Mostrando postagens com marcador Jennifer Jason Leight. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jennifer Jason Leight. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Twin Peaks - O Retorno


 Depois de muito tempo, em 2017, os fatores favoráveis se alinharam para que os criadores David Lynch e Mark Frost enfim dessem continuidade aos eventos misteriosos e intrigantes que encerraram a segunda temporada de “Twin Peaks” –isso tudo, para aproveitar o gancho no qual a personagem Laura Palmer (vivida por Sheryl Lee) diz ao Ag. Dale Cooper (Kyle MacLachlan) que o verá “dali há 25 anos”.

Entre esses 25 anos –tanto dentro da série como aqui, no mundo real –o criador e diretor David Lynch mudou: Se nas duas primeiras temporadas de “Twin Peaks”, ainda no início dos anos 1990 (nas quais ele dirigiu um total de seis episódios), Lynch ainda flertava com encenações imponderáveis e introduzia um surrealismo um pouco mais predisposto a se harmonizar com o formato televisivo convencional exigido pelos produtores, em 2017, Lynch já era um autor pra lá de aclamado, e ao conceber obras desafiadoras e fascinantes como a trinca “A Estrada Perdida”, “Cidade dos Sonhos” e “Império dos Sonhos” (todos eles, posteriores a “Twin Peaks”), era claro para qualquer financiador que um projeto de David Lynch não iria se render a conformismo nenhum.

E foi nessas circunstâncias que o canal Showtime viabilizou esta retomada de “Twin Peaks” que –diferente das duas temporadas originais –é integralmente dirigida por David Lynch. E nota-se isso a cada instante. A narrativa de “O Retorno” é fragmentada, nebulosa, estranha e frequentemente desconcertante. Lynch já começa quebrando expectativas levando a continuação da trama –que retoma o estranho final da segunda temporada a se fragmentar em, pelo menos, quatro ou cinco diferentes núcleos em locais distintos; e eles, à princípio, não remetem, de imediato, à cidadezinha de Twin Peaks, propriamente dita.

Descobrimos que o Ag. Cooper passou todos esses anos preso dentro do black lodge e que, em seu lugar, um doppelgänger maligno, um Bad Cooper, andou aprontando das suas –esse Bad Cooper é, também ele, vivido por Kyle MacLachlan, e trata-se do corpo de Cooper possuído pela perversa entidade Bob (Frank Silva), no fim das contas, o real assassino de Laura Palmer.

Em Nova York, testemunhamos um experimento no qual um jovem deve ficar horas observando (e filmando com um arsenal de câmeras) uma caixa de vidro aparentemente vazia –ele logo recebe a companhia da personagem da bela Madeleine Zima (da série “Californication”, também da Showtime) que inclusive aparece nua! Essa situação –surreal, como muitas saídas da mente de Lynch –será vital para a introdução do núcleo dos agentes do FBI na história: O chefe de departamento Gordon Cole (o próprio David Lynch), o Ag. Rosenfield (o saudoso Miguel Ferrer), e a novata, ainda que centrada e dedicada Tammy Preston (a cantora Chrysta Bell). Eles investigam casos pra lá de estranhos oriundos de um certo Arquivo Rosa Azul (entre os quais, uma chacina recente que houve com aquela caixa de vidro) que reacende um antigo caso, envolvendo o ex-agente Phillip Jeffries (o falecido David Bowie num personagem que apareceu no filme “Os Últimos Dias de Laura Palmer”), os leva até o encalço do Bad Cooper, e à pedir ajuda à ex-agente Diane (Laura Dern), a personagem para quem Cooper gravava as fitas nas temporadas originais –e que até então nunca tinha aparecido.

No black lodge (uma dimensão sobrenatural na qual transitam alguns dos mais enigmáticos personagens de toda a série), Cooper recebe a ajuda de Mike (Al Strobel), o guru de um braço só, para finalmente, depois de tanto tempo, voltar para a realidade, todavia, isso se dá por meio de caminhos tortuosos e pela quebra de qualquer expectativa que o público poderia elaborar: Cooper manifesta-se no lugar de um sósia, um cidadão de classe média baixa morador de Las Vegas chamado Dougie Jones –e na ocasião, em companhia da lindíssima Jade (Nafessa Williams). Dougie é casado com Janey-E (Naomi Watts) e trabalha como vendedor de seguros. Uma vez no corpo de Dougie Jones, Cooper fica preso numa persona balbuciante, monossilábica e lesada, ainda que, a partir daí, agraciada com uma sorte espantosa –mesmo que só repita as últimas palavras que ouviu da pessoa com quem fala, Dougie vai conquistando espaço e prestígio em sua empresa, felicidade e satisfação dentro de seu matrimônio, e até mesmo a afeição de dois irmãos mafiosos de bom coração (Robert Knepper e Jim Belushi) –esse personagem, o do idiota que sem querer ludibria os outros à sua volta convencendo-os de recursos e qualidades que não necessariamente tem remete a um filme que parece ser de muito apreço à David Lynch, o clássico “Muito Além do Jardim”, com Peter Sellers.

Noutra cidade, um homicídio tenebroso (uma mulher é morta por decapitação, no entanto, sua cabeça é encontra junto à outro corpo, de um dos personagens da série original) coloca, como principal suspeito aos olhos da polícia, o pacato diretor escolar vivido por Matthew Lillard (de “Pânico”), ao que tudo indica, mais um ato do Bad Cooper.

Os personagens de Twin Peaks, mais precisamente, começam a aparecer aos poucos revelando em alguns casos suas circunstâncias presentes, depois de todo o tempo decorrido: O xerife adjunto Hawk (Michael Horse) recebe uma orientação da clarividente Sra. do Tronco (Catherine E. Coulson) sobre uma pista (páginas perdidas do diário de Laura Palmer) que reacende a investigação e a procura pelo desaparecido Ag. Cooper, o que envolve o xerife Frank Truman (Robert Forster), irmão do Harry Truman (Michael Ontkean), xerife nas outras temporadas e o novo xerife adjunto Bobby (Dana Ashbrook), agora mais bem aproveitado pelo roteiro. Na medida do possível, o máximo de personagens são retomados, o núcleo da lanchonete e cafeteria onde trabalham Shelly (Madchen Amick) e Norma (Peggy Lipton); a situação enigmática (e sem respostas claras) de Audrey (Sherilyn Fenn) que, após um período de coma depois do fim da segunda temporada teve um filho psicopata, Richard (Eamon Farren), e o bar The Roadhouse, ponto de encontro onde vemos James Hurley (James Marshall) e outros, e onde muitos dos episódios (num total de 18) se encerram ao som espetacular de grandes convidados como Nine Inch Nails, Eddie Vedder e Rebekah Del Rio, contudo, a personagem Donna, de Lara Flynn Boyle, sequer é mencionada.

Pode-se afirmar, entretanto, que isso é somente arranhar a superfície: Além dessas e outras tramas e sub-tramas, “O Retorno” apresenta uma sucessão vertiginosa e vasta de outros personagens (alguns relevantes, outros bastante breves) onde se vê um elenco estupendo, certamente atraído pelo prestígio sem igual de David Lynch: Além de todos os já citados temos Harry Dean Stanton, Balthazar Getty, Ernie Hudson, Richard Chamberlain, Tim Roth, Jennifer Jason Leight, Ashley Jude, Ben Chaplin, Tom Sizemore, Amanda Seyfried, Caleb Landry Jones, Monica Bellucci, Michael Cera, Xolo Maridueña, David Dastmalchian, John Savage e muitos outros.

Todos representam pontas soltas que, embora até se interliguem ao longo dos episódios que se seguem, têm menos a intenção de elucidar os mistérios insolúveis que se levantam, e mais o objetivo de sedimentar o caminho percorrido como sendo uma experiência de sonho –e nisso, David Lynch é um craque sem igual. Mestre das atmosferas obscuras e do surreal empregado como fonte primitiva das mais diversas sensações humanas, Lynch nos leva do humor negro ao terror irracional, do investigativo ao experimental, do drama ao melodrama e de volta ao incategorizável, numa viagem apreensiva e fascinante que não encontra par, em toda a década, na realização audio-visual televisiva do mundo todo.

Só é um lamento constatar que –diante da perda de David Lynch, que nos deixou em 15 de janeiro de 2025 –a continuidade de “Twin Peaks” (que, pra variar, também se encerra aqui num plot misterioso prometendo possibilidades instigantes) seja algo que infelizmente não irá mais acontecer. Um filme de dezoito horas de duração, brilhantemente confuso e fascinante, construído com genialidade, e primoroso em cada um de seus inexplicáveis e eventualmente perturbadores momentos, terá que nos servir de consolo.

domingo, 18 de setembro de 2022

Na Roda da Fortuna


 Desigual, como aliás, é desigual toda a filmografia dos Irmãos Coen, “Na Roda da Fortuna”, lançado em 1993, vinha na sequência de obras como “Barton Fink-Delírios de Hollywood”, “Ajuste Final” e “Arizona Nunca Mais”; isto é, os Coen chegavam num ponto da carreira em que, ao mesmo tempo que testavam novas formas de contar uma história abordando gêneros novos e desconhecidos, começavam a experimentar algum tipo de aclamação, com prêmios como a Palma de Ouro por “Barton Fink”.

“Na Roda da Fortuna” é a reafirmação dos Coen por um cinema instintivo onde construíam seus filmes a partir de impressões que, proposital ou não, pouca vontade tinham para ir de encontro às expectativas de público ou crítica. É também uma espécie de retorno às raízes ao firmarem aqui uma improvável colaboração com Ram Saimi que aparece como co-roteirista em numa participação especial (Raimi, ainda atrelado às trincheiras dos filmes de terror de baixo orçamento, havia escrito seu escatológico “Dois Heróis Bem Trapalhões” com a ajuda dos Coen), e uma referência e reverência ao cinema de Frank Capra, no qual, os esmagadores interesses industriais e corporativos estavam sempre fadados a serem sobrepujados pelo inocência e pelas boas intenções.

Como já tinham reputação de serem brilhantes cineastas (e isso, para minha profunda admiração, eles nunca deixaram de ser), os Coen já eram capazes de atrair grandes nomes para seu elenco: Aqui, na trinca de personagens principais, eles contam com Tim Robbins (então aclamado por “O Jogador”, de Robert Altman, e por “Bob Roberts”, também sua estréia como diretor), Jennifer Jason Leight (atriz talentosa que, a despeito de seus papéis sexualmente pesados, conseguira se impor como a grande intérprete que é) e o astro veterano Paul Newman (a cereja no topo do bolo, que coroava os Coen como realizadores capazes de despertar o interesse dos maiores de Hollywood).

O título original de “Na Roda da Fortuna”, “Hudsucker Proxy” –uma brincadeira referencial dos autores com um termo que aparece tanto em “Evil Dead”, de Saimi, como também em “Arizona Nunca Mais”, dos Coen –é, na verdade, o título de uma empresa fabricante da Nova York de 1958. Após o suicídio (mostrado com toda a galhofa pouco usual e o arrojo técnico e artístico que tornara os Coen notórios) de seu presidente-fundador, o executivo-chefe Sidney J. Mussberger (Paul Newman, se divertindo a valer) põe em prática um plano ardiloso: Nomear em seu lugar o substituto mais paspalho possível a fim de que o preço das ações despenque. O escolhido vem a ser o ingênuo e sonhador Norville Barnes (Tim Robbins), recém-chegado do interior à Grande Maçã. Entusiasmo com sua boa sorte, Norville promove a execução de suas ideias –inclusive a quase pueril iniciativa de produzir bambolês em larga escala (!) –enquanto a aguçada e destemida repórter Amy Archer (Jennifer Jason Leight, numa personagem que emula brilhantemente os trejeitos da Rosalind Russell de “Jejum de Amor”) fareja, nessa improvável história, um escândalo escondido, destinado a ilustrar as manchetes dos jornais.

Os rumos inesperados (mas, nem tanto) desse enredo são o sucesso repentino dos bambolês de Norville entre as crianças –o que gero um efeito inverso às expectativas vilanescas de Mussberger –e o enlace romântico entre Norville e Amy, fatores que levam Mussberger a revelar, por fim, suas facetas perversas e manipuladoras.

Na fábula que aqui concretizam, os Coen não se furtam de promover seu final feliz valendo-se das concessões indubitáveis e inevitáveis de Hollywood –esta produção, é bom lembrar, foi seu primeiro filme bancado com um orçamento mais vultuoso de um grande estúdio –mas, o fazem com um sinceridade imprevista e desconcertante: Os fatores sobrenaturais a determinar o rumo de sua conclusão são representados por um curioso e nada celestial anjo vivenciado pelo próprio suicida Waring Hudsucker (Charles Durning). Os Coen colocam na mesma salada Frank Capra e as mazelas da Grande Depressão sob um viés de humor negro, não sem antes, garantir também um molho especial com o sabor de seu próprio e inconfundível cinema.

terça-feira, 23 de julho de 2019

eXistenZ

No fim da década de 1990, David Cronenberg reunia todas as características de um autor absoluto. Seu trabalho anterior, “Crash-Estranhos Prazeres”, mostrava uma clara ruptura com quaisquer pressões comerciais ou mercadológicas que poderiam interferir na originalidade de seus projetos (curiosamente, a década seguinte testemunharia uma incorporação espontânea de Cronenberg às práticas mais comerciais).
Se “Crash” era então uma ruptura, a ficção “eXistenZ” tratava-se de uma ratificação de tal decisão. Todas as intransigências e obsessões de Cronenberg estão ali.
Pode ser um futuro próximo em que testemunhamos o entusiasmado teste de um novo jogo que promete alienar ainda mais seus ávidos jogadores: O eXistenZ.
Sua criadora, Allegra Geller (a sempre ótima Jennifer Jason Leight), goza de um status de superestrela, e os participantes disputam a chance de serem os primeiros a imergir em sua criação.
E, como toda obra de Cronenberg, as coisas não tardam a ficar bem mais estranhas do que parecem: O console do tal jogo é uma parafernália orgânica a lembrar muito um órgão animal (e a lembrar também as criações bizarras e grotescas vistas em “Mistérios e Paixões”) e seu plug (quase um cordão umbilical!) se conecta à um orifício feito artificialmente pelos usuários na coluna espinhal. O eXistenZ é, portanto, um jogo que se conecta ao próprio sistema nervoso deles levando-os a experimentar novos níveis de realidade.
Durante esse primeiro teste, um jovem terrorista, membro de um grupo rebelado contra a alienação do jogo, tenta matar Allegra (usando de uma desconcertante pistola composta por ossos de animais) que acaba fugindo na companhia do segurança Ted Pikul (Jude Law).
Ela precisa do auxílio dele para retornar à realidade do eXistenZ e salvaguardar o bem-estar do jogo, um investimento de milhões. A partir daí (ou talvez até mesmo antes disso), a narrativa de Cronenberg começa a confundir tanto protagonistas quanto expectador, deixando nebulosa a percepção do que é real; os jogadores, afinal, perdem gradualmente a capacidade de distinção a medida que imergem nessa outra realidade.
Sem desviar-se de suas fixações com mutação e simbioses de nível minuciosamente fisiológico, Cronenberg fala aqui sobre as consequências nefastas e imprevisíveis que o artista pode arcar com a repercussão de sua obra (inspirado, segundo ele, numa conversa com o escritor Salman Rudshie), sobre o mérito inerente aos jogos de imersão como fugas da vida real e sobre o perigo da alienação insidiosa que pode nos desvincular da realidade.
Como o inesperado desfecho nos mostra, o maior perigo é não sabermos se estamos jogando ou não.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Margot e O Casamento

A relação entre as irmãs Margot (Nicole Kidman com sua mescla habitual de beleza ofuscante e empenho louvável) e Pauline (Jennifer Jason Leight, igualmente eficaz) não poderia ter mais tensão e sentimentos conflitantes –e esse é um terreno no qual o diretor Noah Baumbach se mostra bastante confortável em explorar.
Realizador de obras ora magníficas, ora pedantes, mas sempre impregnadas da predisposição de analisar a fundo as particularidades de seus personagens, como “Francis Ha”, “Enquanto Somos Jovens” e “A Lula e A Baleia”, Baumbach tem apreço particular pelo tipo de estudo psicológico feito na cinematografia europeia –daí a similaridade de alguns de seus filmes com obras do cinema francês –incluindo a novelle vague –em “Frances Ha” e em muitos dos diálogos de exposição cultural, intelectual e sentimental constantemente flagrados aqui.
Pauline está prestes a casar. Oposto quase perfeito da sofisticada irmã mais velha, Margot, com a qual havia anos não falava, ela a recebe vinda da cosmopolita Nova York na pequena cidadezinha onde ela e o noivo, Malcolm (Jack Black), vão se casar.
Margot chega junto do filho adolescente Claude (Zane Pais), ocultando alguns segredos –o divórcio com o marido, Jim (John Turturro) é iminente –e trazendo desconfortáveis verdades familiares que sua presença trata de tornarem irreprimíveis.
Apesar do clima pretenso de amenidade e descontração, há tensão toda vez que Margot e Pauline está juntas –e os ressentimentos com frequência se manifestam nos diálogos.
Margot não aprova Malcolm, e suas afirmações a esse respeito perdem em recato conforme o convívio aumenta. O passado das duas, ao lado do pai abusivo e intolerável, também começa a ser esmiuçado, revelando as razões para alguns desses comportamentos.
Oscilando com vibração típica de filme independente entre comédia e drama, “Margot e O Casamento” parece contentar-se em registrar duas grandes atrizes fazendo seus esforços para alcançar registros humanos brilhantemente estudados, e nisso se satisfaz.
Acontece de outros detalhes perderem assim sua importância diante desse ‘registro do banal’ que Noah Baumbach quer fazer –e que faz parte do objetivo geral de toda sua filmografia, mas que aqui, pela primeira vez, corre o risco de soar de fato irrelevante.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Aniquilação

Mais um grande trabalho do roteirista tornado diretor Alex Garland, uma vez mais discorrendo com brilho sobre um tema de ficção científica, a exemplo do que ele fez em sua obra anterior, “Ex-MachinaInstinto Artificial”.
“Aniquiliação” –que ao invés do cinema foi direto para o Netflix –estreita ainda mais as proximidades de sua realização com um cinema hermético, menos interessado na ação e na pirotecnia e mais em inquietações de ordem intima. E isso se nota, antes de tudo, na influência maior que este filme tem (e, com certeza, também o livro de onde foi adaptado) que é indisfarçavelmente “Stalker”, de Andrei Tarkovski.
Como naquela obra primorosa e desafiadora, surge na Terra um lugar cercado de mistério e de possibilidades frequentemente ilimitadas.
Se em “Stalker” esse lugar era ‘A Zona’ –personificada nos escombros de Chernobyl –em “Aniquilação”, tal região fica em algum lugar do litoral norte-americano onde um asteróide caiu, transformando desde então todo o ambiente. A região passou a ser designada como ‘Área X’ e a estranha e etérea nódoa que surgiu no lugar, chamada ‘O Brilho’, não deixa muitas dúvidas de que lá operam energias alienígenas.
Três anos depois, a ‘Área X’ continua um incômodo mistério para os cientistas da Terra.
A bióloga Lena (Natalie Portman, ótima) também nutre suas aflições relativas ao lugar, mas dizem respeito a outro detalhe: Seu marido, Kane (Oscar Isaacs) foi enviado para lá em uma operação militar a um ano, sem mandar notícias.
Quando Kane reaparece, todos os indícios que ele apresenta indicam que não é mais o mesmo –o tenso e nebuloso diálogo na mesa da cozinha já dá a referência-mor do filme com um close em um copo cheio de água (o elemento onipresente na encenação de “Stalker”).
Lena consegue tirar muito pouco dele: Logo, Kane está agonizando em um hospital militar, sofrendo de falência múltipla de órgãos.
O quê aconteceu a ele durante todo o tempo em que esteve na ‘Área X’? Por que ele foi, dentre todos, o único que voltou?
São as perguntas que a Dra. Ventress (Jennifer Jason Leight), ao lado de Lena, mais quer responder.
A narrativa de Garland (que leu o livro há muitos anos atrás, e não o releu para escrever o roteiro o quê dá ao filme uma atmosfera dúbia e inconclusa de sonho) já antecipa algumas perspectivas ao expectador: Quando o filme se inicia, Lena presta um depoimento a uma equipe de cientistas (entre eles, Benedict Wong, de “Doutor Estranho”); ela foi a única (assim como Kane) a regressar da ‘Área X’. Pressupõe-se assim que algo ocorreu às outras que, descobriremos mais à frente, integram uma equipe de cinco e são –além de Lena e a Dra. Ventress –as pesquisadoras Josie Radek (Tessa Thompson, de “Thor-Ragnarok”) e Cass Sheppard (Tuva Novotny), e a militar Anya Thorensen (Gina Rodriguez).
Desprovido da pressa e da urgência impaciente que impregna tantas outras produções norte-americanas, o filme acompanha, quase a adentrar seu segundo terço, o grupo de cinco mulheres invadir a ‘Área X’ e, nos dias estranhos que se seguem, testemunhar as conseqüências e os efeitos que o lugar passa a lhes infligir.
De início, o tempo transcorre de maneira imprevista. Mais a frente, a fauna do lugar começa a fornecer pistas mais contundentes (e preocupantes) de que uma força irreversível está operando naquele lugar; e, com efeito, ela se traduz em perigos que vão tragando-as uma a uma. Quando fica evidente um certo perigo, voltar ou prosseguir são alternativas que, dada a situação delas, não fazem muita diferença à suas perspectivas de sobrevivência.
Em “Stalker”, Tarkovski impõe uma reflexão de ordem metafísica esmagadoramente intimista em relação aos propósitos e desdobramentos do poder que se supõe existir lá, já em “Aniquilação”, o diretor Garland habilmente abre espaço aos efeitos visuais e a outros valores de produção para que se crie, com incontornável densidade, a sensação de se estar entrando num lugar de implicações imprevisíveis.
Mas, ele nunca esquece Tarkovski: Na atmosfera que se cria (e que se mantém até o fim) cujo estranhamento e a desolação quase sufocam o expectador, na umidade que ele reitera ocasionalmente e na decisão corajosa de jamais se render a um gênero fácil –ação, suspense ou mesmo terror –ele concebe uma obra feita para acompanhar o expectador, muito tempo depois que a trama tiver se acabado.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Os Oito Odiados

Desde o inaugural “Cães de Aluguel” ninguém está seguro em um filme de Quentin Tarantino. E as coisas continuam inóspitas neste seu novo trabalho, “Os Oito Odiados”, ele próprio guardando imensas similaridades com “Cães de Aluguel”: Lá estão os mesmos personagens violentos e perigosos, confinados num único ambiente (uma cabana nas montanhas que serve de refúgio para uma nevasca que irá durar dias); e lá também estão as suspeitas de que alguém dali é um traidor prestes a matar a todos.
Comparar os dois filmes é constatar o acentuado aprimoramento técnico que, como diretor, ele ganhou ao longo dos anos, mas salvo essa desenvoltura para com o acabamento, ele manteve-se o mesmo, preservando aquela fúria idiossincrática, a contundência moral e o senso de observação afiado para com as facetas mais brutais do ser humano.
E permanece um grande entusiasta do cinema.
Entre as muitas referências que transitam neste irônico e monumental faroeste (irônico e monumental em todos os sentidos, inclusive na exuberante captura visual da fotografia em Ultra Panavision 70), a combinação do ator Kurt Russel, do cenário tomado por neve, do ambiente claustrofóbico, bem como da descoberta de um inimigo mortal infiltrado entre eles, remete imediatamente ao clássico “Enigma do Outro Mundo”, de John Carpenter.
A narrativa episódica de Tarantino tem início nas pradarias extensas, cobertas de neve do Wyoming, onde os caminhos aparentemente levam todos os personagens à cidade de Red Rock. Como o caçador de recompensas John “O Enforcador” Ruth e a sua prisioneira, a indomável criminosa Daisy Domergue (a ótima Jennifer Jason Leigh).
À eles junta-se de imediato, o Major Marquis Warren (um imponente Samuel L. Jackson), também ele um caçador de recompensas em direção à Red Rock, e logo mais o duvidoso Chris Mannix (Walton Goggins), afirmando ser, por sua vez, o novo xerife do lugar. A nevasca que os persegue chega à alcançá-los já no isolado “Armazém da Minnie”, cuja dona não está; em seu lugar está um certo mexicano Bob, cheio de explicações esfarrapadas. Os outros membros ali confinados são: O carrasco Oswaldo Mobray (Tim Roth), o escorregadio Joe Gage (Michael Madsen) e o taciturno veterano da Guerra Civil, General Sanford Smithers (Bruce Dern).
Todos têm lá suas histórias nebulosas para contar. E todos são interpretados por atores magníficos.
Quando ainda estamos impressionados com o protagonismo poderoso de Samuel L. Jackson e Kurt Russel, logo somos arrebatados pela presença cheia de timbres de Tim Roth, ou pela desenvoltura sibilante de Walton Goggins, ou pela intrigante postura erradica de Demian Bichir, ou pelas atuações mais silenciosas, porém ressonantes e latentes de Michael Madsen e Bruce Dern.
Pensando melhor, por pouco a alucinada e magnífica composição de Jennifer Jason Leigh não rouba o filme para ela não fosse tanta gente boa em cena.
Com seu roteiro sensacional, pontuado por reviravoltas, e uma admirável técnica cinematográfica que evita magnificamente as armadilhas de um teatro filmado, Quentin Tarantino faz com que seu elenco majestoso seja o coração de mais este trabalho brilhante.

domingo, 25 de outubro de 2015

A Morte Pede Carona

John Ryder, o personagem de Rutger Hauer, tornou-se rapidamente uma interessante referência depois do imenso sucesso de público deste filme, até hoje lembrado com certo carinho por aqueles que se deliciaram com seu suspense bem calibrado e com a inspirada direção de Robert Harman –embora visto hoje, com todas experimentações constantes executadas no gênero ao longo das décadas, ele pareça nem ter tanta inspiração assim.
Mas a consulta ainda é válida, já que deste filme são herdeiros todos as combinações de thriller e road-movie que vieram depois; incluindo “Perseguição”, com Paul Walker e outros títulos menos memoráveis.
C. Thomas Howell interpreta o rapaz que dirige um carro pelo deserto do centro-oeste norte americano, a caminho de Los Angeles.
Na tradição do incauto protagonista que atrai os problemas para si, ele dá carona a um homem à beira da estrada (Hauer, na composição atraente e ameaçadora que fez dele um astro), para descobrir depois que trata-se de um psicótico. O rapaz escapa milagrosamente do caroneiro, mas este passa a perseguí-lo estrada afora, no que parece uma caçada interminável –enquanto as circunstâncias insistem em fazer dele o suspeito nº 1 das atrocidades cometidas por seu inimigo (detalhe que pode conduzir este filme a uma intrigante reinterpretação dos fatos, embora seu simplismo não permite tanta imaginação).
Apesar de prejudicialmente datado, este filme permanece um competente exercício de suspense que marcou bastante a safra desse gênero em meados dos anos 1980. 
Rutger Hauer interpreta com frieza hipnótica um dos personagens que fizeram sua fama neste trabalho muito bem roteirizado por Eric Red, com proveitoso desenvolvimento de cenas e de personagens. Molde para infindáveis suspenses road-movie que vieram depois. 
Curioso notar que este filme reúne o mesmo casal de atores (em personagens ligeiramente diferentes) de um dos grandes filmes daquela mesma década. "Conquista Sangrenta": Rutger Hauer e Jennifer Jason Leight.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Conquista Sangrenta

Em algum momento bem obscuro da Idade Média, a trupe de desajustados liderada por Martin (Rutger Hauer, adequado às características provocativas do personagem) encontra e captura uma jovem virgem (a talentosa Jennifer Jason Leight, numa corajosa atuação), prometida a um jovem, filho do mesmo homem que, dias antes, traiu a confiança desse mesmo grupo ao negar-lhes a recompensa por uma batalha da qual participaram.
Martin estupra a jovem (por assim dizer... já que ela não demonstra tanta indignação com o ato!), e a leva com eles, para sitiar um castelo atrás do outro.
Atrás deles, está o jovem enamorado e seus cavaleiros, temorosos da peste negra que ronda e ameaça a todos.
Este retrato cru, incontornavelmente sarcástico e peculiar da Idade Média foi a primeira experiência do diretor holandês Paul Verhoeven com o cinema americano. Ele trouxe, dos filmes incomuns e memoráveis que realizou em seu país natal, seu ator predileto, Rutger Hauer, e junto com ele, seu atrevimento europeu e seu senso apurado e indiscreto de observação do comportamento humano, onde ganhavam ênfase a violência e o sexo.
O resultado, como costumava ser entre os filmes de Verhoeven, foi sensacional.
Com o tempo, o "holandês maluco", como era chamado, se adequou um pouco mais à indústria que abraçou -ainda que sempre preservasse algo de seu estilo audacioso -ele fez "Robocop", "O Vingador do Futuro" e obteve grande repercussão com "Instinto Selvagem", onde escancarou suas obsessões sexuais.
Durante a década de 1990, ele realizou bons e interessantes filmes como "Tropas Estelares", mas também cometeu o controverso "Showgirls" que de tão ruim, hoje tem até mesmo um status cult!
Nos últimos anos, ele voltou à Holanda, onde realizou alguns trabalhos menores, mas nunca menos que notáveis: Gosto particularmente do ótimo "A Espiã".
Mas é "Conquista Sangrenta" que representa seu último sopro genuinamente autoral do início de sua carreira. E como continuam excitantes (além de belamente filmadas) as cenas de sexo entre Hauer e a enganosamente angelical Jennifer Jason Leight!

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Algumas previsões para o Oscar 2016...

Curioso notar que, com sua alardeada previsibilidade, parece que faltam surpresas na cerimônia do Oscar. Quando o vencedor é anunciado é sempre em um clima de "já sabia...".
É curioso também notar que, horas antes do mesmo anúncio, não é tão fácil assim apontar os verdadeiros ganhadores (prova disso são os bolões de apostas que não são vencidos por todo mundo).
Pela minha experiência, nesta época do ano, nós provavelmente, já ouvimos falar do filme que sairá com a cobiçada estatueta em mãos: Nessa mesma época, em 2014, já se falava de "Birdman", assim como em 2013, já havia algum murmúrio sobre "12 Anos de Escravidão". Ninguém, porém, sabia que seriam exatamente ESSES filmes que ganhariam o Oscar...
Dessa forma, com esse espírito especulativo, vou falar de alguns filmes ainda vindouros, que têm algumas chances, na minha humilde opinião, de disputar o prêmio.
Selecionei cinco, embora hajam muitos mais:

The Hatefull Eight

Quentin Tarantino. Esse nome já explica muito do hipe que já se forma em torno desse filme.Não é pra menos. Os dois últimos trabalhos de Tarantino figuraram entre os indicados ao Oscar, e "Django Livre" venceu os de Ator Coadjuvante, para Christoph Watz, e de roteiro original! Aqui, Tarantino volta a fazer western, com uma trama que resgata muitos elementos de seu sensacional filme de estréia, "Cães de Aluguel". Na história, acompanhamos oito estranhos, isolados em uma cabana no meio de uma nevasca nas montanhas. Um deles, não é quem diz ser, e o caçador de recompensas, interpretado por Kurt Russel não pretende deixar que esse traidor em potencial, colabore na fuga de sua prisioneira, interpretada com fúria por Jennifer Jason Leight.
O trailer, lançado na última semana, é pra animar qualquer um, e a data de lançamento (Natal deste ano) coloca o filme em um momento estratégico para ser lembrado pelos membros da Academia.

Divertida Mente

Já com presença garantida em toda e qualquer lista dos melhores filmes do ano por qualquer pessoa com bom senso, o novo e genial trabalho da Pixar é, talvez, a aposta mais garantida desta pequena lista.
Deve ganhar o Oscar de Melhor Longa de Animação, mas a exemplo dos sensacionais "Toy Story 3" e "Up - Altas Aventuras", deve figurar também entre os indicados a Melhor Filme.
O motivo para isso é bem simples: A Pixar, uma vez mais, conseguiu criar uma obra prima da animação com a magnífica história de uma garotinha, cuja mente é guiada por cinco distintas emoções (Alegria, Tristeza, Raiva, Nojinho e Medo) que ganham representações brilhantes. A própria geografia do cérebro humano criada na animação é algo digna, no mínimo, de aplausos.
Isso sem falar nas mais emocionantes sequências do ano, até agora.

A Travessia

Faz tempo desde que o diretor Robert Zemeckis ganhou seu Oscar (com "Forrest Gump" num já distante 1994!), de lá para cá, ele enveredou pela tecnologia de captura de perfomance, criando animações como "Expresso Polar", "A Lenda de Beowulf" e "Os Fantasmas de Scrooge" que não chegaram a causar muita celeuma. Seu retorno aos filmes com atores de verdade seu deu com o elogiado "O Vôo".
Este ano, Zemeckis surge com um projeto que parece ser certeiro: A história romanceada de Phillip Petit, equilibrista francês que, no fim dos anos 1970, início dos anos 1980, empreendeu uma tentativa clandestina de cruzar, numa corda bamba, o World Trade Center, na época, os edifícios mais altos do mundo.
A mesma história foi relatada no magistral documentário "O Equilibrista", que à propósito, ganhou o Oscar da categoria em 2008.
Ao lado do ator Joseph Gordon Levitt, como Petit (papel que pode ajudá-lo a emplacar sua primeira indicação), o diretor Zemeckis tem tudo para fazer uma obra espetacular com sua habilidade em manipular efeitos especiais em 3D.

Perdido em Marte

O mais arriscado dos meus palpites, "Perdido em Marte", ou "The Martian" é adaptado de um livro escrito por Andy Weir cuja história surpreende do início ao fim. Uma mistura muito bem urdida de "Gravidade", "Apollo 13" e "Náufrago", o filme conta a jornada até inacreditável, mas ancorada em verdades científicas perfeitamente plausíveis, de Mark Whatney (Matt Damon), que acidentalmente, é deixado para trás por seus companheiros, que o dão como morto, numa missão em Marte. Ao longo do tempo que se segue, o astronauta Mark deve usar de sua inventividade para fazer com que o oxigênio, a comida, a água e a energia que dispõe em quantias limitadas, não acabem antes de encontrar uma solução para seu apuro.
A direção desta trama fascinante ficou a cargo de Ridley Scott, que quando quer sempre entrega um filmaço, sobretudo quando cisca no terreno da ficção científica, vide seus seminais "Alien" e "Blade Runner".

Joy - O Nome do Sucesso 

Por último, mas não menos importante, uma das barbadas no próximo Oscar. Também com estréia agendada para o fim do ano, este filme trás, além da direção de David O' Russel (cujos três últimos trabalhos foram todos indicados ao Oscar!) a presença da fantástica Jennifer Lawrence (presença assídua nos filmes de O' Russel) como Joy Mangano, uma personagem real, cujo talento para invenção a tornou uma milionária, numa época em que as mulheres tinham de lutar ainda mais para conseguir seu espaço.
Não só o filme aparece como certo em muitas apostas do vindouro Oscar, como Jennifer Lawrence é dada como certa na disputa pelo prêmio de Melhor Atriz, que ela já ganhou, é bom lembrar, por "O Lado Bom da Vida", um filme também dirigido por O' Russel.