchcock para levar sua premissa divertidamente ácida e despreocupada às últimas consequências. Como cinema, ele não é nada demais (e essa despretensão parece estar em seus objetivos), contudo, certamente ele consegue entreter com sua inusitada trama sobre a imortalidade posta à prova por pura imaturidade de suas protagonistas, e com sua reflexão sobre as imprevistas consequências da combinação catastrófica entre vida eterna e futilidade, também ela, eterna!

domingo, 30 de agosto de 2020

O Quinto Elemento

Apesar do grande filme que é, pode-se dizer que “O Profissional” foi uma estréia discreta para o francês Luc Besson no cinema norte-americano; ambição mesmo, ele veio a demonstrar no seu projeto seguinte, a amalucada ficção científica “O Quinto Elemento”.
Oriundo de uma ideia que Besson teve ainda na adolescência, o roteiro (ignorante de vários conceitos científicos e históricos que já propunham a existência de um ‘quinto elemento’) se irmana ao primeiro longa-metragem de Besson, “O Último Combate”, devido à sua estética profundamente influenciada por quadrinhos europeus, como ficará perceptível mais à frente, com nítidas referências ao estilo dos artistas Moebius (um dos desenhistas de produção) e Enki Bilal.
O roteiro de Besson, travesso e inconsequente, começa no ano de 1914, quando arqueólogos  estudando uma pirâmide egípcia (um deles sendo Luke Perry, da série “Barrados No Baile”) têm um estranho contato imediato com seres alienígenas; tais seres, os Mondoshawans, advertem o padre ali presente de que, dentro de 300 anos, um mal iminente surgirá para destruir a vida, e o templo contêm instruções para preparar a arma  que irá rechaçá-lo, na qual os quatro elementos essenciais à vida (o ar, a água, o fogo e a terra), representados por pedras sagradas que eles levam embora por não confiarem nos humanos, devem ser depositados ao redor de um quinto (e desconhecido) elemento. Todas as perguntas, eles prometem responder quando a hora chegar.
Deveras, a narrativa avança 300 anos no tempo, quando naves espaciais humanas registram de fato a aproximação do que parece ser um planeta incandescente com rota fixada de colisão contra a terra. Ataques contra esse planeta só o fazem crescer ainda mais. Então, o Padre Vito Cornelius (Ian Holm) surge contando a história acerca da profecia extraterrestre –que lhe foi passada através de outros guardiões desse segredo.
Os Mondoshawans até tentam contato com a humanidade, mas são destruídos num atentado de autoria do perverso Zorg (Gary Oldman), o vilão da vez, cujos motivos jamais são realmente esclarecidos.
Apenas um membro é recuperado dos alienígenas benevolentes e, ao tentar restaurá-lo a partir da avançada engenharia genética, os cientistas terrestres criam a personagem de Milla Jovovich, Leeloo, uma criatura segundo eles perfeita, que em nada lembra os alienígenas jocosos e nada humanos a partir dos quais foi criada.
Ela vem a ser o ‘quinto elemento’.
Por qual razão? Ela tem poderes? Então, um dos alienígenas era outrora o ‘quinto elemento’ também? Nada disso fica muito claro, e provavelmente, Luc Besson concebeu essa premissa sem preocupar-se em se aprofundar em questionamentos plausíveis como esses...
Os poderes de Leeloo oscilam conforme o momento –numa hora tem força e agilidade sobrehumanas, em outro, quando é conveniente que seja a mocinha em perigo, não tem mais... –assim sendo, sem também ter muita explicação, ela resolve fugir do laboratório onde foi criada e, do lado exterior do belo mundo futurista executado por Besson e sua equipe, Leeloo acaba caindo dentro do táxi dirigido pelo protagonista da história, Korben Dallas (Bruce Willis, num personagem sem sombra de dúvidas inspirado em Harry Canyon, personagem de um dos primeiros episódios da animação “Heavy Metal-Universo Em Fantasia”).
Este, por sinal, é um protagonista inserido da forma mais paradoxalmente aleatória e arbitrária já vista em uma produção comercial –os caminhos dele e de Leeloo se cruzam por pura conveniência do roteiro, sem qualquer disfarce ou subterfúgio, e para tornar a coisa ainda mais incômoda, isso ocorre duas vezes (!).
Sim, pois, Leeloo –que inicialmente não fala a língua humana –é, afinal, levada por Korben ao padre Cornelius a fim de darem continuidade à sua missão. E então... a utilidade do personagem de Willis se acaba! Sobretudo, porque, como todo protagonista de ação descolado, ele não faz muita questão de ajudar os que precisam de ajuda.
Assim, ele volta para sua casa e, pela segunda vez, é inserido na mesma trama de forma completamente arbitrária –num dos inúmeros lapsos do roteiro que tornam duvidosos os esforços em convencer o público –quando ele é requisitado por militares (ele era um ex-operativo de Forças Especiais, trabalhando de taxista...) para encontrar as tais pedras, aquelas que representavam os quatro elementos e que foram perdidas.
As pedras, na verdade, foram confiadas a uma artista-cantora alienígena chamada Plavalaguna (Maïwenn Le Besco), cuja concorrida apresentação se dará no planeta Fhloston –quando então entregará as pedras aos humanos. Os militares providenciam assim uma passagem para Korben, que acaba entrando na mira de Zorg, desejoso de obter a passagem para si; de Leeloo e do padre Cornelius, que desejam dele extrair a passagem também; e da raça extraterrestre dos Mangalores, guerreiros, brutamontes e ineptos que também querem se apropriar das pedras (e, ao que parece, todos os personagens do filme concluem que a única maneira de ir à Fhloston é roubando as passagens de Korben!).
Após as confusões, que transformam por um tempo “O Quinto Elemento” numa comédia de erros ao invés da aventura de ficção científica que aparentava ser, Korben e Leeloo seguem para Fhloston, onde encontram Plavalaguna –numa inusitada cena musical que acrescenta doses de estranheza ao culto do filme –e o personagem de um bizarro e andrógeno radialista extraterreno vivido por Chris Tucker. Os núcleos tumultuados de antagonistas e protagonistas convergem para o tal Paraíso Fhloston, uma espécie de hotel espacial, onde se sucede a apresentação de Plavalaguna e a primeira cena de ação de fato de “O Quinto Elemento” –isso quando o filme já adentra sua reta final!
A verdade é que essa impressão algo equivocada, de que “O Quinto Elemento” seja um ficção científica de ação (erro que alguns expectadores cometem até hoje) se dá pela presença de Bruce Willis –um dos astros de então que foi imposto ao diretor Besson pelo estúdio da Columbia Pictures sob condição de financiarem seu filme.
“O Quinto Elemento” é, sim, uma fantasia de orientações desconcertantes, desafiadoras para qualquer paradigma de gênero, com elementos bastante comuns aos filmes europeus que Besson concebeu na década anterior, a de 1980. Aqueles que se ancorarem numa pressuposta coerência em sua história ou no encadeamento de seus acontecimentos correm o risco de ficarem um bocado irritados. Para apreciá-lo, deve-se focar nos aspectos que realmente o transformaram num cult-movie: No visual incomum (de um “Blade Runner” à luz do dia, ou de uma história em quadrinhos européia), cortesia do bom trabalho do diretor de fotografia Thierry Arbogast, em sintonia com as inquietações estéticas muito singulares de Luc Besson; na trama tão juvenil quanto abilolada (e ainda assim pretensamente intrincada) onde só importa uma certa diversão; e na presença refrescante da estreante (e belíssima) Milla Jovovich que, se por um lado incumbe-se de uma personagem que se equilibra no abismo da inverossimilhança injustificada, por outro, brinda o filme de ponta a ponta com seu carisma e seu encanto, num reflexo do que Natalie Portman também já fazia em “O Profissional”.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Olha Quem Está Falando

Dentre os astros hollywoodianos, a carreira de John Travolta talvez tenha sido a que passou mais altos e baixos: De uma expressiva promessa nos anos 1970 (quando obteve até uma indicação ao Oscar por “Os Embalos de Sábado À Noite”), ele passou para o estrelato em produções como “Grease-Nos Tempos da Brilhantina”, e aí para um gradual declínio na década seguinte, intensificado pelo fracasso da continuação “Os Embalos de Sábado Continuam”, em 1983.
Durante os anos 1980, parecia que sua carreira tomaria um fôlego renovado quando participou do extremamente divertido, adorável e inofensivo “Olha Quem Está Falando”, da diretora Amy Heckerling.
Hoje, parte do vasto leque de obras vistas à exaustão na ‘sessão da tarde’, o filme pode possuir elementos redundantes em sua encenação, na plausibilidade de sua trama e nas motivações dos personagens, além de uma pouco convincente orientação de comédia romântica, no entanto, certamente jamais foi intenção de sua diretora e roteirista almejar algo mais.
Amy Heckerling concebeu “Olha Quem Está Falando” tal e qual aquelas obras dos anos 1980, onde elementos triviais ganhavam inesperada ênfase cinematográfica –um dos realizadores que mais trabalhou esse conceito foi John Hugues –neste caso, as experiências domésticas até que bastante comuns testemunhadas do ponto de vista de um bebê (que no filme não chega a ter mais que um ano de idade). A diferença? Ele narra sua história, com uma divertidíssima ‘voz da consciência’ (dotada de compreensão e ginga improváveis para um menino de um ano) cortesia da dublagem de Bruce Willis!
O prólogo mostra um óvulo sendo fecundado por espermatozóides, numa cena esmeradamente didática e nada ofensiva; é a partir daí que o bebê adquire voz e passa a narrar as desventuras de sua mãe, Mollie (a então muito bonita Kristie Alley), uma contadora que teve o infortúnio de engravidar de um cliente casado (George Segal, perfeitamente cafajeste), e passou a contar a todo mundo –incluindo a sua mãe vivida por Olympia Dukakis –que fizera inseminação artificial.
No dia em que seu bebê vem a nascer –o mesmo em que ela tem uma decepção com o homem que tinha esperanças de ser pai de seu filho –Mollie entra no táxi dirigido por James (Joh Travolta) que, levado pelas circunstâncias, termina sendo quem a conduz ao hospital e termina por estar presente com ela na hora do parto –apesar, das implicâncias de praxe.
Nas semanas e meses que se seguem, James encontra um meio de continuar por perto –numa série de subterfúgios um bocado forçados da parte do roteiro, como a carteira esquecida em seu carro e outros detalhes –e acaba se tornando uma espécie de babá para o pequeno Mike (interpretado, e muito bem, pelos pequenos Jason Schaller, Jaryd Waterhouse, Jacob Haines e Christopher Aydon que se revezam em diferentes cenas e etapas da idade no filme).
É, portanto, o romance fugidio, hesitante e sempre muito cativante entre Mollie e James que movimenta o filme, visto pela ótica divertida de Mike –pois, como na mais formulaica comédia romântica, Mollie é aquela personagem complicada que anseia por amor, e tem planos elaborados para encontrar o homem perfeito (sendo que sua prioridade é que seja menos um bom marido e mais um bom pai), ignorante, porém, de que o candidato ideal já está cuidando de seu filho em sua casa.
E dentro desses parâmetros nada ambiciosos, o filme funciona que é uma beleza: Kristie Alley e John Travolta têm uma química encantadora (que tornou a funcionar mesmo nas duas continuações medíocres que o filme teve), seu roteiro, se por um lado entrega inúmeros momentos de inventividade duvidosa, por outro compensa com um meia hora final perfeitamente calibrada e cativante, e a direção de Amy Heckerling abraça por inteiro a proposta pueril embutida na premissa, tornando o filme um entretenimento absolutamente inofensivo para toda a família.
“Olha Quem Está Falando” foi o único sucesso de John Travolta –e o único filme pelo qual foi reconhecido por toda uma geração –por um longo tempo, até voltar de forma retumbante ao estrelato nos anos 1990 (com uma nova indicação ao Oscar, desta vez, por “Pulp Fiction”), e comprometer uma reluzente sequência de bons trabalhos com a catastrófica ficção científica “A Reconquista”, de 2000; mas, ele voltou a entregar bons desempenhos de público e crítica com projetos seguintes como “A Senha: Swordfish”, “Motoqueiros Selvagens” e “Hairspray-Em Busca da Fama”.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Armageddon

Quando foi lançado no final da década de 1990, a trama de “Armageddon” mostrou-se um primor do absurdo: Perfuradores de petróleo norte-americanos eram selecionados para uma missão espacial (!) onde teriam de introduzir uma bomba nuclear num asteróide prestes a colidir com a Terra (!).
O filme, na verdade, representava uma espécie de reafirmação do estilo extravagante do diretor Michael Bay que havia entregado pérolas inacreditáveis da ação ininterrupta em “Bad Boys” e “A Rocha”, mas criou seu verdadeiro cartão de visitas aqui.
Bruce Wiilis, num papel que parece moldado para ele, é Harry Stamper, líder de uma equipe texana de perfuração –e tal equipe inclui figuras como Steve Buscemi, Michael Clarke Duncan, Ben Affleck, Will Patton e Owen Wilson.
Veja bem: Dizer qe Bruce Willis foi moldado para o papel, deveras, não significa que ele entrega uma boa atuação –fator que passa longe das obras de Michael Bay –significa, na realidade, que o papel foi pensado e escrito para ele; e à ele se encaixa em suas canastrices e limitações dramáticas.
O governo dos EUA identifica o grande asteróide que, sem sombra de dúvidas, colocará fim à vida no planeta Terra, e põe em prática um plano para salvar a raça humana: Enviar uma equipe ao espaço, com escalas entre diversas estações internacionais para chegar em tempo ao meteoro e nele implantar uma bomba capaz de reduzi-lo a fragmentos menores –mas, que ainda proporcionam as insanas sequências de destruição do filme.
Os homens selecionados para tal missão terminam sendo o grupo peculiar e grosseiro de Stamper que, nas inserções cômicas inapropriadas que também caracterizam o estilo de Bay, não se adequam de modo algum ao bom senso esperado dos astronautas.
Como o destino da humanidade depende deles –como se não existissem no planeta Terra alternativas melhores do que os norte-americanos! –o programa espacial os aceita mesmo assim; e lá vão eles em direção do espaço, aprontar lá as mesmas presepadas que aprontam na Terra: Heróis de ação, supinos, irônicos e patriotas, que passam todo o filme enfrentando os perigos indizíveis e improváveis do espaço –além da truculência e falta de visão dos militares (é claro!) capazes de pôr em risco a missão e a vida na Terra porque são obtusos o bastante para insistir nas próprias ideias fixas.
Uma obra irredutível nos altos níveis de decibéis que se propõe a entregar, “Armageddon” representou, com seus ostensivos clichês, o cinema comercial em estado bruto, em contraponto a um cinema mais autoral que, naquele ano de 1998, começou a aflorar no circuito comercial: De repente, obras barulhentas como esta começaram a dar espaço para trabalhos construídos com inteligência (como o suspense “Irresistível Paixão”) ou sensibilidade (o inesperado sucesso de bilheteria “Encantador de Cavalos”). Entretanto, o público afoito de filmes de ação ao qual se dirigia ficou satisfeito (e até hoje ainda se satisfaz) com essa receita tão formulaica, da qual Michael Bay costuma ser um dos mais célebres manejadores.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Encontro Às Escuras

O diretor Blake Edwards e o astro Bruce Willis se reuniram pela primeira vez em 1987 –mais tarde, em 1988, eles fariam novamente juntos o charmoso, mas irregular “Assassinato Em Hollywood” –nesta comédia romântica feita sem sombra de dúvida para capitalizar em cima do sucesso de Willis na série de TV “A Gata e O Rato”. Para um ator de perspectivas promissoras, o papel de um galã em potencial num filme divertido e romântico era uma boa e segura estratégia na carreira, e ele ainda contava com a direção de um dos mais hábeis realizadores de comédia de todos os tempos.
O resultado, se não atinge os picos de genialidade da filmografia de nenhum dos dois, ao menos é plenamente satisfatório, e continua agradabilíssimo de ser visto mesmo hoje, quase quarenta anos depois.
Willis contribui com credibilidade e carisma para interpretar Walter Davis, outrora um músico que abriu mão de sua vocação para trabalhar num emprego de boa remuneração: No caso, um executivo de uma empresa atolado de yuppies ambiciosos.
Todos estão concentrados no fechamento de um negócio com um magnata chinês e, para tanto, todos devem, portanto, se reunir num restaurante para um jantar coletivo, onde querem passar a melhor das impressões ao provável cliente.
Walter deve, então, comparecer com uma acompanhante adequada.
Eis que seu irmão lhe empurra então uma amiga da esposa, completa desconhecida, mas que ele garante seu uma moça bela, interessante e simpática –só há uma condição (à qual não é dada muita atenção por Walter): Nada de fazê-la beber bebida alcóolica!
Ao conhecê-la, um bom sinal: Nadia é linda (e interpretada por Kim Basinger, tão sedutora morena quanto o é loira) e, ao que tudo indica, uma companhia bastante agradável para a noite.
Lá pelas tantas, porém, Walter resolve abrir uma garrafa de champanhe para dividir com Nadia e, para o bom entendedor das tramas engendradas nos filmes de Blake Edwards, já fica claro que é dada a deixa para as confusões começarem: Uma vez embriagada, Nadia é um verdadeiro imã para confusões; ela tumultua o jantar de forma irreparável e as coisas não param por aí; o casal vai a outros lugares onde a embriaguez dela sempre consegue colocar o pobre Walter em maus lençóis –além da ocasional presença do ex-namorada maluco dela, o instável David (John Larroquete, um vilão cômico e abestalhado).
Amparado como tantas outras comédias que vieram antes e depois onde tudo se deflagra em meio a uma noite muito tumultuada –embora seu trecho final, seu clímax, digamos, se dê em outro lugar e em algum tempo depois –“Encontro Às Escuras” fazia parte do repertório de obras oitentistas que foram reprisadas à exaustão na televisão, criando com isso uma geração inteira de cinéfilos que deve tê-lo visto diversas vezes em sua exibição.
Edwards já havia demonstrado mais talento e brilho em outras obras, Willis trilhava aqui o início de um caminho que o tornaria um astro radiante nos anos 1990 (“Duro de Matar” também sairia no ano seguinte) e Kim Basinger, ainda que bela e encantadora, viria a tomar o cinema comercial de assalto com “9 e ½ Semanas deAmor” e com “Batman” sagrando-se como o grande símbolo sexual dos anos 1990, todos esses elementos (a habilidade de seu diretor; a popularidade de seu astro; o apelo sensual de sua estrela) podem ser conferidos em menor grau nesta descompromissada comédia romântica que diante do objetivo de entretenimento singelo a que se propõe não merece padecer diante de maiores expectativas.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

O Sexto Sentido

Crítica do amigo Fabricio Gurski
Seguindo a cartilha do mestre Alfred Hitchcock é repleto de pistas e recompensas, fazendo jus ao status de grande filme de suspense e mistério ganho precocemente no seu lançamento.
Pois, um bom filme de mistério ou suspense, além de contar uma boa história precisa de alguma maneira surpreender o espectador, digo mais, é aqueles exemplares que depois de momentos tensos quando chegam na reta final, no desfecho, revelando o seu segredo –e ali o espector pensa (verbaliza) "poxa tava na cara o tempo todo" –então, isso eu considero um ótimo filme do gênero, assim é “O Sexto Sentido”.
Ao assisti-lo novamente, sempre percebo coisas novas, vejo o tremendo trabalho e dedicação aplicado no filme, o roteiro primoroso, com diálogos consistentes, os personagens coerentes e dignos ao universo naturalista do filme, e M. Night Shyamalan para complementar a sua própria obra, optou por um estilo de narrativa clássica com edição e direção minimalistas usando na montagem muito ‘fade out’ e cortes suaves, repletos de rimas visuais, trilha sonora marcante e acentuada, se não bastasse tudo isso ainda vemos um elenco magnífico (parece em alguns momentos até um documentário, um realismo absoluto), desde o jovem Haley Joel Osment até o experiente Bruce Willis e todos que os cercam estão mais que convincentes, dando vidas às personagens.
A condução da história faz o espectador viajar por sensações diversas, passeia entre os extremos da tristeza e da alegria, tudo isso, graças à estética impressa no exemplar por M. Night, pois temos um trabalho extremamente dramático que conforme acontecem as viradas (os plots) o gênero se transforma, e quando chegamos ao meu amado gênero terror tomamos bons sustos e muita tensão.
O clima de mistério aumenta a cada descoberta do Dr. Malcom, e assim a apreensão, a angústia e o sofrimento crescem até a descoberta definitiva e não tão aliviante, o expectador vivência tudo de uma forma ímpar no cinema de gênero das duas últimas décadas, “O Sexto Sentido” pode ser considerado uma obra prima do cinema de gênero, e assim não é nenhum absurdo compará-lo com alguns dos exemplares do mestre do suspense/mistério Alfred Hitchcock.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Trilogia Os Mercenários

Durante boa parte dos anos 1980 e 90, os fãs de filmes descerebrados de ação cultivaram a ideia de ver reunidos em cena alguns de seus heróis prediletos do período, sendo estes os mais requisitados Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger.
Isso não ocorreu naquelas décadas –inclusive porque, durante algum tempo, os dois alimentaram uma espécie de rivalidade antes de virarem bosn amigos e se tornarem sócios da cadeia de restaurantes Planet Hollywood –entretanto, os aficcionados tiveram a oportunidade de ver isso acontecer primeiramente em “Os Mercenários”, que reuniu os dois e mais um punhado considerável de  marombados daquela época, como Bruce Willis e Dolph Lundgreen.
Dirigido pelo próprio Stallone, o primeiro “Os Mercenários” não fazia maior esforço além de incitar o público com esse apelo –o de reunir em primeira mão os astros da pancadaria do passado, no que pode ser visto como uma das primeiras produções a se valer de um certo saudosismo dos anos 1980 que desde então dominou inúmeras obras.
Assim, Stallone é Barney Ross, líder de um grupo de mercenários de aluguel composto por Lee Christmas (Jason Statham, talvez o único verdadeiro astro de ação da atualidade), Toll Road (Randy Culture), Gunnar Jens (Lundgreen, que curiosamente se destaca no elenco), Hale Caesar (Terry Crews) e o ágil Yin Yang (o chinês Jet Li) –além deles, há também a ponta ilustre de Mickey Rourke como um barman cheio de histórias para contar.
Como era ainda governador da Califórnia na época do filme, Schwarzenegger não faz mais do que uma participação especial ao lado de Bruce Willis, numa cena em que encontram Barney em uma igreja –momento breve que, porém, foi o bastante para fazer a alegria dos apreciadores de filmes de ação protagonizados pelos três.
Na trama absurdamente genérica, o grupo de mercenários liderado por Barney deve completar uma missão numa republiqueta sul-americana. Entretanto, em algum momento a ombridade típica de herói de ação em Barney e Christmas irá falar mais alto, e eles decidirão destituir o impiedoso ditador do lugar, vivido com canastrice premeditada por Eric Roberts, convencidos pela candura da mocinha indefesa da vez, interpretada –veja só –pela atriz brasileira Gisele Itié.
Embora essa receita soasse infalível, o tratamento narrativo dado por Stallone –talvez, por essa mesma excessiva confiança –foi tão genérico e impessoal que quase o filme não passa do ponto de corte: “Os Mercenários”, ainda que com uma razoável bilheteria, concorreu ao Framboesa de Ouro de Pior Diretor (!), o que levou os produtores a tomarem um cuidado maior na continuação.

Em “Os Mercenários 2”, o diretor escolhido foi Simon West que, tendo no currículo “Con Air-A Rota da Fuga” e o primeiro “Tomb Raider”, com Angelina Jolie, ostentava vasta experiência e conhecimento no gênero. De fato, ele contribui com um ritmo vertiginoso, um humor revigorante e um tremendo entendimento sobre os aspectos que tornam esse tipo de filme empolgante aos olhos de seus apreciadores –“Os Mercenários 2” é, sem sombra de dúvida, a produção que, dentre toda a trilogia, tira melhor proveito dos elementos que usa como chamariz.
Sobretudo no que diz respeito às participações de astros famosos e veteranos da ação: Além de todos os integrantes do primeiro filme (à exceção de Mickey Rourke que não voltou), aparecem também Jean Claude Van Damme, no papel do vilão Jean Vilain (!?!), o lendário Chuck Norris (que recebe da narrativa um tratamento que faz jus à sua lenda!) e participações mais estendidas e suculentas de Schwarzenegger e Bruce Willis (com direito à infindáveis referências aos seus grandes sucessos); de lambuja, ainda temos a presença do jovem Liam Hemsworth, de “Jogos Vorazes”.
É ele quem, de certa maneira, dá a ignição à trama, quando um encontro com o perverso Jean Vilain (Van Damme sempre interpreta vilões num divertido tom canastrão e provocativo) termina mal para o rapaz, por quem Barney estava se apegando –reza a lenda que originalmente este seria o destino reservado ao personagem de Mickey Rourke.
Barney e sua equipe, com o auxílio de Trench Mauser (Schwarzenegger) o rival salvo na cena inicial convertido em aliado, seguem assim numa missão mais pessoal com o intuito de frustrar os planos inescapavelmente malignos de Vilain e vingar a morte do jovem..
Aqui, os heróis ouvem a todo o instante que já estão velhos e obsoletos para seu ofício. Nada mais que provocação: “Os Mercenários 2” é um dos melhores e mais divertidos filmes de ação dos últimos tempos e seus protagonistas, astros inquestionáveis do gênero.

É nesse sentido –no do segundo exemplar ter resultado tão memorável –que o terceiro filme acaba sendo uma curva descendente.
Os produtores julgaram que chamando um diretor mais jovem –Patrick Hughes, da comédia adolescente “Imaginem Só” e o faroeste contemporâneo “Busca Sangrenta” –a energia e o frescor da produção se manteria. Contudo, “Os Mercenários 3”, se não chega a ser de qualidade duvidosa como o primeiro filme (que beneficiou-se, sobretudo, da novidade) também passa longe do equilíbrio e do ajuste acertado do segundo.
Os acréscimos ao elenco (fatores que passaram assim a definir a série) foram Wesley Snipes (chapa de Stallone desde que fizeram “O Demolidor”), Antonio Banderas (chapa de Stallone desde que fizeram “Assassinos”), Kelsey Grammer (o Fera de “X-Men O Confronto Final”), novo gerente de missões e Harrison Ford, além do vilão interpretado com fleuma e vigor por Mel Gibson. Por outro lado, o filme não conta com Terry Crews (reduzido à uma participação ínfima), Chuck Norris e Bruce Willis (esses nem sequer aparecem).
Há também outro grupo, de integrantes jovens que estão lá mais para atender aos propósitos da trama.
No encalço de Conrad Stonebanks (Gibson), um adversário que ajudou a fundar o grupo dos ‘expendables’, Barney se depara com a necessidade de recrutar integrantes mais novos diante da ineficácia de seus velhos companheiros. Esses novos mercenários são John Smilee (Kellan Lutz), Thorn (Glen Powell, de “Estrelas Além do Tempo”), Marte (Victor Ortiz) e a durona Luna (Ronda Rousey, ex-lutadora de MMA), além do personagem de Banderas, um histriônico alívio cômico.
É previsível ao extremo o fato de que o jovem grupo falhará miseravelmente, virando reféns do próprio vilão, fazendo com que o grupo da velha guarda retorne para salvar a situação –e nisso a direção de Patrick Hughes encontra suas grandes fraquezas. Ele simplesmente não se satisfaz em realizar um filme digno de ação amparado nas presenças icônicas de que dispõe. Quer porque quer preencher suas entrelinhas de significado e com isso espalha sequências vazias e desanimadoras por todo o filme; como por exemplo o aproveitamento nada criativo do personagem de Schwarzenegger convertido numa espécie de ‘voz da consciência’ do personagem Barney, de Stallone, aparecendo em momentos pontuais sem nunca ter relevância de fato, e esse problema se estende tanto ao personagem de Harrison Ford (um coadjuvante sem o brilho e sem a razão de ser que um astro merecia) quanto ao de Wesley Snipes (que, salvo a cena de abre o filme, passa todo o resto da trama sem qualquer serventia).
Composta por dois filmes medianos e apenas um verdadeiramente empolgante, a “Trilogia dos Mercenários” ocupa um lugar especial na memória afetiva de seus fãs mais pelo apelo no conceito em ver reunidos em cena diversos ícones vivos do gênero pancadaria, do que por sua execução final.
E tal é o seu apreço que até hoje alimentam expectativas para uma vindoura “Parte 4”.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Vidro

Os altos e baixos na trajetória de M. Night Shyamalan como autor reconhecido e aclamado refletem a curiosa e demorada gênese de “Vidro” como projeto cinematográfico.
Quando lançou “Corpo Fechado” na esteira do sucesso de “O Sexto Sentido”, Shyamalan experimentou um fenômeno ainda mais inusitado e louvável do que o sucesso de público e crítica da obra anterior: Inicialmente recebido com aparente desprezo por aqueles que julgavam “Corpo Fechado” um correspondente atípico de “O Sexto Sentido”, o filme cresceu na memória do público e dos cinéfilos aos poucos, com o passar do tempo, transformando-se em um dos grandes cult-movies do cinema.
De lá pra cá, entre sucessos originados de sua reconhecida fórmula de fazer cinema e projetos que por vezes caíam na incompreensão e na indiferença, M. Night Shyamalan foi constantemente indagado sobre uma vindoura continuação para “Corpo Fechado” –uma ideia a qual, durante um bom tempo, ele foi abertamente arredio.
A maneira como ele correspondeu ao anseio do público foi bem ao seu gosto, improvável e inesperada: Em “Fragmentado”, de 2016 (exatos dezesseis anos, portanto, do lançamento de “Corpo Fechado”), ele introduz uma cena final onde revelava que o protagonista daquele filme, David Dunn, vivido por Bruce Willis, existia, por assim dizer, no mesmo universo que Kevin Wendell Crumb (James McAvoy) e os outros personagens de “Fragmentado”.
Estava aberta a porta para a esperada continuação não apenas de “Corpo Fechado”, mas agora de “Fragmentado” também.
Com efeito, a trama se inicia logo depois dos eventos daquele filme. Após o rapto de garotas cuja sobrevivente foi a jovem Casey (Anya Taylor-Joy), e o desenvolvimento de uma 24ª personalidade bestial –adequadamente chamada ‘The Beast’ –a Horda (como é apelidado o indivíduo de múltiplas personalidades vivido por McAvoy) entra no radar do vigilante David Dunn que tem agido nas sombras neutralizando criminosos na Philadelphia na última década com o auxílio logístico de seu filho Joseph (Spencer Treat Clarke, um rapaz aqui, ainda uma criancinha em “Corpo Fechado”).
O embate entre personagens tão antagônicos quanto antológicos não tarda muito a acontecer, escrito e dirigido com aquele primor desigual que Shyamalan parecia ter perdido nos últimos tempos, mas que recuperou em “Fragmentado”.
É quando Dunn e a Horda são capturados e jogados numa clínica psiquiátrica –em uma guinada que aproxima “Vidro” do clássico “Um Estranho No Ninho” –que as intenções de Shyamalan começam a ficar mais claras: Entra em cena a personagem da Dra. Ellie Staple (interpretada com o esperado ar de petulância intelectual por Sarah Paulson).
Staple representa a descrença. Ela não acredita que pessoas normais possam desenvolver características extraordinárias que as aproximam dos superheróis de quadrinhos –a rigor, a premissa de “Corpo Fechado” –e, dentro das instalações psiquiátricas, tratará de enfraquecer a convicção de David, de Kevin (e todas as personalidades dentro dele) e também do sedado Elijah Price (Samuel L. Jackson), encarcerado desde que foi descoberto tratar-se do perigoso Mr. Glass; na concepção dele próprio, um vilão de HQs que compensa a fragilidade do próprio corpo (ossos quebradiços como vidro) com uma mente brilhante e aprimorada.
Staple confronta os três protagonistas fantásticos com embasamentos factuais que nivelam ao patamar do normal as suas proezas, e não deixa de soar com isso aquilo que a narrativa de fato quer fazer dela: Uma estraga-prazeres.
Entretanto, a mente de Elijah não pode ser contida ou domesticada. Antes mesmo que a doutora perceba, já existe um plano detalhado em gestação, e que certamente envolve a fuga dele e da Horda de seus confinamentos.
A essa sequência concebida com zelo e critério (e com um viés emocional inédito nos filmes anteriores), Shyamalan acrescenta todas as considerações morais, pessoais, sentimentais e filosóficas que ele atribui a todos os seus melhores trabalhos: “Vidro” é, como “Corpo Fechado”, uma variação do conceito de histórias em quadrinhos em atividade num mundo real –assunto bastante atual diante do sucesso retumbante do Universo Marvel nos cinemas –mas, é também um olhar preocupado e válido sobre as neuroses imprevisíveis escondidas na sociedade (argumento presente em “Fragmentado”), e une todas essas considerações numa conclusão válida e pertinente sobre a família; e para tanto, são fundamentais à narrativa as participações também dos entes queridos relacionados à cada um dos três protagonistas, Joseph, o filho de Dunn, que busca ser uma força indireta na cruzada do pai; Casey, a vítima que escapou da fúria de ‘The Beast’ por ser reconhecida por ele como uma igual; e a mãe de Elijah (Charlayne Woodard) que sempre experimentou a aflição pelo corpo frágil do filho e o orgulho por sua inteligência fora do comum.
“Vidro”, assim, embora seja também sobre o bem contra o mal (como toda boa HQ), ao mesmo tempo embaralha essas impressões com algumas dinâmicas ambíguas, porém, revela-se mesmo um tratado sobre a fé contra a incredulidade. A disposição para acreditar que o extraordinário é real e possível contra o conformismo de justificá-lo com pretextos impessoais.
E nessa disputa, Shyamalan escolhe claramente um lado sem um pingo de dúvida.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

O Dobro Ou Nada


O diretor inglês Stephen Frears não resiste à tentação de registrar um microcosmo em suas camadas humanas, morais e éticas, essa é a definição para praticamente todos os trabalhos que ele realizou.
Aqui não é diferente.
Ele lança seu olhar a um só tempo divertido e antropológico aos centros de apostas onde a protagonista cai de paraquedas. Ela é Beth Raymer, que proporciona à esmerada atriz Rebecca Hall (normalmente encarregada de papéis mais sérios) uma caracterização rica em técnicas estudadas –ainda que no fundo transpareça um certo histrionismo.
Da cidade de Tallahassee, onde amargava um degradante trabalho de stripper à domicílio, Beth vai para Las Vegas tentar a sorte e consegue emprego na casa de apostas do bookmaker Dink (Bruce Willis, em sua faceta mais vulnerável). Aos poucos, Beth se adapta aos números e às circunstâncias melindrosas das apostas fazendo o lugar usufruir de lucros.
Nesse trecho, o filme de Frears engata um ritmo de comédia... romântica, inclusive, já que o flerte algo inocente entre Beth e Dink aponta nessa direção.
Porém, o diretor está apenas se valendo de uma ampla experiência com expedientes de gênero para subverter a expectativa do público: O demasiado afeto que envolve a relação de Beth com o patrão Dink incomoda a esposa deste (Catherine Zeta-Jones) levando a moça a ser despedida.
Ao lado do apaixonado Jerry (Joshua Jackson), ela vai então para Nova York, onde se junta ao apostador Rosie (Vince Vaughn, com os mesmos tiques nervosos de sempre). Contudo, como bem lhe adverte Dink –que àquela altura já tornou-se uma espécie de mentor para Beth –as apostas são ilegais no Estado de Nova York, ao contrário do que acontece em Las Vegas, e uma aposta específica, envolvendo a vultuosa quantia de 75 mil dólares, pode colocar o FBI atrás de Beth e de Jerry.
Se “O Dobro Ou Nada” não chega aos níveis de excelência que Frears obteve em outros projetos, isso provavelmente se deve pelo fato do material tê-lo encontrado num período menos inspirado: Há algo de indiferente em sua narrativa que parece negligenciar o humor para fazer dele uma comédia e a tristeza para fazer dele um drama –ou até mesmo o amor para dele fazer um romance.
O filme termina sem um gênero definido, o que também o torna assim enfadonho na indecisão por um propósito –uma pena, o trabalho bastante radiante e notável de Rebecca Hall merecia o protagonismo de um filme mais eficaz.

domingo, 13 de maio de 2018

Duro de Matar



Vindo de um filme muito bem-sucedido (“O Predador”, com Arnold Schwarzenegger), o diretor John McTiernam –que, depois deste trabalho passou a ser considerado, com méritos, um especialista –conseguiu entregar, neste projeto seguinte, um filme de apelo irresistível, onde o gênero de ação encontra um de seus mais perfeitos (e mais imitados) exemplares.
Para tanto, inúmeras coisas deram certo em “Duro de Matar” –a começar pela imprevista escolha de Bruce Willis, cujo carisma segura o filme maravilhosamente bem, no lugar do inicialmente cotado Schwarzenegger; Willis (na crista da onda com o sucesso da série “A Gata e O Rato”) termina introduzindo o elemento que mais distingue e define seu personagem –o policial John McClane –e o próprio filme que ele protagoniza: A sua vulnerabilidade.
Os anos 1980 estavam abarrotados –e talvez até defasados –de protagonistas durões, fortes e invencíveis; entre os quais muitos deles vividos pelo próprio Arnold Schwarzenegger e por Sylvester Stallone (como “Rambo”).
“Duro de Matar” como quem não quer nada estabeleceu uma nova equação: O filme de McTiernam testa o expectador. Até mesmo provocando-o com a possibilidade de um filme mais contido em sua primeira meia hora: Vemos o policial nova-iorquino John McClane chegando em Los Angeles, para visitar a família no feriado de Natal.
Em plena véspera, ele acaba indo parar numa festa em um edifício luxuoso onde sua esposa Holly (Bonnie Bedelia) trabalha ambiciosamente como uma das executivas –fato que deixou seu casamento abalado; e nesse breve trecho notamos o quão indispensável é a versatilidade dramática de Willis em dar facetas humanas ao personagem (coisa que Schwarzenegger e Stallone possivelmente não seriam capazes de fazer).
Esses elementos serão essenciais mais a frente.
Colidindo com as expectativas do público ao deixar de entregar cenas de ação ocasionais –e, em vez disso, deixando que a narrativa se torne tensa, eletrizante e épica aos poucos, McTiernam monta o cenário devagarzinho: Subitamente, bandidos altamente organizados tomam o local. Isolam o prédio e fazem todos de refém no único andar ocupado (o da festa). Eles e seu líder (interpretado primorosamente por Alan Rickman) têm um propósito que se mantém misterioso (e que, no fim das contas, não importa muito).
Durante o tumulto, o policial McClane passa despercebido e consegue se refugiar nos outros andares do edifício, vazio em função do feriado.
E está assim armada a circunstância sensacional em torno da qual a narrativa de “Duro de Matar” irá girar –e que irá explorar em todos os desdobramentos explosivos. McClane acaba por se tornar a única esperança para os reféns, e uma dor de cabeça gradualmente alarmante para os bandidos –e nesse crescendo, o diretor McTiernam amplia o suspense e o assombro do público amparando-se na autenticidade de seu protagonista. Ao ver McClane sangrar, sentir medo, apreensão e até frustração (na contínua incapacidade de encontrar algo para vestir seus pés descalços) o diretor aproxima um herói de ação de seu público de forma até então inédita e ainda se dá ao luxo, quando “Duro de Matar” diz a que veio e se torna o filmaço que é, de entregar uma cena de ação memorável atrás da outra. Cito duas: A luta brutal e (à época) impressionante entre McClane e o brutamontes vivido por Alexander Godunov (de “Um Dia A Casa Cai”); e aquela que talvez seja a grande cena clássica do filme –McClane encurralado numa cobertura prestes a explodir se amarra numa reles mangueira de incêndio para saltar do edifício num dos momentos mais vertiginosos do cinema comercial dos anos 1980.
Tão envolvente e vibrante foi a simplicidade e a objetividade de sua premissa que “Duro de Matar” virou nas décadas seguintes, uma espécie de conceito: Os filmes de ação produzidos passaram a ser variações de “Duro de Matar” com seus heróis confinados em porta-aviões (“A Força Em Alerta”, com Steve Segal), em estádios de hóquei (“Morte Súbita”, com Jean Claude Van Damme), e até em um ônibus (“Velocidade Máxima”, com Keanu Reeves)! Mesmo hoje esse conceito ainda perdura (caso do recente “Invasão À Casa Branca”, com Gerard Butler).
O próprio “Duro de Matar” rendeu até então quatro continuações (todas com Bruce Millis em boa forma), mas nem elas nem seus imitadores foram capazes de capturar a genialidade deste primeiro filme.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

O Sexto Sentido

Em meados de 1999, quando o cinema norte-americano foi chacoalhado por uma sucessão de trabalhos autorais de grandes talentos que se revelavam, como Spike Jonze (“Quero Ser John Malkovich”), os Irmãos –agora irmãs –Wachowski (“Matrix”) ou Wes Anderson (“Três É Demais”), uma das mais bombásticas revelações atendia pelo difícil nome de M. Night Shyamalan, e seu filme, sem sombra de dúvidas, um dos mais comentados do ano, era o surpreendente “O Sexto Sentido” com sua já lendária reviravolta final.
O próprio Shyamalan, para o bem e para o mal, fez uma carreira de sucesso empregando com algumas variações a fórmula que ele descobriu aqui –virando inclusive uma caricatura de si mesmo perante a indústria com a insistência em usar finais inesperados.
No entanto, quando ele lançou “O Sexto Sentido” houve um abalo sísmico na indústria cinematográfica, por uma série de razões.
A trama inicia-se na Philadelphia (palco de quase todas as histórias de Shyamalan) com o psiquiatra infantil Malcolm Crowe (Bruce Willis, um dos atores prediletos do diretor) numa noite em que terá seus esforços reconhecidos com um prêmio como bem observa sua esposa Anna (Olívia Williams, que também estava em “Três É Demais”).
As inclinações dramáticas de Shyamalan logo surgem quando aparece em cena um ex-paciente de Malcolm (vivido por Donnie Whalberg, irmão de Mark), perturbado e suicida.
Sem delongas e dando apenas as informações necessárias ao expectador para seguir com a história em frente, Shyamalan avança um ano no tempo. Após sofrerem o atentado, o casamento de Malcolm e Anna passa por uma súbita crise, e ele acaba conhecendo um garotinho chamado Cole (o pequeno e espantoso Haley Joel Osment, certamente grande responsável pelo imenso sucesso deste filme).
Tão protagonista quanto Malcolm, Cole tem problemas muito similares aos do antigo paciente que se matou: O convívio social com as outras crianças –e até mesmo com alguns adultos –a despeito de ser muito inteligente, é doloroso e relutante. A angústia que ele ostenta é freqüentemente injustificável e seu comportamento o leva violentamente rumo à alienação.
Para Malcolm, ajudá-lo seria, portanto, como redimir-se pelo outro jovem com o qual fracassou.
Para Cole ele é, aos poucos, a única pessoa que realmente é capaz de ouvir sua confidência e entender o terrível segredo que carrega –que ele, Cole, tem visões assustadoras, que logo descobriremos, é resultado de um dom que permite a ele enxergar os mortos (e nas cenas apavorantes que se seguem, absurdamente bem orquestradas, envolvendo essas aparições o diretor Shyamalan chega a ombrear Kubrick, em “O Iluminado” ou Polanski, em “O Bebê de Rosemary” na concepção de alguns dos mais antológicos e intensos momentos na história do gênero de terror).
Aliás, uma das mais notáveis conseqüências do sucesso de “O Sexto Sentido” foi o retorno à pauta do cinema comercial de premissas e idéias que devolviam o medo de verdade ao gênero do terror que vinha de uma década de 1990 praticamente dominada por filmes adolescentes na esteira de “Pânico”, de Wes Craven, e outras tolices. Com uma mistura adulta, refinada e competente de dramaturgia bem executada e terror psicológico com bases plausíveis e sensatas Shyamalan mostrou à indústria que o público poderia assimilar filmes que não tivessem apelo exclusivamente juvenil.
Mais que isso: Que poderia haver vida inteligente num sucesso de bilheteria. O público certamente não estava preparado para o fato de que, em direção a um final quase ameno e tranqüilo e na busca por tentar conviver com o incrível dom do menino, os dois, o jovem paciente Cole e seu psiquiatra Malcolm, caminhavam para um desfecho surpreendente.
Durante muito tempo, os expectadores saiam chocados das salas de cinema, falando a respeito da forma quase inovadora com que seu final sutilmente conseguia transformar todo o filme que havia vindo antes dele.
Entre muitas, essa certamente foi uma sacada de gênio.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Corpo Fechado

O lançamento de “Fragmentado” reacendeu a esperança de toda uma legião de fãs deste cultuado trabalho de M. Night Shyamalan que, por tanto tempo, sonharam com uma continuação das aventuras (se é que se pode chamar assim) do personagem David Dunn, magnificamente interpretado por Bruce Willis.
Em meados do ano 2000, Shyamalan estava com a bola toda. Revelado (e indicado ao Oscar) pelo sensacional “O Sexto Sentido”, o diretor e roteirista tinha toda a atenção do público e da crítica sobre o seu trabalho seguinte, o misterioso “Unbreakable”.
Obedecendo uma espécie de conceito que ele adotou em “O Sexto Sentido” –e numa série de projetos que vieram depois –este novo trabalho de Shyamalan (aqui no Brasil batizado como “Corpo Fechado”...) dava uma roupagem de seriedade, fatalismo e até dramaticidade à uma premissa fantasiosa; se em “O Sexto Sentido” eram filmes de fantasmas, em “Corpo Fechado”, eles eram adaptações de histórias em quadrinhos.
Tudo isso feito numa época, diga-se, em que tais adaptações não tinham o monopólio comercial que têm hoje: No ano 2000 existia, quando muito, o primeiro filme dos “X-Men”, e a promessa de um ainda vindouro filme do Homem-Aranha...
Por essas razões, sob inúmeros aspectos, “Corpo Fechado” era um filme a frente de seu tempo.
Retomando a parceria pra lá de bem-sucedida de “O Sexto Sentido”, Shyamalan escalou mais uma vez Bruce Willis para ser o protagonista, David Dunn, um cara até então normal que se torna o único sobrevivente de um brutal descarrilamento de trem. Mais que isso: Além de sobreviver ele não teve um único arranhão sequer.
Quando Elijah Price (Samuel L. Jackson) um estranho colecionador de quadrinhos, portador de uma doença que lhe enfraquece os ossos se apresenta a ele, David percebe coisas que até então não dera atenção, como o fato de nunca ter realmente se machucado ou ficado doente.
Price tem uma teoria: os super-heróis das histórias em quadrinhos são na verdade inspirados em seres humanos reais que eventualmente nascem, crescem e morrem com capacidades sobre-humanas em meio às pessoas normais, capacidades as quais nem sempre imaginam possuir. E segundo sua teoria, David Dunn seria um deles.
Resta, contudo, superar algumas dúvidas bem cabíveis: Se Dunn possui poderes, quais são eles? Quais as suas extensões? Que utilidade ele dará à esses novos dons? E –a mais perturbadora de todas –por qual razão Elijah Price tem tanto interesse nisso?
Narrado com primor singular e uma abordagem adulta que os filmes do gênero ainda não haviam experimentado, “Corpo Fechado” à época, infelizmente, não fez o mesmo sucesso do trabalho anterior de Shyamalan; alguns expectadores se frustraram com seu deliberado distanciamento temático e categórico de “O Sexto Sentido”; enquanto que outros, paradoxalmente, não gostaram justamente por enxergarem inesperadas semelhanças entre os dois filmes (!).
Com o tempo, porém, “Corpo Fechado” encontrou seu público por meio de um culto iniciado em homevideo que cresceu exponencialmente com o passar dos anos –a ponto de tornar o insistente clamor por uma continuação um aborrecimento constante ao diretor em suas aparições públicas.