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quarta-feira, 22 de abril de 2020

Outback - Uma Galera Animal

Se há um grande nicho de público (brasileiro, inclusive) acostumado ao cinema norte-americano, para o qual filmes realizados em outros países soam exóticos e difíceis, certamente isso se aplica de maneira ainda mais incisiva e abrangente no que diz respeito ao público das animações: Com exceções raríssimas, eles estão habituados às ocasionais contribuições da Disney, da Pixar e da Blue Sky (empresa realizadora de “A Era do Gelo” e “OTouro Ferdinando”), além de uma ou outra animação japonesa.
Parte do seleto e ignorado grupo das exceções raríssimas, “Outback” vem da Austrália, narra uma trama que lhe enaltece a geografia, a fauna e a cultura local (repare num dos poucos personagens humanos concebido à imagem e semelhança do “Crocodilo Dundee”, de Paul Hogan), e por essa mesma razão não atinge os níveis de resolução e acabamento visual daqueles gigantes da animação.
No entanto, em sua simplicidade, até que diverte.
Johnny (voz do comediante Rod Schneider) é um koala branco que vive nas pradarias australianas –e à extensão desértica do lugar é dado o nome de Outback.
Devido à sua pelugem albina, Johnny sofre ligeira rejeição de outros da sua espécie e, guiado por essa angústia, termina amigo de dois vigaristas em potencial, o diabo da Tasmânia Hamish (voz de Bret Mackenzie) e o macaco debilóide Higgens (voz de Frank Welker) que ao levá-lo para um circo nas imediações almejam ganhar algum lucro com ele negociando-o com o lagartão que gerencia a coisa toda.
Quando o circo levanta acampamento, Johnny e os outros são incluídos no último vagão do trem, mas, em algum momento da viagem, esse vagão se solta, fazendo-os perderem-se na vastidão do Outback.
Lá pelas tantas, eles encontram um vale onde outros animais mantêm à duras penas um refúgio contra a tirania de insaciável e gigantesco crocodilo chamado Bogue (voz de Alan Cumming) e sua matilha de cães selvagens.
Por uma série de coincidências inacreditáveis –muito características das animações para crianças mais pequenas –Johnny os convence de que é um animal dotado de algum poder extraordinário, além do incomum pêlo branco, e passa a ser conhecido (e venerado) entre eles como Super Koala (!), fato do qual Hamish e Higgens não demoram a tirar proveito.
A única a alimentar alguma desconfiança desses ditos poderes (que, no final, não passam de sorte miraculosa) é a valente koala Miranda (voz de Yvonne Strahovsky) e, do lado dos vilões, o próprio Bogue que planeja desmascarar o Super Koala e chacinar seu grupo.
Nada que vá reinventar a roda, mas a animação dirigida por Kyung Ho Lee após um início apático, claudicante e cheio de pequenas redundâncias técnicas, vai encontrando o caminho para a diversão, ainda que sempre amparado numa premissa básica presente em uma infinidade de outros filmes e animações: O indivíduo inadequado que encontra, em seus próprios termos, a aceitação e a redenção usando de meios inesperados, imaginativos (a ponto de serem engraçados) e tortos.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

A Tempestade

William Shakespeare não era necessariamente uma novidade na filmografia de Julie Taymor (de “Across The Universe”) –muito antes ela havia se aventurado numa versão musical e lisérgica de “Titus”, com Anthony Hopkins –isso explica, talvez, o fato dela ter abordado a junção de ambições, revanches, traições e magia que compõem a trama passada numa ilha mediterrânea com um revisionismo tal que –sinal dos tempos –mudou o sexo de seu protagonista.
Se antes o personagem principal Prospero era homem (e chegou a ser interpretado por John Gielgud e Peter Fonda em outras versões), agora é convertido numa mulher, Prospera (que ganha assim a excelência de Helen Mirren).
Outrora a Duquesa de Milão, Prospera foi exilada numa ilha do mediterrâneo devido às maquinações conspiratórias de seu irmão, Antonio (Chris Cooper) e de outros membros da corte de Nápoles, como o próprio rei (David Strathairn) e seu irmão invejoso (Alan Cumming).
Ao mover sua vingança munida de forças sobrenaturais, Prospera se revela então um reflexo do próprio Shakespeare: Abandonada na ilha, junto de seus livros e da própria filha, Miranda (Felicity Jones, linda), ela desenvolve poderes com os quais controla o destino dos incautos viajantes –tal e qual o próprio escritor o faz com os personagens à disposição de sua trama.
Auxiliada pelo subserviente espírito Ariel (Ben Wisham), Prospera conjura uma tempestade com a qual consegue fazer naufragar na ilha um navio trazendo todos os seus antagonistas –e deles faz gato-sapato.
Como em “Titus”, a diretora Taymor imprime um senso visual colorido e surreal à trama, remetendo a uma artificialidade dos palcos de teatro potencializada com efeitos especiais de última geração e trucagens de câmera que buscam romper com qualquer predisposição tediosa do enredo. Nesse sentido, Julie Taymor, apesar de uma ou outra opção estética de gosto discutível, revela um entendimento de Shakespeare muito mais apurado do que, por exemplo, o jovem diretor Justin Kurzel e sua equivocada versão de “MacBeth”: Ela compreende que, vertidas para cinema, as tragédias de Shakespeare devem agregar em seu material as ferramentas que o cinema tem –o esplendor visual, a montagem inquieta e instigante, os atores capazes de hipnotizar a câmera (aqui não apenas estão as maravilhosas Helen Mirren e Felicity Jones, como também os incontroláveis Alfred Molina e Russel Brand).
Além disso, existem também as cenas de Ariel convertido aqui num ser etéreo e abstrato, na boca do qual Taymor deposita versos declamados em versões musicadas, e o monstruoso Caliban (Djimon Houson, de “A Ilha” e “Gladiador”) envolto numa maquiagem pesada e desconcertante.
Ainda que mais amena e não tão propensa ao experimentalismo e à transgressão, a versão de Julie Taymor bebe um pouco da fonte de Peter Greenaway e sua versão ultra-estilizada, “A Última Tempestade”, em suas singulares peripécias visuais e sua profusão de cores e imagens exuberantes a emoldurar o trabalho de um elenco empenhado e apaixonado.
Ótimo cinema a ser usufruído, entretanto, por públicos específicos.

terça-feira, 3 de maio de 2016

X-Men 2

Continuação de "X-Men-O Filme". Wolverine busca descobrir quem é e como se transformou numa máquina de matar. Suas buscas o levam a um complexo militar no Canadá e a um certo coronel Striker. Enquanto isso, os outros X-Men se desdobram para identificar um mutante dotado de capacidade de teleporte que tentou assassinar o presidente dos EUA, e que piorou muito a já abalada imagem da comunidade mutante. Na Casabranca, as repercussões desse atentado podem fazer com que o presidente autorize uma invasão à Escola de Superdotados do Prof. Xavier, o que pode então levar Wolverine a se defrontar com Striker.
 Mais fiel, mais eletrizante, mais inteligente e mais marcante que a primeira parte. Os X-Men nunca foram histórias de heróis contra vilões. E a sorte da franquia foi que, ao ser convertida em cinema, seu realizador Bryan Singer compreendeu perfeitamente isso. No primeiro filme, ele colocou as personalidades de Xavier e Magneto em contraponto, numa sensacional alegoria a Martin Luther King e Malcoln X. Aqui, em “X-Men 2” ele prosseguiu com esse trabalho analisando outras questões sobre o preconceito: O quê nos torna diferentes? A partir de que momento, e por quê, isso passa a incomodar outras pessoas? A busca por conciliação é um sinal de força ou de fraqueza?
 A brilhante resposta de “X-Men 2” é que não há resposta: No fim das contas não existe diferença, pois somos todos iguais.