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quarta-feira, 21 de junho de 2023

Guardiões da Galáxia - Especial de Natal


 Pouco antes de sua última aparição nos cinemas –no excelente “Guardiões da Galáxia Vol. 3” –e depois de suas participações em “Vingadores-Ultimato” e em “Thor-Amor & Trovão”, a equipe de heróis espaciais tornados memoráveis graças ao talento do diretor e roteirista James Gunn deu o ar da graça neste média-metragem especial, exclusivo da plataforma Disney Plus. Esperto, James Gunn –uma verdadeira enciclopédia viva de referências à cultura pop –resgatou a lembrança, não tão honorável assim, do “Star Wars-Especial de Natal”, que George Lucas lançou em 1978, com toda a trupe de seu sucesso cinematográfico reunida para pagar um mico desgraçado. Varrido para debaixo do tapete pela vergonha dos fãs perante a mitologia vasta em longa-metragens, animações e afins, aquele filme televisivo é relembrado aqui, por James Gunn, com um certo carinho agridoce. Entretanto, se Gunn relembra sua existência, ele evita por completo seus equívocos: Este média-metragem é uma piscadela aos fãs feita para explorar o carisma de seus personagens, estender com muito bom humor um pouco mais sua mitologia e, lá no fundo, favorecer o conteúdo exclusivo do streaming da Disney, com um irresistível apelo aos inúmeros expectadores do MCU.

Instalados em Luganhenhum, a cabeça decepada de um Celestial, desde que o lugar fora devastado por Thanos, os Guardiões da Galáxia descobrem que na Terra, o planeta-natal de Peter Quill (Chris Pratt), está sendo comemorada a época do Natal –festividade completamente ignorada pelos outros membros, alienígenas. Todavia, como lembra Kraglin (Sean Gunn) na sequência animada que abre o filme (na qual figura o personagem de Michael Rooker, Yondu, em participação especial) os natais de Quill, passados durante sua infância entre os rudes Saqueadores Espaciais, não foram dos mais calorosos.

Para Manthis (Pom Klementieff) –que lembra do fato de que ela e Quill são meio-irmãos, já que foi criada por Ego, o pai dele –há uma certa importância em resgatar tal data, já que Quill anda desolado devido à perda de Gamora, ocorrida em “Vingadores-Guerra Infinita”. Com isso em mente –e com uma visão ligeiramente deturpada do quê é o Natal e sua troca de presentes –ela e Drax (Dave Bautista) veem até a Terra, na intenção de providenciar para Peter o melhor presente possível: O seu ídolo em pessoa, o ator Kevin Bacon –numa participação especial das mais hilárias!

Na Terra, confusões usuais se seguem –no humor recorrente e espontâneo da Marvel Studios –quando Manthis e Drax descem em plena Los Angeles, intoxicada pelo usual culto às celebridades: O que leva personagens tão exóticos quanto os dois a se misturar até que bem à fauna esquisita e alienada de pessoas que ganham dinheiro com a curiosidade dos turistas (!). Após um tumulto considerável na mansão de Kevin Bacon –onde, por razões óbvias, tiveram um atrito com a polícia (!!) –Manthis e Drax seguem de volta à Luganenhum para surpreender Peter. Ainda que a surpresa termine não sendo como eles esperavam.

Descontraído, mais espirituoso do que de fato divertido, este “Especial de Natal” é certamente recomendado aos fãs mais incondicionais dos Guardiões da Galáxia, que haverão de apreciar o filme pela sempre envolvente interação de seus personagens –um aspecto singular em suas criações do qual a Marvel Studios sempre soube se beneficiar. Aos expectadores mais casuais, ele é uma obra curta, ligeiramente vaga e sem muita razão de ser (exceto pelos pequenos detalhes de informação que acrescenta como a aproximação entre Manthis e Drax e entre Rocket Racoon e Nebula) que serve como uma modesta ponte entre os demais filmes e o derradeiro (e brilhante!) “Guardiões da Galáxia-Vol. 3”.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

O Esquadrão Suicida


 Os percalços que levaram às telas esta nova versão de O Esquadrão Suicida são um exemplo das voltas que o mundo dá: Sucesso de público e fracasso de crítica (um fenômeno muito mais comum do que pode parecer), “Esquadrão Suicida”, dirigido por David Ayer, foi um dos muitos filmes que comprometeram a viabilidade do Universo Compartilhado da DC Comics almejado pela Warner Studios.

Era consenso geral que o trabalho de Ayer foi incapaz de capturar o sarcasmo necessário aos personagens –um grupo de heróis formado por vilões –o que transformou o filme numa sucessão de incoerências e frustrações, longe da intenção inicial de fazer dele uma espécie “Guardiões da Galáxia” da Distinta Concorrência. Contudo, quis o destino que James Gunn, justamente o cérebro por trás da originalidade palpitante daquele filme da Marvel Studios, ficasse em maus lençóis com os executivos da Disney devido ao aparecimento de twits polêmicos que ele escrevera muitos anos atrás. Demitido (por pouco tempo, já que foi recontratado), James Gunn ficou assim disponível para ser recrutado pela própria Warner Bros, que não pestanejou diante da oportunidade de ciscar no terreno do vizinho.

E assim, Gunn incumbiu-se de dirigir e roteirizar um novo “Esquadrão Suicida” que a um só tempo é continuação, reinvenção, derivado e reformulação do filme anterior (a única modificação no título é o acréscimo do artigo “O”). Sob muitos aspectos, ele deixa aquele filme completamente de lado para alçar voo próprio diante das possibilidades instigantes que descobre. Roteirista e diretor brilhante (anos-luz à frente de David Ayer, diga-se), James Gunn é um conhecedor intrínseco de histórias em quadrinhos, logo, ele compreende o contexto, a proposta e a dinâmica dos personagens reunidos em “O Esquadrão Suicida” de uma forma que David Ayer jamais conseguirá. E, como diretor, possuir também uma apurada percepção de cinema também ajuda muito.

Arrojado que só, “O Esquadrão Suicida” já começa num enquadramento de câmera absolutamente audacioso, mostrando Savant (Michael Rooker), um prisioneiro que, nos moldes dos personagens do filme anterior, é recrutado pela impiedosa Amanda Waller (Viola Davis que aqui não rouba a cena porque simplesmente todos estão sensacionais) para integrar o Esquadrão Suicida –um grupo de força-tarefa cujos membros, na falta de heróis superpoderosos, são escolhidos entre os vilões mesmo.

Único personagem minimamente nobre entre eles é o Coronel Rick Flag (Joel Kinnaman), oriundo do filme anterior –também são de lá o ardiloso Capitão Bumerangue (Jai Courtney) e, claro, a doce e psicótica Arlequina, personagem que, à essa altura, a australiana Margot Robbie já tornou tão antológica quanto indissociável dela própria.

O grupo é despachado para a republiqueta sul-americana de Corto Maltese (nome que, em si, já representa uma das muitas e sensacionais referências plantadas por Gunn na trama) para um missão algo nebulosa e, logo na chegada, são atacados. E eis que a obra de Gunn revela, já aí, toda a coragem, habilidade e excelência que faltou no outro filme: Salvo Rick Flag e Arlequina todos os outros personagens acabam mortos –até mesmo o personagem de Michael Rooker, até então sugerido pela narrativa como os olhos do público!

É só o começo, literalmente –tudo isso ocorre antes mesmo dos créditos iniciais!

Em “O Esquadrão Suicida”, mais que qualquer coisa, James Gunn exercita sua capacidade de se fazer imprevisível. O andamento da trama, as mortes que se sucederão ou não, e a guinada de roteiro seguinte são elementos que dificilmente os expectadores serão capazes de prever.

Um pouco longe dali, um segundo grupo também foi recrutado e enviado, grupo este composto pelo Sanguinário (o ótimo Idris Elba), o Pacificador (John Cena, de "Bumblebee", cada vez melhor), o Homem-Bolinhas (David Dastmalchian, de “Homem-Formiga”), a Caça-Ratos 2 (Daniela Melchior) e o simultaneamente fofo e amedrontador Tubarão-Rei (voz de Sylvester Stallone).

Com habilidade insuspeita, o diretor James Gunn conduz a trama alternando esses dois grupos a medida que vai revelando algumas surpresas referentes à missão incumbida. Isso permite à Gunn explorar o termo ‘suicida’ presente em seu título –o desapego com que o diretor descarta muitos personagens ao longo do filme acrescenta um toque inesperado de suspense às situações de perigo –e operar com uma liberdade que não usufruía nem mesmo na Marvel Studios –produtora de filmes bem comportados, para todos os públicos, muito diferentes deste daqui onde Gunn enche a boca de seus personagens com impropérios e palavrões, pisa no acelerador no quesito da violência e emprega sanguinolência num nível similar somente ao que ele havia feito na produtora Troma em seu início de carreira.

De fato, “O Esquadrão Suicida” tem tudo isso; ação, violência, pancadaria, tiros e mortes, mas, é também um filme cheio de poesia: Na concepção irretocável em termos de um maior requinte cinematográfico, na escolha sublime e primordial das músicas que integram a trilha sonora (milagre que ele já havia executado em “Guardões da Galáxia”), na construção finalmente apropriada, ácida e vibrante dos personagens politicamente incorretos que tem em mãos, James Gunn finalmente mostra como fazer um filme de verdade com o Esquadrão Suicida, e de quebra entrega uma das melhores produções baseadas em histórias em quadrinhos de todos os tempos.

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Amor & Monstros


 Alguns realizadores mais hábeis partem do princípio de que, nos paradigmas de gênero abordados, algumas obras  já trazem elementos tão reconhecíveis que muitos tópicos inerentes à suas premissas já não necessitam de elaboração. “Amor & Monstros”, por exemplo, dirigido por Michael Matthews, é visivelmente realizado por essa nova geração de cineastas, os quais já nasceram e cresceram com tamanho acesso à informação, que suas criações são quase cúmplices na maneira conceitualmente criativa com que se enraízam na categoria à qual almejam pertencer –e essa propensão a antecipar o óbvio se reflete também na nova geração de expectadores!

Com efeito, “Amor & Monstros” é todo referencial na forma com que alude à “Um Lugar Silencioso”, “Eu Sou A Lenda” e afins do gênero distopia pós-apocalíptica, do qual os artesão têm tantos exemplos para explorar, referenciar ou revisar. Acaba sendo, pois, curioso o fato de que, apesar de tudo, o coração de sua trama esteja mesmo no romance.

O jovem e medroso Joel (Dylan O’Brien, de “Maze Runner”) se ressente por ser o único solteiro no abrigo subterrâneo onde passou os últimos sete anos (!). Contudo, a chance de rever seu grande amor perdido surge numa mensagem de rádio: A bela Aimeé (Jessica Henwick, de “Godzilla Vs Kong”) finalmente entrou em contato e conta que está em um abrigo a, aproximadamente, sete dias de viagem.

Contra todas as recomendações, Joel decide empreender esse trajeto tendo, no percurso, que enfrentar toda a sorte de monstruosidades que infestaram o mundo; na realidade, criaturas como aranhas, baratas, sapos e lagartos que ganharam proporções agigantadas graças aos efeitos dos fragmentos de um meteoro que caíram na Terra.

Assim, o filme de Michael Matthews é, portanto, uma história de aprendizado e auto-descoberta: Ao longo de sua trajetória, Joel descobre a coragem que julgava não ter, inspirado por pontuais aparições que lhe oferecem importantes lições –em especial, a impagável dupla formada pelo personagem de Michael Rooker e pela garotinha Ariana Greenblatt, e o companheiro Boy, um cão inteligente e cheio de personalidade (e um dos mais sensacionais personagens do filme).

No andamento gracioso de sua narrativa, no tratamento nunca displicente conferido às nuances de sua história (onde o romance tem rumos imprevistos e o terror, com ares de comédia, se expressa de maneiras inusitadas), no carinho genuíno dedicado aos personagens –preciosismo que vai do bom elenco até o espirituoso roteiro escrito por Matthew Robinson e Brian Duffield –e na inventividade bastante singular de seus efeitos visuais (nos quais os monstros ganham um dinamismo e uma personalidade carregados de propriedade e inteligência) “Amor & Monstros” exercita, felizmente, uma característica até bastante incomum nos blockbusters de hoje em dia: A capacidade de subverter as expectativas do público e surpreendê-lo.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Dias de Trovão


 Top Gun sobre rodas” foi e continua sendo a mais perfeita definição para esta aventura ambientada nas pistas de corrida de stock-car, não apenas pela reunião do astro (Tom Cruise), do diretor (Tony Scott) e dos produtores (Jerry Bruckheimer e Don Simpson) daquele sucesso, mas também por trazer as mesmas junções de gêneros cuja receita se revelou bem-sucedida: Um retrato estiloso de um ambiente regido pela adrenalina, muita ação com um pouco de romance e drama humano. Desnecessário dizer que, com seu notório arrojo visual, o diretor Scott transforma as corridas de stock-car num espetáculo à parte.

O curioso é que, tendo chamado o gabaritado Robert Towne (de “Chinatown”) para escrever o roteiro, o projeto terminou ganhando novas características e elementos mais particulares. Para começar, quem dá o ponto de partida à trama é, na realidade, o personagem de Robert Duvall, Harry Hogge. Ele é tão protagonista quanto o personagem de Tom Cruise. Harry é um engenheiro de automóveis afastado do ofício devido a um acidente.

Ele é trazido da fazenda onde enfurnou-se para novamente atuar nas pistas como chefe de equipe pelo empresário Tim Daland (Randy Quaid). Entretanto, a estratégia de Daland para se sobressair na temporada e vencer a Copa Winston é financiar duas equipes distintas –o que acirra ainda mais a competitividade entre elas!

De um lado, a equipe chefiada por Harry, na qual o piloto é, afinal, o impulsivo Cole Trickle vivido por Tom Cruise; de outro, a equipe do habilidoso piloto Rowdy Burns (Michael Rooker).

Se quiserem conquistar a vitória, Harry e Cole precisam, portanto, superar animosidades dentro e fora das pistas, e Cole, principalmente, vencer seus demônios internos, o que inclui um repentino temor pela própria vida após sobreviver a um terrível acidente.

Menos lembrado pelo sucesso razoável que obteve no início da década de 1990, e mais por reunir em cena, pela primeira vez, o casal Tom Cruise e Nicole Kidman (eles passaram a namorar quando se conheceram no set de filmagem), “Dias de Trovão” ainda guarda eficiência e alta voltagem para empolgar expectadores mesmo nos dias de hoje, incluindo suas inesperadas qualidades enquanto cinema –o que o coloca até mesmo acima de “Top Gun”, seu mais incontornável objeto de comparação –como o roteiro de Towne que surpreende pela atenção criteriosa aos detalhes narrativos mais pertinentes, como a constante manutenção da relevância do personagem de Duvall, o complexo laço de amizade que se constrói a partir da rivalidade entre os personagens de Cruise e Rooker, o romance entre Cole e a Dra. Lewicki, personagem de Nicole –encaixado à trama com eficiência o bastante para disfarçar sua aleatoriedade –e a maneira com que todos esses elementos vão convergindo o filme para o seu clímax apoteótico na aguardada pista de Daytona.

Se “Dias de Trovão” não conquistou a mesma importância junto à cultura pop, nem o apreço junto a um tipo de público que passou a cultuá-lo da mesma forma que “Top Gun” ao longo dos anos, isso se deve menos aos seus predicados técnicos e artísticos e mais a uma série de fatores culturais referentes, inclusive, à época em que foram feitos: Os anos 1990, mais cínicos, já não tinham aquela mesma ingenuidade conceitual que tornou tão fascinantes algumas das obras dos anos 1980.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Nico - Acima da Lei

Steve Segal ainda era um ex-guarda-costas quando tentou carreira no cinema como mais um dos muitos heróis de ação que buscaram seguir o caminho traçado por Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallone.
Nos anos 1980 –onde a cultura pop de então era um terreno fértil para astros inexpressivos, mas bons de briga –Segal se tornou um especialista de médio porte do gênero: Não chegava nem perto do estrelato conquistado por Schwarzenegger ou Stallone, mas seus filmes rendiam bem no nicho a que se dirigiam, mais ou menos como ocorria com Jean Claude Van Damme.
Dentre as dezenas de produções rasteiras e esquecíveis estreladas por Segal na época, “Nico” se sobressai apontada como uma das melhores.
A razão para isso é o diretor Andrew Davis que anos depois entregaria o formidável “O Fugitivo”. Competente, Davis é um diretor que sabe dosar com sensatez as deficiências inevitáveis desse tipo de produção e consegue conjuga-las sabiamente com as qualidades técnicas de que dispõe.
O roteiro de “Nico” não é e nem quer ser um primor de escrita –todo o objetivo do prólogo capenga é, quando muito, contextualizar o herói do filme (intenção que atende mais ao ego de seu ator principal do que às demandas da narrativa): Nico Toscani é um italo-americano. Apesar dessas raízes, porém, ele é fascinado na cultura oriental, razão pela qual especializou-se em artes marciais. Logo sabemos que ele serviu como agente da CIA em plena guerra do Vietnam –repare como esse protagonista meio agente secreto, meio “Rambo”, obedece todas as características absolutamente implausíveis que compõem um herói daqueles tempos: No Vietnam, uma espécie de desilusão para com seus superiores o leva a abandonar o ofício (!) e, alguns anos depois, Nico está em Chicago onde trabalha como policial (!).
No entanto, a desilusão com os superiores (e com o próprio sistema) vai tornar a ser um problema, quando Nico esbarra por acaso numa venda ilegal de explosivos C4.
Ele mal tem tempo de prender os meliantes –numa cena de tiroteio e perseguição que só não esbarra no desleixo de sua execução porque o diretor Davis soube dar a ela a devida urgência na sala de montagem –e o FBI aparece para tomar-lhes os prisioneiros e a investigação.
Os criminosos são liberados, o caso é arquivado e os policiais outrora envolvidos, como Nico e sua parceira Delores Jackson (Pam Grier, sensacional como sempre), são silenciados.
Trocando em miúdos: Alguém com as costas largas no FBI está envolvido nas atividades criminosas.
Nem chega a ser um grande mistério. Não demora para descobrirmos que é Zagon (Henry Silva), o mesmo detestável oficial que se indispôs com Nico no Vietnam.
Dessa maneira, sem os recursos policiais a sua disposição, Nico deve navegar por uma trama nebulosa que envolve um grupo de refugiados da América do Sul e um senador americano devidamente marcado para morrer.
Segundo consta, o roteiro de “Nico-Acima da Lei”, escrito por Andrew Davis e pelo próprio Steve Segal, inspirou-se em notícias do período que davam conta de executivos da CIA e do FBI que utilizavam o tráfego de drogas para manipular as guerras deflagradas em países de terceiro mundo.
A despeito dessa forçosa tentativa de pedigree, a trama é rasa feito um pires e seus objetivos não vão além do genérico: Tiros, bordoadas, perseguições. Tudo manuseado para enfatizar o dinamismo e a desenvoltura física de Segal nessas ocasiões.
No que se espera dele (a presença física exuberante), Segal se sai bem, contornando até mesmo a evidente incapacidade interpretativa devido à astúcia de seu diretor.
O curioso mesmo é notar que neste filme –e em vários outros que vieram depois –prevalece uma estranha personalidade da parte de seu astro principal, que insiste em usar jaquetas de couro, e adotar uma mesma postura diante das situações (características humanas como medo, vulnerabilidade ou dúvida passam longe dele), além de um estilo marrento perceptível até mesmo nas coreografias de luta.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

JFK - A Pergunta Que Não Quer Calar

A década de 1960 não foi somente um período marcante de mudanças e transformações para os EUA e o mundo; foi também uma época a qual aparentemente, o diretor Oliver Stone custou a conseguir deixar de lado. A maior parte dos grandes títulos de sua filmografia, ao menos durante as suas duas primeiras décadas de atividade como cineasta, se dedicam a falar sobre episódios essenciais desse trecho da história americana.
Se a Guerra do Vietnam é uma parte indissociável do contexto de “Platoon” e “Nascido em 4 de Julho”, em “JFK”, ele lança seu olhar parcial, paranóico e imbuído de uma tendenciosa maestria cinematográfica sobre os percalços e conseqüências do assassinato do então presidente americano John F. Kennedy, cometido –acredita-se –pelo atirador Lee Oswald (aqui interpretado com peculiaridade por Gary Oldman). A base para esse olhar, Stone encontra na teoria controversa do promotor Jim Garrison –personificado com segundas intenções da parte de seu diretor pelo astro Kevin Costner: Na época, devido à sua participação no aclamado épico “Dança Com Lobos” e em outros sucessos de bilheteria como “Robin Hood-O Príncipe dos Ladrões”, Costner era enxergado como uma espécie de herói americano, o tipo de intérprete escolhido a dedo para se colocar num personagem do qual o diretor não deseja que a platéia duvide.
Desde a utilização brilhante do famoso e vídeo amador de Zapruder –uma prática habitual no cinema de Oliver Stone –ao emprego de uma riqueza documental e informativa incomum para qualquer superprodução (por tais valores, “JFK” levou os Oscars de Melhor Fotografia e Montagem) e o uso pontual de participações notáveis de um elenco diverso e estelar, todas as exuberantes facetas deste filme são administradas por seu diretor na imposição demagógica de sua própria ideologia e ponto de vista –provavelmente a grande ressalva em toda a filmografia fascinante de Stone.
Garrison acreditava numa possibilidade bem diferente daquela ventilada pela imprensa. Para ele, Oswald era um mero bode expiatório para toda uma conspiração que envolvia inúmeros interessados em dar cabo de Kennedy –e para tanto, um de seus argumentos é de que a sucessão de tiros obtida unicamente por Oswald naquele atentado seria humanamente impossível para um atirador sozinho executar.
A partir daí, subjetivada nas investigações de Garrison, a narrativa de Stone desfralda uma conspiração que ganha ares assombrosos e aterradores ao longo das três horas de duração do filme.
E Stone o faz com uma mescla assombrosa de tensão e intensidade, deixando entrever, apenas em alguns rápidos momentos de seu último terço a pecaminosa tendência do diretor em alterar obviedades históricas apenas para salientar seu próprio ponto de vista.
Um grande filme de um diretor tendencioso que soube empregar como poucos as ferramentas do cinema com perversa astúcia.

domingo, 30 de abril de 2017

Guardiões da Galáxia Volume 2

O primeiro filme dos Guardiões da Galáxia já aparece com freqüência nas listas de melhores filmes da Marvel Studios, e é bem provável que esta sua continuação direta passe, também ela, a integrar o apanhado de filmes mais prestigiados dessa editora tornada estúdio de cinema.
A razão é simples: James Gunn, roteirista e diretor do primeiro filme e deste também, retoma a trama e seus personagens com uma espontaneidade que poucas continuações têm.
Se no filme anterior, o terráqueo Peter Quill (Chris Pratt) auto-denominado Senhor das Estrelas, havia assumido para si a tarefa de gerenciar o grupo improvável formado por ele, a guerreira Gamorra (Zoe Saldana), o mercenário Drax (Dave Bautista), o guaximin Rockett (voz de Bradley Cooper) e a árvore ambulante Groot (que, nesta seqüência, é uma hilária e adorável versão bebê do personagem adulto com voz de Vin Diesel), nesta nova trama, esse objetivo se revela mais complicado do que parecia: Rockett, num ímpeto habitual, resolve roubar baterias alienígenas de um povo conhecido como Soberanos –baterias estas que deveriam salvaguardar de uma criatura.
Perseguidos pelos Soberanos, os Guardiões da Galáxia terminam encontrando Ego (Kurt Russell, sempre sensacional), um ser cósmico que se revela o verdadeiro pai de Peter (que ele procura desde o filme anterior), e o leva até seu planeta –na verdade, ele próprio É o planeta! –para lhe elucidar sua origem (e do porque, na realidade, ele é uma ameaça para todo o universo!).
Ao mesmo tempo, Rockett e Groot envolvem-se numa enrascada ao lado de Yondu (Michael Rooker, num dos melhores personagens deste novo filme), quando este sofre um motim promovido por seus piratas espaciais ao lado de Nebulosa (Karen Gillan), a vingativa irmã de Gamorra.
Entre os novos personagens que marcam presença estão a empara Manthis (Pom Klementieff), que os leitores de quadrinhos sabem que passará a integrar a equipe –e já demonstra aqui uma química hilariante com Dave Bautista –e rápidas aparições de Starhwak (Sylvester Stallone, que infelizmente não divide nenhuma cena com Kurt Russell para reeditar a parceria de “Tango & Cash”) e de outros saqueadores espaciais (vividos por Wing Rhames, Michelle Yeoh e Michael Rosenbaun), personagens que podem vir sem sombra de dúvidas a integrar uma nova equipe de heróis cósmicos da Marvel no futuro.
Ainda mais engraçado, vibrante e pontual em suas referências à cultura pop (assim como na primeira produção a seleção de canções da trilha sonora, com clássicos dos anos 1970, é de uma deleite espetacular) do que o filme anterior, este roteiro de Gunn volta seu olhar aos laços afetivos e familiares que unem seus interessantes personagens e explora maravilhosamente bem suas dinâmicas, obtendo sucessivas cenas que flutuam com naturalidade entre o humor, o drama, a tensão e a ação.

sábado, 3 de setembro de 2016

Henry - Retrato de Um Assassino

A direção de John McNaughton imprime uma auto-consciência ao seu filme de tal maneira independente que os paradigmas de gênero, em momento algum, parecem interferir em sua narrativa. “Henry” possui uma postura tão singular entre os registros já perpetrados pelos gêneros de terror e suspense de uma mente perturbada que corremos o risco de não notar sua genialidade, tal é a excelência com a qual se vale de expedientes, e utiliza-os para fazer sua trama e seus personagens avançarem.
O ex-presidiário Henry (Michael Rooker, numa dessas atuações que ameaçam marcar a carreira de um ator) mora numa espelunca com um antigo colega de cadeia, Otis.
À eles, logo junta-se a irmã de Otis, Becky, se instalando no apartamento do irmão a fim de fugir de um casamento infernal e violento.
Uma estranha e explosiva dinâmica logo parece se formar neste trio: Otis dá claros indícios de uma doentia atração incestuosa por Becky, enquanto esta começa a afeiçoar-se à Henry, à medida que este tem atritos com Otis que vão num crescendo preocupante.
A partir da história real de Henry Lee Lucas, o diretor McNaughton forjou uma trama que se vale de seu baixo orçamento para consolidar-se como a obra brilhante que é: Os desenlaces de muitas das cenas, sobretudo dos assassinatos, são admiráveis na maneira elíptica com que são mostrados, deixando amplo espaço para a dedução.

O desfecho, sobretudo, é notável e responsável pela forma perene com que “Henry” consegue manter-se na memória.