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segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

500 Dias Com Ela

Para além da aparência de comédia romântica genérica que possui, “500 Dias Com Ela” é um filme que desperta interessantes reflexões no expectador.
Realizado por Marc Webb logo antes de ser chamado para reiniciar a franquia do Homem-Aranha (desta vez, com Andrew Garfield), o filme dá uma idéia bastante interessante do que os executivos vislumbraram na trabalho de Webb, almejando algo assim para os novos filmes do escalador de paredes –uma pegada romântica carregada de inteligência e vivacidade.
Uma pena que Webb terminou não entregando nada disso, mas essa é uma outra história...
Tom (Joseph Gordon Levitt, perfeito e adequado ao papel) é um rapaz romântico e, até certo ponto, ingênuo. Quando o filme começa, já imerso em memórias que vêem e que vão, sabemos que ele conhece Summer (Zooey Deschanel, o grande achado do filme), uma garota maravilhosa e cativante, por quem ele logo se apaixona. O relacionamento dos dois se desenrola ao longo de exatos quinhentos dias, desde a sutil aproximação, a consumação da paixão, os planos de ficarem juntos e o conseqüente afastamento.
Ao abordar uma trama romântica sobre o ponto de vista variante da rejeição, Webb não realizou somente um filme divertido e delicioso (características que logicamente predominam na primeira parte cheia de encanto e descoberta), mas também dolorosamente realista; inclusive para com o próprio viés fantasioso que a dinâmica dos relacionamentos é, em geral, abordada nessas comédias românticas: Dessa forma, a analogia contundente e graciosa que a narrativa estabelece entre o filme “A Primeira Noite de Um Homem” e as conseqüências dos atos e das reações do protagonista representa a grande e pertinente mensagem do filme –a de que a vida real não é uma comédia romântica, e de que possui muito mais complexidade, e momentos de desânimo e tristeza que pode sonhar nossa vã esperança por um final feliz.
Essas observações aparecem em diversos momentos, nas entrelinhas poderosas dos acontecimentos finais, nas afirmações sensatas da assustadoramente madura irmã menor de Tom (vivida por Chloe Grace Moretz, pouco antes de explodir como a Hit-Girl de “Kick Ass”) e certamente na narração séria e paradoxalmente divertida, mais absolutamente circunspecta que Webb atribui ao filme.
São elementos inesperados, cuja soma deixa evidente que este grande fenômeno de público e crítica é mais do que uma simples comédia romântica: Ao contar sua história numa ordem não linear, indo e vindo no tempo, o diretor Marc Webb relata incisivamente os momentos em que a pequena distância entre o casal virou um verdadeiro abismo, contrapondo as personalidades distintas de Tom e Summer numa condução espirituosa e particularmente cativante. O que resta, assim, é a observação acerca da personagem da encantadora Zooey Deschanel ser ou não a grande vilã do filme (afinal, ela fez o garoto se apaixonar por ela para em seguida largá-lo, fazendo-o sofrer), coisa que ela definitivamente não é: De um jeito muito particular, o filme de Webb quer lançar certo olhar para a forma com que a cultura pop ensinou toda uma geração (exemplificada em Tom) a olhar o romantismo de uma maneira torpe, distorcida e totalmente desprovida das imbricações reais. E, para tanto, Webb faz um filme que é, ele próprio, essencialmente pop, pontuado por inebriantes canções que falam sobre a embriaguez do romance e por uma sucessão de cenas brilhantes: As mensagens de cartões que ganham cada vez mais inspiração a medida que o amor dos dois jovens evolui; a bela seqüência musical que começa com uma piscadela de Han Solo (!); as constantes menções de filmes clássicos.
Tom não enxerga em Summer aquilo que ela é, mas sim o que ele idealiza que ela seja –e, por ser maravilhosa, ela é bem sucedida em fazê-lo crer na maior parte do tempo que corresponde aos seus anseios –todavia, mais cedo ou mais tarde, um relacionamento precisa se amparar na realidade, sobretudo, quando se espera dele alguma longevidade. Não à toa, uma das cenas mais famosas do filme mostra justamente a tela dividir-se entre Expectativa e Realidade, mostrando assim a dolorosa desilusão de Tom com Summer paralelo aos sonhos pouco plausíveis que ele nutria em relação a ela.
Um filme com uma contagiante faceta divertida, mas também com uma válida e preciosa faceta de tristeza.

sábado, 20 de maio de 2017

O Espetacular Homem-Aranha 2 - A Ameaça de Electro

Por algum tempo, acreditava-se que a reformulação do Homem-Aranha havia dado certo.
O diretor Marc Webb, ao substituir Sam Raimi beneficiou-se de alguns elementos até bastante alheios às suas opções como realizador, como por exemplo, o fato de dar ao novo filme aspectos mais fiéis aos quadrinhos (sendo, talvez o mais notável a questão envolvendo os lançadores de teia), e a tecnologia 3D, difundida pelo êxito de “Avatar” e muito em voga na predileção do público, à qual esta produção beneficiou-se de uma oportuna agenda de filmagens para lançar mão.
Esses fatores garantiram uma certa recepção positiva da parte da crítica e do público e, embora houvessem aspectos ainda não digeridos no filme anterior (como o inapropriado tom sombrio adotado e a importância, em última instância redundante, dada aos mistérios que cercavam a morte dos pais de Peter Parker), Webb ganhou a chance para fazer uma continuação onde poderiam ser confirmados seus acertos ou evidenciados em definitivo os seus erros.
Bem mais confortável na persona de Homem Aranha que assumiu após os eventos do filme anterior, o recém-formado Peter Parker (Andrew Garfield, deixando que sua declarada paixão pelo personagem interfira em sua atuação fazendo-o histriônico) tem de lidar com seu romance com a jovem Gwen Stacy (a adorável Emma Stone), que além de tornar-se mais sério, enfrenta o dilema de uma vindoura viagem para a Inglaterra.
Em meio a isso, seu amigo de infância, Harry Osborn (Dane Dehaan, uma boa escolha, apesar de tudo), reaparece assim como surge também uma nova ameaça, representada pelo perigoso Electro (Jamie Foxx, na pior atuação de sua carreira).
As inúmeras tramas paralelas do filme ameaçavam o tempo todo se atropelar –incluindo aí um arco memorável dos quadrinhos que faria a alegria dos fãs mais antigos do Homem Aranha.
O diretor Mark Webb fez um trabalho razoável, confiando especialmente na segurança e descontração de seu elenco, onde certamente destaca-se a química palpável do casal Andrew Garfield e Emma Stone; sua ênfase recaiu sobre as minúcias narrativas, destacando alguns aspectos íntimos e valendo-se de certa seriedade para, mais uma vez, desvencilhar-se das comparações com a trilogia anterior de Sam Raimi.
Mas, algo em seu filme definitivamente não conseguiu funcionar –talvez, sejam seus excessos refletidos no controle intrusivo exercido pelo estúdio no resultado final: Tantas foram as escolhas melindrosas acumuladas aqui que o filme carece de um cerne, deixando transparecer exatamente o quê uma produção pode se tornar quando ela fica à mercê de um comitê e sem um bom senso sólido e criativo.
Embora tenha lá seus méritos, o segundo filme de Marc Webb com o escalador de paredes é, acima de tudo, definido por seus equívocos, o quê acarretou péssimas críticas e insatisfatórias bilheterias e levou o estúdio da Sony a interromper os planos dessa franquia –a trama elaborada pelo roteiro tinha uma clara estrutura de trilogia –e a firmar com a Marvel Stúdios uma parceria até então sem precedentes: Eles emprestaram o personagem do Homem-Aranha (agora interpretado por Tom Holland, de “O Impossível”, um jovem e talentoso ator que consegue reunir características tanto de Tobey Maguire, quanto de Andrew Garfield), para que a Marvel primeiro o incluísse no menu de personagens presentes em “Capitão América-Guerra Civil”, e depois para que a própria Marvel, com toda sua comprovada habilidade, concebesse um filme-solo do herói, desta vez, ambientado no Universo Marvel Cinematográfico, e (espera-se) absolutamente fiel a todos os elementos do personagem que foram, por ventura, desvirtuados nessas outras produções.
Seu título?
“Homem-Aranha De Volta Ao Lar”

sábado, 13 de maio de 2017

O Espetacular Homem-Aranha

Houve uma perceptível intenção em deixar de lado a leveza adotada por Sam Raimi nos três filmes anteriores protagonizados por Tobey Maguire neste reinício da saga do famoso personagem da Marvel.
Adotando um enfoque mais austero (e em alguns aspectos, mais fiel aos quadrinhos), o diretor Marc Webb (que entregou um belíssimo trabalho em “500 Dias Com Ela”, o quê deve ter lhe abalizado para esta empreitada) constrói uma narrativa que não parece tão interessada no tom descontraído da Marvel (com humor onipresente), mas sim num clima mais sombrio e realista, remetendo à Christopher Nolan e sua reinvenção de “Batman”.
Nem sempre isso combina satisfatoriamente com o personagem do Homem-Aranha, mas até que este primeiro filme tinha alguns elementos interessantes para que o público não saísse indignado de dentro da sessão.
Retomando uma vez mais uma história de origem –mas, alterando um bocado os fatos, e dando muito mais ênfase no mistério em torno dos pais do protagonista –o filme acompanha os primeiros passos do herói.
O colegial Peter Parker (Andrew Garfield, esmerado ainda que mais afetado que Tobey Maguire) é orfão (perdeu os pais, Richard e Mary Parker, num nebuloso acidente e desde então vive com os tios Ben e May Parker), nerd (e como todos sofre nas mãos dos valentões da escola) e apaixonado pela bela colega Gwen Stacy (Emma Stone, disparado a melhor coisa do filme) –e sendo franzino e tímido não encontra coragem para abordá-la.
Suas investigações atrás de respostas sobre seu pai o levam até as Indústrias Oscorp, onde Peter é acidentalmente mordido por uma aranha geneticamente modificada, o quê mais tarde, lhe confere fabulosos poderes, por meio dos quais ele se tornará o vigilante mascarado conhecido como Homem-Aranha.
Provavelmente de forma involuntária, este novo filme lembra também uma outra produção a adaptar um personagem de Marvel –o desigual, curioso e incompreendido “Hulk”, de Ang Lee.
Como aquele trabalho, este daqui reinventa seu protagonista em excesso, atribui novas motivações, omite elementos que julga repetitivos, acrescenta outros que soam desnecessários (a insistente trama de mistério que envolve os pais do protagonista), e ousa manipular aspectos que envolvem a mecânica da gênese de seus poderes: Nada disso melhora o filme, pelo contrário, o afasta das características que tornam o personagem tão interessante.