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segunda-feira, 8 de junho de 2026

Sonhos de Trem


 Quando começamos a achar que não se faz mais cinema assim (dotado de uma percepção artística toda lenta, introspectiva, melancólica), vem a própria Netflix (a mais popular dentre todas as plataformas de streaming) e lança “Sonhos de Trem” –ou “Train Dreams” no original –adaptação de um livro escrito por Denis Johnson em 2011, e carregado com ecos do cinema de Terence Malick (“Cinzas No Paraíso”, “Além da Linha Vermelha”, “Árvore da Vida”), contemplativo, abstrato, muito mais inclinado à reflexão do que à ação.

 "Sonhos de Trem" é a história de Robert Grainier (Joel Edgerton, irrepreensível) e, desde o início, o narrador (voz do ator Will Patton) nos informa que Grainier viveu até os 80 anos.

Filhos de pais que jamais chegou a conhecer, ele chega em Bonners Ferry, estado de Idaho, ainda criança e, desde cedo, desenvolve uma personalidade calada, introvertida, sempre dedicado ao cotidiano braçal das ocupações daquele fim do Século XIX início do Século XX.

Adulto, Grainier passa a trabalhar como lenhador, derrubando árvores por todo o país, muitas vezes para a construção de estradas de ferro, situação que o deixa sempre próximo do universo ferroviário norte-americano, e em contato com outros madeireiros, operários braçais que vem e vão ao longo dos anos, também eles com suas peculiares histórias.

Desse segmento, aqueles que se sobressaem na narrativa certamente são o chinês (Alfred Hsing, de “Jogador Nº1”) abruptamente descartados dos serviços junto a ferrovia por ser um imigrante ilegal (uma visão que passa a atormentar Grainier o resto da vida); o homem religioso e falastrão (Paul Schneider, de “A Garota Ideal”) inesperadamente morto por a tiros por um homem negro em busca de uma vingança pessoal; e o operário veterano vivido por William H. Macy, um curioso contador de histórias que se torna seu amigo e que parte de forma trágica.

Há também uma expressiva participação, já na segunda metade da atriz Kerry Condon (de “Banshees de Inisherin” e “F1”).

O cerne de sua trama, contudo, é a relação com Gladys (Felicity Jones), jovem por quem ele se apaixona, com quem casa e, logo depois, decide construir uma cabana na floresta à beira de um rio. Os anos não tardam a passar. Eles têm uma filha, a pequena Kate, e para sustentar sua família, Grainier passa a trabalhar temporadas inteiras bem longe do lar, cortando madeira nos mais diferentes recôncavos do país.

Seus retornos para casa são poéticos e carregados de felicidade, mas a falta de dinheiro sempre o obriga a voltar. E é justamente num desses retornos que ele é surpreendido por um terrível incêndio acometido na floresta onde moram, fazendo com que Gladys e Kate fiquem desaparecidas.

Seus 80 anos de vida não são definidos por acontecimentos extraordinários, muito pelo contrário, Robert Grainier não poderia ser um indivíduo mais comum. Ainda assim, essa trajetória de vida assim registrada não deixa de acompanhar de perto as notáveis transformações testemunhadas por esse mesmo homem comum durante os EUA da primeira metade do Século XX: “Train Dreams” vai até a segunda metade dos anos 1960, acompanhando nesse processo a modernização do sistema de transporte ferroviário norte-americano (mostrado sem qualquer viés didático) e chegando inclusive a trazer as notícias sobre a ida do Homem ao espaço.

Lançado originalmente no Festival de Sundance de 2025, onde o trabalho do diretor Clint Bentley e a atuação de Edgerton saíram aclamados pelos críticos, “Train Dreams” é uma obra cuja narrativa definida pela contemplação mantém sempre em foco a relação do Homem com a Natureza, não à toa, suas imagens deslumbrantes desde a primeira cena são o ponto forte: A direção de fotografia, concebida na janela de aspecto 1,46:1, é assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso (de “Tungstênio” e ‘Rodantes”).

Não espere sair feliz e saltitante do filme: É um trabalho que foca em agruras íntimas, em tristezas inapeláveis de uma vida árdua, fadada a não encontrar quaisquer outras alternativas para que árdua deixe de ser. Expectadores adeptos de narrativas comerciais certamente vão se ressentir dessa lentidão e dessa desesperança, no entanto, em muitos momentos a realização de Bentley revela-se uma obra sublime.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Histeria


Na reconstituição cheia de graça e de reflexos condicionados de comédia da verdadeira história da criação do vibrador (!), na qual o filme se baseia, encontra-se todas as características que tão bem definem as relações entre homens e mulheres, vistas até hoje com imprevistas incompatibilidades, e que sempre renderam discussões e reflexões a respeito dessas incongruências.
Acredite se quiser, são meados dos anos 1880 quando o jovem médico Mortimer Granville (Hugh Dancy) se vê demitido de mais uma ocupação quando tenta bater de frente com a inacreditável falta de aceitação que a medicina de então tinha em relação à descobertas científicas que hoje soam como óbvias –como o falta de que limpar as sujeiras de uma ferida evita as infecções.
Colecionador de empregos breves, ele almeja encontrar um lugar onde possa exercer a medicina com todo o idealismo e o altruísmo com que sempre sonhou.
Não chega a ser exatamente isso que ele encontra no consultório do Dr. Dalrymple (Jonathan Pryce). Na verdade, ele encontra um mentor em princípio mais razoável que os anteriores, uma oportunidade para casar bem e sem transtornos (com a prendada filha dele, a doce Emily, vivida pela bela Felicity Jones) e uma ocupação digna.
Todavia, esse é o dado inusitado: O Dr. Dalrymple atende mulheres, por ele e pelos demais de sua classe, diagnosticadas com histeria. Os sintomas são vastos (desde mau-humor, passando por explosões de raiva, até crises inexplicáveis de choro) e não se apresentam generalizados –daí a desconfiança do sensato Granville em relação ao diagnóstico –e a recomendação do Dr. Dalrymple é um tratamento, digamos, incomum: Um estímulo que o bom doutor (e, no caso, também Granville que se presta a auxiliá-lo) realiza nas partes baixas de suas clientes –e que é, mal disfarçadamente, uma espécie de masturbação!
É uma clientela que se multiplica rapidamente e que logo forma fila quilométrica na agenda do consultório, acarretando câimbras dolorosas na mão do jovem médico (!).
Entre a galhofa absurda encontrada nessa situação pouco usual (e verídica) e as intervenções da intensa segunda filha do Dr. Dalrymple, a feminista Charlotte (Maggie Gyllenhaal), por quem aos poucos Granville vai nutrindo mais interesse do que por Emily, o rapaz se dá conta da eficácia que teria um aparelho elaborado justamente para tal uso; estimular as mulheres que se enfileiram no consultório sem lesionar sua mão cansada (!).
Com a ajuda do amigo Edmund John-Smithe (Rupert Everett), uma espécie de inventor entusiasta da nova tecnologia, a eletricidade (!), Granville concebe um aparelho –apelidado Massageador Elétrico –que extrapola as expectativas: Não apenas substitui com melhoras seus esforços manuais, como também gera uma demanda por seus serviços (!).
Não tarda ao aparelho interessar fabricantes que passam a distribui-lo para uso pessoal e fazem do Dr. Granville, um milionário.
No entanto, nem sempre é essencialmente esse aspecto da trama que parece interessar a narrativa: Ela se ocupa até mais do romance relutante, claudicante e algo jocoso entre Granville e Charlotte; cujos adjetivos exageram na caracterização dela como o protótipo da mulher independente e idealista da época.
A diretora Tanya Wexler parece se bastar com a singularidade da história –ligeiramente baseada na realidade –que está narrando e não exercita maiores tentativas de inspiração ao conduzir o filme, o que logo lhe impõe um ritmo enfadonho que ameaça cansar o expectador, a despeito dos méritos válidos de um elenco simpático e esforçado.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

A Tempestade

William Shakespeare não era necessariamente uma novidade na filmografia de Julie Taymor (de “Across The Universe”) –muito antes ela havia se aventurado numa versão musical e lisérgica de “Titus”, com Anthony Hopkins –isso explica, talvez, o fato dela ter abordado a junção de ambições, revanches, traições e magia que compõem a trama passada numa ilha mediterrânea com um revisionismo tal que –sinal dos tempos –mudou o sexo de seu protagonista.
Se antes o personagem principal Prospero era homem (e chegou a ser interpretado por John Gielgud e Peter Fonda em outras versões), agora é convertido numa mulher, Prospera (que ganha assim a excelência de Helen Mirren).
Outrora a Duquesa de Milão, Prospera foi exilada numa ilha do mediterrâneo devido às maquinações conspiratórias de seu irmão, Antonio (Chris Cooper) e de outros membros da corte de Nápoles, como o próprio rei (David Strathairn) e seu irmão invejoso (Alan Cumming).
Ao mover sua vingança munida de forças sobrenaturais, Prospera se revela então um reflexo do próprio Shakespeare: Abandonada na ilha, junto de seus livros e da própria filha, Miranda (Felicity Jones, linda), ela desenvolve poderes com os quais controla o destino dos incautos viajantes –tal e qual o próprio escritor o faz com os personagens à disposição de sua trama.
Auxiliada pelo subserviente espírito Ariel (Ben Wisham), Prospera conjura uma tempestade com a qual consegue fazer naufragar na ilha um navio trazendo todos os seus antagonistas –e deles faz gato-sapato.
Como em “Titus”, a diretora Taymor imprime um senso visual colorido e surreal à trama, remetendo a uma artificialidade dos palcos de teatro potencializada com efeitos especiais de última geração e trucagens de câmera que buscam romper com qualquer predisposição tediosa do enredo. Nesse sentido, Julie Taymor, apesar de uma ou outra opção estética de gosto discutível, revela um entendimento de Shakespeare muito mais apurado do que, por exemplo, o jovem diretor Justin Kurzel e sua equivocada versão de “MacBeth”: Ela compreende que, vertidas para cinema, as tragédias de Shakespeare devem agregar em seu material as ferramentas que o cinema tem –o esplendor visual, a montagem inquieta e instigante, os atores capazes de hipnotizar a câmera (aqui não apenas estão as maravilhosas Helen Mirren e Felicity Jones, como também os incontroláveis Alfred Molina e Russel Brand).
Além disso, existem também as cenas de Ariel convertido aqui num ser etéreo e abstrato, na boca do qual Taymor deposita versos declamados em versões musicadas, e o monstruoso Caliban (Djimon Houson, de “A Ilha” e “Gladiador”) envolto numa maquiagem pesada e desconcertante.
Ainda que mais amena e não tão propensa ao experimentalismo e à transgressão, a versão de Julie Taymor bebe um pouco da fonte de Peter Greenaway e sua versão ultra-estilizada, “A Última Tempestade”, em suas singulares peripécias visuais e sua profusão de cores e imagens exuberantes a emoldurar o trabalho de um elenco empenhado e apaixonado.
Ótimo cinema a ser usufruído, entretanto, por públicos específicos.

sábado, 20 de maio de 2017

O Espetacular Homem-Aranha 2 - A Ameaça de Electro

Por algum tempo, acreditava-se que a reformulação do Homem-Aranha havia dado certo.
O diretor Marc Webb, ao substituir Sam Raimi beneficiou-se de alguns elementos até bastante alheios às suas opções como realizador, como por exemplo, o fato de dar ao novo filme aspectos mais fiéis aos quadrinhos (sendo, talvez o mais notável a questão envolvendo os lançadores de teia), e a tecnologia 3D, difundida pelo êxito de “Avatar” e muito em voga na predileção do público, à qual esta produção beneficiou-se de uma oportuna agenda de filmagens para lançar mão.
Esses fatores garantiram uma certa recepção positiva da parte da crítica e do público e, embora houvessem aspectos ainda não digeridos no filme anterior (como o inapropriado tom sombrio adotado e a importância, em última instância redundante, dada aos mistérios que cercavam a morte dos pais de Peter Parker), Webb ganhou a chance para fazer uma continuação onde poderiam ser confirmados seus acertos ou evidenciados em definitivo os seus erros.
Bem mais confortável na persona de Homem Aranha que assumiu após os eventos do filme anterior, o recém-formado Peter Parker (Andrew Garfield, deixando que sua declarada paixão pelo personagem interfira em sua atuação fazendo-o histriônico) tem de lidar com seu romance com a jovem Gwen Stacy (a adorável Emma Stone), que além de tornar-se mais sério, enfrenta o dilema de uma vindoura viagem para a Inglaterra.
Em meio a isso, seu amigo de infância, Harry Osborn (Dane Dehaan, uma boa escolha, apesar de tudo), reaparece assim como surge também uma nova ameaça, representada pelo perigoso Electro (Jamie Foxx, na pior atuação de sua carreira).
As inúmeras tramas paralelas do filme ameaçavam o tempo todo se atropelar –incluindo aí um arco memorável dos quadrinhos que faria a alegria dos fãs mais antigos do Homem Aranha.
O diretor Mark Webb fez um trabalho razoável, confiando especialmente na segurança e descontração de seu elenco, onde certamente destaca-se a química palpável do casal Andrew Garfield e Emma Stone; sua ênfase recaiu sobre as minúcias narrativas, destacando alguns aspectos íntimos e valendo-se de certa seriedade para, mais uma vez, desvencilhar-se das comparações com a trilogia anterior de Sam Raimi.
Mas, algo em seu filme definitivamente não conseguiu funcionar –talvez, sejam seus excessos refletidos no controle intrusivo exercido pelo estúdio no resultado final: Tantas foram as escolhas melindrosas acumuladas aqui que o filme carece de um cerne, deixando transparecer exatamente o quê uma produção pode se tornar quando ela fica à mercê de um comitê e sem um bom senso sólido e criativo.
Embora tenha lá seus méritos, o segundo filme de Marc Webb com o escalador de paredes é, acima de tudo, definido por seus equívocos, o quê acarretou péssimas críticas e insatisfatórias bilheterias e levou o estúdio da Sony a interromper os planos dessa franquia –a trama elaborada pelo roteiro tinha uma clara estrutura de trilogia –e a firmar com a Marvel Stúdios uma parceria até então sem precedentes: Eles emprestaram o personagem do Homem-Aranha (agora interpretado por Tom Holland, de “O Impossível”, um jovem e talentoso ator que consegue reunir características tanto de Tobey Maguire, quanto de Andrew Garfield), para que a Marvel primeiro o incluísse no menu de personagens presentes em “Capitão América-Guerra Civil”, e depois para que a própria Marvel, com toda sua comprovada habilidade, concebesse um filme-solo do herói, desta vez, ambientado no Universo Marvel Cinematográfico, e (espera-se) absolutamente fiel a todos os elementos do personagem que foram, por ventura, desvirtuados nessas outras produções.
Seu título?
“Homem-Aranha De Volta Ao Lar”

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Inferno

O escritor Dan Brown criou uma fórmula, e dela se valeu para construir seus sucessos. Uma trama de suspense, tão rocambolesca que flerta com o inverossímil. Um repertório bastante interessante e francamente admirável de elementos históricos pesquisados a fundo e tão entranhados na trama mirabolante que fica difícil discernir o que é invenção fictícia do autor e o que é fato espantoso.
E seu protagonista: O cuidadosamente descuidado especialista em simbologia (e especialista em atrair para si os mais inacreditáveis apuros!) professor Robert Langdom –interpretado, em todos os três filmes até aqui, com tranqüilidade até excessiva por Tom Hanks.
A história de “Inferno” (na ordem de livros estrelados por Lagdom, diferente dos filmes, este já é o quarto), a fim de oferecer um ligeiro diferencial na trama –nas quais basicamente, Langdom é sempre recrutado para usar seus dons privilegiados de decifrador de símbolos para achar pistas ocultas nas mais diversas obras da antiguidade –começa quando Langdom concorda em um hospital, com um ferimento na cabeça e a memória toda embaralhada.
Suas roupas estão ensangüentadas e, embora se recorde de estar nos EUA, ele se encontra em Florença, na Itália.
A única pessoa que parece oferecer-lhe auxílio é a jovem médica que o atendeu, Dra. Sienna Brooks (a linda Felicity Jones, de “Rogue One”, tão no piloto automático quanto Tom Hanks) e, tal e qual todas as jovens bonitas dos outros filmes, ela passará quase toda a duração deste correndo alucinadamente ao lado do personagem de Hanks.
Como de praxe, há personagens ainda nebulosos e de intenções misteriosas no encalço de Langdom (são eles, o talentoso francês Omar Sy, de “Intocáveis”, a dinamarquesa  Sidse Babett Knudsen, e o indiano Irrfan Khan, talvez a melhor presença do elenco).
Como é mais de praxe ainda, ele logo estará decifrando uma série de enigmas cuja solução faz repousar sobre seus ombros –e dele fazer, afinal, o herói da história –a responsabilidade de salvar assim, milhares de vidas.
Regendo todos esses elementos que, somados e intensificados gradativamente ao longo dos cento e vinte e dois minutos de filme viram quase um samba do crioulo doido (!), está o oscilante diretor Ron Howard, um veterano que ora faz trabalhos de insuspeita maestria (caso de “Apollo 13”, com o próprio Hanks, “Uma Mente Brilhante”, “Frost/Nixon” ou “Rush-No Limite da Emoção”), ora realiza produções nas quais perde a mão, exagerando em vários quesitos (caso de “No Coração do Mar”, “O Código Da Vinci” e todas as suas seqüências até este daqui).
Howard adapta com relativa fidelidade a obra de Dan Brown, mas esquece de preservar o elemento que a faz antológica: Não é soma de todas as melindrosas peças de seu intrincado quebra-cabeça (cujo excesso de detalhes, já no terço final do filme começa a cansar e a irritar o expectador), mas na verdade o clima de deliciosa furtividade que ele obtém desta e daquela cena, sucessivamente, por meio das quais a trama vai avançando. Em prol de encapsular o máximo possível do livro, Howard sacrifica esses pequenos momentos inspirados e termina com um todo formulaico, apressado e esquizofrênico.
Alfred Hitchcock, em suas brilhantes obras de antigamente, soube fazer muito, muito melhor.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Rogue One - Uma História Star Wars

Quase a completar um ano desde a última vez, me sinto novamente na obrigação de agradecer à Disney. Agradecer por terem conseguido comprar os direitos da Lucasfilm do criador em pessoa, George Lucas, e a partir daí reiniciar a saga “Star Wars” com o ímpeto que os fãs sempre sonharam.
E uma lucidez cinematográfica que se esvaiu quase que por completo da consciência de Lucas como realizador nas últimas décadas (como atesta a pecaminosa "Trilogia Prólogo").
Os novos proprietários da saga almejam lucro nas bilheterias, claro, não sejamos ingênuos de pensar o contrário, mas nesse intento, a visão corporativista da Disney não deixa de lado aquilo que unicamente importa ao expectador que paga seu ingresso no cinema: O filme.
Tal e qual é feito com a Marvel Studios, a saga “Star Wars” está agora nas mãos de pessoas antenadas com os anseios dos fãs, e atentas aos valores cinematográficos empregados em suas produções.
O que faz de “Rogue One”, o mais refinado produto concebido dessa junção até aqui.
Ele tem início alguns anos antes da entrada definitiva de Luke Skywalker no conflito, e alguns bons anos depois dos trágicos acontecimentos relatados no “Episódio III-A Vingança dos Sinth”, e lança de imediato seu olhar sobre uma jovem chamada Jyn Erso, antes mesmo que os créditos iniciais –ligeiramente diferenciados dos filmes principais da saga –apareçam.
Jyn (a linda e maravilhosa Felicity Jones) perdeu o pai e a mãe para o Império Galáctico. A mãe, porque esta foi morta pelo venal Almirante Krennic (Ben Mendelsohn), e o pai, porque este foi cooptado, logo em seguida, para usar seu talento como projetista tecnológico para o Império. Quem criou Jyn, nesse ínterim, foi o contundente e radical Saw Gerrera (Forest Whitaker, extraordinário participação como um personagem essencial ao cânone da saga, e que reflete, de uma certa maneira, em sua imponência ameaçadora, nos detalhes truculentos de sua armadura, e até na respiração artificial ressonante, o próprio Darth Vader).
Apesar disso tudo, Jyn quer distância da guerra entre Império e Aliança Rebelde que sacode a galáxia. Ainda assim, não é o quê vai acontecer e sua trajetória irá se cruzar com outros personagens, como o capitão Cassian Andor (Diego Luna), o dróide K-2SO, o monge crédulo da Força Chimrut Imwe (Donnie Yen), o ex-soldado Maze Malbus (Wen Jiang), o desertor Bodhi Rook (Riz Ahmed), todos destinados a protagonizar este que é uma espécie de “elo perdido” da saga “Star Wars”: Ele estabelece uma ligação informativa, dramática, factual e emocional entre os episódios III e IV, e entre a trilogia clássica (aquela que realmente vale para os fãs!) e as séries animadas “Clone Wars” (por meio do personagem de Saw Gerrera que aparece como um jovem) e “Rebels” (de onde é oriundo o vilão Orson Krennic).
Falando em vilões, eles respondem por alguns dos momentos de maior empolgação de “Rogue One”, não apenas pela devidamente espetacular aparição de Darth Vader (com toda a pompa e circunstância que merece e tratado como uma divindade pela narrativa), mas também pelo inteligente uso do oficial Moff Tarkin.
Explica-se: Tarkin (interpretado no filme de 1977 por Peter Cushing, falecido em 1994) era um oficial superior do Império de suma importância na hierarquia –chegava a dar ordens em Darth Vader! –e que morre no final daquele filme durante a destruição da Estrela da Morte –em torno da qual, todo o planeta deve saber, a trama de “Rogue One” gira. Pois, Tarkin reaparece aqui, fundamental à narrativa, como tinha que ser, e ainda interpretado por Peter Cushing no que é um dos trabalhos de concepção digital mais espetaculares do ano –as ferramentas cinematográficas finalmente rompem algumas barreiras antes tidas como intransponíveis.
“Rogue One” é, no fim das contas, por meio disso tudo, da primorosa direção de Gareth Edwards, do requinte comovente de seu roteiro, do empenho apaixonado de seu elenco, e da textura real e vívida de seu acabamento visual, uma imersão em um outro mundo, através das mais vastas experiências sensoriais. Algo que sempre foi (ou deveria ser) o objetivo de “Star Wars”.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A Teoria de Tudo

Sempre se soube que era uma questão de tempo até que o cinema contasse a história de Stephen Hawking, tão dotada ela era de aspectos cinematográficos, e tão absolutamente magnéticos são os detalhes que cercam seu desigual protagonista.
Aconteceu do diretor ser James Marsh, ganhador do Oscar de Melhor Documentário por seu extraordinário “O Equilibrista”, em sua estréia em longas de ficção.
E “A Teoria de Tudo” é, acima de tudo, exatamente isso: Uma ficção.
Promissor aluno do curso de cosmologia em Cambridge, Stephen Hawking (Eddie Redmayne, numa composição empenhada que lhe valeu o Oscar de Melhor Ator) recebe, à beira de seus vinte anos, um diagnóstico devastador: Ele possui uma doença rara (a esclerose lateral amiotrófica) que dentro de dois anos paralisará as funções motoras de seu corpo e o levará a morte.
A notícia cai como uma bomba em seu relacionamento com Jane (Felicity Jones, a melhor coisa do filme!), que apesar de tudo não desiste. Eles casam, têm um filho e dão início a uma árdua jornada que se estenderá por anos na qual tentarão conviver com a doença de Stephen, o único fator a aplacar sua genialidade.

O filme acaba sendo uma biografia de Stephen Hawking contando sua vida ao lado da primeira esposa, Jane, de maneira um bocado romanceada, longe da realidade que certamente foi; há até mesmo um breve momento em que a edição sugere um acontecimento paralelo, mas que, na melhor das hipóteses, fica somente sugerido. A impressão que a direção de Marsh nos passa é de que ele fez um filme leve, inofensivo e enaltecedor, feito especialmente para agradar ao próprio auto-biografado, omitindo assim muitos dos detalhes mais lúgubres –e certamente mais interessantes –que ficaram restritos ao livro no qual se baseou.