Mostrando postagens com marcador Timothy Olyphant. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Timothy Olyphant. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Amsterdam


 Escrito e dirigido pelo mesmo David O’Russell que surpreendeu público e crítica com “O Lado Bom da Vida” e “Trapaça”, “Amsterdam” passou despercebido quando foi lançado em 2022. A intriga verborrágica, mirabolante e intrincada que ele descortina (ainda que ampara em fatos reais, a chamada Conspiração Empresarial de 1933) não caiu no gosto dos expectadores, e a condução de O’Russell –como sempre, inclinada ao fascínio por tipos disfuncionais e por uma sistemática estranheza –não ajudou a tornar mais apetecível uma obra que, em sua indefinição, parece não pertencer a gênero nenhum: Durante suas mais de duas horas de duração, “Amsterdam” reúne elementos de film noir, suspense conspiratório, drama, comédia de humor negro e thriller político, tudo numa roupagem desigual que remete à década de 1930.

O enredo cheio de melindres gira em torno de três grandes amigos: Os soldados Burt Berendsen (Christian Bale), Harold Woodman (John David Washington, de “Resistência”) e a enfermeira Valerie (Margot Robbie). Em meados de 1918, Burt e Woodman se conheceram no front da Primeira Guerra Mundial e logo foram despachados para o hospital em que Valerie servia. A amizade foi instantânea –bem como o romance entre Harold e Valerie –e os três logo fugiram para Amsterdam a fim de viver um sonho até o limite do tolerável.

Entretanto, Burt, casado com a abastada Beatrice Vandenheuvel (Andrea Riseborough), precisou voltar para a América, trazendo Harold à reboque. Quinze anos depois, os dois trabalham numa clínica médica de quinta categoria para soldados veteranos em Nova York –Burt como médico-cirurgião, Harold como advogado –quando são procurados por Elizabeth Meekins (a cantora Taylor Swift), certa de que seu pai, o Senador Meekins, não morreu de causas naturais ao voltar de uma viagem à Europa.

Durante a autópsia, perpetrada por Burt e pela enfermeira Irma St. Clair (Zoe Saldaña), eles descobrem que o Senador foi envenenado e, quando dão por si, são tragados para dentro de um furacão: Na sequência, Elizabeth é assassinada, a culpa recai sobre Burt e Harold que logo se tornam os principais suspeitos aos olhos da polícia –personificada nos paspalhos personagens de Matthias Schoenaerts e Alessandro Nivola. Ao fugirem, Burt e Harold dão início à sua própria investigação a fim de limpar seus nomes, quando reencontram novamente Valerie, e vão descobrindo uma trilha de pistas que irá levá-los até um influente político de Washington (Robert De Niro) e, por fim, à uma terrível verdade acerca de um mal inominável que começa a despontar em certos governos totalitários da Europa, como a Itália e a Alemanha, E acredite, essa é só a ponta do iceberg!

Uma sinopse descrita em características normais não dá conta das idas e vindas, da deliberada excentricidade e da atmosfera de incomum ironia que persiste durante todo o tempo no filme de O’Russell, e embora esse elemento seja certamente grande parte de seu charme e diferenciação, ele é também seu calcanhar de Aquiles –o diretor O’Russell sempre foi muito afeito à esquisitices pontuais em suas narrativas. Em alguns casos, esse gosto curioso e apurado resultou em obras que foram capazes de contornar o estranhamento para surpreender ou até emocionar seu público; em outros –sobretudo seus trabalhos de início de carreira como a bizarra comédia romântica “A Mão do Desejo”, o inconformista “Flying With Disaster” e o filme sobre e para loucos (!) “Huckabees” –o produto final acabava sendo tão distante das convenções que simplesmente não se revelava palatável ao público. É esse o caso, aqui, de “Amsterdam”.

Não é que não seja um bom trabalho (ele é), não é que seu elenco não esteja bem (Christian Bale, pra variar, se mostra excelente, e os nomes estelares da produção só mostram o quanto a reputação de O’Russell é positiva), não é que o roteiro seja ruim (muito pelo contrário, ele reúne com certa maestria elementos díspares que poderiam, com menos talento, jamais surgirem tão bem ordenados numa narrativa) e nem que a direção de O’Russell deixe a desejar (seu manejo das inúmeras facetas de gêneros que se presta a abordar é extremamente elegante e inspirado,e nunca soa forçado ou cansativo), mas o fato é que “Amsterdam”, na sua originalidade tão contundente, provavelmente, está condenado a ser um cult-movie, uma obra incompreendida que, nos anos ou décadas por vir, será redescoberta por cinéfilos e admiradores que o enaltecerão, observando nele as qualidades que não foram notadas na sua época.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Stop Loss - A Lei da Guerra


 O termo “stop-loss” se refere ao soldado americano reescalado para servir na Guerra do Iraque mesmo após ter cumprido seu período voluntário. Dirigido por Kimberly Peirce, mesma realizadora do contundente “Meninos Não Choram”, este drama de guerra, ao tratar justamente das circunstâncias um tanto massacrantes do “stop-loss” parece inicialmente fazer uma espécie de propaganda patriótica ao Exército Norte-Americano, embora, no decorrer de seus acontecimentos termine por se revelar exatamente o oposto –um trabalho, na verdade, até anti-belicista e anti-militarista.

Produzido pela Paramount Pictures em colaboração com a MTV Films –sendo, portanto, um filme para a TV –“A Lei da Guerra” acompanha três amigos em missão no Iraque: Brandon (Ryan Phillippe, também presente em “A Conquista da Honra”), Steve (Channing Tatum) e Tommy (Joseph Gordon-Levitch), todos vindos da cidade de Brazoz, no Texas.

Ao fim do longo período de 11 anos como soldados, os três regressam para suas famílias e sua cidade-natal, não sem antes serem submetidos à excruciantes experiências em combate –uma delas, uma emboscada nas ruas de uma cidadezinha iraquiana, é mostrada no prólogo em sangrentos e exasperantes detalhes.

De volta, todos eles tentam se adaptar à nova vida. Não conseguem; Steve tenta estabelecer um convívio com Mich (a bela Abbie Cornish, de “Sucker Punch-Mundo Surreal”), sua noiva à cinco anos, mas os severos surtos de stress pós-traumático galgam para a violência doméstica; Tommy, de casamento marcado, põe a perder seu futuro matrimônio (e sua permanência no exército) graças à sua propensão ao alcoolismo.

Já, Brandon, que almejava uma vida tranquila depois de cumprido seu dever, tem um ingrata surpresa: Devido à uma ordem presidencial, ele é um dos “stop-loss”; tão admirável foi seu desempenho em combate que o exército não aceita sua dispensa e, praticamente à revelia dele próprio, decide enviá-lo de volta para o Iraque. Sua excelência como soldado foi a razão para mantê-lo preso à guerra da qual já queria se desvencilhar.

Essa faceta profundamente crítica para com esse determinado procedimento militar –cujos números e estatísticas (ao menos, os que estão disponíveis) são enunciados com realismo nos créditos finais –é o que diferencia “A Lei da Guerra”, uma vez que ele começa aparentando-se quase como uma variação de “O Franco Atirador” –onde jovens regressam para casa tendo de conviver com os revezes do conflito –inserido na Guerra do Iraque.

Na verdade, a lida psicológica com o trauma do Iraque pode ser vista como a fonte de um sub-gênero à parte entre os filmes de guerra norte-americanos (tal e qual o Vietnam) em meados da década de 2000: Houve entre outros o drama “Soldado Anônimo”, o suspense “No Vale das Sombras” e o premiado “Guerra Ao Terror”.

“A Lei da Guerra” se insere nesse conjunto em partes... pois, a partir de determinado ponto, ele muda, convertendo-se num quase road movie onde Brandon, agora desertor, negando-se ceder às exigências autoritárias do exército, se torna uma espécie de fugitivo, ao lado de Mich, agora afastada de Steve –inclusive, com uma promessa de triângulo amoroso pairando no ar; a diretora Peirce, entretanto, parece sensata o bastante para não ceder ao convencionalismo.

Embora bem interpretado, bem conduzido, e envolvente na maior parte do tempo, “A Lei da Guerra” carrega o problema de jamais ir até o fim nos inúmeros objetivos que se propõe: Sua crítica ao exército não se eleva em conclusões relevantes de fato (até porque o desfecho, nesse sentido, é bastante conciliatório e desanimado) e os dramas de seus personagens assim desenvolvidos (o alcoolismo de Tommy, a amizade entre Steve e Brandon e, sobretudo, o envolvimento platônico, mas certamente afetivo, entre esse último e a jovem Mich) jamais chegam num encerramento que possa sugerir redenção, resolução ou término.

A despeito da competência e do profissionalismo com que tudo é realizado, nem sempre esses sublimes adjetivos conseguem contornar a frustração por esses lapsos do roteiro.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Era Uma Vez... Em Hollywood

Representa uma espécie de marco temático na carreira de Quentin Tarantino o épico de guerra “Bastardos Inglórios”: Ele não somente era um passo além nas tramas atrevidas e rocambolescas que ele urgia, como também representou uma prova cabal perante a indústria da qualidade de seu realizador, tão emaranhado em projetos anteriores que resgatavam a essência dos filmes B (“Kill Bill Vol. 1 e 2”, “A Prova de Morte” do “Projeto Grindhouse”) que muitos começavam a achar que eram filmes B que Tarantino passaria então a fazer.
Ao conceber aquele que promete ser um de seus últimos trabalhos antes de sua aposentadoria (ele afirma que irá parar em dez longa-metragens), Tarantino realiza aqui um compêndio de sua paixão e de sua compreensão de cinema amparado numa estrutura que, seja em sua minúcia ou em sua amplitude, remete à “Bastardos Inglórios”.
Situado no ano de 1969, “Era Uma Vez... Em Hollywood” já denota certa desconstrução daquilo que Tarantino habituou o público ao exibir um trabalho de absoluta clareza e nitidez em sua direção de fotografia (a cargo de Robert Richardson) –não é intenção dele, desta vez, recriar a impressão dos filmes feitos naquele período, como ele o fez com os filtros empoirados e envelhecidos de “A Prova de Morte”; aqui, Tarantino quer recriar a impressão de se estar naquele período, a acompanhar lado a lado a trajetória de seus três maravilhosos protagonistas, o ator Rick Dalton (Leonardo Dicaprio), o dublê Cliff Booth (Brad Pitt) e a atriz Sharon Tate (Margot Robie).
Rick foi astro de uma série televisiva de faroeste –e, desde então, seu dublê, Cliff trabalha como seu braço direito e ‘faz tudo’, inclusive como seu motorista –entretanto, ele apostou tudo numa tentativa de emplacar como astro de cinema. Algo que, num diálogo ocorrido em uma das primeiras cenas, o diretor vivido por Al Pacino deixará bem claro que está cada vez mais longe de acontecer: Como no estupendo diálogo inicial entre o Coronel Hans Landa e o fazendeiro francês em “Bastardos...”, o diálogo entre Pacino e Dicaprio começa amistoso, cheio de frivolidade, contudo, mestre da escrita que é, Tarantino usa os elementos da dinâmica para distorcer sua condução e transformar a gentileza em crueldade (sem, no entanto, fazer parecer que deixou de ser gentileza).
Para Rick Dalton, o fracasso sinaliza com os papéis de vilões a que ele parece restringido e às oportunidades, que ele considera pouco lisonjeiras, para fazer faroestes na Itália (com Sergio Corbucci!).
Nesse ínterim, Cliff acompanha o amigo, pairando com a máxima descontração possível sobre os dramas do showbuziness, sem deixar de ser ocasionalmente afetado por um ou outro: Apesar da atitude boa praça, corre o boato de Cliff ter assassinado a própria esposa (trecho que Tarantino revela num audacioso flashback dentro de um flashback), e também a famigerada história do arranca-rabo que ele arranjou com Bruce Lee em pessoa (vivido de forma assoberbadamente caricatural por Mike Moh).
Já, Sharon Tate –a única personagem real dentre os protagonistas –é um caso à parte. Ela tem pouco diálogos, e mesmo sua presença nos planos de câmera é rápida demais para podermos contemplar o suficente a adequação inebriante de Margot Robie ao papel (que, diga-se de passagem, está fabulosa). Ela paira, etérea, pelas cenas do filme como se tivesse vida demais para todo aquele restante de intriga urbana que Tarantino materializa. Sua cena mais longa é também uma das mais memoráveis do filme: Quando ela entra num cinema exibindo “Matt Helm Contra A Arma Secreta” não para ver o filme, mas para se deliciar anonimamente com as reações do público à sua participação.
“Era Uma Vez... Em Hollywood” é assim uma amostra notável desse gênio que manipula as engrenagens da narrativa cinematográfica como poucos, contudo, Tarantino não está só em sua excelência. Após ganhar um merecidíssimo Oscar de Melhor Ator por “O Regresso”, Dicaprio prova que nem por isso deixou de ser formidável –seu Rick Dalton é engraçado, passional e vulnerável, equilibrando facetas tão bem trabalhadas e estudadas como os cacoetes de quando se vê constrangido ou as inseguranças de quando se vê testado.
 Também ele sensacional (ainda que num personagem não tão complexo), Brad Pitt reina supremo em pelo menos duas das melhores cenas de todo o longa (talvez, duas das melhores cenas do ano!): A primeira, quando uma carona nada inocente a uma hippie ninfeta o leva até uma comunidade alternativa gerenciada por ninguém menos que Charles Mason. O suspense que Tarantino impõe nessa sequência é de uma execução genial no entendimento absoluto dos códigos que dilatam e comprimem a narrativa.
A segunda, se dá já no retumbante trecho final do filme, e é preciso –por conta dela –lembrar que, talvez, aqueles expectadores que entrarem no cinema ignorantes da história real envolvendo a atriz Sharon Tate e seu marido, o diretor Roman Polanski, podem não ficar tão impactados com o clímax, ou nem tampouco, entender a desconfiguração de realidade que o filme promove: Como em “Bastardos Inglórios”, Tarantino não resiste, nessa parte final, à tentação de reescrever a história. E ele o faz com tal convicção raivosa que transforma essa cena em uma catarse.
Este é um filme de detalhes que parecem aleatórios em primeira mão, mas que haverão de se mostrar –sobretudo nesse desfecho magistral –serem estratégias plantadas com astúcia quando tudo se fundir num só empuxo narrativo.
Deixem eu deslumbrar-me com “Era Uma Vez... Em Hollywood”, porque ele é um filme deslumbrante.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Show de Vizinha

Na cena que abre o filme, a música “Under Pressure”, do Queen, irrompe em cena, ilustrando as lembranças, já em tom de precoce nostalgia, de uma série de formandos com diferentes impressões de seus anos de escola, até então chegar ao protagonista Matthew Kidman (o ótimo Emily Hirsch, de “Na Natureza Selvagem”); é um momento inebriante que já indica a capacidade desigual deste filme do diretor Luke Greenfield para cativar –sua edição dinâmica, divertida e emotiva já oferece um diferencial no gênero de comédias à beira da vulgaridade a que pertence.
Prestes a se formar no colegial, Matthew, como todo adolescente de hormônios à flor da pele, assombra-se com a beleza de sua nova vizinha, a loira, sexy e espetacular Danielle (Elisha Cuthbert, da série “24 Horas”, deliciosa como nunca).
Para sua surpresa, e de seus amigos de escola, ela parece disposta a se envolver com ele. Mas, sua alegria dura só até um de seus amigos descobrir que ela é, na verdade, uma atriz pornô.
Não é tão original quanto pode parecer a postura que o diretor Greenfield adota aqui: Muito de seu filme inspira-se na comédia oitentista “Negócio Arriscado”, que lançou Tom Cruise (que, no ano seguinte faria “Top Gun”) e até chegou a concorrer a algumas categorias do Globo de Ouro.
Como naquele divertido e bem calculado trabalho (hoje, infelizmente, bastante esquecido pelo público), este é uma comédia ligeira amparada, é verdade, em boa parte no apelo da belíssima atriz Elisha Cuthbert junto ao público adolescente, no entanto, possui uma série de méritos próprios (certamente, a seleção de músicas pop da trilha sonora é um deles) que resultam num entretenimento simpático e divertido, repleto dos impropérios e sacanagens típicos das comédias adolescentes.

P/S: Repare como, num dos pôsteres de divulgação do filme na foto acima, a arte se assemelha, e muito com o pôster oficial do espanhol “De Salto Alto”, de Pedro Almodóvar!