Mostrando postagens com marcador Jamie Dorham. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jamie Dorham. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Os Indicados Ao Globo de Ouro 2022


 Foram anunciados ontem (dia 13) os indicados pela Imprensa Estrangeira ao Globo de Ouro, um dos mais importantes prêmios da temporada de premiações. Como sempre, disponibilizo aqui os indicados nas categorias de cinema:

MELHOR FILME - DRAMA

Belfast

CODA: No Ritmo do Coração

Duna

King Richard: Criando Campeãs

Ataque dos Cães

MELHOR DIREÇÃO

Kenneth Branagh, Belfast

Jane Campion, Ataque dos Cães

Maggie Gyllenhaal, A Filha Perdida

Steven Spielberg, Amor, Sublime Amor

Denis Villeneuve, Duna

As chances de “Duna”, de Denis Villeneuve, brilhar são grandes, visto que seus concorrentes (com exceção de “Belfast”) são obras que não chegaram a suscitar tanto apelo. Na categoria de direção, contudo, a formidável ficção científica de Villeneuve se choca com o outro grande trabalho cinematográfico do ano: O aclamado musical de Steven Spielberg. Destaque também para a presença de duas mulheres entre os diretores; a veterana Jane Campion (de “O Piano”) de volta após 12 anos sem entregar um trabalho em cinema; e a atriz Maggie Gyllenhaal, surpreendendo em sua estréia como diretora.

MELHOR FILME - COMÉDIA/MUSICAL

Cyrano

Não Olhe Para Cima

Licorice Pizza

Tick, Tick... Boom!

Amor, Sublime Amor

A verdadeira briga de titãs. “Cyrano” e “Licorice Pizza” veem abrilhantados com a aclamação da crítica, mas “Amor Sublime Amor”, de Spielberg, em especial, tem se revelado um rolo compressor nas premiações: Praticamente todos estão ovacionando o musical do mesmo realizador de “O Resgate do Soldado Ryan”. Ainda assim, seus concorrentes como a sátira política e científica “Não Olhe Para Cima” e o brilhante “Tick, Tick... Boom!” não devem ser menosprezados e podem impressionar.

MELHOR ROTEIRO EM FILME

Paul Thomas Anderson, Licorice Pizza

Kenneth Branagh, Belfast

Jane Campion, Ataque dos Cães

Adam McKay, Não Olhe para Cima

Aaron Sorkin, Being the Ricardos

MELHOR ATOR EM FILME - DRAMA

Mahershala Ali, Swan Song

Javier Bardem, Being the Ricardos

Benedict Cumberbatch, Ataque dos Cães

Will Smith, King Richard: Criando Campeãs

Denzel Washington, A tragédia de Macbeth

MELHOR ATRIZ EM FILME - DRAMA

Jessica Chastain, The Eyes of Tammy Faye

Olivia Colman, A Filha Perdida

Nicole Kidman, Being the Ricardos

Lady Gaga, Casa Gucci

Kristen Stewart, Spencer

A obra de Aaron Sorkis, o tão aguardado “Being The Ricardos” terminou sendo lembrada nestas três categorias, o que sinaliza que será com as indicações mesmo que ele deverá se contentar –ao menos no Globo de Ouro. É também curioso notar que esperado filme dos Irmãos Coen, “A Tragédia de Macbeth” recebeu somente a indicação de ator dramático para Denzel Washington, e o tão cotado “Casa Gucci”, de Ridley Scott, foi lembrado apenas com a nomeação de atriz dramática para Lady Gaga. Descontando essas nomeações dispersas com cara de ‘prêmio de consolação’, o favoritismo paira ligeiramente sobre Benedict Cumberbach, por “Ataque dos Cães” (um dos filmes com maior número de indicações) e –pasmem! –sobre Kristen Stewart, que vem surpreendendo muita gente que seu desempenho irretocável como Princesa Diana na obra de Pablo Larraín.

MELHOR ATOR EM FILME - COMÉDIA/MUSICAL

Leonardo DiCaprio, Não Olhe Para Cima

Peter Dinklage, Cyrano

Andrew Garfield, Tick, Tick... Boom!

Cooper Hoffman, Licorice Pizza

Anthony Ramos, Em Um Bairro em Nova York

Há algo de particularmente sensacional na escalação do sempre magnífico Peter Dinklage para viver Cyrano de Bergerac, dando um viés diferenciado à famosa e trágica farsa romântica; ele tem pela frente a competição de Andrew Garfield, uma das grandes atuações do ano, e o sempre bem-quisto Leonardo Dicaprio numa produção à qual a Netflix depositou todas as suas fichas.

MELHOR ATRIZ EM FILME - COMÉDIA/MUSICAL

Marion Cotillard, Annette

Alana Haim, Licorice Pizza

Jennifer Lawrence, Não Olhe Para Cima

Emma Stone, Cruella

Rachel Zegler, Amor, Sublime Amor

Rachel Zegler vem sendo apontada como a grande revelação do filme de Steven Spielberg, recebendo a aclamação inclusive que nem mesmo Natalie Wood recebeu interpretando a mesma personagem no “Amor Sublime Amor” de 1962, mas a briga pelo prêmio de atriz dramática parece opor um trabalho essencialmente comercial (“Cruella”, com Emma Stone, bastante inesperado), a um incontornavelmente alternativo (“Licorine Pizza”, com Alan Haim) e um terceiro que curiosamente mescla (ou tenta) essas duas vertentes (“Não Olhe Para Cima”, com Jennifer Lawrence). Correndo por fora, Marion Cotillard, que vez ou outra surpreende, com um elogiado filme falado em francês.

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM FILME

Ben Affleck, The Tender Bar

Jamie Dornan, Belfast

Ciarán Hinds, Belfast

Troy Kotsur, No Ritmo do Coração

Kodi Smit-McPhee, Ataque dos Cães

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM FILME

Caitriona Balfe, Belfast

Ariana DeBose, Amor, Sublime Amor

Kirsten Dunst, Ataque dos Cães

Aunjanue Ellis, King Richard: Criando Campeãs

Ruth Negga, Identidade

As categorias de coadjuvantes trazem algumas surpresas como Ben Affleck (segundo consta, em um de seus melhores momentos) e Jamie Dornan (deixando para trás a sombra de “Cinquenta Tons de Cinza”); inclusive, seu filme, “Belfast” pode sair agraciado bem aqui, como Ator Coadjuvante, seja por ele ou por seu colega de cena o veterano (e excelente) Ciarán Hinds. Entre as atrizes, “Belfast” também marca presença com a maravilhosa Caitriona Balfe (vista também em “Ford Vs Ferrari”), mas a competição é dura: Ali está Kirsten Dunst (uma atriz que tem melhorado ainda mais com o tempo) e a favorita Ariana DeBose, encantando a crítica com uma interpretação vulcânica da mesma personagem pela qual a veterana Rita Moreno já levara o mesmo prêmio há setenta anos atrás! Irá a mágica se repetir?

MELHOR TRILHA SONORA EM FILME

Alexandre Desplat, A Crônica Francesa

Germaine Franco, Encanto

Jonny Greenwood, Ataque dos Cães

Alberto Iglesias, Madres Paralelas

Hans Zimmer, Duna

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL EM FILME

"Be Alive" - Beyoncé (King Richard: Criando Campeãs)

"Dos Oruguitas" - Sebastian Yatra (Encanto)

"Down to Joy" - Van Morrison (Belfast)

"Here I Am (Singin' My Way Home)" - Jennifer Hudson (Respect)

"No Time to Die" - Billie Eilish (007 - Sem Tempo Para Morrer)

É na categoria de trilha sonora (e somente nela!) que surge um dos filmes até então muito alardeados para a temporada de premiações, o desigual e autoral “A Crônica Francesa”, de Wes Anderson. Mas, é possível que as chances do trabalho de Anderson se multipliquem no Oscar uma vez que (a exemplo de seu “O Grande Hotel Budapeste”) o filme tem inúmeros predicados técnicos a serem lembrados em outras categorias que o Globo de Ouro não tem –o mesmo vale para o fenomenal “Duna” que, penso eu, deve se sair ainda melhor! Já, na categoria de canção original é bem provável que, por falta de um concorrente mais memorável, o prêmio acabe indo para último “007” a encerrar a prestigiada fase de Daniel Craig no papel de James Bond –se bem que uma das animações da Disney está lá competindo...

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

Compartment Number 6

Drive My Car

A Mão de Deus

A Hero

Madres Paralelas

MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO

Encanto

Flee

Luca

My Sunny Maad

Raya e o Último Dragão

E por falar nas animações da Disney; nada menos do que três delas (todas, exclusivas da plataforma Disney Plus) marcam presença na categoria de animação, sendo “Luca”, o trabalho que representa a excelência da Pixar e, por isso mesmo, a grande favorita. A categoria de filme estrangeiro, uma das mais mornas, parece oferecer poucas alternativas que não a vitória de Pedro Almodóvar mais uma vez; e ele vem ainda por cima com uma obra elogiadíssima, onde volta a se encontrar com uma de suas mais reluzentes musas, a fabulosa Penelope Cruz.

Os vencedores, e portanto aqueles que terão mais chances a conquistar o careca dourado, serão anunciados na noite do dia 9 de janeiro de 2022.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Cinquenta Tons de Liberdade


Há um clima de publicidade impregnado já nas primeiras tomadas do filme onde acompanhamos –numa montagem tão breve que chega a ser redundante –o casamento entre os protagonistas Anastassia Steele (Dakota Johnson) e Christian Grey (Jamie Dornan) já devidamente esboçado no final pouco contundente do filme anterior, “Cinqüenta Tons Mais Escuros”.
Um filme (mesmo que uma ‘terceira parte’) que começa onde quase todos os outros têm por hábito terminar, normalmente tem duas possibilidades: Ou é uma obra audaciosa disposta a ir na contramão do óbvio; ou acaba abraçando o tedioso justamente por não ter nada a oferecer.
Leva pouquíssimo tempo para concluir que trata-se da segunda opção este pouco inspirado encerramento da, digamos, saga romântica e sexual (e supostamente sadomasoquista!) iniciada em “Cinqüenta Tonsde Cinza”.
A trama que se segue às ostensivas cenas de casamento (que refletem a ostentação de tudo que veremos depois, uma espécie de reflexo condicionado que o filme confunde com estilo), acompanha com igual brevidade e redundância a lua-de-mel de Ana e Christian para então enveredar pelo que o diretor James Foley (o mesmo do filme anterior) julga ser o elemento mais interessante do enredo: A perseguição de pretextos ainda nebulosos de Jack Hyde (Eric Johnson, um vilãozinho de meia tigela) contra o casal de apaixonados.
Foley, que em outras ocasiões revelou-se um diretor minimamente austero, alterna o suspense que verte desse núcleo com os desdobramentos –a maioria de ordem tediosamente sexual –da vida doméstica de Ana e Christian.
Um filme normal iria valer-se de tal narrativa para contemplar as idiossincrasias dos personagens e evidenciar o que eles têm de único e notável, mas “Cinqüenta Tons de Liberdade”, infelizmente, não é um filme normal. É assolado por todas as carências artísticas e narrativas dos episódios anteriores. É prejudicado por uma equivocada reunião de personagens completamente apáticos em seu egocentrismo –e, nesse sentido, Christian Grey passa a frente dos outros com seu chilique injustificável quando descobre que a esposa está grávida e que “terá de dividi-la com uma criança”!
E é, acima de tudo, um filme que não sabe que rumo seguir para se fazer minimamente interessante ao expectador: Quando tenta se fazer erótico, ele patina nas cenas de sexo que frustram por sua intenção excessiva de ser elegante e sua atitude evasiva de ser explícito (e a nudez de Dakota Johnson não é vibrante ou ardente o suficiente para empolgar). Quando quer virar suspense, sua trama padece pela falta de profundidade e pela tensão absolutamente inexistente que a ausência de antagonistas realmente bons acarreta. E, por fim, quando quer ser romance, o filme esbarra nos argumentos despropositados que lhe restaram, nas seqüências intermináveis dos protagonistas vivendo numa mansão luxuosa, e aproveitando do bom e do melhor –uma ilustração em tom de videoclip de uma mera fantasia algo romântica onde uma mulher comum se vê arrebatada por um homem incomum (leia-se um milionário podre de rico!) para uma vida de riqueza e regalia. A forma com que os realizadores encontraram para ancorar essa fantasia no mundo real? Fazer do personagem um pretenso e idealizado adepto do sadomasoquismo –algo que o próprio filme (e os dois antes dele) sequer consegue abordar com muita precisão.
Como filme, como cinema, esse gesto é repreensível e lamentável, visto que nada de bom se produziu dali, mas a “Trilogia Cinqüenta Tons”, agora completa tanto no cinema quanto na literatura, da forma como está, parece ter agradado amplamente seu público que dele fez um grande sucesso, abraçando por inteiro esse fetiche materialista e questionável disfarçado de história de amor.

domingo, 21 de maio de 2017

Cinquenta Tons Mais Escuros

Sem o elemento ligeiramente atrativo de estabelecer o ponto de partida da história, resta a “Cinqüenta Tons Mais Escuros” dar continuidade a tudo o que o filme anterior tinha de enfadonho: O romance claudicante ocasionado por cenas de sexo (cujo teor erótico vai paulatinamente perdendo a força justamente devido a sua repetição).
Uma pena para o diretor James Foley (que, veja só, realizou o ótimo “O Sucesso A Qualquer Preço”) que encarou esta barca furada depois que a diretora do filme anterior, Sam Taylor Johnson, abandonou o projeto –Foley, nota-se, faz o que pode (ao que parece, ele está também confirmado na terceira parte, a ser realizada meio que simultaneamente), mas o filme é tão amplamente desinteressante que nem mesmo o fato de ser ou não fiel ao livro adaptado (já ele bastante pobre de qualidade) não faz grande diferença.
Os apaixonados e lascivos Anastassia Stelle (Dakota Johnson) e Christian Grey (Jamie Dornan) haviam se separado na cena final de “Cinqüenta Tons de Cinza”. O novo filme retoma um certo fio narrativo logo depois disso.
Anastassia, ou melhor, Ana, tem um compromisso com a exposição fotográfica do amigo José (Victor Rasuk). Será lá onde ela reencontrará Christian, e retomarão seu relacionamento de onde tinha parado.
Em sua condução prosaica, o novo filme ameniza involuntariamente todos os aspectos que, no livro, ainda guardavam um mínimo de intensidade.
Como costuma ocorrer em adaptações literárias, muitas das passagens são narradas num ritmo errado, deixando tudo muito rápido e superficial –característica que já aparecia no primeiro filme, mas que se ressalta neste daqui –resta assim ao diretor Foley destacar a elegância geral e predominante da produção que, a medida que a duração vai se estendendo, começa a parecer um comercial televisivo de qualquer coisa, tamanha a beleza e a limpeza de todos os móveis, figurinos e adereços que parecem em cena.
Uma roupagem luxuosa que não demora a cansar os olhos.
As cenas de sexo seriam outro destaque se não fossem tratadas de modo evasivo pela narrativa –sexo no cinema sempre foi uma coisa complicada, ou trabalha-se com ele de maneira velada e sugestiva, ou escancara-se suas intenções. É preciso que a direção compreenda os objetivos da história para que essa abordagem seja narrativamente relevante, caso contrário, seu excesso pode ser compulsivo, ou sua ausência pode ser frustrante.
Ao longo de seu filme, Foley oscila entre esses dois extremos: Ele evita as cenas na medida do possível durante a primeira parte, mas quando se rende a elas (que surgem filmadas com um pudor estético maior que o do filme anterior) deixa que se sucedam sem critérios.
É uma obra sem conflitos, onde as poucas inserções de suspense soam desconexas e sem harmonia com o todo: São elas, a nebulosa perseguição de uma antiga ex-namorada de Christian (Bella Heathcote) à Ana (resolvida de maneira breve e rasteira); a gradual transformação do novo chefe de Ana (Eric Johnson), de amigável e sorridente à abusivo e ameaçador (esse plot, aliás, é um gancho usado para conectar o desfecho à vindoura parte final); e, por fim, a presença, finalmente revelada, da mulher madura que iniciou Christian Grey no sexo, e que aqui posiciona-se para Ana como um obstáculo, Elena Lincoln (um participação especial de Kim Basinger, uma atriz muito interessante e empática que não merecia marcar presença numa obra tão equivocada).
Ah, sim, e não vamos nos esquecer da cena do acidente de helicóptero, feita para acrescentar tensão e dramaticidade ao enredo, mas tão rápida –e igualmente resolvida de maneira breve e rasteira –que chega a soar destoante e irrisória.
Como ator, Jamie Dornan faz um trabalho convencional, deixando com indiferença que a câmera explore seu corpo sarado para a satisfação do público feminino, já, Dakota Johnson, filha da atriz Melanie Griffith, compensa sua beleza discreta com uma entrega inesperada nas cenas de nudez –a cena mais interessante dela, entretanto, é quanto tem uma rápida conversa com uma secretária: Numa referência graciosa, ela reproduz o mesmo diálogo feito por sua própria mãe no melhor filme de sua carreira, “UmaSecretária de Futuro”.
Uma pena que a lembrança daquele excelente filme só faz ressaltar a mediocridade deste.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Cinquenta Tons de Cinza

Assim como a série “Crepúsculo” –cujo sucesso parece inexplicável aos muitos apreciadores do cinema de qualidade e com méritos –a adaptação do best-seller erótico escrito pela autora E.L. James guarda uma razão bastante lógica para sua gorda bilheteria: Ele “herdou” o mesmo público de “Crepúsculo”; as mesmas adolescentes que infestaram as salas de cinema com aquele filme, hoje, cresceram, e têm idade para assistir uma produção erótica.
Melhor ainda se tal produção vem com aquele mesmo apelo romântico, egocêntrico e blassé que definia também a história de amor entre o vampiro Edward e a humana Bella –e, de fato, a autora confessou ter se inspirado (o quê nem precisava sendo isso completamente óbvio!) no romance entre os dois personagens para conceber seu livro –ainda aproveitou e teve a esperteza (ou a sorte) para nele acrescentar justamente o elemento que faltava à açucarada obra de Stephanie Meyers: Sexo.
Basicamente, é atrás disso que parecem ir os fãs desse trabalho, ainda que mesmo nesse quesito (a provável e sugestiva idéia de se mergulhar num mundo de sexo sadomasoquista) a obra termine revelando-se bastante tímida. E, se isso já ocorria com o livro –cujo despudor para com o relato das cenas de sexo permitia uma riqueza de detalhes bem intensa –imagine então numa obra áudio-visual, bancada por um grande estúdio, ou seja, com o compromisso de ser uma produção “elegante”.
Escolhida para entrar nessa armadilha, a diretora inglesa Sam Taylor-Johnson (do sensível “O Garoto de Liverpool”) faz o quê pode priorizando as cenas com uma encenação refinada e enfatizando valores reais, como o aproveitamento exemplar da trilha sonora de Danny Elfman e das distintas atmosferas que ela consegue impor.
Mas, seu filme pena pelas mesmas razões que adaptações em geral sofrem: A versão em filme, com apenas duas horas de duração, é incapaz de dar conta das nuances de uma história que se prolonga para além desse tempo: O resultado acaba prejudicando a índole de seu protagonistas –sem o respaldo explicativo de muitos momentos que foram necessariamente cortados algumas atitudes ou situações soam forçadas ou sem sentido, ou mesmo inverossímeis depondo contra os acontecimentos decorridos, e isso, num filme sobre relacionamentos, onde grande parte da narrativa depende da percepção e da sutileza com os quais esses desdobramentos de sucedem, é quase catastrófico.
Ah, sim, vamos à história: A jovem e acanhada estudante de literatura, Anastassia Stelle (numa atuação até bem acertada de Dakota Johnson, que se mostra desinibida nas cenas de nudez) tem a incumbência de entrevistar o todo poderoso e todo ricaço Christian Grey (Jamie Dornam, ora correto, ora constrangedor), às vésperas de sua formatura. A partir de então, o enigmático Grey passa a assediá-la, embora seu interesse, no final das contas, não seja um relacionamento comum: Sujeito misterioso de hábitos sombrios e reservados, a última coisa que Grey demonstrar querer é romance: Ele, na verdade, deseja fazer de Anastassia a sua "submissa" e com ela praticar seus fetiches sadomasoquistas que passam longe de qualquer intenção romântica.
Apesar de ser avessa a isso, Anastassia começa aos poucos a ser enredada por Grey (que consegue, ainda sim, mostrar-se galante e envolvente nos sucessivos encontros e desencontros que se seguem) e esse sofisticado estilo de vida, entretanto, apesar de tudo é Anastassia quem parece –um pouco com o auxílio do acaso –subverter o comportamento de Grey, fazendo-o inconscientemente assumir uma certa relação com ela.
Com relação às cenas de sexo –as quais devem certamente ter mobilizado a curiosidade de todos que foram conferir o filme –pode-se afirmar que a diretora até manteve um equilíbrio bastante satisfatório: Não estão lá todas as relatadas no livro, e nem tampouco a riqueza de detalhes quase pornográfica com a qual isso é feito, mas as passagens (pelo menos, aquelas essenciais à trama) não foram ignoradas, apenas amenizadas, ainda que também isso possa ser frustrante para alguns expectadores –afinal, se pararmos para pensar no terreno em que a produção entra, as grandes cenas de sexo do cinema são pautadas por sua transgressão, vide “O Império dos Sentidos”, “O Último Tango em Paris” ou “Azul É A Cor Mais Quente”.
Todas essas decisões tomadas modificam “Cinqüenta Tons de Cinza”, o filme, em relação ao livro: Ele deixa de ser uma obra referencial com o malicioso tempero do sexo para se tornar um filme romântico que se contenta em registrar os altos e baixos de uma relação.
Só isso.
Essa conclusão questionável, todavia, não pareceu incomodar as legiões de fãs que fizeram dele um sucesso de bilheteria.

domingo, 25 de setembro de 2016

Maria Antonieta

A carreira cinematográfica de Sofia Coppola recebeu grande ajuda e incentivo de seu pai, o ilustre Francis Ford. Mesmo antes quando (ainda bem jovem) Sofia experimentou alçar vôos como atriz, seu pai a ajudou –ele deu a ela um papel fundamental em “O Poderoso Chefão Parte 3”, com resultados insatisfatórios.
Depois que ela decidiu tornar-se diretora, ele produziu todos os seus filmes, de “As Virgens Suicidas” até o mais recente “Bling Ring-A Gangue de Hollywood”, deixando bem claro, para o pai e para o mundo, o estilo que ela adotaria para contar histórias.
Em algum momento dessa filmografia notável que Sofia construiu, Coppola, o pai, tentou colocá-la num projeto que tivesse mais a sua cara.
Leia-se: Um trabalho suntuoso, com tinturas épicas. Mais clássico do que alternativo.
O resultado foi “Maria Antonieta” que, polarizado entre os estilos bastante díspares do pai (produtor) e da filha (diretora) transfigurou-se não em uma cinebiografia da célebre rainha da França, mas em um esforço de tentar entender sua personalidade, estranhamente localizado numa área nebulosa entre o intimista e o espalhafatoso.
Com uma carreira que já a gabaritava como veterana no cinema, a relativamente jovem atriz Kirsten Dunst (que ganhou muita fama como Mary Jane nos filmes do “Homem-Aranha”, de Sam Raimi, e já havia trabalhado com Sofia em “As Virgens Suicidas”) entregou uma interpretação engajada e rica em minúcias, bem ao gosto de sua diretora, para a princesa austríaca, Maria Antonieta, que num casamento arranjado, aos 14 anos, é arrancada do seu ambiente familiar e arremessada na corte francesa, como esposa do reticente e infantil rei Louis XVI (Jason Schwartzman) –que, à propósito, ela mal conhecia!
A narrativa de Sofia Coppola, assim, a acompanhará dos 14 aos 27 anos, mostrando muito do período em que ela teve de aprender a lidar com as complicadas exigências sociais e políticas de um posto de monarca, dando à trajetória de Maria Antonieta uma ótica que a aproxima das meninas sem perspectiva de “As Virgens Suicidas” e da deslocação e do vazio existencial experimentado pelos personagens de “Encontros e Desencontros”.
Uma visão que, é bom lembrar, atribui certa simpatia à ela, o quê contraria bastante a idéia que a França, em geral, faz dela, sempre lembrando-a com aversão.
Nesse ensejo, Sofia também cria um painel de afresco da própria realeza do período ao qual essa jovem rainha pertenceu, retratando-a como um grupo de pessoas sem muito que fazer a não ser mergulhar no hedonismo e na futilidade, algo possível só pela riqueza e ostentação da classe em que se encontravam. Elementos da narrativa que Sofia parece sublimar no que diz respeito à superficialidade, mas que revelam-se cruciais para os rumos que a trama toma –inclusive em termos históricos.
De quebra, ainda tirou, do cotado como favorito "Diabo Veste Prada", o Oscar de Melhor Figurino em 2007.