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sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Amsterdam


 Escrito e dirigido pelo mesmo David O’Russell que surpreendeu público e crítica com “O Lado Bom da Vida” e “Trapaça”, “Amsterdam” passou despercebido quando foi lançado em 2022. A intriga verborrágica, mirabolante e intrincada que ele descortina (ainda que ampara em fatos reais, a chamada Conspiração Empresarial de 1933) não caiu no gosto dos expectadores, e a condução de O’Russell –como sempre, inclinada ao fascínio por tipos disfuncionais e por uma sistemática estranheza –não ajudou a tornar mais apetecível uma obra que, em sua indefinição, parece não pertencer a gênero nenhum: Durante suas mais de duas horas de duração, “Amsterdam” reúne elementos de film noir, suspense conspiratório, drama, comédia de humor negro e thriller político, tudo numa roupagem desigual que remete à década de 1930.

O enredo cheio de melindres gira em torno de três grandes amigos: Os soldados Burt Berendsen (Christian Bale), Harold Woodman (John David Washington, de “Resistência”) e a enfermeira Valerie (Margot Robbie). Em meados de 1918, Burt e Woodman se conheceram no front da Primeira Guerra Mundial e logo foram despachados para o hospital em que Valerie servia. A amizade foi instantânea –bem como o romance entre Harold e Valerie –e os três logo fugiram para Amsterdam a fim de viver um sonho até o limite do tolerável.

Entretanto, Burt, casado com a abastada Beatrice Vandenheuvel (Andrea Riseborough), precisou voltar para a América, trazendo Harold à reboque. Quinze anos depois, os dois trabalham numa clínica médica de quinta categoria para soldados veteranos em Nova York –Burt como médico-cirurgião, Harold como advogado –quando são procurados por Elizabeth Meekins (a cantora Taylor Swift), certa de que seu pai, o Senador Meekins, não morreu de causas naturais ao voltar de uma viagem à Europa.

Durante a autópsia, perpetrada por Burt e pela enfermeira Irma St. Clair (Zoe Saldaña), eles descobrem que o Senador foi envenenado e, quando dão por si, são tragados para dentro de um furacão: Na sequência, Elizabeth é assassinada, a culpa recai sobre Burt e Harold que logo se tornam os principais suspeitos aos olhos da polícia –personificada nos paspalhos personagens de Matthias Schoenaerts e Alessandro Nivola. Ao fugirem, Burt e Harold dão início à sua própria investigação a fim de limpar seus nomes, quando reencontram novamente Valerie, e vão descobrindo uma trilha de pistas que irá levá-los até um influente político de Washington (Robert De Niro) e, por fim, à uma terrível verdade acerca de um mal inominável que começa a despontar em certos governos totalitários da Europa, como a Itália e a Alemanha, E acredite, essa é só a ponta do iceberg!

Uma sinopse descrita em características normais não dá conta das idas e vindas, da deliberada excentricidade e da atmosfera de incomum ironia que persiste durante todo o tempo no filme de O’Russell, e embora esse elemento seja certamente grande parte de seu charme e diferenciação, ele é também seu calcanhar de Aquiles –o diretor O’Russell sempre foi muito afeito à esquisitices pontuais em suas narrativas. Em alguns casos, esse gosto curioso e apurado resultou em obras que foram capazes de contornar o estranhamento para surpreender ou até emocionar seu público; em outros –sobretudo seus trabalhos de início de carreira como a bizarra comédia romântica “A Mão do Desejo”, o inconformista “Flying With Disaster” e o filme sobre e para loucos (!) “Huckabees” –o produto final acabava sendo tão distante das convenções que simplesmente não se revelava palatável ao público. É esse o caso, aqui, de “Amsterdam”.

Não é que não seja um bom trabalho (ele é), não é que seu elenco não esteja bem (Christian Bale, pra variar, se mostra excelente, e os nomes estelares da produção só mostram o quanto a reputação de O’Russell é positiva), não é que o roteiro seja ruim (muito pelo contrário, ele reúne com certa maestria elementos díspares que poderiam, com menos talento, jamais surgirem tão bem ordenados numa narrativa) e nem que a direção de O’Russell deixe a desejar (seu manejo das inúmeras facetas de gêneros que se presta a abordar é extremamente elegante e inspirado,e nunca soa forçado ou cansativo), mas o fato é que “Amsterdam”, na sua originalidade tão contundente, provavelmente, está condenado a ser um cult-movie, uma obra incompreendida que, nos anos ou décadas por vir, será redescoberta por cinéfilos e admiradores que o enaltecerão, observando nele as qualidades que não foram notadas na sua época.

domingo, 12 de novembro de 2023

Oppenheimer


 O cinema de Christopher Nolan sempre foi uma junção imprevista de gêneros comerciais. Ação e espionagem com thriller onírico em “A Origem”. Ficção científica em larga escala e drama familiar em “Interestelar”. Adaptação de histórias em quadrinhos com referência ao policial setentista em “Cavaleiro das Trevas”. Suspense rocambolesco com filme de época em “O Grande Truque”, e assim por diante. Há uma nova mescla em “Oppenheimer” e, na habilidade melindrosa e na insuspeita elegância com que tudo é feito, isso é um pouquinho mais difícil de ser dissecado.

Como sempre, no interesse irreprimível por seus personagens e suas trajetórias, Nolan distorce, torce e retorce o tempo a fim de acompanhar, justapor e refletir as várias etapas de suas vidas. “Como se resume toda uma vida?” é uma pergunta que surge, mais de uma vez, já na primeira parte de “Oppenheimer”. Nolan parece usar de seu filme para afirmar que tal feito não é virtualmente possível. Seu protagonista é J. Robert Oppenheimer (vivido com solidez metódica e competência instintiva por Cillian Murphy), o ‘pai da bomba atômica’. E quando o encontramos, Nolan o mostra contrapondo duas situações distintas no tempo. Em 1954, quando foi intimado a uma audiência de segurança pela Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos (AEC), e logo depois, já na qualidade de pivô para uma audiência posterior no senado norte-americano, a fim de confirmar a neutralização de sua influência política, a envolver o Almirante Lewis Strauss (Robert Downey Jr., brilhante).

O Almirante Strauss, aliás, quando surge, quase sempre nos momentos fundamentais da segunda metade da trama, parece protagonizar um outro filme à parte –e não à toa, suas cenas são mostradas por Nolan em preto & branco, numa forma de diferenciar, seus segmentos dos demais, protagonizados por Oppenheimer. Ademais, essas duas sequências de audiência (a da AEC, em cores, e a do Senado, em preto & branco) são duas circunstâncias de julgamento, onde estão em pauta questões morais que só chegaram a pesar de verdade anos depois da gênese desconcertante da bomba atômica, e do poder destrutivo que ela, por fim, revelou ao mundo. Em algum momento, desse fluxo narrativo –que Nolan converte num turbilhão de informações tecnicamente pesadas até deliberadamente harmonizar seu ritmo, num esforço de acompanhar a mente inquieta de seu personagem –o filme começa a contar, de modo um pouco mais linear, a história de Oppenheimer: Estudante de Física Quântica na Europa, onde acompanhou com entusiasmo as palestras do cientista Niels Bohr (Kenneth Brannagh), em meados da década de 1920, Oppenheimer ficou conhecido por sua dedicação e tenacidade nos círculos acadêmicos da Alemanha e da Suíça antes de voltar aos EUA, na tentativa de levar as arrojadas pesquisas no campo quântico para as universidades norte-americanas. Em Berkeley, na Califórnia, ele conhece o Prof. Ernest Lawrence (Josh Hartnett), ao lecionar no Instituto de Tecnologia, época em que suas primeiras inclinações políticas de esquerda aparecem: Ele incentiva alunos e professores para a criação de um Sindicato que representasse a categoria, e envolve-se com a ativista do Partido Comunista Jean Tatlock (Florence Pugh) para depois casar-se com a ex-comunista Kitty Puening (Emily Blunt).

Em 1942, com a Segunda Guerra Mundial em curso, e com os norte-americanos alarmados com as pesquisas avançadas em fissão nuclear dos cientistas alemães, o governo dos EUA, representado pelo General Leslie Groves (Matt Damon) convida o Dr. Oppenheimer a liderar o Projeto Manhattan com a complicada missão de ultrapassar os esforços alemães e chegar na frente da corrida armamentista para construir a primeira bomba atômica. Para tanto, Oppenheimer faz exigências inusitadas aos militares: constrói toda uma cidadezinha do zero, com infraestrutura e tudo, no vale amplo e deserto de Los Álamos, para abrigar os vários departamentos de produção que ele iria administrar a fim de que as pesquisas quânticas avançassem sem os empecilhos da sempre –como a distância dos familiares, por exemplo –e (a exigência mais difícil para o Exército Norte-Americano), fazer vista grossa às tendências comunistas deste ou daquele cientista, tido por Oppenheimer como fundamental ao projeto. Sua equipe incluía o abnegado Edward Teller (o também diretor Ben Safdie), ferrenho defensor do desenvolvimento da bomba de hidrogênio, o cauteloso e criterioso Isidor Isaac Rabi (David Krumholtz, de “Roda Gigante”), o pesquisador Enrico Fermi (Danny Deferrari) e o atencioso David L. Hill (Rami Malek).

Nos anos tumultuados entre o desenvolvimento do projeto e a criação de fato da bomba, muitas coisas acontecem –os alemães são derrotados, restando somente a oposição bélica dos japoneses no Pacífico; o presidente Dwight Eisenhower, responsável pelo início do Projeto Manhattan, morre e é substituído por Harry S. Truman (vivido por Gary Oldman); e Jean Tatlock suicida-se na banheira de sua casa –contudo, no dia 16 de julho de 1945, os esforços de Oppenheimer e sua equipe numerosa culminam no Teste Trinity, realizado num campo deserto, nas proximidades de Alamogordo, provando a viabilidade da bomba atômica, e seu poder descomunal de destruição. Na sequência, as cidades japonesas de Hiroshima e Nagazaki são escolhidas para serem os alvos da bomba, encerrando, por fim, as hostilidades da Grande Guerra.

Entretanto, os transtornos de Oppenheimer estavam longe de terminar. Quando ele –movido por temores anteriores ao Projeto Manhattan, discutidos com o sensato Prof. Einstein (Tom Conti), de que a bomba atômica seria um perigo para o mundo caso não houvesse colaboração entre as nações –busca restringir novos avanços na pesquisa de energia nuclear para fins bélicos, ele logo deixa de ser uma celebridade para, aos olhos do governo, se tornar uma figura discordante com os preceitos da Guerra Fria contra União Soviética que então se precipitou no horizonte, o que o leva à audiência de segurança da AEC, cujos depoimentos e interrogatórios (todos posicionados como ganchos pontuais dos flashbacks do roteiro), visaram descobrir as relações comunistas mantidas por Oppenheimer.

Nesse manejo assombroso que executa de uma ampla, complexa e nada simples história real e no vocabulário tecnicamente complexo que seu roteiro abraça, Nolan uma vez mais realiza cinema de gente grande, desta vez, mesclando um resgate urgente e necessário de um registro histórico imprescindível com sua evidente paixão por expedientes de suspense; Ao alterar a cronologia dos eventos como são mostrados, ele transforma a última hora (das nada modestas três que o filme possui!) num verdadeiro thrilher de mistério, para então, ao fim, regressar à intimista reflexão com Albert Einstein, e deixar o público reflexivo com as sombrias (e muito reais) possibilidades da trajetória humana.

quinta-feira, 16 de março de 2023

007 - Sem Tempo Para Morrer


 Na última vez em que vimos o James Bond de Daniel Graig, em “007 Contra Spectre”, sua trajetória sinalizava uma espécie de desfecho para o personagem: A despeito disso jamais ter acontecido em qualquer outra versão, seja cinematográfica, seja literária, e mesmo que contra todas as probabilidades e até contra, digamos, o perfil do personagem, James Bond encontrava sua alma gêmea nas formas da forçadamente cativante Madeleine Swann (Lea Seydoux), abandonava o MI6 e partia em direção a um improvável final feliz de uma vida em família. Nesta nova produção, com intenções ainda mais contundentes de ser o capítulo derradeiro da Fase Daniel Craig, aquela pasmaceira familiar é descartada já no prólogo, uma longa cena de ação e perseguição na Itália (onde estaria o túmulo de Vesper, a bondgirl nº 1, morta em “Cassino Royale”), na qual Bond termina sentindo na pele os dissabores de se confiar demais e ser traído –ele deixa Madeleine (que julga tê-lo traído) numa estação de trem e garante à ela que nunca mais saberá dele. Entram os créditos iniciais, característicos e sensacionais desde o primeiro filme, com Sean Connery, e então “Sem Tempo Para Morrer” começa de verdade, com seu roteiro correndo contra o prejuízo e criando expedientes hábeis (uns muito bem bolados, outros nem tanto) para tentar trazer James Bond de volta ao seu status quo do qual algumas escolhas equivocadas do filme anterior ameaçaram removê-lo. Assim, passam-se cinco anos (!) e Bond, não mais um agente a serviço secreto de Vossa Majestade, é recrutado não pelo MI6, mas por seu grande amigo Felix Leiter (Jeffrey Wright), da CIA, que pede a Bond um favor: Recapturar um cientista russo sem escrúpulos, criador de um vírus a pedido do próprio MI6, que foi tirado de um laboratório secreto por um grupo obscuro que aparentemente é a Spectre.

A inusitada missão leva Bond à Cuba, na qual tem por ajudante a entusiasmada e divertida Paloma (a maravilhosa Ana de Armas, estabelecendo com Graig uma parceria um pouco diferente da que fizeram em “Entre Facas e Segredos”), talvez, a mais interessante e vívida personagem de todo o filme. Uma pena ela aparecer por tão pouco tempo...

O roteiro de “Sem Tempo Para Morrer” –assinado pelo diretor Cary Joji Fukunaga, Phoebe Waller-Bridge, Scott Z. Burns, Neal Purvis e Robert Wade, os dois últimos, roteiristas que, entre uma e outra colaboração, seguiram firme na franquia 007 desde os tempos de Pierce Brosnan, ou seja, conhecem (ou deveriam conhecer) toda a mitologia do personagem de cabo a rabo –lança mão de subterfúgios bastante sofisticados e expedientes objetivos de filmes de espionagem para desvencilhar-se da irrelevância e fazer-se surpreendente numa época em que expectadores não se surpreendem nem com reviravoltas-surpresas no melhor estilo M. Night Shyamalan. Não só isso, a produção também encara o desafio –inerente à todo filme de James Bond desde o fim dos anos 1980 –de fazer um personagem nascido das circunstâncias da Guerra Fria soar pertinente na atualidade, além de procurar se impor como uma válida obra cinematográfica tendo como objeto de comparação o fabuloso “007-Operação Skyfall”, com grande unanimidade tido como o melhor filme de Bond feito até hoje, e buscando fugir da proximidade qualitativa de obras que envergonharam a série, como “007 Contra O Foguete da Morte”.

São muitos, portanto, os desafios com os quais o diretor Cary Joji Fukunaga (da primeira temporada da série “True Detective”) se defronta aqui, e embora a crítica tenha sido muito rabugenta com seu trabalho (em certos quesitos até com alguma razão), ele consegue entregar um entretenimento válido, distante da sensação de desperdício que infelizmente contaminou “007 Contra Spectre”, ainda que longe de igualar a qualidade dos títulos mais honoráveis. Mesmo assim, “Sem Tempo Para Morrer” segue envolvente, eletrizante e reconhecível como um genuíno filme de 007.

Curioso, entretanto, é quando descobrimos, ao lado do próprio James Bond, que ele não é mais 007 (?!); seu codinome foi transferido, quando deixou o MI6, para outra agente, interpretada por Lashana Lynch (de “Capitã Marvel”). Contudo, será ao lado dela que Bond terá de trabalhar quando descobrir que, ao contrário do que acreditava, os planos malignos em gestação não são da Spectre (cujo líder, Blofeld, vivido por Christoph Waltz, está em uma prisão de segurança máxima), e sim de outro vilão megalomaníaco (vivido, por sua vez, por Rami Malek, recém-saído do Oscar de Melhor Ator por “Bohemian Rapsody”) dotado de planos intrincados que reintroduzem Madeleine Swann (personagem melhor desenvolvida aqui que no filme anterior) de volta à vida de Bond.

É fácil enxergar os elementos de “Sem Tempo Para Morrer” que desagradaram os puristas – a representatividade (um fator sempre redundante e secundário em encarnações anteriores do personagem) é poderosamente exercida no roteiro com a adição de uma mulher negra que detêm, durante boa parte do tempo, o título de 007 que antes pertencia ao herói, além das lembranças constantes da presumida irrelevância de James Bond, seja como um truculento agente de campo numa época dominada por tecnologia, sejam suas atitudes rotuladas machistas, e tudo isso sem contar a manobra final que certamente deixou descontente a maioria esmagadora de sua legião de fãs. Ainda assim, há que se notar também as qualidades do filme: A Fase Daniel Craig como um todo –e alguns de seus exemplares com mais evidência –foi a primeira a aproveitar integralmente todo o potencial cinematográfico que se poderia atingir nas obras de James Bond, não obstante o brilho nostálgico e a pulsante inovação da Fase Sean Connery, o divertimento irrestrito, ainda que ocasionalmente tolo, da Fase Roger Moore, a seriedade genérica da Fase TimothyDalton e o sopro de renovação técnica e artística da Fase Pierce Brosnan. Aqui, Cary Joji Fukunaga reitera muito do que funcionou antes, para potencializar o grande intérprete que Bond encontrou em Daniel Craig (embora sempre tenha sido notória a relação ‘amor e ódio’ que o ator sempre alimentou pelo personagem), cercando-o de formidáveis reafirmações da mitologia à qual pertenceu. É uma despedida digna, exuberante e adequada, imperfeita nas suas escolhas, razoável em relação à época a que pertence, enunciando certamente um recomeço no futuro, com outro ator, outra abordagem, e outra tentativa de se equiparar a tudo que veio antes.

Talvez o maior desafio seja encontrar um ator que se imponha no papel com a eficiência instintiva que Daniel Craig soube depositar em toda sua bela, ainda que oscilante, trajetória de cinco filmes.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

O Mestre

Dos poucos realizadores consagrados norte-americanos a evocar a escola de Stanley Kubrick –onde estão em pauta filmes corrosivos construídos em torno de análises inquietantes e antropológicas da condição humana –Paul Thomas Anderson realizou este “O Mestre” na sequência de um de seus mais louvados trabalhos, o épico “Sangue Negro”.
Algo aproxima os dois: Se “Boogie Nights” e “Magnólia” eram registros pulsantes e abrangentes de microcosmos definidos por suas peculiaridades, “Sangue Negro” e “O Mestre” são tratados de observação moral dedicados a trajetória de um único protagonista –o filme que relaciona essas duas fases criativas distintas é “Embriagado de Amor”, com Adam Sandler.
Assim, a incorporar as questões levantadas neste filme, temos Joaquin Phoenix interpretando Freddie Quell, rapaz combatente na marinha da Segunda Guerra Mundial.
Incapaz de se adequar ao mundo à sua volta –antes mesmo dos traumas de guerra que o deixaram ainda mais instável –Freddie passa a singrar algumas cidades americanas colecionando encrencas e confusões; e a fim de materializar o estado à beira do esquizofrênico de seu protagonista, o filme de Anderson vai e vem em eventos atuais e pregressos sem maiores avisos, confundindo a percepção do público.
Em algum momento, Freddie acaba parando no navio de Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman) à caminho de Nova York.
Se Freddie Quell é a figura subjetiva a narrativa, então Lancaster Dodd é seu elemento central: Envolvente e carismático, ele revela-se o guia de um culto intrigante e metodicamente mirabolante e, em última instância, perigoso –e o filme de Anderson até no improvável que registra nunca se afasta demais da realidade: “O Mestre” é, pois, fortemente baseado na figura de L. Ron Hubbard, o guru por trás da Cientologia, uma religião alternativa que tornou-se moda entre celebridades norte-americanas a partir dos anos 1990.
Dodd abraça Freddie como seu protegido, e assim, as características em torno do movimento religioso chamado “A Causa” –nome do primeiro livro escrito e publicado por Dodd –se descortinam para ele.
Dodd crê na conexão com vidas passadas, e na possibilidade da mente acessar tais ligações através de sessões que misturam elementos de hipnose, sugestão e psicanálise superficial. Ao lado de Freddie, um seguidor prontamente ferrenho, Dodd e sua esposa (Amy Adams) vão arrebanhando novos e engajados adeptos, como Clark (Rami Malek), casado com a filha de Dodd, e Helen (Laura Dern), nova-iorquina em cuja mansão Dodd e seus seguidores se instalam indefinidamente.
Eventuais vozes dissonantes do movimento são caladas com grosseria, truculência e exclusão, como é o caso do jornalista que aborda Dodd com perguntas constrangedoras e mais tarde recebe uma violenta visita em seu apartamento de Freddie e Clark, ou da própria Helen que identifica um erro contraditório no segundo livro de Dodd e acaba enxergando uma faceta intolerante e irascível que ele normalmente esconde de todos.
“O Mestre”, contudo, se dedica mesmo ao mergulho algo psicodélico no conceito montado por Lancaster Dodd, que inclui seus jogos mentais de manipulação, e na relação quase simbiótica deste com Freddie que nele enxerga uma figura paterna que jamais teve (outro tema que transcende toda a filmografia de Anderson), enquanto que Dodd o vê, em suas rachaduras psicológicas inapeláveis, uma cobaia perfeita para suas experiências de controle psíquico.
Nesse delírio coletivo capitaneado por tal mente cheia de segundas intenções, Anderson termina por realizar algo próximo do que fez em seu celebrado “Sangue Negro”: Um retrato distinto, moralmente circunspecto e cheio de maestria de uma mentalidade específica a aparecer no seio da América numa determinada hora e lugar –no caso, os EUA da década de 1950 –e um estudo cheio de propriedade e maneirismos humanos da maldade, da violência e da sordidez em gestação, por meio de ideologias atrativas aos corações atormentados como o de Freddie Quell, que termina o filme do mesmo jeito que começou: Errante num caminho que o devolve sempre às angústias de seu passado.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Dolittle

Um personagem de uma série de quatorze livros infanto-juvenis escritos por Hugh Lofting muito famoso nos EUA, mas bem pouco conhecido aqui no Brasil foi o escolhido pelo astro Robert Downey Jr. para tentar dar continuidade à sua bem-sucedida carreira depois que ela ressurgiu das cinzas quando ele interpretou Tony Stark em “Homem de Ferro”, no Universo Marvel Cinematográfico, papel do qual ele se ocupou na última década (com poucos e ocasionais projetos distintos como “Sherlock Holmes”, “Trovão Tropical”, “Um Parto de Viagem” e “O Juiz”) e do qual ele se despediu em “Vingadores-Ultimato”.
O mesmo personagem já havia rendido um musical irregular (ainda que indicado ao Oscar!) em 1968, estrelado por Rex Harrison e dirigido por Richard Fleischer, e, em sua encarnação mais famosa, uma comédia de grande sucesso popular com Eddie Murphy.
Esta nova produção, dirigida por Stephen Gaghan (roteirista de “Traffic” e diretor de “Syriana”, uma escolha um tanto estranha para um filme de apelo quase infantil) baseia-se com mais contundência em elementos dos livros (sobretudo, o segundo “The Voyages of Dr. Dolittle”), valendo-se de admiráveis valores de produção para concretizar sequências que passavam longe nos planos da simplicidade singela das adaptações anteriores.
Assim, “Dolittle” começa numa animação estilizada que relata as origens de seu protagonista: Um médico inglês que ao lado de seu grande amor, Lilly (Kasia Smutniak), viajou por todo o mundo aprendendo as línguas de todos os animais, com os quais passou a ser capaz de se comunicar. Como nos é informado, uma tragédia –a morte da amada ocorrida justamente na única viagem na qual não a acompanhou –o torna alguém recluso, muito falado, mas bem pouco visto.
O filme se inicia de fato quando o jovem Tommy Stubbins (o fraquinho Harry Collett) resolve procurá-lo em sua propriedade (na qual somente os animais estão autorizados a adentrar) para que cure um esquilo ferido. Junto com Tommy, aparece também a bela e jovem Lady Rose (a estreante Carmel Laniado) que apesar da pouca idade chega representando a Família Real da Inglaterra: A Rainha Victoria (Jessie Buckley, da série “Chernobyl”) se encontra doente e antes que seu estado a leve para sempre (permitindo que abutres interesseiros como o personagem vivido por Jim Broadbent assumam a coroa), ela deseja recorrer aos inusitados conhecimentos do Dr. Dolittle para tentar curá-la.
Robert Downey Jr. compõe John Dolittle com a propriedade que lhe é característica: Nada nele lembra trejeitos ou cacoetes de Stark ou quaisquer um de seus personagens anteriores. É um trabalho metódico de um ator dedicado e talentoso.
E, munido de efeitos visuais que transformam a fauna inquieta de diversos animais coadjuvantes num show à parte, o flme transforma as cenas iniciais de interação entre Dolittle e os bichos em um deleite –com destaque para a sequência que ele e seus ‘assistentes’ conseguem fazer um diagnóstico da condição da Rainha Victoria.
É quando “Dolittle” começa então a apresentar suas tremendas fraquezas –um tanto quanto cedo demais... –o bom médico chega à conclusão de que a única cura para a Rainha Victoria é a seiva da ‘Árvore do Édem’ –mesma iguaria que sua amada Lilly morreu tentando encontrar!
Assim, acompanhado de Tommy, que agora deseja ser seu aprendiz, o Dr. Dolittle empreende uma claudicante aventura rumo à terras desconhecidas –que passa pelo reino do ex-sogro, um monarca beligerante vivido por Antonio Banderas –seguido de perto pelos emissários dos conspiradores, liderados pelo médico perverso e apalermado interpretado por Michael Sheen (que até lembra do Dick Vigarista!).
Se muitos dos personagens humanos soam absolutamente rasos e a trama tem inúmeras passagens indefinidas, isso se deve em grande parte pela pouca familiaridade do diretor Gaghan com esse tipo de gênero (o que nos faz perguntar o tempo todo porque ele foi escolhido para o projeto!): Essa inadequação foi detectada pelos produtores em algum momento da produção e o diretor Jonathan Liebesman (de “Tartarugas Ninja”) foi chamado para rodar cenas adicionais e dar mais leveza e coesão ao material. O resultado foi uma narração em off da arara dublada por Emma Thompson (!) que preenche muitas lacunas da trama de forma incômoda e ginasiana e uma irregularidade de estilo, ritmo e lógica que sabota sistematicamente todo o filme, culminando no prato principal do mau gosto, seu clímax, onde os realizadores julgaram ser uma boa ideia mostrar uma cena de humor grosseiro (e, no fim, nada engraçado) em torno de um dragão com prisão de ventre (!!).
Da forma como ficou, para cada acerto, “Dolittle” apresenta um lapso: Seu protagonista conta com um astro empenhado e hábil, mas seu co-protagonista (os olhos da plateia, assim sendo), é vivido por um jovem ator mais perdido que cego em tiroteio; seus efeitos visuais criam animais com uma  fascinante fluidez em cena (e que conta com um elenco estelar de vozes, como Tom Holland, Octavia Spencer, Rami Malek, John Cena, Marion Cottilard, Selena Gomez e Ralph Fiennes), mas seu elenco humano coadjuvante, em compensação, está tão lastimável quanto caricato (com a louvável exceção de Antonio Banderas); e, se o filme conta com a beleza visual proporcionada pela fotografia de Guillermo Navarro, todas as cenas com ela concebidas são entremeadas numa narrativa problemática, a qual o expectador acompanha sem maiores envolvimentos.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Os Vencedores do Oscar 2019

A Academia de Artes Cinematográficas parece sacrificar a própria relevância na tentativa de agradar a gregos e troianos. Nesse processo, é irônico que a vitória inesperada de “Green Book-O Guia”, na categoria principal tenha gerado tanta controvérsia.
Consequentemente, uma vez mais a Academia premiou Alfonso Cuarón (“Gravidade”) como Melhor Diretor sem, no entanto, premiar sua obra como Melhor Filme –mas, ele não tem o que reclamar: “Roma” saiu da cerimônia com três estatuetas, fazendo seu filme representativo do reconhecimento enfim prestado pela Academia às produções de streaming (“Roma” é da Netflix).
Agora então é oficial: Obras oriundas das plataformas são cinema. E podem ser premiados como cinema.
Na verdade, todos os principais indicados levaram alguma coisa (numa manobra política que está se tornando hábito): “Pantera Negra” com três prêmios técnicos; “Bohemian Rapsody” com quatro; “Vice” com o prêmio de Maquiagem...
Divertidíssima a apresentação de Samuel L. Jackson para os prêmios de Melhores Roteiros, cujo Roteiro Adaptado foi conquistado por seu chapa Spike Lee, dono de um dos discursos mais aplaudidos da noite.
Bom mesmo foi o discurso espantado e bem-humorado de Olivia Colman, tão aturdida quanto o público, quando levou o Oscar de Melhor Atriz quanto todos (inclusive ela própria, eu acho) acreditavam que o troféu já estava nas mãos de Glenn Close!
De resto confirmaram-se os favoritismos de Rami Malek, Mahershala Ali (que agora entrou oficialmente para a história ao lado de Denzel Washington como os dois únicos intérpretes negros a vencer dois Oscar!) e Regina King.
Talvez o melhor momento da noite (que careceu de bons momentos, é verdade) tenha sido a performance bela e envolvente de Lady Gaga e Bradley Cooper que cantaram a música vencedora do Oscar de Melhor Canção, “Shallow”.

MELHOR FILME
"Green Book-O Guia"

MELHOR DIREÇÃO
"Roma", Alfonso Cuarón

MELHOR ATRIZ
Olivia Colman, "A Favorita"

MELHOR ATOR
Rami Malek, "Bohemian Rapsody"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Regina King, "Se A Rua Beale Falasse"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Mahershala Ali, "Green Book-O Guia"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Roma"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Free Solo"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Period-End Of Sentence"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Roma" (México)

MELHOR MIXAGEM DE SOM
"Bohemian Rapsody"

MELHORES EFEITOS VISUAIS
"O Primeiro Homem"

MELHOR MAQUIAGEM
"Vice"

MELHOR FIGURINO
"Pantera Negra"

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"Bohemian Rapsody"

MELHOR DESIGNER DE PRODUÇÃO
"Pantera Negra"

MELHOR TRILHA SONORA
“Pantera Negra"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Shallow", de "Nasce Uma Estrela"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Green Book-O Guia"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Infiltrado Na Klan"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Homem-Aranha No Aranhaverso"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Bao"

MELHOR EDIÇÃO
"Bohemian Rapsody"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"Skin”

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Indicados Ao Oscar 2019


Os indicados ao Oscar 2019 foram anunciados. Vamos a eles:

Melhor Filme
Pantera Negra
Infiltrado na Klan
Bohemian Rhapsody
A Favorita
Green Book-O  Guia
Roma
Nasce Uma Estrela
Vice

O público ainda se encontra extasiado pelas sete indicações de “Pantera Negra”, que inclusive se estendem até a mais importante nomeação –a de Melhor Filme –todavia, os filmes mais importantes na categoria, aqueles que têm a chance de ganhar o prêmio de fato são “Green Book” (que ganha cada vez mais força junto à crítica) e “Nasce Uma Estrela” (desde sempre um favoritíssimo), entretanto, nenhum goza de mais prestígio no momento do que “Roma” que obteve o maior número de indicação (dez) e ostenta uma excelência que levou a Academia a uma inédita aceitação das produções de streaming (às quais ele pertence) reconhecendo assim o cinema como uma arte que transcende os formatos impostos do passado.

Melhor Ator
Christian Bale, Vice
Bradley Cooper, Nasce Uma Estrela
Rami Malek, Bohemian Rhapsody
Viggo Mortensen, Green Book-O Guia
Willem Dafoe, No Portal da Eternidade

Bradley Cooper e Willem Dafoe perderam o Globo de Ouro de Ator em Drama para Rami Malek, e sua aplaudida personificação de Fred Mercury; Viggo Mortensen perdeu o mesmo prêmio para Christian Bale (desta vez, na categoria de Comédia), cuja transformação física quase sempre surte efeito positivo nos votantes da Academia.
Embora muitos críticos apreciem com ressalvas o trabalho de Rami Malek, há certa coerência em pensar que o Oscar de Melhor Ator pode ser o único prêmio válido e real para “Bohemian Rhapsody” –e o mesmo argumento pode valer para “Vice”, também.
Meu palpite é que o vencedor será definido no SAG Awards!

Melhor Atriz
Lady Gaga, Nasce Uma Estrela
Yalitza Aparicio, Roma
Glenn Close, A Esposa
Olivia Colman, A Favorita
Melissa McCarthy, Poderia Me Perdoar?

A atriz de “Roma” –que muitos críticos afirmavam ser uma injustiça sua ausência em algumas premiações –pegou muitos de surpresa aparecendo nesta categoria que, ninguém duvida, irá ficar polarizada entre Glenn Close e Lady Gaga; até mesmo a vencedora do Globo de Ouro de Melhor Atriz de Comédia ou Musical, Olivia Colman, surge à sombra delas.
Provavelmente o prêmio ficará com Glenn Close visto que já chegou a hora dela ser reconhecida com um Oscar –o quê ela, sendo a grande atriz que é, nunca levou!
Não que Lady Gaga vá sair da cerimônia de mãos abanando: Sua vitória na categoria de Melhor Canção Original é considerada certa.

Melhor Direção
Spike Lee, Infiltrado na Klan
Pawel Pawlikowski, Guerra Fria
Yorgos Lanthimos, A Favorita
Alfonso Cuarón, Roma
Adam McKay, Vice

Parece difícil acreditar, mas esta é a primeira indicação ao Oscar de Spike Lee, um dos diretores essenciais para a aceitação de temáticas minoritárias no cinema norte-americano no início dos anos 1990, e ela veio por um filme brilhante e aclamado, explosivo em seu tema como é de agrado de Lee.
Surpresa mesmo, porém, é a presença do polonês Pawel Pawlikowski (diretor do celebrado “Meu Amor de Verão”) quando muitos esperavam ver ali Bradley Cooper ou Peter Farrelly. Ainda assim, as atenções se voltam para Alfonso Cuarón que, cinco anos depois de “Gravidade”, fez mais uma obra que promete arrebatar prêmios.

Melhor Atriz Coadjuvante
Amy Adams, Vice
Marina de Tavira, Roma
Regina King, Se A Rua Beale Falasse
Emma Stone, A Favorita
Rachek Weisz, A Favorita

Outra surpresa foi o aparecimento de Marina de Tavira (por “Roma) ocupando o lugar que poderia ter sido de Claire Foy, por “O Primeiro Homem” –filme que foi bastante esquecido em muitas categorias.
Vencedora do Globo do Ouro, Regina King aparece com ligeiro favoritismo –há quem acredite que possa ser esse o único prêmio de expressão de “Se A Rua Beale Falasse” –mas, muitos apostam na força de Amy Adams para quem ela começa a perder mais terreno.

Melhor Ator Coadjuvante
Mahershala Ali, Green Book-O Guia
Adam Driver, Infiltrado na Klan
Sam Elliot, Nasce Uma Estrela
Richard E. Grant, Poderia Me Perdoar?
Sam Rockwell, Vice

Talvez, a única categoria (ao lado de Filme Estrangeiro) onde o vencedor já é certo: Será muito improvável que Mahershala Ali perca o prêmio, que ele já ganhou, dois anos atrás, por “Moonlight-Sob A Luz do Luar” –aliás, só para constar, o premiado do ano passado (Sam Rockwell, por “Três Anúncios Para Um Crime”) está ali, a disputar com ele...

Melhor Edição
Infiltrado na Klan
Bohemian Rhapsody
A Favorita
Green Book-O Guia
Vice

Melhor Animação
Os Incríveis 2
Ilha de Cachorros
Mirai
WiFi Ralph-Quebrando A Internet
Homem-Aranha No Aranhaverso

Ao repetir exatamente a mesma lista dos indicados ao Globo de Ouro, imagina-se que o Oscar repetirá também sua premiação: O ótimo “Homem-Aranha No Aranhaverso”, que vem, por sinal, amealhando diversos prêmios.
Curioso notar como os outros estúdios finalmente conseguiram igualar a genialidade narrativa que em animações, até outro dia, era exclusividade da Pixar e da Disney –que surgem na disputa com “Os Incríveis 2” e “WiFi Ralph”.

Melhor Fotografia
Guerra Fria
Roma
Nasce Uma Estrela
A Favorita
Nunca Deixe de Lembrar

Melhores Efeitos Visuais
Vingadores-Guerra Infinita
Christopher Robin
O Primeiro Homem
Jogador Nº 1
Han Solo-Uma História Star Wars

Notável a lembrança de três filmes estrangeiros na categoria de Melhor Fotografia (“Roma” já era esperado, mas “Guerra Fria” e “Nunca Deixe de Lembrar” foram surpresas) sendo que dois deles são filmados em preto & branco!
Nos Efeitos Visuais, “Guerra Infinita” proporcionou tanta comemoração quanto as numerosas indicações de “Pantera Negra” –vale lembrar que, até então, nenhum filme da Marvel Studios jamais levou um Oscar!

Melhor Roteiro Original
A Favorita
No Coração das Trevas
Green Book-O Guia
Roma
Vice

Melhor Roteiro Adaptado
A Balada de Buster Scruggs
Infiltrado na Klan
Poderia me Perdoar?
Se a Rua Beale Falasse
Nasce Uma Estrela

Um grande suspense que antecipou os anúncios dizia respeito se a Academia iria se render à necessidade de reconhecimento de grandes obras realizadas pelas plataformas de streaming (no caso, a Netflix) ao nomear “Roma”.
Daí a surpresa que, não apenas o filme de Cuarón apareceu entre os indicados como também o belo trabalho dos Irmãos Coen, “A Balada de Buster Scruggs”, foi merecidamente lembrado na categoria de Melhor Roteiro Original, assim como na da Figurino e Canção Original.

Melhor Filme Estrangeiro
Cafarnaum (Líbano)
Guerra Fria (Polônia)
Nunca Deixe de Lembrar (Alemanha)
Roma (México)
Assunto de Família (Japão)

Melhor Canção Original
All of The Stars - Pantera Negra
The Place Where the lost things go - O Retorno de Mary Poppins
Shallow - Nasce uma Estrela
I'll Flight - RBG
When a Cowboy Trade... - A Balada de Buster Scrugss

Melhor Documentário em Curta-Metragem
Black Sheep
End Game
Lifeboat
A Night at the Garden
Period.

Melhor Documentário em Longa-Metragem
Free Solo
Hale County this Morning , This Evening
Minding the Gap
RBG
Of Fathers and Sons

Melhor Design de Produção
Pantera Negra
A Favorita
O Primeiro Homem
O Retorno de Mary Poppins
Roma

Melhor Figurino
A Balada de Buster Scrugss
Pantera Negra
A Favorita
O Retorno de Mary Poppins
Duas Rainhas

Melhor Mixagem de Som
Pantera Negra
Bohemian Rhapsody
O Primeiro Homem
Roma
Nasce Uma Estrela

Melhor Edição de Som
Pantera Negra
Bohemian Rhapsody
O Primeiro Homem
Um Lugar Silencioso
Roma

Melhor Maquiagem
Border
Vice
Duas Rainhas

As categorias técnicas representam a melhor chance de “Pantera Negra” sair com algumas estatuetas debaixo do braço, ainda que hajam filmes bem cotados e merecedores nas de Melhor Design de Produção, Melhor Figurino (“A Favorita”, em ambos), Melhor Mixagem (“O Primeiro Homem”, já que não concorre a quase nada), e Melhor Edição de Som (“Um Lugar Silencioso”, outro apontado como um dos grandes injustiçados deste ano).

Melhor Curta em Animação
Animal Behaviour
Bao
Late Afternoon
One Small Step
Weekends

Melhor Curta-Metragem
Detainment
Fauve
Marguerite
Mother
Skin

Melhor Trilha Sonora
Nicholas Britell – Se a Rua Beale Falasse
Alexandre Desplat – Ilha de Cachorros
Ludwig Göransson – Pantera Negra
Marc Shaiman – O Retorno de Mary Poppins
Terence Blanchard - Infiltrado na Klan

A entrega dos prêmios será dia 24 de fevereiro.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Vencedores do Globo de Ouro 2019


Foi dada a largada à temporada de premiações com a cerimônia ocorrida neste dia 6 de janeiro que, de início, pelo menos, foi estranhamente enfadonha e pouco marcante, mesmo diante do fato de que o Golden Globe costuma ser uma festa mais animada e solta. Dessa forma, há pouco de interessante para se falar que vá além dos filmes ganhadores, com “Green Book” e “Bohemian Rhapsody” revelando um inesperado favoritismo que só o tempo dirá se irá manter-se.
Por sua natureza mais descontraída, é normal esperar do Golden Globe algumas atitudes distintas dos prêmios que se seguirão, só não podemos saber com precisão quais serão elas.
Teria “Roma”, de Alfonso Cuarón, as mesmas chances de se consagrar em outras premiações mesmo com o selo da Netflix?
Por outro lado, o badalado “Nasce Uma Estrela” terá alguma atenção nas próximas premiações que se estendam para além das generosas indicações?

Melhor filme - Drama
"Bohemian Rhapsody"

Melhor ator de filme - Drama
Rami Malek, "Bohemian Rhapsody"

Não foi todo mundo que ficou satisfeito com a premiação de “Bohemian Rhapsody” na categoria principal –houve até quem acusasse o Golden Globe por não se levar a sério com esse gesto.
Entretanto, o prêmio de Melhor Ator Dramático para Rami Malek pareceu bem mais apropriado, uma vez que é sua composição como Freddie Mercury o grande chamariz da obra.
Curiosa também é a postura de todos os envolvidos de praticamente omitir o nome do diretor Bryan Singer de todos os discursos de agradecimento –ele que foi afastado do projeto faltando duas semanas de sua conclusão devido ao escândalo de denúncias de abuso sexual.

Melhor atriz de filme - Drama
Glenn Close, "The Wife"

A torcida do público aparentemente se inclinava para o ótimo trabalho de Lady Gaga, mas o Golden Globe optou por seguir a lógica do merecimento, reconhecendo uma veterana que não tinha sido, até então, contemplada com os prêmios que merece.
Assim como ocorreu com Gary Oldman no ano passado (ele quem, aliás, apresentou o prêmio), este parece ser o momento de Glenn Close, atriz que, há algum tempo vem sendo falado, é um absurdo que nunca tenha levado um Oscar.
O Golden Globe é um indício dos rumos que a premiação de Melhor Atirz pode tomar ao longo da temporada de prêmios em geral, e na cerimônia do Oscar em particular.

Melhor Filme - Musical ou Comédia
"Green Book: O Guia"

O trabalho solo de Peter Farrelly (pela primeira vez sem colaborar com seu irmão Bobby) terminou superando predileções do público (“O Retorno de Mary Poppins” e “Podres de Ricos”) e obras apontadas com mais favoritismo (“A Favorita” e “Vice”).
Se há uma obra que ganhou inesperada força com este Golden Globe foi essa.

Melhor atriz em filme - Musical ou Comédia
Olivia Colman, "A Favorita"

Eis que o filme de Yorgos Lanthimos sobre o inusitado triângulo amoroso na corte da rainha Anne de Inglaterra teve uma de suas protagonistas premiada.
Da forma como está, parece que Olivia Colman está representando todo o trio principal. Resta saber se essa tendência –a de colocar Olivia nas categorias principais e Rachel Weisz e Emma Stone nas de coadjuvante –se manterá ao longo de toda a temporada de prêmios.

Melhor diretor de filmes
Alfonso Cuarón, "Roma"

Melhor filme em língua estrangeira
"Roma" (México)

A excelência do trabalho de Alfonso Cuarón confirma sua tendência em prevalecer nas premiações da temporada, não obstante “Roma” ser um produto oriundo da plataforma de streaming Netflix. O que traz um dilema aos membros da Academia: Render-se ao novo formato quebrando os paradigmas que definem o que é cinema, ou recusar o reconhecimento a um filme que o merece plenamente?

Melhor ator em filme - Musical ou Comédia
Christian Bale, "Vice"

Melhor roteiro para filme
Peter Farrelly, Nick Vallelonga, Brian Currie ("Green Book: O Guia")

Melhor ator coadjuvante em filmes
Mahershala Ali, "Green Book: O Guia"

O sempre empenhado Christian Bale arrebatou o prêmio de Melhor Ator Cômico por um trabalho que surpreende, sobretudo, por sua completa metamorfose para o papel –é sua segunda colaboração com o diretor Adam McKay depois do ótimo “A Grande Aposta” (deu pra perceber uma ligeira embriaguez em seu discurso. Coisas do Golden Globe).
A partir de um ponto, porém, foi “The Green Book” que passou a se impor entre os prêmios na categoria de comédia, tornando Mahershala Ali um dos nomes a se acompanhar bem de perto nas premiações.

Melhor atriz coadjuvante em filmes
Regina King, "Se A Rua Beale Falasse"

Não parece haver maiores diferenças entre “Se A Rua Beale Falasse” e “Sob A Luz do Luar”, trabalho anterior do diretor Barry Jenkins. A mesma aparência de discreto filme independente que amealha prêmios inesperados.
Aqui, esse imprevisto já coloca Regina King como a favorita da temporada, inclusive pela considerável ausência de concorrentes mais fortes.

Melhor música para filmes
"Shallow", "Nasce Uma Estrela"

Em meio ao intenso burburinho de sua badalação, fazia sentido mesmo que, ao menos, o único prêmio que não escapasse à “Nasce Uma Estrela” fosse o de Melhor Canção –e “Shallow” corresponde, por vezes, a um dos grandes momentos do filme.

Melhor trilha original para filmes
Justin Hurwitz, "O Primeiro Homem"

Depois de ter sido esnobado na maioria das indicações, ninguém esperava que “O Primeiro Homem” saísse vitorioso numa categoria onde alguns até se permitiam ter esperança pela vitória de “Pantera Negra”.
Foi Justin Hurwitz quem levou esse mesmo prêmio em 2017, também por um filme de Damien Chazelle, “La La Land-Cantando Estações”.

Melhor animação
"Homem-Aranha no Aranhaverso"

Quebrando a hegemonia Disney/Pixar que já durava sabe-se lá quanto tempo, a bem-sucedida animação da Sony Pictures conquistou a crítica estrangeira e ameaça, com isso, consagrar-se como a mais funcional e vibrante tradução do herói aracnídeo para as telas de cinema.