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terça-feira, 11 de outubro de 2022

O Último Matador


 O seminal “Yojimbo”, do mestre Akira Kurosawa, serviu de influência direta e indireta aos mais inúmeros gêneros e realizadores de cinema. Garantidamente, sabe-se que foi dele a inspiração para Leone tecer “Por Um Punhado de Dólares”, filme inaugural de sua cultuada trilogia, e também para que Corbucci constituísse o argumento de seu estupendo “Django” –em comum, todos têm hoje legiões de apreciadores e um culto cada vez mais merecido em torno de sua realização.

Basta um olhar superficial e passageiro pela premissa de “O Último Matador”, que Walter Hill lançou em 1996, para notarmos tratar-se de mais uma inspiração na obra de Kurosawa. Embora Walter Hill –um autor de vários filmes marcantes da década de 1980 que adentrou a década de 1990 encontrando dificuldade para manter a mesma relevância temática –tenha afirmado que seu filme se espelha muito mais na produção de Kurosawa (um filme de samurais, é bom lembrar) do que nos trabalhos de Leone e Corbucci, é sim com um filme de faroestes que este trabalho mais se parece –ainda que um verniz de “filme de gangster” seja imposto todo o tempo para diferenciá-lo.

Na poeirenta cidadezinha norte-americana de Jericho (ambientação que remete prontamente aos faroestes, alguns até dirigidos pelo mesmo Walter Hill), em plena Lei Seca –década de 1920, mas poderia perfeitamente ser Século XIX –surge o pistoleiro John Smith (Bruce Willis, marrento e em sua melhor forma) fugindo do que parece ter sido um tumultuado embate a tiros envolvendo gangsters para quem trabalhava como assassino de aluguel. Anti-herói até a medula –e, logo, pouco interessado na situação dos oprimidos da região –Smith nota que Jericho é polarizada entre duas facções de criminosos que disputam o controle do tráfego de bebidas: A máfia irlandesa e a italiana.

Um sobrevivente da recessão, Smith planeja acima de tudo lucrar enquanto por lá permanecer e a melhor maneira para isso é não se tornar leal a nenhum dos lados, mas, trabalhar para ambos enquanto fomenta, aqui e ali, certa discórdia que os levará à uma guerra. Por um tempo, a estratégia até que funciona e, sem ser desmascarado por nenhum dos grupos oponentes, Smith paira para lá e para cá, fazendo vítimas com seu gatilho rápido e implacável, ganhando confiança cada vez maior dos equivocados chefes das respectivas quadrilhas e, claro, enchendo os próprios bolsos de dinheiro.

No entanto, como parece ser contumaz nos mais afiados contos de dissolução moral, o destino dos incautos é selado na sua súbita inclinação à ética: A partir do momento em que Smith tem vestígios de seu senso de honra remanescente despertado, sua jogada dúbia é descoberta e ele acaba na mira do assassino Hickey (personagem para o qual a persona sibilante e ameaçadora de Christopher Walken cai como uma luva).

Na ampla experiência com o gênero que trabalha –ou com a mescla de gêneros, uma vez que sua obra engloba elementos como o pó amarelado e monocromático dos faroestes, bem como as cidadezinhas desoladas caindo aos pedaços; os tiroteios a céu aberto filmados com perícia insuspeita dos filmes de gangster e as intrigas conspiratórias acompanhadas de uma noção aprofundada e bem definida de conduta entre bandidos herdada de Michael Mann –o diretor Hill exibe, sobretudo, seu conhecimento técnico na construção de ritmos e atmosferas muito particulares, quase compartilhando com o público uma exultação juvenil pelo fato de evocar Akira Kurosawa (certamente seu ídolo) de maneira quase tão explícita: Salvo as distinções incontornáveis, este filme, mais que “Por Um Punhado...” e “Django” segue de maneira fidedigna, quase espelhada, os tópicos narrativos de “Yojimbo”, de tal forma que o terreno da homenagem quase é abandonado em favor da mais inquestionável cópia.

Há, porém, qualidade de sobra a ser apreciada em “O Último Matador”, no visual esmerado e estilizado que Walter Hill lhe impõe –fazendo parecer que esse quesito recebeu até mais atenção do que o necessário –e no capricho sinético e enérgico dedicado às cenas de tiroteio, em especial, à cena final, apoteótica como só um maestro da violência como Walter Hill é capaz de elaborar.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Monster - Desejo Assassino

Em meados de 2003, a carreira da atriz Charlize Theron havia entrado numa seara complicada: Embora já tivesse estagnado ao estrelar projetos genéricos que insistiam em rotulá-la –sobretudo, diante da grande beleza –como os pouco notáveis “Doce Novembro”, “Lendas da Vida” e “Encurralados”, ela também não havia ainda atingido um status que a consolidasse como estrela.
A saída para ser vista como fulgurante atriz capaz de reinventar-se quando necessário aos olhos da indústria –e, se possível, levar uns prêmios pelo esforço –surgiu quando ela decidiu radicalizar e estrelar (além de produzir) o filme independente de estréia da diretor Patty Jenkins, que atrevia-se a biografar a trajetória (ou, ao menos parte dela) de Aileen Wuornos, a primeira mulher condenada à morte na cadeira elétrica sob acusação de ser uma serial-killer.
De fato, para o papel, Charlize transformou-se: Deixou de lado a pele macia e bem cuidada, colocou próteses dentárias que alteraram drasticamente o aspecto de seu rosto, pôs lentes de contato castanhas sobre seus lindos olhos azuis, e engordou alguns quilos –uma metamorfose completa como os membros da Academia costumam adorar e enaltecer de tempos em tempos: Desnecessário dizer, portanto, que esse esforço lhe valeu o Oscar 2004 de Melhor Atriz, além do Globo de Ouro de Melhor Atriz Dramática e o Urso de Prata no Festival de Berlim. Lhe valeu também um sopro de renovação na carreira: A partir de então, Charlize passou a ser requisitada para projetos mais nobres e distintos, com realizadores confortáveis com sua capacidade e versatilidade, uma chance e tanto para um carreira que provou-se merecedora: Ela tornou a concorrer ao Oscar em outras duas ocasiões (em 2006, por “Terra Fria” e neste ano mesmo, por “O Escândalo”), compareceu em projetos tão distintos e audaciosos como a ação “Atômica”, a ficção científica “A Estrada” e  a aventura “Branca de Neve e O Caçador”, e marcou presença numa das mais prestigiadas produções dos últimos tempos: “Mad Max-Estrada da Fúria”.
Muito disso se deve à Aileen Wuornos, papel que ela desempenha com ferocidade do início ao fim deste filme carregado de desilusão.
Prostituta de rua desde os 13 anos de idade, Aileen –como notamos na narração em off que acompanha o filme –ainda acreditava num amanhã melhor e no ‘sonho americano’, alimentada por certa ingenuidade, uma característica que, no caso dela em especial, flertava com certa insanidade. Chegando por acaso num bar gay, Aileen conhece a jovem e deslocada Selby Wall (Christina Ricci, presença assídua de produções independentes naqueles anos), cuja homossexualidade a tornou uma pária aos olhos da família.
Embora não fosse lésbica e verbalizasse a pouca vontade de se relacionar com Selby, Aileen, talvez motivada pela própria carència, acaba por se envolver com ela. Quando a convence a deixar a casa dos tios onde morava, Aileen a engana (e, em certa medida, engana a si própria também) com uma história na qual deixará de ser prostituta e arrumará um emprego onde ganhará dinheiro para que as duas possam viver bem.
Ao confrontar Aileen com o exato oposto daquilo que sonhava, a diretora Patty Jenkins desmonta cada uma das facetas do ‘american way of life’, escancarando para a plateia uma América medíocre, suja, amoral, doentia e amargurada.
Contudo, as razões da terrível derrocada de sua protagonista já estavam plantadas antes mesmo disso: Quando ainda tentava obter dinheiro para o segundo encontro com Selby, Aileen decide fazer alguns programas. Ela entra no carro de um cliente que a amarra e tenta estuprá-la com uma chave de roda (!), mas consegue soltar-se e o mata a tiros.
Mais tarde, conforme se dá conta de que a polícia não conseguiu avançar nas investigações acerca do homicídio, e de que suas chances para tentar um emprego honesto no mercado de trabalho são ínfimas, Aileen vai, aos poucos, se convencendo de que os homens pérfidos que atendia eram, em geral, merecedores do fim violento que ela acabou lhes dando. Ela tenta acreditar que os matava para proteger-se, mas as mortes –nas quais desovava o corpo, pegava o dinheiro e ficava com o carro das vítimas –vão se somando de tal maneira que, nos finalmentes, Aileen matava pessoas inocentes de fato, que apenas lhe davam carona, alheios ao fato de que era prostituta.
A diretora Patti Jenkins nem tanto enfatiza esse aspecto ‘serial-killer’ da personagem e do filme, como prefere, muito mais, vislumbrar com atenção e minúcia, os caminhos pedregosos que a levaram até lá. Nesse sentido, é realmente primoroso o trabalho de interpretação de Charlize Theron: Ela emprega os maneirismos que definem Aileen como mecanismos de defesa para ela proteger-se da inclemência do mundo, mostrando a protagonista, em sua inaptidão, se converter quase sem notar numa assassina, enquanto se abastece da certeza ilusória de que está trilhando um caminho rumo ao seu sonho.
Como é inevitável num filme com essa proposta, “Monster” abandona o expectador com um sabor amargo na boca e com as imagens de um deprimente registro de seres à margem de uma sociedade obcecada pelo sucesso mas capaz de esmagar com inapelável crueldade os seus fracassados.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Ouro É O Que Vale


Narrado em forma de balada e, por isso mesmo, intercalando seus acontecimentos com trechos de canções (ou seria uma só canção) que comenta direta e detalhadamente o que transcorre na tela –proporcionando aos eventos assim uma romantização ainda mais enfática do que seria o normal no já romantizado gênero de faroeste, este “Ouro É O Que Vale” encontra mais significado no fato de ser produzido por Blake Edwards do que em ser dirigido pelo nítido operário contratado William Graham.
É o apreço de Edwards pela comédia espontânea e contagiante o norte para o qual o filme aponta o tempo todo –enquanto no mesmo período, 1967, haviam filmes italianos (os ‘espaghetti’) de rasgante epopeia e filmes norte-americanos amargamente revisionistas para com o gênero, este é um dos mais leves, descompromissados e descontraídos faroestes já lançados.
Ele se inicia com um roubo de um malote de ouro em posse do Exército Confederado. Os três bandidos envolvidos no crime (entre eles, um soldado desertor), entretanto, têm seu plano acometido de um rumo inesperado.
Eles se separam e um deles é incumbido de enterrar o ouro, deixando a localização em um mapa a ser compartilhado com os outros. Todavia, esse bandido, valentão, envolve-se num duelo com o desprendido Lewton Cole (James Coburn, sensacional).
Tão desprendido, que nem leva muito essa coisa de duelo a sério: Enquanto o adversário lhe aguarda plantado num campo aberto, Lewton vai lá, esgueira-se atrás do cavalo e lhe fulmina com um tiro de espingarda!
Não sem antes, claro, tomar conhecimento do mapa que o levará até o tesouro.
No encalço dessa pista, Lewton Cole cruza-se com outros personagens que acrescentarão mais percalços em seu caminho: O xerife Copperud (Carroll O’ Connor) que pretende soar autoritário e firme, mas exala galhofa, e a filha dele, Bilee (a linda Margaret Blye) que após um interlúdio sexual e clandestino com Lewton passa a persegui-lo com uma promessa ambígua de aliança, vingança e relacionamento.
Entre confusões, encontros e desencontros que fazem o gosto do produtor Blake Edwards, somados a uma ambientação no Velho Oeste, esta é uma trajetória divertida que se acompanha com muito prazer graças, sobretudo, ao carisma indiscutível do astro James Coburn.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Caçador de Morte


A primeira perseguição de carro que abre o filme já demonstra claramente a fortíssima influência que este semi-clássico setentista exerceu em “Drive”, de Nicolas Winding Refn: A mesma cena é quase reconstituída também na abertura daquele filme, de modos a recriar o mesmo tom, o mesmo ritmo e a mesma atmosfera do trabalho de Walter Hill.
Como lhe é inerente como realizador em todos os filmes que fez e que viria a fazer depois deste, Hill impõe uma narrativa direta e reta, sem firulas.
Seus personagens são anônimos. Atendem pelas alcunhas genéricas de O Motorista, O Detetive, A Jogadora.
Ao contrário do que se poderia imaginar, Hill encontra até um certo charme nessa superficialidade: Os atores (ótimos, por sinal) se empenham em agregar algum valor psicológico a esses arquétipos e a narrativa se diverte em elaborar seus atritos.
Ryan O’ Neal, com uma gelidez que remete algo de seu trabalho em “Barry Lyndon”, de kubrick, interpreta o Motorista. Não um motorista qualquer mas um hábil piloto de fugas –talento que ele demonstra já na mencionada cena inicial, quando escapa audaciosamente das garras da polícia levando consigo uma dupla qualquer de assaltantes.
Sua fama é tão difundida que o Detetive (Bruce Dern) incumbido do caso já sabe, de antemão, que seria ele o único profissional capaz de perpetrar tal fuga. O problema é relacionar o Motorista ao crime em questão já que a única testemunha ocular realmente válida da ocasião (vivida por Isabele Adjani) vem a ser justamente uma das pessoas envolvidas na armação.
Mas, o faro para larápios do Detetive aos poucos começa a desenrolar o intrincado novelo feito de alianças frágeis entre os envolvidos no crime, levando o Motorista a fazer valer sua astúcia para escapar de quem o deseja preso.
Construído com a propriedade habitual do notável realizador que Walter Hill é, o filme tem lá seus méritos embora se posicione num local meio transitório no que tange à sua importância como filme de gênero e como cinema: Sua produção é visivelmente acima da média, mas na busca por inovação ele chegou consideravelmente atrasado se compararmos a audácia de suas cenas de perseguição com “Bullit” ou “Operação França”, dois brilhantes e marcantes desbravadores do gênero que foram lançados uns anos antes.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Django Livre

Em 2007, Quentin Tarantino recebeu com lisonja o convite de um grande ídolo seu, o cultuado diretor japonês Takashi Miike, para participar do elenco de um filme dele, uma espécie de delírio cinematográfico ao estilo faroeste intitulado “Sukiyaki Western Django” –inspirado, por sua vez, no antológico faroeste spaghetti de Sergio Corbucci, “Django”.
Nada me tira da cabeça que foi ali, inspirado pela iniciativa do próprio Takashi Miike, que Tarantino aproveitou a idéia e a premissa para fazer ele próprio o primeiro faroeste de sua carreira (já ela pontuada por constantes homenagens ao gênero): “Django Livre”.
O próprio título indica que Tarantino teve a idéia em conseqüência do projeto de Miike –que, para variar um pouco, nunca foi lançado no Brasil...
Sob inúmeros aspectos, Tarantino se vale da deixa do faroeste para promover uma série de debochadas reinvenções, a começar pela contundente crítica ao racismo e à escravidão, afinal, se antes o negro Django (Jamie Foxx herdando um personagem inicialmente destinado à Will Smith que evitou o projeto devido à alta violência) era mais um cativo do sul escravocrata, logo na cena inicial ele é feito homem livre pela intervenção do pistoleiro e caçador de recompensas Dr. King Schultz (o magnífico Christoph Waltz).
Um mercenário travestido de dentista, Schultz é um homem que não crê em rótulos –e sendo ele, por sua vez, um alemão (nacionalidade fadada a carregar o estigma do nazismo a partir do Século XX), este é também um comentário muito particular do realizador.
Acompanhado de Schultz, a quem eventualmente presta ajuda, Django adota a profissão de seu salvador e logo demonstra insuspeito talento no gatilho, matando brancos foras-da-lei pelo velho oeste afora –e, por vezes, chocando os desacostumados (e preconceituosos) transeuntes com a visão de um negro armado, imponente e livre.
Mas, Django tem para si uma missão pessoal: Voltar para os ermos do Mississipi, na propriedade conhecida como Candieland e de lá tirar sua esposa, Bronhilda (a linda Kerry Washington), das garras do senhor de escravos Calvin Candie (Leonardo Dicaprio, numa atuação temperada de sarcasmo e repulsa).
Num golpe de espirituosa genialidade da parte de Tarantino, Calvin Candie não é, necessariamente, o vilão da história: Ele é freqüentemente manipulado pelo verdadeiro vilão, o empregado negro –veja só! –Stephen vivido por Samuel L. Jackson (que, aqui, está particularmente magistral em sua asquerosa vilania) que se vale da condição de mordomo de longa data da família Candie para controlar a ingênua psicose de Calvin em seu favor, destilando seu ódio contra quase todos e seu racismo pessoal contra os indivíduos de sua própria raça (!).
O resultado de um roteiro tão inclinado à reformulações conceituais acaba sendo, como sempre, mais um trabalho antológico de Quentin Tarantino, finalmente aderindo a um gênero que já influenciava indireta e profundamente a sua carreira.

Em suas mãos, esta inusitada (e debochada) reflexão sobre os meandros da escravatura avança em tensão e intenção para converter-se num vigoroso conto de vingança, além de revelar-se nesse ínterim uma apaixonada homenagem à Sergio Corbucci, o cultuado diretor do “Django” original –por sinal, o intérprete de Django, o veterano Franco Nero tem, ele próprio, uma especialíssima participação.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

A Noite dos Desesperados

O próprio Sydney Pollack parecia ser sempre o primeiro a desdenhar de seu imenso talento como cineasta. Em seus últimos anos de vida, ele preferiu a comodidade das participações como ator em produções de Hollywood (como a comédia “O Melhor Amigo da Noiva”), do que as atribulações normalmente exigidas pelo cargo de diretor.
Está certo que a qualidade e a produtividade de Pollack como autor já havia diminuído muito, mas ele fez muita falta. Um dos nomes surgidos em algum momento do movimento da Nova Hollywood, Pollack era versátil e eclético, trabalhando com uma profusão de gêneros distintos ao mesmo tempo que mantinha um estilo bastante próprio em face do padrão dos estúdios (cujo declínio criativo, é sempre bom lembrar, começa naqueles tempos de 1960 e 1970).
Ele fez filmes memoráveis, como o maravilhoso “Tootsie”; o audacioso thriller “Os Três Dias do Condor”; o notável “Operação Yakuza”; o agridoce “Nosso Amor de Ontem”; obras carregadas de revisionismo, o faroeste “Mais Forte Que A Vingança”, e até ganhou um Oscar (em 1985, pela não tão excelente “Entre Dois Amores”). Mas, entre seus melhores trabalhos, não há quem duvide que esteja “A Noite dos Desesperados”.
O olhar intrínseco e pragmático de Sydney Pollack (muito apropriado àquela Nova Hollywood) nos leva para a Califórnia de meados da década de 1930, à refletir todo o desconforto e a sensação de pessimismo perene que os EUA experimentavam após a Grande Depressão.
Esse é o cenário onde inicia-se uma maratona cruel: Vários casais –todos desesperados pelo prêmio em dinheiro –participam de uma disputa de dança transcorrida e acompanhada por dias a fio, na qual o casal vencedor será o último a restar em pé.
Para tentar a sorte, cruzam-se os personagens de Jane Fonda (bela, áspera e magnífica) e Michael Sarrazin (cuja atuação cheia de ingenuidade reflete algumas enganosas expectativas de quem vai ver o filme), no que inicialmente parece ser um encontro que pode desembocar em romance.
Ledo engano: Não é para isso que Sydney Pollack capricha tanto em sua narrativa; uma a uma, as concepções e convenções do público para com os personagens e a história vão sendo subvertidas, até que fique bem claro o drama humano, poderoso, amargo, e por que não, magistral, que Pollack almejava conceber.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Os Oito Odiados

Desde o inaugural “Cães de Aluguel” ninguém está seguro em um filme de Quentin Tarantino. E as coisas continuam inóspitas neste seu novo trabalho, “Os Oito Odiados”, ele próprio guardando imensas similaridades com “Cães de Aluguel”: Lá estão os mesmos personagens violentos e perigosos, confinados num único ambiente (uma cabana nas montanhas que serve de refúgio para uma nevasca que irá durar dias); e lá também estão as suspeitas de que alguém dali é um traidor prestes a matar a todos.
Comparar os dois filmes é constatar o acentuado aprimoramento técnico que, como diretor, ele ganhou ao longo dos anos, mas salvo essa desenvoltura para com o acabamento, ele manteve-se o mesmo, preservando aquela fúria idiossincrática, a contundência moral e o senso de observação afiado para com as facetas mais brutais do ser humano.
E permanece um grande entusiasta do cinema.
Entre as muitas referências que transitam neste irônico e monumental faroeste (irônico e monumental em todos os sentidos, inclusive na exuberante captura visual da fotografia em Ultra Panavision 70), a combinação do ator Kurt Russel, do cenário tomado por neve, do ambiente claustrofóbico, bem como da descoberta de um inimigo mortal infiltrado entre eles, remete imediatamente ao clássico “Enigma do Outro Mundo”, de John Carpenter.
A narrativa episódica de Tarantino tem início nas pradarias extensas, cobertas de neve do Wyoming, onde os caminhos aparentemente levam todos os personagens à cidade de Red Rock. Como o caçador de recompensas John “O Enforcador” Ruth e a sua prisioneira, a indomável criminosa Daisy Domergue (a ótima Jennifer Jason Leigh).
À eles junta-se de imediato, o Major Marquis Warren (um imponente Samuel L. Jackson), também ele um caçador de recompensas em direção à Red Rock, e logo mais o duvidoso Chris Mannix (Walton Goggins), afirmando ser, por sua vez, o novo xerife do lugar. A nevasca que os persegue chega à alcançá-los já no isolado “Armazém da Minnie”, cuja dona não está; em seu lugar está um certo mexicano Bob, cheio de explicações esfarrapadas. Os outros membros ali confinados são: O carrasco Oswaldo Mobray (Tim Roth), o escorregadio Joe Gage (Michael Madsen) e o taciturno veterano da Guerra Civil, General Sanford Smithers (Bruce Dern).
Todos têm lá suas histórias nebulosas para contar. E todos são interpretados por atores magníficos.
Quando ainda estamos impressionados com o protagonismo poderoso de Samuel L. Jackson e Kurt Russel, logo somos arrebatados pela presença cheia de timbres de Tim Roth, ou pela desenvoltura sibilante de Walton Goggins, ou pela intrigante postura erradica de Demian Bichir, ou pelas atuações mais silenciosas, porém ressonantes e latentes de Michael Madsen e Bruce Dern.
Pensando melhor, por pouco a alucinada e magnífica composição de Jennifer Jason Leigh não rouba o filme para ela não fosse tanta gente boa em cena.
Com seu roteiro sensacional, pontuado por reviravoltas, e uma admirável técnica cinematográfica que evita magnificamente as armadilhas de um teatro filmado, Quentin Tarantino faz com que seu elenco majestoso seja o coração de mais este trabalho brilhante.