Mostrando postagens com marcador Sam Claffin. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sam Claffin. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 28 de junho de 2022

Noite Passada Em Soho


 No fim das contas, está aberto a questionamentos se “Noite Passada Em Soho” é de fato o filme de viagem no tempo que inicialmente ele sugere ser, mas certamente, esse retorno ao passado faz parte integral dos planos do diretor Edgar Wright: Ele evoca uma série de vertentes, inspirações e influências diretamente relacionadas aos anos 1960 que, com tanto entusiasmo, se propõe a revisitar. Há, por exemplo, o retrato da ‘Swinging London’ presente no icônico “Blow Up”, de Antonioni, o tom e atmosfera muito reconhecíveis do giallo italiano, sobretudo, nos momentos em que a obra atinge seu clímax e diz a que veio, e pelo menos uma cena que remete imediatamente à “Repulsa Ao Sexo”, de Polanski (lançado em 1965), também ele trazendo uma protagonista assombrada pela indefinição entre o alucinatório e o real.

A ótima Thomasin McKensie –a garota de “Jojo Rabbit” –é Eloise Turner, jovem inglesa vinda de Cornwall, no interior, para tentar estudar moda em Londres e ser uma estilista. Como bem sua avó (Rita Tushingham) lhe advertiu, o lado negro de Londres não demora ameaçar tragá-la tão logo ela chega: Sua colega de quarto, a invejosa Jocasta (Synnove Kalsen), lhe inferniza a vida a ponto dela sair da república e ir morar numa pensão. Todavia, nesse ponto, o filme de Edgar Wright começa a flertar abertamente com o fantástico: Imersa nas músicas antigas, gosto herdado da avó, Eloise se transporta, toda a noite, para um momento da década de 1960, quando passa a viver na pele de uma jovem, Sandie (a extraordinária Anya Taylor-Joy) que, como ela, foi para Londres a fim de vencer como cantora, mas amargou decepção atrás de decepção, até ser engolida pela sordidez da realidade.

Se em princípio, Wright expõe um mistério ao expectador –seriam as visões noturnas uma viagem no tempo da parte de Eloise? Ou um reflexo de seus dons mediúnicos sugeridos desde o início da narrativa? –ele logo substitui essa dúvida por outra: Afinal, quais os desdobramentos trágicos do que terminou acontecendo com Sandie? E como Eloise obterá as respostas no presente atual, tantas décadas depois que tudo ocorreu?

Diretor talentoso, desigual e dono de um estilo visual peculiar e arrojado, Edgar Wright sabe empregar maneirismos sedutores para contar uma história, e aqui, além de tornar a mostrar seu apreço palpitante pela música em conjugação com as belas imagens (como já havia feito em “Baby Driver”), ele tem também uma dupla fantástica de atrizes principais. Entretanto, embora seu roteiro seja construído com detalhismo, perspicácia e uma certa paixão, ele não escapa da evidência desfavorável de que, no charme inconteste empregado na direção, a forma é muito mais bem acabada que seu conteúdo –ainda que faça um suspense belíssimo em seu anacronismo, pulsante em sua proposta e vistoso em sua estética, a trama de mistério que vai se descortinando revela-se seu grande calcanhar de Aquíles, uma vez que, no fim das contas, nada realmente de inovador, ou até surpreendente, termina sendo contado.

“Noite Passada Em Soho” descobre-se incapaz de escapar da seara de realizações onde o mundo de imagens estarrecedoras que pareciam levar a heroína rumo à insanidade acabam levando-a, de fato, à solução de um crime antes insolúvel, não sem antes explorar a máxima de que nada é, deveras, aquilo que parece ser.

Poderia ser –e de fato, talvez, até seja –uma produção acima da média, no entanto, quando contemplamos a sensacional filmografia de seu realizador logo notamos que “Noite Passada Em Soho” atinge notas que poderiam alcançar um nível de inspiração muito mais elevado.

terça-feira, 14 de julho de 2020

As Panteras

Em seu formato originário de série de TV, “As Panteras” seguia –até por imposições orçamentárias –uma linha mais detetivesca e investigativa. Quando foi vertido para o cinema no ano 2000, estrelado por Cameron Diaz, Drew Barrymore e Lucy Liu e dirigido por McG, “As Panteras” adquiriu escopo mais extravagante e assimilou uma miríade de referências cinematográficas de sua época (algumas pouco apropriadas ao seu próprio material) como lutas de kung-fu ao estilo “Matrix” (!) e todo o arsenal visual e estilístico de seu um tanto histriônico diretor. Ainda assim, seu sucesso rendeu uma continuação em 2003.
Já passados quase vinte anos daquele esforço inicial, “As Panteras” voltam a dar as caras no cinema, desta vez dirigidas pela também atriz Elizabeth Banks que aproveitou a oportunidade para agregar novas atitudes comportamentais à nova obra, relativas, como não poderia deixar de ser, ao contundente movimento de empoderamento feminino, a exemplo do recente “Aves de Rapina”.
As novas Panteras são ainda mais audaciosas, independentes e auto-suficientes em relação aos homens do que suas antecessoras, e caso não tenha ficado bem claro, isso já é explicitado no diálogo da cena inicial –ambientada no Rio de Janeiro, olhe só! –entre a personagem de Kristen Stewart e um alvo qualquer.
Kristen Stewart, por sinal, é uma das boas surpresas do filme: Enérgica, eufórica e incontrolável, sua personagem, Sabina, não lembra em nada a caracterização sorumbática que ela dá à protagonista Bella, de “Crepúsculo”.
Junto dela, está também a eficiente agente de campo Jane, vivida pela deslumbrante Ella Balinska.
Completando o trio principal, está Elena, interpretada pela maravilhosa Naomi Scott, conhecida da diretora Banks desde que trabalharam juntas no set de “Power Rangers”. Naomi, ou melhor, Elena é o que se pode chamar de protagonista do filme: A narrativa adota sua ótica subjetiva para, na maior parte do tempo, mostrá-la adentrando e descobrindo esse novo mundo. Elena é uma das brilhantes programadoras que trabalha na empresa milionária de seu patrão, o Sr. Brok (Sam Claffin, que trabalhou com a diretora Banks no set de “Jogos Vorazes-Em Chamas”). Inteligente, Elena descobre um pequeno problema colateral na nova e revolucionária tecnologia que Brok irá revelar ao mundo: Ao mesmo tempo em que é um programa capaz de operar em qualquer mainframe, é também capaz de gerar um poderoso pulso eletro-magnético tão forte que pode matar vidas humanas.
Inicialmente, ela tenta alertar seus superiores sobre isso –e é reprimida naquele tipo e encenação padrão que gosta de sublinhar a avareza e a insensatez masculina.
Depois, de posse de um cartão da Agência Towsend (que representa as Panteras), Elena contata os famosos investigadores (ou investigadoras) e, nesse processo, descobre que sua vida está em perigo.
Agora, na qualidade de ‘pantera em treinamento’, Elena terá de contar com Sabina e Jane, além da chefe Bosley (a própria diretora Banks, num papel pela primeira vez interpretado por uma mulher), para impedir misteriosos mal-feitores de vender o programa dotado do poder de matar no mercado negro de armas.
Tal e qual foi tentado nos filmes de 2000 e 2003, este novo “As Panteras” assume ares de filme grandioso de ação, e sua trama adquire reflexos condicionados dos thrillers de espionagem pós-modernos, como “Missão Impossível” (também ela uma série televisiva convertida em série cinematográfica) e “007”. Nessa reafirmação convicta de gênero, “As Panteras” apresenta os cacoetes de sempre –locações européias refinadas (começando em Hamburgo, na Alemanha, e daí para frente), cenas de perseguição e tiroteio, bugigangas tecnológicas e sequências de luta empenhadas num rigor físico coreografado –contudo, sai-se muito bem no resultado porque a direção de Elizabeth Banks é mais competente, equilibrada e sensível que a do histérico McG, e porque suas três protagonistas encontram facilidade em fazerem-se maravilhosas: A dinâmica de provocações verbais, camaradagem e rivalidade entre Kristen Stewart e Ella Balinska é um divertimento só, e Naomi Scott está encantadora e sensacional na pele da aprendiz de Pantera, para quem esse mundo novo de espionagem que se descortina à sua frente é quase como um clube restrito e exclusivo ao qual ela teve a sorte de ser convidada.
Um ponto interessante no filme de Elizabeth Banks é que ele reconhece todas as obras relativas às Panteras –desde o seriado dos anos 1970 e 80, até os filmes dos anos 2000 –como sendo parte do mesmo universo: E por isso, há em alguns momentos, referências aos filmes e à série, sobretudo, nas divertidas cenas pós-créditos, que contam entre outras com a participação de uma das panteras originais Jaclyn Smith.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Branca de Neve e O Caçador

É irônico que, perante essa nova e lucrativa tendência dos Estúdios Disney de refazer em filmes com atores suas animações clássicas, tenha sido outro estúdio, a Universal Pictures, quem repaginou em tons realistas o clássico maior da Disney, “Branca de Neve e Os Sete Anões”.
Claro que, por conta disso, “Branca de Neve e O Caçador” tem liberdades poéticas necessárias que afastam o risco de um processo autoral –como o fato de serem oito anões, e não sete (!), além da presença consideravelmente menos importante deles na trama.
Aqui, quem ganha destaque, como o próprio título já trata de esclarecer, é o breve personagem do Caçador (que Chris Hemsworth interpreta com propriedade e carisma) numa manobra narrativa um bocado comum, onde se aventa uma ‘história não contada’ dentro da própria história já muito difundida –e “Branca de Neve” é certamente uma das histórias mais famosas de todos os tempos.
Com uma austeridade narrativa que remete à obras de mitologia mais adulta como “O Senhor dos Anéis”, “Excalibur” ou “O Feitiço de Áquila”, a trama do filme se inicia com a pequena e doce menina Branca de Neve perdendo a mãe e vendo ela ser substituída, não muito depois, pela belíssima Ravena (Charlize Theron, espetacular em todas as facetas da personagem).
Entretanto, Ravena se revela uma feiticeira perigosa e nem um pouco interessada em desposar um rei –ela quer (e, de fato, consegue) é tomar-lhe seu reino, sagrar-se rainha e arremessar todos os súditos num regime tirânico e aterrorizante.
Com seu pai morto, Branca de Neve é convertida em prisioneira, crescendo no alto de uma torre nos anos seguintes –e adquirindo com isso as feições de Kristen Stewart; que não é a boa atriz, nem a linda mulher que é Charlize Theron, mas cujo protagonismo na série “Crepúsculo” lhe garantia estrelato o suficiente para ser aqui a personagem principal.
Se há algo que valoriza “Branca de Neve e O Caçador” é o fato de que, ainda em seus primeiros vinte minutos, já fica evidente a disposição entusiasmada do diretor Rupert Sanders em incorporar um cinema vistoso, assumidamente comercial e visualmente bem acabado para moldar um filme sedutor ainda que amparado numa história batida, e que com frequência não consegue escapar –a despeito de suas intenções de seriedade –das características pueris presentes no conto de fadas: Apesar de tudo, Ravena continua obcecada em manter o título de ‘Mulher Mais Bela’ aos olhos do onisciente Espelho Mágico (cuja personificação visual me lembrou as criaturas dos filmes de Guillermo Del Toro) e, quando Branca de Neve atinge idade o bastante para tomar-lhe tal honraria, a insatisfeita Ravena ordena sua execução.
É quando –em outro momento perigosamente implausível com os quais a trama flerta –Branca de Neve aproveita o ensejo e consegue sozinha fugir do palácio (!), terminando desaparecida na lúgubre e assustadora Floresta Negra.
Indignada com a inépcia de seus soldados, a rainha convoca o único homem capaz de encontrar alguém extraviado por lá, o Caçador.
Beberrão e desesperançado desde que se tornou viúvo (background mais aprofundado na continuação “O Caçador e A Rainha do Gelo”), o Caçador recebe da rainha uma oferta irrecusável: Ela usará seus poderes para ressuscitar sua amada se ele lhe trouxer o coração de Branca de Neve.
No entanto, após encontrar Branca de Neve, o Caçador começa a compreender as razões para a extrema atenção que a ira da rainha dedica a ela: A jovem é a única capaz de tirar Ravena de seu trono e restaurar harmonia ao reino.
Segue-se assim uma aventura episódica onde o diretor leva esse casal central a encontrar os agora oito anões, grupo de personagens que soa mais como alívio cômico do que como um adendo relevante da narrativa, embora entre eles hajam participações ilustres como Bob Hoskins, Eddie Marsan, Ray Winstone, Nick Frost e Ian McShane (todos miniaturizados por computador, como Peter Jackson fez com os hobbits em “O Senhor dos Anéis”).
E também, o providencial ‘príncipe encantado’, na forma do apaixonado amigo de infância William (Sam Claffin, de “Jogos Vorazes-Em Chamas”) cujo exército contribui para a inevitável batalha final, reflexo condicionado do sub-gênero de filmes épicos que o trabalho de Sanders, em seu caráter evocativo, não resistiria.à tentação de incluir.
Há também a clássica passagem da maçã envenenada, seguida do igualmente clássico momento do beijo que faz Branca de Neve despertar –aqui, o trabalho de Sanders também aproveita para inserir uma sutil intenção transgressora ao sugerir que, longe dos olhos de testemunhas, foi o beijo do Caçador, e não o do príncipe quem despertou a protagonista –um prenúncio de triângulo amoroso que talvez estivesse nos planos da vindoura continuação, mas que foi completamente modificado em função da polêmica que envolveu a divulgação do filme: A atriz Kristen Stewart e o diretor Rupert Sanders, ambos comprometidos, foram flagrados juntos por paparazzis, o quê afastou ambos do segundo projeto, “O Caçador e A Rainha do Gelo”.
Contudo, se a continuação, por todas essas razões de afastamento, resultou fraca, aqui obtem-se uma produção fluente, de encher os olhos e satisfatória para os aficcionados de aventuras de espada & magia, num esforço até que válido, mas ocasionalmente banal, para ocultar os traços infantis de conto de fadas da história original.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Piratas do Caribe - Navegando Em Águas Misteriosas

Embora os três primeiros “Piratas do Caribe” –todos eles dirigidos por Gore Verbinski –fossem uma trilogia fechada em termos de temática e narrativa, todos sabiam que era questão de tempo até a franquia ser retomada.
O quê era motivo de preocupação, ao mesmo tempo de que empolgação, era que seria certamente sob uma nova direção: Gore Verbinski, assim como o elenco original em sua quase totalidade, não retornaria. Em seu lugar foi chamado Rob Marshall, uma escolha intrigante –ele havia dirigido o musical vencedor do Oscar, “Chicago”, além dos não tão excelentes “Memórias de Uma Gueixa” e “Nine”.
Talvez fosse uma certa perícia técnica demonstrada por Marshall, além da intenção dos produtores em chamar um realizador que trouxesse um viés de frescor e ineditismo à franquia (de onde quer que venha) que o levou a ser escolhido para este novo “Piratas do Caribe”.
Na verdade, salvo o visual requintado –cortesia do orçamento milionário dos estúdios Disney –o estilo característico capa & espada carregado de humor e aventura, além dos personagens de Johnny Depp (o já emblemático Capitão Jack Sparrow), de Geoffrey Rush (Barbosa, um pouco diferente, por sua vez, da caracterização vista nos outros filmes) e do pirata Gibbs (Kevin McNally) não há muito, nesta produção, que a ligue com os filmes anteriores.
Nela, o pirata Jack Sparrow, uma vez mais destituído de seu posto de capitão pelo traiçoeiro Barbosa (como visto ao fim de "Piratas do Caribe-No Fim do Mundo"), encontra-se agora na Inglaterra, onde cai no meio de vários interesses cruzados; da Espanha; de piratas que se acotovelam nas docas, muitos orientados pelo sinistro Barba Negra (Ian McShane); e de seu velho inimigo Barbosa, agora a serviço da coroa inglesa e com contas a acertar com o próprio Barba Negra.
Todos buscam a localização da fonte da juventude.
Com o objetivo muitas vezes de salvar a própria pele, Sparrow junta-se à tripulação de Barba Negra, comandada pela bela e impetuosa Angélica (a linda espanhola Penélope Cruz, compondo uma mocinha infinitamente mais interessante que a de Keira Knightley), um antigo e tempestuoso romance na vida de Jack.
Calibrado e pensado até a exaustão para ser um típico sucesso de bilheteria, este “Navegando Em Águas Misteriosas” padece de uma série de males, a maioria deles relacionados à pressão de ser o quarto filme de uma franquia de rentabilidade milionária: Quer ser tão arrojado e divertido quando os anteriores, mas quer também ser desenvolto o bastante para evitar suas falhas. Tal postura engessa o filme, uma vez que tanto planejamento não reserva espaço ao improviso e à espontaneidade –e todos sabem que foi quase por acaso que Johnny Depp teve a inspiração para moldar Jack Sparrow, o personagem que guiou praticamente sozinho esses filmes ao sucesso!
Também o diretor Marshall, já no começo da produção, deixa notar a pressão que ele sente ao tentar, pelo menos, igualar o bom trabalho de Verbinski (ótimo no primeiro filme, interessante no segundo, razoável no terceiro), e sua narrativa estranhamente pesa parecendo preocupada em não demonstrar preocupação.

domingo, 22 de novembro de 2015

Jogos Vorazes - A Esperança Parte Final

E então chegou a hora. Chegou da hora de descobrir qual será o desenlace da guerra que irá transformar Panem para sempre.
Chegou a hora de sabermos para qual lado penderá o coração de Katniss: se para o lado de Peeta, o garoto com quem ela sobreviveu aos Jogos Vorazes no primeiro filme, e ao Massacre Quaternário, no segundo, e que no terceiro viu ser transformado numa arma para matá-la; ou se para o lado de Gale, o seu melhor amigo, com quem ela aprendeu a caçar para alimentar a mãe e a irmã, e que era a única pessoa em quem ela confiava, pelo menos, até ser levada para os Jogos, e tudo então se transformar.
Chegou, afinal, a hora de acompanharmos esses personagens, e cada um de seus percalços nos últimos passos de sua trajetória.
Tantas são as tramas, tantas são as emoções herdadas de todos os filmes anteriores, que é quase impossível este aqui não ter uma atmosfera toda especial, e o diretor Francis Lawrence parece ter completa consciência disso: Cada enquadramento, cada cena é um esforço de pura minúcia em fazer desta uma obra condizente com sua fonte literária: Os livros escritos por Suzanne Collins, relatando a saga da menina Katniss Everdeen, com emoções vivazes, uma conscientização inédita de seu público em relação às mazelas do mundo ao seu redor, e uma dedicação rigorosa ao critério da necessidade: Tudo, absolutamente tudo está ali a serviço da história, e Suzanne Collins não tem dó de sacrificar seus personagens (mesmo os mais queridos), nem as emoções do público, em nome desse princípio.
Nos vinte minutos finais, o filme parece nos lembrar (em pequenos e preciosos detalhes) que “Jogos Vorazes” está chegando ao seu fim: Não mais veremos Katniss outra vez (e na interpretação cheia de força e de vida de Jennifer Lawrence, essa constatação ganha ainda mais tristeza); não mais veremos Josh Hutcherson interpretar Peeta Melark (e, talvez, por perceber isso, aqui, o ator finalmente dá ao personagem toda a energia que ele merecia). Este filme, é portanto, a despedida de todos eles. Gale Hawthorne, Effie Trinket, Haymitch, Prim, Finnick. Todos aqueles cujos destinos acompanhamos no coração dessa revolução.
A câmera de Francis Lawrence enlaça seus personagens, num ritmo todo particular, como se o diretor fosse incapaz de deixá-los partir para sempre.
Ao fim, após tantas cenas poderosamente tensas, de perigos desconcertantes, e sensações atrozes, ele escolhe encerrar seu filme em família, lembrando-nos aquilo que é mais precioso.

Não poderia ser melhor.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Jogos Vorazes - A Esperança Parte 1

Os Jogos Vorazes ficaram para trás. Katniss Everdeen sobreviveu à brutal arena do filme anterior às custas de sua quase morte. Retomando de onde a história foi interrompida, o filme mostra as repercussões do ataque da Capital sofridas sobretudo no Distrito 12. 
Panem agora está em guerra. De um lado, estão os rebeldes, liderados pela presidente Coin do até então extinto Distrito 13, que têm em Katniss, o seu grande símbolo. Do outro, a Capital, controlada pela mão de ferro do presidente Snow, que irá valer-se do precioso prisioneiro Peeta, para tentar desacreditar a rebelião e desestabilizar Katniss. Mas ela precisa assumir seu papel no confronto, caso contrário o futuro de todos aqueles que ama pode acabar condenado. 
Terceira parte da famosa saga juvenil, já preparando o terreno para seu grande desfecho. 
O roteiro de Danny Strong apresenta maturidade e austeridade notáveis para um filme de apelo jovem, e o artifício de repartir o último livro em dois filmes (a exemplo de “Harry Potter” e “Crepúsculo”) deu autonomia para trabalhar de forma detalhista cada meandro da trama, sem pressa nem omissões. O resultado é dos mais interessantes. 
Nesse sentido, o bom trabalho do diretor Francis Lawrence (que mostrou-se excelente no filme anterior) consegue finalmente ir além do livro, dando realce narrativo, puramente cinematográfico, à cenas que poderiam ser banais ou sub-aproveitadas: E o exemplo mais perfeito talvez seja a arrepiante cena em que a música “A Árvore-Forca” é cantada. 
Neste terceiro e vigoroso episódio, a série enfim engloba elementos que vinha ensaiando desde seu início, com certa timidez. Mas agora, as sequências podem emular cenas que vão de influências tão distintas e viscerais quanto “Falcão Negro Em Perigo” (as cenas de batalha são de um requinte criterioso) à “1984 de Orwell” (a opressão do estado, e  poder da mídia da manutenção dessa mesma ordem), o quê é um feito e tanto quando lembramos que esta é, em princípio e em essência, uma saga para jovens. 
E a atriz Jennifer Lawrence continua surpreendendo com seu imenso talento.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Jogos Vorazes - Em Chamas

Seis meses após ter vencido os Jogos Vorazes, Katniss Everdeen tem um novo desafio pela frente: encarar o "tour da vitória" que a levará pelos distritos de Panem, e durante o qual ela terá de encenar o romance fictício que tinha iniciado em plena arena com o jovem Peeta para que saissem vivos. Para o maquiavélico Presidente Snow tal encenação é fundamental: a própria Katniss é um símbolo vivo da iminente revolução que se desenha em Panem, e provar, em frente às câmeras que ela é subserviente à Capital, tornou-se uma necessidade urgente. Caso contrário, ele precisará livrar-se dela, valendo-se do vindouro Massacre Quaternário. 
A continuação primorosa de “Jogos Vorazes” beneficiou-se, e muito, da troca de diretores: Saiu o realizador do primeiro filme, o razoável Gary Ross, e entrou Francis Lawrence, de filmes como “Eu Sou A Lenda”, “Constantine” e “Água Para Elefantes”. Apesar de seu currículo ainda modesto, bastante inclinado para filmes comerciais pouco memoráveis, ele trouxe uma noção de ritmo mais apurada para a saga, tendo a sensatez de reproduzir a identidade visual que Ross imprimiu ao primeiro filme, deixando claro que são, a rigor, um só filme dividido em capítulos, e acrescentou um acabamento visual mais elaborado, ressaltando tudo o quê funcionou no primeiro (muita coisa) e deixando de lado aquilo que não deu certo (pouquíssimas coisas). 
A reunião de talentos para trabalhar no roteiro também foi particularmente feliz neste episódio: Os produtores chamaram dos roteiristas prestigiados e oscarizados: Simon Beaufoy (de “Quem Quer Ser Um Milionário?”), e Michael Abndt (de “Pequena Miss Sunshine”, usando aqui o pseudônimo de Michael DeBruyn). E eles souberam capturar magnificamente as importâncias de determinados momentos da narrativa, enfatizá-las e dispô-las ao longo do filme, dando um andamento primoroso (o mais bem acertado da saga até agora), o que pode ser visto como um milagre em se tratando do fato de que este é o capítulo do meio, ou seja, sem um prólogo e sem um desfecho. 
Todo esse esforço serviu para moldar um dos melhores filmes adolescentes dos últimos anos, uma saga juvenil com pinceladas de inteligência política abrilhantada pela magnífica presença da estrela Jennifer Lawrence.