Mostrando postagens com marcador Pierce Brosnan. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pierce Brosnan. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

À Procura da Vingança


 Inúmeros são os filmes de faroeste de teor clássico que norteiam e acabam remetendo à “Seraphim Falls”, uns realizados antes, outros até depois desta produção –o grande problema é que muitos deles também encontram uma forma de serem melhores que o filme dirigido por David Von Ancken (conhecido produtor e diretor do ramo televisivo). A começar temos, logo na sequência que inicia o filme (o personagem de Pierce Brosnan, num ambiente gelado, é alvejado por um bando liderado pelo personagem de Liam Neeson e foge, padecendo de dor e de frio, iniciando uma perseguição que irá perdurar por todo o filme), uma série de momentos que lembram a obra-prima “O Regresso”, realizado por Alejandro González-Iñarritu anos depois deste filme, mas, certamente superior em praticamente todos os quesitos.

Fotografado pelo exímio John Toll (diretor de fotografia vencedor do Oscar da categoria por “Lendas da Paixão” e por “Coração Valente”), o filme não se isenta de, nesse tenso e envolvente prólogo, emular sequências do clássico “O Vingador Silencioso”, de Sergio Corbucci, e de “Os Oito Odiados”, de Quentin Tarantino (também realizado posteriormente), todos eles, faroestes que encontram sua originalidade ao ambientar suas cenas de embate em meio à neve.

Predominantemente visual, econômico em seus diálogos (restringidos, em grande parte, às discussões monetárias do bando com seu contratante, o personagem de Neeson), o roteiro escrito por Abby Everett Jaques e pelo próprio diretor Ancken nos leva a testemunhar essa perseguição durante boa parte da trama, sem saber ao certo do porque ela se deflagrou, ou as motivações mais específicas que levam Neeson a perseguir e Brosnan a tentar escapar; salvo flashbacks breves que mais sugerem uma explicação mais profunda vindoura do que explicam de fato.

Há uma confiança deliberada e até estudada na capacidade dos atores e seus personagens sustentarem o filme, mesmo que sem os backgrounds narrativos de praxe: Liam Neeson vive, portanto, Carver, personagem norteado pela vingança que, durante muito tempo, evoca o Capitão Ahab, de “Moby Dick” –um indivíduo assolado pela necessidade de se vingar, disposto a passar por cima de tudo (ética, obstáculos humanos, até mesmo aliados ocasionais) a fim de concluir seu intento; mais propenso à ganhar a simpatia do público (devido ao seu estado combalido durante boa parte do filme), o personagem de Brosnan é Gideon que, aqui e ali, demonstra lá seus valores morais, ainda que nunca chegue sequer perto de exibir características de bom moço. Sem a motivação esclarecida para aquele que caça e para aquele que é caçado, sobra ao filme de Ancken, contar com a capacidade destes atores em capturar, com seu carisma, a atenção do expectador.

Não é exatamente o que acontece: Hàbeis em construir figuras ambíguas (e este parece ter sido um objetivo velado que ambos, aqui, adotaram em comum), Brosnan e Neeson não vilanizam nem romantizam nenhum dos dois personagens antagonistas, potencializando ainda mais a indagação do público –para quem, afinal, torcer?

Tivesse o personagem de Gideon mantido seu intérprete original (Richard Gere que, ainda na pré-produção, abandonou o projeto), “Seraphim Falls” talvez até não necessitasse de tais expedientes para definir ao público quem é seu protagonista e quem é seu antagonista. Da forma como ficou, isso é incerto, e a capacidade de envolver o público nesse enredo se torna escorregadia.

Claro que, lá pelas tantas, o esclarecimento chega na forma de um providencial flashback –nele, descobrimos que Carver foi um coronel confederado, e que Gideon, o capitão de uma tropa de soldados da União, tudo isso durante o final da Guerra Civil Norte-Americana (meados de 1865). Numa lamentável tentativa de obter inúteis localizações de possíveis desertores confederados, os soldados de Gideon invadem a casa da família de Carver, inadvertidamente incendiando o local e, sem querer, assassinando a mulher e os filhos dele, que se achavam no local sem ter como sair.

A descoberta desse elo de ligação entre os protagonistas afunila a tensão para o desfecho, mas, ao mesmo tempo, enfraquece algumas atitudes testemunhadas antes: Sobretudo, Carver que oscilava entre uma crueldade estudada e uma apatia quase vilanesca, de repente já não parece não certo assim de seu ódio e sua sede de sangue contra Gideon.

Curiosamente, o trecho final –que precede o típico duelo à céu aberto de filmes de faroeste –traz duas aparições de natureza alegórica a confrontar os dois homens em perseguição: A primeira traz o veterano Wes Studi (de “Dança Com Lobos” e “Fogo Contra Fogo”) a viver um indígena de trajes civilizados à beira de uma pequena lagoa no meio do deserto. Pragmático, ele negocia com Gideon, e depois com Carver, a água preciosa que está disposto a ceder mediante uma compensação. Tudo aquilo que se almeja, ele parece dizer, cobra seu preço, inclusive, neste caso, a vingança. A segunda aparição é de uma certa Madame Louise (vivida por Anjelica Huston) que, tal e qual uma bruxa, traz magicamente aquilo que ambos precisam para encerrar seu embate interminável –uma última bala para Gideon, uma pistola para o desarmado Carver; para ambos, ela oferece um último comentário cínico, reiterando que não há nada de muito valoroso no mundo que ambos podem acabar deixando.

Como tudo o mais neste filme, porém, essas ideias promissoras acabam mais numa promessa do que num fato consumado.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Thomas Crown - A Arte do Crime

Juntos, o ator Pierce Brosnan e o diretor John McTiernam realizaram o suspense de baixo orçamento “Delírios Mortais”, em 1985. catorze anos depois, em 1999, eles tornaram a se reunir nesta refilmagem de “Crown-O Magnífico”, na qual Brosnan –então já festejado como novo intérprete de “007” –almejava investir em um personagem marcante que o afastasse da esmagadora sombra de James Bond.
Trata-se de um esforço válido e admirável e –o melhor! –que resultou num filme excelente: “Thomas Crown” pega a trama básica do filme original dirigido por Norman Jewinson e a ela acrescenta percepções cínicas e mundanas dos anos 1990 de então –período ao qual sua premissa se encaixa com uma exatidão notável.
O milionário Thomas Crown, vivido com fleuma inabalável por Brosnan, cultiva uma fachada impecável de empresário dedicado, sofisticado, culto e satisfeito.
No roteiro melindroso que tece, o filme de McTiernam coloca seu protagonista como um dissimulador tão extraordinariamente competente que não é permitido nem mesmo ao expectador vislumbrar suas insatisfação –mas, ela está lá.
E é ela que leva Crown a organizar um assalto perfeito à uma galeria de arte.
A execução do assalto, por sinal, é primorosamente bem realizada, à frente e atrás das câmeras –contando ainda com a presença de um Vin Diesel ainda iniciante –embora seus autores sejam descobertos e capturados.
Contudo, o fracassado de tal operação já estava nos planos de Crown: Enquanto os assaltantes contratados por ele se dão mal, distraindo a eficiente estrutura de segurança do museu, Crown rouba pessoalmente uma pintura de Monet, o quadro mais valioso do local, com suas próprias mãos e sai andando pela porta da frente.
Roubo executado, eis que entra em cena aquela que circunstancialmente pode ser considerada a personagem principal de fato –no sentido de que é ela, e não Thomas Crown, os olhos da plateia –a investigadora da companhia de seguros Catherine Banning, vivida por uma belíssima e escultural Rene Russo que, do alto de seus 45 anos de então, demonstra química singular e afiada com Brosnan, aparece nua e dá um banho de sensualidade em muita atriz de vinte anos.
Cahterine sabe que o entediado Crown está envolvido até o pescoço com o ocorrido –prová-lo é, entretanto, o grande desafio dela e de seu parceiro, o investigador bem menos sofisticado interpretado por Denis Leary (de “O Espetacular Homem-Aranha”).
São hilárias as tentativas dele em fazer um cerco ao escorregadio milionário –como quanto tenta invadir a mansão dele com um mandato de busca em mãos, e Crown tem, entre seus amigos pessoais, o próprio advogado (vivido por Ben Gazzara), o que neutraliza qualquer burocracia que poderia beneficiar as ações do investigador.
A tática de Catherine, entretanto, é mais eficaz: Ela enreda (e desafia) Crown num terreno em que ele se julgava predominante, a sedução, ciente também de que não é por qualquer valor financeiro que ele empreendeu sua travessura, mas, para conferir algum desafio à sua vida tão estável. E é, de certa forma, como um desafio que Catherine se apresenta.
Assim, indo na contramão do cinema comercial habitual às plateias –e contrariando até mesmo o que se esperava do diretor John McTiernam, um especialista em ação –“Thomas Crown” revela-se uma obra onde a ação (ainda que ela exista) possue menos peso narrativo do que as guinadas de roteiro e as orientações íntimas dos personagens; ficamos até a última cena em dúvida acerca de qual é o real objetivo de Thomas Crown (e também quais são, de fato, seus sentimentos por Catherine), quando por fim seu plano final é revelado numa sequência brilhantemente dirigida, montada e roteirizada.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Caçada Na Noite

O filme de John Mackenzie começa numa sucessão intrincada de cenas que, até a resolução final, não terão significado algum. Personagem proeminente nesse prólogo, o gangster vivido por Paul Freeman (o Beloq de “Os Caçadores da Arca Perdida”) se envolve numa entrega nebulosa.
Algo dá errado, mas não fica claro porque ou com quem.
O filme de Mackenzie assim desafia abertamente o expectador em seus quinze minutos iniciais com um plot cujas pontas soltas não se juntam e nem irão se juntar até que tudo tenha terminado.
Essa provocação e audácia direta para com o público parece evocar uma oposição do cinema inglês em relação à atitude do cinema comercial norte-americano, segundo o qual o filme, em seus minutos iniciais, tem por obrigação conquistar o expectador.
A oposição entre o inglês e o norte-americano é, por sinal, o combustível dessa narrativa.
Líder de uma ampla máfia londrina, o truculento e selvagem Charlie (Bob Hoskins, explosivo) tem delicados negócios a serem fechados com investidores americanos a fim de legitimar suas operações.
Todavia, para seu tormento, uma convergência de fatores acarreta uma violência imprevista: Atentados ferozes (inclusive à bomba) eliminam pessoas próximas à Charlie.
Quem são os responsáveis? E por que?
A primeira pergunta, Charlie tenta em vão responder mobilizando seus capangas a fazer a única coisa que entende: Retribuir violência com mais violência; ele procura entre os demais gangsteres londrinos alguém que possa ser o culpado pela onda crescente de retaliações, enquanto busca, com a ajuda da esposa Victoria (Helen Mirren, deliciosa) deixar tais eventos desastrosos passarem despercebidos dos americanos.
É claro que, em algum momento, no fulgor da narrativa que elabora, “Caçada Na Noite” irá encontrar, na já indistinta lembrança daquele prólogo enigmático, as suas almejadas respostas. Até lá, no entanto, é exatamente disso que a urgência da narrativa do diretor Mackenzie se abastece: A tensão densa e implacável de enfrentar um inimigo invisível, onipresente e que acompanha todos os seus passos, contra o qual os vastos recursos nada significam.
É tão instigante quanto eletrizante acompanhar a magnífica atuação de Bob Hoskins, onde ele dá dimensão a um homem consciente do poder que tem, vendo esse mesmo poder se esvair (ou mostrar-se irrelevante) ante desconhecidos antagonistas das sombras cujas ações fragmentam invariavelmente suas esperanças, seus asseclas e as bases do império que julgava tão sólido.
O cinema inglês de gangster não fica melhor que isso.

sábado, 28 de maio de 2016

007 - A Fase Pierce Brosnan

Hoje há quem ame, e quem odeie a fase em que James Bond foi interpretado por Pierce Brosnan. Eu apreciei muito o trabalho do ator (um Bond com características das antigas, refinado e melindroso contrastando com a brutalidade trazida por Daniel Craig), embora seja avesso ao estilo formulaico que predominou em seus filmes, mas reconheço que eles foram necessários para lapidar o mito James Bond para os novos tempos (o quê levou aos notáveis filmes que vieram depois) e até imprescindíveis para apresentar 007 à uma nova audiência composta por filhos, ou até netos daqueles que assistiram no cinema as aventuras do James Bond original, Sean Connery.
007 Contra Goldeneye: Lançado em 1995, “Goldeneye” tinha como missão restabelecer o mito James Bond para as novas audiências. O intervalo entre este e o filme anterior da série (“007-Permissão Para Matar”, lançado em 1989 com o insosso Timothy Dalton) foi um dos maiores de toda a franquia (seis anos): Havia, portanto, quase toda uma nova geração que desconhecia 007, o quê jogava a pressão sobre os ombros do novo intérprete, Pierce Brosnan (vindo da bem-sucedida série de TV “Remington Steele”), nas alturas.
A trama (até bastante banal e genérica, uma característica negativa dos filmes encabeçados por Brosnan) mostra James Bond envolvido nos percalços de um agente do MI6 que tornou-se traidor.
A despeito da fragilidade de sua história, “Goldeneye” beneficiava-se da boa e dinâmica direção do inglês Martin Campbell (oriunda da TV britânica), cujo trabalho casou tão bem com os propósitos da franquia que ele foi recrutado novamente para dirigir “Cassino Royale” já no início da fase Daniel Craig. Quanto ao ator, Pierce Brosnan se mostrou a escolha ideal para personificar um novo e, por assim dizer, mais maleável Bond: Os tempos afinal eram outros, e muitas das características do personagem que o acompanhavam desde o tempo de Sean Connery (e que se mostraram prejudiciais nos filmes de Timothy Dalton) deveriam ser revistas, como o modo levemente misógino como a série sempre abordou as personagens femininas (tornando sintomática a escalação da excelente Judi Dench para interpretar a primeira “M” feminina) e as fortes referências à Guerra Fria.
O resultado foi um sucesso de bilheteria amplamente satisfatório, com um novo ator que consagrou-se como um novo 007 para toda uma geração.
007 O Amanhã Nunca Morre: Em sua segunda aventura interpretado por Pierce Brosnan, James Bond recebe a missão de deter os planos megalomaníacos de um magnata das comunicações que elabora uma série de complexos atentados na intenção de provocar a Terceira Guerra Mundial.
Já estabelecido e reconhecido pelo público como 007, Brosnan marcou presença num filme que podia se dar ao luxo de vôos mais ambiciosos. O novo diretor (Roger Spottiswoode, realizador do intenso drama de guerra “Sob Fogo Cerrado”, mas que no fim das contas era uma mero operário padrão) buscou agregar ainda mais ação ao produto, incorporando inclusive fortes elementos do cinema asiático de lutas marciais, o quê explica o entusiasmo com a presença da estrela chinesa Michelle Yeoh (que depois faria sucesso no mundo todo com “O Tigre e O Dragão”). Mais do que qualquer coisa, é neste filme que se percebe o quanto a vontade em ser um produto comercial que obedece a risca a cartilha hollywoodiana de filmes de ação oprimia a narrativa, tornando-o quase um espetáculo vazio. 
007 O Mundo Não É O Bastante: Tentando rastrear as atuações de um perigoso e poderoso "barão do crime", a fim de elucidar sua identidade, James Bond acaba incumbido de proteger uma ex-refém desse mesmo bandido. Sua relação com ela e com uma jovem cientista nuclear revelarão as verdadeiras intenções do vilão. No terceiro filme de James Bond protagonizado por Pierce Brosnan, quando então ele já gozava do fato de ser considerado um dos melhores intérpretes de Bond, ao lado de Sean Connery, após o excessivamente sério e empostado Timothy Dalton nos anos 1980 e o caricato Roger Moore nos anos 1970, o responsável por capitanear o filme foi Michael Apted, cuja escolha por parte dos produtores seguia muito a mesma lógica de Roger Spottiswoode no filme anterior: Um trabalhador obediente, acostumado com a indústria, sem maioridades características autorais e com pelo menos um filme de qualidade no currículo (o ótimo “Nas Montanhas dos Gorilas” com Sigourney Weaever). Tudo isso o tornava, do ponto de vista corporativo, uma escolha perfeita para dirigir o novo “Bond”, mas o produto final, embora tivesse uma profusão de elementos clássicos da franquia e de filmes comerciais em geral, pecava por não te alma. “O Mundo Não É O Bastante” entrou assim para o cânone de James Bond como o primeiro filme a incluir uma bond-girl (a deslumbrante francesa Sophie Marceau) que se revelava a vilã da história, mas foi lembrado mesmo como o mais fraco produto da “safra Pierce Brosnan”.
007 Um Novo Dia Para Morrer: O agente da coroa britânica, James Bond é capturado por governo inimigo durante uma missão relativamente fracassada. Após um ano como prisioneiro ele é libertado e, sob o descrédito do Serviço Secreto, decide ir atrás dos eventuais responsáveis por seu encarceramento. Seu inimigo, como de praxe, tem planos megalomaníacos para a dominação mundial. Este foi o 19º filme de James Bond, e o 4º com Pierce Brosnan no papel, além de ser, dentre todos, o mais austero e elaborado: Provavelmente devido à inclusão de um diretor mais jovem no comando, o neo-zelandês Lee Tamahori (de “O Amor e A Fúria”). Isso trouxe uma ligeira audácia no tratamento com a história, mas nada que comprometesse o objetivo restritamente comercial da obra. A inclusão de Halle Berry (vencedora do Oscar de Melhor Atriz por “A Última Ceia” em 2001, um ano antes), como uma agente secreta que refletia o próprio James Bond em versão feminina também foi um sopro de ar fresco, mas o patrimônio da série continuava a ser a presença acertada de Pierce Brosnan. O ator estava muito bem, exibindo charme e segurança como 007, embora já começasse a expressar seu cansaço com o personagem, mas o filme, tal qual os outros, era exagerado e caricato, fruto de anos em que a série vinha sendo realizada em cima das mesmas fórmulas.
Talvez fosse essa percepção que tenha levado a série, no episódio seguinte (o espetacular “Cassino Royale”), a dar um arrojado salto de sofisticação e optar por uma reformulação total, começando do zero com Daniel Graig.