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quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Ronin

O caráter desmistificador deste filme de John Frankenheimer já aparece no prólogo, quando um letreiro esclarece o significado da palavra ‘ronin’ e descobrimos, ao contrário da romantização ocasionada, sobretudo, pelo cinema, que esta é a designação dos samurais desprovidos de mestre e, portanto, de honra e de respeito. São párias, foragidos e renegados.
Numa analogia que certamente remete a “O Samurai”, de Jean-Pierre Melville, é no fim das contas um grupo com tais características, o dos indivíduos misteriosos que se reúnem num bar em Paris na cena que de fato abre o filme.
Entre eles, está Sam que, na versatilidade que o fez célebre, Robert De Niro molda com maneirismos peculiares de um truculento herói de ação temperado de um fino senso de humor.
É o primeiro indício de algo realmente desigual que “Ronin” se propõe a entregar ao público: Para começo, este não é um filme de ação onde os intérpretes são escolhidos com base em seu físico musculoso, e suas aptidões para cenas de luta e de movimentação. Frankenheimer coloca para viver seus personagens atores bons de verdade: Natascha McElhone (de “O Show deTruman”, “Solaris” e a série “Californication”) como Deirdre; o francês Jean Reno como Vincent; Stellan Skarsgard como Gregor; Skipp Sudduth como Larry; e Sean Bean, numa rápida participação, como um dos efetivos contratados cujo evidente amadorismo logo tolhe sua presença no plano.
O nebuloso intuito é o de obter uma maleta lacrada de um conteúdo que ninguém conhece, mas todos almejam.
O filme de Frankenheimer se ambienta assim num mundo muito particular, povoado de espiões, missões secretas, regras e códigos muito próprios que se desdobram ocultos em meio à vida normal européia, e como acontece em “John Wick”, embora nos sejam fornecidas poucas informações acerca desse mundo, o diretor instiga nosso fascínio permitindo o vislumbre de pequenas partes dele.
Com esse expediente ele conduz a trama servindo suas prometidas cenas de ação aos poucos, sem arroubos súbitos –Frankenheimer não tem pressa. Tudo acontece quando ele julga essencial à narrativa acontecer.
Tal como a até esperada traição de um dos aliados quando o plano inicial é posto em prática; o que oferece a senha para uma perseguição espetacular que se sucede pela Europa central.
Agora, cientes do jogo duplo do ex-KGB Gregor, os ainda aliados Sam, Vincent e Deirdre precisam reestruturar-se para cumprir sua missão e não permitir que o conteúdo da maleta caia nas mãos dos russos –embora a própria Deirdre, tão sedutora (e por isso mesmo enganosamente confiável) represente interesses do ardiloso Seamus (Jonathan Pryce), um dissidente irlandês do IRA.
Um especialista em produções de ação de caráter sério e realista, John Frankenheimer sedimentou, com “Ronin”, o seu nome como um dos grandes artesãos cinematográficos dos anos 1990. Sua perícia inconteste nas cenas de tiroteio e de perseguição automobilística, bem como sua melindrosa e envolvente narrativa de espionagem cheia de subterfúgios e desdobramentos detalhados serviram de forte inspiração, na década seguinte à festejada “Trilogia Bourne”, e permaneceram, por algum tempo, como insuperáveis no gênero.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Histeria


Na reconstituição cheia de graça e de reflexos condicionados de comédia da verdadeira história da criação do vibrador (!), na qual o filme se baseia, encontra-se todas as características que tão bem definem as relações entre homens e mulheres, vistas até hoje com imprevistas incompatibilidades, e que sempre renderam discussões e reflexões a respeito dessas incongruências.
Acredite se quiser, são meados dos anos 1880 quando o jovem médico Mortimer Granville (Hugh Dancy) se vê demitido de mais uma ocupação quando tenta bater de frente com a inacreditável falta de aceitação que a medicina de então tinha em relação à descobertas científicas que hoje soam como óbvias –como o falta de que limpar as sujeiras de uma ferida evita as infecções.
Colecionador de empregos breves, ele almeja encontrar um lugar onde possa exercer a medicina com todo o idealismo e o altruísmo com que sempre sonhou.
Não chega a ser exatamente isso que ele encontra no consultório do Dr. Dalrymple (Jonathan Pryce). Na verdade, ele encontra um mentor em princípio mais razoável que os anteriores, uma oportunidade para casar bem e sem transtornos (com a prendada filha dele, a doce Emily, vivida pela bela Felicity Jones) e uma ocupação digna.
Todavia, esse é o dado inusitado: O Dr. Dalrymple atende mulheres, por ele e pelos demais de sua classe, diagnosticadas com histeria. Os sintomas são vastos (desde mau-humor, passando por explosões de raiva, até crises inexplicáveis de choro) e não se apresentam generalizados –daí a desconfiança do sensato Granville em relação ao diagnóstico –e a recomendação do Dr. Dalrymple é um tratamento, digamos, incomum: Um estímulo que o bom doutor (e, no caso, também Granville que se presta a auxiliá-lo) realiza nas partes baixas de suas clientes –e que é, mal disfarçadamente, uma espécie de masturbação!
É uma clientela que se multiplica rapidamente e que logo forma fila quilométrica na agenda do consultório, acarretando câimbras dolorosas na mão do jovem médico (!).
Entre a galhofa absurda encontrada nessa situação pouco usual (e verídica) e as intervenções da intensa segunda filha do Dr. Dalrymple, a feminista Charlotte (Maggie Gyllenhaal), por quem aos poucos Granville vai nutrindo mais interesse do que por Emily, o rapaz se dá conta da eficácia que teria um aparelho elaborado justamente para tal uso; estimular as mulheres que se enfileiram no consultório sem lesionar sua mão cansada (!).
Com a ajuda do amigo Edmund John-Smithe (Rupert Everett), uma espécie de inventor entusiasta da nova tecnologia, a eletricidade (!), Granville concebe um aparelho –apelidado Massageador Elétrico –que extrapola as expectativas: Não apenas substitui com melhoras seus esforços manuais, como também gera uma demanda por seus serviços (!).
Não tarda ao aparelho interessar fabricantes que passam a distribui-lo para uso pessoal e fazem do Dr. Granville, um milionário.
No entanto, nem sempre é essencialmente esse aspecto da trama que parece interessar a narrativa: Ela se ocupa até mais do romance relutante, claudicante e algo jocoso entre Granville e Charlotte; cujos adjetivos exageram na caracterização dela como o protótipo da mulher independente e idealista da época.
A diretora Tanya Wexler parece se bastar com a singularidade da história –ligeiramente baseada na realidade –que está narrando e não exercita maiores tentativas de inspiração ao conduzir o filme, o que logo lhe impõe um ritmo enfadonho que ameaça cansar o expectador, a despeito dos méritos válidos de um elenco simpático e esforçado.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

O Sucesso A Qualquer Preço

A origem teatral do projeto é imposta poderosamente na direção de James Foley que engessa a narrativa o tempo todo em um único ambiente. Existem, quando muito, pequenos lapsos do roteiro de David Mamet que esboçam situações em outros lugares, mas o cenário é essencialmente o escritório de vendas aonde a tensão vai ganhando corpo graças principalmente ao majestoso elenco masculino.
Glengarry Glen Ross é a firma de vendas imobiliárias em Chicago que se beneficia, sobretudo, da lábia tarimbada de seus corretores: O calejado Shelley (Jack Lemmon); o irascível Dave (Ed Harris); o titubeante George (Alan Arkin); além do gerente tentacular e impiedoso Williamson (Kevin Spacey) e do representante da empresa titular, Blake (Alec Baldwin).
Homens endividados de classe média nos idos dos anos 1990, eles precisam ofertar, enaltecer e vender seu produto de porta em porta. A comissão garante que o sucesso de suas vendas seja proporcional ao lucro que obtêm. Todavia, nenhum deles se mostra satisfeito com tal sistema, ao contrário, muitos deles vêem, desesperados, clientes que lhes consomem tempo precioso de conversa e terminam não comprando nada.
A única exceção é Ricky Roma (Al Pacino, formidável), o campeão de vendas absoluto do escritório.
A fim de incentivar o mesmo ímpeto nos outros desanimados vendedores, a empresa disponibiliza certos bônus que vão além da comissão, em troca de um aumento quase inumano no índice de vendas. Para pressioná-los, o fantasma da demissão paira sobre todos.
É quando alguns deles começam a elaborar planos mais ilícitos.
O ambiente parece uma panela de pressão onde os ânimos e os propósitos vão se somando até a tensão chegar a níveis notáveis. A direção de Foley e o roteiro de Mamet são perspicazes ao trabalhar um conto enxuto (menos de uma hora e meia de duração), objetivo e incisivo sobre as desesperanças da agitada vida moderna, a analogia implacável da seleção natural, as ironias do drama e a máxima de que nada é fácil para ninguém.

sábado, 28 de maio de 2016

007 - A Fase Pierce Brosnan

Hoje há quem ame, e quem odeie a fase em que James Bond foi interpretado por Pierce Brosnan. Eu apreciei muito o trabalho do ator (um Bond com características das antigas, refinado e melindroso contrastando com a brutalidade trazida por Daniel Craig), embora seja avesso ao estilo formulaico que predominou em seus filmes, mas reconheço que eles foram necessários para lapidar o mito James Bond para os novos tempos (o quê levou aos notáveis filmes que vieram depois) e até imprescindíveis para apresentar 007 à uma nova audiência composta por filhos, ou até netos daqueles que assistiram no cinema as aventuras do James Bond original, Sean Connery.
007 Contra Goldeneye: Lançado em 1995, “Goldeneye” tinha como missão restabelecer o mito James Bond para as novas audiências. O intervalo entre este e o filme anterior da série (“007-Permissão Para Matar”, lançado em 1989 com o insosso Timothy Dalton) foi um dos maiores de toda a franquia (seis anos): Havia, portanto, quase toda uma nova geração que desconhecia 007, o quê jogava a pressão sobre os ombros do novo intérprete, Pierce Brosnan (vindo da bem-sucedida série de TV “Remington Steele”), nas alturas.
A trama (até bastante banal e genérica, uma característica negativa dos filmes encabeçados por Brosnan) mostra James Bond envolvido nos percalços de um agente do MI6 que tornou-se traidor.
A despeito da fragilidade de sua história, “Goldeneye” beneficiava-se da boa e dinâmica direção do inglês Martin Campbell (oriunda da TV britânica), cujo trabalho casou tão bem com os propósitos da franquia que ele foi recrutado novamente para dirigir “Cassino Royale” já no início da fase Daniel Craig. Quanto ao ator, Pierce Brosnan se mostrou a escolha ideal para personificar um novo e, por assim dizer, mais maleável Bond: Os tempos afinal eram outros, e muitas das características do personagem que o acompanhavam desde o tempo de Sean Connery (e que se mostraram prejudiciais nos filmes de Timothy Dalton) deveriam ser revistas, como o modo levemente misógino como a série sempre abordou as personagens femininas (tornando sintomática a escalação da excelente Judi Dench para interpretar a primeira “M” feminina) e as fortes referências à Guerra Fria.
O resultado foi um sucesso de bilheteria amplamente satisfatório, com um novo ator que consagrou-se como um novo 007 para toda uma geração.
007 O Amanhã Nunca Morre: Em sua segunda aventura interpretado por Pierce Brosnan, James Bond recebe a missão de deter os planos megalomaníacos de um magnata das comunicações que elabora uma série de complexos atentados na intenção de provocar a Terceira Guerra Mundial.
Já estabelecido e reconhecido pelo público como 007, Brosnan marcou presença num filme que podia se dar ao luxo de vôos mais ambiciosos. O novo diretor (Roger Spottiswoode, realizador do intenso drama de guerra “Sob Fogo Cerrado”, mas que no fim das contas era uma mero operário padrão) buscou agregar ainda mais ação ao produto, incorporando inclusive fortes elementos do cinema asiático de lutas marciais, o quê explica o entusiasmo com a presença da estrela chinesa Michelle Yeoh (que depois faria sucesso no mundo todo com “O Tigre e O Dragão”). Mais do que qualquer coisa, é neste filme que se percebe o quanto a vontade em ser um produto comercial que obedece a risca a cartilha hollywoodiana de filmes de ação oprimia a narrativa, tornando-o quase um espetáculo vazio. 
007 O Mundo Não É O Bastante: Tentando rastrear as atuações de um perigoso e poderoso "barão do crime", a fim de elucidar sua identidade, James Bond acaba incumbido de proteger uma ex-refém desse mesmo bandido. Sua relação com ela e com uma jovem cientista nuclear revelarão as verdadeiras intenções do vilão. No terceiro filme de James Bond protagonizado por Pierce Brosnan, quando então ele já gozava do fato de ser considerado um dos melhores intérpretes de Bond, ao lado de Sean Connery, após o excessivamente sério e empostado Timothy Dalton nos anos 1980 e o caricato Roger Moore nos anos 1970, o responsável por capitanear o filme foi Michael Apted, cuja escolha por parte dos produtores seguia muito a mesma lógica de Roger Spottiswoode no filme anterior: Um trabalhador obediente, acostumado com a indústria, sem maioridades características autorais e com pelo menos um filme de qualidade no currículo (o ótimo “Nas Montanhas dos Gorilas” com Sigourney Weaever). Tudo isso o tornava, do ponto de vista corporativo, uma escolha perfeita para dirigir o novo “Bond”, mas o produto final, embora tivesse uma profusão de elementos clássicos da franquia e de filmes comerciais em geral, pecava por não te alma. “O Mundo Não É O Bastante” entrou assim para o cânone de James Bond como o primeiro filme a incluir uma bond-girl (a deslumbrante francesa Sophie Marceau) que se revelava a vilã da história, mas foi lembrado mesmo como o mais fraco produto da “safra Pierce Brosnan”.
007 Um Novo Dia Para Morrer: O agente da coroa britânica, James Bond é capturado por governo inimigo durante uma missão relativamente fracassada. Após um ano como prisioneiro ele é libertado e, sob o descrédito do Serviço Secreto, decide ir atrás dos eventuais responsáveis por seu encarceramento. Seu inimigo, como de praxe, tem planos megalomaníacos para a dominação mundial. Este foi o 19º filme de James Bond, e o 4º com Pierce Brosnan no papel, além de ser, dentre todos, o mais austero e elaborado: Provavelmente devido à inclusão de um diretor mais jovem no comando, o neo-zelandês Lee Tamahori (de “O Amor e A Fúria”). Isso trouxe uma ligeira audácia no tratamento com a história, mas nada que comprometesse o objetivo restritamente comercial da obra. A inclusão de Halle Berry (vencedora do Oscar de Melhor Atriz por “A Última Ceia” em 2001, um ano antes), como uma agente secreta que refletia o próprio James Bond em versão feminina também foi um sopro de ar fresco, mas o patrimônio da série continuava a ser a presença acertada de Pierce Brosnan. O ator estava muito bem, exibindo charme e segurança como 007, embora já começasse a expressar seu cansaço com o personagem, mas o filme, tal qual os outros, era exagerado e caricato, fruto de anos em que a série vinha sendo realizada em cima das mesmas fórmulas.
Talvez fosse essa percepção que tenha levado a série, no episódio seguinte (o espetacular “Cassino Royale”), a dar um arrojado salto de sofisticação e optar por uma reformulação total, começando do zero com Daniel Graig.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

A Época da Inocência

A Nova York que Scorsese retrata aqui é tão plena de corrupção e degradação moral quanto era a Nova York mostrada por ele em “Taxi Driver”, em “Caminhos Perigosos”, ou em “Gangs de Nova York”.
Aliás, “A Época da Inocência” estabelece com “Gangs...” um diálogo formal que vai muito além da escalação de Daniel Day-Lewis para o elenco de ambos os filmes.
O interesse de Scorsese está nas mazelas que se acumulam em todo e qualquer ambiente idealizado pelo homem, e as engrenagens que levam esse microcosmo a implodir.
Neste filme, o mestre trabalha com uma sociedade frívola de regras a serem cumpridas e aparências a serem mantidas. E em meio à sociedade burguesa da Nova York de 1870, a aparência era tudo. O diretor reforça essa obsessão dando a seu filme uma beleza tamanha que chega a ser opressora. As cenas, de encher os olhos, emolduram assim um ambiente onde todas as coisas tem seu devido lugar e hora, e tudo é uma questão de negociação e cálculo.
Em princípio, para o vistoso e desenvolto Newland Acher (Daniel Day-Lewis, preciso) esse parece ser um local perfeito para sua ascensão: Advogado, no domínio da verve para conversação, elegante a ponto de já ter uma noiva perfeita prestes a virar esposa (Winona Ryder, num trabalho meticuloso), Acher faz parecer que aquele é seu habitat natural.
Não é. Ele só se dará conta disso quando conhecer a Condessa Olenska (Michelle Pfeiffer, sensacional), prima de sua noiva, e cujos atrevimentos cometidos a pouco tempo lhe valeram péssima fama entre os aristocratas. Ao lado dela, Acher sente uma identificação que irá levar ao amor, e esse amor terá de ser sufocado nos anos por vir, em função das escolhas que ambos farão, sobretudo, para continuar a viver no mundo em que vivem.

Como em “Taxi Driver” é o amor (ou a obsessão) por uma mulher o combustível que alimenta o tormento inapelável de seu protagonista, mas, como em “Gangs de Nova York”, essas questões pairam atrativas, sobre o filme, na medida em que eles são menos uma história sobre paixões escondidas e mais uma incisiva, essencial e impiedosa observação antropológica de Scorsese, tão fascinado que é pelos catalisadores que o ser humano elabora para sua própria destruição e lamento, como também pelos artifícios que o cinema teve, tem e sempre terá, para evidenciar as mais variadas facetas dessa síntese.