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quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Homem-Aranha - Sem Volta Para Casa


 Spoilers são um fenômeno curioso. Há quem odeie recebê-los, preferindo a surpresa de descobrir tudo o que o filme tem a oferecer... bem, durante o próprio filme! Há quem não se importe com eles. Há aqueles que têm tanto prazer em dar spoilers aos outros que o ato de assistir ao filme acaba sendo uma satisfação secundária; eles gostam mesmo é de poder, depois, contar os segredos do filme a quem ainda não o viu. No cinema moderno, com narrativas como as de M. Night Shyamalan e seus finais-surpresa e a acessibilidade de informação da internet, os spoilers se tornaram um perigo para quem almeja uma experiência cinematográfica absolutamente pura, despida de interferências.

No caso de “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”, aqueles expectadores que não forem conferir o filme em seus primeiros dias de exibição nos cinemas (na verdade, até mesmo eles!) correm o risco de receber uma avalanche de spoilers. Terceiro longa-metragem da trilogia solo do Homem-Aranha desde que ele passou a ser interpretado por Tom Holland e a integrar o Universo Marvel Cinematográfico –além da participação em outros filmes –“Sem Volta Para Casa” chega tão carregado de novidades espantosas e eletrizantes, tão repleto de momentos planejados com o objetivo de serem inesquecíveis e, ao mesmo tempo, tão sensacional e embriagante em seu ineditismo e empolgação que representa um desafio para qualquer um chegar  às salas sem saber nada sobre ele.

Iniciando arrojadamente na cena pós-créditos com a qual encerrou (sem muito encerrar...) a trama de “Homem-Aranha Longe de Casa”, “Sem Volta Para Casa” segue seu protagonista Homem-Aranha\Peter Parker (Tom Holland) no momento em que foi revelada, em cadeia nacional pelo próprio J. Jonah Jameson em pessoa (J.K. Simmons), a identidade secreta do herói. Sendo esta a terceira personificação do personagem nos cinemas (as anteriores foram vividas por Tobey Maguire e por Andrew Garfield), por vezes o diretor Jon Watts se viu obrigado a adaptar arcos narrativos diferenciados dos quadrinhos a fim de não se repetir. No primeiro (“De Volta Ao Lar”), sob forte referência dos longas de John Hugues, ele acompanhou a rotina escolar de Peter e sua fase no ensino médio, lutando para desvencilhar-se das obviedades de uma trama (já contada) de origem. No segundo (o já citado “Longe de Casa”), ele contou uma aventura descompromissada a girar em torno de férias na Europa. Nos dois casos, a Marvel Studios enfrentou críticas justamente por fugir das características que definiam o Homem-Aranha enquanto personagem e que o atrelavam em demasia à heróis como o Homem-de-Ferro tirando-lhe certa individualidade –a despeito da ótima atuação de Tom Holland.

“Sem Volta Para Casa” vem para rebater cada um desses protestos: Ele é tão original, tão ágil e incisivo, tão consciente dos elementos icônicos que manuseia que provavelmente não tardará a se sagrar como um dos melhores (ou O melhor) filmes em live-action do Homem-Aranha –e Tom Holland, seu intérprete mais consistente e definitivo.

O fio narrativo que conduz a esse enredo tão cheio de surpresas começa quando Peter, farto de ver seus amigos, M.J. (a cada vez mais maravilhosa Zendaya) e Ned (Jacob Batalon) sofrerem por terem contato com o Homem-Aranha, resolve procurar a intervenção mística do Doutor Estranho (Benedict Cumberbath) para que, com um feitiço, ele apague da memória de todo o mundo que Peter é o Homem-Aranha. Contudo, algo dá errado, e o feitiço mexe com o conceito que, encerrada a Saga de Thanos com o magnífico “Vingadores-Ultimato”, deve nortear a próxima saga a conectar os filmes da Marvel: O Multiverso –já abordado na minissérie “Loki”, da plataforma Disney Plus. Resumindo: Agora, os vilões vindos de outras realidades alternativas –como Dr. Octopus e Duende Verde, vividos magistralmente por Alfred Molina e Willen Dafoe dos mesmos filmes com Tobey Maguire –aparecem na realidade do Universo Marvel, complicando a vida do herói e ameaçando vidas. São um total de cinco (já vistos nos trailers): Além de Dr. Octopus e Duende, também o Electro (Jamie Foxx, num personagem melhor desenvolvido do que foi em “O Espetacular Homem-Aranha 2”), o Lagarto (Rhys Ifans) e o Homem-Areia (Thomas Aden Church).

A união de todas essas pontas soltas é indicativa do brilhantismo do trabalho de Jon Watts que –se não agradou a gregos e troianos nos dois filmes anteriores –conseguiu superar-se neste daqui, entregando um trabalho onde honra seu personagem extinguindo qualquer margem para questionamentos quanto a sua fidelidade aos quadrinhos, fazendo deste terceiro filme o arco final onde, em retrospecto, podemos enxergar esta como uma ‘trilogia de origem’ do personagem, ao mesmo tempo que o coloca numa nova, inesperada e possivelmente promissora trajetória de vida adulta, sem evitar, desta vez, os momentos mais sombrios que coloquem à prova justamente sua fibra moral como super-herói.

É tentador, para qualquer resenhista deste filme, revelar as surpresas arrebatadoras que “Sem Volta Para Casa” entrega praticamente o tempo todo durante suas nada modestas duas horas e meia de duração (algumas ombreiam os momentos antológicos de “Ultimato”), entretanto, seria um pecado: Sua experiência é tão vívida, tão assombrosamente sensorial, emocional e mágica que todos merecem a chance que conferi-la nos cinemas livres de spoilers. No que depender de mim, está feito, no entanto, meu conselho é: Corra para vê-lo (e maravilhar-se) o quanto antes!

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Bela Vingança


 “Promising Young Woman” foi o grande vencedor do Oscar 2021 de Melhor Roteiro Original conferido à Emerald Fennell, também ela a diretora do longa. Produzido pela estrela Margot Robbie, “Promising Young Woman” é uma engenhosa trama sobre vingança que, ao seu jeito, alberga certas predisposições em voga nos tempos atuais e que sempre merecem um debate para o discernimento do que é certo e errado: A relativização do estupro; o empoderamento feminino; a masculinidade tóxica; a misoginia institucionalizada e latente.

Numa atuação tão intuitiva quanto primorosa, Carey Mulligan é Cassie Thomas, ex-estudante de medicina que, num determinado ponto da vida, largou o futuro auspicioso que tinha para trabalhar como garçonete num café. Sua rotina consiste de uma inicialmente estranha obsessão: Durante a noite, Cassie finge estar bêbada em bares e boates da cidade, até inevitavelmente chamar a atenção de algum aproveitador. Na hora H, ela sempre termina revelando seu fingimento e intimidando seus covardes algozes.

Não chega a ser uma retalhação violenta a um ato molestador, mas, a direção sugestiva, elíptica e inteligente de Fennell, somada à atuação intensa e contundente de Mulligan fazem parecer, no início, que é: Cassie é elevada, na narrativa que a acompanha, a uma espécie de justiceira.

Notável é perceber a eficiência com que o filme estabelece essas características, sem maiores elementos e até mesmo sem mais informações que elucidem um certo mistério que cerca a protagonista –o do porque ela se comporta de tal forma.

Escrito com brilhantismo singular, o roteiro sabe o momento certo para omitir e para fornecer informações ao público, na medida em que isso ajuda a revitalizar o suspense.

A manutenção desse hábito parece roubar a capacidade de interação social de Cassie –como bem percebem seus preocupados pais, vividos por Jennifer Coolidge (de “Napoleão Dynamite”) e Clancy Brown (de “Highlander” e “Um Sonho de Liberdade”), talvez, os únicos personagens razoáveis em sua profundidade de todo o filme. Tudo parece ter relação com um incidente do passado de Cassie, durante a faculdade, e que tem relação com sua melhor amiga, Nina –uma personagem nunca vista, mais essencial ao plot.

Quando Cassie se encontra com o jovem pediatra Ryan (Bo Burnham),  ela começa a trilhar dois caminhos bastante distintos, e que aparentemente a obrigarão, em algum momento, à uma escolha: De um lado, aceitar o relacionamento saudável e carinhoso que desenvolve com ele; e do outro, o estreitamento incontornável do momento em que sua tão alardeada vingança se sucederá contra o responsável por tudo o que aconteceu, o almofadinha Al Monroe (Chris Lowell, de “Histórias Cruzadas”).

Até mesmo nisso, porém,  o roteiro de Fennell subverte as certezas do público –na crença de que, ao estabelecer duas linhas de ação antagônicas, ela fará da opção entre uma ou outra a materialização da redenção da protagonista. Ledo engano, “Promising Young Woman” faz esses dois tópicos se complementarem com ainda novas e surpreendentes adições nas nebulosas informações que vinha fornecendo ao expectador.

Construído com economia de recursos factuais, mas, sem a menor economia de inteligência, o filme de Fennell cria sequências absolutamente geniais na forma intrincada, mas sempre inteligível, com que os estratagemas de Cassie transcorrem ao longo da trama. Exemplo disso –e possivelmente, a espinha dorsal de toda a história –são os quatro alvos da vingança que, à exemplo de “Kill Bill”, de Tarantino (quem sabe, uma referência) se sucedem de forma episódica: O primeiro, uma colega dos tempos de escola (Alisson Brie) destinada a pagar muito caro por sua conivência; o segundo, uma reitora (Connie Britton) cuja falta de empatia, Cassie vai tratar de (num plano brilhante) voltar contra ela própria; o terceiro, trata-se de um advogado (ponta soberba de Alfred Molina) corroído pela culpa: e o quarto... bem, o quarto alvo de Cassie, e os desdobramentos de sua vingança, representam uma das mais formidáveis guinadas do filme, quiçá de todo o ano de 2020!

É pena que, em sua excelência, “Promising Young Woman” não permite uma elucidação mais específica de suas qualidades: A construção e a execução de todas as facetas de sua premissa estão diretamente relacionadas às surpresas que efetivamente não devem ser reveladas para que a apreciação desta obra fenomenal não se comprometa.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Tudo Por Um Sonho

Separado da esposa e da filha por vinte anos enquanto foi prisioneiro do regime totalitário de Cuba, o sonhador Juan Perez (o sempre bom Alfred Molina) não deixa de ser vítima das imprevisíveis ironias da vida quando parece enfim aportar nos EUA: Ele é equivocadamente tomado pelo oficial de imigração como marido da ex-prostituta Dorita (Marisa Tomei, voluptuosa e insinuante como nunca), já que o sobrenome Perez é relativamente comum entre os imigrantes.
Para eles, é até conveniente a manutenção do engano: Famílias numerosas não são deportadas para inumanos abrigos militares e ainda recebem patrocínio de assistentes sociais voluntários para começar a vida nos EUA.
É por isso que Dorita passa a procurar 'membros da família' entre os refugiados, desde o 'papai' (um idoso senil que anda nu e sobe em locais altos) até o 'filho do casal' (um menino órfão já familiarizado com a malandragem dos subúrbios).
Do outro lado desta trama de encontros e desencontros, a esposa verdadeira de Juan, Carmella (Anjelica Huston) e sua filha Teresa (Trini Alvarado, de “Os Espíritos”) tentam –mas, nunca conseguem –reencontrá-lo, e a desilusão resultante começa a empurrar Carmella para os braços do pretendente mais próximo, o detetive Pirelli (Chazz Palminteri).
A diretora indiana Mira Nair não esconde, em sua filmografia, o apreço por temas e indivíduos marginalizados, é pena que ela use desse interesse criativo para fazer aqui uma mera comédia romântica; sim, porque por mais que hajam subterfúgios inesperados (como a repentina morte de um dos personagens) nada esconde o fato de que tudo conspira para que o amor vá brotar entre Juan e Dorita.
Ao menos, Mira Nair se beneficia de presenças formidáveis que aumentam o interesse pelo filme, como a vulcânica Marisa Tomei, a encantadora Anjelica Huston e os charmosos Alfred Molina e Chazz Palminteri.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Olhos da Justiça

Quem viu “O Segredo dos Seus Olhos” já podia pressupor que a sua refilmagem norte-americana dificilmente igualaria o trabalho magnífico realizado pelo diretor Juan José Campanella –o cinema argentino de um modo geral está mesmo em um patamar artístico que poucas escolas do mundo conseguem rivalizar.
E olha que esta nova versão, estréia como diretor do roteirista Billy Ray (de “Jogos Vorazes”), fez o que pode para emanar um brilho próprio: Chamaram para protagonizá-la o ótimo Chiwetel Ejiofor, de “12 Anos de Escravidão” e ainda reuniram no mesmo elenco, as estrelas Nicole Kidman e Julia Roberts –cuja reunião em cena termina sendo o maior atrativo para este filme.
A trama também ganhou novas nuances que aprofundam ainda mais o envolvimento pessoal dos protagonistas e agregam de maneira inteligente os desdobramentos da história ao contexto norte-americano pós-11 de setembro.
O protagonista é Ray (Chiwetel Ejiofor, sempre ótimo ainda que incapaz de igualar o magnífico Ricardo Darin), um ex-agente do FBI cujo retorno ao convívio dos antigos colegas de profissão traz junto as pesarosas lembranças de uma investigação transcorrida há treze anos atrás (e, sendo o filme datado de 2015, esses treze anos ambientam sua trama logo após os traumáticos desdobramentos sócio-políticos do atentado às Torres Gêmeas) e que afetaram a todos: O terrível estupro e assassinato da filha de sua parceira Jess (Julia Roberts, vivendo uma personagem que não existia no filme argentino que pode ser vista como uma junção específica de alguns daqueles personagens).
Tornado pessoal por essas questões de parentesco, o caso não se mostrou complicado em sua elucidação –logo ficou claro quem foi o assassino –mas sim em sua conclusão circunstancial: O assassino se viu impune às conseqüências do crime que perpetrou justamente por ser um importante informante na tentativa de identificar uma célula terrorista em atividade.
Como em “O Segredo dos Seus Olhos”, este novo filme se dedica a avaliar as transfigurações amargas que uma tragédia inominável e suas corrosivas ramificações operaram nos relacionamentos; inclusive o amor não declarado entre Ray e a procuradora Claire (Nicole Kidman) que, ao lado dos dois detetives, lutou até o fim pela condenação do culpado.
A maneira com que o filme de Billy Ray procurou recriar o filme original –e dele, na medida do possível se distanciar –não alcança aquele mesmo padrão de perfeição por uma série de motivos contundentes: Porque o diretor não tem a mesma desenvoltura que Juan José Campanella para orquestrar as facetas distintas deste trabalho –e na falta delas o filme se empobrece. Porque as motivações –sobretudo, no que tange ao final inesperado –não estão tão bem elaboradas e especificadas quanto na obra argentina. E porque o cinema norte-americano, em sua postura displicente (especialmente em filmes comerciais), e na tentativa constante de seus realizadores em encontrar uma expressão relevante à sua dramaturgia não consegue igualar a percepção afiada e certeira que o primoroso cinema argentino leva à condição humana em obras escritas, dirigidas e interpretadas com riqueza primordial.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Maverick

A primeira cena já é calibrada a perfeição para capturar o interesse do expectador: Brett Maverick (Mel Gibson, incrivelmente carismático) está amarrado sob um cavalo, o pescoço preso à forca de uma árvore e o animal na iminência de uma disparada em razão das cobras que foram atiradas ao chão.
Com o protagonista nessa tremenda encrenca, o filme realiza seu providencial flashback, por meio do qual tratará de revelar à platéia como ele foi parar lá.
Lances inspirados de roteiro não poderiam mesmo faltar à esta adaptação cinematográfica de uma famosa série de TV, uma vez que escalado para escrevê-la está o renomado William Goldman, vencedor do Oscar de Melhor Roteiro justamente por “Butch Cassidy” –a manobra, contudo, soa mais como uma forma de atrair interessados num faroeste novamente roteirizado por Goldman do que um plano para agregar qualidade de fato ao projeto: Há realmente bons momentos, no entanto, eles convivem com seqüências que beiram o constrangedor na falta de graça de algumas piadas, ou no excesso de frases feitas que poluem os diálogos.
Jogador de pôquer, pistoleiro e ocasional fora-da-lei, Brett Maverick tem um plano com o qual deseja lucrar o suficiente para um bom período de descanso da vida atribulada de golpista: Vencer um campeonato disputadíssimo de pôquer cujo ingresso custa 25 mil dólares –uma fortuna nos tempos do Velho Oeste!
Efetivamente, cruzam-se em seu caminho, no decurso de tumultuadas aventuras, a charmosa falsária Annabelle (Jodie Foster, numa inusitada personagem que exige mais de suas habilidades cômicas, além de ostentar insuspeita sensualidade) e o xerife intransigente Zane Cooper (James Garner, veterano intérprete do Maverick televisivo), bem como o carrancudo pistoleiro Angel (Alfred Molina).
Todos exemplos do tratamento irônico que o filme espertamente dá à alguns ícones do faroeste: Um dos trechos mais engraçados é o encontro de Maverick com o chefe indígena Joseph, velho companheiro de falcatruas tão cheio de lábia interpretado por Graham Greene, de “Dança Com Lobos”, que nem seu velho amigo escapa de sua malandragem.
Conseqüência de uma série de tendências do cinema norte-americano dos anos 1990 de então (uma tentativa de restabelecer o faroeste após a consagração de “Os Imperdoáveis”; uma nova série de TV ganhando as telas de cinema após o sucesso de “O Fugitivo”; e uma nova parceria do diretor Richard Donner e do astro Mel Gibson após “Máquina Mortífera”) “Maverick” vai, pelo menos, na contramão dos exemplares densos e dramáticos dos novos faroestes que foram produzidos no período, como “Wyatt Earp”, ostentando uma descontração e uma diversão que remetem ainda mais à “Butch Cassidy” –e o roteirista Goldman, deveras não resiste à tentação de introduzir, numa cena, uma referência ao clássico passeio de bicicleta daquele filme.
Se no final das contas, “Maverick” oscila entre seqüências divertidas e outras insatisfatórias (sobretudo, perto do fim quando sua duração começa a se revelar excessiva), ele tem em contrapartida o mérito de ficar na memória como um bom e bem-humorado entretenimento.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

A Tempestade

William Shakespeare não era necessariamente uma novidade na filmografia de Julie Taymor (de “Across The Universe”) –muito antes ela havia se aventurado numa versão musical e lisérgica de “Titus”, com Anthony Hopkins –isso explica, talvez, o fato dela ter abordado a junção de ambições, revanches, traições e magia que compõem a trama passada numa ilha mediterrânea com um revisionismo tal que –sinal dos tempos –mudou o sexo de seu protagonista.
Se antes o personagem principal Prospero era homem (e chegou a ser interpretado por John Gielgud e Peter Fonda em outras versões), agora é convertido numa mulher, Prospera (que ganha assim a excelência de Helen Mirren).
Outrora a Duquesa de Milão, Prospera foi exilada numa ilha do mediterrâneo devido às maquinações conspiratórias de seu irmão, Antonio (Chris Cooper) e de outros membros da corte de Nápoles, como o próprio rei (David Strathairn) e seu irmão invejoso (Alan Cumming).
Ao mover sua vingança munida de forças sobrenaturais, Prospera se revela então um reflexo do próprio Shakespeare: Abandonada na ilha, junto de seus livros e da própria filha, Miranda (Felicity Jones, linda), ela desenvolve poderes com os quais controla o destino dos incautos viajantes –tal e qual o próprio escritor o faz com os personagens à disposição de sua trama.
Auxiliada pelo subserviente espírito Ariel (Ben Wisham), Prospera conjura uma tempestade com a qual consegue fazer naufragar na ilha um navio trazendo todos os seus antagonistas –e deles faz gato-sapato.
Como em “Titus”, a diretora Taymor imprime um senso visual colorido e surreal à trama, remetendo a uma artificialidade dos palcos de teatro potencializada com efeitos especiais de última geração e trucagens de câmera que buscam romper com qualquer predisposição tediosa do enredo. Nesse sentido, Julie Taymor, apesar de uma ou outra opção estética de gosto discutível, revela um entendimento de Shakespeare muito mais apurado do que, por exemplo, o jovem diretor Justin Kurzel e sua equivocada versão de “MacBeth”: Ela compreende que, vertidas para cinema, as tragédias de Shakespeare devem agregar em seu material as ferramentas que o cinema tem –o esplendor visual, a montagem inquieta e instigante, os atores capazes de hipnotizar a câmera (aqui não apenas estão as maravilhosas Helen Mirren e Felicity Jones, como também os incontroláveis Alfred Molina e Russel Brand).
Além disso, existem também as cenas de Ariel convertido aqui num ser etéreo e abstrato, na boca do qual Taymor deposita versos declamados em versões musicadas, e o monstruoso Caliban (Djimon Houson, de “A Ilha” e “Gladiador”) envolto numa maquiagem pesada e desconcertante.
Ainda que mais amena e não tão propensa ao experimentalismo e à transgressão, a versão de Julie Taymor bebe um pouco da fonte de Peter Greenaway e sua versão ultra-estilizada, “A Última Tempestade”, em suas singulares peripécias visuais e sua profusão de cores e imagens exuberantes a emoldurar o trabalho de um elenco empenhado e apaixonado.
Ótimo cinema a ser usufruído, entretanto, por públicos específicos.

sábado, 6 de maio de 2017

Homem-Aranha, por Sam Raimi

Homem-Aranha
Tinha uma aura irresistível de sonho realizado quando foi anunciada, aproximadamente no fim da década de 1990, a primeira adaptação do herói das histórias em quadrinhos, Homem-Aranha, para o cinema sob a direção de Sam Raimi, que anos antes tinha entregado uma obra tão satisfatória no quesito de “linguagem dos quadrinhos transposta para a tela de cinema”: O sensacional “Darkman-Vingança Sem Rosto”.
A visão de Raimi do herói primava pela aproximação carinhosa dos conceitos clássicos do personagem, aproveitando muito do material oriundo dos quinze primeiros anos de revistas publicadas, a fase considerada a melhor de todas pelos fãs, escrita pelo próprio criador Stan Lee. Apesar de algumas liberdades criativas bastante discutíveis (os lançadores de teia orgânicos eram, e ainda são, uma sacada difícil de engolir), público e crítica estavam tão extasiados em finalmente poder conferir um filme do Homem-Aranha –inclusive com um prodigioso trabalho de efeitos especiais onde eram concretizadas as então inacreditáveis cenas do herói se balançando em prédios –que todos os possíveis deslizes foram perdoados.
Partindo com prudência e propriedade do princípio básico da origem, o filme mostra o jovem e nerd Peter Parker (Tobey Maguire, na época uma escolha perfeita) que vai a um laboratório onde é mordido por uma aranha geneticamente modificada, ganhando assim poderes similares aos de um aracnídeo como a capacidade de escalar paredes, saltar cerca de 6 metros, força proporcional a de uma aranha, e um sensacional sentido contra o perigo.
Inicialmente, decidido a usar esses dons para conseguir dinheiro e impressionar seu amor não correspondido, a garota da casa ao lado Mary Jane Watson (Kirsten Dunst), Peter assiste a uma sucessão de eventos resultarem no assassinato de seu tio Ben (Cliff Robertson), pelas mãos do mesmo bandido que ele deixara escapar minutos antes.
À sombra da morte de seu querido tio, Peter faz uma promessa (jamais permitir que criminoso algum escape) assumindo assim a identidade do herói mascarado Homem-Aranha.
A escolha desse caminho leva Peter assim a colidir com o mal-feitor mascarado Duende Verde, na verdade, a identidade inconseqüente, inescrupulosa e imprevisível de Norman Osborn (Willen Dafoe, magistral no personagem a despeito da infeliz escolha visual de sua armadura), pai de seu melhor amigo, Harry (James Franco).
Preenchendo todas as lacunas possíveis da expectativa do público –o filme tinha ação, aventura, comédia, drama e romance –o primeiro “Homem-Aranha” arrastou multidões aos cinemas, mesmo em um período monopolizado por um fenômeno como “O Senhor dos Anéis”.

Homem-Aranha 2
Uma continuação era inevitável depois do grande sucesso do filme de 2002 e, para seguir a mesma trilha de sucesso, a equipe original foi mantida, com o diretor Sam Raimi comandando o mesmo elenco.
Ele aproveitou essa nova chance para aprofundar as questões envolvendo a dicotomia entre o desafortunado Peter Parker e as responsabilidades acarretadas por sua contra-parte, o Homem-Aranha, que o impedem de organizar os problemas de sua própria vida –uma dinâmica genial originada dos quadrinhos e que Raimi soube compreender com perícia tratar-se da grande razão para o sucesso do personagem.
Ele também foi beneficiado pela escolha de um antagonista muito mais carismático e interessante do que o Duende Verde, o Doutor Octopus, que encontrou no exuberante e sensível ator Alfred Molina, um intérprete ideal.
Identidade secreta do Homem-Aranha, Peter Parker (Maguire, cujos problemas físicos durante as filmagens acabaram virando lenda) descobre as impossibilidades de conciliar sua vida de super-herói com a rotina de uma pessoa normal que inclui manter seu emprego como fotógrafo no Clarim Diário, cuidar de sua tia May (Rosemary Harris), já idosa, e resolver seus problemas amorosos com Mary Jane (Dunst, prejudicada pela irritabilidade de sua personagem), que acabou noivando com o filho de seu chefe.
Tamanha tensão resulta num súbito stress cujos sintomas são a perda de seus poderes (!), e a possibilidade do Homem-Aranha não mais existir. Entretanto, surge também um novo vilão, o Doutor Octopus (Molina, escolhido após sua belíssima participação em “Frida”), que com seus planos megalomaníacos pode por em risco toda a cidade de Nova York. Uma tragédia que só o Homem-Aranha poderá impedir.
Tomando como base narrativa para esta continuação justamente alguns desdobramentos narrativos de “Superman 2” (o primeiro “Homem-Aranha” já se inspirava em muita coisa de “Superman-O Filme”), Sam Raimi tratou de fazer seu dever de casa aprimorando os efeitos especiais que, do filme anterior para este, sofrem uma espantosa evolução, e emoldurando todos esses detalhes com uma trama sólida, detalhada e inesperadamente humana –fruto do esforço conjunto de quatro competentes roteiristas: Alfred Gough, Miles Millar (ambos da antiga série “Smalville”), Michael Chabon (“Garotos Incríveis” e “Harry Potter”) –estes três creditados como argumentistas –e Alvin Sargent (ganhador do Oscar de Roteiro Adaptado por “Gente Como A Gente”).
Saldado como o melhor filme de super-heróis realizado até então (e o melhor filme do Homem-Aranha até hoje!), “Homem-Aranha 2” ainda se deu ao luxo de encerrar-se com ganchos contundentes para uma promissora e aguardada parte três.

Homem-Aranha 3
Todavia, as coisas mudaram no terceiro filme (e não foram para melhor...).
Apaixonado pelas HQs clássicas do personagem, e desejoso de manter essa orientação ao nomear como antagonista da vez o Homem-Areia (Thomas Alden Church, de “Sideways-Entre Umas e Outras”), vilão conhecido dos fãs antigos, mas pouco popular entre os fãs mais novos, Sam Raimi recebeu uma espécie de incumbência do estúdio da Sony: Atender à demanda dos fãs mais jovens e incluir em seu filme um vilão mais recente, surgido ainda na década de 1990, o truculento Venon.
Raimi, que assumiu o roteiro junto de seu irmão, Ivan Raimi, teve de ordenar uma narrativa que exigia três necessidades: A primeira, dar o devido tempo, atenção e importância dramática ao seu vilão escolhido, Homem-Areia; a segunda, dar igualmente atenção e importância dramática ao vilão que lhe foi imposto, o Venom (e é desagradavelmente perceptível na narrativa o desprezo que Raimi nutre por ele); e a terceira, dar o devido respaldo e conclusão a uma série de pontas soltas de narrativa deixadas como mote no fim do segundo filme.
O resultado foi um roteiro equivocado, enfadonho, excessivamente longo e pouco interessante onde os personagens (inclusive seu protagonista) eram apresentados com motivações mesquinhas, prejudicando a identificação do público.
Quando tudo começa, Peter Parker (Maguire, aqui num registro mais desleixado que do outros dois filmes) sente-se nas nuvens finalmente junto de Mary Jane, seu grande amor (Kirsten Dunst, também ela aparentemente afetada), mas nem tudo é festa na vida do Homem-Aranha; seu outrora melhor amigo Harry Osborn (James Franco, o pior de todos), sabendo do segredo de sua identidade secreta torna-se o novo Duende e parte para a vingança; além dele surge o poderoso Homem-Areia (Alden Church, fazendo o possível num personagem completamente perdido na trama), então um dos suspeitos da morte do tio Ben ocorrida no primeiro filme; e a bela loira Gwen Stacy (Bryce Dallas Howard, belíssima, porém sub-aproveitada numa personagem icônica dos quadrinhos, mas empregada aqui de maneira tola) aparece para introduzir ciúme e desconfiança em seu relacionamento com Mary Jane.
Quando os problemas parecem se acumular surge um uniforme negro, que lhe amplifica a força e parece ser de origem alienígena. Mal sabe Peter que ele será a semente do que talvez venha a ser o mais perigoso inimigo do Homem-Aranha: o maquiavélico Venon.
“Homem-Aranha 3” foi o ponto final em uma festejada trilogia de um personagem bastante aguardado no cinema, que começou muito bem, mas terminou revelando as conseqüências bastante prejudiciais do desgaste criativo de seu realizador.

terça-feira, 21 de março de 2017

Educação

O começo de “Educação” é magnificamente promissor: Os créditos iniciais se apresentam expressivos e dinâmicos, sugerindo ritmo e inventividade à narrativa, os primeiros takes até ensaiam uma premissa em torno do universo estudantil (o quê, mais tarde, não se confirma...) e a música sensacional de Paul Englishby estabelece de pronto um espírito de descontração e alegria que não se vê com freqüência no cinema independente norte-americano.
Tão logo sua trama se inicia, contudo, muito dessa impressão se dissolve, ainda que o filme da diretora Lone Scherfig (de “Italiano Para Principiantes”) preserve o tempo todo um interesse satisfatório em acompanhá-lo.
Se há algo que corresponde à expectativa do início, é o trabalho extraordinário da atriz Carey Mulligan. Ela interpreta uma garota adolescente moradora do subúrbio de Londres nos anos 1960, prestes a se formar e a prestar exames na concorrida universidade de Oxford.
Quando ela conhece um playboy com o dobro da sua idade (Peter Sarsgaard, muito bem), aos poucos iniciando com ele um relacionamento, a jovem é introduzida num mundo fascinante de festas, cultura e arte que parece ser, para ela, uma alternativa de bem-estar e diversão ao trabalhoso e enfadonho caminho universitário que lhe foi traçado.
Escrito pelo romancista (e expert em cultura pop) Nick Hornby, este notável drama inglês vem carregado de alto-astral, em grande parte graças à atuação sensível, profunda e descontraída de sua atriz principal, o quê contribui para sua salutar capacidade de alcance ao gosto do expectador.
Aos poucos o filme ensaia uma curiosa análise da complexa condição da mulher moderna nos anos 1960 de então.

Os Caçadores da Arca Perdida

Existem filmes que estão acima do bem e do mal. Certamente, a aventura inaugural de Indiana Jones –um dos mais sensacionais heróis do cinema –está entre eles.
“Caçadores da Arca Perdida” representava a reunião de uma equipe cujo resultado do trabalho conjunto dificilmente escaparia de ser memorável: Lá, estavam o produtor (George Lucas), o roteirista (Lawrence Kasdan) e o ator (Harrison Ford) de “O Império Contra-Ataca”, até hoje louvado como o melhor dentre todos os “Star Wars”.
É inclusive o mesmo clima impecável de aventura vertiginosa, com um equilíbrio raro e de espetacular acabamento entre um tom sombrio ocasional e uma leveza envolvente que caracteriza ambas as produções.
E isso, porque nem chegamos a falar ainda do diretor!
Fã dos movimentados filmes de James Bond, Steven Spielberg compartilhou com o amigo e produtor George Lucas sua intenção de realizar um filme de aventura, com um protagonista, naqueles moldes. Ele aplicou nessa narrativa seu amor ao cinema, sua excelência como condutor de cenas e contador de história, e imprimiu neste filme um clima irresistível que combinava o descompromisso sedutor das matinês com o primor do cinema da mais alta qualidade, obtendo com isso um clássico moderno.
1932. Indiana Jones, arqueólogo aventureiro que cruza o mundo em busca de artefatos raríssimos (e não raro arrisca sua vida por isso), recebe uma missão do governo norte-americano: numa disputa não declarada com a Alemanha de Hitler, os EUA desejam obter antes dos nazistas a posse da mais que preciosa Arca da Aliança, objeto que dizem ter armazenado os dez mandamentos e que por isso contem o poder de Deus. Ao lado de sua parceira, por força das circunstancias, Marion Ravenwood (uma adoravelmente irrequieta Karen Allen), ele ruma para o Marrocos onde perigos e aventuras os aguardam.
Como quem não quer nada, eis que Spielberg realiza um dos filmes fundamentais do cinema comercial moderno.