Mostrando postagens com marcador Robin Willians. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Robin Willians. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Tempo de Despertar


 “Foi disso que nos esquecemos. Das coisas mais simples.”

No início da década de 1990, as experiências médicas transpostas para a literatura do Dr. Oliver Sacks –que depois também renderiam o filme “À Primeira Vista” –inspiraram a realização de uma obra bela e humanista que, a despeito da ocasional falta de paciência de muitos expectadores para com melodramas, conseguiu, por sua qualidade e transparência, emocionar público e crítica. O próprio Dr. Sacks –que acompanhou de perto das filmagens –surge como um dos protagonistas, renomeado Dr. Malcolm Sayer. Um passo na evolução como cineasta da diretora Penny Marshall (realizadora do divertido “Quero Ser Grande”), “Tempo de Despertar” cumpre maravilhosamente bem seu papel –é equilibrado, escrito com minúcia e critério, interpretado com inconteste sensibilidade e dirigido com perspicácia do início ao fim –e ainda teve a audácia de, com isso, entregar cinema de qualidade. O resultado disso foi que ele tornou-se finalista ao Oscar de Melhor Filme na cerimônia de 1991 –o qual foi vencido por “Dança Com Lobos”.

O princípio de “Tempo de Despertar” mostra o jovem Leonard Lowe, ainda um pré-adolescente vivendo uma vida normal em meados da década de 1940, até que sintomas misteriosos como paralisia súbita nos membros o afastam do convívio com os amigos. Leonard tinha encefalite letárgica, mais conhecida como Doença do Sono.

O filme salta para 1969, quando o acanhado neurologista Dr. Sayer (Robin Williams, mais uma vez em um papel sério e emocionante, um ano depois do excelente “Sociedade dos Poetas Mortos”), prestando serviço no Hospital de Brainbridge, em Nova York, descobre um grupo de pacientes vitimados pela encefalite letárgica, entre eles, Leonard, agora com trinta anos (e interpretado por Robert De Niro). Acometido de um ímpeto para ajudar o próximo, o Dr. Sayer insiste em novas alternativas para encontrar a cura para os doentes –apesar da burocrática oposição da diretoria médica –e testa em Leonard um novo tipo de droga, a L-Dopa, outrora usada em casos de Mal de Parkinson.

Gradualmente, o remédio apresenta um efeito milagroso e Leonard desperta para o mundo após uma vida inteira vegetando numa cama de hospital, lapso durante o qual ele perdeu boa parte da infância e da juventude.

Com extremo lirismo e delicadeza, o filme de Marshall explora a relação médico/paciente enquanto contrapõe as curiosas distinções entre os personagens principais –Dr. Sayer é um homem tímido e introvertido, enquanto Leonard, na oportunidade de viver plenamente que redescobre, corre atrás do tempo perdido se apaixonando pela enfermeira Paula (a bela Penelope Ann Miller) –ao mesmo tempo que mostra, também, o despertar de novos pacientes da Doença do Sono, o que parece ser um verdadeiro milagre de conotações dramáticas.

Todavia, em algum momento, a obra de Marshall justifica as lágrimas copiosas que despertou nas plateias daqueles tempos e mostra, já em seu último terço, os efeitos do remédio desvanecendo e, com isso, o retorno implacável e insidioso da Doença do Sono sobre Leonard e os demais enfermos.

“Tempo de Despertar” é, pois, uma produção rara mesmo naqueles tempos de então: Despida de segundas intenções, emotiva e emocionante, carregada de valiosas lições de humanidade e sem o menor medo de ser piegas –e, com dois brilhantes intérpretes em estado de graça à sua frente, era também um filme o qual cinéfilos, fosse eles sisudos ou não, foram incapazes de fingir indiferença.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Amor Além da Vida


 Muitos achavam que o Oscar 1999 de Melhores Efeitos Visuais tinha dono: O explosivo, extravagante e nada sutil “Armageddon”, de Michael Bay, e suas cenas grandiloquentes de destruição.

Entretanto, numa postura que tem predominado nos últimos anos inclusive, os votantes da Academia preferiram entregar tal prêmio aos esforços de natureza mais intimista e artística da equipe responsável pelo pouco usual filme romântico dirigido pelo holandês Vincent Ward (de “Navigator-Uma Odisséia No Tempo”).

E, de fato, visualmente, “Amor Além da Vida” é um assombro; uma de suas poucas características que não passa do ponto na saturação do público.

O trabalho de Vincent Ward é um filme mais que simplesmente romântico: Ele é intoxicado de um romantismo que evoca um cinema de conotações abstratas e emocionais, difícil de encontrar um público específico já naquele final dos anos 1990 em que foi lançado, que o diga nos dias ainda mais cínicos de hoje! Se isso já seria o bastante para exasperar a experiência para o público, ele ainda conta com Robin Williams, um ator, é sempre bom lembrar, excelente, dramaticamente compenetrado com as tramas com as quais se engajava (vide, “Sociedade dos Poetas Mortos”, talvez, seu melhor trabalho), e festejado na construção de um humor anárquico e ao mesmo tempo inofensivo para as massas. Entretanto, Williams tinha lá seus poréns: Quando o roteiro não era absolutamente redondo e equilibrado, e quando o diretor não era perspicaz o suficiente para saber dosar sua predisposição aos excessos, Williams saía do controle, e o resultado era um histrionismo sem quantia (como em “Patch Adams-O Amor É Contagioso”) ou uma pieguice inacabável (como em “O Homem Bicentenário”). Em “Amor Além da Vida”, o diretor Ward não consegue lidar com o surgimento dessas duas facetas.

Williams é Chris Nielsen e, na parte inicial do filme, somos testemunhas de seu encontro com a artista plástica Annie Collins (Annabella Sciorra, de “O Vício”), com quem ele vem a se casar e viver uma história de amor. Contudo, tal e qual um certo nicho de obras românticas que estranhamente gostam de levar o romantismo a colidir com a finitude da fatalidade e dali extrair a possibilidade de um amor eterno (como “Ghost-Do Outro Lado Da Vida”, no início dos anos 1990 e “Além da Eternidade” em meados dos anos 1980), o filme confronta seu apaixonado casal central com a tragédia: Chris morre num acidente de carro e seu fantasma vai parar numa espécie de além-vida onde, ao invés de incorporar um conhecido cenário com anjos e demônios, somos inseridos, junto do protagonista dentro de uma pintura (!). Chris está, pois, dentro de um dos quadros pintados por Annie. E esse trecho que se segue responde exatamente pelos truques visuais verdadeiramente notáveis pelos quais o filme ficou famoso.

No entanto, se as imagens de “Amor Além da Vida” são brilhantes, o mesmo não se pode afirmar da história que elas entrelaçam. Tão logo é descoberto esse vínculo espiritual entre Chris e Annie, que o leva a habitar, enquanto fantasma, uma das obras de arte que ela concebe, algo ainda mais drástico os separa. Annie morre, ou melhor, suicida-se incapaz de viver tendo perdido seu grande amor.

Ao lado de outras entidades sobrenaturais, o irrequieto Albert (Cuba Gooding Jr.) e o sábio Perseguidor (Max von Sydow), cujas origens, surpreendentes mais tarde são reveladas, Chris vai empreender uma improvável jornada até o inferno –onde almas suicidas são despachadas, dentro do qual Annie se encontra aprisionada, destituída de sua memória. Assim como a representação pictória do Céu, também o retrato visual do Inferno, no filme de Vincent Ward, é primoroso em sua originalidade e caprichoso em seu acabamento: Uma extensão horizontal e espantosa salpicada de cabeças dos condenados a aflorar do chão.

Se as opções estéticas do diretor Ward fascinam por seu ineditismo e seu bom gosto, por outro lado, o roteiro meloso, redundante e raso de Richard Matheson e Ronald Bass, assim como o estrelato de Robin Williams, incontido em seus arroubos de dramaticidade, levam toda a obra a passar do ponto.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Querida América - Cartas do Vietnam

No objetivo que normalmente almeja um documentário, o filme realizado por Bill Couturie é certeiro: Não tarda a provocar no expectador sentimentos de indignação, de perplexidade conforme dele vai se inteirando seu assunto principal, a Guerra do Vietnam.
A fonte que Couturie utiliza é de um frescor e uma sinceridade inquestionáveis: São as cartas enviadas por soldados americanos que serviram no Vietnam endereçadas às suas famílias.
Um elenco numeroso e espetacular de astros de Hollywood (Tom Berenger, Wilen Dafoe, Martin Sheen, Robert De Niro, Robert Downey Jr., Kathleen Turner, Michael J. Fox, John Savage, Sean Penn, Robin Williams e outros) garante a devida emotividade aos relatos que determinam, sozinhos, a narrativa do filme.
A montagem intercala de maneira linear e responsável os noticiários da época (rádio e TV), com filmagens ocasionais dos próprios recrutas no front, fotos e, próximo do fim, até mesmo sequências de um filme vietnamita.
O que vemos indiretamente é a progressão da guerra através das impressões subjetivas das pessoas comuns que participaram dela. A euforia de alguns recrutas pelo oportunidade de representar sua nação e visitar, com tão pouca idade, um país exótico. O assombro e as tentativas de adequação com a chegada no campo de batalha. A rotina militar que, a medida que o conflito se intensifica, logo se torna massacrante. O miasma de emoções vividos pelos soldados que alternam responsabilidade, medo de morrer, compaixão para com os colegas e avassaladora saudade de casa. As notícias que dão conta da postura do governo americano, irredutível  na gestão de Lyndon Johnson, incerta no período de eleições (que incluiu o assassinato de Bobby Kennedy), e pessimista com a vitória de Richard Nixon; esse evidente despreparo com a guerra logo gera um sentimento crescente de indignação no povo americano –sentimento este que as cartas só veem a enfatizar dando conta, neste ponto do filme, do mais absoluto horror da guerra, e da certeza amarga de que aqueles jovens (os sobreviventes, ao menos) voltarão transfigurados e dilacerados física e espiritualmente pela experiência.
Ao expor os fatos sem nenhuma encenação ou maquiagem, Bill Couturie oferece ao público um retrato ainda mais brutal, devastador e, apesar de tudo, fascinante da guerra do que muitos de seus registros ficcionais.

sexta-feira, 15 de março de 2019

Aladdin

As condições não pareciam muito favoráveis para “Aladdin” quando ele foi lançado no cinema: Logo após a consagração absoluta de "A Bela e A Fera" junto ao Oscar (onde foi a primeira animação a concorrer ao prêmio de Melhor Filme) e, ainda por cima, dois anos antes do êxito gigantesco de "O Rei Leão", é um trabalho que gozava da excelência técnica que o estúdio possuía naquele período.
Todavia, “Aladdin” –um conto clássico que, se pararmos para pensar, até demorou para ganhar a atenção de um longa-metragem da Disney –superou as comparações revelando-se uma animação vibrante cheia de energia, carisma e inspiração.
Pobre e desacreditado ladrão das ruas da cidade árabe de Agrabah, o jovem Aladdin tem a chance de realizar seu desejo de impressionar a linda princesa Jasmine quando ela ensaia a travessura de fugir do palácio real e embrenhar-se nas ruas e vielas da cidade em meio à população.
Contudo, o sonho do pobre garoto sequer chega perto de se realizar e ele cai numa armação arquitetada pela vilanesco Jaffar, um conselheiro do Grande Sultão disfarçado de velho mendigo: Crendo em suas promessas, Aladdin acaba preso dentro de uma caverna no deserto, e lá dentro encontra uma lâmpada mágica da qual sai um gênio (dublado com a exuberância o habitual vigor irrequieto de Robin Williams) capaz de realizar três desejos daquele que portar a lâmpada.
Dessa forma, livre e sob a alcunha de "príncipe" –cortesia dos poderes transformadores do Gênio –Aladdin tentará reconquistar o coração de Jasmine, embora todos estejam sob a ameaça do perigoso Jaffar, que deseja o imenso poder da lâmpada para si.
São inúmeras as instâncias em que “Aladdin” se faz notável: Era incomum para a época uma animação cuja trama se estendida a ponto de atingir mais de noventa minutos de duração (o tempo de um longa-metragem adulto); e o tratamento conferido ao núcleo principal de personagens –e as distintas dinâmicas que eles estabelecem entre si –é sintomático da perícia insuspeita dos realizadores. É particularmente notável a importância atribuída à personagem de Jasmine, uma princesa que, em definição, teria tudo para constar entre as mocinhas mais superficiais e secundárias da galeria Disney: Criada para o filme, Jasmine nem mesmo pertence ao cânone do conto original tirado de “As Mil e Uma Noites”.
Ledo engano: Jasmine tem iniciativa, independência, pensamento crítico e um arco dramático tão bem estruturado quanto o do protagonista-título, o que faz dela uma presença essencial ao enredo.
Com personagens definidos com inesperada propriedade, bom humor à toda prova (cortesia dos improvisos insanos de Robin Williams) e uma animação frenética que aproveita maravilhosamente seu jogo exultante de cores, “Aladdin” conquistou bilheterias e reservou para si um lugar muito especial entre os clássicos atemporais dos Estúdios Disney.
Como é moda na atualidade, está em vias de ser lançada uma versão em live-action de “Aladdin” onde, entre outras coisas, o gênio de Robin Williams é incorporado por Will Smith.
É bom que eles façam seu dever de casa com zelo e competência, pois será um desafio inquestionável superar o primor, o encanto e a diversão deste longa animado.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Jumanji


O diretor Joe Johnston parece quase uma réplica de Steven Spielberg na forma como impõe um ritmo e estilo específicos no comando desta aventura para toda família (um estágio válido ele até tem já que antes de estrear como diretor, foi técnico de direção de arte de Spielberg em “Os Caçadores da Arca Perdida”, pelo qual, inclusive, levou o Oscar da categoria).
A presença de Robin Willians (repetindo em muitos aspectos o recorrente papel da criança num corpo de adulto) só vem a reforçar esta impressão.
Quando “Jumanji” começa, o prólogo nos introduz ao terror de montanha-russa que definirá o filme em uma cena onde garotos enterram, tomados de pavor, um caixa num terreno afastado.
Um século se passa e, na cidade de Bradford, o filme retoma sua trama –cuja primeira metade parece usar de ganchos narrativos como passagens de tempo para esticar a duração.
O protagonista Alan Parrish (vivido na primeira parte por Adam Hann-Byrd, de “Mentes Que Brilham” e “Tempestade de Gelo”) é um garotinho que encontra o tal jogo mágico em meio à uma escavação; a mesma caixa larga lá pelos jovens do começo.
Na aparência, “Jumanji” parece tratar-se de um daqueles jogos em que um lance de dados define o número de casas que cada jogador deve avançar. Entretanto, há algo de sinistro e sobrenatural que passa despercebido: Ele emite sons de tambores que somente as pessoas escolhidas para serem seus jogadores –em especial, crianças –são capazes de ouvir. Depois de iniciado, não há como interrompê-lo.
Ao iniciar distraidamente o jogo ao lado de uma amiga –Sarah vivida por Laura Bell Bundy na fase infantil e por Bonnie Hunt na fase adulta –Alan cai numa casa contendo uma armadilha, o jogo "Jumani" o leva assim a um mundo paralelo do qual só se liberta vinte e seis anos depois, já adulto (nas formas cômicas de Robin Williams), quando outras duas crianças, Peter e Judy (Bradley Pierce e uma novinha Kirsten Dunst) reiniciam o jogo novamente.
A cada jogada, perigos e acontecimentos dos mais insólitos se manifestam.
Para restaurar a ordem e encerrar todos os problemas acarretados pelo próprio jogo eles devem sobreviver e chegar a última casa.
Uma curiosa aventura de sessão da tarde que encontrou lá seus apreciadores nos anos 1990, “Jumanji” emprega funcionais observações à psicologia infantil –numa sacada que remonta o autor James Barrie, de “Peter Pan”, o caçador que persegue Alan ao longo do filme, e que representa o mais tangível vilão do filme, é interpretado por Jonathan Hyde que vive também o pai de Alan –enquanto se revela um veículo dos mais adequados em temática e tom para o estrelato de Robin Williams.
Não obstante a isso, seu maior apelo à época –os efeitos visuais empregados com ambiciosa abrangência –foram colhidos por uma enxurrada arrebatadora de inovações técnicas que dominaram essa área: A despeito do capricho, “Jumanji” já surgiu datado tendo sido lançado quase simultaneamente com os pra lá de inovadores “Twister” e “Independence Day”.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Surpresa Em Dobro


Tendo realizado em conjunto o relativamente bem sucedido “Motoqueiros Selvagens”, o diretor Walt Becker e o astro John Travolta tornaram a se juntar para mais uma comédia, desta vez com o acréscimo de Robin Williams –que ocasionalmente funciona muito bem no papel do homem ingênuo vítima dos estratagemas do amigo entusiasmado.
A verdade é que “Surpresa Em Dobro” era uma espécie de celebração da família Travolta: Além do próprio patriarca, estão no elenco sua esposa, a bela Kelly Preston (curiosamente num papel que quase nunca interage com ele), e sua filha Ella Blue Travolta.
Antes de seu lançamento nos cinemas, contudo, houve a tragédia do falecimento de um dos filhos do casal, Jett Travolta, o que nublou consideravelmente o desempenho do filme.
Mesmo que não tivesse ocorrido tal fatalidade, dificilmente o filme escaparia da indiferença de público e crítica: Longe da graça natural de “Motoqueiros Selvagens”, o filme tem um humor pedante, e a construção cômica de suas situações penam pela falta de ritmo e pela equivocada direção de atores.
Amigos desde a juventude, os executivos Dan (Robin Williams) e Charlie (Travolta, revelando-se até mais engraçado que Williams) sempre cultivaram atitudes diferentes: Se Dan é acanhado, tímido e muitas vezes passivo no que diz respeito, inclusive, às mulheres, Charlie faz o estilo playboy, com uma suíte impecável e artimanhas elaboradas o tempo todo para pegar mulheres –em meio às quais seu hesitante amigo já se habitou a levar a pior.
É uma dinâmica comum em diversas comédias já vistas no cinema (como esquecer a dupla Jack Lemmon e Walter Mathau?) e que, neste caso, também se estendeu para o âmbito profissional: Os dois estão, por sinal, prestes a fechar um negócio milionário com ricos investidores japoneses.
É quando uma inesperada (pra não dizer, absurda!) aventura do passado volta para mudar a vida de Dan: Há sete anos atrás, incentivado por Charlie, como sempre, Dan tentou curar as dores de um divórcio com uma noitada em Miami, onde conheceu Vicky (Kelly Preston).
Sete anos depois, a mesma Vicky reaparece com um casal de gêmeos (?!), frutos das estripulias daquela mesma noite.
De maneira até um tanto esquemática para a espontaneidade que se pretende, a confusão está assim armada: Antes comiserativamente sozinho e reclamão, Dan agora tem um casal de filhos para cuidar –Vicky, à propósito, terá de cumprir detenção de duas semanas na cadeia devido à uma infração banal (como é, também banal, a explicação para tal situação) –tudo isso no período em que os investidores japoneses visitarão os EUA. O quê exigirá hospitalidade e esforços redobrados de Dan e Charlie, além de seu sócio, Ralph (Seth Green, dono da cena mais hilária do filme).
Na condução e na construção de sua farsa –que passa por um condomínio de solteiros que não admitem crianças; uma colônia de escoteiros administrada por malucos (Matt Dillon, entre eles); e uma sucessão de eventualidades envolvendo os incautos japoneses –o filme comete uma série de equívocos que vão minando sistematicamente sua qualidade e provocando um esgotamento na paciência do expectador.

sexta-feira, 23 de março de 2018

O Pescador de Ilusões

A mente de Terry Gillian sempre foi fonte de inquietações muito singulares: Desde a época em que ainda colaborava com seus amigos do “Monty Python”, havia nele um pendor artístico que o distinguia –e tal fator continuou a se propagar em sua carreira já desligado do grupo.
Em “O Pescador de Ilusões”, Gillian conduz com sua verve estilosa e poderosa –e, por isso mesmo, de inconteste poder transfigurador da realidade –a história de Jack (Jeff Bridges, um inusitado oásis de seriedade em meio a um elenco definido pelo non-sense).
Outrora radialista de sucesso, Jack é um nova-iorquino afogado numa vida de alcoolismo e comiseração após um episódio pra lá de trágico: Ele julga-se culpado por incitar inconscientemente um psicopata, por meio de uma conversa em seu programa de rádio, a chacinar dezenas de pessoas em um bar.
Com a vida em ruínas –ainda que morando desleixadamente com a namorada (Mercedes Ruehl, ganhadora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 1992 e, como Bridges, um caso de seriedade à parte no elenco) cuja relação se ressente pelo detalhe óbvio dela ser sua companheira mais por conveniência do que por paixão –Jack conhece Perry, um mendigo morador do Central Park, com quem inicia uma titubeante e frenética amizade.
Perry (vivido por Robin Williams, cuja técnica exacerbada ainda era, na época, mais fascinante do que cansativa) não é um mendigo normal –e nem a interpretação de Williams permite que este adjetivo flutue sobre o personagem –é especializado em História e Mitologia Medieval, e ainda lidera um grupo composto por outros mendigos que formam uma insólita tropa de cruzados nas ruas nova-iorquinas (é assim que salvam Jack das agressões de uma gangue).
Mais tarde, Jack também vem a descobrir que Perry antes era um professor universitário, e seu desligamento da realidade se deu justamente naquela noite fatídica, em que teve a esposa assassinada e Jack a carreira destruída.
Amparado pela culpa, Jack primeiro resolve ser seu ‘cupido’ –tenta porque tenta fazê-lo encontrar-se com seu objeto do desejo (Amanda Plummer, de “Pulp Fiction”) que ele até então jamais atreveu-se a dirigir palavra –e depois, decide encontrar para Perry a relíquia que ele tanto almejava: O Santo Graal.
Um aproveitamento muito particular da parábola do Rei Pescador (um conto da mitologia medieval mencionado por Perry várias vezes ao longo do filme), “O Pescador de Ilusões” é uma demonstração da parte de Terry Gillian de sua intransigência artística e sua bravura cinematográfica –o roteiro pairou por anos em todos os cantos de Hollywood até que um estúdio o financiasse –e para tanto, é até inevitável que suas referências mitológicas e religiosas possam escapar aos espectadores comuns.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Os Vencedores do Oscar 1998

A cerimônia realizada em 1998 foi a grande noite de James Cameron. E não tinha mesmo como a Academia ignorar o fenômeno que foi “Titanic”, na época a produção mais cara até então do cinema, assim como também sua maior bilheteria. Suntuoso, bonito, estupendamente bem realizado e cercado por estatísticas sem precedentes, era de se esperar que o Oscar se curvasse a tamanho triunfo.
E ele o fez desde o começo: Primeiro igualando “Titanic” ao recordista isolado em número de indicações –foram 14, até então apenas ”A Malvada” detinha tal honraria.
Na premiação em si, o épico romântico de Cameron encerrou a noite igualando, por sua vez, o recorde de 11 estatuetas que “Ben-Hur” mantinha há quarenta anos.
O restante dos filmes –um tanto ofuscados por esse fenômeno –eram produções de extrema qualidade que representavam, cada um ao seu modo, as distintas facetas das produções dos estúdios de Hollywood: o film noir com “Los Angeles-Cidade Proibida”; a comédia romântica com “Melhor ÉImpossível”; e o cinema independente com “Gênio Indomável”.
Ao gracioso “Ou Tudo Ou Nada” restava a responsabilidade de representar o cinema inglês entre os indicados.
Ah, e o cinema brasileiro mais uma vez perdeu a chance de ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com “O Quê É Isso,Companheiro?”...

MELHOR FILME
"Titanic"

MELHOR DIREÇÃO
"Titanic", James Cameron

MELHOR ATRIZ
Helen Hunt, "Melhor É Impossível"

MELHOR ATOR
Jack Nicholson, "Melhor É Impossível"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Kim Basinger, "Los Angeles-Cidade Proibida"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Robin Williams, "Gênio Indomável"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Titanic"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"The Long Way Home"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"A Story of Healing"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Caráter" (Holanda)

MELHORES EFEITOS SONOROS
"Titanic"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Titanic"          

MELHOR MAQUIAGEM
"Homens de Preto"

MELHOR FIGURINO
"Titanic"

MELHOR SOM
"Titanic"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Titanic"

MELHOR TRILHA SONORA - DRAMA
“Titanic"

MELHOR TRILHA SONORA – MUSICAL OU COMÉDIA
"Ou Tudo Ou Nada"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"My Heart Will Go On", de "Titanic"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Gênio Indomável"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Los Angeles-Cidade Proibida"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

MELHOR MONTAGEM
"Titanic"

MELHOR CURTA-METRAGEM

"Visas and Virtue”

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Gênio Indomável

Após uma primeira fase em sua carreira na qual revelou-se um dos meninos prodígios do cinema independente norte-americano, o diretor Gus Van Sant enveredou por um cinema mais comercial –ainda que este “Good Will Hunting” ainda seja, por definição um filme independente –e foi devidamente abraçado por Hollywood, como era de se esperar.
Em seu formato e estrutura, “Gênio Indomável” segue uma cartilha irresistível à Academia de Artes Cinematográficas (e, com efeito, ela acabou premiando-o com dois Oscars): É tocante e bem realizado, cheio de boas escolhas e boas intenções, e seu retrato do subúrbio e da marginalidade jamais se torna ofensivo.
O roteiro do filme –um de seus maiores trunfos, premiado com o Oscar de Melhor Roteiro Original –foi escrito pelos próprios atores, os ainda jovens e iniciantes amigos Matt Damon e Ben Affleck que, indignados pela escassez de bom material com o qual pudessem mostrar seus talentos, resolveram eles mesmos escrever um filme para atuar.
Matt Damon ficou assim com o papel principal, o do jovem Will Hunting, dono de uma mente prodigiosa em cálculos matemáticos, porém um delinqüente problemático de temperamento instável que mal consegue manter um emprego. Ben Affleck, por sua vez, ficou com o papel de melhor amigo de Will, um dos vários companheiros de infância, com os quais ele ainda sai, bebe e arruma confusões. Will não seria diferente de nenhum deles. Mas, Will é um gênio. E essa genialidade não passa despercebida a um professor de universidade (Stelan Skarsgaard) que o apadrinha e resolve colocá-lo nos trilhos para que possa seguir uma carreira e tornar-se alguém. Para domar alguém como Will, é chamado um psiquiatra de métodos pouco convencionais (Robin Williams, no papel que lhe deu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), tão desajustado quanto o próprio Will Hunting.
Não há qualquer proposta de inovação formal ou temática em “Gênio Indomável” –nem tampouco técnica –há, em vez disso, uma clara intenção e capacidade para realizar um filme bem feito, profundo e articulado na história e nos personagens que se deixa observar e interpretado com excelência por um elenco à época cheio de caras novas e promissoras (além de Damon e Affleck, havia também o irmão mais novo deste, Casey Affleck e a jovem Minnie Driver, como a mulher que Will ama).
E isso certamente já basta para estar acima da média.

domingo, 31 de julho de 2016

Desconstruindo Harry

   Harry Block é Woody Allen em todos os seus desvios morais. E o filme sensacional que ele protagoniza é um amalgama de todos os singulares percalços da carreira e da filmografia do próprio Allen.
    Ele é um escritor sempre às turras com as pessoas à sua volta –usadas como inspiração para seus contos, mas sempre retratadas com rancor e afetação ofensivos! Mas acontece que Harry está sendo homenageado. Sua frustração vem, justamente, do fato de que não possui ninguém que possa levar consigo à essa homenagem: Da ex-mulher (que não deseja que seu filho vá com ele), passando por ex-namoradas e até os amigos ausentes, Harry percebe, num hilário compêndio de sua vida, que sua acidez e falta de tato corrompeu todas as suas relações.
   Ao assistir “Desconstruindo Harry” vemos que lá estão as experiências pessoais de vida dando corpo aos anseios de sua criação; os alter-egos personificados por atores, ora mais jovens, ora com traços distintos conforme a situação (e a coleção de astros e estrelas deste filme em particular, é um espetáculo à parte); as diversas complicações envolvendo as mulheres de sua vida; até mesmo as inseguranças narrativas por ele experimentadas (numa cena, em especial, é referida a passagem na qual Woody Allen filma a mesma história –em “Setembro” –com dois elencos diferentes até se sentir satisfeito com o resultado).

  Harry é assim um apanhado de tudo o quê Allen tem consciência de ser o lado mais difícil e corrosivo de sua personalidade, seja no que diz respeito a si mesmo, e à maneira como lida com suas neuroses, seja em relação aos colaboradores à sua volta, rendendo ironicamente o seu melhor filme dos últimos vinte anos (com a exceção do também ótimo, e muito mais recente “Meia Noite Em Paris”)!

domingo, 5 de junho de 2016

Sociedade dos Poetas Mortos

O ótimo e emocionante trabalho do diretor Peter Weir não deixou que o ingênuo público dos anos 1980, que prestigiou (e muito) o filme nos cinemas, percebesse um insuspeito caráter de transgressão disfarçado da mais pura e genuína ode à vida e à liberdade que impregnava esta maravilha da sétima arte.
Avesso à emoções fortes e apelos melodramáticos convencionais (como provam seus equilibrados, austeros e também magistrais “A Testemunha”, de 1985, “O Show de Truman” de 1999, e “Mestre dos Mares”, de 2003), o talentoso diretor australiano entrou numa fase mais emotiva no final daquela década, chegando a realizar até mesmo uma comédia romântica! Mas, uma comédia romântica que era, também ela, uma esmerada obra de cinema, com um roteiro inquestionável e um trabalho narrativo superior à muito drama vencedor de Oscar (e quando se tem Gerard Depardieu no elenco, o filme se torna, no mínimo, livre de críticas quanto às atuações): Tratava-se de “Green Card-Passaporte Para O Amor”, sobre o qual, inclusive já falei aqui.
O curioso é que, aparentemente, Peter Weir vinha planejando a algum tempo essa fase mais leve e agridoce: O roteiro de “Green Card” vinha sendo trabalho a alguns anos, e Weir tinha inclusive escrito especialmente para Depardieu.
Na qualidade de grande astro da França naquele período, o francês estava atarefado (no caso, filmando “Cyrano de Bergerác” que, em 1990, lhe deu uma indicação ao Oscar), e para conseguí-lo, Weir teria de adiar o início das filmagens.
Eis que ele contornou a ansiedade da espera preenchendo o tempo enquanto fazia um outro filme: “Sociedade dos Poetas Mortos”.
É curioso notar, portanto, que não passava pela cabeça de Weir o filme brilhante que ele estava fazendo. Desnecessário dizer que “Green Card”, ainda que ótimo, não teve metade da repercussão que o sensacional filme estrelado por Robin Willians obteve.
“Sociedade...” recebeu inúmeras indicações ao Oscar, inclusive de Melhor Diretor, para Weir, mas ganhou mesmo o de Melhor Roteiro Original, vem laureado uma de suas maiores forças: O script certeiro, enxuto, ponderado e essencial de Tom Schulman.
São meados da década de 1950, e a prestigiada escola norte-americana para meninos de Welton recebe um novo professor de poesia, John Keating (um inspirado Robin Willians), cuja desigual postura em sala de aula –ele inspira os alunos à um pensamento livre e questionador, abrindo mão de manuais e regras –encanta muitos dos alunos na mesma medida em que desperta a intolerância da direção da escola.
Surge então a dita Sociedade dos Poetas Mortos, um grupo composto de alunos que reúnem-se numa caverna para recitar poemas. Os jovens que formam esse grupo são inspirados assim a buscar seus sonhos, sejam eles materializados da forma que for.
Desde a feliz descoberta de um elenco homogêneo e competente de jovens atores até a sacada fantástica de colocar Robin Willians num papel dramático, tudo funciona a favor do filme. As cenas costuradas à medida que a narrativa avança são brilhantes e memoráveis em sua unidade: Os poemas na caverna; as sucessivas aulas de poesia onde Willians enche a boca com os monólogos extraordinários de seu personagem; a cena em que os jovens declamam uma frase e chutam bola; a tensa apresentação de teatro.
Nada, contudo, supera a emoção dos dez minutos finais, um momento que, ao som da sempre eficiente trilha sonora de Maurice Jarre, ouso dizer, está entre os mais tocantes do cinema.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Hamlet

“Ser ou não ser... eis a questão.” O protagonista existencialista de “Hamlet” questionava até mesmo o ato de existir. Não era a toa que sua vida dava espaço para o desiludido questionamento: Seu pai faleceu, e em apenas um mês, seu tio terminou desposando sua mãe, o que levou Hamlet a ser visitado pelo fantasma de seu pai, que lhe convocava para representá-lo em sua vingança.
Assim se constrói uma das peças de Shakespeare mais famosas de todos os tempos, traduzida e preservada na integridade de suas quase intransponíveis quatro horas de duração pelo ator e diretor Kenneth Brannagh. Como é um ator, Brannagh enfatiza seu elenco monumental através da narrativa, fornecendo a eles planos longos, à vezes intermináveis, onde podem declamar o bardo na íntegra, e também dá prioridade ao texto, o que termina evidenciando sua verborragia.
É um trabalho perigosamente disperso, no qual o expectador desavisado corre o risco de ser esmagado por uma narrativa de teor, tamanho e envergadura tão exuberantes, raramente vista no atual circuito comercial.

  Fiel à sua formação de origem (o teatro), Brannagh realizou um grande filme, ainda que bastante difícil e denso, honrando seu elenco majestoso (e composto por inúmeros colaboradores) e a verve do autor, cuja genialidade ele dedicou boa parte de sua filmografia a ressaltar: William Shakespeare.