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quarta-feira, 3 de junho de 2026

Twin Peaks - O Retorno


 Depois de muito tempo, em 2017, os fatores favoráveis se alinharam para que os criadores David Lynch e Mark Frost enfim dessem continuidade aos eventos misteriosos e intrigantes que encerraram a segunda temporada de “Twin Peaks” –isso tudo, para aproveitar o gancho no qual a personagem Laura Palmer (vivida por Sheryl Lee) diz ao Ag. Dale Cooper (Kyle MacLachlan) que o verá “dali há 25 anos”.

Entre esses 25 anos –tanto dentro da série como aqui, no mundo real –o criador e diretor David Lynch mudou: Se nas duas primeiras temporadas de “Twin Peaks”, ainda no início dos anos 1990 (nas quais ele dirigiu um total de seis episódios), Lynch ainda flertava com encenações imponderáveis e introduzia um surrealismo um pouco mais predisposto a se harmonizar com o formato televisivo convencional exigido pelos produtores, em 2017, Lynch já era um autor pra lá de aclamado, e ao conceber obras desafiadoras e fascinantes como a trinca “A Estrada Perdida”, “Cidade dos Sonhos” e “Império dos Sonhos” (todos eles, posteriores a “Twin Peaks”), era claro para qualquer financiador que um projeto de David Lynch não iria se render a conformismo nenhum.

E foi nessas circunstâncias que o canal Showtime viabilizou esta retomada de “Twin Peaks” que –diferente das duas temporadas originais –é integralmente dirigida por David Lynch. E nota-se isso a cada instante. A narrativa de “O Retorno” é fragmentada, nebulosa, estranha e frequentemente desconcertante. Lynch já começa quebrando expectativas levando a continuação da trama –que retoma o estranho final da segunda temporada a se fragmentar em, pelo menos, quatro ou cinco diferentes núcleos em locais distintos; e eles, à princípio, não remetem, de imediato, à cidadezinha de Twin Peaks, propriamente dita.

Descobrimos que o Ag. Cooper passou todos esses anos preso dentro do black lodge e que, em seu lugar, um doppelgänger maligno, um Bad Cooper, andou aprontando das suas –esse Bad Cooper é, também ele, vivido por Kyle MacLachlan, e trata-se do corpo de Cooper possuído pela perversa entidade Bob (Frank Silva), no fim das contas, o real assassino de Laura Palmer.

Em Nova York, testemunhamos um experimento no qual um jovem deve ficar horas observando (e filmando com um arsenal de câmeras) uma caixa de vidro aparentemente vazia –ele logo recebe a companhia da personagem da bela Madeleine Zima (da série “Californication”, também da Showtime) que inclusive aparece nua! Essa situação –surreal, como muitas saídas da mente de Lynch –será vital para a introdução do núcleo dos agentes do FBI na história: O chefe de departamento Gordon Cole (o próprio David Lynch), o Ag. Rosenfield (o saudoso Miguel Ferrer), e a novata, ainda que centrada e dedicada Tammy Preston (a cantora Chrysta Bell). Eles investigam casos pra lá de estranhos oriundos de um certo Arquivo Rosa Azul (entre os quais, uma chacina recente que houve com aquela caixa de vidro) que reacende um antigo caso, envolvendo o ex-agente Phillip Jeffries (o falecido David Bowie num personagem que apareceu no filme “Os Últimos Dias de Laura Palmer”), os leva até o encalço do Bad Cooper, e à pedir ajuda à ex-agente Diane (Laura Dern), a personagem para quem Cooper gravava as fitas nas temporadas originais –e que até então nunca tinha aparecido.

No black lodge (uma dimensão sobrenatural na qual transitam alguns dos mais enigmáticos personagens de toda a série), Cooper recebe a ajuda de Mike (Al Strobel), o guru de um braço só, para finalmente, depois de tanto tempo, voltar para a realidade, todavia, isso se dá por meio de caminhos tortuosos e pela quebra de qualquer expectativa que o público poderia elaborar: Cooper manifesta-se no lugar de um sósia, um cidadão de classe média baixa morador de Las Vegas chamado Dougie Jones –e na ocasião, em companhia da lindíssima Jade (Nafessa Williams). Dougie é casado com Janey-E (Naomi Watts) e trabalha como vendedor de seguros. Uma vez no corpo de Dougie Jones, Cooper fica preso numa persona balbuciante, monossilábica e lesada, ainda que, a partir daí, agraciada com uma sorte espantosa –mesmo que só repita as últimas palavras que ouviu da pessoa com quem fala, Dougie vai conquistando espaço e prestígio em sua empresa, felicidade e satisfação dentro de seu matrimônio, e até mesmo a afeição de dois irmãos mafiosos de bom coração (Robert Knepper e Jim Belushi) –esse personagem, o do idiota que sem querer ludibria os outros à sua volta convencendo-os de recursos e qualidades que não necessariamente tem remete a um filme que parece ser de muito apreço à David Lynch, o clássico “Muito Além do Jardim”, com Peter Sellers.

Noutra cidade, um homicídio tenebroso (uma mulher é morta por decapitação, no entanto, sua cabeça é encontra junto à outro corpo, de um dos personagens da série original) coloca, como principal suspeito aos olhos da polícia, o pacato diretor escolar vivido por Matthew Lillard (de “Pânico”), ao que tudo indica, mais um ato do Bad Cooper.

Os personagens de Twin Peaks, mais precisamente, começam a aparecer aos poucos revelando em alguns casos suas circunstâncias presentes, depois de todo o tempo decorrido: O xerife adjunto Hawk (Michael Horse) recebe uma orientação da clarividente Sra. do Tronco (Catherine E. Coulson) sobre uma pista (páginas perdidas do diário de Laura Palmer) que reacende a investigação e a procura pelo desaparecido Ag. Cooper, o que envolve o xerife Frank Truman (Robert Forster), irmão do Harry Truman (Michael Ontkean), xerife nas outras temporadas e o novo xerife adjunto Bobby (Dana Ashbrook), agora mais bem aproveitado pelo roteiro. Na medida do possível, o máximo de personagens são retomados, o núcleo da lanchonete e cafeteria onde trabalham Shelly (Madchen Amick) e Norma (Peggy Lipton); a situação enigmática (e sem respostas claras) de Audrey (Sherilyn Fenn) que, após um período de coma depois do fim da segunda temporada teve um filho psicopata, Richard (Eamon Farren), e o bar The Roadhouse, ponto de encontro onde vemos James Hurley (James Marshall) e outros, e onde muitos dos episódios (num total de 18) se encerram ao som espetacular de grandes convidados como Nine Inch Nails, Eddie Vedder e Rebekah Del Rio, contudo, a personagem Donna, de Lara Flynn Boyle, sequer é mencionada.

Pode-se afirmar, entretanto, que isso é somente arranhar a superfície: Além dessas e outras tramas e sub-tramas, “O Retorno” apresenta uma sucessão vertiginosa e vasta de outros personagens (alguns relevantes, outros bastante breves) onde se vê um elenco estupendo, certamente atraído pelo prestígio sem igual de David Lynch: Além de todos os já citados temos Harry Dean Stanton, Balthazar Getty, Ernie Hudson, Richard Chamberlain, Tim Roth, Jennifer Jason Leight, Ashley Jude, Ben Chaplin, Tom Sizemore, Amanda Seyfried, Caleb Landry Jones, Monica Bellucci, Michael Cera, Xolo Maridueña, David Dastmalchian, John Savage e muitos outros.

Todos representam pontas soltas que, embora até se interliguem ao longo dos episódios que se seguem, têm menos a intenção de elucidar os mistérios insolúveis que se levantam, e mais o objetivo de sedimentar o caminho percorrido como sendo uma experiência de sonho –e nisso, David Lynch é um craque sem igual. Mestre das atmosferas obscuras e do surreal empregado como fonte primitiva das mais diversas sensações humanas, Lynch nos leva do humor negro ao terror irracional, do investigativo ao experimental, do drama ao melodrama e de volta ao incategorizável, numa viagem apreensiva e fascinante que não encontra par, em toda a década, na realização audio-visual televisiva do mundo todo.

Só é um lamento constatar que –diante da perda de David Lynch, que nos deixou em 15 de janeiro de 2025 –a continuidade de “Twin Peaks” (que, pra variar, também se encerra aqui num plot misterioso prometendo possibilidades instigantes) seja algo que infelizmente não irá mais acontecer. Um filme de dezoito horas de duração, brilhantemente confuso e fascinante, construído com genialidade, e primoroso em cada um de seus inexplicáveis e eventualmente perturbadores momentos, terá que nos servir de consolo.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Eccho Valley


Com o apelo de trazer duas belas e talentosas atrizes de diferentes gerações, "Eccho Valley" se sustenta com um roteiro tensos, equilibrado entre revelações bombásticas, amparado no trabalho de um elenco ora funcional, ora básico que, na medida do possível, entrega um filme válido ao expectador que souber conter suas expectativas.

Julianne Moore é Kate Garrett, personagem às voltas com um cotidiano amargo, a sair de um período depressivo –não muito tempo atrás, ela perdeu a companheira, alguém por quem abandonou o casamento com Richard (Kyle McLachlan). O fruto de tal casamento é a jovem Claire (Sydney Sweeney, jovem estrela em ascensão, num papel que aparenta ser protagonista, mas que se revela quase uma coadjuvante), garota problemática, envolvida com drogas e companhias nada confiáveis.

Enquanto passa seus dias na fazenda de cavalos Eccho Valey, localizada no sul da Pensilvânia, dando aulas de equitação, e mantida financeiramente por Richard com cada vez mais relutância, Kate testemunha Claire ir e vir de sua vida sem maiores explicações. Quando Claire precisa de dinheiro ela aparece. Quando precisa de um celular novo, ou de qualquer outra coisa também; na sequência, ela retorna para a vida desregrada de sempre.

Numa dessas ocasiões, ela é seguida por Ryan (Edmund Donovan), seu namorado traficante, e por Jackie (Doomhall Gleeson), o perigoso fornecedor de drogas dele.

Embora os problemas, juntos desses personagens, sinalizem à distância com sua chegada, para o público, e até mesmo para a própria Kate, ela não evita sua aproximação –porque Claire é sua filha, e o fato de amá-la a torna conivente para com todos os seus lapsos.

As coisas começam a se complicar de verdade quando Claire aparece numa noite completamente abalada, afirmando ter matado Ryan acidentalmente –e deixado seu cadáver envolto em plástico dentro do carro!

O diretor Michael Pearce consegue construir um clima de tensão relativamente satisfatório e intenso durante toda a duração do filme, sua grande conquista é manter o público alheio às pontuais guinadas narrativas que começam a se suceder na segunda metade (algumas delas, muito bem-vindas), todavia, “Eccho Valley” está anos-luz de ser uma obra perfeita: Embora conte com intérpretes funcionais e competentes na maior parte do tempo (além dos já citados, temos também Fiona Shaw, de “Harry Potter e A Pedra Filosofal”, num papel fundamental), os personagens são construídos com um rigor que lhe drena todo o magnetismo, levando o expectador, na maior parte das situações esboçadas, a irritar-se com suas falhas, os exemplos mais usuais e frequentes são, claro, as protagonistas, a mãe conivente, muitas vezes omissa e repetidamente passiva de Julianne Moore, e a filha problemática, dissimulada, manipuladora e vitimista de Sydney Sweeney –o carisma e o encanto natural das duas atrizes por muito pouco sobrevive à essa dura prova de fogo!

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Twin Peaks - Segunda Temporada


 A segunda temporada de “Twin Peaks” é praticamente simultânea em relação à primeira –os eventos estão intimamente ligados, a ponto de serem indivisíveis. Quando reencontramos os personagens, todos eles estão ainda no turbilhão dos acontecimentos do episódio final da primeira temporada, em especial, o Ag. Dale Cooper (Kyle MacLachlan) alvejado misteriosamente por um tiro! A diferença é que, se nos episódios finais do primeiro ano, “Twin Peaks” incorporou tintas mais convencionais de um suspense investigativo, aqui, no episódio de uma hora e meia que inicia a segunda temporada, a estranheza retorna com força total –sem sombra de dúvidas porque David Lynch (um tanto ausente ao longo de alguns episódios da temporada anterior) retorna aqui como diretor –e o estilo de Lynch logo se impõe sobre a narrativa, deixando em evidência o quanto as características de sua direção se diferenciam, e muito, dos demais realizadores que se revezaram na série (que incluem, entre outros, Leslie Linka Glatter, Uli Edel, James Foley e até mesmo a atriz Diane Keaton). O primeiro episódio da segunda temporada é surreal, intrigante, excêntrico, bizarro e desafiador.

Nessa sucessão de momentos desconcertantes temos, portanto, a situação do Ag. Cooper, baleado e sangrando no chão de seu quarto de hotel, enquanto um velhinho, mordomo do lugar, lhe serve leite, parecendo incapaz de perceber a gravidade do ocorrido. Ao mesmo tempo, Audrey Horne (Sherilyn Fenn) se vê quase como uma refém dentro do prostíbulo financiado pelo próprio pai (Richard Beymer), indefesa e perdida, fruto de suas tentativas em investigar por conta própria os suspeitos do assassinato de Laura Palmer –o mistério que impulsiona, afinal, boa parte da série.

Outros acontecimentos que marcam a segunda temporada são os trágicos desdobramentos da investigação pessoal de Donna (Lara Flynn Boyle), James (James Marshall) e Maddie (Sheryl Lee, que interpreta também a própria Laura Palmer), e a descoberta de Donna de um diário secreto de Laura, em posse do estranho e alienado Harold (Lenny von Dohlen, de “Amores Eletrônicos”); e a nova dinâmica que surge entre os amantes Bobby (Dana Ashbrook) e Shelly (Madchen Amick) depois que o marido dela, Leo (Eric Da Re), é baleado e volta para casa em estado completamente vegetativo.

Contudo, as coisas não são somente flores na segunda temporada de “Twin Peaks”: Bem mais extensa que a primeira (que possuía apenas oito episódios contra os quase intermináveis vinte e dois desta aqui), esta sessão teve de lidar o momentâneo abandono de David Lynch, certamente, a grande força criativa e fonte da singular originalidade que diferenciava a série. Ausente da série por conta de outros projetos e desentendimentos com os produtores, Lynch, que dirigiu três dos (excelentes) episódios na primeira leva desta segunda temporada, praticamente abandonou “Twin Peaks” por volta do oitavo episódio –e essa ausência é tremendamente sentida! –deixando um vácuo criativo que diminui a qualidade da série, torna seu enredo mais disperso e convencional, e resguarda muito do mistério à um suspense mais genérico e sem personalidade. É irônico que seja, mais ou menos nesse ponto, que o grande enigma da série (“Quem matou Laura Palmer?”) comece a ser respondido –de uma forma, por sinal, que vai na contramão à revelação bombástica que poderia estar se esperando.

A nítida impressão é a de que este segundo ano é mais do que uma única temporada: Essa ruptura diferencia completamente a primeira dezena de episódios dos demais; a morte de Laura Palmer deixa de ser o mote central do enredo, substituída por um jogo nebuloso de gato e rato entre o Ag. Cooper e um vingativo ex-parceiro do FBI, Windom Earl (Kenneth Welsh), cujas ameaças e crimes cometidos vão alterando as dinâmicas entre muitos dos personagens a ponto de alguns deles perderem sua relevância dentro da premissa. Donna e James, por exemplo, mergulham numa oscilação banal entre o suspense de uma intriga paralela e os resquícios de um romance pouco válido; Audrey, após idas e vindas desinteressantes entre situações nada pertinentes ganha um novo interesse amoroso (vivido por Billy Zane); Bobby e Shelly veem sua trama se dispersar (tentam viver juntos até que Leo, de quem cuidavam, foge) até virarem quase figurantes em tramas de outrem; e o Ag. Cooper, destituído do posto de agente do FBI, após alguns estranhos contratempos, acaba auxiliando o delegado (Michael Ontkean) em seus casos usuais –quando uma série não sabe o que fazer com seu próprio protagonista, isso é o indício de que algo está errado! –é aqui também que o Ag. Cooper ganha um novo (e insosso) interesse amoroso nas formas da atriz Heather Graham, onde aparece o personagem vivido por David Duchovny (que anos depois faria história protagonizando a série “Arquivo X”), um agente do DEA travesti chamado Denis/Denise, e o grande enigma de “Twin Peaks” –bem mais até do que a morte de Laura –passa a ser a origem da maligna entidade Bob (interpretado pelo assustador Frank Silva) e os segredos em torno do misterioso black lodge.

Ainda assim, a partir de um certo ponto, é o carisma desses personagens que sustenta “Twin Peaks”, na falta do mistério que até então atraia a curiosidade dos expectadores, mas, por sorte, Lynch retorna, em algum ponto dos últimos quatro episódios para, com seu talento desigual, devolver à “Twin Peaks” sua singularidade: Embora muitos dos episódios continuem maçantes (ele volta à interpretar o chefe de departamento do FBI, Gordon Cole, surdo como uma porta!), Lynch se encarrega da direção do episódio final, trazendo nele toda sua habilidade em manejar o surreal, o onírico e o intrigante.

Apesar de demasiada longa, e certamente testando a paciência do expectador em muitos dos capítulos que se seguem, a segunda (e à epoca considerada a última) temporada de “Twin Peaks” se encerra resgatando a atmosfera desafiadora com a qual se iniciou, e termina sem terminar coisa alguma –muitos (senão todos) os personagens são abandonados numa espécie de encruzilhada onde são deixados (e ao expectador) num vácuo indiferente de destinos nebulosos e inconclusos.

Mais David Lynch que isso, impossível!

sábado, 25 de outubro de 2025

Twin Peaks - Primeira Temporada


 Hoje em dia, a televisão norte-americana ombreia o cinema em qualidade técnica, artística e narrativa, mas, nem sempre foi assim. Até meados dos anos 2000, havia aquele tipo de comentário depreciativo quando uma obra parecia “feita para a TV” –na verdade, até mesmo eu já cheguei a usar, em outras ocasiões, esse tipo de observação.

Não é meu objetivo apontar os méritos dessa evolução, nem enumerar as obras responsáveis por isso acontecer, mas, em 1990, sem sombra de dúvidas, um tremendo abalo sísmico na questão da inovação dentro dos moldes até então tradicionalistas da TV norte-americana ocorreu com a realização e o lançamento da série “Twin Peaks” pela ABC, criada por Mark Frost e pelo mestre David Lynch.

Quem conhece o nome David Lynch deve ter uma boa ideia do quão inesperada e desconcertante “Twin Peaks” foi à sua época.

Realizado no mesmo ano de “Coração Selvagem” –que havia dado à Lynch a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1990 –o episódio-piloto de “Twin Peaks” é um filme de David Lynch com todas as letras: Lá estão as assombrações de natureza ambígua a espreitar nas sombras de uma aparente paisagem harmoniosa na classe média norte-americana como em “Veludo Azul”; lá estão os enigmas desafiadores que perpassam tempo, espaço, memória e alucinação tal qual “A Estrada Perdida”.

Na cidadezinha madeireira de Twin Peaks, no estado de Washington, perto do Canadá, é encontrado o cadáver da jovem Laura Palmer (Sheryl Lee, de “Os Cinco Rapazes de Liverpool”), moça que, pela reação dramática de todos, era muito bem-quista na comunidade. Para a investigação, é designado o agente do FBI Dale Cooper (Kyle MacLachlan) que, ao mesmo tempo que se encanta com o lugarejo e seus habitantes, não mede esforços para elucidar o cada vez mais nebuloso mistério da morte de Laura. Os métodos do Ag. Cooper se revelam pouco ortodoxos –diferente de outros personagens mais céticos (e que chegam a marcar presença nesta e nas outras temporadas), Cooper leva em conta, na sua investigação, pistas de natureza paranormal, tais como sonhos, delírios, visões e outras aparições mais, que realmente vão se somando, afastando “Twin Peaks” completamente de uma mera produção investigativa e adentrando irreversivelmente o terreno do surreal, do sobrenatural e do alegórico –material que David Lynchn, mais que qualquer outro dos demais diretores que se incumbem de alguns dos outros episódios, domina com maestria.

Também a galeria formidável de personagens suspeitos, estranhos e interessantes de Twin Peaks comparece para tornar ainda mais nebulosos os percalços da investigação: O Sr. Martell (Jack Nance, de “Eraserhead”, o primeiro filme de Lynch) responsável por encontrar o corpo de Laura, cuja sobrinha e inquilina de sua casa, a Srta. Packard (Joan Chen) é a representante de uma empresa estrangeira que disputa o monopólio com a serraria local –e é, ainda por cima, amante do xerife Harry Truman (Michael Ontkean); o ricaço Ben (Richard Beymer, do clássico “Amor Sublime Amor”), proprietário da dita serraria local; e sua filha, a belíssima Audrey (Sherilyn Fenn, maravilhosa) que se afeiçoa ao Ag. Cooper e decide investigar por conta própria os segredos de algumas pessoas de Twin Peaks; a jovem Donna (Lara Flynn Boyle), melhor amiga de Laura, decidida a mover sua própria investigação para descobrir quem matou a amiga, aliada ao ex-namorado dela James (James Marshall) e à prima de Laura, Maddy (também vivida por Sheryl Lee); há também o namorado atual de Laura, Bobby (Dana Ashbrook, de “A Volta dos Mortos-Vivos”), secretamente envolvido com a linda Shelly (Madchen Amick), garçonete casada com o violento Leo (Eric Da Re), um dos suspeitos do assassinato; e os pais de Laura, Leland (Ray Wise, de “Sol Nascente”) e Sarah (Grace Zabriskie, de “Drugstore Cowboy”), um mais pinel que o outro (!), além de vários outros personagens.

Amparado nessa galeria bastante instigante de personagens, e no mistério que ocupa o cerne de seu enredo –a pergunta “Quem matou Laura Palmer?” se tornou uma frase contumaz murmurada em meio às propagandas do início dos anos 1990, e deu origem à um fenômeno de frases de efeito que continuou em programas de sucesso como “Arquivo X” (“A verdade está lá fora!”) e “Heroes” (“Salve a líder de torcida! Salve o mundo!”) –“Twin Peaks” é uma obra que, a despeito de seus expedientes, desafia tentativas de ser categorizada; trata-se de uma brilhante junção de paixões, ódios, comportamentos misteriosos e razões improváveis numa só roupagem que abraça o suspense, o terror, o policial, o melodrama e a comédia na mesma proporção.

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Duna


 O clássico da ficção científica concebido por Frank Hernert foi –e até prova em contrário, continua sendo –uma espécie de desafio para o cinema: Poucas obras enfrentaram tantas dificuldades para ser adaptada (em grande medida, por sua complexidade, pelo gigantismo de sua premissa, incapaz de ser simplificada, e pela difícil conjugação entre uma obra comercialmente viável e artisticamente concisa), gerando ao longo dessas tentativas, exemplares inusitados que, em sua maioria, geraram polêmica entre os expectadores.

Há, entre esses, o esforço lendário de Alejandro Jodorowsky em meados dos anos 1970, cujos contratempos, ambições, planos, ideias e frustrações (culminando no abandono do projeto) foram compilados e registrados no formidável documentário lançado em 2013 por Frank Pavich.

Algo próximo de uma adaptação real de “Duna” só foi mesmo perpetrada –e ganhou as telas de cinema –em 1984, quando o produtor Dino De Laurentis e o diretor David Lynch uniram forças para tal empreitada. De Laurentis vinha de uma fase na qual ao produzir material de cinema hollywwodiano tentou de tudo um pouco (ao longo daqueles últimos dois anos, ele realizou o formidável “Na Época do Ragtime”, de Milos Forman, o bem-sucedido “Conan”, de John Milius, a irregular refilmagem de “O Grande Motim”, “Rebelião Em Alto-Mar”, de Roger Donaldson, e o cultuado “A Hora da Zona Morta”, de David Cronenberg), já, David Lynch vinha de um projeto aclamado (“O Homem-Elefante”, seu primeiro trabalho para cinema depois do desafiador “Eraserhead”) e havia sido, por algum tempo, sondado pelo produtor George Lucas para dirigir “Star Wars-O Retorno de Jedi”, sendo preterido por Richard Marquant.

Talvez tenha sido esse episódio que incentivou David Lynch a experimentar a direção de uma ficção científica, aceitando pela primeira, e única vez em sua carreira, o comando de um projeto grandioso e endinheirado.

“Duna” começa –como os leitores do livro gigantesco de Herbert já poderiam supor –aos atropelos, deixando inúmeras informações literárias pelo caminho a fim albergar toda a trama numa obra de cento e trinta e sete minutos de duração: David Lynch insistiu numa edição bem mais extensa, refutada pelos produtores.

No planeta Arrakis, o Clã Atreides –do qual fazem parte o pai, Leto (Jürgen Prochnow), o filho Paul (Kyle Mac Lachlan, protagonista do filme e alter-ego de Lynch), e a mãe Jessica (Francesca Annis, de “Macbeth”) –assume o controle do lugar, tendo sobre si a desdenhosa supervisão de toda galáxia: Arrakis é o único planeta em todo o universo que fornece a especiaria Melange, um material essencial para a execução de viagens interplanetárias, pela capacidade que promove de fazer com que alguns cérebros atinjam uma elevação quântica, perceptiva e sensorial.

Entretanto, como é inerente a esse sistema feudalista espacial, os Atreides sofrem uma conspiração. Leto é assassinado, a família é deposta, restando à Paul e sua mãe refugiarem-se no grande deserto que envolve o planeta, morada do hostil povo nativo, os Fremen. Entre eles, Paul deve conquistar um lugar na tribo aprendendo a domar os Vermes, criaturas gigantescas sobre o dorso das quais os mais valentes Fremens são capazes de cavalgar.

Esses e outros percalços conduzem Paul a um duelo derradeiro contra o perigoso representante de seus traidores, Feyd-Rautha, vivido por Sting.

Turbulento em sua realização, errático na adaptação instintiva e frequentemente equivocada que faz do tomo de Frank Herbert –cujo excesso de detalhes, personagens, informações e sub-tramas representava um desafio a qualquer roteirista –“Duna” tem a seu favor a direção sempre inventiva e original de David Lynch e... nada mais.

As passagens pontuais da trama transcorrem com aleatoriedade maçante, e a ausência dos detalhes suprimidos em função da adaptação enfraquecem a relevância de tudo o que foi preservado. O expectador que adentrar o conceito idealizado por Herbert unicamente baseado na produção de De Laurentis e Lynch corre o sério risco de julgar que “Duna” não passa de uma obra estranha, inconstante e incoerente, e não o marco referencial do gênero que ele de fato é.

Após a mal-fadada repercussão do “Duna” de David Lynch, o livro ainda tentou ser adaptado numa pra lá de mediana minissérie do canal SyFy no ano 2000 que, se por um lado preservava a riqueza de detalhes do livro com seus duzentos e sessenta e cinco minutos de duração, por outro falhava miseravelmente no quesito primor narrativo.

Ainda durante esta pandemia pode haver uma esperança para a realização de Frank Herbert ganhar uma adaptação merecidamente válida: O diretor canadense Denis Vileneuve (em quem até hoje os cinéfilos do mundo inteiro não se arrependeram de depositar a confiança) prepara uma nova versão, desta vez, dividida em dois vultuosos longa-metragens.

Aguardaremos.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

The Hidden - O Escondido


 Pouco conhecida, a ficção científica “The Hidden” já era um daqueles ‘tesouros escondidos’ no tempo glorioso das videolocadoras –em meados dos anos 1990 –que o diga depois, quando o formato do VHS migrou para o DVD, permitindo o surgimento, nas décadas seguintes, de toda uma leva de colecionadores.

O trabalho carregado de urgência e de uma austera e sensata ênfase na ação e no ritmo do diretor Jack Sholder, e escrito por Jim Kouf (co-roteirista de “Admiradora Secreta” e “Tocaia”), possui uma inventividade que já se evidencia no plano inicial: Uma câmera de segurança de um banco, a registrar com sua imagem preto & branco –enquanto os créditos transcorrem –a rotina de uma instituição bancária. Ali, daquele mesmo ponto de vista, testemunhamos um assalto à mão armada. O assaltante, inconsequente e sádico, procura ao fim pela câmera e a destrói com um tiro de sua arma. E o filme se principia assim, na perseguição ao meliante.

Contudo, o roteiro não faz muitos rodeios para revelar o cerne de sua premissa: Que o criminoso em questão é um alienígena (!), e que, na Terra, passa de corpo em corpo, praticando toda sorte de permissividades e extravagâncias ao ignorar a lei terrestre.

A cada vez que um hospedeiro é alvejada –e, portanto, a integridade física do corpo que está habitando se vê ameaçada –ele migra para outro, possuindo outra pessoa, prosseguindo assim com sua trajetória de crimes.

Não interessa a esse antagonista perpetrar algum plano mirabolante para a conquista do mundo –e o roteiro não dedica qualquer esforço em dar-lhe um propósito mais aprofundado –ele quer ver o circo pegar fogo somente. Pura inconsequência.

Poderia ser um elemento que sinaliza as fraquezas do filme, mas a condução esperta de Jack Sholder não permite que seja: Ele extrai dessa mesma simplicidade a força na qual ancora sua premissa –e no fato de que assim não há quem não a compreenda –o alienígena, o hidden, é tão somente uma força do mal, como o era o “Tubarão” de Spielberg. Uma criatura sem amarras morais e, por isso, tão mais perigoso e amedrontador.

Dessa maneira, era inevitável que o filme acabasse precisando se concentrar nos personagens ‘do lado da lei’ a perseguir esse mal-feitor tão incomum: E mesmo nessa manobra, “The Hidden” encontra uma forma de surpreender: Obcecado em capturar o criminoso está o policial Tom Beck (Michael Nouri, de “Flashdance”), ladeado pelo estranho agente do FBI Gallagher (Kyle MacLachlan).

Aos poucos, o expectador começa a captar indícios (sutis, no começo) de que Gallagher é, também ele, um alienígena capaz de mudar de corpo –e que o corpo que ocupa, o do agente do FBI, é um meio de se mobilizar na civilização humana.

A diferença é que Gallagher tem ética e está na Terra cumprindo uma missão, enquanto que o hidden está aqui apenas para praticar suas maldades –as quais, com o tempo ele percebe, serão impunes e intermináveis se ele se apoderar do corpo de um político poderoso.

A lucidez da direção de Jack Sholter está no fato de compreender que, em sua aridez, a trama reduzida ao básico fala por si mesma, e que a melhor maneira de torná-la atraente ao público não é aprofundando suas motivações –caminho adotado por nove dentre dez realizadores –mas, sim potencializando seu registro: “The Hidden” não dá um único segundo para respirar com sua ação bem calibrada e coreografada.

Uma mescla interessante e envolvente de ação, policial e ficção científica, dotada de certa originalidade no enfoque de seus elementos, admiravelmente despida de pretensões, plenamente eficaz no tipo de entretenimento que se propõe a ser. Uma pena, hoje, ela ser assim tão desconhecida do público.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Twin Peaks - Os Últimos Dias de Laura Palmer

Para falarmos desse filme é necessário recapitular a série “Twin Peaks” que, exibida no início da década de 1990, foi uma verdadeira revolução na TV ao levar um conteúdo altamente enigmático e bizarro –cortesia da mente insanamente genial de David Lynch –à uma programação que só conhecia o convencionalismo e a normalidade. A série começava com o brutal assassinato da colegial Laura Palmer e, amparada no mistério em torno da identidade de seu assassino, descortinava uma coleção de personagens misteriosos e situações sinistras em meio às investigações do agente Dale Cooper (Kyle MacLachlan).
A pergunta “Quem matou Laura Palmer?” popularizou-se na época.
Em 1992, o criador David Lynch decidiu então dirigir uma extensão de sua criatura para o cinema, com este prequel, “Os Últimos Dias de Laura Palmer”, que a julgar pelo título, se dispunha a preencher lacunas da série de TV. Entretanto, quem conhece David Lynch sabe que preencher lacunas não é prioridade alguma em seu processo criativo, e este filme se revelou tão desafiador quanto os demais que ele fez ao longo dos anos (ainda mais, talvez, para aqueles que nem sequer acompanharam a miasma de detalhes que apinhavam a série).
A primeira cena, após os créditos iniciais, é de um machado destruindo um aparelho de TV: O rompimento de Lynch com a mídia original de “Twin Peaks”, talvez.
Contrariando previsões, a história começa com o assassinato de uma tal Teresa Banks, para o qual são designados dois agentes, o vistoso e tarimbado Chet Desmond (Chris Isaak) e o iniciante Sam Stanley (Kiefer Sutherland).
Logo ali, Lynch –que participa do elenco como Gordon, um oficial surdo do FBI –introduz seu hábito de personificar mensagens subliminares em um personagem palpável e interativo: Neste caso, a bizarra mulher de vermelho.
A investigação de Desmond e Stanley esbarra no desleixo e na displicência das autoridades locais, assim como nos meandros insólitos do caso, e graças a estes, o agente Desmond termina misteriosamente desaparecido.
Há uma breve e enigmática cena com o agente Dale Cooper –o protagonista da série, mas que aqui é somente uma participação muito especial –onde também vemos o agente Phillip Jeffries, vivido por David Bowie; um agente do FBI desaparecido que, em algum momento, teve um encontro com os seres mais enigmáticos e amedrontadores da série.
Só então, quando o filme de Lynch já tem lá seus trinta minutos de duração, um corte indica a passagem de tempo de um ano, e finalmente a narrativa vai para a cidadezinha de Twin Peaks, onde acompanhamos a adolescente Laura Palmer (a ótima Sheryl Lee, bem aproveitada como nunca o foi na série), dias antes dos acontecimentos que dão início à trama da série.
Na aparência, uma jovem bela e normal da cidade, Laura é atormentada por eventos que é incapaz de verbalizar aos outros à sua volta. Uma entidade maligna chamada Bob parece persegui-la, e essa angústia crescente leva Laura a se envolver com drogas e a desenvolver um comportamento promiscuo para aflição de sua melhor amiga Donna (Moira Kelly substituindo a atriz original Lara Flynn Boyle, o quê só amplia a atmosfera estranha deste filme).
Vários personagens fundamentais à série reaparecem, alguns apenas em pontas que, aos desavisados, nada irão significar –é o caso, por exemplo, da bela Mädchen Amick, ou da sinistra Grace Zabriskie (presença habitual nos trabalhos de Lynch) como mãe de Laura Palmer.
O filme de fato se concentra em Laura Palmer, num protagonismo que ela nunca teve a chance de exercer na série, o que torna este um desolador drama de conotações sobrenaturais e metafísicas a respeito de um desamparo abissal –e nesse aspecto, Lynch se vale amplamente do fato desta ser uma obra para cinema e não para a TV, dispondo assim de liberdade criativa e alta censura para conceber cenas ousadas que a série jamais pode materializar, especialmente duas belas seqüências de nudez envolvendo Sheryl Lee.
“Os Últimos Dias de Laura Palmer” toca também no tema delicadíssimo do abuso, explorado de forma contida, porém aprofundada na série, mas definitivamente bem ilustrado aqui na relação perturbadora e terrível em que testemunhamos Laura Palmer com seu pai (Ray Wise), aparentemente tomado pela entidade Bob, com quem ele muitas vezes se confunde.
Apesar de uma tênue sensação de que pontas soltas estão se juntando (inclusive no que consta à conexão entre o crime misterioso mostrado na primeira meio hora, o assassinato de Teresa Banks, e toda a complexa trama que envolve Laura e culmina em sua morte), o filme de Lynch prima mesmo pela sensação nebulosa de mistério insolúvel do que pelo esclarecimento de perguntas levantadas, e conhecendo Lynch é exatamente isso que se deve esperar dele.
Um rico material para se cultuar e se rever ao longo dos anos em meio aos quais ele consegue manter um mesmo e indissolúvel fascínio.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Showgirls

Na opinião de uns, a grande mancha na carreira de Paul Verhoeven, na de outros, um daqueles “prazeres culpados” a que se assiste com certa vergonha e constrangimento, mas igual interesse pelo resultado atroz, vulgar e pecaminoso obtido na tela.
“Showgirls” é uma junção de fatores que o tornam uma presença bizarra e desigual em meio à filmografia dos anos 1990. Não é um filme bom. Também não é um filme ruim. É um meio termo que oscila jocosamente entre esses extremos, e por isso mesmo, acabou se tornando um cult com o passar dos anos. Cinéfilos murmuram seu nome em conversas sussurradas, envergonhados de admitir que o assistiram.
Verhoeven vinha de uma bem-sucedida parceria com o roteirista Joe Eszterhas, na qual conceberam o suspense erótico “Instinto Selvagem”, um dos grandes sucessos da primeira metade daquela década. Em alta, os dois foram reunidos mais uma vez para filmar um novo roteiro de Eszterhas –segundo consta, vendido ao estúdio por um valor recorde! –que tratava uma vez mais do mesmo assunto que eles antes souberam manipular tão bem: O sexo.
Esse na verdade sempre foi um elemento bastante presente na filmografia de Verhoeven, desde seus trabalhos mais autorais na Holanda: Desde o magnífico “Louca Paixão”, até sua estreia no cinema americano com o notável “Conquista Sangrenta”, o diretor holandês não evita, em suas obras, este que é uma dos mais primitivos e essenciais atos comportamentais do ser humano.
(E existem tantos bons filmes de Paul Verhoeven que até me pergunto, por que, diabos, estou aqui falando logo deste?!)
De qualquer forma, o roteiro escrito por Eszterhas mergulhava muito mais a fundo na sexualidade de seus personagens, fazendo daquilo a própria finalidade da trama, ao invés de torná-lo uma mera característica da história. “Showgirls” contava assim a trajetória de Nomi (a sexy e canastrona Elizabeth Berkley), jovem que chega à Las Vegas, onde logo se deixa fascinar pelas apresentações de dança nos cassinos, onde encontra uma veterana estabelecida (Gina Gershon) com quem vai nutrir uma imediata rivalidade que só crescerá em paralelo com sua ascensão –uma fórmula bastante empregada pelo cinema, de “A Malvada” até “Memórias de Uma Gueixa”.
É bem provável que “Showgirls” tenha menos nudez e sexo de fato do que na forma como o filme é lembrado no subconsciente coletivo do público –ainda que realmente tenha! Para todos os efeitos, ele é lendário pela quantia alarmante e exorbitante de mulheres nuas em cena. Mas, não é bem isso.
Um bom diretor, apesar dos pesares, Verhoeven não constrói sua narrativa impondo nudez e sexo de forma compulsória como ocorre nos filmes eróticos mais chulos: Ele se aproxima gradativamente dessa condição, como pede a trama, ainda que seja bastante redundante observar isso, visto que, ao longo do filme, o próprio roteiro cria deliberadamente situações que escancaram o pior lado do diretor –o seu gosto particular por bizarrices sexuais, por comportamentos extremos que, não raro, tendem a uma óbvia misoginia.
Sem falar da sua protagonista, Elizabeth Berkley que, de um ponto em diante surta e dá chilique sem parar enquanto faz posse de melhor atriz do mundo, transformando o filme em uma comédia involuntária.
Todos esses elementos em descontrole, combinados à ambientação propositadamente cafona, criaram uma obra terrível, que revelou-se uma catástrofe artística.
O resultado de um fracasso tão espetacular foi a necessidade de uma reinvenção da parte de Paul Verhoeven, que hoje conduz uma carreira mais austera e sólida (reza a lenda que ele tinha sido, até então, o único artista da história a receber pessoalmente –e agradecer em um discurso! –o Framboesa de Ouro de Pior Diretor, quando “Showgirls” conquistou tal ‘honraria’ em 1995), já do restante da turma, Joe Eszterhas, Elizabeth Berkley e Gina Gershon, muito pouco se ouviu falar...
É provável que hajam significados nas entrelinhas do trabalho de Verhoeven –o quê muitos de seus cultuadores argumentaram ao longo dos anos –mas, nada disso redime “Showgirls” pelo fato de deixar o expectador com imagens extraordinariamente incômodas depois que acaba.

sábado, 13 de agosto de 2016

Veludo Azul

Se o vermelho sinaliza, no cinema de David Lynch, a ilusão, ou a possível presença dela, então o azul, em geral, costuma significar a deturpação moral, a corrupção.
E tudo, nesta obra inigualável de David Lynch é passível de corrupção: Ele é particularmente feliz na criação de uma atmosfera na qual as imaculadas casas com jardim da classe média norte-americada da década de 1980 está a mercê de um mundo mais sombrio que espreita nas sombras. Um mundo que o jovem Jeffrey (Kyle MacLachlan) irá conhecer.
Numa cidadezinha suburbana dos Estados Unidos, ele encontra por acaso uma orelha humana num matagal. Após levar tal achado para a polícia, ele inicia pessoalmente uma gaiata investigação, aliada à ingênua, angelical e curiosa filha do delegado local, Sandy (Laura Dern). As pistas que obtém a partir daí o levam a conhecer Dorothy (Isabella Rossellini), uma cantora de boate vitimizada física e psicologicamente por um perigoso psicopata, Frank (Dennis Hopper, surtado como nunca).
De imediato já se revela fascinante o jogo formidável de dualidades imposto por Lynch: Não só Sandy e Dorothy são contrapartes opostas da figura feminina arquetípica (e até facetas desiguais de uma mesma femme fatale), como os mundos que ambas habitam é de um contraste que ocasionalmente parece ser brutal.
Sandy inspira confiança e segurança, e sua qualidade é ser a namoradinha que Jeffrey gostaria de apresentar aos pais. Dorothy é a mulher madura e sexualmente permissiva que ele quer levar para a cama.
Uma, ironicamente, o empurra para o perigo, a outra o arrasta para dentro dele.
E, se há uma dedução que não se precisa fazer neste filme de Lynch, é a descontrução e reinvenção que ele promove, por conta disso, do que se subentende por fim noir: Até mesmo a concepção do irreal, perdidas nas décadas posteriores ao seu surgimento, quando o gênero começou a ser levado à sério, aparecem aqui, absolutamente apropriadas à um realizador como ele.
As intervenções de suspense deste clássico magnífico dos anos 1980 revelam no diretor David Lynch um hábil explorador de figuras bizarras e de cenas absurdas que por vezes beiram o inexplicável, como a alarmante postura dos dois homens semi-mortos no apartamento da heroína, já perto do final.

O filme é mórbido, perturbador até, mas também fascinante e envolvente, na maneira com que discute as percepções abstratas de trama e expectativa que seu diretor vai quebrando, uma a uma.