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quinta-feira, 18 de junho de 2026

Mank


 Na cerimônia do Oscar de 1942, “Cidadão Kane” levou tão somente o Oscar de Melhor Roteiro Original dentre outras nove indicações, e é, em parte, as explicações para esse prêmio que o filme de David Fincher oferece. Ele também dá ao público um panorama curioso do revelo político de uma época (e assim, uma analogia para o revelo político do tempo presente), um vislumbre cheio de propriedade do showbusiness visto por outro ângulo (o de dentro de sua engrenagem criativa) e uma reflexão a um só tempo amarga e agridoce sobre a vaidade em oposição ao talento e ao arrependimento.

Ainda no fim da década de 1930, o roteirista Herman J. Mankiewicz, também conhecido como Mank (Gary Oldman, sempre brilhante) é contratado pelo assim chamado garoto-prodígio de Nova York, Orson Welles (Tom Burke, de “Furiosa-Uma Saga Mad Max”), a fim de escrever o roteiro para sua aguardadíssima estréia cinematográfica. Mank é enviado pelo taxativo Welles para uma pousada no meio do deserto, aos cuidados da enfermeira Fräulein Frieda (Monika Gossmann), e sobretudo, da jovem secretária britânica Rita Alexander (Lilly Collins), instruída a ajudá-lo na escrita do roteiro –que ele tem menos de noventa dias para concluir! Na ocasião, Mank se vê fisicamente imobilizado na cama –resultado de um acidente automobilístico que sofrera semanas antes –mas, sua maior moléstia é o roteiro em si: Mank quer escrever uma audaciosa biografia disfarçada de William Randolph Hearst, poderoso magnata da imprensa de então, e as consequências desse ato podem ser caras tanto a ele quanto ao seu parceiro de empreitada, Orson Welles.

Tecnicamente, “Mank” é uma obra prodigiosa –Fincher filmou em preto & branco, além de utilizar enquadramentos com foco profundo no primeiro plano e na imagem de fundo simultaneamente tal e qual Welles fez em “Cidadão Kane”, na realidade, o próprio Fincher já havia demonstrado seu imenso apreço por “Kane” em referências um pouco mais sutis no brilhante “A Rede Social”, contudo, a história contada aqui é, também ela, notável –o roteirista é Jack Fincher, irmão do diretor. Nela, testemunhamos idas e vindas no tempo (flashbacks, a exemplo da estrutura narrativa do próprio clássico retratado) vamos daquele recluso hotel no deserto ao ano de 1934 quando Mank teve contato com William Randolph Hearst (Charles Dance) e forjou com ele o que parecia ser o princípio de uma genuína amizade. Willy, como era chamado, já havia consolidado seu império jornalístico na Costa Leste e começava a estender seus domínios para o cinema e os estúdios de Hollywood –ele compreendia que o futuro se encontrava nos filmes falados e que o cinema mudo tinha seus dias contados. Não lhe faltavam bajuladores (entre eles, o influente e inclemente Louis B. Meyer, chefe da MGM, vivido por Arliss Howard, de “Nascido Para Matar”), e talvez por isso, Willy dava inesperada importância aos comentários pra lá de afiados que partiam de Mank, colocando-o sempre ao seu lado durante as festas em sua mansão. É lá que Mank conhece Marion Davies (Amanda Seyfried, genial), caso amoroso de Willy, décadas mais jovem que ele e, frequentemente, favorecida entre os estúdios (Marion era atriz) por sua relação.

A amizade entre Mank e Marion é bela e verdadeira, no entanto, ela não deixa de sofrer com os contratempos que mudavam o mundo de então: De uma influência avassaladora e venal, Willy leva os estúdios da MGM a bancar a oposição contra a eleição do democrata Upton Sinclair, criando curta-metragens tendenciosos, demagógicos e numa escala inédita para a época que conseguem, em pouco tempo, mudar os rumos da campanha causando desinformação entre os eleitores. Fiel aos seus ideais, Mank se opõe à essas posturas e acaba caindo em desgraça junto ao círculo pessoal de Willy, que incluía entre outros o produtor Irvin Thalberg (Ferdinand Kingsley).

São essas experiências que levam ao roteiro não despido de rancor que ele tece naquele quarto no deserto, retratando Hearst como um homem político, populista e oportunista, reservando algumas farpas até mesmo para Marion, fazendo uma impiedosa caricatura dela e de seu relacionamento.

Espelhado no próprio “Cidadão Kane” em diversos aspectos, não apenas na forte referência visual monocromática ou no formato desafiador de seu enredo, “Mank” também constrói um personagem cheio de camadas de ambiguidade e dubiedade moral que, mesmo diante de algumas boas intenções e certamente alimentado por suas convicções políticas, urgiu uma obra a partir do ressentimento e do desdém. Uma obra que não escapou de ser um dos melhores filmes de todos os tempos.

Os percalços mais do que impressionantes do caminho de “Kane” até seu lançamento –e do embate fenomenal entre Welles e Hearst –estão muito bem registrados no brilhante documentário “A Batalha Por Cidadão Kane”, aqui, nesta produção, Fincher se concentra em outra coisa: Num personagem que influenciou Welles, e que esteve no centro de alguns acontecimentos decisivos para os rumos do cinema e da política norte-americano na primeira metade do Século XX. Não interessa à Fincher algumas obviedades como capturar bastidores já conhecidos ou repetir um possível enaltecimento à “Kane”, sua obra é inteligente e loquaz (como em “Zodíaco”, os atores têm de declamar o roteiro, em diversas cenas, com o dobro ou o triplo de agilidade para que as falas não extrapolem uma duração usual), complexa em termos emocionais e factuais, adulta e aberta a diversas reflexões.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

A Empregada


 Usualmente um realizador de comédias (são dele o remake feminista “As Caça-Fantasmas”, “Missão Madrinha de Casamento” e “As Bem-Armadas” entre outros) Paul Feig se esforça aqui em busca de uma guinada comercial em sua carreira ao abraçar um projeto orientado pelo refinado gênero do suspense. Contudo, já em seus primeiros momentos, “The Housemaid” entrega uma série de lapsos que apontam o desconforto de seu diretor, como um descuidado (em alguns momentos até descabido!) desenho de som, e uma montagem indecisa que demora além do tempo habitual para encontrar o ritmo correto, acelerando demais a narrativa em alguns momentos e dilatando desnecessariamente certas passagens em outros.

Best-seller da escritora Freida McFadden, “The Housemail” era uma bem-sucedida série literária (agora, sinalizando o surgimento de uma bem-sucedida série cinematográfica) cujo enredo, se não era um primor de acabamento e dramaturgia, mostrava-se certeiro e envolvente no manejo dos plot-twists que se seguiam com revelações pontuais sobre seus interessantes personagens.

A protagonista é Millie Calloway, vivida pela belíssima Sydney Sweeney –e, no status de estrela em ascensão que evoca, Sydney surge como uma escolha apropriada e pontual, nem tanto por suas capacidades interpretativas (que ora satisfazem, ora deixam a desejar) mas, sim, pelo magnetismo imediato, pela instantânea empatia que ela, uma vez dentro da personagem, consegue despertar no público. E isso será muito importante como veremos a frente.

Millie precisa obter um emprego. Recém-saída da prisão (a despeito de ser jovem), ele precisa de um lugar para morar (até então, dorme dentro de seu carro em estacionamentos), de um emprego que sossegue a vigilância dos oficiais da condicional sobre seus passos e de dinheiro para se manter. Tudo isso parece vir num mesmo pacote quando ela presta uma entrevista de emprego à ricaça Nina Winchester (Amanda Seyried, menos carismática do que Sydney, mas bem mais competente como atriz, numa personagem desafiadora e cheia de camadas). Acontece que Nina está grávida (seu marido, afirma ela, ainda não sabe) e ela precisa imediatamente de uma empregada para dar conta de sua filha mais velha de 11 anos, Cecelia (Indiana Elle) e das atividades domésticas da mansão luxuosa onde moram.

Como empregada particular, Millie poderá morar dentro da casa, num quarto localizado no sótão e, embora haja certa suspeita no fato de Millie possuir credenciais demais para candidatar-se a uma vaga de empregada, Nina a quer o quanto antes.

Uma vez trabalhando para o casal –que, além de Nina inclui certamente também seu marido, Andrew (Brandon Sklenar, de “Drop-Ameaça Anônima”) –Millie vai descobrindo que o emprego, que aparentava ser um paraíso durante a entrevista, não é tão maravilhoso assim: Bipolar, Nina confronta Millie com situações complicadas, tentando incriminá-la de erros que não cometeu e tecendo uma ardilosa a aparentemente inexplicada teia de intrigas e acusações que só não comprometem ainda mais a situação de Millie graças à intervenção de Andrew.

Por conta dessa circunstância, pouco a pouco, Millie e Andrew vão estabelecendo uma proximidade que, diante da cada vez mais real possibilidade de um adultério assim consumado, pode desembocar em alguma tragédia. Contudo, na narrativa urgida pela escritora Freida McFadden, nada é o que parece ser. E é exatamente aí (nas informações omitidas ao expectador) que “The Housemaid” guarda seus trunfos.

Toda essa explicação à seguir, conterá spoilers (!): Nina não é o que parece ser, uma vez que, ao contrário da megera intratável que se mostrava durante todos os dois primeiros terços de filme, ela era na realidade uma vítima da situação, presa num casamento abusivo e tóxico, e portanto, desesperada para encontrar um meio de fuga. E tal meio, terminou sendo Millie.

Com efeito, Andrew também não é o príncipe encantado que parecia ser, revelando-se o vilão sádico, psicótico e abusador de fato.

Contudo, outra grande manobra da premissa de Freida McFadden é que a própria Millie, toda doce, desprotegida e indefesa, também não é o que  parece ser: As razões para ela ter sido presa (e encontrar-se, agora, em liberdade condicional) não reveladas antes, são elementos diretamente influentes no desfecho e no porque, agora, foi o perverso Andrew quem meteu-se com a pessoa errada –e é por isso que a escalação de Sydney Sweeney ajuda muito o filme nesse sentido: Uma vez que só saberemos de toda a verdade sobre Millie no momento quase clímax de sua reviravolta, tudo o que sabemos sobre ela é vago, ainda que seja essa a protagonista. No entanto, com Sydney Sweeney interpretando-a, Millie conquista o público já nos primeiros minutos. Mesmo que não saibamos quem ela é, ou o que ela fez, o encanto natural de Sydney faz todo o trabalho nos levando a torcer pela heroína que descobrimos, ao fim, ser bem diferente de quem supúnhamos ser.

“The Housemaid” pode ter falhas homéricas na direção, pode ter um roteiro equivocado e impreciso (as mudanças na adaptação particularmente reforçam o tom exagerado do filme), mas foi um acerto muito feliz na escalação de suas duas protagonistas: Enquanto Sydney é uma ótima presença emprestando magnetismo e simpatia genuínos à Millie; Amanda reforça a grande atriz que é interpretando uma personagem que também está interpretando na maior parte do tempo (e de forma deliberadamente histriônica ainda!) só revelando suas intenções mais humanas quando o filme já estiver em seu ápice.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Twin Peaks - O Retorno


 Depois de muito tempo, em 2017, os fatores favoráveis se alinharam para que os criadores David Lynch e Mark Frost enfim dessem continuidade aos eventos misteriosos e intrigantes que encerraram a segunda temporada de “Twin Peaks” –isso tudo, para aproveitar o gancho no qual a personagem Laura Palmer (vivida por Sheryl Lee) diz ao Ag. Dale Cooper (Kyle MacLachlan) que o verá “dali há 25 anos”.

Entre esses 25 anos –tanto dentro da série como aqui, no mundo real –o criador e diretor David Lynch mudou: Se nas duas primeiras temporadas de “Twin Peaks”, ainda no início dos anos 1990 (nas quais ele dirigiu um total de seis episódios), Lynch ainda flertava com encenações imponderáveis e introduzia um surrealismo um pouco mais predisposto a se harmonizar com o formato televisivo convencional exigido pelos produtores, em 2017, Lynch já era um autor pra lá de aclamado, e ao conceber obras desafiadoras e fascinantes como a trinca “A Estrada Perdida”, “Cidade dos Sonhos” e “Império dos Sonhos” (todos eles, posteriores a “Twin Peaks”), era claro para qualquer financiador que um projeto de David Lynch não iria se render a conformismo nenhum.

E foi nessas circunstâncias que o canal Showtime viabilizou esta retomada de “Twin Peaks” que –diferente das duas temporadas originais –é integralmente dirigida por David Lynch. E nota-se isso a cada instante. A narrativa de “O Retorno” é fragmentada, nebulosa, estranha e frequentemente desconcertante. Lynch já começa quebrando expectativas levando a continuação da trama –que retoma o estranho final da segunda temporada a se fragmentar em, pelo menos, quatro ou cinco diferentes núcleos em locais distintos; e eles, à princípio, não remetem, de imediato, à cidadezinha de Twin Peaks, propriamente dita.

Descobrimos que o Ag. Cooper passou todos esses anos preso dentro do black lodge e que, em seu lugar, um doppelgänger maligno, um Bad Cooper, andou aprontando das suas –esse Bad Cooper é, também ele, vivido por Kyle MacLachlan, e trata-se do corpo de Cooper possuído pela perversa entidade Bob (Frank Silva), no fim das contas, o real assassino de Laura Palmer.

Em Nova York, testemunhamos um experimento no qual um jovem deve ficar horas observando (e filmando com um arsenal de câmeras) uma caixa de vidro aparentemente vazia –ele logo recebe a companhia da personagem da bela Madeleine Zima (da série “Californication”, também da Showtime) que inclusive aparece nua! Essa situação –surreal, como muitas saídas da mente de Lynch –será vital para a introdução do núcleo dos agentes do FBI na história: O chefe de departamento Gordon Cole (o próprio David Lynch), o Ag. Rosenfield (o saudoso Miguel Ferrer), e a novata, ainda que centrada e dedicada Tammy Preston (a cantora Chrysta Bell). Eles investigam casos pra lá de estranhos oriundos de um certo Arquivo Rosa Azul (entre os quais, uma chacina recente que houve com aquela caixa de vidro) que reacende um antigo caso, envolvendo o ex-agente Phillip Jeffries (o falecido David Bowie num personagem que apareceu no filme “Os Últimos Dias de Laura Palmer”), os leva até o encalço do Bad Cooper, e à pedir ajuda à ex-agente Diane (Laura Dern), a personagem para quem Cooper gravava as fitas nas temporadas originais –e que até então nunca tinha aparecido.

No black lodge (uma dimensão sobrenatural na qual transitam alguns dos mais enigmáticos personagens de toda a série), Cooper recebe a ajuda de Mike (Al Strobel), o guru de um braço só, para finalmente, depois de tanto tempo, voltar para a realidade, todavia, isso se dá por meio de caminhos tortuosos e pela quebra de qualquer expectativa que o público poderia elaborar: Cooper manifesta-se no lugar de um sósia, um cidadão de classe média baixa morador de Las Vegas chamado Dougie Jones –e na ocasião, em companhia da lindíssima Jade (Nafessa Williams). Dougie é casado com Janey-E (Naomi Watts) e trabalha como vendedor de seguros. Uma vez no corpo de Dougie Jones, Cooper fica preso numa persona balbuciante, monossilábica e lesada, ainda que, a partir daí, agraciada com uma sorte espantosa –mesmo que só repita as últimas palavras que ouviu da pessoa com quem fala, Dougie vai conquistando espaço e prestígio em sua empresa, felicidade e satisfação dentro de seu matrimônio, e até mesmo a afeição de dois irmãos mafiosos de bom coração (Robert Knepper e Jim Belushi) –esse personagem, o do idiota que sem querer ludibria os outros à sua volta convencendo-os de recursos e qualidades que não necessariamente tem remete a um filme que parece ser de muito apreço à David Lynch, o clássico “Muito Além do Jardim”, com Peter Sellers.

Noutra cidade, um homicídio tenebroso (uma mulher é morta por decapitação, no entanto, sua cabeça é encontra junto à outro corpo, de um dos personagens da série original) coloca, como principal suspeito aos olhos da polícia, o pacato diretor escolar vivido por Matthew Lillard (de “Pânico”), ao que tudo indica, mais um ato do Bad Cooper.

Os personagens de Twin Peaks, mais precisamente, começam a aparecer aos poucos revelando em alguns casos suas circunstâncias presentes, depois de todo o tempo decorrido: O xerife adjunto Hawk (Michael Horse) recebe uma orientação da clarividente Sra. do Tronco (Catherine E. Coulson) sobre uma pista (páginas perdidas do diário de Laura Palmer) que reacende a investigação e a procura pelo desaparecido Ag. Cooper, o que envolve o xerife Frank Truman (Robert Forster), irmão do Harry Truman (Michael Ontkean), xerife nas outras temporadas e o novo xerife adjunto Bobby (Dana Ashbrook), agora mais bem aproveitado pelo roteiro. Na medida do possível, o máximo de personagens são retomados, o núcleo da lanchonete e cafeteria onde trabalham Shelly (Madchen Amick) e Norma (Peggy Lipton); a situação enigmática (e sem respostas claras) de Audrey (Sherilyn Fenn) que, após um período de coma depois do fim da segunda temporada teve um filho psicopata, Richard (Eamon Farren), e o bar The Roadhouse, ponto de encontro onde vemos James Hurley (James Marshall) e outros, e onde muitos dos episódios (num total de 18) se encerram ao som espetacular de grandes convidados como Nine Inch Nails, Eddie Vedder e Rebekah Del Rio, contudo, a personagem Donna, de Lara Flynn Boyle, sequer é mencionada.

Pode-se afirmar, entretanto, que isso é somente arranhar a superfície: Além dessas e outras tramas e sub-tramas, “O Retorno” apresenta uma sucessão vertiginosa e vasta de outros personagens (alguns relevantes, outros bastante breves) onde se vê um elenco estupendo, certamente atraído pelo prestígio sem igual de David Lynch: Além de todos os já citados temos Harry Dean Stanton, Balthazar Getty, Ernie Hudson, Richard Chamberlain, Tim Roth, Jennifer Jason Leight, Ashley Jude, Ben Chaplin, Tom Sizemore, Amanda Seyfried, Caleb Landry Jones, Monica Bellucci, Michael Cera, Xolo Maridueña, David Dastmalchian, John Savage e muitos outros.

Todos representam pontas soltas que, embora até se interliguem ao longo dos episódios que se seguem, têm menos a intenção de elucidar os mistérios insolúveis que se levantam, e mais o objetivo de sedimentar o caminho percorrido como sendo uma experiência de sonho –e nisso, David Lynch é um craque sem igual. Mestre das atmosferas obscuras e do surreal empregado como fonte primitiva das mais diversas sensações humanas, Lynch nos leva do humor negro ao terror irracional, do investigativo ao experimental, do drama ao melodrama e de volta ao incategorizável, numa viagem apreensiva e fascinante que não encontra par, em toda a década, na realização audio-visual televisiva do mundo todo.

Só é um lamento constatar que –diante da perda de David Lynch, que nos deixou em 15 de janeiro de 2025 –a continuidade de “Twin Peaks” (que, pra variar, também se encerra aqui num plot misterioso prometendo possibilidades instigantes) seja algo que infelizmente não irá mais acontecer. Um filme de dezoito horas de duração, brilhantemente confuso e fascinante, construído com genialidade, e primoroso em cada um de seus inexplicáveis e eventualmente perturbadores momentos, terá que nos servir de consolo.

domingo, 3 de julho de 2022

O Preço do Amanhã


 No conceito futurista, mirabolante e altamente fantasioso de Andrew Niccol, o tempo é moeda de troca. Pensador reflexivo das idiossincrasias capitalistas e materialistas presentes na condição humana, Niccol, diretor e roteirista faz de “O Preço do Amanhã” o que talvez seja seu filme mais peculiar e eclético. Tendo vislumbrado os prós e contras de um futuro estéril em “Gattaca”, os absurdos palpáveis de um reallity-show em “O Show de Truman” (onde atuou apenas como roteirista), as implicações na realidade de uma mentira convincente demais em “S1mone” e o empreendedorismo implacável sob o viés do tráfico de armas mundial em “O Senhor das Armas”, Niccol voltou-se para a premissa mais fantástica que sua mente até então já concebeu: Um mundo no qual todo o ser humano já nasce com um contador digital em seu pulso. Explica-se: Até a idade de vinte e cinco anos, tal contador é zerado. Ele começa a contar a partir dessa idade pois, na fantasia imaginada em “O Preço do Amanhã”, não é de velhice que se morre, mas sim de falta de tempo.

Naquele mundo, as pessoas ganham tempo. Elas pagam por tudo que precisam com tempo. Basta que alguém vire seu pulso sobre o de outra pessoa para transferir uma determinada quantia de tempo. Se o contador do pulso zerar e a pessoa esgotar o tempo que tem, ele cai automaticamente morto. As pessoas precisam então lutar para ganhar a maior riqueza de todas, tempo de vida. E esse tempo, quando abundante, no caso dos ricos, pode ser usado para comprar outros luxos e outras pessoas. No caso dos pobres, o tempo é uma preciosidade que separa a vida da morte pela qual se deve batalhar dia-a-dia.

É nessa situação e nesse contexto que Niccol nos apresenta assim seu herói, Will Sallas (Justin Timberlake, cantor que saiu-se muito bem e suas tentativas para ser ator), um integrante da mal-fadada população pobre nesse mundo onde tempo é dinheiro. Como todos têm a mesma idade de vinte e cinco anos –lembre-se, naquele mundo não se envelhece –sua mãe tem as feições de Olivia Wilde (!), e é ela quem cai morta num dia em que sua horas de vida se esgotam. Ao mesmo tempo, Will recebe de um estranho (Matthew Bomer) uma quantidade imensurável de tempo, com o qual pode ultrapassar os dispendiosos pedágios para chegar às cidades maiores onde vivem os milionários. Ao conhecer, numa festa, a jovem Sylvia (Amanda Seyfried), Will encontra uma companheira em seu inconformismo. Com ajuda inicialmente relutante, mas logo engajada dela, Will passa a assaltar lugares que detêm quantidades desiguais de tempo –muitos dos quais, de propriedade do pai de Sylvia, vivido por Vincent Kartheiser (da série “Mad Men”) –para distribuir entre a população.

É clara a referência adotada por Niccol que transforma a dupla protagonista numa mal-disfarçada mescla de “Bonnie & Clyde”, com elementos de “Robin Hood” –talvez Niccol tenha imaginado que sua concepção, de um futuro altamente alegórico e nada realista, fosse norteada por elementos difíceis o bastante para o grande público apanhar de imediato e tenha optado por inspirações mais simples e identificáveis possíveis.

De qualquer forma, a reflexão que ele levanta é tão pertinente quanto uma aula didática, e suas boas intenções transparecem ao longo de todo o filme, quase tornando-o pedante.

No fim das contas, “O Preço do Amanhã” até equilibra bem a necessidade de entreter enquanto produção comercial com a iniciativa para fazer pensar que pulsa em todo e qualquer autor que se preze. Seus lapsos surgem quando deixamos de avaliar o trabalho sempre singular de Andrew Niccol como roteirista e focamos em sua execução como diretor: Ele confere um ritmo corriqueiro e genérico ao andamento, trata os detalhes visuais (algo sempre essencial numa ficção científica) com simplismo e adota um conceito estético para o seu mundo assim imaginado que peca pela pobreza e pela falta de elaboração em sua direção de arte, cenografia e figurino.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Os Indicados Ao Globo de Ouro 2021


 Ontem, forma anunciados os indicados, pela Imprensa Estrangeira, ao Globo de Ouro, uma das prévias ao Oscar, nesta temporada de premiações que tem tudo para ser bastante desigual, afinal, estamos vindo de um ano de pandemia onde muitos hábitos normais (sobretudo, o cinema) foram profundamente afetados. O próprio anúncio dos indicados deu-se de maneira incomum, com as atrizes Sarah Jessica Parker e Taraji P. Henson anunciando os filmes on-line de suas próprias residências; e muito provavelmente uma prevenção parecida se dará durante a premiação, evitando a aglomeração de praxe. Vamos à lista dos indicados exclusivamente aos prêmios de cinema:

Melhor Filme de Drama

O Pai
Mank
Nomadland
Promising Young Woman
Os 7 de Chicago 

As consequências da pandemia se refletem já nas categorias principais: Pela primeira vez, predominam filmes de streaming, com a Netflix saindo na frente graças às indicações de “Mank”, de David Fincher, aparentemente o favorito como Drama. Embora não tenha a mesma sorte no Oscar, Fincher já foi premiado algumas vezes (“A Rede Social”), embora seu filme não seja uma unanimidade entre os críticos. Seus maiores concorrentes são “Os 7 de Chicago”, de Aaron Sorkin (ironicamente, o roteirista de Fincher em “A Rede Social”), também ele bastante indicado, e o elogiadíssimo “Nomadland”, de Chloe Zhao, vencedor do Leão de Prat no Festival de Veneza.

Melhor Filme de Comédia ou Musical

Borat – a fita de cinema seguinte

Hamilton

Music

Palm Springs

Festa de Formatura

Na categoria Comédia ou Musical, predominam filmes ainda inéditos por aqui –embora essa questão de ser ou não inédito, seja relativa já que dificilmente haverão estréias de cinema.... –de começo, pode-se afirmar que “Music” e “Festa de Formatura” são presenças inesperadas (frutos, possivelmente, de uma falta maior de opções para as cinco vagas), o que parece restringir a disputa do prêmio entre a continuação de “Borat” –que, diferente do filme original, não foi produto de um estúdio, mas sim da Amazon –e “Palm Springs”, de Max Barbakow; o ator Andy Samberg parece ter prestígio junto ao Globo de Ouro, vide os prêmios de sua série “Brooklyn Nine-Nine”.

Melhor Ator Dramático

Riz Ahmed, O Som do Silêncio
Chadwick Boseman, 
A Voz Suprema do Blues
Anthony Hopkins, 
O Pai
Gary Oldman, 
Mank
Tahar Rahim, 
The Mauritanian

Entra ano sai ano, as premiações volta e meia atraem a atenção do público com alguma celeuma incomum. A deste ano parece ser as indicações póstumas de Chadwick Boseman, falecido em agosto, cujos últimos trabalhos ganharam ainda mais notoriedade à luz de seu precoce falecimento. Com efeito, ele surge concorrendo como Melhor Ator em “A Voz Suprema do Blues”, e não apenas desponta como favorito (seus maiores concorrentes são Gary Oldman, por “Mank”, até pelo favoritismo do filme em si, e Riz Ahmed, extremamente cotado por seu assombroso trabalho em “O Som do Silêncio”) como também deve ser uma presença garantida no Oscar; suas indicações póstumas parecem repetir a mesma circunstância de Heath Ledger em 2008.

Melhor Atriz Dramática

Viola Davis, A Voz Suprema do Blues
Andra Day, The United States vs. Billie Holiday
Vanessa Kirby, Pieces of a Woman
Frances McDormand, Nomadland
Carey Mulligan, Promising Young Woman

E, de Chadwick Boseman, vamos para sua companheira de cena, Viola Davis, que no mesmo “A Voz Suprema do Blues”, interpreta a cantora Ma Rainey, num trabalho fenomenal que já a coloca entre as mais cotadas do ano. Viola tem duas grandes concorrentes na categoria que nada mais são do que duas das mais incisivas e poderosas atuações de 2020: A sempre espetacular Frances McDormand, por “Nomadland”, e a jovem Vanessa Kirby, absolutamente surpreendente por seu papel e “Pieces Of A Woman” –talvez, a mais disputada categoria do Globo de Ouro, pela excelência plena dessas três interpretes, este prêmio não possui uma favorita.

Melhor Ator de Comédia ou Musical

Sacha Baron Cohen, Borat – a fita de cinema seguinte
James Corden, Festa de Formatura
Lin-Manuel Miranda, Hamilton
Dev Patel, A Vida Extraordinária de  David Copperfield
Andy Samberg, Palm Springs

Certamente, o prêmio ficará entre Sasha Baron Cohen e Lin-Manuel Miranda (ator, dramaturgo e produtor que goza de grande prestígio na TV e no teatro, aqui mais conhecido por papéis coadjuvantes em “Sete Homens e Um Destino” e “Assassinato No Expresso do Oriente”). Os demais concorrentes já têm imensa sorte por estarem indicados: O esforçado Dev Patel, o queridinho do Globo de Ouro, Andy Samberg, e James Corden que, como seu filme, “Festa de Formatura”, surpreende por estar lista, uma vez que a obra recebeu várias críticas negativas..

Melhor Atriz de Filme de Comédia ou Musical

Maria Bakalova, Borat: Fita de Cinema Seguinte
Kate Hudson, Music
Michelle Pfeiffer, French Exit
Rosamund Pike, Eu me Importo
Anya Taylor-Joy, Emma

Maria Bakalova, a grande surpresa de “Borat Fita de Cinema Seguinte”, surge com algum favoritismo, embora muitos insistam que ela é coadjuvante e não atriz principal do filme. Assim sendo, muitos defendem a vitória da ótima Anya Taylor-Joy, que conseguiu destacar-se neste último ano, não só com seu trabalho em “Emma”, mas também na prestigiada série “O Gambito da Rainha”.

Melhor Ator Coadjuvante

Sacha Baron Cohen , Os 7 de Chicago

Daniel Kaluuya, Judas e o Messias Negro

Jared Leto, Os Pequenos Vestígios

Bill Murray, On the Rocks

Leslie Odom, Jr. , Uma Noite em Miami

Uma categoria disputada quase tanto quanto a de Melhor Atriz Dramática, aqui, talvez o único a passar em branco será Daniel Kalluya, já que Sacha Baron Cohen (com dupla indicação neste ano!) e Leslie Odom Jr. chamam a atenção em filmes bastante indicados, enquanto Bill Murray (em seu retorno à colaboração com a diretora Sofia Coppola, 17 anos depois de “Encontros e Desencontros”!) se beneficia com o apreço dos críticos, e Jared Leto se destaca dos demais por seu belíssimo duelo de interpretações com Denzel Washington em “Pequenos Vestígios”.

Melhor Atriz Coadjuvante

Glenn Close, Era uma Vez um Sonho

Olivia Colman, O Pai

Jodie Foster, The Mauritanian

Amanda Seyfried, Mank

Helana Zengel, Relatos do Mundo

As formidáveis veteranos (inclusive de premiações) Jodie Foster, Glenn Close e Olivia Colman têm pela frente a disputa com a jovem e talentos Amanda Seyfried, que finalmente emplaca um indicação, por um trabalho fabuloso: Embora haja algo de polêmico no filme “Mank”, a presença de Amanda nele é extraordinária e pivotal para os rumos da trama; o que sempre garante a relevância para uma premiação como coadjuvante.

Melhor Direção

Emerald Fennell, Promising Young Woman
David Fincher, Mank
Regina King, Uma Noite em Miami
Aaron Sorkin, Os 7 de Chicago
Chloé Zhao, Nomadland

A categoria de Melhor Direção foi recebia com entusiasmo: Pela primeira vez, as mulheres predominaram, ocupando três das cinco vagas. Um recorde! Os colegas Aaron Sorkin e David Fincher (este bastante cotado) terão de disputar com o forte favoritismo de Chloe Zhao e Regina King, ambas à frente de dois dos mais aclamados filmes da temporada.

Melhor Roteiro

Emerald Fennell, Promising Young Woman

Jack Fincher , Mank

Aaron Sorkin , Os 7 de Chicago

Florian Zeller, Christopher Hampton, O Pai

Chloe Zhao, Nomadland

Melhor Filme em Língua Estrangeira

Another Round, Dinamarca

La Llorona, Guatemala/França

The Life Ahead Itália

Minari, Estados Unidos, mas falado em coreano

Two of Us, França

Melhor Animação

The Croods: Uma Nova Era

Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica

A Caminho da Lua

Soul

Wolfwalkers

Melhor Canção

Fight for You, Judas e o Messias Negro

Here My Voice, Os 7 de Chicago

“IO SI (Seen), Rosa e Momo

Speak Now, Uma Noite em Miami

Tigers & Tweed, The United States vs. Billie Holiday

Melhor Trilha Sonora

O Céu da Meia-noite

Tenet

Relatos do Mundo

Mank

Soul

Num cômputo geral, nota-se que, diferente de anos anteriores, os críticos não dispunham de uma variedade muito grande de filmes para preencher todas dos supostos ‘melhores do ano’, o que deve se refletir, inclusive, no Oscar. O que parece claro, por hora, é que não há como negar a relevância da Netflix e do outras plataformas nesse cenário, muito mais do que os estúdios que em 2020 tiveram praticamente suas mãos atadas. A entrega dos prêmios do Globo de Ouro se dará em 28 de fevereiro de 2021.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Os Miseráveis

Apesar de Anne Hathaway ter levado (com méritos) o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2013 pela sua poderosa presença como a trágica Fantine na primeira parte da trama (e ela de fato interpreta com esforço e primazia), o prêmio mais merecido para o filme de Tom Hooper foi mesmo o Oscar de Melhor Mixagem de Som.
Explica-se: “Os Miseráveis” é uma espécie muito incomum de musical; ele foi rodado com gravação sincrônica dos atores cantando para a câmera, a exemplo de muitas outras obras pregressas, no entanto, num escopo técnico antes tido por inimaginável, daí ser extraordinariamente notável a capacidade dos técnicos em capturar as vozes dos atores, filtrá-las de toda infinidade de sons poluentes e eventuais da cena e emoldurá-las com a melodia da trilha sonora para dali obter as músicas que compõem e ajudam sistematicamente a contar a história antes imaginada pelo escritor Victor Hugo no romance literário, e depois adaptada por Claude-Michel Schönberg e Alain Boublil, na versão teatral e musical que tanto sucesso fez nos palcos para então aqui ser vertida para o cinema.
O ano é 1817. Conhecemos o protagonista, Jean Valjean (Hugh Jackman, maravilhoso) um francês condenado à escravidão por ceder à fome; roubou um pedaço de pão para si a para a própria irmã. Durante sua liberdade condicional (que chega depois de 19 longos anos), Valjean aproveita e foge. Logo ele descobre que precisa abandonar sua identidade se tiver alguma intenção de prosperar naquela França do Século XIX: A discriminação para com ex-prisioneiros, como é o caso dele, chega a ser intolerável.
Descobre outra coisa também: O valor da solidariedade e do apego à Deus.
Cerca de oito anos se passam, e então Valjean (chamado agora pela nobre alcunha de Monsieur Prefeito!) é um homem rico, dono de uma tecelagem. É lá que trabalha Fantine (Anne), moça virtuosa (busca sempre fugir do assédio insidioso do contramestre) que não tarda a ter sua própria cota de drama: Mandada embora do emprego graças às crueldades perpetradas por suas colegas, Fantine não tem dinheiro para sustentar sua filhinha Cosette, e por conta disso, vende seus cabelos, depois seus dentes e, por fim, sua honra (se prostitui) para então perecer. Em seu leito de morte, Valjean –que sente-se culpado por não ter tido a oportunidade de ampará-la –lhe promete que será um pai para Cosette dali para frente, e a tira de seus insensíveis e inescrupulosos tutores, o casal Thénardier (interpretado com histrionismo por Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter).
Os anos tornam a se passar com Valjean sempre sob a sombra da rancorosa perseguição do obstinado Inspetor Javert (Russell Crowe, equilibrando a truculência do personagem com uma inesperada desenvoltura como cantor).
Então vivida por Amanda Seyfried, Cosette se apaixona por Marius (Eddie Redmayne), um jovem abastado que engrossa as fileiras da Revolução Francesa na luta pelos direitos do povo oprimido. Cosette e Marius formam com a filha dos Thénardier, Eponine (Samantha Banks, única oriunda da montagem teatral), um triângulo amoroso a movimentar a trama.
Neste ponto, Valjean se vê num dilema entre tornar a fugir (e recomeçar a vida), mais uma vez longe do encalço de Javert, ou finalmente separar-se Cosette, que ele ama como filha, deixando-a tentar a felicidade ao lado de Marius.
Não faltam tristezas em profusão a se abater sobre os personagens neste trabalho de Tom Hooper no qual o expectador deve saber, de antemão, que todos os diálogos são cantados ao invés de declamados –com isso, “Os Miseráveis” é uma sucessão de canções ocasionalmente antológicas, tão famosas que muitos talvez nem saibam que provêem desta obra, como é o caso da sofrida e ritmada “Look Down”, da célebre e visceral “I Dreamed A Dream”, da envolvente “My Life, A Heart Full Of Love”, e de várias outras.
Nesse sentido, o trabalho do diretor Hooper (que antes havia levado o Oscar de Melhor Filme por “O Discurso do Rei”) não prima por modéstia: Em sua exuberância rasgada e seu romantismo intoxicante, ele por vezes pode exaurir o expectador. Entretanto, para aqueles dentre o público que forem capazes de lhe fazer a travessia, “Os Miseráveis” reserva uma experiência de arrebatamento insuspeito e emoção irrestrita.

sábado, 21 de setembro de 2019

Meninas Malvadas

Tendo realizado um belo trabalho na refilmagem de “Sexta-Feira Muito Louca” –do qual Jamie Lee Curtis saiu com um merecido Globo de Ouro de Melhor Atriz em Comédia –o diretor Mark Waters soube dar prosseguimento à sua esteira de realizações preservando um estilo descompromissado e o gênero no qual tão bem trabalhou, a comédia.
Assim, “Meninas Malvadas” é novamente uma comédia com ares adolescentes e novamente traz Lindsay Lohan no elenco –e, acredite se quiser, ainda mais promissora e cativante do que em sua colaboração anterior com Waters: Hoje, em vista de todos os transtornos passados em sua carreira e sua vida pessoal fica até estranho assistir um filme onde tudo transcorre harmoniosamente e no qual ela vive a garota comportada.
Há também, em “Meninas Malvadas” um elemento que o torna mais relevante que o filme anterior de Waters: O roteiro esperto, carregado de minúcias reflexivas, da também atriz Tina Fey.
Ela inspirou-se no livro “Queen Bee And Wannabees”, que não é de ficção, mas uma obra de estudo e avaliação psicológica sobre o comportamento adolescente (sobretudo, o feminino) e suas tendências inconscientes em criar hierarquias às vezes bastante cruéis.
Fascinada com o tom descontraído com o qual o livro introduz questões de ordem antropológica e as tornava palatáveis, Tina extraiu do livro uma premissa básica cujo avanço narrativo da trama permitia a pontuação de todos os tópicos ali abordados –o resultado é um filme adolescente que, sem despir-se do humor, do romance, e das características que apelam ao público dessa idade, observa as atitudes dos protagonistas e antagonistas com um viés inteligente de compreensão.
Lindsay Lohan vive Cady Heron, a típica garota recém-chegada à nova escola. Mais que isso: Filha de pais exploradores, Cady foi educada em casa –hábito comum em certos locais dos EUA parodiado num prólogo divertidíssimo –e sua consequente ida, aos 16 anos, para uma escola pública representa uma ida à um mundo completamente estranho e diferente.
Lá –instruída por suas primeiras amizades, Janis (Lizzy Caplan) e Damian (Daniel Franzese) –ela descobre que existem tribos diversas, os nerds, os desajustados os desportistas, os artistas, as poderosas, etc.
São as poderosas, de acordo com Janis, que gozam do privilégio de serem consideradas a elite popular entre os estudantes. E é entre as poderosas que está o grande desafeto de Janis: A arrogante, fingida e manipuladora Regina George (Rachel McAdams, ótima) que dela já foi amiga, antes de difama-la para toda a escola.
E é exatamente aí, no frescor que permite à Cady adentrar qualquer tribo na nova escola que reside a ideia a dar o estopim a uma espécie de plano de vingança de Janis: Já que ninguém sabe que Cady é amiga dela, a novata poderá infiltrar-se no restrito clube das poderosas –que, além de Regina inclui a abilolada Karen (Amanda Seyfried) e a devotada Gretchen (Lacey Chabert, do seriado “O Quinteto”) –e sabotar a imagem de perfeição de Regina.
O plano até vai dando certo –Regina perde sua credibilidade (numa série de intrigas que fragilizam seu grupo de amigas), suas armas de sedução (ao engordar comendo barras de cereais sugeridas por Cady) e o namorado atleta que ostentava (Jonathan Bennett que, com ela e Lohan, compõem o triângulo amoroso da trama) –contudo, o sacrifício para isso acaba sendo a própria inocência de Cady (que gradualmente vai perdendo sua transparência para adquirir, sem notar, a falsidade do comportamento das poderosas) e por conta disso, a amizade dela com Janis e Damian.
O roteiro de Tina Fey evolui essa narrativa até desembocar num caos que envolve praticamente toda a escola –ou, pelo menos, todas as meninas da escola –dando ao público um microcosmos divertido por meio do qual podemos observar as consequência individuais de certas ações sobre toda uma comunidade; nesse sentido, uma versão não tão ácida e bem mais agridoce de “Atração Mortal”.
Terminado, o filme de Waters oferece redenção às suas protagonistas, uma crítica social nada demagógica aos seus expectadores junto de uma dose considerável de simpática diversão, isso tudo, para uma mera comédia adolescente é admirável.

terça-feira, 2 de abril de 2019

Lovelace

Costuma-se dizer que a história por trás de alguns filmes é tão turbulenta e interessante quanto o próprio filme em questão.
É essa máxima que vem nortear esta produção que coloca a jovem, bela e talentosa Amanda Seyfried como a garota que, nos anos 1970, protagonizou para o bem e para o mal o filme pornográfico que rompeu pela primeira vez a restrição do circuito específico para essas obras, virando um verdadeiro sucesso, “Garganta Profunda”.
É com ironia que descobrimos a quão pudica é Linda Boreman (Amanda), sobretudo, em comparação com sua melhor atrevida e ousada amiga Patsy (Juno Temple).
Crescida numa família rigorosa e áspera (seus pais são vividos por Sharon Stone e Robert Patrick), Linda ainda teve o infortúnio de engravidar com vinte anos –a criança foi entregue à adoção. O quê levou seus pais a educarem-na com rédea curta.
Tão curta que ela se sentia sufocada.
Quando o galante Chuck Traynor (Peter Sarsgaard) surge em sua vida, portanto, ele não deixa de aparentar ser o príncipe encantado que a salvará daquela prisão. No entanto, Chuck tem lá seus demônios. Enquanto estão juntos, ele deixa Linda (agora, Linda Traynor) compreender sua opinião algo maleável sobre a prostituição –para ele, não há problemas em suas funcionárias fazerem programas com seus clientes –além de outros assuntos mais escusos.
Com a corda no pescoço de tantas dívidas, ele gradativamente convence Linda –que tinha lá seus sonhos para com a vida artística –a fazer um filme. Logo fica claro, porém, que esse filme não é convencional; trata-se de um pornô.
Do modo como a narrativa se apresenta, nem é tanto Linda quem se assombra com os indícios do que terá de fazer, é o próprio expectador: Para a biografia que se assume, ele é um pouco nebuloso na questão do quanto Linda sabia sobre a natureza do projeto de “Garganta Profunda” –e o roteiro ainda usa um artifício para, mais tarde, regressar algumas cenas, e mostrar que Chuck prostituía Linda, aliciando-a com violência e imposições brutais.
Com o sucesso de “Garganta Profunda” –a famosa obra pornô sobre uma garota que tem o clitóris localizado na garganta (!), pretexto que enfileira assim uma sucessão de cenas de sexo oral a cargo de Linda (então, batizada com o sobrenome Lovelace, o mesmo da personagem) –ela se torna assim uma espécie de ícone, um símbolo sexual a representar a ponte entre a então obscura indústria pornográfica e a produção hollywoodiana; significativa, nesse sentido, é a participação de James Franco vivendo ninguém menos que Hugh Hefner, o dono da Playboy.
Mas, a fachada de glamour e êxito esconde um matrimônio de abuso: Disposto a transformar a própria esposa numa espécie de marca que pode explorar até o último centavo, Chuck submete Linda à todo tipo de submissão, desde o uso indevido de sua imagem para produtos de sex-shop à orgias programas com dezenas de clientes.
Ela custa a livrar-se dessa influência perniciosa de Chuck e abandonar esse meio para então reinventar-se, desta vez casada e com o sobrenome Marchiano, como escritora de um livro onde expõe todas as circunstâncias que a levaram a estrelar “Garganta Profunda”, bem como o casamento tóxico que viveu com Chuck –livro este que serve de inspiração ao filme dirigido por Rob Epstein e Jeffrey Friedman com uma indecisão quase bipolar: Seu trabalho flutua entre a intenção de expor despojadamente os elementos do universo pornô (como Milos Forman o fez em “O Povo Contra Larry Flint”) e o zelo ocasional e condescendente para com sua protagonista retratada.
Com isso perde muito da ousadia que se poderia esperar de um projeto assim.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Garota Infernal

Se dependesse exclusivamente da impressão passada por sua reunião de talentos, “Garota Infernal” seria memorável: Roteirizado pela mesma Diablo Cody que levou o Oscar da categoria por “Juno” –sendo que é, de fato, espirituoso e bem escrito –dirigido pela cineasta independente Karyn Kusama (realizadora de “Girlfight” tido como uma espécie de precursor temático do premiadíssimo “Menina de Ouro”) e estrelado pela belíssima (e gostosíssima) Megan Fox, de “Transformers” –cuja presença representa o grande atrativo para seu departamento de marketing –o filme jamais alcança os níveis de diversão a que se propõem, em grande parte porque nenhuma das estrelas citadas oferece um resultado satisfatório.
A trama bolada por Diablo Cody como uma espécie de versão particular –e pontuada pelas mesmas concepções de ‘guerra dos sexos’ de seu sucesso juvenil –de certos arquétipos dos filmes de terror jamais engrena ou empolga. Em vez disso, regride aos clichês de sempre: Jennifer, a indiscutivelmente sexy líder de torcida de sua escola (Megan) começa a manifestar um estranho e macabro comportamento que não passa despercebido de sua melhor amiga (Amanda Seyfried), uma das estudantes ligeiramente desajustadas. A garota agora possuída por algo demoníaco, precisa matar para manter-se viva, mais ou menos como um vampiro, e como eles, usa assim seu poderoso sex-appeal para atrair pobres garotos.
Deliberadamente longe do naturalismo que exerceu em seu outro filme, a diretora Karyn Kusama (que realizou também a equivocada adaptação cinematográfica de “Aeon Flux”, com Charlize Theron) opta por um registro convencional e uma narrativa básica, presumindo talvez que prescindiria uma direção com personalidade o fato de ter um roteiro assinado por Diablo Cody e uma protagonista interpretada por Megan Fox.
Megan de fato hipnotiza os olhares masculinos em cena, entretanto, como atriz, seu trabalho é ofuscado pela competência e espontaneidade de Amanda Seyfried, a jovem desajustada.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Enquanto Somos Jovens

Como em todos os seus filmes (“A Lula e A Baleia”, “Frances Ha”), o diretor Noah Baumbach tem especial interesse por distúrbios comportamentais.
Aqui não é diferente.
Seu casal de protagonistas, Josh e Cornelia (Ben Stiller e Naomi Watts, escalações que expressam bem a mescla de comédia costumeira e drama independente que ele impõe em suas narrativas), estão naquela fase em que a euforia da juventude converteu-se mais em lembranças do que em ações presentes, e tal constatação parece levar uma sombra ao seu casamento. Planos iminentes (como reuniões festivas com os amigos de sempre, ou mesmo a possibilidade de adotar uma criança) pouco fazem para desvanecer esse pessimismo.
Um belo dia eles conhecem Jamie e Darby (Adam Driver e Amanda Seyfried), jovens como eles foram um dia; descolados, idealistas e passionais, como eles gostariam de ter sido.
A amizade logo transforma o comportamento deles, levando-os a uma atitude que muitos definiriam como “crise de meia idade”.
Todavia, existem mazelas na vida aparentemente feliz e plena que aquele casal jovem vive e, sobretudo no caso de Jamie, essas pequenas fissuras irão revelar, aos olhos de Josh, sua prepotência, seu egocentrismo e certa inconseqüência na maneira com que ele molda sua vida (ele almeja ser, como Josh, um documentarista) para que se encha de glamour aos olhos dos outros.
Pouco a pouco, portanto, Noah Baumbach deixa o tema da crise de meia idade, que parecia definir os rumos do filme, para abordar as questões morais que, por ventura, envolvem o compromisso dos contadores de história, sob o prisma algo maniqueísta de um antagonismo entre a juventude que promete inovação e a experiência que conserva alguma ética.
Essa é, todavia, uma discussão que dificilmente se sustenta como interesse para grande parte do público –Baumbach saiu-se muito melhor quando ponderou acerca de assuntos muito mais universais como a disfunção ocasional das famílias modernas (“A Lula e A Baleia” e “Margot e O Casamento”, com Nicole Kidman) e a dinâmica singular das amizades (“Frances Ha”).