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domingo, 24 de maio de 2020

A Força do Destino

Não é por acaso que este filme desperta, nas plateias atuais, um certo sentimento de ‘déjà vu’: O filme “Annapolis”, de 2006, dirigido por Justin Lin e estrelado por James Franco, reaproveita muitos elementos de sua premissa básica na maior cara-de-pau!
Contudo, há que se tirar o chapéu para o belo trabalho de narrativa e dramaturgia executado pelo diretor Taylor Hackford aqui. Desde jovem, o protagonista Zack Mayo (Richard Gere) teve de conviver com a negligência paterna (seu pai, um marinheiro vivido por Robert Loggia, o arrastou ainda criança por todas as bases navais e os prostítbulos por onde passou) e a ausência materna (sua mãe suicidou-se muito cedo) –background do protagonista exposto já nos breves cinco minutos que antecipam os créditos iniciais e o título.
Consciente do próprio desamparo, Mayo refugia-se no militarismo: Em Washington, ele entra para um rigoroso curso preparatório de oficiais da marinha norte-americana.
O curso de 13 semanas é dos mais árduos e penosos, como já fica evidente na apresentação de seu comandante, o impraticável e por vezes intolerável Sargento Foley (Louis Gosset Jr. vencedor do Oscar 1983 de Melhor Ator Coadjuvante num personagem que a princípio lembra o de R. Lee Ermey em “Nascido Para Matar”).
Nunca sai do foco de seu diretor as facetas dramáticas da trajetória de Mayo ao longo do treinamento –onde ele passa a nutrir uma forte amizade com Worley, o filho de um oficial interpretado por David Keith –no entanto, Taylor Hackford sempre se mostrou mais fascinado pelos dramas comuns do proletariado e menos pelos percalços atribulados da elite.
Talvez seja por isso que, a partir de determinado ponto, “A Força do Destino” ombreia o protagonismo de Zakc Mayo com o da garota que ele ama: A operária de classe baixa Paula interpretada (e muito bem!) por Debra Winger.
Filha bastarda de um caso que sua mãe (Grace Zabriskie, de “Império dos Sonhos”) teve também com um cadete do curso de oficiais, Paula, ao lado da amiga Lynette (a bela Lisa Blount), mora na cidade litorânea próxima ao centro de treinamentos e vive no que parece ser um ciclo vicioso; todo o ano, novos recrutas veem e vão, numa rota em direção a uma vida estável e bem remunerada de oficial, e para uma moça de família pobre, a chance de fisgar um marido com vida estabelecida surge nos flertes com os recrutas nos bares locais.
Mas, é uma via de mão dupla: Como as moças podem saber quando estão apenas sendo usadas pelos rapazes? Como ter certeza de que eles não as descartarão assim que se formarem, mesmo estando até grávidas (como ocorreu com sua mãe)?
Para Lynette, que passa a se envolver com Worley, a resposta é simples: Ela deve tentar a sorte e engravidar do namoradinho da vez antes que ele a abandone.
Para Paula, não é tão simples: Ela se recusa a usar de tal desonestidade com Mayo, mesmo que em sua inconstância, ele não forneça maiores certezas sobre seu futuro juntos. Paula é, portanto, a mocinha nobre e virtuosa que identifica, na relação com o rapaz galante (ainda que torturado) um sentimento genuíno no qual deseja colocar suas esperanças.
Quando encontra esse mote –que evidentemente lhe desperta imenso interesse –Taylor Hackford ergue seu filme ao redor dele, alternando o romance entre Mayo e Paula com o treinamento dele, no qual, a medida que as fases derradeiras do curso se aproximam, as indisposições com o exigente Sgt. Foley se multiplicam. Sobretudo, porque Foley descobre uma espécie de ‘mercado negro’ montado por Mayo para lucrar algum dinheiro entre os recrutas; e a reação de Foley a esse delito é enérgica –e é curioso notar que Gosset Jr. levou o Oscar por um personagem atípico que não parece demonstrar emoções humanas. Só parece: Basta reparar na maneira notável com que o ator faz transparecer pequenos indícios de humanidade em meio ao turbilhão de loquacidade militar que ele declama em cima dos recrutas.
Uma mistura imprevista, mas eficaz, de romantismo e dramaticidade rasgada (a balada “Up Where We Belong” ganhou o Oscar de Melhor Canção), o filme de Hackford obteve êxito considerável entre o público jovem dos anos 1980, alçando ao estrelato os então jovens Richard Gere e Debra Winger e criando uma inadvertida espécie de fórmula para o sucesso, afinal, é todo calcado em sua estrutura narrativa o blockbuster “Top Gun”, com Tom Cruise, lançado quatro anos depois!

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Laços de Ternura

Embora mais relacionado ao gênero de comédia, o diretor James L. Brooks obteve sua aclamação (precipitada alguns diriam) com um autêntico melodrama.
Em todos os ângulos através dos quais possa ser enxergado, “Laços de Ternura” é um registro emotivo da relação cheia de idas e vindas entre uma mãe e uma filha ao longo dos anos, contudo, a habilidade com comédia de Brooks se faz notar aqui na condução de momentos essencialmente sérios e dramáticos embevecidos, porém, de uma compreensão espirituosa das ironias do cotidiano –e isso, ele soube inclusive estender para as inspiradas atuações de Shirley MacLaine (vencedora do Oscar de Melhor Atriz) e de Debra Winger.
Elas vivem, respectivamente, Aurora e Emma, mãe e filha que não encontram uma sintonia harmoniosa em sua relação desde o início. Se na infância de Emma isso se manifestava na forma de imposições ocasionalmente absurdas de parte de Aurora, na fase adulta, isso se dá por meio do afastamento.
A narrativa acompanha a trajetória das duas em paralelo, mas habilmente entrelaçando-as por meio de manobras sutis e inteligentes: Aurora, lutando estoicamente contra a crise de meia idade, conhece um ex-astronauta (Jack Nicholson, vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), também ele numa fase de angústia para com o próprio envelhecimento (seduz desesperadamente jovens moças com suas histórias da glória passada), e com ele acaba travando um relutante e caloroso romance. Emma, por sua vez, desvencilha-se da influência insistente da mãe, casa-se com um jovem namorado (Jeff Daniels) de quem tem dois filhos e constrói assim uma vida adulta, com todas as indisposições que uma vida adulta tem –o marido a trai durante a segunda gravidez e ela, entre o ressentimento e a passividade, arranja um amante também (interpretado pelo ótimo John Lithgow).
Essa atenção do diretor Brooks aos pequenos detalhes parece se justificar na terceira e última parte do filme, quando descobrimos que Emma sofre de câncer, e então, sem qualquer predisposição a atender as demandas emocionais e nada realistas do público, ele concede um arremate admirável a esse trabalho amargo e humano.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

O Céu Que Nos Protege

Conseqüência da pressão que certamente Bernardo Bertolucci experimentou depois da consagração obtida junto ao Oscar de seu “O Último Imperador”, esta grande obra intimista travestida de épico é um esforço para manter as características de seu consagrado filme anterior –características estas que, mesmo em “O Último Imperador”, se mostravam desiguais em relação à filmografia de Bertolucci.
Em “O Céu Que Nos Protege”, ele reúne novamente um elenco internacional de escolhas inusitadas e extravagantes –com uma inclinação maior para o alternativo do que para o comercial –conta uma história de elementos biográficos, mas transfigurada de liberdades poéticas (baseada no livro de Paul Bowles que teria construído a trama a partir de um episódio vivido por ele e por sua esposa, Jane), e tempera tudo com o exotismo que descobriu em sua superprodução.
O único ingrediente que parece remeter à fase anterior de Bertolucci é o erotismo.
“O Céu Que Nos Protege” começa com várias cenas documentais nos anos 1930 da cidade de Nova York e seus cidadãos conforme vão sendo exibidos os créditos iniciais. Ao fim dessas cenas, um barco parte da grande metrópole, um barco onde estão os protagonistas.
Essas seqüências ilustram, antes de tudo, as facetas cosmopolitas da civilização que os personagens deixam para trás. O casal Port e Kit Moresby (ele, um compositor numa fase desiludida com sua arte; ela, uma escritora buscando a conciliação entre o mundo e o inconformismo do marido) parte assim, para o Marrocos, e sua história se desenrola nesse ambiente tão distinto do mundo ocidental de onde vieram.
Com eles também está Turner (Campbell Scott), um amigo que parece não perceber a tremenda inconveniência de sua presença naquela jornada.
Port (na atuação niilista e inquisitiva de John Malkovich) padece de um desdém crônico da civilização, e busca um afastamento dela migrando para regiões cada vez mais remotas e longínquas do Saara, levando consigo sua esposa Kit (Debra Winger) e o amigo Turner, que logo dela se tornará amante.
Essa jornada de afastamento os leva à muitos lugares –Tânger, Messad, além das mais distantes localidades –sempre registrados com o habitual esplendor da direção de fotografia de Vittorio Storaro, criteriosa nas modulações de filtros de cores a refletir o estado de espírito dos personagens.
E constantemente às voltas com um rapaz estranho, irrequieto e perdulário (Timothy Spall) e sua mãe intratável e sôfrega (Jill Bennett) –ocasionais lembretes de Bertolucci das patéticas vicissitudes ocidentais.
Imerso em lugarejos mais e mais inacessíveis, Port contrai febre tifóide e apesar dos esforços de Kit, ele morre.
Tomada de uma angústia avassaladora, é Kit quem agora experimentará, sozinha, o mesmo ímpeto de fuga que antes consumia Port: Ela se deixa levar em uma longa viagem deserto afora numa caravana de tuaregues, e termina de certa maneira encontrando o extremo de não-civilização que o marido procurava. Uma vila onde o capitalismo (leia-se, o seu dinheiro) não significa nada, onde a comunicação com os moradores é inexistente (todo esse longo trecho final do filme é, portanto, filmado por Bertolucci com uma ausência plena e admirável de diálogos) e cujos costumes ela não consegue compreender. Mas, é também um local onde ela experimenta o ápice de sua expiação, e também da libertação do sexo.
Um regresso aos instintos mais primitivos do ser humano.
Ao fim, trazida de volta por Turner e pelos funcionários da Embaixada Norte-Americana, Kit retorna ao quarto onde ela e Port se hospedaram no início, somente para compreender em perspectiva o quanto tudo mudou. Ela retorna novamente ao café onde ouviu de Port, também no início, o relato de um sonho onde ele previa a própria morte e reencontra o senhor anônimo que o ouviu interessado –ele é o próprio Paul Bowles que, aqui e ali, Bertolucci coloca como narrador em off: Sua voz encerra com amenidade a jornada de Kit para além do Ocidente, do capitalismo, do mundo moderno e de volta, renovada e viva –desfecho ao qual seu marido infelizmente não conseguiu chegar.