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quinta-feira, 1 de maio de 2025

Queima de Arquivo


 A carreira do astro Arnold Schwarzenegger havia chegado num ponto de estagnação na segunda metade da década de 1990. Astro absoluto do cinema de ação nas bilheterias –como atestavam produções como “Exterminador do Futuro 2” e “True Lies” –ao lado, talvez, de Sylvester Stallone, ele havia atingido uma espécie de ‘topo do Olimpo cinematográfico’. A necessidade de reinventar-se (e de, portanto, parar de repetir-se) levou-o a flertar com a política já na década de 2000, como é mostrado no formidável documentário “Arnold”.

Contudo, ainda naquele período, meados de 1995, Schwarzenegger ainda fazia filmes. E após mais sucessos do que fracassos (basicamente o grande exemplar, nesse caso, é “O Último Grande Herói”), havia uma espécie de ‘fórmula’ que Arnold involuntariamente havia criado para si, e que ninguém mais era capaz de imitar: Filmes de ação pancadaria, mas com insuspeito requinte cinematográfico (à cargo normalmente de bons diretores que entendiam do riscado como James Cameron e John McTiernam), tramas simplificadas sempre voltadas à criação do personagem que Arnold interpretaria e do contexto quase sempre mirabolante que o envolve, e bordões, muitos bordões –que, quando funcionavam, tornavam-se memoráveis na exótica voz do astro, tais como “I’ll be back!” e “Hasta la vista, baby!”, ambos da Saga “Exterminador do Futuro”.

Lançado em 1996, “Queima de Arquivo” preenchia cada um desses pré-requisitos: Era dirigido por Chuck Russell (que, pouco tempo antes, surpreendeu o público com o ótimo “O Máskara”), e trazia um personagem John Krugger que combinava feito uma luva com o perfil de Schwarzenegger; Agente especial da agência governamental conhecida como WitSec (uma silga para Witness Security Program), Krugger é um perito na sua especialidade –devidamente esboçada na cena inicial; Sempre que uma testemunha crucial de um julgamento movido contra poderosos influentes se vê ameaçada, Krugger é acionado a fim de proporcionar à pessoa a proteção que autoridades normais não seriam capazes. Uma espécie de Programa de Proteção à Testemunha aprimorado.

Na WitSec, Krugger é, de longe, o agente mais bem-sucedido, o mais eficaz e o mais incorruptível –características que dão uma bela massagem de ego no astro Schwarzenegger –no entanto, sua mais desafiadora missão ainda virá, quando a executiva Lee Cullen (a belíssima cantora, modelo e atriz Vanessa Williams), com o auxílio algo claudicante do FBI, tentará incriminar seus empregadores, fabricantes de armas que estão fornecendo armamento high-tech para inimigos dos EUA. Protegida com extremo desleixo pelo FBI, e ameaçada de morte por seus antigos patrões, Lee se torna ainda mais importante para o caso quando as provas levantadas contra a empresa armamentista são destruídas, restando somente as cópias de tais documentos feitas pela própria Lee, capazes de incriminar a todos. Ela então é imediatamente encaminhada para John Krugger que, nesta missão, terá de não só valer-se de toda sua perícia para fazer Lee escapar de seus algozes com vida –algozes estes que terão, à sua disposição, inclusive, toda a parafernália futurista de armamento que a empresa para a qual trabalham produz! –como também precisará enfrentar a corrupção dentro da própria WitSec, uma vez que agora o outrora mentor de Krugger, Robert Deguerin (o veterano James Caan), se encontra também na folha de pagamento dos poderosos em julgamento.

A direção inventiva de Chuck Russell e o carisma inabalável de Arnold Schwarzenegger –aliado à presença sensual de Vanessa Williams que, curiosamente, não engata com ele qualquer vínculo amoroso –até que disfarçam o fato de que “Queima de Arquivo”, a toda hora, luta contra sua própria tendência recorrente de ser uma produção genérica –eles criaram um personagem, John Krugger, cujo background até sinaliza com toda uma mitologia a ser expandida e explorada em possíveis continuações (que nunca vieram), conceberam cenas de ação projetadas para constar na galeria das mais memoráveis do cinema-pipoca do período (as duas mais notáveis certamente são o audacioso salto quase sem para-quedas de um jato 727 em pleno voo e o tiroteio de armas futuristas no zoológico do Central Park, com crocodilos à solta), e ainda bolaram até um bordão um pouco bobinho (“Sorria, você foi apagado!”) dito por Arnold nos trailers, mas no filme falado apenas por um figurante... –nada disso, entretanto, conseguiu fazer com que “Queima de Arquivo” se destacasse em meio à filmografia de Schwarzenegger, pontuada de produções de ação relevantes de verdade, nem tampouco fazê-lo sobressair-se nas bilheterias daquela temporada.

Em tempo: No ano de 2022, ainda sob as circunstâncias nefastas da pandemia, foi produzido e lançado uma espécie de remake, “Queima de Arquivo-Regenerado”, estrelado por Dominic Sherwood, cuja única utilidade foi provar que este filme de 1996 era, de fato, um bom e satisfatório entretenimento diante da catástrofe que foi sua refilmagem.

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Marilyn Monroe - O Fim dos Dias


 Dizer que Marilyn Monroe é uma estrela imortalizada, um ícone de beleza e sensualidade é certamente chover no molhado. No modo como eclipsou praticamente todos os outros astros e estrelas de seu tempo, no impacto que sua imagem teve (e ainda tem) na cultura pop, e no choque de sua abrupta morte precoce, Marilyn Monroe é quase um enigma que segue fascinando gerações de fãs ao redor do mundo todo. Para tanto, não faltaram documentários a se debruçar sobre os aborrecimentos de sua vida, desde os abusos e maus-tratos na infância (que a condenaram a uma carência afetiva contundente), até as circunstâncias ainda hoje nebulosas de sua morte.

Dirigido e produzido por Patty Ivins –e narrado por James Coburn –o documentário “Marilyn Monroe-O Fim dos Dias” prefere focar não em sua morte ou em sua trajetória como estrela de Hollywood (embora esses tópicos apareçam eventualmente em foco), mas nos desdobramentos que cercaram o último filme jamais realizado por Marilyn, a comédia “Something’s Got To Give”.

Uma das mais famosas produções inacabadas de Hollywood, “Something’s Got To Give” contaria a história de uma mulher (Marilyn) voltando para casa após ficar cinco anos numa ilha deserta (!?), reencontrando o marido (Dean Martin) prestes a se enlaçar com outra mulher (Cyd Charisse, de “Cantando Na Chuva”). O projeto era uma refilmagem de “Minha Esposa Favorita”, clássico de 1940 com Cary Grant, e seria dirigido por George Cukor que já havia dirigido –à duras penas... –Marilyn em “Adorável Pecadora”.

Na época (início de 1962), Marilyn Monroe estava a um ano sem filmar. Contratada dos Estúdios da Fox, ela havia sido cedida para outros estúdios –para os quais fez, por exemplo, “Os Desajustados” –mas, ainda lhes devia um filme. E a Fox, por sua vez, estava ávida por um sucesso: No mesmo período, Joseph Mankievicz e Elizabeth Taylor estavam à levar o estúdio à bancarrota com os custos astronômicos de seu megalomaníaco “Cleópatra”. Por sua vez, todos os filmes de Marilyn haviam feito excelente desempenho nas bilheterias, e a Fox se via ansiosa para aproveitar sua estrela maior e ter algum retorno financeiro.

O documentário de Ivins esmiúça o passo a passo da realização do projeto, assumindo ares de um elaborado making-off em sua primeira metade, mostrando o processo de escolha do elenco e enfatizando as opiniões de inúmeros envolvidos que surgem envelhecidos em depoimentos posteriores.

Fica claro que Marilyn era a grande razão de ser do projeto tanto quanto sua grande fonte de preocupação: O diretor Cukor (escolhido à dedo por ela) sabia da encrenca que estava se metendo e, desde os produtores, passando pelos executivos do estúdio, até os coadjuvantes e membros da equipe técnica, todos conheciam a notória propensão para se atrasar (e atrasar as filmagens) de Marilyn.

Ainda assim, “Something’s Got To Give” foi sendo executado, primeiro com testes de figurino, depois com suas filmagens iniciais (nas quais o restante do elenco compareceu alegremente), até que as ausências de Marilyn começam a emperrar a produção –segundo alguns depoimentos, bastante sinceros, tais ausências teriam relação com a saúde da estrela, agravada por seu instável estado emocional, mas a turbulenta vida amorosa dela (que então se dividia entre flertes com o presidente John Kennedy e seu irmão, e Procurador-Geral, Bobby) também entra em questão.

Após exaurir a paciência de Cukor, do elenco e da equipe com seus atrasos –e tendo cumprido cerca de onze dias numa agenda que previa para ela trinta dias de filmagens! –Marilyn se ausenta uma vez mais, levando a Fox a dar um basta: Ela é demitida da produção, o que gera uma reação em cadeia que leva o filme em si a ser praticamente engavetado (mesmo os esforços do estúdio para substituir Marilyn por outras atrizes se revelaram inviáveis).

As semanas que se seguiram –e que antecederam o fatídico 4 de agosto de 1962 –mostraram Marilyn buscando restaurar a realização de “Something’s Got To Give”, o que ela de fato conseguiu, convencendo o estúdio da Fox a retomar as filmagens trazendo de volta elenco e equipe técnica (somente o diretor Cukor seria substituído por Jean Negulesco), até que então a tragédia se fez inevitável e Marilyn, numa trágica madrugada, foi encontrada morta em sua casa, pelo que afirmou-se ter sido uma overdose de comprimidos e medicamentos.

A morte dela é uma sombra obscura que permeia a narrativa de lamento, mas o documentário a aborda de maneira breve –aficcionados por teorias de conspiração que envolvem seu possível assassinato terão de procurar isso em outros filmes –o seu trecho final, após deixar bem claro o destino mal-fadado que o projeto teve quando sua estrela principal faleceu, entrega uma curiosidade ao expectador: O material recuperado dos arquivos da Fox, daquilo que foi filmado de “Something’s Got Give”, editado e finalizado com o que chegou a ser feito do filme. Podemos assim acompanhar cerca de meia hora –que corresponde a partes significativas da primeira metade do filme –onde é possível constatar a trama em progresso. As cenas que ficaram faltando eram todas de sua indispensável atriz principal, mas as sequências que Marilyn Monroe chegou a filmar (e que incluiriam as primeiras e revolucionárias cenas de nudez praticadas por uma estrela hollywoodiana no cinema) são mágicas, indicativas do fato de que, se Marilyn comprometia os prazos e levava os realizadores à um ataque de nervos, quando ela comparecia para fazer suas cenas, o resultado era sempre inigualável.

Chega ser entristecedor ver o material incompleto de “Something’s Got To Give” –o que chegou a ser feito deixa bem claro que o filme seria sensacional –tudo o que resta dele são as lendárias turbulências que o impediram de ser terminado, e a personalidade sempre fascinante da mulher carismática e vulnerável no centro de toda a sua confusão, a cativante, inesgotavelmente sensual, tristemente encantadora e ainda assim maravilhosa Marilyn Monroe.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

A Cruz de Ferro

Um dos estetas seminais da violência e do embate físico em seu registro cinematográfico, Sam Peckinpah, por incrível que possa parecer, realizou em toda sua carreira um único filme de guerra. É por isso que, tornando este “A Cruz de Ferro” uma obra singular, temos o repertório de imagens, o fetiche visual para com os corpos em colisão e toda dissertação moral que parte disso tão inerentes à Peckinpah empregados numa narrativa bélica ambientada na Segunda Guerra Mundial.
Tão adepto das inversões ideológicas aqui como era em seus faroestes (onde nomeava protagonistas homens frequentemente do lado errado da Lei), Peckinpah furta-se de fazer qualquer retrato de tropas norte-americanas –seu olhar e atenção recaem sobre um grupo de soldados alemães lutando, em 1943, no extremo leste soviético, na Península de Taman.
Menos pela patente e mais por sua postura natural de autoridade, o líder do eventual grupo ao qual os soldados foram reduzidos é o Cabo Steiner (o fenomenal James Coburn) que não tarda a ser promovido, em razão da coerência militar, a Primeiro Sargento.
O conflito entre os alemães nazistas e os russos se encontra no ápice e os soldados já precisam se adaptar a uma rotina massacrante: Atividades prolixas precisam ser realizadas sob o crivo atordoante de bombas explodindo sobre suas cabeças a todo segundo; a encenação minuciosa em detalhes técnicos de Peckinpah busca deixar bem claro que ninguém está seguro. E que a resistência alemã, já em frangalhos, pode contemplar uma nefasta possibilidade de derrota –fato inadmissível ao Fuhrer e à elite nazista, mas que foi primeiramente constatado pela primeira linha de defesa da Alemanha na guerra; justamente aqueles soldados sujos, brutalizados, empobrecidos e entrincheirados.
Experiente na proximidade com a morte, Steiner herdou o cinismo do conflito o que lhe deixou indiferente à autoridade de seus superiores. Isso não parece incomodar o calejado Coronel Brandt (James Mason, de “Lolita”, de Stanley Kubrick), mas injuria bastante o novo comandante, Stransky (Maximilian Schell) que obtivera a patente graças à posição aristocrática de sua família.
Como muitos oficiais de alta patente ineptos da ficção (e até da vida real, convenhamos), Stransky não enxerga a guerra com realismo: Seu objetivo primordial é –por meio de explicações pouco práticas –obter a honraria máxima da cruz de ferro, considerada a mais alta distinção a um militar alemão. E para tanto, Stransky não economiza em manobras questionáveis.
O diretor Peckinpah justapõe esses e alguns outros elementos existenciais a pairar sobre a dinâmica da meia-dúzia de personagens mostrados no front de batalha, mas deliberadamente não lhes dá muita profundidade (nem mesmo o fato de assumir o ponto de vista de combatentes nazistas nunca entra realmente em foco): Seu interesse está mesmo no modo com que tudo é arremessado à realidade irreversível da guerra. Personagens que num instante dialogavam com serenidade são descartados de forma desconcertante na cena seguinte, sem qualquer aviso prévio, fazendo o filme avançar em meio à guinadas imprevisíveis.
Num momento, quase na metade da trama, o Sargento Steiner é ferido e passa alguns dias num hospital militar. Apesar de ali contar com a companhia muito especial da enfermeira Eva (a bela Senta Berger), Steiner se dá conta de que tudo o que lhe restou foi a ferocidade da guerra –e que, exceto lutar, para nada mais ele serve. E essa conscientização o leva a voltar à linha de frente, onde seu desafeto Stransky está à beira de ser condecorado com a cruz de ferro; ironicamente, tudo que ele precisa é o testemunho de bravura do próprio Steiner para isso.
A medida que a guerra se afunila em sequências cada vez mais exasperantes e paradoxais em seu absurdo (a cena em que a tropa encontra um destacamento soviético só de mulheres é estranhamente surreal), o filme de Peckinpah coloca seus personagens, sobretudo, Steiner e Stransky, os supremos antagonistas, diante dos questionamentos que sempre norteiam a concepção moral de sua filmografia: Quais são as motivações do ser humano numa situação limite? Qual é a circunstância que define essas motivações? De que área do nosso caráter surge o ímpeto de matar enquanto obrigação moral? Quais critérios determinam nossos inimigos?
Brilhante pensador dos dilemas do homem que é, Sam Peckinpah não fornece respostas ao seu público, em vez disso, elabora um painel espetacular e explosivo que rege como um maestro do caos e nele deposita toda essa diversidade de propósitos e intenções humanas para que o expectador, em seus próprios termos, vislumbre ali um significado.
Sobra algo até para quem não quer pensar: Mesmo despido dessas considerações tão caras à Peckinpah, “A Cruz de Ferro” ainda é um filme de guerra muito bom.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Ouro É O Que Vale


Narrado em forma de balada e, por isso mesmo, intercalando seus acontecimentos com trechos de canções (ou seria uma só canção) que comenta direta e detalhadamente o que transcorre na tela –proporcionando aos eventos assim uma romantização ainda mais enfática do que seria o normal no já romantizado gênero de faroeste, este “Ouro É O Que Vale” encontra mais significado no fato de ser produzido por Blake Edwards do que em ser dirigido pelo nítido operário contratado William Graham.
É o apreço de Edwards pela comédia espontânea e contagiante o norte para o qual o filme aponta o tempo todo –enquanto no mesmo período, 1967, haviam filmes italianos (os ‘espaghetti’) de rasgante epopeia e filmes norte-americanos amargamente revisionistas para com o gênero, este é um dos mais leves, descompromissados e descontraídos faroestes já lançados.
Ele se inicia com um roubo de um malote de ouro em posse do Exército Confederado. Os três bandidos envolvidos no crime (entre eles, um soldado desertor), entretanto, têm seu plano acometido de um rumo inesperado.
Eles se separam e um deles é incumbido de enterrar o ouro, deixando a localização em um mapa a ser compartilhado com os outros. Todavia, esse bandido, valentão, envolve-se num duelo com o desprendido Lewton Cole (James Coburn, sensacional).
Tão desprendido, que nem leva muito essa coisa de duelo a sério: Enquanto o adversário lhe aguarda plantado num campo aberto, Lewton vai lá, esgueira-se atrás do cavalo e lhe fulmina com um tiro de espingarda!
Não sem antes, claro, tomar conhecimento do mapa que o levará até o tesouro.
No encalço dessa pista, Lewton Cole cruza-se com outros personagens que acrescentarão mais percalços em seu caminho: O xerife Copperud (Carroll O’ Connor) que pretende soar autoritário e firme, mas exala galhofa, e a filha dele, Bilee (a linda Margaret Blye) que após um interlúdio sexual e clandestino com Lewton passa a persegui-lo com uma promessa ambígua de aliança, vingança e relacionamento.
Entre confusões, encontros e desencontros que fazem o gosto do produtor Blake Edwards, somados a uma ambientação no Velho Oeste, esta é uma trajetória divertida que se acompanha com muito prazer graças, sobretudo, ao carisma indiscutível do astro James Coburn.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Os Vencedores do Oscar 1999

Eis o ano no qual, para a maioria dos cinéfilos, a Academia cometeu os maiores absurdos de sua história recente, como premiar com o Oscar de Melhor Filme o romântico e singelo “Shakespeare Apaixonado” no lugar do poderoso épico de guerra “O Resgate do Soldado Ryan” e ainda por cima, dar três Oscars (!), para o filme do aloprado italiano Roberto Benigni, “A Vida É Bela” –incluindo o de Melhor Ator, cujo favorito era Tom Hanks!
É de se lamentar os bons trabalhos na disputa que, por conta dessa presepada, nada levaram: “Além da Linha Vermelha”, “O Showde Truman”, “Irresistível Paixão” e “Um Plano Simples” foram alguns deles.
Diante disso, nem dá para se chocar com a vitória da jovem Gwyneth Paltrow sobre a brasileira Fernanda Montenegro, indicada a Melhor Atriz por “Central do Brasil”.

MELHOR FILME
"Shakespeare Apaixonado"

MELHOR DIREÇÃO
"O Resgate do Soldado Ryan", Steven Spielberg

MELHOR ATRIZ
Gwyneth Paltrow, "Shakespeare Apaixonado"

MELHOR ATOR
Roberto Benigni, "A Vida É Bela"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Judi Dench, "Shakespeare Apaixonado"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
James Coburn, "Temporada de Caça"

MELHOR FOTOGRAFIA
"O Resgate do Soldado Ryan"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"The Last Days"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"The Personals-Improvisations on Romance in the Golden Years"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"A Vida É Bela" (Itália)

MELHORES EFEITOS SONOROS
"O Resgate do Soldado Ryan"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Amor Além da Vida"

MELHOR MAQUIAGEM
"Elizabeth"

MELHOR FIGURINO
"Shakespeare Apaixonado"

MELHOR SOM
"O Resgate do Soldado Ryan"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Shakespeare Apaixonado"

MELHOR TRILHA SONORA - DRAMA
"A Vida É Bela"

MELHOR TRILHA SONORA – MUSICAL OU COMÉDIA
“Shakespeare Apaixonado"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"When You Believe", de "O Príncipe do Egito"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Shakespeare Apaixonado"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Deuses e Monstros"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Bunny"

MELHOR EDIÇÃO
"O Resgate do Soldado Ryan"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"Election Night”

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Quando Explode A Vingança

O diretor Sergio Leone, então, famoso pela reformulação do gênero faroeste com o western spaghetti (em especial, a sua “Trilogia dos Dólares”), começava, aos poucos, a deixar o gênero com o qual críticos e fãs pareciam querer atrelá-lo, primeiro com seu magnífico e revisionista "Era Uma Vez No Oeste", e depois com este belo e curioso trabalho, visívelmente pertencente a um gênero indefinido, e que meio que compõe uma trilogia sobre os EUA, e que levaria ao magistral "Era Uma Vez Na América".
Aliados pelas circunstâncias, um ex-militante irlandês especialista em explosivos (James Coburn) e um bandoleiro da fronteira entre o México e os EUA (Rod Steiger) transitam pelos prados ora mexicanos, ora americanos, pouco a pouco envolvendo-se cada vez mais profundamente na sanguinolenta revolução que dominou aquela região, na primeira metade do século XX.
Se o irlandês (chamado “fogueteiro” pelo companheiro), em face de um estóico idealismo, nutre certa lealdade pelos conceitos da revolução, o bandoleiro, embora diretamente relacionado às transformações políticas em sua volta, enxerga as coisas com mais pragmatismo. São dois personagens bem interpretados e relativamente bem construídos, cuja dinâmica é bastante divertida de ser assistida na tela (a exemplo também do que ocorria com o trio de antagonistas no emblemático e delicioso “Três Homens em Conflito”), a despeito de todo o cunho social que o diretor Sergio Leone tenta impor, sobretudo, na sombria segunda metade do filme.
Amparado em todos os elementos que fizeram sua fama merecida, esta produção incomum ostenta uma narrativa hipnótica, operística e embevecida de clima, bem ao gosto de Leone que conduz tudo sem resvalar em convenções de gênero, e sem preocupar-se com a ambigüidade moral de seus notáveis protagonistas.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Charada

O melhor filme de Hitchcock, sem Hitchcock. Explica-se: Era até bastante óbvio que, com seus sucessos simultâneos de público e crítica (e, não raro, clássicos forjados um após o outro), Hollywood tentaria fazer sua própria simulação de Alfred Hitchcock; uma produção de estúdios que obedecesse todas as características funcionais e comerciais do mestre do suspense.
E os produtores não pouparam despesas: Chamaram um elenco estelar (Audrey Hepburn, Cary Grant, James Coburn, Walter Mathau, George Kennedy), contrataram Henry Mancini (de “A Pantera Cor-de-Rosa”) para a trilha sonora, Charles Lang para a direção de fotografia, Hubert Givenchy para os figurinos e, na direção, Stanley Donen, que co-dirigiu “Cantando Na Chuva”.
O resultado não poderia ser muito decepcionante mesmo.
Embora traga uma dosagem abundante de seu bom humor, Donen busca emular (certamente sob instrução dos produtores) todas as características de Hitchcock; nem sempre ele é feliz em harmonizá-las, é verdade, mas seu trabalho é fluido e saboroso.
A socialite norte-americana Reggie (Hepburn, substituindo com brilho e beleza as loiras platinadas que protagonizavam as obras de Hitchcock) vai para Paris a fim de divorciar-se do marido, Charles, com quem não tem –ou nunca teve –muita sintonia.
Ao chegar ao seu apartamento, porém, o lugar está vazio e desocupado e seu cônjuge, ela descobre, está morto.
Aparentemente, ele havia ficado com uma expressiva quantidade em dinheiro, que é de muito interesse de seus sócios, ou melhor cúmplices, também aparentes responsáveis por sua morte. A única pessoa em quem ela –também aparentemente –pode confiar é Peter Joshua (Cary Grant, divertidíssimo), um recém-conhecido, muito solícito e suspeito, que parece estar sempre nos lugares certos e nas horas certas.
O roteiro é mirabolante e cheio de agradáveis reviravoltas, embora lhe falte a psicologia que sempre havia, em maior ou menor intensidade, nas obras do mestre do suspense. Como todo grande filme, Charada” foi refilmado, em 2006, por Jonathan Demme (de “O Silêncio dos Inocentes”), resultando num filme bem inferior, “O Segredo de Charlie”.
Ao que parece, a simulação de Hitchcock, feita por Donen, tinha também ela, uma magia que outros não foram capazes de capturar.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Os Sete Samurais / Sete Homens e Um Destino

 Nos extras do DVD de “O Poderoso Chefão”, Francis Ford Coppola afirma, em um dado momento, que Akira Kurosawa é o “pai da violência no cinema moderno”. 
Há que se admirar alguém que tem fãs como ele. Inúmeros de seus trabalhos são provas fervilhantes e monumentais de que Coppola está certo. Cada filme que Kurosawa concebeu é um tratado cinematográfico em si, onde a postura da narrativa reitera aquilo que o cinema era, é e ainda pode vir a ser. 
Falemos de “Os Sete Samurais” e, por conseguinte, da sua refilmagem norte-americana, “Sete Homens e Um Destino”. 
Um assolado Japão feudal é palco do suplício de uma aldeia de humildes agricultores que, colheita após colheita, não têm outra opção senão resignar seus ganhos a inescrupulosos bandidos que aparecem todo ano. Desta vez, contudo, será diferente: Alguns deles viajam até as cidades maiores a fim de recrutar um número satisfatório de samurais que se oponham aos samurais e protejam a aldeia. 
O grupo reunido, aos trancos e barrancos, aqui e ali, é uma seleção desigual de sete renegados samurais que se prestam a ajudá-los. 
O filme é de um primor que somente um mestre como Akira Kurosawa é capaz de materializar na tela: A batalha final, debaixo de uma chuva torrencial, é uma aula sobre o uso de elementos dramáticos no cinema. E o seu material é tão genuíno e rico que se prestou a uma das mais dignas refilmagens já feitas até hoje.
Em “Sete Homens e Um Destino”, a mesma premissa é transposta para o Velho Oeste, e termina a ele encaixando-se como uma luva: Camponeses indefesos, cansados de serem explorados pela mesma quadrilha de bandoleiros, ano após ano, saem à procura de pistoleiros de aluguel para que aplaquem, de uma vez por todas, os seus algozes. 
Ao compará-los, é inevitável que a obra japonesa acabe prevalecendo, mas o filme norte-americano tem qualidades inquestionáveis: Seu elenco, recheado de grandes astros, é um espetáculo (Yul Brinner, Steve McQueen, Charles Bronson, Eli Wallach, James Coburn, Robert Vaughn), a direção de John Sturgees se inspira na objetividade de Kurosawa, e entrega um trabalho fluido e envolvente, e a trilha sonora de Elmer Bernstein é, sem sombra de dúvidas, um clássico do cinema. 
Por sinal, o faoreste vai ganhar uma refilmagem (ironia das ironias!) em 2016, dirigido por Antoine Fuqua. Kurosawa, na realidade, foi perspicaz ao perceber essa dicotomia entre os gêneros de samurai e faroeste. Não à toa, muitos de seus trabalhos tinham influência do diretor John Ford. Por essa razão, o faroeste (mas não somente ele) acomodava muito bem a dramaturgia de seus filmes: Além de “Os Sete Samurais” foram também refilmados em versão faroeste, “Rashomon” (em “Quatro Confissões” de Martin Ritt) e “Yojimbo-O Guarda Costas” (em “Por Um Punhado de Dólares” de Sergio Leone). Sem falar de “A Fortaleza Escondida” que serviu da base para George Lucas conceber um certo “Star Wars”. 
Vale lembrar que o inverso também já aconteceu, a trama do clássico de Clint Eastwood, “Os Imperdoáveis”, foi adaptada para o Japão feudal no filme de samurais “Yurusarezaru Mono”, infelizmente inédito no Brasil.