Mostrando postagens com marcador Benedict Cumberbath. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Benedict Cumberbath. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Doutor Estranho No Multiverso da Loucura


 Nos quadrinhos, as inúmeras tramas paralelas que se sucedem e que convergem, muitas vezes, aos mesmos personagens, ambientes e situações raramente acabam despertando nos fãs a minúcia para encontrar detalhes contraditórios ou erros de continuidade. É curioso, pois que, em sua bem-sucedida tentativa de levar esse mesmo status narrativo ao cinema, a Marvel Studios, volta e meia, se defronte com esse problema: Fãs, um tanto quanto chatos e minimalistas, apontando esta ou aquela imperfeição nas amarras de suas histórias.

Já contando mais de vinte produções em sua filmografia –além de algumas séries! –a Marvel começa a enfrentar esta e outras velhas questões, já antigas nos quadrinhos, a respeito de quanto material o expectador deve assim ter conhecimento para compreender na íntegra o filme que irá ver no cinema. E a verdade a ser encarada, hoje, é que... não, não há como assistir a tudo, saber de tudo, ter conhecimento de tudo. E, se esse é um fato bem aceito aos leitores de quadrinhos, com o tempo, os expectadores de cinema, ainda que bem mais exigentes, terão de aceitar também.

Tomemos “Doutor Estranho No Multiverso da Loucura” como exemplo. A princípio, as maiores referências adotadas em sua trama são o filme “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”, com participação do Dr. Estranho (o ótimo Benedict Cumberbatch) e do qual é continuação quase direta, a série “WandaVision” que, em função da participação fundamental de Wanda Maximoff (a sensacional Elizabeth Olsen), acaba também dando continuidade à sua trama, e a série “Loki”, cuja abordagem do Multiverso, ainda que indiretamente, influencia todos os desdobramentos que veremos neste filme; e não tenha dúvidas, em outros projetos futuros também! Há também de se considerar o primeiro “Doutor Estranho” –a introdução, afinal, de muitos dos personagens presentes aqui –e o próprio “Vingadores-Ultimato” –ponto crucial para quase todas as histórias desenvolvidas pela Marvel daqui para frente –mas, a verdade é que, dentro em breve, será impossível acompanhar a tudo.

Como ocorre nos quadrinhos, meu conselho é o expectador  desencanar e curtir a viagem, aproveitar a trama, construída pelos roteiristas a fim de ser o mais satisfatória possível bastando em si mesma, mas certamente dependente (e referente) a várias outras vindas antes e depois. Os enredos da Marvel Studios serão, assim, uma miríade de narrativas que acontecem para frente (os filmes vindouros), para trás (os filmes que já foram feitos) e para os lados (alguns casos de obras que se passam quase simultaneamente aos eventos deste), e aos poucos, se não foram todos conferidos, com tempo, haveremos de descobrí-los.

“Multiverso da Loucura” traz Stephen Strange às voltas com uma jovem literalmente única: America Chavez (a carismática Xochiti Gomez) dotada do raro poder de teleportar-se entre uma realidade paralela e outra. Tal poder a torna alvo de ninguém mais, ninguém menos que Wanda, a Feiticeira Escarlate, que desde os eventos atribulados de “WandaVision” –onde sequestrou toda uma cidade para criar uma ilusão feliz onde vivia ao lado do trágico Visão (Paul Betany) e de seus dois filhos pequenos, materializados pelo poder incomensurável de sua magia –almeja pegar os poderes de America para si a fim de reaver seus filhos perdidos, nem que seja tirando-os de outra realidade alternativa.

Na batalha que se segue, Estranho é obrigado a valer-se inadvertidamente dos poderes de America –os quais ela não sabe controlar –e pular para outros universos, tentando escapar de Wanda.

Astuta que só, a Marvel Studios vale-se desse mote para presentear os fãs com momentos vibrantes e referências a outros personagens, numa manobra um pouco parecida com a aparição-surpresa de Andrew Garfield e Tobey Maguire em “Sem Volta Para Casa”. Uma dessas surpresas –só para ficarmos naquelas que os expectadores já tinham ideia de antemão –é a presença de Charles Xavier (Patrick Stewart), o Professor X, anunciando que, em algum lugar do horizonte, os X-Men estão bem próximos de aparecer no Universo Marvel.

E quanto ao filme em si? Embora inquieto, envolvente, visualmente esplendoroso e tecnicamente impecável, é necessário guardar as devidas proporções ao apreciarmos “Multiverso da Loucura”, sobretudo tendo como expectativa os incondicionalmente arrebatadores “Vingadores-Guerra Infinita” e “Ultimato”. A Marvel, como foi dito em outras ocasiões, estabeleceu com com esses dois trabalhos, um patamar tão alto que representa um desafio, e um empecilho, para todas as produções que vieram depois deles igualar tamanha excelência. E com “Multiverso da Loucura” não é diferente. A saída, um tanto brilhante, da Marvel Studios aqui é focar na diferenciação; este novo filme estrelado por Stephen Strange é, pela primeira vez no UCM, um filme de terror, cortesia da desenvoltura de gênero do diretor Sam Raimi, substituindo o diretor anterior, Scott Deriksson (aqui como produtor executivo). De um estilo forte e personalíssimo –o que curiosamente não colide com as predisposições muito comerciais da Marvel –Raimi (que realizou, além dos cultuados filmes de série “Evil Dead”, a “Trilogia Homem-Aranha” com Tobey Maguire e o primeiro “filme-quadrinho” da era moderna, “Darkman-Vingança Sem Rosto”) acrescenta à narrativa os elementos que tanto ama trabalhar, como os movimentos inusitados de câmera, os jump-scares, e o apreço por ícones tenebrosos como zumbis (o desfecho final é impagável!), olhos fulgurantes de possessão (Elizabeth Olsen, grande atriz, consegue ficar assustadora apesar da grande beleza) e um senso de humor muito peculiar a temperar toda essa morbidez.

A assinatura de Raimi, assim sendo, é nítida e constante neste filme, embora ele seja, nítida e constantemente, um filme também da Marvel Studios.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Ataque dos Cães


 Existe um curioso contraste de expectativas na filmografia de Jane Campion desde sua revelação em “Sweetie” (1989) e “Um Anjo Em Minha Mesa” (1990); presume-se que haverá toda uma sensibilidade de natureza feminina em suas realizações e o que encontramos, na maioria das vezes, são retratos áridos e intimistas da aspereza, da agressividade, ainda que a sutileza com que se dá tal execução seja, quase sempre, mérito dela ser mulher.

“Power Of The Dog” –ou “Ataque dos Cães” numa tradução insatisfatória e insuficiente do título original –exemplifica bem essa disfunção: Um faroeste quase contemporâneo (ambientado em 1927) onde não se dispara um único tiro a despeito dos níveis elevados de tensão que ele consegue atingir. Sua atenção está em facetas inerentes aos seus personagens e como tais aspectos são determinantes para seus desfechos. Com efeito, as frases que encerram e que terminam o filme (a primeira, mencionada por um dos personagens; a segunda um versículo bíblico que, inclusive, esclarece seu título) são fundamentais para a compreensão de seu propósito.

Os dois irmãos Burbank tocam seu rancho e sua criação de gado. São eles o irascível e insensível Phil (Benedict Cumberbatch, brilhante) e o comedido George (Jesse Plemons, de “Jungle Cruise”, numa atuação cheia de dignidade). Os irmãos têm personalidades tão opostas quanto complementares, e somente assim, a dinâmica entre eles parece funcionar: George tenta ignorar as truculências de Phil, enquanto Phil faz, na medida do possível, vista-grossa ao fato do irmão agir e ser diferente em tudo e por tudo dele. Caso de uma parada ocasional de sua comitiva numa humilde estalagem onde fazem a refeição –estabelecimento tocado pela viúva Rose (Kirsten Dunst, num corajoso registro dos efeitos da idade e da desilusão sobre sua outrora beleza) com a ajuda do solícito filho Peter (Kodi Smith-McPhee), um garoto retraído de hábitos peculiares. Lá, Phil de pronto implica com Peter, autor das flores de papel que decoram as mesas. A situação exaspera os ânimos da entristecida Rose e, numa tentativa de confortá-la, George se enamora dela.

Quando os dois decidem se casar, automaticamente transferem essa circunstância para o rancho da família: Uma vez lá, Rose –que padece de potenciais problemas de alcoolismo –encontra dificuldade em lidar com a ameaça que o ambiente excessivamente rigoso e masculino exerce sobre as fragilidades de seu filho, e, sobretudo, com a presença nada amistosa, cheia de rancor e crueldade de Phil.

Ele, contudo, esconde celeumas insondáveis: Fala o tempo todo de seu falecido mentor, um certo Bronco Henry –personagem que nunca aparece, mas é essencial à narrativa –e, embora recrimine Peter o tempo todo devido ao seu suposto comportamento afeminado, aos poucos, é o próprio Phil quem dá indícios de suas tendências homossexuais surgidas ainda jovem em sua relação com Bronco Henry. O foco deste trabalho de Jane Campion, diretora hábil na ênfase das arestas inóspitas do amor, é, portanto, a masculinidade tóxica, tornada ainda mas desprezível quando vem adornada pelos elementos da hipocrisia: O protagonista, tão acusatório, persecutório e supostamente másculo de Benedict Cumberbatch ofende, recrimina e agride as pessoas por aparentarem ser aquilo que, no fundo, ele é.

Tal condição, segundo rege a implacável cartilha dramática construída por Campion aqui, o torna alguém perigoso, um cão raivoso: É questão de tempo, percebe Peter, que Phil encontre pretextos para fazer mal à instável Rose, e quando acontecer, talvez seja tarde demais para o sensato George tomar alguma providência. Sendo assim, sem que sequer o expectador se dê conta, engrenagens se movimentam, ao longo da narrativa pausada, episódica e atenta aos mínimos pormenores, para consolidar um plano em movimento do qual só no momento certo (leia-se, nos quinze minutos finais!) teremos a devida consciência.

Intimista ao extremo, na contramão do cinema convencional e cada vez mais barulhento de hoje, “Ataque dos Cães” é uma obra de rara contenção na qual tem-se a impressão que muito pouca coisa, ou quase nenhuma, acontece durante sua nada modesta duração. Ledo engano: Se o registro, em princípio, parece ser o de uma rotina campestre pontuada por tensões humanas e subliminares, em suas profundezas, muitas motivações, informações e reflexões estão em trânsito a fim de construir um premissa carregada de um incomum e inestimável significado.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Os Indicados Ao Oscar 2022


 E temos então os indicados de 2022 ao grande prêmio do cinema. Segue a lista completa:

FILME

Belfast (Focus)

No Ritmo do Coração (Apple)

Não Olhe para Cima (Netflix)

Drive My Car (Janus/Sideshow)

Duna (Warner)

King Richard (Warner)

Licorice Pizza (MGM/United Artists)

O Beco do Pesadelo (Searchlight)

Ataque dos Cães (Netflix)

Amor, Sublime Amor (20th Century)

DIREÇÃO

Kenneth Branagh, Belfast

Ryûsuke Hamaguchi, Drive My Car

Paul Thomas Anderson, Licorice Pizza

Jane Campion, Ataque dos Cães

Steven Spielberg, Amor, Sublime Amor

A Academia de Artes Cinematográficas repete algumas manobras políticas já empregadas no passado, como a adição-surpresa entre os Melhores Filmes de um candidato estrangeiro –embora o japonês “Drive My Car” dificilmente iguale o prestígio do sul-coreano “Parasita” em 2020 –e a incursão de um filme dirigido por uma mulher: E olha que “Ataque dos Cães”, de Jane Campion, um lançamento da Netflix, ainda chega como grande favorito, tornando possível que este seja o primeiro ano na história do Oscar em que duas mulheres (lembra-se de Chloe Zhao, ano passado?) ganham o maior prêmio simultaneamente.

Surpreendem as presenças dos não tão cotados “King Richard” e “O Beco dos Pesadelos” e as ausências dos imensamente cotados “Apresentando Os Ricardos” e “A Crônica Francesa”.

ATOR

Javier Bardem, Apresentando os Ricardos

Benedict Cumberbatch, Ataque dos Cães

Andrew Garfield, tick, tick…Boom!

Will Smith, King Richard

Denzel Washington, A Tragédia de Macbeth

ATRIZ

Jessica Chastain, Os Olhos de Tammy Faye

Olivia Colman, A Filha Perdida

Penélope Cruz, Madres Paralelas

Nicole Kidman, Apresentando os Ricardos

Kristen Stewart, Spencer

Um incógnita considerável entre as atrizes visto que uma das favoritas –Lady Gaga por “Casa Gucci” –ficou de fora (na verdade, o Oscar foi o ÚNICO prêmio no qual ela não ganhou indicação!) e sua maior concorrente, Kristen Stewart, por “Spencer”, não parece, no momento, gozar de muito prestígio junto aos membros; o que deixa caminho livre para as campanhas de Jessica Chastain, Olivia Colman, Penélope Cruz e Nicole Kidman gerarem frutos.

Entre os atores, há um ranço crescente em relação ao improvável favoritismo Will Smith –eu pessoalmente não gostaria que ele ganhasse por este filme. Quem ganharia então? Possivelmente Benedict Cumberbtch ou Andrew Garfield, não obstante a atuação estupenda de Denzel Washington (na 10ª indicação de sua carreira).

ATOR COADJUVANTE

Ciarán Hinds, Belfast

Troy Kotsur, No Ritmo do Coração

Jesse Plemons, Ataque dos Cães

J.K. Simmons, Apresentando os Ricardos

Kodi Smit-McPhee, Ataque dos Cães

As maiores apostas nesta categoria são aparentemente Jesse Plemons e o veterano Ciarán Hinds, contudo, são vantagens tão tênues que podem perfeitamente cederem a uma vitória-surpresa de Kodi Smith-McPhee.

ATRIZ COADJUVANTE

Jessie Buckley, A Filha Perdida

Ariana DeBose, Amor, Sublime Amor

Judi Dench, Belfast

Kirsten Dunst, Ataque dos Cães

Aunjanue Ellis, King Richard

Supostamente a favorita, Ariana DeBose, se ganhar, entrará para a seleta lista de atores/atrizes que ganharam um Oscar interpretando o mesmo personagem –ao lado dos honoráveis Marlon Brando e Robert De Niro (ambos tendo vivido Vito Corleone em “O Poderoso Chefão” e “O PoderosoChefão-Parte II”) e de Heath Ledger e Joaquin Phoenix (os dois premiados por “Batman-OCavaleiro das Trevas” e por "Coringa”) –já que Rita Moreno levou a estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme de 1961, entretanto, a supremacia de Ariana aparece inesperadamente ameaçada pelo surgimento da veterana Judi Dench entre as indicadas (ela que sagra-se, assim, como a intérprete de mais idade a constar nessa categoria), embora muitos críticos apontassem que, do elenco de “Belfast”, era Caitriona Balte (de “Ford Vs Ferrari”) quem mais merecesse essa indicação; está parecendo que a Academia entregará o Oscar à Judi Dench pelo conjunto da obra...

ROTEIRO ORIGINAL

Belfast, Kenneth Branagh

Não Olhe para Cima, Adam McKay, David Sirota

King Richard, Zach Baylin

Licorice Pizza, Paul Thomas Anderson

A Pior Pessoa do Mundo, Joachim Trier e Eskil Vogt

ROTEIRO ADAPTADO

No Ritmo do Coração, Siân Heder

Drive My Car, Ryusuke Hamaguchi, Takamasa Oe

Duna, Jon Spaihts, Denis Villeneuve, Eric Roth

A Filha Perdida, Maggie Gyllenhaal

Ataque dos Cães, Jane Campion

Era visto que Adam McKay estaria nesta categoria com seu “Não Olhe Para Cima” –e a pouca cotação de sua obra na categoria principal pode se refletir numa chance real de ter seu roteiro original premiado –ainda que o grande favorito aqui, por razões muito parecidas, seja o elogiado e emocionante “Belfast”. Jane Campion já tem um Oscar de Melhor Roteiro (por “O Piano”) debaixo do braço, apenas o inusitado “Drive My Car” e o surpreendente “A Filha Perdida” a impedem de levar para casa uma segunda estatueta.

FOTOGRAFIA

Duna, Greig Fraser

O Beco do Pesadelo, Dan Laustsen

Ataque dos Cães, Ari Wegner

A Tragédia de Macbeth, Bruno Delbonnel

Amor, Sublime Amor, Janusz Kaminski

MONTAGEM

Não Olhe pra Cima, Hank Corwin

Duna, Joe Walker

King Richard, Pamela Martin

Ataque dos Cães, Peter Sciberras

tick, tick... Boom!, Myron Kerstein, Andrew Weisblum

DIREÇÃO DE ARTE

Duna, Patrice Vermotte, Richard Roberts, Zsuzsanna Sipos

O Beco do Pesadelo, Tamara Deverell, Shane Vieau

Ataque dos Cães, Grant Major, Amber Richards

A Tragédia de Macbeth, Stefan Dechant, Nancy Haigh

Amor, Sublime Amor, Adam Stockhausen, Rena DeAngelo

FIGURINOS

Cruella, Jenny Beavan

Cyrano, Massimo Cantini

Duna, Jacqueline West

O Beco do Pesadelo, Luis Siqueira

Amor, Sublime Amor, Paul Tazewell

MAQUIAGEM

Um Príncipe em Nova York 2

Cruella

Duna

Os Olhos de Tammy Faye

Casa Gucci

TRILHA SONORA

Não Olhe pra Cima, Nicholas Britell

Duna, Hans Zimmer

Encanto, Germaine Franco

Madres Paralelas, Alberto Iglesias

Ataque dos Cães, Jonny Greenwood

Nas categorias técnicas é visível a predominância de “Duna”, 10 indicações –e torço para que ele faça mesmo uma bela campanha, até para compensar a ausência de Denis Villeneuve na categoria de Melhor Direção –ainda que a honraria de filme com maior número de indicações pertença à “Ataque dos Cães”, com 12, “Amor Sublime Amor”, de Steven Spielberg, vem bem atrás com 7.

CANÇÃO

“Down to Joy”, Belfast

“Dos Oruguitas”, Encanto

“Somehow You Do”, Four Good Days

“Be Alive”, King Richard

“No Time to Die”, 007 Sem Tempo para Morrer

SOM

Belfast

Duna

007 - Sem Tempo para Morrer

Ataque dos Cães

Amor, Sublime Amor

EFEITOS VISUAIS

Duna

Free Guy

007 - Sem Tempo para Morrer

Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis

Homem-Aranha: Sem Volta para Casa

ANIMAÇÃO

Encanto (Disney)

Fuga (NEON)

Luca (Disney/Pixar)

A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (Netflix)

Raya e o Último Dragão (Disney)

Críticos mais rabugentos espernearam com a indicação à Efeitos Visuais de “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa” –filme cujas cópias de cinema sofreram até reajustes digitais em algumas cenas –todavia é visto, sobretudo, nesta categoria, que a Academia deseja capitalizar com o sucesso de público. Entre as animações a Disney surge soberana com nada menos do que TRÊS fortes favoritos ao prêmio –os outros dois está ali mais para constar mesmo...

Enquanto que, na categoria de Melhor Canção, “007-Sem Tempo Para Morrer”, com a canção-título de Billie Eilish, surge como favorito, tendo os dois últimos filmes do Bond Daniel Craig (“007-Operação Skyfall” e “007 Contra Spectre”, no caso) levado os prêmios de Melhor Canção Original em seus anos, a despeito das ilustres presenças de Van Morrison, pela canção de “Belfast”, e de Diane Warren (em sua 13ª indicação sem jamais ter ganhado!), pela canção de “Four Good Days”.

DOCUMENTÁRIO

Ascension (MTV)

Attica (Showtime)

Fuga (NEON)

Summer of Soul (Searchlight)

Writing With Fire (Music Box)

FILME INTERNACIONAL

A Felicidade das Pequenas Coisas (Butão)

Fuga (Dinamarca)

A Mão de Deus (Itália)

Drive My Car (Japão)

A Pior Pessoa do Mundo (Noruega)

CURTA-METRAGEM LIVE-ACTION

Take and Run

The Dress

Long Goodbye

On My Mind

Please Hold

CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

Affairs

Bestia

Box Ballet

Robin Robin

Windshield

DOCUMENTÁRIO CURTA-METRAGEM

Audible

Lead Me Home

The Queen of Basketball

Three Songs

When We Were Bullies

Os vencedores serão anunciados na cerimônia a ser realizada no domingo, dia 27 de março.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Homem-Aranha - Sem Volta Para Casa


 Spoilers são um fenômeno curioso. Há quem odeie recebê-los, preferindo a surpresa de descobrir tudo o que o filme tem a oferecer... bem, durante o próprio filme! Há quem não se importe com eles. Há aqueles que têm tanto prazer em dar spoilers aos outros que o ato de assistir ao filme acaba sendo uma satisfação secundária; eles gostam mesmo é de poder, depois, contar os segredos do filme a quem ainda não o viu. No cinema moderno, com narrativas como as de M. Night Shyamalan e seus finais-surpresa e a acessibilidade de informação da internet, os spoilers se tornaram um perigo para quem almeja uma experiência cinematográfica absolutamente pura, despida de interferências.

No caso de “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”, aqueles expectadores que não forem conferir o filme em seus primeiros dias de exibição nos cinemas (na verdade, até mesmo eles!) correm o risco de receber uma avalanche de spoilers. Terceiro longa-metragem da trilogia solo do Homem-Aranha desde que ele passou a ser interpretado por Tom Holland e a integrar o Universo Marvel Cinematográfico –além da participação em outros filmes –“Sem Volta Para Casa” chega tão carregado de novidades espantosas e eletrizantes, tão repleto de momentos planejados com o objetivo de serem inesquecíveis e, ao mesmo tempo, tão sensacional e embriagante em seu ineditismo e empolgação que representa um desafio para qualquer um chegar  às salas sem saber nada sobre ele.

Iniciando arrojadamente na cena pós-créditos com a qual encerrou (sem muito encerrar...) a trama de “Homem-Aranha Longe de Casa”, “Sem Volta Para Casa” segue seu protagonista Homem-Aranha\Peter Parker (Tom Holland) no momento em que foi revelada, em cadeia nacional pelo próprio J. Jonah Jameson em pessoa (J.K. Simmons), a identidade secreta do herói. Sendo esta a terceira personificação do personagem nos cinemas (as anteriores foram vividas por Tobey Maguire e por Andrew Garfield), por vezes o diretor Jon Watts se viu obrigado a adaptar arcos narrativos diferenciados dos quadrinhos a fim de não se repetir. No primeiro (“De Volta Ao Lar”), sob forte referência dos longas de John Hugues, ele acompanhou a rotina escolar de Peter e sua fase no ensino médio, lutando para desvencilhar-se das obviedades de uma trama (já contada) de origem. No segundo (o já citado “Longe de Casa”), ele contou uma aventura descompromissada a girar em torno de férias na Europa. Nos dois casos, a Marvel Studios enfrentou críticas justamente por fugir das características que definiam o Homem-Aranha enquanto personagem e que o atrelavam em demasia à heróis como o Homem-de-Ferro tirando-lhe certa individualidade –a despeito da ótima atuação de Tom Holland.

“Sem Volta Para Casa” vem para rebater cada um desses protestos: Ele é tão original, tão ágil e incisivo, tão consciente dos elementos icônicos que manuseia que provavelmente não tardará a se sagrar como um dos melhores (ou O melhor) filmes em live-action do Homem-Aranha –e Tom Holland, seu intérprete mais consistente e definitivo.

O fio narrativo que conduz a esse enredo tão cheio de surpresas começa quando Peter, farto de ver seus amigos, M.J. (a cada vez mais maravilhosa Zendaya) e Ned (Jacob Batalon) sofrerem por terem contato com o Homem-Aranha, resolve procurar a intervenção mística do Doutor Estranho (Benedict Cumberbath) para que, com um feitiço, ele apague da memória de todo o mundo que Peter é o Homem-Aranha. Contudo, algo dá errado, e o feitiço mexe com o conceito que, encerrada a Saga de Thanos com o magnífico “Vingadores-Ultimato”, deve nortear a próxima saga a conectar os filmes da Marvel: O Multiverso –já abordado na minissérie “Loki”, da plataforma Disney Plus. Resumindo: Agora, os vilões vindos de outras realidades alternativas –como Dr. Octopus e Duende Verde, vividos magistralmente por Alfred Molina e Willen Dafoe dos mesmos filmes com Tobey Maguire –aparecem na realidade do Universo Marvel, complicando a vida do herói e ameaçando vidas. São um total de cinco (já vistos nos trailers): Além de Dr. Octopus e Duende, também o Electro (Jamie Foxx, num personagem melhor desenvolvido do que foi em “O Espetacular Homem-Aranha 2”), o Lagarto (Rhys Ifans) e o Homem-Areia (Thomas Aden Church).

A união de todas essas pontas soltas é indicativa do brilhantismo do trabalho de Jon Watts que –se não agradou a gregos e troianos nos dois filmes anteriores –conseguiu superar-se neste daqui, entregando um trabalho onde honra seu personagem extinguindo qualquer margem para questionamentos quanto a sua fidelidade aos quadrinhos, fazendo deste terceiro filme o arco final onde, em retrospecto, podemos enxergar esta como uma ‘trilogia de origem’ do personagem, ao mesmo tempo que o coloca numa nova, inesperada e possivelmente promissora trajetória de vida adulta, sem evitar, desta vez, os momentos mais sombrios que coloquem à prova justamente sua fibra moral como super-herói.

É tentador, para qualquer resenhista deste filme, revelar as surpresas arrebatadoras que “Sem Volta Para Casa” entrega praticamente o tempo todo durante suas nada modestas duas horas e meia de duração (algumas ombreiam os momentos antológicos de “Ultimato”), entretanto, seria um pecado: Sua experiência é tão vívida, tão assombrosamente sensorial, emocional e mágica que todos merecem a chance que conferi-la nos cinemas livres de spoilers. No que depender de mim, está feito, no entanto, meu conselho é: Corra para vê-lo (e maravilhar-se) o quanto antes!

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Os Indicados Ao Globo de Ouro 2022


 Foram anunciados ontem (dia 13) os indicados pela Imprensa Estrangeira ao Globo de Ouro, um dos mais importantes prêmios da temporada de premiações. Como sempre, disponibilizo aqui os indicados nas categorias de cinema:

MELHOR FILME - DRAMA

Belfast

CODA: No Ritmo do Coração

Duna

King Richard: Criando Campeãs

Ataque dos Cães

MELHOR DIREÇÃO

Kenneth Branagh, Belfast

Jane Campion, Ataque dos Cães

Maggie Gyllenhaal, A Filha Perdida

Steven Spielberg, Amor, Sublime Amor

Denis Villeneuve, Duna

As chances de “Duna”, de Denis Villeneuve, brilhar são grandes, visto que seus concorrentes (com exceção de “Belfast”) são obras que não chegaram a suscitar tanto apelo. Na categoria de direção, contudo, a formidável ficção científica de Villeneuve se choca com o outro grande trabalho cinematográfico do ano: O aclamado musical de Steven Spielberg. Destaque também para a presença de duas mulheres entre os diretores; a veterana Jane Campion (de “O Piano”) de volta após 12 anos sem entregar um trabalho em cinema; e a atriz Maggie Gyllenhaal, surpreendendo em sua estréia como diretora.

MELHOR FILME - COMÉDIA/MUSICAL

Cyrano

Não Olhe Para Cima

Licorice Pizza

Tick, Tick... Boom!

Amor, Sublime Amor

A verdadeira briga de titãs. “Cyrano” e “Licorice Pizza” veem abrilhantados com a aclamação da crítica, mas “Amor Sublime Amor”, de Spielberg, em especial, tem se revelado um rolo compressor nas premiações: Praticamente todos estão ovacionando o musical do mesmo realizador de “O Resgate do Soldado Ryan”. Ainda assim, seus concorrentes como a sátira política e científica “Não Olhe Para Cima” e o brilhante “Tick, Tick... Boom!” não devem ser menosprezados e podem impressionar.

MELHOR ROTEIRO EM FILME

Paul Thomas Anderson, Licorice Pizza

Kenneth Branagh, Belfast

Jane Campion, Ataque dos Cães

Adam McKay, Não Olhe para Cima

Aaron Sorkin, Being the Ricardos

MELHOR ATOR EM FILME - DRAMA

Mahershala Ali, Swan Song

Javier Bardem, Being the Ricardos

Benedict Cumberbatch, Ataque dos Cães

Will Smith, King Richard: Criando Campeãs

Denzel Washington, A tragédia de Macbeth

MELHOR ATRIZ EM FILME - DRAMA

Jessica Chastain, The Eyes of Tammy Faye

Olivia Colman, A Filha Perdida

Nicole Kidman, Being the Ricardos

Lady Gaga, Casa Gucci

Kristen Stewart, Spencer

A obra de Aaron Sorkis, o tão aguardado “Being The Ricardos” terminou sendo lembrada nestas três categorias, o que sinaliza que será com as indicações mesmo que ele deverá se contentar –ao menos no Globo de Ouro. É também curioso notar que esperado filme dos Irmãos Coen, “A Tragédia de Macbeth” recebeu somente a indicação de ator dramático para Denzel Washington, e o tão cotado “Casa Gucci”, de Ridley Scott, foi lembrado apenas com a nomeação de atriz dramática para Lady Gaga. Descontando essas nomeações dispersas com cara de ‘prêmio de consolação’, o favoritismo paira ligeiramente sobre Benedict Cumberbach, por “Ataque dos Cães” (um dos filmes com maior número de indicações) e –pasmem! –sobre Kristen Stewart, que vem surpreendendo muita gente que seu desempenho irretocável como Princesa Diana na obra de Pablo Larraín.

MELHOR ATOR EM FILME - COMÉDIA/MUSICAL

Leonardo DiCaprio, Não Olhe Para Cima

Peter Dinklage, Cyrano

Andrew Garfield, Tick, Tick... Boom!

Cooper Hoffman, Licorice Pizza

Anthony Ramos, Em Um Bairro em Nova York

Há algo de particularmente sensacional na escalação do sempre magnífico Peter Dinklage para viver Cyrano de Bergerac, dando um viés diferenciado à famosa e trágica farsa romântica; ele tem pela frente a competição de Andrew Garfield, uma das grandes atuações do ano, e o sempre bem-quisto Leonardo Dicaprio numa produção à qual a Netflix depositou todas as suas fichas.

MELHOR ATRIZ EM FILME - COMÉDIA/MUSICAL

Marion Cotillard, Annette

Alana Haim, Licorice Pizza

Jennifer Lawrence, Não Olhe Para Cima

Emma Stone, Cruella

Rachel Zegler, Amor, Sublime Amor

Rachel Zegler vem sendo apontada como a grande revelação do filme de Steven Spielberg, recebendo a aclamação inclusive que nem mesmo Natalie Wood recebeu interpretando a mesma personagem no “Amor Sublime Amor” de 1962, mas a briga pelo prêmio de atriz dramática parece opor um trabalho essencialmente comercial (“Cruella”, com Emma Stone, bastante inesperado), a um incontornavelmente alternativo (“Licorine Pizza”, com Alan Haim) e um terceiro que curiosamente mescla (ou tenta) essas duas vertentes (“Não Olhe Para Cima”, com Jennifer Lawrence). Correndo por fora, Marion Cotillard, que vez ou outra surpreende, com um elogiado filme falado em francês.

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM FILME

Ben Affleck, The Tender Bar

Jamie Dornan, Belfast

Ciarán Hinds, Belfast

Troy Kotsur, No Ritmo do Coração

Kodi Smit-McPhee, Ataque dos Cães

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM FILME

Caitriona Balfe, Belfast

Ariana DeBose, Amor, Sublime Amor

Kirsten Dunst, Ataque dos Cães

Aunjanue Ellis, King Richard: Criando Campeãs

Ruth Negga, Identidade

As categorias de coadjuvantes trazem algumas surpresas como Ben Affleck (segundo consta, em um de seus melhores momentos) e Jamie Dornan (deixando para trás a sombra de “Cinquenta Tons de Cinza”); inclusive, seu filme, “Belfast” pode sair agraciado bem aqui, como Ator Coadjuvante, seja por ele ou por seu colega de cena o veterano (e excelente) Ciarán Hinds. Entre as atrizes, “Belfast” também marca presença com a maravilhosa Caitriona Balfe (vista também em “Ford Vs Ferrari”), mas a competição é dura: Ali está Kirsten Dunst (uma atriz que tem melhorado ainda mais com o tempo) e a favorita Ariana DeBose, encantando a crítica com uma interpretação vulcânica da mesma personagem pela qual a veterana Rita Moreno já levara o mesmo prêmio há setenta anos atrás! Irá a mágica se repetir?

MELHOR TRILHA SONORA EM FILME

Alexandre Desplat, A Crônica Francesa

Germaine Franco, Encanto

Jonny Greenwood, Ataque dos Cães

Alberto Iglesias, Madres Paralelas

Hans Zimmer, Duna

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL EM FILME

"Be Alive" - Beyoncé (King Richard: Criando Campeãs)

"Dos Oruguitas" - Sebastian Yatra (Encanto)

"Down to Joy" - Van Morrison (Belfast)

"Here I Am (Singin' My Way Home)" - Jennifer Hudson (Respect)

"No Time to Die" - Billie Eilish (007 - Sem Tempo Para Morrer)

É na categoria de trilha sonora (e somente nela!) que surge um dos filmes até então muito alardeados para a temporada de premiações, o desigual e autoral “A Crônica Francesa”, de Wes Anderson. Mas, é possível que as chances do trabalho de Anderson se multipliquem no Oscar uma vez que (a exemplo de seu “O Grande Hotel Budapeste”) o filme tem inúmeros predicados técnicos a serem lembrados em outras categorias que o Globo de Ouro não tem –o mesmo vale para o fenomenal “Duna” que, penso eu, deve se sair ainda melhor! Já, na categoria de canção original é bem provável que, por falta de um concorrente mais memorável, o prêmio acabe indo para último “007” a encerrar a prestigiada fase de Daniel Craig no papel de James Bond –se bem que uma das animações da Disney está lá competindo...

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

Compartment Number 6

Drive My Car

A Mão de Deus

A Hero

Madres Paralelas

MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO

Encanto

Flee

Luca

My Sunny Maad

Raya e o Último Dragão

E por falar nas animações da Disney; nada menos do que três delas (todas, exclusivas da plataforma Disney Plus) marcam presença na categoria de animação, sendo “Luca”, o trabalho que representa a excelência da Pixar e, por isso mesmo, a grande favorita. A categoria de filme estrangeiro, uma das mais mornas, parece oferecer poucas alternativas que não a vitória de Pedro Almodóvar mais uma vez; e ele vem ainda por cima com uma obra elogiadíssima, onde volta a se encontrar com uma de suas mais reluzentes musas, a fabulosa Penelope Cruz.

Os vencedores, e portanto aqueles que terão mais chances a conquistar o careca dourado, serão anunciados na noite do dia 9 de janeiro de 2022.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

1917

“No céu ou no inferno, não importa o caminho. Viaja mais rápido aquele que viaja sozinho”
Não resta dúvida de que há um dado muito pessoal na missão do soldado Blake (Dean-Charles Chapman) de levar uma mensagem a um oficial nos postos avançados para que interrompa um ataque imimente, pois o inimigo já lhes preparou uma armadilha –o irmão mais velho de Blake serve naquele mesmo regimento e é uma das inúmeras vidas que o sucesso de sua missão poderá salvar.
Instruído a escolher um companheiro, Blake não titubeia ao optar pelo Cabo Schofield (o ótimo George MacKay, de “Capitão Fantástico”), o protagonista de fato do filme, ao lado de quem deverá atravessar toda a chamada Terra de Ninguém –todo o trecho desolado, lamaçento, vasto e altamente perigoso que separava as duas trincheiras inimigas, e no qual toda sorte de perigos poderia acometer a qualquer desavisado.
Assim, em linhas gerais e com uma simplicidade que lhe confere ainda mais poder, se constrói este épico de guerra do diretor Sam Mendes, realizado a partir de experiências que seu avô, Alfred H. Mendes (a quem o filme é dedicado), vivenciou durante a Primeira Guerra Mundial.
A trajetória como diretor de cinema de Mendes é curiosa: Ele começou no teatro para então estrear no cinema com o premiado “Beleza Americana”. Suas obras seguintes –“Estrada Para A Perdição”, “Soldado Anônimo” e “Foi Apenas Um Sonho” –revelaram sua versatilidade para temas de natureza introspectiva, seu apreço pelo drama humano e sua inspirada e diversificada experimentação com técnicas de filmagens.
Guardadas as devidas proporções, tudo isso nos leva à realização de “1917”.
Há nele, um pouco de tudo o que Sam Mendes tentou e testou como cineasta: Lá está o enfoque nas angústias pessoais dos soldados comuns; a experiência adquirida refletida em diversas técnicas cinematográficas empregadas com primazia; o conhecimento de ritmo e da relação entre a narrativa e as cenas de ação descobertas durante sua passagem na série “James Bond” (dos quais Mendes dirigiu o magistrial “007-Operação Skyfall” e o bom “007 Contra SPECTRE”); e seu incontornável apreço pelo teatro.
Sim! Pois, ainda que essencialmente cinematográfico, é de certa origem teatral a proposta que “1917” oferece ao público: Tal como “Birdman”, o trabalho de Mendes desenvolve sua história e todos os percalços impostos aos protagonistas por meio do que parece ser um único plano-sequência.
A diferença: Enquanto “Birdman”, ao versar sobre teatro, ambientava-se todo em um teatro de fato, Mendes põe em prática todos os anos de conhecimento técnico, seus e de sua equipe, para levar a câmera a acompanhar seus personagens ininterruptamente em cenas tidas até outro dia por impraticáveis.
Um avanço jamais sonhado por Alfred Hitchcock quando fez, nos mesmos termos, seu “Festim Diabólico”.
Ao contrário da grande maioria das experimentações com plano-sequências feitas até então –e que, em grande parte, se concentravam numa única grande cena e não em todo um filme –a obra de Mendes não tenta se restringir ao confinamento de um só ambiente, ou a uma encenação dialogada, nem cria subterfúgios para um filme mais loquaz e menos eletrizante: Ele abraça tudo o que significar ser um filme de guerra, com batalhas –algumas envolvendo até aviões! –cenas de ação, de tiroteio, de perseguição e muitos, muitos momentos de suspense.
Essa demonstração acachapante de perícia técnica só funciona porque Sam Mendes faz uma série de escolhas certeiras, confiando na própria percepção de espetáculo e intimismo –e no bom senso de saber discernir e administrar numa narrativa o começo de um e o final de outro –encontrando nos ombros do expressivo George MacKay um brilhante e admirável apoio, valendo-se de um desenho de som plenamente arrojado (onde a intensidade do silêncio é quebrada por tiros capazes de fazer pular da cadeira) e usando os predicados de uma direção de fotografia nunca menos que genial para compor uma das mais sensacionais experiências imersivas dos últimos anos.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Vingadores - Guerra Infinita

A Marvel Studios tinha um plano. Ele começou, mais ou menos em 2012, quando o vilão Thanos fez sua primeira e breve aparição na cena pós-créditos de "Vingadores".
Imaginou-se, na época, que aquele seria o gancho para uma continuação (que veio três anos depois, “A Era de Ultron”), mas o plano da Marvel Studios –e de seu competente presidente, Kevin Feigi –revelou-se muito mais complexo e ambicioso: Com o tempo e os inúmeros filmes que vieram depois (que variavam entre o divertido e o excelente), a Marvel construiu todo um universo de personagens e narrativas compartilhadas no cinema, repetindo uma linguagem que predominava nos quadrinhos originais, cujas direções apontavam para um único desenlace; a chegada de Thanos e sua conseqüente reunião das seis jóias do infinito.
Quem leu os quadrinhos sabe do quê se trata. As Jóias do Infinito são poderosas gemas de poder cósmico que reunidas proporcionam a onipotência. São elas, a jóia do espaço (o Tesseract visto em “Capitão América-O Primeiro Vingador” e em “Vingadores), da realidade (o Aether, mostrado em “Thor-O Mundo Sombrio”), do poder (o Orbe revelado no primeiro “Guardiões da Galáxia”), da mente (a jóia que terminou constituindo parte do andróide Visão em “A Era de Ultron”), do tempo (o Olho de Agamoto, em “Doutor Estranho”) e da alma (jamais revelada até então, mas que ocupa uma parte essencial da trama neste filme).
Não é a toa, também que por meio deste filme, então, a Marvel Studios sinalize um desfecho para muitas das premissas que ela mesma iniciou nesses últimos dez anos.
Claro que ninguém é ingênuo de achar que eles deixarão de investir em seus filmes e em seus heróis, mas o trabalho dos Irmãos Russo (diretores primorosos de “Capitão América-Soldado Invernal” e “Capitão América-Guerra Civil”) é tão contundente e corajoso que o filme consegue passar uma amarga impressão oposta –independente do rumo que seja tomado em outros filmes vindouros (e, sim, eles virão) a sensação que “Guerra Infinita” nos passa é, de fato, a de um encerramento.
A medida que Thanos (numa trabalho brilhante de Josh Brolin em captura de performance) vai tentando reunir as seis jóias, a história se reveza em três eletrizantes linhas narrativas: Na primeira (e que já havia sido devidamente esboçada no final de “Thor-Ragnarok”) acompanhamos o Deus do Trovão que, destituído de seu martelo, sua nave e seu povo, encontra os Guardiões da Galáxia –ao lado dos quais tentará obter um novo martelo para ter uma chance de se equiparar a Thanos na batalha final. Na segunda linha, vemos Tony Stark, o Homem de Ferro, unir-se ao mago Doutor Estranho e ao jovem Homem-Aranha para ainda no espaço sideral tentar deter a ameaça de Thanos. Na terceira linha, somos testemunhas dos esforços do Capitão América e seu grupo, Viúva Negra. Falcão, Feiticeira Escarlate e Visão, aliados ao Pantera Negra para tentar impedir uma invasão alienígena à Terra, na preparação para uma das mais espetaculares e gigantescas batalhas que o cinema já viu.
Três linhas narrativas. E nas três, a Marvel cuidou para que os protagonistas de cada um dos núcleos fossem os membros de sua Trindade Principal: Homem de Ferro, Capitão América e Thor que, vividos respectivamente por Robert Downey Jr., Chris Evans e Chris Hemsworth, são assim as mais perfeitas traduções cinematográficas desses personagens.
É a Thanos, contudo, que “Guerra Infinita” de fato pertence.
Indo de encontro a uma das críticas mais contumazes de seus filmes (de que seus vilões são genéricos), a Marvel Studios faz de Thanos o grande protagonista de seu filme –e isso significa que suas motivações são esboçadas com um brilho e um zelo que ultrapassa o registro dos quadrinhos.
Significa outra coisa também: Não há nenhum personagem mais implacável que Thanos, e em seu propósito não entram as predileções do público –um dos assuntos mais discutidos pelos expectadores antes da estréia era quem morre ou não em “Guerra Infinita”, e dá pra dizer (sem entregar surpresas) que os Irmãos Russos foram inclementes: personagens absolutamente queridos e inesperados (e num número muito maior do que se pode supor) ganham um fim trágico em inúmeros momentos deste filme, o quê torna seu encerramento –o primeiro da Marvel a ter um aspecto de ‘final’ de fato –um tanto amargo.
Uma junção habilidosa e singular entre o escopo narrativo de “OSenhor dos Anéis-O Retorno do Rei” e o impacto emocional de “StarWars-O Império Contra-Ataca”.