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domingo, 31 de dezembro de 2023

Tempo de Matar


 Em meados de 1996, o diretor Joel Schumacher, por incrível que possa parecer, se encontrava em destaque em Hollywood. Responsável por isso foi a dobradinha de filmes que ele lançou no período, sendo um deles a sua primeira incursão no universo do Homem-Morcego a substituir Tim Burton, “Batman Eternamente” (que embora tenha conquistado o descontentamento da crítica teve boa bilheteria, fracasso foi, de fato, o filme seguinte, “Batman & Robin”), e o outro, este mezzo suspense, mezzo filme de tribunal, “Tempo de Matar”, adaptado da obra de John Grisham (autor que estava em alta naqueles tempos tendo diversas produções adaptadas de seus livros).

É possível notar, através desse exemplo, que o fracasso, às vezes, ensina muito mais que o sucesso: Embora nunca tenha sido um grande diretor, foi depois desta produção relativamente aclamada que Schumacher perpetrou sua mais infame bizarrice cinematográfica, entretanto, foi logo depois do vexame incalculável de “Batman & Robin” que ele teve o bom senso de conduzir a carreira por meio de realizações menores, nas quais o controle do diretor era mais garantido, e o resultado qualitativo, mais certo de ser obtido. Mas, “Tempo de Matar” vale assim esse alarde que, à época, suscitou? Nem tanto.

No sempre segregado e sempre em polvorosa, Mississipi, no sul dos EUA, uma garotinha da comunidade negra é agredida e estuprada por dois rapazes brancos racistas que vão imediatamente à julgamento, sob a quase certeza de absolvição diante das impunes legislações sulistas. No entanto, o indignado pai da criança, Carl Lee Hailey (Samuel L. Jackson), se antecipa à qualquer sentença e metralha os dois criminosos dentro do tribunal, fazendo justiça com as próprias mãos.

É Carl Lee quem agora está no banco dos réus, prestes a ser condenado por homicídio. Sua defesa é assumida pelo jovem e idealista advogado Jake Brigance (Matthew McConaughey, no papel que o revelou à Hollywood após várias participações menores em produções pequenas) que não faz ideia –mas, fará! –de todas as imbricações e desdobramentos que acarretará sua decisão de defender um acusado negro numa comunidade como a do Condado de Canton.

Com a cidade em iminência de virar um barril de pólvora –de um lado os manifestantes negros exigindo veementemente absolvição, de outro, os asseclas da Ku Klux Klan, restaurada no lugar pelos esforços do vingativo irmão de um dos assassinados, vivido por Khiefer Sutherland –Brigance deve enfrentar, nos tribunais, a voracidade inescrupulosa do procurador Rufus Buckley (Kevin Spacey), a desvantajosa antipatia do Juiz Omar Noose (Patrick McGoohan, de “Coração Valente”) e a real ameaça que toda essa circunstância representa a ele e à sua família. Para auxiliá-lo, Brigance conta com o apoio do mentor Lucien Wilbanks (Donald Sutherland), do amigo e parceiro em advocacia Harry Rex Vonner (o histriônico Oliver Platt) e com a inteligência aguçada da jovem estudante Ellen Roark (Sandra Bullock, mais coadjuvante do que protagonista, embora tenha o nome em primeiro nos créditos).

É certamente uma trama urgida com a eficiência e a competência de quem compreendia esse gênero como ninguém –e provavelmente, ela deve funcionar melhor no livro original –ainda assim, apesar de seus bons momentos, o filme é pedante, dirigido com pieguice. Ficam patentes o descontrole de Schumacher para com emoções que deveriam ser mais contidas e a incapacidade dele em extrair atuações bem calibradas de seu elenco vasto e estelar: Em geral, bons atores, Sandra Bullock e Matthew McConaughey se contentam em ter suas belezas evidenciadas e seus egos massageados; quem salva a pátria, no fim das contas, é o sempre ótimo Samuel L. Jackson –grande ator, sua carreira merecia muito mais do que a única indicação ao Oscar (Melhor Coadjuvante por “Pulp Fiction”) que até hoje ele recebeu.

segunda-feira, 26 de julho de 2021

O Senhor das Armas


 Sob sua direção, Andrew Niccol havia então realizado dois filmes: O cultuado “Gattaca-A Experiência Genética” e o irregular, porém, promissor “S1mone”. Entretanto, não passou despercebido da crítica –e talvez nem do próprio Niccol –que seus roteiros, quando filmados por outros diretores (caso do fabuloso “Show de Truman”, dirigido por Peter Weir) obtinham excelência cinematográfica maior do que quando tratados por seu próprio autor.

Em “O Senhor das Armas”, nota-se um esforço digno e intermitente de Niccol em corresponder a esse anseio e fazer um filme, por assim dizer, mais vívido e menos artificial, lapsos que assolavam suas outras obras, em especial, “S1mone”.

E ele já entrega virtuosismo e originalidade em seu prólogo –uma sequência ininterrupta onde a câmera acompanha a trajetória de um cartucho de bala, desde a confecção, passando pelas idas e vindas de seu comércio até o momento em que por fim é usado no campo de batalha para tirar uma vida. Na esteira desse momento um tanto quanto impactante, é deveras uma trajetória –só que, desta vez, de um personagem de carne e osso –que o restante do filme também se prestará a acompanhar: A do mercador de armas Yuri Orlov, vivido por Nicolas Cage. Numa narração em off –à qual Cage acrescenta toda a fina ironia com a qual moldou diversos personagens –somos informados que Yuri é descendente de imigrantes ucranianos que, em plena Nova York dos anos 1970, fingem-se passar por judeus a fim de evitar problemas.

Diferente do irmão mais novo, Vitaly (Jared Leto), para quem o restaurante da família já comportava as medíocres aspirações, Yuri almeja alguma grandeza. Nem que o seja por meios um tanto quanto ilícitos: Ao testemunhar uma fracassada tentativa mafiosa de execução, algo nele desperta para a utilidade crucial das armas de fogo e, munido desse entendimento algo filosófico da propensão à auto-destruição do ser humano, Yuri se torna um traficante de armas.

Iniciando de forma tímida, ele vai aprimorando sua lábia de vendedor à medida que os anos 1980 vão chegando e avançando –e entregando assim, circunstâncias sócio-políticas propícias ao surgimento de mercadores negros como ele próprio. Yuri –em princípio, ao lado de Vitaly, até que o vício em cocaína dele o obriga a internar-se –passa a sucatear arsenais de repúblicas destituídas, espólios de guerras civis reaproveitados onde outros conflitos emergiram, e vai aos mais variados cantos do mundo, do Leste Europeu ao Sul da Àfrica, fornecendo armas para que as guerras assim travadas continuem ocorrendo, sempre convencendo a si mesmo que, no papel de mero intermediário entre o armamento e seus usuários, ele não tem qualquer participação na carnificina assim deflagrada.

Dois personagens representam, de certa maneira, o caminho de Yuri rumo ao fim: Um está lá desde o começo, e vem a ser a bela Ava Fontaine (Bridget Moynaghan, de “Eu, Robô”, “O Novato” e “John Wick-DeVolta Ao Jogo”), modelo e objeto de desejo de Yuri desde os tempos de classe média, ela cai em seus braços quando ele já tem dinheiro o suficiente para ostentar riqueza de sobra (e para fazer dela sua esposa-troféu); o outro personagem surge em consequência das atividades ilegais de Yuri: O incorruptível agente da Interpol Jack Valentine (Ethan Hawke, que trabalhou com Niccol em “Gattaca”).

Sempre um passo a frente de Valentine justamente por valer-se das pequenas brechas da lei que lhe permitem escapar ileso sem provas circunstanciais que o incriminem, Yuri vai constituindo seu império enquanto fornece armas às guerras do mundo inteiro. Sua situação chega perto de complicar-se quando ele se envolve com o psicótico ditador de uma república sul-africana, que o faz sentir-se bem próximo da mortandade que julga tão longe de si –e planta pequenos indícios que permitem a Valentine finalmente aproximar-se dele, não sem contar com ajuda indireta de Ava, aos poucos, consciente da atividade do marido.

Embora lembre um pouco o posterior “Feito Na América”, com Tom Cruise” –e como ele seja alardeadamente baseado num suposto fato real –“O Senhor das Armas” persegue, do início ao fim, a referência primordial do cinema de Martin Scorsese: O diretor Niccol emprega uma câmera inquieta, uma montagem tão minuciosa quanto frenética, um roteiro meticuloso e hábil na junção entre seriedade e farsa, usando de tudo isso para enfatizar o êxtase embriagante em que se transforma a via-crucis de seu protagonista antes dela ganhar os ares sombrios da inevitável derrocada –que surge quando, já nos anos 1990, o perfil geopolítico mundial acirra ainda mais as guerras ao redor do mundo, tornando seu trabalho um pântano de areia movediça do qual não existem mais chances de escapar.

A justaposição cruelmente irônica que o filme de Niccol coloca ante seu personagem principal é que, no fim das contas, o meio em que vive, e no qual tanto fez por se inserir, terminou se tornando o inferno que tragou toda sua vida pessoal, e do qual já não há mais oportunidades de escapatória.

É claro que falta nele o manejo habilidoso que faz de Martin Scorsese um mestre (pois, se fosse fácil fazer, qualquer um faria...), mas Andrew Niccol não deixa de entregar um espetáculo cheio de credibilidade e astúcia, um produto de entretenimento que tem a sublime intenção de levar alguma fagulha de consciência ao expectador, mesmo que o faça focando num protagonista que não possui nenhuma.

segunda-feira, 16 de março de 2020

Ad Astra - Rumo Às Estrelas

Personagens no limiar de suas aspirações, num constante conflito entre o que sentem ser e o que o mundo à sua volta espera que sejam, num vão esforço para encontrar a si próprios. Este parece ser o mote de todos os trabalhos capitaneados pelo diretor James Gray, um raro esteta e autor a fincar uma obra de personalidade irrestritamente intimista no cinema cada vez dominado por pirotecnia dos dias atuais.
No processo de rever sua filosofia, o filme de Gray se deixa assombrar por uma infinidade de clássicos da ficção científica que o precederam. Num trabalho que muito remete à sua composição introspectiva de “Árvore da Vida”, Brad Pitt vive Roy McBride, astronauta enviado às estrelas por uma razão um tanto quanto pessoal: Décadas atrás, seu pai, Clifford (Tommy Lee Jones), também ele astronauta, foi enviado ao espaço no sigiloso Projeto Lima e, após seu paradeiro em Saturno, nunca mais voltou.
Entretanto, descargas de antimatéria originadas exatamente de Saturno –e que ameaçam de forma contundente a vida na Terra –começam a vir de onde supõem-se o Projeto Lima se perdeu. As autoridades confiam na ligação afetiva de Roy com seu pai para que ele lhe envie uma mensagem. Assim, da Terra, ele precisa ir à Lua –uma colônia povoada de diversas nacionalidades, sujeita até mesmo a atos de pirataria –e de lá para Marte, último posto avançado humano no espaço, de onde sua mensagem pode ser enviada.
Durante a lenta e atenta jornada de seu protagonista não escapa ao diretor as nuances humanas,  intelectuais e políticas que o gênero de ficção científica tão bem soube trabalhar em seus exemplares mais formidáveis (sendo “2001” e “Solaris” as referências primordiais de James Gray, além do evidente aparato técnico e visual tirado das experimentações de Cuarón em “Gravidade”), contudo, “Ad Astra” é, em seu cerne, a tentativa de resgate e de compreensão de uma problemática relação de pai e filho.
Nesse sentido, no suspense algo existencial do encontro do protagonista com a assombração de sua figura paterna, onde se pavimenta com elaborada dramaturgia todo o caminho percorrido até  tal encontro, o filme faz lembrar uma espécie de “Apocalypse Now” no espaço, inclusive com a narração de Brad Pitt se parecendo muitas vezes com os devaneios em off de Martin Sheen na sua tensa expectativa em ver-se frente a frente com o Coronel Kurtz.
O reencontro com o pai é, para Roy, a senha para rever e reavaliar todas as suas frustradas tentativas de relacionamento humano, esboçadas na totalidade de sua inadequação na relação tortuosa com a esposa (Liv Tyler), e um meio de enfim deixar de lado um luto que sempre o acompanhou na vida adulta e que, em última instância, o define –e a presença de Tommy Lee Jones nesse personagem tão falado, mas do qual temos poucos vislumbres de fato, permite à produção executar uma manobra curiosa: O tempo todo são mostradas fotos de Jones bem mais jovem usando trajes espaciais. Essas fotos são, na realidade, extraídas do filme “Os Cowboys do Espaço”, dirigido nos anos 1990 por Clint Eastwood –no elenco daquele filme, e novamente neste daqui, também está outro veterano, o ótimo Donald Sutherland.
Como toda ficção científica adulta e levada a sério que se presta –um artigo raríssimo no cinema mainstream de hoje –o filme de James Gray se lança em discussões metafísicas que passeiam pela solidão existencial da raça humana num universo vasto e silencioso às suas dúvidas, pela loucura que pode acometer o indivíduo diante de fatores tão gigantes ante sua insignificância, e pela relação que tudo isso parece ter, no final das contas, com nós mesmos, nossa própria índole, e com o modo como nos relacionamos uns com os outros.
Na improvável escolha de um conto denso e filosófico de ficção científica no lugar dos dramas urbanos e comiserativos que fez até então, James Gray perpetra um pequeno e notável paradoxo: Um olhar para cima, em direção às estrelas, que termina voltando sua conclusão para nossa própria aflição interior. 

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A Legião Perdida


Diretor dotado de personalidade e orientação próprias, passa longe da intenção de Kevin MacDonald (de “O Último Rei da Escócia”), ao revisitar a lenda da Nona Legião de Roma desaparecida, reprisar o épico de Ridley Scott, “Gladiador” –muito de sua estrutura e estilo, inclusive, foge dessa comparação.
A Nona Legião de Roma foi uma das muitas que fizeram incursões pelo norte inexplorado da Bretanha, quando o Império Romano buscava arduamente estender ao máximo seus domínios. Foi, entretanto, a única que não regressou: Diante de seu misterioso desaparecimento, o Imperador Adriano decretou a construção de uma grande muralha que determinava os limites do mundo conhecido –para além de suas fortificações, ficavam as terras ermas das selvagens tribos bretãs, certamente responsáveis pelo desaparecimento de tantos soldados.
A trama do filme de MacDonald –na única similaridade maior com o filme de Scott –pega emprestada a história real para dela fazer o eixo que impulsa seu enredo fictício.
Channing Tatum é, assim, Marcus Flavius Aquila, oficial romano designado para um dos entrepostos na Muralha de Adriano e filho do capitão da lendária Nona Legião.
Passados vinte anos do ocorrido, Marcus deseja, acima de tudo, restaurar a honra do nome da família; desde então, as especulações até cogitam a possibilidade de seu pai ter entregue o estandarte da águia, o símbolo da honra de Roma, para os inimigos.
Servindo como oficial, Marcus demonstra grande bravura, liderando suas tropas contra selvagens ofensivas dos nativos –e numa batalha é severamente ferido.
Enviado duzentas léguas ao sul, na mansão de um tio (Donald Sutherland), Marcus conhece o escravo Esca (o sempre ótimo Jamie Bell) quando este demonstra nobreza incomum numa arena –tão incomum que Marcus salva sua vida, o que deixa Esca em eterna dívida para com ele.
Quando surge um vago indício de que o estandarte de uma águia romana (certamente o do Nona Legião), foi tomado por uma tribo nortista de bretões, Marcus toma a decisão de seguir com Esca para além da Muralha de Adriano, e encontra-la, a fim de restaurar em definitivo a honra de seu pai e de sua família.
Mal sabe Marcus, porém, que sua jornada será ainda mais dolorosa e difícil do que ele poderia imaginar: Para além daquela fronteira, no inóspito mundo desconhecido, os conceitos de mestre e escravo que vinculam Marcus e Esca nada significam –mais, podem encontrar circunstâncias que até os inverterão! –e a sobrevivência de ambos, em meio à tribos cuja hostilidade está à flor da pele, pode depender de uma lealdade que eles não necessariamente serão capazes de manter um pelo outro.
Mais do que enfatizar a coreografia das batalhas –embora ele até dê uma colher de chá com alguns conflitos bem executados –o diretor MacDonald prefere se esbaldar com o suspense intenso inerente ao fato de seus protagonistas se lançarem numa missão insana nos confins distantes de um mundo selvagem, com o registro naturalista e autêntico (característico de um documentarista) de uma região onde a natureza se revela rica em texturas, humidade e perigos, e com a dinâmica fascinante entre Marcus e Esca, na qual a tensão se faz presente pelos ressentimentos representados pelos povos antagônicos a que eles pertencem, e pela constante mudança hierárquica que sua atribulada jornada promove entre os dois.
Curiosamente, num acaso que costuma assombrar algumas produções hollywoodianas, “A Legião Perdida” foi lançada no mesmo ano, 2011, que um outro filme, também ele girando em torno do mito da Nona Legião, o bem mais modesto “Centurião”, com Michael Fassbender.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Gente Como A Gente

Naturalmente, quando optou por aventurar-se atrás das câmeras, o veterano ator Robert Redford (dono de uma ampla carreira onde se destacavam parcerias com o diretor Sidney Pollack, como “Mais Forte Que A Vingança”, “Nosso Amor de Ontem” ou “Um Homem Fora de Série”) o fez com um projeto que salientava aquilo do qual ele presumivelmente mais entendia: O campo da interpretação.
O melodrama “Gente Como A Gente” dedica o olhar de sua câmera à observação cautelosa e atenciosa dos meandros e detalhes profundos acerca de sentimentos de ordem peculiar que surgem inesperadamente em seus personagens a partir da imprevisibilidade do luto, e nisso o trabalho em conjunto da direção de Redford e do roteiro de Alvin Sargent é de um equilíbrio admirável.
É uma atmosfera de vazio e desalento a que cerca a Família Jarret.
Um de seus dois filhos morreu num acidente de barco e esse episódio traumático marca particularmente o dia-a-dia do caçula Conrad (Timothy Hutton, um dos mais jovens vencedores do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante da história).
A direção de Redford trabalha muito com dores reprimidas –e nisso, ele se percebe hábil –deixando claro que será este o caminho adotado para a narrativa: Logo, Conrad vai se tratar com um psiquiatra (Judd Hirsch, espirituoso) e suas sessões pontuam a trama enquanto nos é mostrado seu cotidiano na escola e em casa, onde sua vulnerabilidade oscila entre a dolorosa indiferença da mãe (Mary Tyler Moore, assumindo corajosamente uma personagem definida pela apatia) e a amável atenção do pai (Donald Sutherland, sempre sensacional).
Talvez a grande surpresa proporcionada pelo filme fosse mesmo o fato dele, em sua simplicidade, ter conquistado o Oscar de Melhor Filme e de Melhor Diretor num ano que tinha como candidato um trabalho fenomenal como “Touro Indomável”, de Martin Scorsese.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

JFK - A Pergunta Que Não Quer Calar

A década de 1960 não foi somente um período marcante de mudanças e transformações para os EUA e o mundo; foi também uma época a qual aparentemente, o diretor Oliver Stone custou a conseguir deixar de lado. A maior parte dos grandes títulos de sua filmografia, ao menos durante as suas duas primeiras décadas de atividade como cineasta, se dedicam a falar sobre episódios essenciais desse trecho da história americana.
Se a Guerra do Vietnam é uma parte indissociável do contexto de “Platoon” e “Nascido em 4 de Julho”, em “JFK”, ele lança seu olhar parcial, paranóico e imbuído de uma tendenciosa maestria cinematográfica sobre os percalços e conseqüências do assassinato do então presidente americano John F. Kennedy, cometido –acredita-se –pelo atirador Lee Oswald (aqui interpretado com peculiaridade por Gary Oldman). A base para esse olhar, Stone encontra na teoria controversa do promotor Jim Garrison –personificado com segundas intenções da parte de seu diretor pelo astro Kevin Costner: Na época, devido à sua participação no aclamado épico “Dança Com Lobos” e em outros sucessos de bilheteria como “Robin Hood-O Príncipe dos Ladrões”, Costner era enxergado como uma espécie de herói americano, o tipo de intérprete escolhido a dedo para se colocar num personagem do qual o diretor não deseja que a platéia duvide.
Desde a utilização brilhante do famoso e vídeo amador de Zapruder –uma prática habitual no cinema de Oliver Stone –ao emprego de uma riqueza documental e informativa incomum para qualquer superprodução (por tais valores, “JFK” levou os Oscars de Melhor Fotografia e Montagem) e o uso pontual de participações notáveis de um elenco diverso e estelar, todas as exuberantes facetas deste filme são administradas por seu diretor na imposição demagógica de sua própria ideologia e ponto de vista –provavelmente a grande ressalva em toda a filmografia fascinante de Stone.
Garrison acreditava numa possibilidade bem diferente daquela ventilada pela imprensa. Para ele, Oswald era um mero bode expiatório para toda uma conspiração que envolvia inúmeros interessados em dar cabo de Kennedy –e para tanto, um de seus argumentos é de que a sucessão de tiros obtida unicamente por Oswald naquele atentado seria humanamente impossível para um atirador sozinho executar.
A partir daí, subjetivada nas investigações de Garrison, a narrativa de Stone desfralda uma conspiração que ganha ares assombrosos e aterradores ao longo das três horas de duração do filme.
E Stone o faz com uma mescla assombrosa de tensão e intensidade, deixando entrever, apenas em alguns rápidos momentos de seu último terço a pecaminosa tendência do diretor em alterar obviedades históricas apenas para salientar seu próprio ponto de vista.
Um grande filme de um diretor tendencioso que soube empregar como poucos as ferramentas do cinema com perversa astúcia.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Cold Mountain

Talvez o maior problema deste trabalho do habilidoso Anthony Minghella (vencedor do Oscar de Melhor Filme e Melhor Diretor por "O Paciente Inglês") seja o aspecto evidente de fórmula elaborada para vencer o Oscar com a qual o produtor Harvey Weinstein constrói muitas das obras sob sua supervisão. Nesse sentido, há uma névoa de superficialidade incômoda a pairar sobre a trama de "Cold Mountain" que, a partir do livro de Charles Frazier, transpõe a saga de Ulisses, "A Odisséia", para o contexto norte-americano da Guerra de Secessão –num recurso que lembra a iniciativa dos Irmãos Coen em “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, mas com resutados completamente diferentes, quase opostos.
O jovem apaixonado Inman Balis (Jude Law, revelado por Minghella em “O Talentoso Ripley”, reeditando a colaboração com bons resultados) vai cumprir seu dever defendendo o Sul do país nas trincheiras contra o Norte, enquanto deixa Ada Monroe (Nicole Kidman, no auge da beleza), a mulher que ama, o esperando. Ele sobrevive a uma sangrenta batalha em campo aberto, e decide voltar para ela, fugindo como desertor.
Sua viagem de volta é longa e penosa, enfrentando diversas adversidades e personagens inusitados que vão surgindo em seu caminho –e que resultam num desfile de nomes ilustres escolhidos a dedo para as participações especiais, incluindo Natalie Portman, Phillip Seymour Hoffman, Charlie Hunnam, Jack White, Giovanni Ribisi, Ray Winstone, Brendan Gleeson, Cilliam Murphy e muitos outros. Além da personagem rouba-cenas de Renée Zellwegger, um dos poucos quesitos genuinamente interessantes do filme (ela venceu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2004).
O diretor Minghella, talvez empolgado pelo elitismo do material, carrega nos elementos trágicos e dramáticos da história, o que faz dele um espetáculo demasiado difícil para espectadores que esperam mero entretenimento.

domingo, 3 de setembro de 2017

Cidadão X

Telefilme obscuro da Era do VHS, esta produção se baseia na história real de Andrei Chinkatilo, serial killer conhecido como ‘o monstro de Rostov’, que inspirou também os filmes “Evilenko”, de 2004 (debruçado a elaborar um retrato bastante errôneo do comportamento homicida, interpretado de forma histriônica por Malcom McDowell) e “Crimes Ocultos”, de 2015 (cuja premissa visava jogar ainda mais luz sobre a reticência das autoridades soviéticas em assumir um serial killer, numa postura nitidamente crítica).
Dentre todos, este é o que reúne mais qualidades.
Em meados dos anos 1980, na União Soviética, o então legista forense Viktor Burakov (Stephen Rea, em desempenho controlado e contido) acaba sendo o primeiro a identificar um padrão de diversos cadáveres vitimados nas redondezas da cidade de Rostov. Os indícios apontam para atrocidades perpetradas por um único homem, um serial killer.
Burakov se torna chefe de um departamento voltado a essas investigações e já de começo encontra obstáculos na má vontade de seus operativos e na inépcia e arrogância de seus superiores que insistem em encobrir a verdade a fim de perpetuar a fachada harmônica do sistema soviético. Seu único aliado e, com o passar do tempo, amigo, é o Coronel Fetisov (Donald Sutherland, carismático) que o instrui, ao longo dos anos, no difícil jogo de cintura exigido para se extrair recursos do governo soviético de então, e obter assim uma esperança de capturar o assassino.
Paralelamente, o filme oferece breves vislumbres da rotina de Chinkatilo (uma atuação minimalista, imersa em trejeitos de Jeffrey DeMunn), e assim, um retrato pavorosamente humano e desconcertante de um psicopata num trabalho que só viria a ganhar abordagem similar em obras seminais que vieram depois como “Seven-Os Sete Crimes Capitais”.
O terço final do filme ainda brinda o expectador com a presença de Max Von Sydow no breve, porém, fundamental papel do psiquiatra que extraiu de Chinkatilo a sua confissão.
Comparado com obras mais recentes, “Cidadão X” é cinema sem pressa de moldar sua narrativa, e por isso mesmo, extremamente bem sucedido na tarefa de provocar uma impressão alarmante no público. No sentido da denúncia que faz da irregularidade dos procedimentos policiais, por sua vez, o filme dirigido por Chris Gerolmo lembra o genial sul-coreano “Memórias de Um Assassino”, bem como na sensação aflitiva de impotência experimentada pelos protagonistas e, graças às primorosas interpretações, passada com facilidade para o expectador.

sábado, 11 de março de 2017

Pergunte Ao Pó

Essencialmente falho, como costuma ocorrer à adaptações de obras literárias imprescindíveis, este projeto foi um sonho cultivado durante muito tempo pelo lendário roteirista Robert Towne (de “Chinatown”) que o viu realizado graças ao seu grande amigo e astro Tom Cruise que produziu e financiou esta sua incursão na direção.
É a Los Angeles dos anos 1930. O cronista Arturo Bandini (o dedicado Colin Farrell) instala-se num hotel de quinta categoria onde seu plano é ficar recluso a fim de produzir as obras que almeja. Assolado por dúvidas, questionamentos, humores variados e os fantasmas da criação de sempre, ele busca respiro na taverna local onde, aos poucos, estabelece uma relação conflituosa com a garçonete mexicana Camila (a tentadora Salma Hayek), que sempre lhe serve de maneira tão implicante quanto relutante.
Outras figuras perdidas e desamparadas marcam ocasional presença na vida de Arturo, como o vizinho de quarto (Donald Sutherland) que toda hora lhe pede dinheiro emprestado e tem sempre uma história insólita para contar, ou a jovem burguesa (Idina Menzel) brutalmente carente que foi rejeitada pelo marido devido às cicatrizes que tem no corpo por causa da caxumba.
Ainda assim, é na relação com Camila que a narrativa se concentra, revelando ser esta, no final das contas, uma história de amor, com todos os encontros e desencontros, e a cuidadosa construção de um complicado relacionamento tecido por emoções dilacerantes a que se tem direito.
É justamente nesse elemento que a direção de Towne revela suas fragilidades: Incapaz de organizar e administrar as facetas ricas da relação na forma como é mostrada no famoso livro de John Fante, o diretor se descobre ineficaz ao expressar o flerte, a melancolia, a graça e a dissimulação que compõem o fascínio da obra literária, por mais que Salma e Farrell sejam atores bastante capazes.

A atmosfera de lasciva decadência acaba se tornando então vazia, e o trabalho de Towne se perde em momentos dispersos, migalhas do grande filme que poderia ter sido.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Inverno de Sangue Em Veneza

Nas mãos de um realizador mais acomodado, a trama de “Inverno de Sangue Em Veneza” em sua simplicidade quase brutal, não renderia mais que um curta-metragem. Isso porque seu roteiro captura praticamente a essência de um conto de terror: Aquele momento em que a banalidade dos dias que se seguem é corrompida por um instante do mais absoluto pavor, comprometendo assim, tudo o que faremos depois.
Nas mãos de alguém como Nicolas Roeg, essa premissa serve –como em todos os títulos de sua desigual filmografia, mas sobretudo os primeiros –para uma sondagem até indiscreta das modificações que as escolhas do ser humano infligem em seu bem-estar, e o dos outros à sua volta.
A beleza plástica de Veneza (tão mais bela quando capturada pelas imagens gélidas, oníricas e sugestivas obtidas por Roeg que, vale lembrar, era diretor de fotografia) parece ser o lugar perfeito para John (Donald Sutherland) e Laura Baxter (Julie Christie, belíssima numa audaciosa cena de nudez e sexo com Sutherland) encontrarem um momento de alívio após o luto opressor pela morte acidental da filha. Indícios sinistros, contudo, não deixarão que a passagem do casal pela cidade seja tranqüila.
Na visão sempre desigual de Roeg (e que ele levou a vários outros projetos nos quais passeou pelos mais variados gêneros) os detalhes corriqueiros do dia a dia conjugam um cenário rico em que o horror pode instalar-se e ocultar-se, espreitando a vida de pessoas normais com a perene ameaça de uma tragédia em curso. Esse clima absolutamente impecável do qual a direção se vale responde pela grande razão desta obra constar entre os grandes filmes de terror já produzidos. OK, há outra razão: O susto, repentino e genuíno, que ele prega no expectador na cena fatídica do encontro com o suposto “fantasma” da garotinha.
Como em seus outros filmes também, há em Roeg uma necessidade patológica e filosófica em remover o sentido da jornada de seu protagonista, arremessando suas certezas e esperanças contra as ironias maldosas do mundo real.

Aqui, esta postura é, por demais, amedrontadora!

domingo, 22 de novembro de 2015

Jogos Vorazes - A Esperança Parte Final

E então chegou a hora. Chegou da hora de descobrir qual será o desenlace da guerra que irá transformar Panem para sempre.
Chegou a hora de sabermos para qual lado penderá o coração de Katniss: se para o lado de Peeta, o garoto com quem ela sobreviveu aos Jogos Vorazes no primeiro filme, e ao Massacre Quaternário, no segundo, e que no terceiro viu ser transformado numa arma para matá-la; ou se para o lado de Gale, o seu melhor amigo, com quem ela aprendeu a caçar para alimentar a mãe e a irmã, e que era a única pessoa em quem ela confiava, pelo menos, até ser levada para os Jogos, e tudo então se transformar.
Chegou, afinal, a hora de acompanharmos esses personagens, e cada um de seus percalços nos últimos passos de sua trajetória.
Tantas são as tramas, tantas são as emoções herdadas de todos os filmes anteriores, que é quase impossível este aqui não ter uma atmosfera toda especial, e o diretor Francis Lawrence parece ter completa consciência disso: Cada enquadramento, cada cena é um esforço de pura minúcia em fazer desta uma obra condizente com sua fonte literária: Os livros escritos por Suzanne Collins, relatando a saga da menina Katniss Everdeen, com emoções vivazes, uma conscientização inédita de seu público em relação às mazelas do mundo ao seu redor, e uma dedicação rigorosa ao critério da necessidade: Tudo, absolutamente tudo está ali a serviço da história, e Suzanne Collins não tem dó de sacrificar seus personagens (mesmo os mais queridos), nem as emoções do público, em nome desse princípio.
Nos vinte minutos finais, o filme parece nos lembrar (em pequenos e preciosos detalhes) que “Jogos Vorazes” está chegando ao seu fim: Não mais veremos Katniss outra vez (e na interpretação cheia de força e de vida de Jennifer Lawrence, essa constatação ganha ainda mais tristeza); não mais veremos Josh Hutcherson interpretar Peeta Melark (e, talvez, por perceber isso, aqui, o ator finalmente dá ao personagem toda a energia que ele merecia). Este filme, é portanto, a despedida de todos eles. Gale Hawthorne, Effie Trinket, Haymitch, Prim, Finnick. Todos aqueles cujos destinos acompanhamos no coração dessa revolução.
A câmera de Francis Lawrence enlaça seus personagens, num ritmo todo particular, como se o diretor fosse incapaz de deixá-los partir para sempre.
Ao fim, após tantas cenas poderosamente tensas, de perigos desconcertantes, e sensações atrozes, ele escolhe encerrar seu filme em família, lembrando-nos aquilo que é mais precioso.

Não poderia ser melhor.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Jogos Vorazes - A Esperança Parte 1

Os Jogos Vorazes ficaram para trás. Katniss Everdeen sobreviveu à brutal arena do filme anterior às custas de sua quase morte. Retomando de onde a história foi interrompida, o filme mostra as repercussões do ataque da Capital sofridas sobretudo no Distrito 12. 
Panem agora está em guerra. De um lado, estão os rebeldes, liderados pela presidente Coin do até então extinto Distrito 13, que têm em Katniss, o seu grande símbolo. Do outro, a Capital, controlada pela mão de ferro do presidente Snow, que irá valer-se do precioso prisioneiro Peeta, para tentar desacreditar a rebelião e desestabilizar Katniss. Mas ela precisa assumir seu papel no confronto, caso contrário o futuro de todos aqueles que ama pode acabar condenado. 
Terceira parte da famosa saga juvenil, já preparando o terreno para seu grande desfecho. 
O roteiro de Danny Strong apresenta maturidade e austeridade notáveis para um filme de apelo jovem, e o artifício de repartir o último livro em dois filmes (a exemplo de “Harry Potter” e “Crepúsculo”) deu autonomia para trabalhar de forma detalhista cada meandro da trama, sem pressa nem omissões. O resultado é dos mais interessantes. 
Nesse sentido, o bom trabalho do diretor Francis Lawrence (que mostrou-se excelente no filme anterior) consegue finalmente ir além do livro, dando realce narrativo, puramente cinematográfico, à cenas que poderiam ser banais ou sub-aproveitadas: E o exemplo mais perfeito talvez seja a arrepiante cena em que a música “A Árvore-Forca” é cantada. 
Neste terceiro e vigoroso episódio, a série enfim engloba elementos que vinha ensaiando desde seu início, com certa timidez. Mas agora, as sequências podem emular cenas que vão de influências tão distintas e viscerais quanto “Falcão Negro Em Perigo” (as cenas de batalha são de um requinte criterioso) à “1984 de Orwell” (a opressão do estado, e  poder da mídia da manutenção dessa mesma ordem), o quê é um feito e tanto quando lembramos que esta é, em princípio e em essência, uma saga para jovens. 
E a atriz Jennifer Lawrence continua surpreendendo com seu imenso talento.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Jogos Vorazes - Em Chamas

Seis meses após ter vencido os Jogos Vorazes, Katniss Everdeen tem um novo desafio pela frente: encarar o "tour da vitória" que a levará pelos distritos de Panem, e durante o qual ela terá de encenar o romance fictício que tinha iniciado em plena arena com o jovem Peeta para que saissem vivos. Para o maquiavélico Presidente Snow tal encenação é fundamental: a própria Katniss é um símbolo vivo da iminente revolução que se desenha em Panem, e provar, em frente às câmeras que ela é subserviente à Capital, tornou-se uma necessidade urgente. Caso contrário, ele precisará livrar-se dela, valendo-se do vindouro Massacre Quaternário. 
A continuação primorosa de “Jogos Vorazes” beneficiou-se, e muito, da troca de diretores: Saiu o realizador do primeiro filme, o razoável Gary Ross, e entrou Francis Lawrence, de filmes como “Eu Sou A Lenda”, “Constantine” e “Água Para Elefantes”. Apesar de seu currículo ainda modesto, bastante inclinado para filmes comerciais pouco memoráveis, ele trouxe uma noção de ritmo mais apurada para a saga, tendo a sensatez de reproduzir a identidade visual que Ross imprimiu ao primeiro filme, deixando claro que são, a rigor, um só filme dividido em capítulos, e acrescentou um acabamento visual mais elaborado, ressaltando tudo o quê funcionou no primeiro (muita coisa) e deixando de lado aquilo que não deu certo (pouquíssimas coisas). 
A reunião de talentos para trabalhar no roteiro também foi particularmente feliz neste episódio: Os produtores chamaram dos roteiristas prestigiados e oscarizados: Simon Beaufoy (de “Quem Quer Ser Um Milionário?”), e Michael Abndt (de “Pequena Miss Sunshine”, usando aqui o pseudônimo de Michael DeBruyn). E eles souberam capturar magnificamente as importâncias de determinados momentos da narrativa, enfatizá-las e dispô-las ao longo do filme, dando um andamento primoroso (o mais bem acertado da saga até agora), o que pode ser visto como um milagre em se tratando do fato de que este é o capítulo do meio, ou seja, sem um prólogo e sem um desfecho. 
Todo esse esforço serviu para moldar um dos melhores filmes adolescentes dos últimos anos, uma saga juvenil com pinceladas de inteligência política abrilhantada pela magnífica presença da estrela Jennifer Lawrence.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Jogos Vorazes

Quero fazer uma recapitulação dessa saga, agora que a quarta e última parte se aproxima de sua estréia nos cinemas. 
Gosto muito da saga, não apenas porque sou fascinado pela trama dos livros, ou porque ela é bem-feita de fato, mas também porque a série onde conhecemos a personagem de Katniss Everdeen é onde o mundo descobriu também sua intérprete, a pra lá de fantástica Jennifer Lawrence (por mais que ela tivesse uma indicação ao Oscar pelo anterior “Inverno da Alma”). 
No futuro, Panem é a nação que outrora foi a América do Norte. Agora controlada pela Capital e dividida em doze distritos pobres, Panem é palco de um reality show mortal: os Jogos Vorazes. Cada ano, os doze distritos devem sortear um casal de adolescentes a serem enviados numa arena artificial a céu aberto onde devem lutar até que sobre só um, assistidos por todo o país. Em meio a essa opressão, a jovem Katniss Everdeen, de 16 anos, se oferece para tomar o lugar de sua irmã menor quando esta é sorteada. Katniss tem a seu favor o fato de saber manusear arco e flecha –forma com a qual provia sua família após a morte de seu pai –e a titubeante aliança do garoto Peeta. Contra ela, porém, estão todos os outros jovens competidores, que não irão hesitar em matar uns aos outros. 
Lembro até hoje do quanto fiquei fascinado com essa premissa muito antes de sair o filme: Quando ela ainda era somente o livro escrito por Suzanne Collins. Enérgico, brutal e sentimental, “Jogos Vorazes” era um sopro de ar fresco em meio às histórias tão batidas saídas de sagas infanto-juvenis: A melhor delas, “Harry Potter” já tinha se encerrado após sete livros (e oito filmes), e todos os que possuíam bom gosto ainda eram assombrados por um certo “Crepúsculo”. 
A promessa de “Jogos Vorazes” portanto era algo até meio inédito: Uma saga juvenil, mas com elementos políticos e distópicos, interessante e pertinente o suficiente para interessar a adultos também. 
Pena que o filme, quando por fim foi lançado, revelou-se mais fraco do que se supunha; algo normal em se tratando de adaptações literárias. 
A verdade era que o diretor, Gary Ross, embora não tenha feito um trabalho ruim, foi negligente com muitos dos elementos fundamentais do livro: Ele reduziu (para não dizer, removeu completamente!) a história de Peeta e do pão, o que deixou sem embasamento muito das motivações do personagem e até mesmo da própria Katniss. Alterou (ou amenizou) o comportamento de muitos personagens, como Haymitch e Effie, e no lugar disso, acrescentou coisas desnecessárias, como várias cenas mostrando a atuação de Seneca Crane, como idealizador dos Jogos. Essa idéia podia até ter rendido mais, mostrando desdobramentos da trama que a narrativa em primeira pessoa do livro não podia mostrar, mas do modo como foi feito, todas essas cenas ficaram simplesmente redundantes. 
Por sorte, haviam muitas coisas boas: O elenco, de modo geral, é fantástico (o quê dizer da interpretação de Jennifer Lawrence, na medida certa para viver Katniss!), o desenho de produção é deslumbrante nos mais diferentes aspectos e o filme conservou força suficiente da história do livro. 
E as coisas estavam prestes a melhorar (e muito) no segundo filme.

domingo, 18 de outubro de 2015

Orgulho e Preconceito

No século XIX, as moças da Família Bennet, como toda moça da sociedade inglesa, estão a procura de um bom casamento, e ninguém está mais dedicado a isso que sua mãe, a Sra. Bennet. Entretanto, mais velha delas, Elizabeth (Keira Knightley, adorável), está consciente de que seu temperamento e sua personalidade dificilmente permitirão que se case.
Por isso talvez, Elizabeth é a única que não se empolga com a chegada de um ricaço, e de seu igualmente rico amigo Sr. Darcy (Matthew MacFadyen, de uma excelência à toda prova). 
Inicialmente agressivo, o relacionamento entre os dois se define por uma irreprimível vontade de implicar com o outro, mas aos poucos novos e reais sentimentos vão se revelando. 
Charmosa e graciosa adaptação de Jane Austen, ótimo trabalho do diretor Joe Wright que, com inventividade e descontração, fala muito bem às plateias de hoje, qualidades refletidas na boa atuação da bela Keira Knightley.