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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Homem-Formiga e A Vespa - Quantumania


 O despachado Scott Lang (Paul Rudd, absoluto no papel) tem o poder de (na maioria das vezes) diminuir e (ocasionalmente) crescer, e ficar gigante. Na proposta peculiar de seus poderes e no temperamento resiliente e bem-humorado para com os revezes caóticos que cercam sua vida e sua família, Scott –ou, mais precisamente, Homem-Formiga –resume à perfeição os tópicos que nortearam o Universo Marvel, seja nos quadrinhos ou no cinema: Um herói imperfeito, muito longe de ser capaz de integrar o Panteão dos Deuses, a espelhar com descontração e espirituosidade, o próprio expectador. No terceiro longa-metragem que ganhou para si, “Homem-Formiga e A Vespa-Quantumania”, Scott já chega de uma jornada tumultuada e particular vinda de outros dois filmes (nos quais foi introduzida a mitologia por trás de seus poderes, no primeiro; e os potenciais desdobramentos a envolver o tal Reino Quântico, no segundo), e finalmente, de todo um esforço narrativo que o atrela ao Universo Marvel Cinematográfico do qual sempre fez parte, continuando, por sua vez, de onde herói parou em sua última aparição, o extraordinariamente marcante “Vingadores-Ultimato”.

Assim, na sua capacidade de crescer e diminuir, Scott é uma alegoria ambulante, falante e saltitante da capacidade muito humana de se desvencilhar dos problemas e dar a volta por cima –e tantos são os tópicos com os quais o bem-intencionado diretor Peyton Reed tem de lidar que ele já deixa, no início do filme, essa analogia completamente explícita ao público, no monólogo inicial do personagem, acompanhado de uma entrevista para a divulgação de um livro que ele mesmo escreveu: Ex-presidiário, ex-ladrão e outrora negligente pai de família, Scott tomou caminhos tortuosos que o fizeram um dos Vingadores e um dos vários heróis responsáveis pelo salvamento do planeta Terra. Agora, a andar pela rua Scott recebe tapinhas nas costas e copos de café gratuitos... ele também teve sua vida amorosa endireitada, graças a inebriante presença de Hope Van Dyne (Evangeline Lilly), convertida na heroína Vespa durante o segundo filme.

A questão de ser pai negligente, contudo, foi um pouco mais difícil de ser superada: Ao perder o contato por cinco anos com a filha Cassie (Kathryn Newton, substituindo a jovem Emma Fuhrmann que viveu a personagem em “Ultimato”), por conta dos acontecimentos dos filmes anteriores, Scott viu a filha saltar de uma criança para uma jovem mulher, e agora procura recuperar o tempo perdido. Mas, Cassie tem muito do pai: Na melhor das intenções, envolve-se em encrencas das quais padece para sair. É assim que, um tanto quanto auxiliada pelo gênio do Dr. Hank Pym (Michael Douglas), ela desenvolve um aparelho de acesso ao Reino Quântico, o universo microscópico referenciado nos filmes anteriores do Homem-Formiga e que, em “Ultimato”, serviu para executar uma audaz viagem no tempo. Isso, entretanto, acende o alarme em Janet Van Dyna (Michelle Pfeiffer), mãe de Hope e esposa de Hank –ela esteve presa, por trinta anos, no Reino Quântico, antes de ser resgatada, e mantêm em segredo as turbulentas peripécias que lá vivenciou. Mal ela tem tempo para alertar os demais personagens disso e são todos eles –Scott, Cassie, Hope, Hank e Janet –sugados para dentro do Reino Quântico, onde todo o restante do filme se passará.

Cumprindo uma promessa que pairava no ar desde “Homem-Formiga e A Vespa”, o filme mostra que havia toda uma civilização, com fauna, flora e tecnologia, dentro do Reino Quântico, e como a maioria esmagadora de filmes comerciais a retratar um outro mundo, “Quantumania” tem por referência-mor o incontornável “Star Wars”, de George Lucas. É impossível não associá-lo em cenas como a da cantina espacial, ou quando o herói e sua filha encontram os rebeldes alienígenas daquele lugar retratados com uma imodesta proliferação de efeitos visuais.

O elemento que, de fato, vem a trazer uma certa relevância à “Quantumania” –relevância essa que, sejamos honestos, ficou faltando na maior parte dos filmes e séries da Fase 4 da Marvel –vem a ser seu antagonista, Kang, o Conquistador, interpretado com presença majestosa, sólida e fascinante por Jonathan Majors. E o roteiro (a cargo de Jeff Loveness) e a direção até que se empenham em sua apresentação: Um ser vindo das intermináveis realidades alternativas do Multiverso, Kang é mostrado inicialmente como alguém amigável, embora seja a sutileza percebida no temor incontido dos personagens coadjuvantes e de Janet que vá acrescentando pouco a pouco algum suspense em sua iminente aparição. A questão é que Kang deve ser o grande vilão a complicar a vida dos Vingadores no próximos filmes –como o foi Thanos (Josh Brolin) na saga anterior –e, para tanto, sua introdução aqui é realizada com cuidado, planejamento e perspicácia: Exilado no Reino Quântico (por quem, ainda não fica exatamente claro), Kang dispõe de tecnologia avançada e inigualável –com a qual foi capaz de conquistar todo aquele mundo paralelo –e só não partiu de lá com seus vastos e ameaçadores recursos porque um detalhe irrisório no núcleo de energia de sua nave o impede de fazê-lo. Detalhe este que os poderes miniaturizadores de Scott são capazes de resolver. A fim de convercer Scott a ajudá-lo, portanto, Kang aprisiona e ameaça a vida de Cassie, obrigando o Homem-Formiga a elaborar um arriscado plano para salvá-la e sair, com todo seu pessoal, do Reino Quântico.

Embora seja redundante afirmar, “Quantumania” entrega a mesma junção frenética, colorida e descontraída de ação vertiginosa, efeitos visuais vastos e comédia rasgada com a qual a Marvel Studios já acostumou seu público. O manejo bem azeitado de seus realizadores e algumas presenças genuinamente inspiradas de seu elenco (sobretudo, os sensacionais Paul Rudd e Jonathan Majors) o elevam num nível acima de produções recentes da Marvel como “Shang Chi e A Lenda dos Dez Anéis”, “Eternos” ou “Thor-Amor & Trovão”, mas ele padece de um tom demasiado infanto-juvenil que muito agrada ao diretor Peyton Reed (e somente a ele...) e seu desfecho pede por um pouco mais de contundência e menos do final feliz a la Disney como nos é tão desconfortavelmente imposto. No saldo final, felizmente, seu acertos acabam contando muito mais que seus erros.

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Gigantes de Aço


 Houve um tempo em que os filmes produzidos por Steven Spielberg eram tão agraciados quanto os filmes dirigidos por ele; quando ele entregava obras de puro divertimento como “De Volta Para O Futuro”, “Gremlins” ou “Enigma da Pirâmide”. Entretanto, o público de cinema, com o passar dos anos, se tornou manhoso e meticuloso, a ponto de ignorar certos dados de produção, e focar em coisas mais aparentemente relevantes.

No caso, “Gigantes de Aço”, lançado em 2011, era produzido por Steven Spielberg (ainda com o auxílio executivo de Robert Zemeckis), mas o detalhe que mais pareceu chamar a atenção do público –além dos ostensivos, mas pontuais e bem empregados efeitos visuais –era a presença do astro Hugh Jackman, numa das inúmeras tentativas (algumas bem-sucedidas, outras nem tanto) de sair do sombra do personagem que impulsionou sua carreira: O mutante Wolverine de “X-Men”.

Todavia, diante da informação de que “Gigantes de Aço” é, sim, produzido por Spielberg, uma série de escolhas criativas se tornam um bocado compreensíveis. Há, nele, uma visão empenhada, apaixonada e rica em textura de um futuro próximo –ou, ao menos, uma faceta bastante específica de um futuro próximo –além, de um essencial relacionamento pai e filho (uma obsessão na filmografia de Spielberg) que surge sublinhado em sua problemática para adquirir detentores elementos de afeto genuíno ao longo da trama. Até mesmo a relação entre o garotinho e o robô ganha, na medida do possível, ares semelhantes aos que o realizador deu ao seu “E.T. O Extraterrestre”.

Assim, Hugh Jackman é Charlie Kenton, um ex-pugilista cujo abandono da profissão o colocou numa rota em direção ao fracasso. No futuro do qual incumbe-se o filme, o boxe a tempos deixou de envolver humanos se digladiando para trazer robôs (!), os quais, segundo o próprio Charlie, podiam ser trucidados e lutar para além de seus limites, atendendo os anseios do público. De um promissor lutador, Charlie tornou-se um treinador de robôs, mas tudo o que fez, desde então, foi colecionar derrotas e acumular dívidas.

Durante uma audiência de custódia para decidir o destino de seu filho Max (Dakota Goyo), que mal conhece, Charlie só pensa em descolar uma grana com a ex-cunhada rica a fim de comprar um novo robô e continuar no jogo, mas, Charlie deve passar algum tempo com Max.

A partir daí, acompanhamos a relutante e implicante relação entre os dois, Charlie e Max, pai e filho, determinar a narrativa –e ela é, infelizmente, previsível até a medula, sorte que, pelo menos, a astúcia interpretativa de Hugh Jackman segura maravilhosamente bem a atenção.

Max –um moleque voluntarioso e opinativo que beira o irritante –revela-se interessado nas lutas que compõem o negócio do pai e acaba insistindo na carcaça de um robô que encontram num ferro-velho, ao qual dão o nome de ‘Atom’.

É necessário que o expectador aceite uma certa aura humanamente mágica conferida ao robô Atom a partir do momento em que ele entra em cena, caso contrário, é melhor abandonar o filme. Embora nunca fique explícito –mas, sempre fique subentendido –Atom parece ter sentimentos, uma certa característica que o faz mais que uma mera máquina autômata. Em suma, tem coração (!). Com isso, na qualidade de perdedor certo, ele surpreende seus adversários e a plateia ganhando luta após luta, caminhando a passos largos para enfrentar o grande e invicto campeão da modalidade, o monstruoso robô conhecido como Zeus.

Dirigido com eficiência, mas sem o menor traço de personalidade por Shaw Levy (diretor da Trilogia “Uma Noite No Museu”), “Gigantes de Aço” não esconde o fato de ser assumidamente uma obra de entretenimento moldada a partir de uma miríade de referências cinematográficas bastante nítidas, desde o campeão que se esconde dentro de um fracassado e que passa a surpreender a todos (como em “Seabiscuit-Alma de Herói”) até o mote manjado mas sempre envolvente do ‘Davi contra Golias’, do qual “Rocky-O Lutador” é o exemplo mais notório –e este filme remete, de cabo a rabo, ao máximo de elementos possíveis do sucesso de Sylvester Stallone.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Homem-Formiga e A Vespa


“Capitão América-Guerra Civil”, lançado em 2016, provocou desdobramentos tão contundentes no Universo Marvel Cinematográfico que praticamente todos os filmes que lhe sucederam –à exceção de “Guardiões da Galáxia Vol. 2” e “Thor-Ragnarok” –são, de uma forma ou de outra, seqüências de seus acontecimentos.
É isso o que acontece nesta segunda aventura do Homem-Formiga que, embora resgate aspectos da trama de origem do primeiro filme do herói, acaba tendo que levar em conta a importante participação dele em “Guerra Civil”.
Dois anos depois, encontramos Scott Lang (o ótimo Paul Rudd) em prisão domiciliar –com rastreador no tornozelo e tudo o mais –após ter feito um acordo quando lutou ao lado do Capitão América e acabou preso.
Ao longo desses dois anos, seus parceiros no primeiro filme, o cientista Hank Pym (Michael Douglas, esbaldando-se no personagem) e a filha Hope Van Dyne (Evangeline Lilly, fantástica), trabalharam exaustivamente em torno de uma descoberta acidental do próprio Scott: Durante sua luta contra Jaqueta Amarela –que o obrigou a arriscar-se e diminuir seu tamanho em nível subatômico –Scott teve um vislumbre do chamado Mundo Quântico; um local indeterminado ao qual se chega quando a miniaturização é tão extrema que a pessoa vai para em uma outra dimensão.
Supunha-se, portanto, que ninguém conseguia voltar do Mundo Quântico. E foi esse destino que teve Janet Van Dyne (Michelle Pfeiffer, pra variar, maravilhosa), mãe de Hope e esposa de Hank, quando, à muito tempo precisou miniaturizar-se em nível subatômico para salvar vidas: Essa notável seqüência, esboçada por alto no primeiro filme, é melhor detalhada já na abertura desta continuação.
Contudo, como Scott foi capaz de retornar de lá, as esperanças de Hope e Hank se reavivaram, e nos dois anos que se seguiram, eles estiveram projetando o Túnel Quântico que permitiria a eles adentrar tal lugar com uma nave, e de lá, com alguma sorte, trazer Janet viva.
Em algum momento, eles precisarão da ajuda de Scott –cujos dois anos de prisão domiciliar estão prestes a expirar desde que se comporte –e da experiência sem precedentes que ele teve no Mundo Quântico; isso sem falar de suas habilidades como Homem-Formiga, habilidades estas que, empregadas em conjunto ao lado de Hope (que assume, por sua vez, o codinome e o uniforme de Vespa), formam uma dupla espetacular.
Dirigido pelo mesmo Peyton Reed que desde o filme anterior deu um salto qualitativo em relação aos seus outros trabalhos, e roteirizado com excelência por Adam McKay –cujo talento foi reconhecido com o Oscar de Melhor Roteiro Original por “A Grande Aposta” –“Homem-Formiga e A Vespa” é mais do que uma mera seqüência do filme anterior (embora, claro, também o seja): A narrativa faz verdadeiros malabarismos para amarrar com eficácia e descontração aos pontas soltas de “Homem-Formiga” e “Capitão América-Guerra Civil” que vêem a determinar muitos dos rumos que este filme toma –e que ainda por cima, sabe-se, levará, de uma forma ou de outra, aos eventos de “Vingadores-Guerra Infinita”, cuja trama se passa cronologicamente depois deste filme, embora tenha sido lançado antes.
“Homem-Formiga e A Vespa” curiosamente, ao dar conta das narrativas de tantos personagens (são cerca de três núcleos bem distintos costurados habilmente pela presença em comum de Scott Lang em todos eles), e por conta disso encontrar uma de suas poucas fragilidades, é um filme de super-heróis praticamente desprovido de um vilão (!): Nem o personagem de Walton Coggins (um criminoso mais oportunista do que ameaçador), nem mesmo a perigosa Fantasma (interpretada por Hannah John-Kamen, de “Jogador Nº 1”) chegam a ocupar esse posto –uma vez que na trama e no modo como é mostrada, seu papel é mais de uma vítima do que de uma antagonista.
Na comparação com o arrebatador “Guerra Infinita”, “Homem-Formiga e A Vespa” se revela mais despretensioso e pueril –e, talvez, isso justifique certa impaciência da crítica para com ele –mas, em sua diversão plena (e na heroína formidável que finalmente entregam nas formas sensacionais de Evangeline Lilly) é mais uma bela realização da Marvel Studios.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Guerra Ao Terror

Para muitos, este foi o filme independente que tirou de “Avatar” a glória de conquistar o Oscar de Melhor Filme em 2009.
É curiosa a opção da Academia em premiar este pequeno e esmerado filme de guerra, de fato artisticamente superior à produção de James Cameron, mas que não representa, por assim dizer, o repertório técnico do futuro cinematográfico como aquele filme o fazia.
“Guerra Ao Terror” é um pequeno Davi que venceu um gigante Golias, todavia, esse fato, na maioria das vezes, tira-lhe a verdadeira razão para ser visto: O fato de que a diretora Kathryn Bigelow realizou com um misto envolvente de descontração e empolgação um dos melhores filmes de todos os tempos a retratar a tensão de um conflito.
Ao contrário do que muitos podem esperar, contudo, ela não realizou um filme de ação: E um olhar mais austero sobre a questão pode concluir que –diferente de guerras mais físicas como o do Vietnam ou da Segunda Guerra Mundial –a Guerra do Iraque não deixa margem para seqüências de batalha.
É assim que acompanhamos a rotina de três soldados norte-americanos cuja função é encontrar e desarmar bombas. Na brilhante e tensa cena inicial um deles (interpretado por Guy Pearce, uma das muitas pontas ilustres do filme) morre e é substituído por outro.
A questão é que, faltando trinta e oito dias para serem liberados para casa, os soldados Sanborn (Anthonie Mackie) e Eldridge (Brian Geraghty) recebem como substituto o beligerante e inconseqüente Sargento William James (Jeremy Renner, num papel divisor de águas em sua carreira).
Viciado na adrenalina do perigo, James não tem uma postura moderada e razoável como a de seu antecessor, o quê eleva a carga de tensão entre seus dois companheiros em níveis estratosféricos a medida que ocorrências perigosas de verdade vão se sucedendo. E a diretora Kathryn é particularmente eficiente ao conduzir uma narrativa onde todos os humores e sensações exasperantes convergem dos personagens para o expectador.
O título original de “Guerra Ao Terror” é “The Hurt Locker” cuja tradução mais aproximada seria algo como “o invólucro da dor”. Trata-se de um termo entre usado nas Forças Armadas que define o lugar metafórico em que se encontra o soldado cuja missão não foi capaz de cumprir: E tem-se, justamente aí, o grande segredo para melhor definir o filme; mais do que cenas de alta tensão, e momentos estarrecedores (e eles existem, brilhantemente costurados e detalhados pelo ótimo roteiro de Mark Boal), o trabalho de Bigelow sempre lembra de lançar seu olhar para os seres humanos no centro da questão.
A despeito de suas atitudes no início inexplicáveis, o sargento James, na atuação magnificamente controlada e ponderada de Renner, revela-se um personagem de insuspeita profundidade, por quem passamos a torcer e nos importar.

“Guerra Ao Terror” também possui o mérito de ir um passo além de “Soldado Anônimo” talvez, o único filme sobre a Guerra do Iraque tão bom quanto este daqui: Naquele filme, nos apegávamos aos personagens, mas o diretor Sam Mendes, ao fim do conflito, logo abandonava o público terminando o filme antes de sabermos como foi a volta dos soldados para casa. Já, aqui Kathryn Bigelow estende sua narrativa um pouco mais, dando o vislumbre necessário para descobrirmos como foi o regresso do sargento James ao lar. O suficiente para descobrirmos junto com ele que a guerra deixou-lhe uma série de impressões que passaram então a definir quem ele é, e à guiá-lo para a acachapante decisão que ele toma na cena final.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

O Hobbit

Após o sucesso sem precedentes de crítica e bilheteria da Trilogia “Senhor dos Anéis”, no início da década de 2000, era inevitável que a atenção de Hollywood em geral, e dos produtores na franquia em particular, se voltassem para as outras obras de J.R.R. Tolkien, sobretudo para “O Hobbit”, um prelúdio literário para “O Senhor dos Anéis” com um tom ligeiramente mais leve, mais próximo de um conto infantil.
O diretor vencedor do Oscar (justamente por “O Retorno do Rei”) Peter Jackson, logo depois de dois projetos um pouco pessoais (a refilmagem de “King Kong”, sobre a qual já foi falado, e a adaptação de “Um Olhar do Paraíso”), resolveu se dedicar à roteirização e à produção dessa nova obra, deixando a direção inicialmente à cargo de Guilhermo Del Toro.
Mas o quê começou como o projeto de um único filme, não só tornou-se dois (e depois três!), como também consumiu um tempo longo de gestação, provocando o afastamento de Del Toro, e levando assim, Peter Jackson a assumir novamente a direção.
O quê nos leva, assim, ao primeiro filme desta Trilogia “Hobbit”, “Uma Jornada Inesperada”.

Voltamos à Terra Média, desta vez, cerca de sessenta anos antes dos eventos narrados nos outros filmes (o quê não impediu os roteiristas de usar alguns recursos para garantir a participação de Elijah Wood –o Frodo –e de outros membros do elenco de “Senhor dos Anéis”, como veremos mais adiante).
Junto de seu querido sobrinho Frodo, o hobbit Bilbo Bolseiro (no início, interpretado pelo mesmo Ian Holm, mas na juventude, interpretado magnificamente por Martin Freeman, o Watson da série inglesa “Sherlock”) relembra um marcante episódio de sua juventude, quando fora recrutado pelo mago Gandalf (Ian McKellen) –que mais tarde se tornaria seu grande amigo –ao lado de uma comitiva de anões, para uma empreitada rumo ao reino-anão de Erebor usurpado pelo dragão Smaug.
Pelo caminho, eles encontram perigos e toda a sorte de seres mágicos habitantes da Terra Média, bem como personagens que serão fundamentais no desenrolar da aventura a ser vivida futuramente pelo próprio Frodo. Como prelúdio da inesquecível trilogia cinematográfica assinada inclusive pelo mesmo Peter Jackson, era inevitável que “O Hobbit” despertasse interesse no público, o quê se refletiu na boa bilheteria.
Contudo, as platéias que foram conferi-lo no cinema não deixaram de notar que, embora sensacional e cheio de momentos de encher os olhos, este filme não era uma experiência à altura de "Senhor dos Anéis".
A saída de Guilhermo Del Toro removeu justamente o elemento que poderia trazer todo o frescor diferencial para este projeto.

Na continuação, "A Desolação de Smaug", reencontramos o grupo já muito próximo do reino de Erebor.
Bilbo acompanhado de Gandalf, bem como do outrora rei, Torin Escudo de Carvalho (Richard Armitage) e toda sua comitiva de anões, chegam à Floresta das Trevas, reduto de um reino elfico protegido por um certo Legolas (Orlando Bloom, outra presença resgatada da trilogia anterior). Logo, essa jornada repleta de perigos os levará à esplendorosa Cidade do Lago e depois disso, ao reino-anão que um dia foi do pai de Torin, agora ocupado por uma fera cuja periculosidade o tornou uma lenda: o terrível dragão Smaug.
Jackson deu um ritmo mais dinâmico a este segundo filme, certamente numa reação às críticas não muito positivas dirigidas ao primeiro filme, considerado mais enrolado e disperso.
Todavia, o grande mal que acometeu essa nova trilogia –e que se torna particularmente explícito aqui –é de natureza prática: “O Senhor dos Anéis” era uma trilogia de livros convertida sabiamente numa trilogia de filmes. Já, “O Hobbit” era um único filme, com uma história até mais leve que o épico protagonizado por Frodo, a decisão de estendê-lo todo em uma nova trilogia –com cada capítulo ultrapassando, com margem, as duas horas de duração –exigiu que muito material adicional (e com freqüência, desnecessário) fosse feito, resultando numa produção que tenta desesperadamente replicar os valores admiráveis de produção da trilogia anterior, mas que parece ignorar o fato de que tudo o mais é “encheção de lingüiça”!

O último filme recebeu o pomposo (e estranhamente impróprio) título de “A Batalha dos Cinco Exércitos”.
O dragão Smaug escapa da fortaleza de Erebor (deixando suas riquezas para Torin e seus amigos), mas oferece uma ameaça sem precedentes aos moradores da Cidade do Lago. Depois, com o dragão morto e suas moradias destruídas, os habitantes irão recorrer ao restituído rei anão –auto intitulado “Rei Sob A Montanha” –para receberem algum abrigo.
Mas, Torin está com a febre do ouro e falta com sua palavra, o quê faz com que, às portas de Erebor se reúna um exército de homens e outro de elfos a fim de se opor ao contingente de anões, liderados por sua vez, por Dain Pé de Ferro.
Todos serão surpreendidos pelas forças de orcs que trairão e atacarão a todos.
O interesse do expectador é, portanto, bastante comprometido quando se chega neste terceiro e derradeiro filme, no qual o pecado cometido por Peter Jackson (o de estender seu prelúdio de “O Senhor dos Anéis” além do necessário) se torna mais visível: Personagens inteiros, concebidos exclusivamente para esta versão cinematográfica, como Tauriel (Evangeline Lilly) e sua intrigante relação com um dos anões, não encontram qualquer respaldo da narrativa quando chega a hora de juntar todas as pontas soltas, o quê termina por comprometer o protagonismo de Martin Freeman (que, como Bilbo, parece estar mais perdido que surdo em bingo!), e por conseqüência, o antagonismo do rei élfico Thranduil (Lee Pace) e até mesmo do dragão Smaug (voz de Benedict Cumberbath).

O fiasco está longe de ser completo, mas ficou claro que nem mesmo a própria equipe original era capaz de reproduzir a magia que pulsava de “O Senhor dos Anéis”. 

domingo, 26 de julho de 2015

Homem-Formiga

A Marvel se sai maravilhosamente bem naqueles filmes em que o público a subestima.
Explico: Em “Guardiões da Galáxia”, por exemplo, no qual muita gente torcia o nariz para um filme protagonizado por uma árvore que se mexia, ou por um guaximim falante, personagens nem um pouco conhecidos do grande público, eles foram lá e entregaram uma de suas melhores produções.Um sucesso esmagador de bilheteria, e de crítica, também.
Hoje, é até estranho lembrar que, antes de 2011, muita gente tinha o pé atrás em relação ao projeto de Os Vingadores.
"Tantos personagens?" "Como farão para que tudo funcione?" "Não vai ser confuso?"
O resultado, todo mundo sabe, foi um fenômeno de bilheteria, e também, um dos filmes de maior qualidade do estúdio.
Quando a Marvel lida dentro de sua zona de conforto, porém (leia-se, continuações de seus sucessos) a coisa normalmente soa um pouco preguiçosa (ainda que, até hoje, a Marvel jamais tenha entregue um filme realmente ruim): “Homem de Ferro 2” e 3, “Thor-O Mundo Sombrio”, e até mesmo o eficiente, ainda que não completamente satisfatório, “Vingadores-A Era de Ultron”.
Daí, temos este “Homem-Formiga”, que só vem reforçar essa teoria, uma vez que trata-se de um herói pouco conhecido fora do meio dos quadrinhos, mas que termina sendo um dos mais mais vibrantes e empolgantes trabalhos do estúdio.
Como em “Homem de Ferro”, a química do elenco funciona incrivelmente bem (escolhas como Paul Rudd, Evangeline Lilly e até Michael Douglas, revelam-se certeiras!), como em Vingadores, a dicotomia entre o ritmo da trama e das cenas de ação é prazeroso. E assim como em Guardiões da Galáxia, aqui, a Marvel encontra um equilíbrio entre o humor, a seriedade e a ação que torna a trama e os personagens, apaixonantes.
Seríssimo candidato a melhor do ano.