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sábado, 27 de julho de 2024

Deadpool & Wolverine


 E já aviso de antemão, leitor ocasional ou não, este texto contém os famigerados spoilers, logo, se você aprecia uma experiência cinematográfica com surpresas intactas, leia depois de ter visto o filme!

Após os eventos de “Deadpool 2”, o mercenário Wade Wilson, mais conhecido como Deadpool (Ryan Reynoldos, desempenhando em estado de graça como sempre) procura por Happy Hogan (Jon Favreau) a fim de ingressar nos Vingadores –naquela época, 2018, vale lembrar, além dos acontecimentos de “Deadpool 2”, ainda estávamos às vésperas dos eventos bombásticos de “Vingadores-Guerra Infinita”. Durante a cena –que mais lembra uma mera entrevista de emprego –Happy convence Wade de que ele não necessariamente leva jeito para ser superherói (não no sentido altruísta do termo) e acaba convencendo-o a aposentar seu uniforme. De volta à sua realidade (para a qual ele pode ir e voltar graças ao aparelho fornecido por Cable em “Deadpool 2”, diga-se), Wade se torna um vendedor de carros e assim passam-se seis anos.

É no aniversário de Wade –no qual, providencialmente se reúnem os seus melhores amigos, ou seja, os coadjuvantes que estiveram ao lado dele em seus dois filmes –que o filme, agora dirigido por Shawn Levy, começa de verdade: Wade é visitado por agentes da AVT (Agência de Variância Temporal, mostrada na série “Loki”) e levado até sua sede onde recebe do funcionário Paradox (Matthew McFadyen, de "Orgulho e Preconceito") uma notícia indigesta. O seu universo (que corresponde ao universo mais ou menos bagunçado de filmes da Fox) está morrendo! Segundo Paradox, todo universo tem uma ‘âncora’, um ser tão essencial àquela realidade que sua morte pode levar à desintegração de todo o universo. A ‘âncora’ do universo de Wade morreu –no caso, Wolverine (vivido como todo mundo sabe, com excelência por Hugh Jackman, há uns vinte anos), no filme “Logan”. Dessa forma, Wade, agora uma vez mais dentro do traje de Deadpool, precisa quebrar as regras da própria AVT (que o tinha levado para lá a fim de chamá-lo a integrar a Linha Sagrada, isto é, o universo oficial do MCU) para encontrar nas infinitas realidades alternativas do multiverso, um substituto apropriado, uma ‘âncora’ que substitua aquela que seu universo perdeu –em outras palavras, um outro Wolverine!

E começam aí, então, o festival de referências que fazem de “Deadpool & Wolverine” uma obra assim tão sedutora: Nas variações de Wolverine que acompanhamos Deadpool encontrar com tanta descontração, vemos versões em live-action de segmentos que farão a felicidade dos fãs de quadrinhos como o Wolverine extraído de “A Era do Apocalypse” (na qual ele não possui uma das mãos!); a versão conhecida como ‘Caolho’; uma versão interpretada pelo ex-Superman Henry Cavill (!); uma recriação de sua primeira aparição nas HQs, quando enfrentou o Hulk; e até mesmo a recriação de uma das capas clássicas das revistas, onde foi crucificado num imenso X de madeira. Ao fim dessa busca, resta somente uma versão apropriada de Wolverine para Deadpool levar consigo, uma versão renegada (ainda que trajando, enfim, o icônico colante amarelo dos quadrinhos e das animações), junto da qual ele retorna à AVT, somente para serem enviados por Paradox ao Voidt, ou Vazio –se você assistiu a série “Loki”, então sabe que trata-se de uma dimensão onde são despejados os sobreviventes indesejados de realidades condenadas que, por algum motivo ou outro, conseguem escapar da eventual obliteração.

Contudo, o Voidt agora está diferente: Por conta de acontecimentos bem reais (no caso, a compra dos estúdios da 20th Century Fox pela própria Walt Disney Company e, portanto, a aquisição desta de todas as propriedades intelectuais daquele estúdio), o Voidt está repleto de personagens oriundos do Universo Marvel da Fox nos cinemas, que reúne os filmes dos X-Men, (num total de onze filmes) os do Quarteto Fantástico (ambas as versões de 2005 e 2015) e os do Deadpool. E claro que, com  isso, o filme de Shawn Levy não haverá de desperdiçar a oportunidade de entregar sequências extasiantes aos expectadores, que apelam ao fã com aparições surpresas (algumas absolutamente sensacionais) capazes de despertar a mesma euforia indescritível que algumas cenas de “Vingadores-Ultimato” o fizeram há cinco anos atrás.

Embora seja uma obra longe da perfeição –e muitos críticos sisudos já correram apontar isso, destacando como exemplo a superficialidade do roteiro em inúmeros trechos, ignorando o fato de que as filmagens de “Deadpool & Wolverine” se sucederam durante a greve dos roteiristas de Hollywood em 2023, o que impediu muitas cenas de ganharem o devido polimento –o filme de Shawn Levy ainda assim tem bom senso e perspicácia o suficiente para sinalizar ao público com tudo aquilo que funcionou muito bem antes deles: O humor incontido e inconsequente de seu irreprimível protagonista (o filme tem a mais alta classificação indicativa permitida pela Marvel Studios até então); as referências inúmeras, algumas um tanto difíceis de se apanhar pelos não-iniciados nos filmes desse certamente vasto universo de heróis; e as sequências vibrantes, feitas para entregar instantes, situações e manobras muito esperadas e almejadas pelos fãs de carteirinha que provavelmente sairão acalentados e saciados do cinema, como há muito tempo não faziam, sob a alegação de que a Marvel havia perdido o jeito para agradar seu público.

“Deadpool & Wolverine” vem provar que não: Ainda há muitas emoções e surpresas a serem entregues ao público. Desde que sejam concebidas por artesões absolutamente capazes e competentes, e tão apaixonados pelo material que manejam quanto seus fiéis expectadores.

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

A Incrível Vida de Adaline


 É possível que hajam méritos bastante abstratos no fato de que “A Incrível Vida de Adaline”, com sua construção de contos de fadas e todos os seus reflexos condicionados de comédia romântica, seja assim tão envolvente e agradável.

Grande parte disso vem, certamente, da escolha feliz de Blake Lively para o papel da protagonista: Linda atriz, dona de um carisma incomum –uma simpatia mesclada a um insolúvel encanto –e consideravelmente talentosa, Blake tem, além de tudo, uma fisionomia delicada e clássica, a lembrar uma atriz dos anos 1940, o que casa com perfeição à personagem que interpreta, uma quase versão feminina de “O Curioso Caso de Benjamin Button”; Adaline Bowman, afinal, adquiriu em algum momento de sua vida (e por razões mais mirabolantes do que se pode imaginar) uma condição singular –ela simplesmente não envelhece, congelada na mesma idade (29 anos) e conservando uma beleza acachapante.

Se em princípio, esse detalhe –percebido por ela, logicamente, à longo prazo –parece ser uma espécie de benção, com o passar do tempo Adaline percebe tratar-se de uma maldição.

Ela teme ser isolada, dissecada e estudada, privada de seu direito de viver caso seja descoberta, mas, mesmo deixando sua condição em segredo, ela não consegue viver: De tempos em tempos, ela precisa deixar o lugar onde vive e trabalha, e as pessoas com quem se relaciona quando o transcorrer do tempo começa a denunciar o contraste entre aqueles que envelhecem à sua volta, enquanto nada acontece a ela (até mesmo sua filha, vivida de um certo ponto em diante pela octogenária Ellen Burstyn, acaba envelhecendo a ponto de aparentar ser a avó de Adaline!).

A trajetória dessa incomum protagonista chega num ponto crucial quando, nos dias atuais, ela verdadeiramente se apaixona por Ellis Jones (Michiel Ulsman, de “Livre” e “A Jovem Rainha Victoria”), com quem ela almeja, de alguma forma, casar-se. Embora Adaline não se permita, por algum tempo, pensar no inevitável –que, em algum momento, Ellis irá envelhecer e ela não –a obrigação da consciência vem até ela: Quando fica noiva de Ellis, Adaline conhece a família dele, cujo pai, William (Harrison Ford) veio a ser namorado de Adaline a muitos anos atrás (!). Nos flashbacks que ilustram o romance que tiveram, William é interpretado por Anthony Ingruber, jovem ator que traz, deveras, uma espantosa semelhança com Harrison Ford.

O fato de Adaline mudar de identidade justamente para acobertar de todos sua idade imutável proporciona a ela fingir que tudo é uma grande coincidência –que ela é filha da mulher que William um dia amou e não a própria mulher!

No entanto, como regem as orientações melodramáticas do cinema comercial –e, apesar de todo o potencial de sua premissa, é nesse nicho convencional que “A Incrível Vida de Adaline” se insere –a verdade acaba vindo a tona, o que obriga Adaline a revelar, pela primeira vez, a sua incrível história, não só a William, mas, a Ellis também.

Para tornar essas concessões narrativas um pouco mais difíceis de engolir (ou para ir de encontro aos anseios de uma parcela mais acomodada da plateia, como queira), o diretor Lee Toland Krieger arruma, já perto do desfecho do filme, uma forma de Adaline voltar ao normal, à inapelável condição humana na qual envelhecerá e morrerá, para que possa viver ao lado de seu príncipe encantado, num infalível final feliz, sem que escolhas dolorosas continuem sendo tomadas.

E sem que os realizadores precisem se defrontar com impasses que exigirão alguma ousadia que o filme não se dispõe a ter.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Lanterna Verde


 O cinema comercial é um mar melindroso de se navegar, mais ainda se o seu objetivo vai além do sucesso propriamente dito de um único filme, mas almeja plantar uma semente que leve a toda uma franquia. O público em geral tem um paladar que pede por fórmulas confortáveis, mas que não se prendam à repetição mecânica, sendo temperadas com alguma ousadia e contravenção para se fazer minimamente surpreendente em algum momento.

A Marvel Studios fez escola, e sucesso estrondoso, sabendo administrar esse cardápio.

Muitos foram os que tentaram e não conseguiram. Nesse sentido, uma das primeiras tentativas da DC Comics –que, pelo seu catálogo vasto de conhecidos super-heróis, era a aposta mais óbvia à seguir os passos da Marvel –foi esta produção de 2011 que, pelo perfil dos envolvidos (era dirigida por Martin Campbell, que quatro anos antes entregou o fenomenal “Cassino Royale”; e estrelada por Ryan Reynolds, então um astro em potencial), pelo apelo de seu personagem (uma criação uma bocado original que, nos quadrinhos, ombreia em relevância tanto com Superman quanto com Batman), e pelos indícios inicialmente demonstrados pelo próprio filme (cujas primeiras imagens e trailers apontavam para uma realização visualmente caprichada, com ação e personalidade), prometia acender o estopim que poderia colocar os heróis da DC no cinema.

Se tudo parecia no lugar –e, de certa maneira, realmente estava –“Lanterna Verde” tornou-se uma prova de que, se há um elemento que garante a qualidade (ou falta dela) em um projeto desde sua gênese, este é o roteiro: Escrito pelo quinteto Greg Berlanti, Marc Guggenheim, John Broome, Michael Greenberg e Michael Goldenberg, “Lanterna Verde” desperdiça as facetas épicas embutidas na origem do herói (da qual este filme se incumbe sem maiores entusiasmos) para tentar fazer uma comédia inapropriada na maior parte do tempo –e isso acaba contaminando o bom diretor Campbell que, se consegue imprimir sua experiência na execução de cenas flúidas e bem filmadas, equivoca-se ao optar por um estilo diferenciado de edição onde sequências distintas, como lembranças, se sobrepõem à outras cenas sem um propósito narrativo que as entrelaçasse e sem uma emoção que as fizesse válidas.

Em meio à todo esse equívoco, Ryan Reynolds interpreta o piloto Hal Jordan, cujo destino, ele mal sabe, é tornar-se um super-herói: Nos confins da galáxia, a criatura Paralax, um mal constituído de medo (ou, ao menos, essa é a pífia definição que ele recebe...) inicia o seu trajeto para consumir mundos. A Tropa dos Lanternas Verdes, guardiões de vários setores da galáxia, é enviada para detê-lo, mas Abin Sur (Temuera Morrison, de “Aquaman”), o lanterna verde do setor onde está a Terra, é atingido e cai, moribundo, em nosso planeta. Seguindo o protocolo, ele envia seu poderoso anel mágico para procurar uma alma corajosa e benevolente, digna de substituí-lo, e eis que ele escolhe Hal Jordan.

Dotados desses novos poderes –que, como é de se supor, vai gradativamente aprendendo a usar –Jordan entra em contato com os alienígenas da Tropa de Lanternas Verdes –entre os quais Kilowog (voz de Michael Clarke Duncan), Tomar-Re (voz de Geoffrey Rush) e Sinestro (Mark Strong, num personagem que seria o possível vilão da continuação) –passa a treinar para seu iminente confronto com Paralax –no qual, é claro, ele desempenhará papel crucial! –e descobre-se o herói que jamais imaginou ser.

Em algum momento dessa jornada, existem os desnecessários acréscimos de um núcleo humano, a dar conta de uma trama sucedida aqui na Terra, e que mostra o vilanesco Hector Hammond (Peter Sarsgaard) sendo contaminado pela matéria que gerou Paralax e virando, ele próprio, o monstrengo da vez, ameaçando com isso a vida de seu pai, o Senador Hammond (Tim Robbins) e da agente do governo Amanda Waller (Angela Bassett, num papel interpretado depois por Viola Davis em “Esquadrão Suicida”); há também a introdução do inevitável interesse romântico do herói, nas curvas sensacionais de Carol Ferris (a belíssima Blake Lively, que depois casou-se com Reynolds na vida real).

Não faltam boas intenções à “Lanterna Verde”, e nem tampouco possibilidades, sejam elas artísticas ou técnicas, que o tivessem transformado num grande filme, todavia, a ineficiência atroz de seu roteiro e sua sucessão quase inacreditável de lapsos (inclusive, alguns grotescos de inverossimilhança e continuidade) o sabotam de tal maneira que, chegando perto do fim, a sacada derradeira e patética com a qual o bem vence o mal já nem espanta mais o público, insensibilizado por um filme tão erroneamente construído.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Quatro Amigas e Um Jeans Viajante


A narrativa do filme de Ken Kwapis é tão adocicada e feminina quanto o livro de Ann Brashares que lhe inspirou. Na esteira das adaptações recentes de best-sellers recentes, o filme por vezes abre mão da própria autenticidade para transpor o máximo possível das circunstâncias literárias da trama para a tela –uma fidelidade canina que o torna um filem pequeno e asséptico.
Todavia, se a simpatia e a profunda identificação com seu público alvo eram os méritos do livro, eles continuam a ser do filme também.
Nascidas praticamente no mesmo período, cujas mães frequentaram o mesmo curso aeróbico de pré-natal, as quatro jovens protagonistas não podiam ser mais diversificadas entre si: A loira e impetuosa Bridget (Blake Lively); a niilista e questionadora Tibby (Amber Tamblyn, de “O Chamado” e “127 Horas”), que é também narradora do filme; a sonhadora e tímida Lena (Alexis Bledel, de “Sin City” e da série “Gilmore Girls”); e a descendente de porto-riquenhos Carmen (America Ferrera, da série “Ugly Betty”).
A premissa, contudo, não gira em torno de sua união, mas de um ocasional afastamento: Durante as férias de verão, Lena vai visitar familiares na Grécia; Bridget parte para um torneio de futebol no ensolarado México; Carmen vai passar algum tempo com o pai (Bradley Whitford, de “Corra!”), divorciado da mãe (Rachel Ticotin, de “O Vingador do Futuro”), na cidadezinha de Charleston; e Tibby, que ficou em casa, decide dividir seu tempo entre um enfadonho trabalho no supermercado e o projeto de um documentário que ela parece incapaz de concluir.
E o que as amigas inventam para encontrar um meio de ficar sempre próximas, mesmo indo para lugares e destinos tão diferentes?
Uma calça jeans, encontrada num brechó lhes dá, digamos, a dica: Apesar de seus tamanhos e alturas diferentes, o jeans serve em todas elas, algo que as quatro jovens interpretam como um sinal mágico (!), e assim firmam um pacto, por meio do qual, graças à eficiência dos correios, irão revezar o jeans nos quatro lugares em que se encontram.
Embevecida de fofura adolescente, a narrativa habilmente faz com que as intervenções do jeans sejam, de fato, pertinentes à trama de cada uma: Lena descobre usando-o que o jovem (Michael Rady) por quem eventualmente se enamorou na Grécia vem a ser –no melhor estilo “Romeu e Julieta” –membro de uma família inimiga da sua; para Bridget, o jeans chega no exato momento em que precisa reunir coragem para prosseguir em seu flerte com o treinador de um dos times (Mike Vogel, de “Cloverfield-Monstro”); já Carmem, que descobriu que seu pai tem uma nova esposa (Nancy Travis), uma nova família e está de casamento marcado para breve, acaba usando da segurança proporcionada pelo jeans para assumir o ressentimento contido da situação; e Tibby, justamente por um pequeno equívoco na entrega postal do jeans acaba conhecendo Bayley (Jenna Boyd), uma jovem radiante, mas com um trágico segredo, que irá operar uma mudança na sua vida e na sua forma de encará-la.
Pertinente ao tratar temas corriqueiros nos chamados ‘filmes de adolescentes’ com mais profundidade e maturidade que o normal nesse sub-gênero, este bom trabalho –preciso e eficaz ao público que se dirige –se sustenta, sobretudo, no carisma e na habilidade de seu fantástico quarteto de atrizes que exploram as variações de seus dramas pessoais, seja em conjunto, seja individualmente, com desenvoltura, graça e encanto.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Elvis & Anabelle - O Despertar de Um Amor


Talvez o dado mais notável de “Elvis & Anabelle” seja seu diretor de fotografia: O veterano, premiado e hoje já falecido Conrad Hall (que venceu o Oscar da categoria por “Beleza Americana”, entre outras ocasiões).
Realmente, mais do que seu roteiro abarrotado de situações forçosamente disfuncionais para um romance entre indivíduos incompatíveis; mais do que sua condução algo desanimada do diretor Will Geiger (que é também o roteirista), é a direção de fotografia, sempre construindo imagens sedutoras e encontrando os enquadramentos mais envolventes, que consegue extrair o máximo de potencial da narrativa.
Elvis Moreau (o jovem Max Minghella, filho do diretor Anthony Minghella, de “O Paciente Inglês”) é um jovem taciturno, anti-social e solitário. Mesmo as circunstâncias que o fazem ser assim não fogem muito do clichê: Ele mora e trabalha numa casa funerária, embalsamando com perícia obsessiva os cadáveres no lugar do pai já debilitado fisicamente (vivido de forma comovente por Joe Mantegna que havia tempos não dava as caras nas telas).
A outra ponta do inevitável par romântico da história é Anabelle Leigh (Blake Lively, na época em que ainda fazia o seriado “Gossip Girl”) cuja caracterização também tem lá sua própria dose de clichê: Anabelle é linda e, para tanto, frequenta concursos de beleza que a tornam popular na cidade e preenchem de orgulho sua mãe (Mary Steenburgen, muito bonita), outrora também uma miss.
Mas... ei! Anabelle se ressente dessa vida! Isso não a faz feliz.
Não que ela ou Elvis façam muito esforço para mudarem suas rotinas.
O que ameaça levar suas vidas a uma transformação é, na verdade, um acontecimento bastante arbitrário e até desonesto do roteiro: Na noite em que é coroada como vencedora do concurso Miss Texas, Anabelle cai morta (!).
Ou, pelo menos, é o que parece: Levada à funerária onde Elvis trabalha para que seja embalsamada, ela subitamente desperta –do que aparentemente foi um caso extremamente raro registrado pela ciência (em cujas explicações o filme tem pouquíssima intenção de se demorar).
O marasmo periga se abater sobre a narrativa novamente –um perigo que ronda o filme o tempo todo –até que sem razões muito claras, Anabelle resolve fugir de casa e ficar morando com Elvis e seu pai, tornando tudo, além de enfadonho, previsível.
“Elvis & Anabelle” é aquilo que parece: Um romance entre o jovem introspectivo e sisudo e a garota popular e inalcançável que as artimanhas da narrativa a farão ‘alcançável’, para então, lá pelas tantas, inventar um pretexto muito do mal explicado para eles tornarem a se afastar. Ainda que o roteiro e a direção façam malabarismos para não parecer que é bem isso –e mesmo nessa tentativa, ele falha!
Dessa forma, seu maior mérito –a direção de fotografia de Conrad Hall –acaba gerando um efeito colateral: Dono de imagens bem concebidas e com frequência encantadoras (ainda mais quando Blake Lively está em cena), o filme acaba atraindo o expectador por um suposto primor que no final das contas ele não tem.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Por Trás dos Seus Olhos


O filme do diretor Marc Foster lembra sistematicamente o dinamarquês “Blind” (ao mostrar, em sua primeira parte, uma bela mulher a enfrentar os desafios domésticos e existenciais da cegueira), o thriller “Blink-Num Piscar de Olhos” (ao devolver, a essa mesma protagonista, a capacidade de visão e, a partir daí, engatar uma marcha de suspense), e “EnsaioSobre A Cegueira”, de Fernando Meirelles (nos recursos visuais que tenta empregar para simular a impressão subjetiva da personagem, e nas intenções reflexivas de sua condição que, aqui, nunca se concretizam satisfatoriamente).
Gina (a bela e minimalista Blake Lively) sofreu um acidente quando criança que a fez perder a visão. Aos vinte e poucos anos, ela jamais viu o próprio reflexo num espelho, ou mesmo o rosto do marido James (Jason Clarke) com quem vive na Tailândia –registrada, neste filme, como um lugar onde se esbarra com frequência em americanos (!).
Quando o Dr. Hugues (Danny Huston) aparece com a possibilidade de um transplante de córneas –e, por consequência, com a possibilidade de Gina voltar a enxergar –algo, inicialmente indefinível começa a se transformar na dinâmica do casamento entre ela e James.
Se antes ele era inteiramente vulnerável e dependente, a partir do momento em que recupera a visão, Gina passa a demonstrar auto-confiança, independência e opinião próprias –o que, sem ela notar, começam a minar a masculinidade do próprio marido.
É James, querendo a volta de seu casamento como era antes, quem introduz os primeiros elementos de suspense na narrativa.
Estaria ele conspirando –na provável adulteração dos remédios de Gina –para que sua cegueira retornasse?
Apesar das possibilidades promissoras na premissa, o diretor Marc Foster contorna o teor instigante obtido pelos realizadores dos filmes citados acima optando por algo que quase descamba para um melodrama, arrastando sua condução em cenas que desperdiçam o potencial sufocante da narrativa para se concentrar em lamentações domésticas e questões melancólicas da vida a dois culminando em obviedades como o adultério ou a represália nos animais de estimação.
Uma pena: A julgar pelo afinco demonstrado por Blake Lively dava para obter algo muito melhor que isso.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Selvagens

Entre seus trabalhos voltados para uma abordagem algo pessoal de fatos históricos (que, conforme ele envelhece, foram adquirindo cada vez mais intervalos de tempo entre si), o diretor Oliver Stone costuma encaixar um ou outro filme menor, mais despretensioso, no qual ele se encarrega somente de testar sua desenvoltura para relatos ficcionais –sem nunca esquecer sua asséptica tendência para o sensacionalismo.
Grandes amigos, Ben (Aaron Taylor-Johnson) e Chon (Taylor Kistch) não só dividem a mesma mulher, a esfuziante O (Blake Lively, num papel que quase foi de Jennifer Lawrence), como também o mesmo negócio como pequenos traficantes de drogas na Costa Oeste dos EUA. Mas sua prosperidade, bem como a qualidade de seu produto, chama a atenção do Cartel de Baja, cujos bandidões (retratados, sobretudo, na figura curiosa, paradoxalmente ameaçadora e doméstica da personagem de Salma Hayek) sequestram O para coagir os dois a tornarem-se seus empregados.
Eles elaboram um plano explosivo para reavê-la, que envolve o corrupto agente do FBI vivido por John Travolta e o pernicioso capanga interpretado por Benicio Del Toro.
Despido de suas ideologias políticas discursivas, mas não de seu estilo áspero e ácido para contar uma trama de crime e ação repleta de excessos, Stone arquiteta este relato quase banal –ainda que não destituído de seu costumeiro impacto e choque –onde, como sempre, ele se esbalda na exposição contínua da imoralidade de seus personagens.
Tão mais pecaminosos eles são (e nesse sentido, os personagens de Travolta e Hayek são exemplares), mais paradoxalmente indulgente e sádico é o castigo que Stone para eles elabora.
Pode divertir o espectador que não se incomodar com esses exageros.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Águas Rasas

Filmes comerciais em geral reúnem conceitos em torno dos quais a trama respira e se impõe para consolidar o filme em si. Por tratarem-se de conceitos, normalmente essa manobra resulta em produtos fracos do ponto de vista temático –quando muito, eles são batidos.
É mais ou menos o caso deste suspense até que eficiente, protagonizado por uma atriz das mais funcionais dentre os jovens talentos atuais: A bela e competente Blake Lively.
De imediato, as tomadas do diretor Jaume Collet-Serra lembram os artifícios empregados por Steven Spielberg, quarenta anos antes, em “Tubarão” –e definitivamente não há como realizar um filme sobre esses perigos do mar sem evitar a comparação com essa obra seminal de Spielberg.
Collet-Serra até se sai bem; compõe um visual caprichado –prerrogativa básica dos altamente orçados blockbusters de hoje –e cria um diversificado trabalho de cena, nas quais as tomadas desde o início bucólico investigam os detalhes mais banais (chega a lembrar certos aspectos da direção de fotografia de Emmanuel Lubezki em “A Árvore da Vida”), e constrói uma atmosfera de apreensão que se instala aos poucos com ocasionais interrupções de um alarmante silêncio em meio ao fluxo de sons do mar.
É com esse clima que acompanhamos a chegada de Nancy (Lively) numa praia afastada, deserta e paradisíaca disposta a surfar as ondas numa tentativa de espairecer pelo peso de algumas de suas escolhas –ela parece ter desistido de um curso de medicina após o falecimento da mãe, ou algo assim...
Sem ela notar, criam-se os elementos perfeitos para que ela caia em uma emboscada: Longe de tudo e de todos, sozinha, sem ter como pedir ajuda e munida de sua prancha em alto-mar, além de poucos utensílios (como o seu celular) que ela deixou na areia da praia. Quando ela é atacada na perna por um tubarão descomunal, tudo o que Nancy pode fazer é refugiar-se por algum tempo, sobre uns recifes no meio das águas, enquanto a maré alta não fizer com que aquele lugar fique imerso, e ela, exposta ao tubarão.
Há outro filme com o qual “Águas Rasas” parece estabelecer uma ligeira (e bota ligeira nisso!) similaridade: “Gravidade”.

Assim como na obra-prima de Alfonso Cuarón, temos uma personagem feminina, dilacerada por uma tragédia familiar, mas confrontada com uma situação tão improvável quanto inóspita, na qual as condições a levam à lutar por sua vida. Ainda que longe do virtuosismo extraordinário de Cuarón, o diretor Collet-Serra explora bem a angustiante ausência de recursos de sua protagonista, obtendo uma funcional carga de suspense, demonstrando bom-senso e noção de timing ao manter uma metragem enxuta (o filme tem rápidos oitenta e seis minutos de duração) e abrindo espaço para Blake Lively provar a atriz notável que é.