Mostrando postagens com marcador Tony Curtis. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tony Curtis. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Quanto Mais Quente Melhor


 Do momento em que começa até a cena em que termina, “Some Like It Hot”, de Billy Wilder, mais do que sua capacidade de fazer rir, exercita também o poder de surpreender o público, ainda que, deveras, ele consiga fazer rir com frequência também. Sua cena de abertura é uma perseguição de carro acompanhada de tiroteio, em plena Chicago da década de 1920, apinhada de gangsteres ávidos por burlar a Lei Seca.

À essa perseguição, segue-se um momento onde os gangsteres levam um carregamento de bebida alcóolica (escondido dentro de um caixão destinado a um falso funeral!) a uma casa de shows clandestina. Vemos então que o mesmo local está prestes a receber uma batida policial graças a um escorregadio informante que logo se evade.

Mas, espere! Este filme não é aquela comédia com Marilyn Monroe, Jack Lemmon e Tony Curtis?

Sim, é. Mas, até chegarmos lá, o diretor Wilder gasta um tempo crucial e salutar preparando maravilhosamente bem seu contexto, não eximindo-se de moldar um prólogo até bastante carregado de violência e ameaça. Nele, seus protagonistas surgem em cena quase por acaso, quando a câmera desliza até Joe e Jerry (Curtis e Lemmon, numa dinâmica bastante parecida com a de Dean Martin e Jerry Lewis, sendo um o cafajeste de ares sedutores e o outro, o pateta que sempre se dá mal). Um saxofonista e um contrabaixista, respectivamente, Joe e Jerry tocam em uma banda de jazz naquele inferninho ilegal em Chicago. Quando a polícia baixa por lá, eles se veem obrigados a fugir e procurar por  mais emprego, terminando por testemunhar o assassinato do tal informante da polícia pelas mãos do mafioso Spats Columbo (George Raft).

Procurados pela máfia e pela polícia por estarem no lugar errado e na hora errada. Joe e Jerry precisam mais do que simplesmente fugir, eles precisam desaparecer sem deixar rastros e, de repente, uma ideia que antes parecia absurda começa a soar bem mais plausível: Disfarçarem-se de mulheres para entrar numa banda feminina com destino à Miami, na ensolarada Flórida.

É quando finalmente embarcam no trem que os levará para a Flórida já com suas novas identidades –Joe agora é Josephine; Jerry agora é Daphne –que os dois destrambelhados e azarados músicos se deparam com uma aparição: Sugar Kane, personagem que abarca os maneirismos inconfundíveis e poderosamente atrativos que Marilyn Monroe tornou icônicos; e na peculiar e, até certo ponto, desafiadora mescla de eficiência, magnetismo e espontaneidade com a qual ela moldou sua atuação aqui ela foi, enfim, contemplada com um Globo de Ouro de Melhor Atriz em Musical ou Comédia.

Billy Wilder sempre foi fascinado por personagens de dúbias intenções que, durante a maior parte da premissa, ocultam o que são e o que desejam por meio de atrapalhados (e elaborados) subterfúgios. Aqui, no que pode ser considerado sua grande obra, não é diferente: Embora dedicados no decurso de sua farsa –algo que, evidentemente, ocupa o cerne no filme –Joe e Jerry  têm seus instintos primais despertados pela insinuante, vulnerável e ingenuamente irresistível Sugar, e logo tentam enredá-la, sem muito saber como.

Na verdade, Joe, obviamente, descobre o caminho das pedras com mais rapidez, deixando o parceiro para trás: Ao chegar no hotel da Flórida, ele adota outro disfarce além daquela que já vinha interpretando (!); o de um milionário playboy, e com isso atrai Sugar, abertamente interessada em caçar um marido rico.

O trecho final transforma a comédia de Wilder num bem calibrado e pulsante espetáculo de humor físico quando o mesmo hotel recebe, na maior das coincidências, o pessoal do próprio Spats Columbo, reunindo protagonistas e antagonistas no mesmo ambiente, e dando oportunidade para sucessivas confusões.

Nunca foi muito segredo a visão desprendida, niilista e até certo ponto cínica que Billy Wilder possuía da sedução e do sexismo. Ainda que realizado numa época em que audácias temáticas precisavam do tempero da sutileza para ultrapassar o crivo de censores eventuais, “Some Like It Hot” é exemplar de várias facetas desse seu olhar atrevido: Para muito além da questão cômica do travestismo onde heterossexuais se obrigam a vestirem-se de mulher –que, certamente, inspirou outras comédias bem-sucedidas que vieram muito depois como “Tootsie”, “Uma Babá Quase Perfeita” e o irrisório “As Branquelas” –temos a abordagem quase canalha da parte do personagem de Tony Curtis (um protagonista apático que considero o grande ponto fraco do filme) em contraponto ao jogo de interesses declarado que dá início ao seu relacionamento com Sugar Kane. Nesse romance não estão em perspectiva quaisquer sentimentos de natureza genuína ou boas intenções; e o diretor parece bem à vontade com isso. E nem me deixem começar a falar sobre o personagem de Jack Lemmon e o rico pretendente que ele (ou “ela”) conhece no hotel (vivido por Joe E. Brown), o que culmina num dos finais mais absurdamente hilários do cinema.

“Ninguém É Perfeito.”

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Malícia Atômica

Se soa, à princípio, contraditória a ideia de Nicolas Roeg conceber uma comédia –ele que construiu densos e desafiadores tratados cinematográficos sobre a condição humana em “Walkabout-A Longa Caminhada”, “Inverno de Sangue Em Veneza” e “O Homem Que Caiu Na Terra” –logo, “Malícia Atômica” nos prova que não: É, na verdade, tremendamente coerente o tom, a verve e o conceito que ele executa nesta trama irreal, insólita e improvável, mas em tudo e por tudo calcada na realidade e na existência (ou no existencial).
Os personagens não recebem nomes em “Malícia Atômica” –pois, eles prescindem deles!
Não ouvimos em momento algum o nome da personagem interpretada por Theresa Russell (deliciosa, por sinal!), mas todos os indícios confirmam ser ela Marilyn Monroe.
Também nunca ouvimos o nome do personagem de Michael Emil (ele é, quando muito, chamado de ‘professor’), mas tudo indica ser ele Albert Einstein.
Em meio às filmagens de “O Pecado Mora Ao Lado” –reconstituídas rigorosamente pelo minimalista Roeg na cena inicial –descobrimos que após a execução da famosa e tumultuada cena do vestido esvoaçante, a atriz principal (que, não há dúvidas, é a Marilyn de Theresa Russell) se fartou de todo o caos de bajulação e paparicação à sua volta e resolveu sair rodando de carro naquela quente madrugada de 1953 em Nova York.
Termina assim, no Hotel Roosevelt, onde pretende saciar seu desejo de fã e passar a noite com o ‘professor’ –ou seja, Albert Einstein.
Outros personagens marcam presença e contribuem com novas reflexões provocadas pelo encontro dessas duas notórias personalidades: O marido da atriz, um jogador de beisebol truculento e bronco, constantemente incapaz de lidar com o assédio em torno do símbolo sexual que é sua esposa (Gary Busey interpretando o personagem que seria Joe Di Maggio); e um senador inescrupuloso, anti-comunista e ávido por arrancar do ‘professor’ um testemunho politicamente favorável no congresso (Tony Curtis no papel que certamente seria o senador Joseph McCarthy).
Bastando em si mesmo com essa pérola de premissa, o filme de Roeg assume a estrutura quase de uma peça teatral ao concentrar sua ação no quarto do perplexo professor, teoricamente inteligentíssimo, mas incapaz de lidar com a sensualidade mundana e absolutamente eficiente que a atriz exerce sobre ele.
São dinâmicas primorosamente trabalhadas: Há, na reflexão oculta do diretor Roeg por trás do gracejo, uma espécie de percepção igualitária. Se Marilyn Monroe e Albert Einstein, inicialmente parecem completamente distintos em suas tão identificáveis caracterizações (e eles de fato o são), há também similaridades não tão aparentes, como a aflição acarretada pela fama, a carência incondicionalmente humana e a empatia.
Com efeito, se Di Maggio é visto (e hoje muito mais conhecido) como o cara que casou-se com Marilyn Monroe, ele também surge como um dos rejeitados por ela (pois seus chiliques de estrela o atingem também) e, ao fim, percebe amargamente que sempre estiveram em funcionamento as engrenagens que terminariam o separando dela em definitivo.
Roeg só não passa a mão na cabeça do Senador McCarthy, mostrado como um político hábil para distorcer a oratória em prol de seus próprios interesses e o perpetrador virulento do único (e terrível) momento de violência do filme.
Todos esses personagens, com suas entradas e saídas de cena, têm suas reflexões mais íntimas intercaladas na narrativa por sequências que ilustram, de uma forma ou de outra, seu passado, seus temores mais ancestrais e seus anseios mais primitivos –a pressão paterna de Di Maggio, o fanatismo de McCarthy oriundo desde a juventude, os abusos voluntários ou involuntários sofridos por Marilyn, o terror de Einstein de que seu conhecimento deflagre a Terceira Guerra Mundial –são essas percepções, detalhes e sutilezas que incrementam o filme brilhante concebido por Roeg, e que fazem valer a pena suas inúmeras revisões, ao fim das quais ele sempre brindará o expectador com uma nova descoberta.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Spartacus


É necessário um gênio para adentrar um estilo de filmes já específico e nele deixar uma marca indelével. Tais mais assombroso é quando esse gênio ainda se encarrega de um projeto já em andamento, herdando uma obra iniciada por outro diretor. Foram nessas circunstâncias que Stanley Kubrick chegou ao épico “Spartacus”.
Dono de fato e de direito do filme, o produtor e astro Kirk Douglas (que usa e abusa de seu fulgor físico e carismático no papel-título) ficou impressionado com o jovem diretor (com quem trabalhou em “O Grande Golpe” e “Glória Feita de Sangue”) e terminou requisitando-o quando o diretor original (Anthony Mann, de “El Cid”) abandonou o projeto.
A personalidade destemida e impecável de Douglas certamente se reflete na história de Spartacus, o escravo, trabalhador nas minas, levado pelo treinador de gladiadores Batiatus (Peter Ustinov, vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante) a lutar nas arenas para divertimento de nobres hedonistas como Marcus Crassus (Laurence Olivier).
Todavia, uma mudança se opera em Spartacus. Indignado com o tratamento inumano dado a si e aos seus pares. Atormentado pela paixão que nutre pela escrava de companhia Karina (Jean Simmons). E insuflado por um desejo cada vez maior de se ver livre e retribuir os maus-tratos sofridos, Spartacus lidera uma súbita rebelião de escravos cuja repercussão não só vai galgando o clamor popular entre os camponeses (ganhando numerosos adeptos, entre eles, o criado de Crassus, Antoninus, vivido por Tony Curtis) como também chega aos altos escalões de Roma, convertendo-se numa sucessão de batalhas campais entre os rebeldes e o exército romano.
“Spartacus” irmana-se assim aos grandes épicos do cinema por seu perfeccionismo técnico, pelas cenas esplêndidas e grandiosas de batalha, mas também diferenciando-se deles por uma série de peculiares elementos, como o roteiro assinado por Dalton Trumbo que despe-se de referências bíblicas e religiosas para abraçar um cunho político, social e comportamental (tão caro ao seu autor) que o torna único.
A despeito do resultado superlativo que “Spartacus” obteve em todos os seus aspectos técnicos e artísticos, Kubrick não ficou satisfeito em ser um mero diretor contratado e não ter, portanto, a palavra final sobre o material: “Spartacus” marca sua migração definitiva para os projetos independentes e profundamente pessoais dos quais ele se ocupou até o fim da vida.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A Embriaguez do Sucesso


Algumas das maiores obras de todos os tempos parecem tão simples em sua excelência que podem passar a ilusória impressão de ter sido um trabalho fácil de ser feito.
E tudo em “A Embriaguez do Sucesso” depõe a favor dessa sensação: Ele flui com tanto dinamismo, seu elenco é tão incrivelmente acertado e seus detalhes intrínsecos são tão pontuais que rapidamente somos levados a nos deixar levar por esse brilhantismo, usufruindo o show.
A funcionar quase como um mestre de cerimônias desse mundo noturno de pessoas orientadas por toda sorte de interesses temos Eddie Falco (Tony Curtis) que, a despeito de sua crescente influência, sabe ter ainda um bom caminho a galgar até chegar aonde almejam suas ambições.
Tal caminho pode ser facilitado pelo poderoso colunista J.J. Hunsecker (Burt Lancaster) que dá a ele uma missão sórdida: Separar sua irmã mais nova Suzie (Suzan Harrison) do jovem músico Steve (Marty Milner) por quem está apaixonada.
E o amor entre Steve e Suzie surge como algo (talvez, o único elemento) genuinamente puro da narrativa.
Quando o filme do diretor Alexander Mackendrick começa, Falco já se vê nos percalços ingratos dessa tarefa: E, portanto, o mau-caratismo inerente à ela só vai se evidenciando aos poucos para o expectador.
Com efeito, o filme de Mackendrick (realizador do cultuado “Quinteto da Morte”) ainda que despido de detetives, investigações e crimes propriamente ditos, usa de todas as conotações de filme noir para dar dimensão e contexto à um mundo exuberante de falsidade, negociações e poder onde a noite segue até o amanhecer sem que nenhum personagem precise dormir.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

A Corrida do Século


Após uma bem-sucedida parceria em “Quanto Mais Quente Melhor”, os astros Jack Lemmon e Tony Curtis tornaram a trabalhar juntos, desta vez sob a direção do especialista em comédia pastelão Blake Edwards –e o resultado tornou a ser maravilhoso!
Desta vez, no entanto, eles não faziam o papel de parceiros, mas de antagonistas, sendo Tony Curtis o herói e Jack Lemmon, o vilão.
Com efeito, o crápula vivido por Lemmon é tão caricato, engraçado e carismático que, por vezes, ofusca o mocinho algo genérico de Curtis, ainda que sua persona agradável faça, em prol do protagonista, exatamente aquilo que se espera dele.
“A Corrida do Século’ se inicia com esquetes que não necessariamente elaboram a trama que o filme terá, mas ilustram, de forma inapelavelmente divertida, a rivalidade entre o mau-caráter Professor Fate (Lemmon) e o solícito e engomadinho piloto Leslie (Curtis), ou melhor, o Grande Leslie –e nessas esquetes se percebe o pleno domínio cômico de cena que o diretor Edwards ostentou tantas vezes.
A trama, por assim dizer, se desenha de fato quanto os dois disputam então uma corrida pra valer que parte de Nova York em direção à Paris; e, portanto, envolve não somente carros de corrida, mas toda sorte de meios de transporte!
Nesse percurso, a corrida se transfigura com a aparição de outros personagens que acrescentarão ainda mais molho aos planos ingenuamente malignos de Prof. Fate para vencer a corrida trapaceando.
Embora tenha um reconhecimento menor que a série “A Pantera Cor-De-Rosa”, “A Corrida do Século” revela tão divertido, envolvente e indicativo do talento de Blake Edwards quanto aquele projeto.
E mais: Como ele, este filme também inspirou um desenho animado; “A Corrida Maluca”, cujo personagem vilanesco, Dick Vigarista, é recriado à imagem e semelhança do Prof. Fate de Jack Lemmon.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Moviola - A Guerra de Scarlett O' Hara


O prazer de se assistir ao raro telefilme “Moviola” vem da aura mística que cerca os eventos relacionados ao clássico “E O Vento Levou”.
E sabe-se que os percalços foram tantos que provavelmente renderiam uns cinco longa-metragens! O filme do diretor John Erman contenta-se em focar sua atenção na obstinada intenção do produtor David O’ Selznick (Tony Curtis, sempre carismático) em encontrar a intérprete perfeita para a protagonista Scarlett O’ Hara depois de obter os direitos para cinema do best-seller de Margaret Mitchell.
Era o ano de 1938 e não se fala de outra coisa em Hollywood, exceto da afobação do produtor O’ Selznick que comprou os direitos do livro “E O Vento Levou” antes mesmo de seu lançamento –talvez, já prevendo o sucesso esmagador que teria, talvez, uma aposta arriscada inerente à sua natureza aventureira.
Selznick estava disposto a não poupar despesas. Queria o filme mais esplendoroso, mais grandioso e arrebatador já feito; e tal intento incluía a escalação de um cast impecável e perfeito.
Para o protagonista masculino não haviam muitas dúvidas sobre quem seria a escolha perfeita: Tanto o público, como o próprio Selznick não viam outro senão Clark Gable (Edward Winter) no papel.
O problema: A despeito da hesitação do próprio Gable com o filme, o astro era contratado da MGM (na época, os estúdios arregimentavam seus próprias astros e estrelas), o quê tornava difícil sua liberação para “E O Vento Levou”.
A solução: O presidente da MGM de então, Louis B. Mayer (Harold Gould) era sogro do próprio Selznick (!), o quê facilitou as negociações.
Todavia, o papel principal feminino, Scarlett O’ Hara, representava um desafio e tanto: Era uma personagem complexa (ou seja, exigia uma atriz com plenas capacidades dramáticas) e, embora Selznick tivesse uma ideia muito clara que como deveria ser a intérprete à incorporá-la não havia uma atriz específica para ser escolhida.
Idealista, Selznick fez dessa cruzada em busca da Scarlett O’ Hara ideal um dos veículos de divulgação de seu filme, ainda na pré-produção ("Ela está por aí, em algum lugar! Só preciso encontrá-la!" dizia ele).
Foi um papel disputado a tapa por todas as atrizes conhecidas, desconhecidas e aspirantes a atrizes da época. Estrelas como Bete Davis, Joan Crawford, Carole Lombard (esposa do próprio Clark Gable), Tallulah Bankhead e Paulette Goddard (na época, casada com Charles Chaplin) foram testadas –essa última foi quem mais perto chegou de obter o papel de fato. Audições incansáveis e intermináveis foram realizadas em todo o território dos EUA, com ênfase no Sul e, especialmente, na cidade de Atlanta, palco de boa parte da trama –algumas com a presença do próprio George Cukor (George Furth), o primeiro dos três diretores que Selznick chamou para o monumental serviço.
Essa comoção abriu espaço para aproveitadores que, fazendo-se passar por diretores de elenco, realizaram, em várias cidades americanas testes com atrizes iniciantes que inevitavelmente culminavam no famigerado ‘teste do sofá’ –esse episódio, por sinal, acabou  quase num processo contra David O’ Selznick, que nem sequer conhecia os tais falsários (!).
O prazo estipulado para encontrar a tão procurada protagonista já havia se acabado, e algumas cenas até já estavam sendo filmadas (como trechos do espetacular incêndio de Atlanta onde uma dublê de Scarlett era usada) e Selznick ainda não tinha encontrado sua Scarlett perfeita. Muitos eram os que, naquele ponto, sugeriam que ele se contenta-se com uma das atrizes à disposição, que a Scarlett perfeita que ele vislumbrava em sua mente era um sonho e não uma realidade.
Aos últimos dois minutos do segundo tempo –como se costuma dizer –o destino, todavia, interferiu para tornar este um caso singular na história do cinema: Eis que o agente Myro Selznick (Bill Macy), irmão de David e agente do próprio Clark Gable, resolve de assistir, por acaso, o filme de um astro inglês chamado Laurence Olivier que estava interessado em representar, e nesse tal filme enxerga uma aparição –uma atriz tão singularmente bela, carismática e competente que não poderia ser outra senão ela a intérprete ideal de Scarlett O’ Hara.
Seu nome era Vivien Leigh.
E o resto –como também se costuma dizer –é história...
Longe de igualar a excelência técnica e artística da obra magnânima cujos bastidores retrata, “Moviola” é um trabalho gracioso, divertido e reverente para com a Velha Hollywood que reconstitui, e tem o mérito salutar de encerrar seus adoráveis noventa e oito minutos de duração enchendo o coração do expectador com calor humano; uma rara característica, normalmente exclusiva da obra-prima de O’ Selznick.