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domingo, 23 de fevereiro de 2020

Malícia Atômica

Se soa, à princípio, contraditória a ideia de Nicolas Roeg conceber uma comédia –ele que construiu densos e desafiadores tratados cinematográficos sobre a condição humana em “Walkabout-A Longa Caminhada”, “Inverno de Sangue Em Veneza” e “O Homem Que Caiu Na Terra” –logo, “Malícia Atômica” nos prova que não: É, na verdade, tremendamente coerente o tom, a verve e o conceito que ele executa nesta trama irreal, insólita e improvável, mas em tudo e por tudo calcada na realidade e na existência (ou no existencial).
Os personagens não recebem nomes em “Malícia Atômica” –pois, eles prescindem deles!
Não ouvimos em momento algum o nome da personagem interpretada por Theresa Russell (deliciosa, por sinal!), mas todos os indícios confirmam ser ela Marilyn Monroe.
Também nunca ouvimos o nome do personagem de Michael Emil (ele é, quando muito, chamado de ‘professor’), mas tudo indica ser ele Albert Einstein.
Em meio às filmagens de “O Pecado Mora Ao Lado” –reconstituídas rigorosamente pelo minimalista Roeg na cena inicial –descobrimos que após a execução da famosa e tumultuada cena do vestido esvoaçante, a atriz principal (que, não há dúvidas, é a Marilyn de Theresa Russell) se fartou de todo o caos de bajulação e paparicação à sua volta e resolveu sair rodando de carro naquela quente madrugada de 1953 em Nova York.
Termina assim, no Hotel Roosevelt, onde pretende saciar seu desejo de fã e passar a noite com o ‘professor’ –ou seja, Albert Einstein.
Outros personagens marcam presença e contribuem com novas reflexões provocadas pelo encontro dessas duas notórias personalidades: O marido da atriz, um jogador de beisebol truculento e bronco, constantemente incapaz de lidar com o assédio em torno do símbolo sexual que é sua esposa (Gary Busey interpretando o personagem que seria Joe Di Maggio); e um senador inescrupuloso, anti-comunista e ávido por arrancar do ‘professor’ um testemunho politicamente favorável no congresso (Tony Curtis no papel que certamente seria o senador Joseph McCarthy).
Bastando em si mesmo com essa pérola de premissa, o filme de Roeg assume a estrutura quase de uma peça teatral ao concentrar sua ação no quarto do perplexo professor, teoricamente inteligentíssimo, mas incapaz de lidar com a sensualidade mundana e absolutamente eficiente que a atriz exerce sobre ele.
São dinâmicas primorosamente trabalhadas: Há, na reflexão oculta do diretor Roeg por trás do gracejo, uma espécie de percepção igualitária. Se Marilyn Monroe e Albert Einstein, inicialmente parecem completamente distintos em suas tão identificáveis caracterizações (e eles de fato o são), há também similaridades não tão aparentes, como a aflição acarretada pela fama, a carência incondicionalmente humana e a empatia.
Com efeito, se Di Maggio é visto (e hoje muito mais conhecido) como o cara que casou-se com Marilyn Monroe, ele também surge como um dos rejeitados por ela (pois seus chiliques de estrela o atingem também) e, ao fim, percebe amargamente que sempre estiveram em funcionamento as engrenagens que terminariam o separando dela em definitivo.
Roeg só não passa a mão na cabeça do Senador McCarthy, mostrado como um político hábil para distorcer a oratória em prol de seus próprios interesses e o perpetrador virulento do único (e terrível) momento de violência do filme.
Todos esses personagens, com suas entradas e saídas de cena, têm suas reflexões mais íntimas intercaladas na narrativa por sequências que ilustram, de uma forma ou de outra, seu passado, seus temores mais ancestrais e seus anseios mais primitivos –a pressão paterna de Di Maggio, o fanatismo de McCarthy oriundo desde a juventude, os abusos voluntários ou involuntários sofridos por Marilyn, o terror de Einstein de que seu conhecimento deflagre a Terceira Guerra Mundial –são essas percepções, detalhes e sutilezas que incrementam o filme brilhante concebido por Roeg, e que fazem valer a pena suas inúmeras revisões, ao fim das quais ele sempre brindará o expectador com uma nova descoberta.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A Prostituta

A maneira como Ken Russell assumiu a adaptação de uma peça teatral é tão desconcertante quanto as obras mais ácidas que ele realizou ao longo de sua nada usual carreira.
O foco aqui eram os monólogos carregados de desilusão subversiva e linguajar chocante da personagem principal, uma prostituta das ruas às voltas com as imposições tirânicas de seu cafetão, os vícios sórdidos de seus clientes, o patrulhamento moral e opressivo da polícia e toda sorte de perigos e ameaças da vida noturna.
Sua protagonista é o oposto exato da idealizada personagem principal de “Uma Linda Mulher” –filme que, aos olhos de Ken Russell deve ser dos mais absurdos e pedantes –e, para tanto, seu registro das condições miseráveis das ruas é de uma contundência que incomoda o expectador do início ao fim. Nunca o mau gosto deliberado de seu estilo apareceu tão presente e tão determinante do diferencial de seu autor.
Theresa Russel se entrega a uma personagem polêmica, niilista, controversa e –para prejuízo dela própria –essencialmente apática. Talvez, a peça de David Hines tivesse por objetivo lançar uma luz sobre os detalhes mais perniciosos de parias que vivem e sobrevivem seguindo as regras do mundo cão dos subúrbios, porém o texto não consegue estabelecer qualquer empatia entre o público e a protagonista –e isso nunca foi mesmo o forte de Ken Russell como contador de histórias.
Liz é uma garota de programa. Não é nada burra, ela sabe disso. Mas, ainda assim, as condições desfavoráveis de sua vida a levaram a essa situação. Ela passa as madrugadas nas esquinas e nas sarjetas de Los Angeles, mascando chicletes numa atitude quase de desdém em relação ao resto do mundo. Nada lhe inspira empatia. Aos poucos, enquanto revela um pouco de si mesma em meio aos programas que não dão certo e a outros contratempos, descobrimos através de flashbacks que ela teve um filho, um marido violento e uma série de infortúnios, e que a apatia indiferente (e até adolescente) que ela ostenta diante dos revezes que aparecem são meras máscaras para ocultar sua aflição real.
Não há muito sexo no filme de Russell apesar do tema que tem –embora de um linguajar cru e despojado, a intenção do diretor não é concretizar cenas gratuitas de sexualidade, e esta é só mais uma das facetas pelas quais ele demonstra, neste filme, não querer ir de encontro às expectativas do público.
Isso pode ser uma faca de dois gumes: Na mesma medida em que ele revela coragem na construção da estrutura do filme (e a filmografia de Russell é pontuada por obras corajosas), ele também flerta com a execução de um filme que a toda hora ameaça ser frustrante, ultrajante e degradante –características que não parecem lhe incomodar como realizador, mas que certamente afastaram os expectadores e desagradaram boa parte da crítica que repudiou o filme na época de seu lançamento.

sábado, 6 de maio de 2017

Homem-Aranha, por Sam Raimi

Homem-Aranha
Tinha uma aura irresistível de sonho realizado quando foi anunciada, aproximadamente no fim da década de 1990, a primeira adaptação do herói das histórias em quadrinhos, Homem-Aranha, para o cinema sob a direção de Sam Raimi, que anos antes tinha entregado uma obra tão satisfatória no quesito de “linguagem dos quadrinhos transposta para a tela de cinema”: O sensacional “Darkman-Vingança Sem Rosto”.
A visão de Raimi do herói primava pela aproximação carinhosa dos conceitos clássicos do personagem, aproveitando muito do material oriundo dos quinze primeiros anos de revistas publicadas, a fase considerada a melhor de todas pelos fãs, escrita pelo próprio criador Stan Lee. Apesar de algumas liberdades criativas bastante discutíveis (os lançadores de teia orgânicos eram, e ainda são, uma sacada difícil de engolir), público e crítica estavam tão extasiados em finalmente poder conferir um filme do Homem-Aranha –inclusive com um prodigioso trabalho de efeitos especiais onde eram concretizadas as então inacreditáveis cenas do herói se balançando em prédios –que todos os possíveis deslizes foram perdoados.
Partindo com prudência e propriedade do princípio básico da origem, o filme mostra o jovem e nerd Peter Parker (Tobey Maguire, na época uma escolha perfeita) que vai a um laboratório onde é mordido por uma aranha geneticamente modificada, ganhando assim poderes similares aos de um aracnídeo como a capacidade de escalar paredes, saltar cerca de 6 metros, força proporcional a de uma aranha, e um sensacional sentido contra o perigo.
Inicialmente, decidido a usar esses dons para conseguir dinheiro e impressionar seu amor não correspondido, a garota da casa ao lado Mary Jane Watson (Kirsten Dunst), Peter assiste a uma sucessão de eventos resultarem no assassinato de seu tio Ben (Cliff Robertson), pelas mãos do mesmo bandido que ele deixara escapar minutos antes.
À sombra da morte de seu querido tio, Peter faz uma promessa (jamais permitir que criminoso algum escape) assumindo assim a identidade do herói mascarado Homem-Aranha.
A escolha desse caminho leva Peter assim a colidir com o mal-feitor mascarado Duende Verde, na verdade, a identidade inconseqüente, inescrupulosa e imprevisível de Norman Osborn (Willen Dafoe, magistral no personagem a despeito da infeliz escolha visual de sua armadura), pai de seu melhor amigo, Harry (James Franco).
Preenchendo todas as lacunas possíveis da expectativa do público –o filme tinha ação, aventura, comédia, drama e romance –o primeiro “Homem-Aranha” arrastou multidões aos cinemas, mesmo em um período monopolizado por um fenômeno como “O Senhor dos Anéis”.

Homem-Aranha 2
Uma continuação era inevitável depois do grande sucesso do filme de 2002 e, para seguir a mesma trilha de sucesso, a equipe original foi mantida, com o diretor Sam Raimi comandando o mesmo elenco.
Ele aproveitou essa nova chance para aprofundar as questões envolvendo a dicotomia entre o desafortunado Peter Parker e as responsabilidades acarretadas por sua contra-parte, o Homem-Aranha, que o impedem de organizar os problemas de sua própria vida –uma dinâmica genial originada dos quadrinhos e que Raimi soube compreender com perícia tratar-se da grande razão para o sucesso do personagem.
Ele também foi beneficiado pela escolha de um antagonista muito mais carismático e interessante do que o Duende Verde, o Doutor Octopus, que encontrou no exuberante e sensível ator Alfred Molina, um intérprete ideal.
Identidade secreta do Homem-Aranha, Peter Parker (Maguire, cujos problemas físicos durante as filmagens acabaram virando lenda) descobre as impossibilidades de conciliar sua vida de super-herói com a rotina de uma pessoa normal que inclui manter seu emprego como fotógrafo no Clarim Diário, cuidar de sua tia May (Rosemary Harris), já idosa, e resolver seus problemas amorosos com Mary Jane (Dunst, prejudicada pela irritabilidade de sua personagem), que acabou noivando com o filho de seu chefe.
Tamanha tensão resulta num súbito stress cujos sintomas são a perda de seus poderes (!), e a possibilidade do Homem-Aranha não mais existir. Entretanto, surge também um novo vilão, o Doutor Octopus (Molina, escolhido após sua belíssima participação em “Frida”), que com seus planos megalomaníacos pode por em risco toda a cidade de Nova York. Uma tragédia que só o Homem-Aranha poderá impedir.
Tomando como base narrativa para esta continuação justamente alguns desdobramentos narrativos de “Superman 2” (o primeiro “Homem-Aranha” já se inspirava em muita coisa de “Superman-O Filme”), Sam Raimi tratou de fazer seu dever de casa aprimorando os efeitos especiais que, do filme anterior para este, sofrem uma espantosa evolução, e emoldurando todos esses detalhes com uma trama sólida, detalhada e inesperadamente humana –fruto do esforço conjunto de quatro competentes roteiristas: Alfred Gough, Miles Millar (ambos da antiga série “Smalville”), Michael Chabon (“Garotos Incríveis” e “Harry Potter”) –estes três creditados como argumentistas –e Alvin Sargent (ganhador do Oscar de Roteiro Adaptado por “Gente Como A Gente”).
Saldado como o melhor filme de super-heróis realizado até então (e o melhor filme do Homem-Aranha até hoje!), “Homem-Aranha 2” ainda se deu ao luxo de encerrar-se com ganchos contundentes para uma promissora e aguardada parte três.

Homem-Aranha 3
Todavia, as coisas mudaram no terceiro filme (e não foram para melhor...).
Apaixonado pelas HQs clássicas do personagem, e desejoso de manter essa orientação ao nomear como antagonista da vez o Homem-Areia (Thomas Alden Church, de “Sideways-Entre Umas e Outras”), vilão conhecido dos fãs antigos, mas pouco popular entre os fãs mais novos, Sam Raimi recebeu uma espécie de incumbência do estúdio da Sony: Atender à demanda dos fãs mais jovens e incluir em seu filme um vilão mais recente, surgido ainda na década de 1990, o truculento Venon.
Raimi, que assumiu o roteiro junto de seu irmão, Ivan Raimi, teve de ordenar uma narrativa que exigia três necessidades: A primeira, dar o devido tempo, atenção e importância dramática ao seu vilão escolhido, Homem-Areia; a segunda, dar igualmente atenção e importância dramática ao vilão que lhe foi imposto, o Venom (e é desagradavelmente perceptível na narrativa o desprezo que Raimi nutre por ele); e a terceira, dar o devido respaldo e conclusão a uma série de pontas soltas de narrativa deixadas como mote no fim do segundo filme.
O resultado foi um roteiro equivocado, enfadonho, excessivamente longo e pouco interessante onde os personagens (inclusive seu protagonista) eram apresentados com motivações mesquinhas, prejudicando a identificação do público.
Quando tudo começa, Peter Parker (Maguire, aqui num registro mais desleixado que do outros dois filmes) sente-se nas nuvens finalmente junto de Mary Jane, seu grande amor (Kirsten Dunst, também ela aparentemente afetada), mas nem tudo é festa na vida do Homem-Aranha; seu outrora melhor amigo Harry Osborn (James Franco, o pior de todos), sabendo do segredo de sua identidade secreta torna-se o novo Duende e parte para a vingança; além dele surge o poderoso Homem-Areia (Alden Church, fazendo o possível num personagem completamente perdido na trama), então um dos suspeitos da morte do tio Ben ocorrida no primeiro filme; e a bela loira Gwen Stacy (Bryce Dallas Howard, belíssima, porém sub-aproveitada numa personagem icônica dos quadrinhos, mas empregada aqui de maneira tola) aparece para introduzir ciúme e desconfiança em seu relacionamento com Mary Jane.
Quando os problemas parecem se acumular surge um uniforme negro, que lhe amplifica a força e parece ser de origem alienígena. Mal sabe Peter que ele será a semente do que talvez venha a ser o mais perigoso inimigo do Homem-Aranha: o maquiavélico Venon.
“Homem-Aranha 3” foi o ponto final em uma festejada trilogia de um personagem bastante aguardado no cinema, que começou muito bem, mas terminou revelando as conseqüências bastante prejudiciais do desgaste criativo de seu realizador.