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sábado, 30 de julho de 2022

Tempo de Crescer


Impregnado de maneirismos do cinema independente norte-americano, este melancólico e agridoce drama sobre os humores da criação se pretende gracioso ao mesmo tempo que profundo, inteligente ao mesmo tempo que inteligível, e acessível ao mesmo tempo que singular; e tão transparentes são essas suas pretensões que elas se destacam em meio ao que deveria chamar a atenção de fato: A carpintaria dramática, a motivação dos personagens e a história.

Richard Dunn (Jeff Daniels, sempre competente) é um escritor cujos hábitos excêntricos começam a se somar em proporção inversa à sua disposição para escrever novos livros.

Dessas neuras, o sintoma mais aparente e desconcertante é o surgimento de uma espécie de amigo imaginário, um super-herói nos moldes do Superman –mas, também ele meio que afetado pelas mediocridades de um americano médio –o Capitão Excelente (Ryan Reynolds, num papel feito ironicamente antes do fracasso “Lanterna Verde” e do sucesso “Deadpool”).

terça-feira, 2 de março de 2021

Aracnofobia


 Estréia na direção do então produtor Frank Marshall, “Aracnofobia” é um filme muito querido para mim pelo fato de ter sido o primeiro filme que aluguei em VHS –o marco zero de minha fase cinéfila como cliente de videolocadoras!

Exceto por isso, talvez, hajam poucas justificativas para que ele tenha sobrevivido com mais dignidade ao teste do tempo: Ao longo dos anos, “Aracnofobia” –que, diga-se, traz produção executiva de Steven Spielberg –se tornou um típico exemplar da ‘sessão da tarde’, com seus lances aventurescos de orientação genérica se sobrepondo à interessante proposta inicial em referenciar “Os Pássaros”, de Alfred Hitchcock.

Em algum lugar das matas sulamericanas, uma equipe –liderada pelo Dr. Atherton, personagem do eclético Julian Sands –descobre uma espécie de aranha descomunal, dotada de veneno poderoso e instantâneo. Uma dessas aranhas morde o fotógrafo norte-americano da equipe e, pegando carona dentro de seu esquife, vai parar na cidadezinha de Canaima, mesmo lugar para onde se muda o médico, Dr.Jenkins (Jeff Daniels), protagonista do filme e portador da anomalia do título.

A aranha em questão acasala com um aranha marrom local e uma proliferação de pequenos filhotes dotados do veneno fulminante da ‘superaranha’ infesta a cidade, fazendo vítimas entre os cidadãos.

Como a aparição das aranhas coincide com a chegada ao lugar do Dr. Jenkins e sua família, os supersticiosos e implicantes moradores locais passam a crer que ele tenha, de alguma forma, causado aquelas mortes, até então sem explicação.

Procurar em “Aracnofobia” o mesmo viés de requinte e alegoria que pulsa brilhantemente da obra de Alfred Hitchcock seria em vão –ainda que o filme de Marshall lhe faça alusão constante –há, de fato, incessantes cenas de ataques e quase ataques das aranhas, remetendo ao chamado ‘terror de montanha russa’ tão comum à filmografia de Spielberg.

É seu estilo, por sinal, que se identifica no trabalho irregular do diretor Marshall, quando por exemplo, as aranhas são muitas vezes empregadas como personagens em cenas individuais que fazem graça ao mesmo tempo que fazem certo suspense. Nesse sentido, se há um representante do humor no filme, esse alguém é o personagem de John Goodman, um alívio cômico tão assumido que chega a ser maniqueísta, aspecto tolerável graças à desenvoltura natural de Goodman como ator.

“Aracnofobia” até se ampara em expedientes científicos e artísticos de ponta, mas termina mesmo se restringindo à uma aventura mirabolante com doses de humor e de exageros –a aranha antagonista tem seu gigantismo sempre enfatizado –que procuram integrar seu passatempo. No caso desta estréia de Marshall como diretor, a despretensão prejudicou o resultado final: Tão modestas e tímidas são as intenções do longa que ele realmente pouco faz mais que divertir e entreter –a fórmula que Spielberg aprimorou ao longo de sua carreira é seguida com fidelidade e esmero, porém destituída de um elemento crucial: Personalidade.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Laços de Ternura

Embora mais relacionado ao gênero de comédia, o diretor James L. Brooks obteve sua aclamação (precipitada alguns diriam) com um autêntico melodrama.
Em todos os ângulos através dos quais possa ser enxergado, “Laços de Ternura” é um registro emotivo da relação cheia de idas e vindas entre uma mãe e uma filha ao longo dos anos, contudo, a habilidade com comédia de Brooks se faz notar aqui na condução de momentos essencialmente sérios e dramáticos embevecidos, porém, de uma compreensão espirituosa das ironias do cotidiano –e isso, ele soube inclusive estender para as inspiradas atuações de Shirley MacLaine (vencedora do Oscar de Melhor Atriz) e de Debra Winger.
Elas vivem, respectivamente, Aurora e Emma, mãe e filha que não encontram uma sintonia harmoniosa em sua relação desde o início. Se na infância de Emma isso se manifestava na forma de imposições ocasionalmente absurdas de parte de Aurora, na fase adulta, isso se dá por meio do afastamento.
A narrativa acompanha a trajetória das duas em paralelo, mas habilmente entrelaçando-as por meio de manobras sutis e inteligentes: Aurora, lutando estoicamente contra a crise de meia idade, conhece um ex-astronauta (Jack Nicholson, vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), também ele numa fase de angústia para com o próprio envelhecimento (seduz desesperadamente jovens moças com suas histórias da glória passada), e com ele acaba travando um relutante e caloroso romance. Emma, por sua vez, desvencilha-se da influência insistente da mãe, casa-se com um jovem namorado (Jeff Daniels) de quem tem dois filhos e constrói assim uma vida adulta, com todas as indisposições que uma vida adulta tem –o marido a trai durante a segunda gravidez e ela, entre o ressentimento e a passividade, arranja um amante também (interpretado pelo ótimo John Lithgow).
Essa atenção do diretor Brooks aos pequenos detalhes parece se justificar na terceira e última parte do filme, quando descobrimos que Emma sofre de câncer, e então, sem qualquer predisposição a atender as demandas emocionais e nada realistas do público, ele concede um arremate admirável a esse trabalho amargo e humano.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Na Época do Ragtime

Dentre os filmes feitos pelo diretor Milos Forman, este aqui se espreme entre a suntuosidade e imponência épica de “Amadeus” e a genialidade artística, bem como o senso de observação carregado de inconformismo de “Um Estranho No Ninho”. É hoje completamente desconhecido, mas digno de ser comparado às obras mais famosas de Forman.
“Ragtime” é uma colcha de retalhos sobre o modo de vida do começo do século XX, adaptando um romance de E.L. Doctorrow, e feito com a ironia e a precisão de um mestre, não lhe faltando, por exemplo, aquele equilíbrio raro em que o diretor obtém uma harmonia fascinante entre o carinho palpável por seus personagens e uma saudável distância do sentimentalismo fácil.
A narrativa paira pelas diversas tramas, deixando-se interessar por um ou outro momento onde é flagrado um instante de graça, um acontecimento mais dramático, ou outro de vibração mais tensa, e então, tornando a descortinar outra trama, e assim sucessivamente, elaborando um emaranhado delicioso de pequenas e espirituosas histórias.
Há o casal de alta classe que encontra um bebê deixado à porta da casa, esse casal –cujo núcleo de personagens nunca ganha nome na narrativa –é interpretado por James Olson e Mary Steenburgen, cujo irmão dela (Brad Dourif) encontra, ao acaso, uma atriz de filmes mudos, a exuberante e desmiolada Evelyn Nesbit (Elizabeth McGovern, de “Era Uma Vez Na América” que, por este trabalho, foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante). Há também o imigrante judeu Delmas (Pat O’ Brien), recém-chegado à Nova York, sem dinheiro no bolso, mas disposto a fazer valer o sonho americano.
E o pianista negro Coalhouse Walker (Howard Rollins Jr. também indicado ao Oscar de Coadjuvante), vítima de uma revoltante injustiça. A partir desse ponto (quase na metade de sua duração), a condução de Forman parece então encontrar na história de Walker uma trama forte e relevante a qual pode eleger principal diante de todas as outras, e a narrativa ganha em força, denúncia social e tensão aquilo que ela tinha de sobra em graciosidade e divertimento.

Um filme extasiante dirigido com primor, escrito com talentosa minúcia e interpretado por um elenco homogêneo em sua excelência.

sábado, 29 de julho de 2017

Alucinado

É angustiante a vida do protagonista (Jeff Daniels) deste filme carregado de uma aura onírica: Desesperado à procura da esposa que não voltou mais para casa, ele, um professor universitário, telefona para a polícia e para outras pessoas numa noite de madrugada.
Embora paire no ar a possibilidade –sugerida por terceiros –dela lhe ter abandonado, ele prefere ater-se à alguma esperança, ainda que o fato de o tempo passar e poucas noticias surgirem indique uma dedução macabra.
Enquanto a noite avança, ele recebe súbitas visitas de pessoas que lhe fornecem respostas vagas, pistas falsas ou meras especulações: um policial sem muito ânimo para investigação; uma aluna atraente que parece insinuar-se para ele (a bonitinha Emily Bergl); um detetive a lhe alarmar com estranhas perguntas e alegações (Gil Bellows); o amante de sua esposa (Julian McMahon); e outros. Existem detalhes nessa estranha rotina que lhe escapam, ao mesmo tempo em que formam um panorama alarmante de pesadelo: Não há como discernir sequer o dia em que se encontra, e são cada vez mais constantes as alucinações que o assombram e o fazem perder a noção de realidade.
Impressionante o quanto é desconhecido este filme até bastante satisfatório no clima de suspense psicológico e na materialização de uma atmosfera incategorizável de sonho a que se propõe, onde o diretor Michael Walker lança mão de uma premissa na qual muitos cinéfilos enxergarão grande semelhança com o ponto de partida de um dos mais festejados trabalhos de David Lynch, o intrigante “A Estrada Perdida”: O personagem principal cujas percepções, à margem da realidade, vão lhe revelando algo de macabro –às vezes até acerca de si mesmo –a partir de uma situação banal e doméstica.
Lynch de fato é uma influência e tanto para a postura da direção sempre envolvente e inusitada deste pequeno e interessante conto sobre as armadilhas da psicose –nada medida do possível em que o inimitável Lynch pode ser uma inspiração. Nessa comparação, Walker se sai até muito bem, e constrói com correção, habilidade e propriedade um suspense enxuto e inquietante no qual as elucidações são sempre desafiadoras, e o real se confunde com a ilusão.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Velocidade Máxima

Diretor de fotografia de uma série de sucessos dos anos 1980 e 1990 ("Instinto Selvagem" e "Chuva Negra" por exemplo), o holandês Jan De Bont estreou neste acelerado sub-produto vendido como um '"Duro de Matar" dentro de um ônibus' –conceito, aliás que se encaixa como uma luva!
A despeito da superficialidade flagrante de sua premissa a condução de De Bont –rasa no que diz respeito aos fatores dramáticos, mas suficientemente atento aos pormenores do ritmo e das cenas de ação –os efeitos especiais e sonoros primorosos, e o carisma tanto do astro Keanu Reeves como da então revelação Sandra Bullock (e a indelével química que demonstram juntos) são fatores que, somados, convergem num dos mais saborosos, descerebrados e pulsantes entretenimentos da década de 1990.
Após uma arrojada operação na qual ganhou a antipatia de um criminoso cheio de planos mirabolantes (Dennis Hopper), um jovem policial de Los Angeles (Keanu Reeves) vê-se numa situação inusitada: A bordo de um ônibus metropolitano, ele tem de salvar os "reféns" do estratagema ardiloso (e não raro, absurdo) do maníaco; o ônibus em questão está carregado com explosivos programados para explodir quando a velocidade reduzir a menos de 50 km por hora. Dessa forma, em pleno horário do rush matutino, e no meio da cidade ele precisa contornar a complicada situação de nunca poder parar um ônibus, enquanto busca um meio de prender o bandido.
Como diretor Jan De Bont encontrou logo neste seu primeiro trabalho uma forma toda própria de romantizar a inércia –essa técnica, incusive o fez ser bem cotado para a direção de “Godzilla”, em 2000 (terminando a cargo de Rolland Emmerich), e também proporcionou escopo e recursos para seu projeto seguinte, o igualmente bem-sucedido “Twister” –e enfatizar a ação e seus dobramentos físicos com um romantismo que deixava seu filme à beira do cativante. Verdade seja dita: Esse mérito não pertence somente a ele, mas também e sobretudo à incrível sintonia que o casal Keanu Reeves/Sandra Bullock apresenta em cena.
Juntos, eles são daquelas duplas que poderíamos assistir por horas sem nos aborrecer.
O próprio Jan De Bont cometeu o deslize de subestimar isso não chamando Keanu Reeves para a continuação e deixando apenas Sandra Bullock, mas Hollywood não deixou passar em branco: Anos depois os dois foram de novo reunidos, num filme romântico de fato, o gracioso “A Casa do Lago”, que refilmava o ótimo sul-coreano “Il Mare”, mas essa, é uma outra história...

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Boa Noite e Boa Sorte

Vez ou outra costuma acontecer de um ator (ou astro) aventurar-se atrás das câmeras e, nesse processo, revelar-se um diretor de inúmeros predicados: Até mesmo o hoje consagrado e cultuado Vittorio De Sica havia iniciado sua carreira artística como intérprete (e até galã!) antes de ir para trás das câmeras e se tornar esse gigante entre os diretores italianos, dando uma contribuição inestimável para o movimento do neo-realismo.
A Academia de Artes Cinematográficas, por sua vez, gosta de expressar sua simpatia por esse tipo de acontecimento: Entre seus ganhadores do Oscar figuram Robert Redford e sua direção em “Gente Como A Gente”, Kevin Costner em "Dança Com Lobos", Mel Gibson em “Coração Valente”, e mais recentemente, Ben Affleck em “Argo”.
Em 2007, foi a vez de George Clooney tentar a sorte e mostrar suas capacidades como diretor e roteirista tendo surpreendido em seu projeto anterior, o incomum “Confissões de Uma Mente Perigosa”.
Contudo, em comparação com aquele filme pequeno, algo simpático, cheio de vontade para com sua própria proposta, este “Boa Noite e Boa Sorte” é um salto quase inacreditável de sofisticação e arrojo.
Os eventos registrados se dão na década de 1950. Sob a amedrontadora perseguição ideológica do Senador McCarthy, que moveu a chamada "caça às bruxas"comunista nos EUA, o apresentador de televisão Edward R. Murrow (o excelente David Strathairn), decide, junto de uma brilhante e corajosa equipe de TV, mover um programa onde buscava, junto ao público norte-americano, esclarecer os fatos e quando necessário questionar a postura do Senador com relação a política de intimidação que se alastrava no país e que havia perigosamente se infiltrado, como bem havia ele percebido, nos meios de comunicação.

Mais do que o fundamental retrato de um estupendo momento da história norte-americana, em que a luta por liberdade de expressão se fez necessária, Clooney esbanjou coragem e talento em cada uma das decisões que tomou acerca da integridade artística de seu filme, concebendo assim uma obra-prima dirigida com desconcertante maestria e coragem, filmada com significativa fotografia em preto & branco.

domingo, 4 de outubro de 2015

Perdido em Marte

Na semana em que anunciam a descoberto de indícios de água em Marte, o filme de Ridley Scott estreia no cinema. Melhor timing impossível!
Deixando essas questões de lado... e o filme? É bom? Faz jus ao ótimo livro que está adaptando?
A feliz resposta é que sim, o filme é muito bom.
Claro que, como acontece com 90 % dos casos de adaptações literárias, o livro conta a história de uma maneira mais ampla e completa do que o filme. Mas "Perdido em Marte" é ótimo, uma combinação de "Náufrago" com "Apollo 13", com ecos que também remetem a "Gravidade", tem uma direção sensacional de Ridley Scott (que, é bom lembrar, fez "Alien" e "Blade Runner") na qual ele usa com propriedade os recursos do 3D, e um elenco que poucos, muitos poucos, diretores são hoje capazes de dispor.
Matt Damon está perfeito. É difícil imaginar outro ator melhor para ser Mark Watney, o astronauta dado como morto por sua equipe que é deixado para trás no planeta vermelho quando a missão é abortada.
Naturalmente simpático, Damon dá a expressão exata ao bom humor transbordante diante das adversidades que o personagem demonstrava já nas páginas do livro.
Na verdade, o elenco tem tanta gente boa, que dá uma impressão de que alguns podiam até ter aparecido por mais tempo (embora o foco seja sempre -e não tinha como ser diferente -Mark Watney):
Jessica Chastain, como a durona comandante Lewis está incrível; Michael Peña, outros dos colegas astronautas de Watney, também, sensacional; dentre os personagens em terra, há Chiwetel Ejiofor, ótimo como Dr. Kapoor e o sempre excelente Jeff Daniel, como diretor Ted Sanders.
A única presença que destoa do livro é Mackenzie Davis como Mindy, a mocinha tímida que é a primeira a descobrir que Mark ainda está vivo. Ela não é, nem de longe, tão vulnerável e encantadora quanto a personagem no livro, mas tenho a impressão que isso é mais escolha do diretor do que da atuação da moça.
Tecnicamente perfeito, "Perdido em Marte" deve fazer bonito entre as categorias técnicas do próximo Oscar, se bem que no fim do ano temos um novo "Star Wars", então...