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quarta-feira, 7 de abril de 2021

Monster Hunter


 Chamam estilo quando um diretor insiste numa mesma miríade de elementos, filme após filme, de tal forma contínua e apegada que o reconhecimento de tais elementos na narrativa evoca de imediato seu nome e suas obras.

Entretanto, o que o diretor Paul W.S. Anderson faz em “Monster Hunter” vai muito além de propriamente estilo; ele replica de forma quase indiscreta as características que pôs em prática ao longo da “Saga Resident Evil”, dando de ombros para qualquer impressão de repetição que este novo trabalho poderia suscitar (e que de fato suscita). Como “Resident Evil”, “Monster Hunter” é extraído de um jogo de videogame, onde une-se com mirabolância vertiginosa expedientes gráficos do terror (zumbis anabolizados lá; monstros gigantes aqui), e como lá essas ferramentas estão a serviço de uma direção menos interessada ao conteúdo e mais ao formado arrojado e nunca acomodado. Ah, sim, e como lá, a estrela é também Milla Jovovich.

Na cena que abre “Monster Hunter” vemos um navio do que aparenta ser um mundo alienígena, afinal, a despeito da caracterização à la “Piratas do Caribe”, tal navio singra as areias de um deserto, e não as águas de um mar (!), capitaneado por Ron Perlman (a ostentar um ridículo corte de cabelo). Despida de esclarecimento, e praticamente  sem background até quase o trecho final do filme, essa cena mostra o personagem do astro tailandês Tony Jaa ficando extraviado no deserto –o detalhe verdadeiramente relevante ao plot embora, na salada visual de tudo que ali acontece, isso seja uma das últimas coisas que o expectador vai perceber.

Finalmente, somos então apresentados à Natalie Artemis, personagem de Jovovich, uma militar norte-americana em missão em algum deserto do Oriente Médio, no nosso mundo. Embora a direção de Anderson, em seus maneirismos usuais, passe a ideia de que todo o grupo de soldados que a acompanha serão importantes ao plot –afinal, perde-se um tempo lascado com cenas de interação entre eles a mostrar sua camaradagem e os ‘laços entre soldados’ –não tarda à narrativa livrar-se de todos: Colhidos numa súbita e misteriosa tempestade de areia, o grupo da Comandante Artemis atravessa um portal que os joga em outro mundo (!), o mesmo mundo visto na estranha cena inicial.

Lá, descobrimos, monstros gigantescos espreitam em cada duna. Duas espécies são imediatamente distinguíveis: Umas aranhas gigantes que saem à noite, quando a luz solar não as ameaça (criatura que parece decalcada dos seres vistos no cult “Eclipse Mortal”); e os Diablos, seres rastejantes que se ocultam submersas nas areias, tal e qual os monstrengos do clássico B “O Ataque dos Vermes Malditos”.

Tendo todos os soldados sob seu comando exterminados, Artemis tem de unir-se ao esquisito caçador, um misto de guerreiro pós-apocalíptico e indígena extra-terrestre (e personagem deixado à deriva no prólogo) para conseguirem sobreviver.

Sem qualquer preocupação em ater-se à trama para além do fato de reordenar os mesmos conceitos do videogame (revelando até mais fidelidade aqui do que demonstrou em “Resident Evil”), o diretor Anderson se satisfaz em registrar um situação de corre-corre e sobrevivência a envolver apenas esses dois personagens. Algum fio de história começa a ser esboçado já nos quarenta minutos finais, quando o núcleo de personagens (mal) introduzido na cena inicial (incluindo os personagens de Ron Perlman e até da brasileira Nanda Costa) reaparece, contando à Artemis sua derradeira missão contra um dragão que representa o maior desafio naquele mundo apinhado de monstros.

Quando a “Saga Resident Evil” chegou ao fim com o lançamento cheio de pompa e circunstância de “Resident Evil-Capítulo Final” imaginava-se que os envolvidos seguiriam em frente: Milla Jovovich experimentaria outros desafios como atriz, enquanto o diretor Anderson (que, à propósito, é também marido dela) testaria sua capacidade em novos projetos. “Monster Hunter” é um indício de que, se “Resident Evil” chegou ao fim, dificilmente isso foi por iniciativa da atriz e do diretor: Tão similar ele é, em sua proposta, seu visual e seu resultado técnico como um todo, que a semelhança chega às raias do constrangedor, seja em suas qualidades como em seus defeitos.

domingo, 30 de agosto de 2020

O Quinto Elemento

Apesar do grande filme que é, pode-se dizer que “O Profissional” foi uma estréia discreta para o francês Luc Besson no cinema norte-americano; ambição mesmo, ele veio a demonstrar no seu projeto seguinte, a amalucada ficção científica “O Quinto Elemento”.
Oriundo de uma ideia que Besson teve ainda na adolescência, o roteiro (ignorante de vários conceitos científicos e históricos que já propunham a existência de um ‘quinto elemento’) se irmana ao primeiro longa-metragem de Besson, “O Último Combate”, devido à sua estética profundamente influenciada por quadrinhos europeus, como ficará perceptível mais à frente, com nítidas referências ao estilo dos artistas Moebius (um dos desenhistas de produção) e Enki Bilal.
O roteiro de Besson, travesso e inconsequente, começa no ano de 1914, quando arqueólogos  estudando uma pirâmide egípcia (um deles sendo Luke Perry, da série “Barrados No Baile”) têm um estranho contato imediato com seres alienígenas; tais seres, os Mondoshawans, advertem o padre ali presente de que, dentro de 300 anos, um mal iminente surgirá para destruir a vida, e o templo contêm instruções para preparar a arma  que irá rechaçá-lo, na qual os quatro elementos essenciais à vida (o ar, a água, o fogo e a terra), representados por pedras sagradas que eles levam embora por não confiarem nos humanos, devem ser depositados ao redor de um quinto (e desconhecido) elemento. Todas as perguntas, eles prometem responder quando a hora chegar.
Deveras, a narrativa avança 300 anos no tempo, quando naves espaciais humanas registram de fato a aproximação do que parece ser um planeta incandescente com rota fixada de colisão contra a terra. Ataques contra esse planeta só o fazem crescer ainda mais. Então, o Padre Vito Cornelius (Ian Holm) surge contando a história acerca da profecia extraterrestre –que lhe foi passada através de outros guardiões desse segredo.
Os Mondoshawans até tentam contato com a humanidade, mas são destruídos num atentado de autoria do perverso Zorg (Gary Oldman), o vilão da vez, cujos motivos jamais são realmente esclarecidos.
Apenas um membro é recuperado dos alienígenas benevolentes e, ao tentar restaurá-lo a partir da avançada engenharia genética, os cientistas terrestres criam a personagem de Milla Jovovich, Leeloo, uma criatura segundo eles perfeita, que em nada lembra os alienígenas jocosos e nada humanos a partir dos quais foi criada.
Ela vem a ser o ‘quinto elemento’.
Por qual razão? Ela tem poderes? Então, um dos alienígenas era outrora o ‘quinto elemento’ também? Nada disso fica muito claro, e provavelmente, Luc Besson concebeu essa premissa sem preocupar-se em se aprofundar em questionamentos plausíveis como esses...
Os poderes de Leeloo oscilam conforme o momento –numa hora tem força e agilidade sobrehumanas, em outro, quando é conveniente que seja a mocinha em perigo, não tem mais... –assim sendo, sem também ter muita explicação, ela resolve fugir do laboratório onde foi criada e, do lado exterior do belo mundo futurista executado por Besson e sua equipe, Leeloo acaba caindo dentro do táxi dirigido pelo protagonista da história, Korben Dallas (Bruce Willis, num personagem sem sombra de dúvidas inspirado em Harry Canyon, personagem de um dos primeiros episódios da animação “Heavy Metal-Universo Em Fantasia”).
Este, por sinal, é um protagonista inserido da forma mais paradoxalmente aleatória e arbitrária já vista em uma produção comercial –os caminhos dele e de Leeloo se cruzam por pura conveniência do roteiro, sem qualquer disfarce ou subterfúgio, e para tornar a coisa ainda mais incômoda, isso ocorre duas vezes (!).
Sim, pois, Leeloo –que inicialmente não fala a língua humana –é, afinal, levada por Korben ao padre Cornelius a fim de darem continuidade à sua missão. E então... a utilidade do personagem de Willis se acaba! Sobretudo, porque, como todo protagonista de ação descolado, ele não faz muita questão de ajudar os que precisam de ajuda.
Assim, ele volta para sua casa e, pela segunda vez, é inserido na mesma trama de forma completamente arbitrária –num dos inúmeros lapsos do roteiro que tornam duvidosos os esforços em convencer o público –quando ele é requisitado por militares (ele era um ex-operativo de Forças Especiais, trabalhando de taxista...) para encontrar as tais pedras, aquelas que representavam os quatro elementos e que foram perdidas.
As pedras, na verdade, foram confiadas a uma artista-cantora alienígena chamada Plavalaguna (Maïwenn Le Besco), cuja concorrida apresentação se dará no planeta Fhloston –quando então entregará as pedras aos humanos. Os militares providenciam assim uma passagem para Korben, que acaba entrando na mira de Zorg, desejoso de obter a passagem para si; de Leeloo e do padre Cornelius, que desejam dele extrair a passagem também; e da raça extraterrestre dos Mangalores, guerreiros, brutamontes e ineptos que também querem se apropriar das pedras (e, ao que parece, todos os personagens do filme concluem que a única maneira de ir à Fhloston é roubando as passagens de Korben!).
Após as confusões, que transformam por um tempo “O Quinto Elemento” numa comédia de erros ao invés da aventura de ficção científica que aparentava ser, Korben e Leeloo seguem para Fhloston, onde encontram Plavalaguna –numa inusitada cena musical que acrescenta doses de estranheza ao culto do filme –e o personagem de um bizarro e andrógeno radialista extraterreno vivido por Chris Tucker. Os núcleos tumultuados de antagonistas e protagonistas convergem para o tal Paraíso Fhloston, uma espécie de hotel espacial, onde se sucede a apresentação de Plavalaguna e a primeira cena de ação de fato de “O Quinto Elemento” –isso quando o filme já adentra sua reta final!
A verdade é que essa impressão algo equivocada, de que “O Quinto Elemento” seja um ficção científica de ação (erro que alguns expectadores cometem até hoje) se dá pela presença de Bruce Willis –um dos astros de então que foi imposto ao diretor Besson pelo estúdio da Columbia Pictures sob condição de financiarem seu filme.
“O Quinto Elemento” é, sim, uma fantasia de orientações desconcertantes, desafiadoras para qualquer paradigma de gênero, com elementos bastante comuns aos filmes europeus que Besson concebeu na década anterior, a de 1980. Aqueles que se ancorarem numa pressuposta coerência em sua história ou no encadeamento de seus acontecimentos correm o risco de ficarem um bocado irritados. Para apreciá-lo, deve-se focar nos aspectos que realmente o transformaram num cult-movie: No visual incomum (de um “Blade Runner” à luz do dia, ou de uma história em quadrinhos européia), cortesia do bom trabalho do diretor de fotografia Thierry Arbogast, em sintonia com as inquietações estéticas muito singulares de Luc Besson; na trama tão juvenil quanto abilolada (e ainda assim pretensamente intrincada) onde só importa uma certa diversão; e na presença refrescante da estreante (e belíssima) Milla Jovovich que, se por um lado incumbe-se de uma personagem que se equilibra no abismo da inverossimilhança injustificada, por outro, brinda o filme de ponta a ponta com seu carisma e seu encanto, num reflexo do que Natalie Portman também já fazia em “O Profissional”.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

A Saga Resident Evil


Resident Evil-O Hóspede Maldito
Uma das mais controversas adaptações de videogame para cinema (na medida em que possui tantos admiradores quanto detratores), a Saga “Resident Evil”, a despeito de uma discussão perene acerca das reais aplicações de suas qualidades como cinema, permanece um corpo conceitual único pela forma quase independente com que sua mitologia abilolada adquiriu vida própria nas telas, afastando-se completamente da fidelidade aos conceitos do jogo original e singrando por um caminho tão imprevisível quanto improvável.
Ao dar início, num já longínquo 2002, ao enrolado novelo de lã que constitui o enredo da saga como um todo, este primeiro filme de “Resident Evil” se esgueira de uma condição constante nos videogames para assumir sua primeira decisão como narrativa: Ele possui uma protagonista.
Ela é Alice (personagem ausente nos jogos cuja nomenclatura remete ao conto de Lewis Caroll e ao leque variado de hostilidades além da imaginação que vão vir).
Ela acorda providencialmente desmemoriada num lugar que não sabe onde é, por razões que não sabe quais são; os realizadores usam assim do benefício da dúvida para fazer de Alice (interpretada com garra e perplexidade por Milla Jovovich) os olhos da platéia para o mundo mirabolante que eles irão descortinar.
Em comparação com a megalomania de suas continuações, este primeiro filme realizado por Paul W.S. Anderson até que parece contido e sucinto: Ele se esforça em emular certo pesadelo claustrofóbico presente no videogame ao confrontar Alice e os personagens que vão aparecendo com as monstruosidades de praxe que surgem, digitais e ostensivas, a cada virada de corredor.

Resident Evil 2-Apocalipse
No segundo filme –agora dirigido por um tal Alexander Witt –a protagonista Alice descobre que toda a ação transcorrida no subsolo do original na realidade acontecia embaixo de uma cidade normal, subsidiária de um grande complexo das indústrias Umbrella, empresa criadora do vírus que possibilitou a praga e (por razões nunca de fato plausíveis) criadora da própria Alice, também; um clone dotado de tamanha força e rapidez que faz ela parecer a Mulher-Maravilha (!).
Agora, os zumbis e toda a ameaça biológica concebida pela Umbrella poderão ganhar o mundo e Alice, ao lado da policial Jill Valentine (a bonita e inexpressiva Sienna Guillory, uma personagem oriunda do game) devem lutar para ao menos salvar a população.
Esta primeira continuação da aguardada adaptação para cinema do cultuado videogame estabelece de forma meio cambaleante o que seria, daqui para frente, a série cinematográfica "Resident Evil": Absurdos monumentais de roteiro, referências ocasionais às tramas do game (e não uma literal adaptação) e um clima predominante de filme B, tudo emoldurando a atuação overpower de Milla Jovovich.
Se os outros capítulos encontraram –sobretudo, num trabalho de direção consciente de sua cinematografia –meios de ir além da pirotecnia desvairada, este segundo filme se revela o mais fraco ao dispor de pouca habilidade na manipulação de seus elementos.

Resident Evil 3-A Extinção
Com a chegada do terceiro filme, a saga já sofreu uma das suas primeiras e mais evidentes reformulações (entre muitas que em maior e menor grau seriam aplicadas na trama): Já se vão alguns anos desde que os acontecimentos dos dois primeiros longa-metragens mudaram a paisagem do mundo.
Agora, a saga "Resident Evil" ambienta-se num cenário pós-apocalíptico muito parecido com "Mad Max", e toda a sorte de filmes sobre esse tema e com essas características que a produção pode citar.
Há inclusive aí uma cena onde o diretor Russel Mulcahy (de “Highlander-O Guerreiro Imortal”) –substituindo Paul WS Anderson que dirigiu o primeiro filme, produziu o segundo (dirigido por Alexander Witt) e voltaria a dirigir os próximos –tenta homenagear "Os Pássaros" de Hitchcook.
Não há dúvida que o diretor Mulcahy traz uma nova visão vigorosa à série, mostrando que seu material sobrevive a uma tentativa de reinvenção e, mais ainda, ganha com isso em sabor e melodia –há todo um novo contexto que revitaliza as peripécias de Alice (personagem que a essa altura, Milla Jovovich já tornou sua) e dá novo empuxo às seqüências de confronto, ação e perseguição que se seguem.
Na trama, Alice, enquanto singra os deserto desse novo mundo constituído de pó, ruína e desolação, acha-se com uma caravana de sobreviventes, incluindo aí alguns personagens referenciais do videogame como Claire Redfield (Ali Larter, da série “Heroes”). Entre tiroteios, lutas e perseguições concebidas com todo o apuro que o cinema de ação é capaz de moldar, Alice dá continuidade à sua constante fuga de seus criadores, os inescrupulosos cientistas das Indústrias Umbrella.

Resident Evil 4-Recomeço
Vingança. É o combustível que impulsiona a protagonista neste quarto exemplar da série de cinema que, de forma completamente à margem da trama desenvolvida no videogame, segue parecendo uma sucessão de filmes onde o exagero da forma, o barulho inaudível das seqüências de explosão, o excesso de frenesi nas cenas de ação, se sobrepõem a qualquer ênfase que por ventura a história pudesse ter.
Contudo, esses elementos são manipulados com uma consciência desigual e uma reflexão em torno do quê, de fato, é “Resident Evil” –certamente, aqueles que esperaram por uma versão fiel e direta do que se joga no videogame ficaram bastante perplexos.
Sua premissa, por sinal, é manancial abundante de tudo que mais mirabolante a cultura pop andou criando nos últimos tempos, envolvendo clones, mutação, zumbis, superpoderes, monstros mutantes, experiências, tecnologia, tudo embalado em meio a efeitos 3D alucinados que certamente seduzem ao desesperado paladar adolescente.
Foi a partir daqui que o diretor Paul W.S. Anderson (marido da estrela Milla Jovovich, à propósito) assumiu em definitivo a direção da série –que já reunia indisfarçavelmente todas as suas características como realizador –e fez dela uma obra sua.
O sub-título, “Recomeço” é plenamente significativo: A trama leva Alice por novos rumos que definiram inclusive os filmes vindouros, o quê envolve a perda de seus poderes (até então ela era quase uma espécie de Mulher Maravilha!), o refúgio –junto de inúmeros outros sobreviventes –dentro de uma prisão abandonada, e o início da concepção de um grande vilão; e, por conseguinte, um propósito à heroína.

Resident Evil 5-Retribuição
Uma observação a respeito da saga “Resident Evil” é o leque de opções variados que a natureza non-sense de sua realização permite: Conforme os filmes avançam, os roteiristas se sentem à vontade para pegar um ou outro gancho narrativo que resta construindo a partir dele um ponto de partida sobre algo que anteriormente poderia ser uma observação passageira de um dos filmes anteriores.
Trocando em miúdos: Fingir que se está trilhando um caminho todo elaborado e pré-definido quando na verdade se está tateando novas histórias (e a maneira de continuá-las) às cegas.
Essa é uma característica cada dia mais comum no universo das franquias cinematográficas (vide a franquia “Velozes e Furiosos”): Trata-se de uma dissolução deliberada que vai de encontro a um certo público para o qual quanto mais genérico parece, mais interessante, afinal, fica –um nicho de expectadores para quem a novidade pode desagradar justamente por seu elemento de inetidismo: O mais do mesmo lhe é confortável e agradável.
Para tanto, esta trama abusa das variações possíveis da clonagem nas dinâmicas entre personagens já conhecidos: Jill Valentine reaparece aqui (na verdade, um clone) como uma notável antagonista, assim como Rain Ocampo (Michelle Rodriguez, do próprio “Velozes e Furiosos”, por sinal), morta no primeiro filme.
Alice deve escapar de uma instalação de segurança máxima mantida pela Umbrella após descobrir que uma infinidade de clones (alguns dela mesma) estão sendo empregados num plano sinistro.
É neste 5º filme da saga que Paul W.S. Anderson aprimora o rumo esboçado já na primeira produção: Se o anterior “Recomeço” já era uma ponderação da relação “Resident Evil” filme e videogame, “Retribuição” é então a criação de um jogo próprio.
Ele aceita finalmente o parque de diversões descerebrado de incrementos high-tech que é. Na verdade, Anderson ostenta uma vulgaridade pop de que ele (e quem assiste) acredita no imenso poder sensorial das imagens.

Resident Evil 6-Capítulo Final
É nessas condições que todas as escolhas, excessos e premissas conduzem ao assim alardeado “Capítulo Final”, cuja história chega com a intenção de ser um arremate para todos os subtextos, todas as adaptações tentadas e não completamente consideradas das tramas nos games, as referências que em algum momento constituíram rumos tomados pelo roteiro, e os personagens que foram e voltaram como num palco ao sabor de improvisos ferozes.
É certo que a maior parte de seu público sequer considerou os dilemas artísticos e narrativos que pairavam sobre a série –e em alguns momentos, próprio o diretor Anderson parece se mostrar pouco afetado pela drasticidade das alterações –mas, é curioso notar que há, de fato, um enfoque novo que a informação acerca deste ser o capítulo final, dá a esta tentativa de expiação, de almejar um cinema maior, ainda que reafirmando orgulhosamente suas próprias imperfeições.
Aqui, o apocalypse zumbi já mostrou todos os perigos que poderia oferecer. Alice é uma sobrevivente. Nessa condição, ao lado de outros personagens, ela chega a Racoon City, reduto da Umbrella onde todos os seus recursos serão reunidos para um último ataque contra aqueles que restaram da humanidade.
Reza a lenda que o verdadeiro cinema é a ação em suas mais incontidas e exacerbadas transfigurações: Que a sempre vital dramaturgia, a essencial necessidade da atuação, o valor intrínseco do roteiro, e outras preciosidades apontadas em uma cinematografia dizem respeito às outras artes, o teatro, a literatura, a música. Dizem que o que resta ao cinema, e que lhe confere singularidade sobre todas as outras formas de arte, é a sua possibilidade de arrebatar o público com som e fúria.
Se for verdade, então, a “Saga Resident Evil” é cinema em toda sua plenitude, mesmo com suas incoerências, seus excessos e suas maluquices.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Joana D' Arc

Para além da forma indissociável que esta personagem histórica imbricou na cultura pop como uma espécie de representante do protagonismo feminino (cujas referências se encontram em trabalhos como “Jogos Vorazes”), esta estilizada versão é transparente, sobretudo, no modo como reflete as aspirações de seu realizador, o francês Luc Besson.
Terceiro projeto de Besson após sua mudança para os EUA na década de 1990 –os anteriores foram o notável “O Profissional” e o mirabolante “O Quinto Elemento”, no qual conheceu a atriz Milla Jovovich que aqui nomeou protagonista –a produção parece reunir um conceito bastante norte-americano e corporativo: É, deveras, de uma conveniência muito mercadológica à Hollywood juntar em um único projeto de ares grandiloquentes um realizador francês notório por seus filmes de ação e uma personalidade histórica da França num épico (repleto de cenas de ação, veja só!) com o aval do cinemão norte-americano.
Os executivos, talvez, só não pararam para enxergar o quanto este projeto poderia destoar da própria postura de Besson como autor –e, de repente, nem ele próprio!
De fato, a direção de Besson soa ligeiramente oprimida aqui, embora ele ainda consiga fazer o que é inerente em todos os seus filmes: Levar um senso de observação íntima que dialoga espirituosamente com sua afinada percepção de espetáculo.
Difícil dizer, na conclusão final a que leva o filme, se essa observação pertence mais à Besson ou ao estúdio que o financiou.
Comprovando toda a desenvoltura para cenas de ação que ela já havia demonstrado em “O Quinto Elemento” (e que levou-a a estrelar a infame franquia “Resident Evil”), Milla Jovovich surge, num registro bastante desigual, como Joana, uma inocente garota camponesa dos interiores da França que testemunha a barbárie dos invasores perpetrada contra sua aldeia e sua família.
Anos mais tarde, já adolescente, e com a França ainda em convulsão devida à sua instabilidade política e religiosa, Joana torna-se uma guerreira afirmando que seus passos são na verdade dados a partir de desígnios fornecidos por entidades celestiais que se comunicam com ela.
No terço final, ela é feita prisioneira pelos ingleses e submetida a um julgamento cujo teor inquisitivo e meticuloso visa sabotar sua fé; entretanto, a própria Joana será, ela mesma, confrontada com os questionamentos de seus fantasmas.
No esforço de tentar ser mais do que um outro filme a tentar levar novo enfoque á célebre história de Joana D'Arc (fato que o torna passível de comparação com uma infinidade de obras que vão desde o clássico mudo “A Paixão de Joana D’ Arc”, de Carl Theodor Dreyer, até o filme homônimo de Victor Fleming, estrelado por Ingrid Bergman, só para citar os mais ilustres), este trabalho converge seus detalhes no fato de que, desta vez, a história é contada por um esteta cultuado e munida de todos os recursos tecnológicos à disposição de uma produção hollywoodiana. Não obstante o fato de, por isso mesmo, Besson revelar-se aqui mais convencional que de costume, a maior diferenciação deste projeto é a abordagem curiosa que o filme parece fazer das motivações de sua personagem principal: Na atuação definida pelo olhar maníaco de Milla Jovovich e, em especial, na condução questionadora de ordem fantasiosa que ele dá à meio hora final (onde a alardeada participação do grande Dustin Hoffman se concretiza), o filme de Besson parece fazer algo que os que vieram antes dele não se atreveram (ou não tiveram o mau gosto de tentar...), ele confronta Joana D’ Arc com a possibilidade de sua própria loucura.