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sábado, 21 de junho de 2025

Missão Impossível - Acerto Final


 Este oitavo longa-metragem da franquia cinematográfica estrelada e produzida por Tom Cruise foi alardeado como o último da série e, de fato, um elemento que se sobressai constantemente na narrativa é o senso de urgência e de encerramento que o diretor Christopher McQuarrie habilmente imprime, a todo o momento –ele faz questão de lembrar ao público que as aventuras de Ethan Hunt (o protagonista vivido por Cruise à cerca de três décadas) estão chegando ao seu fim. Com efeito, “Acerto Final” é também uma recapitulação e uma reafirmação de todo o legado deixado por essa série. Na trama sempre intrincada, concebida aqui pelo diretor McQuarrie em parceria com Erik Jendresen, encontramos referências à praticamente todos os filmes anteriores: O hoje clássico “Missão Impossível” original é lembrado na constante menção à memorável cena em que Ethan Hunt invade um escritório ultra-confidencial da CIA pendurado em cabos (inclusive, um personagem importante dessa sequência é recuperado aqui), e até mesmo no reaproveitamento de Jim Phelps (vivido por Jon Voight) relembrado por meio de uma profunda ligação com outro personagem. O misterioso elemento Pé-de-Coelho, jamais devidamente explicado em “Missão Impossível 3” ganha finalmente uma razão de ser. Tudo isso e mais diversas citações, alusões e recordações de personagens mais ou menos importantes que participaram de todos os filmes.

“Acerto Final” começa, como se esperava, pegando o gancho do filme anterior, “Acerto de Contas”, no qual Ethan Hunt e sua equipe precisavam encontrar uma Chave parte de um aparato que pode neutralizar o perigo representado por uma poderosa inteligência artificial, A Entidade. Agora, a situação se acirrou ainda mais: Valendo-se de um controle tentacular e insidioso a nível mundial, a Entidade criou conflitos ao redor de todo o mundo, mergulhando a civilização em caos. Para piorar, seu sistema começou um processo gradual onde está assumindo o controle de todo o armamento nuclear das potências militares espalhadas pelo mundo. A previsão é que a Entidade consiga acessar todas as ogivas atômicas em quatro dias –e quando o fizer, ela fará com que os países ataquem uns aos outros, provocando consequentemente a extinção da raça humana.

Enquanto esse impasse só se agrava, Ethan Hunt se encontra foragido: Tendo obtido a Chave à duras penas no filme anterior, Ethan precisou sacrificar colegas (como Ilsa, vivida por Rebecca Fergunson) e se voltar contra seus superiores da Impossible Mission Force (personafinicados no personagem de Henry Czerny, também ele oriundo do primeiro “Missão Impossível”). E agora recebe um pedido diretamente da presidente dos EUA, Erika Sloane (Angela Basset, sempre magnânima), outrora a diretora da CIA em “Efeito Fallout”

A missão de Ethan, como sempre, acaba sendo espinhosa: Ele tem o prazo desses quatro dias para convencer oficiais da marinha americana à levá-lo até os recôncavos mais longínquos da calota polar no Ártico, onde um submarino americano encalhou anos atrás (isso foi visto no prólogo de “Acerto de Contas”), lá a Entidade tratou de selar um dispositivo capaz de eliminá-la. Sem garantia nenhuma de que tal empreitada lhe oferece a chance de voltar com vida (e o roteiro astuto de McQuarrie não se cansa também de plantar sucessivos empecilhos para seu sucesso), Ethan ainda precisará rastrear seu nêmesis pessoal, Gabriel (Esai Morales) de posse de outro dispositivo que, combinado com o McGuffin obtido no submarino naufragado será capaz de pôr fim ao perigo da Entidade –no entanto, Gabriel deseja tirar de Ethan esse dispositivo a fim tentar, em vão, controlar a própria Entidade.

Para tentar concluir esse objetivo, Ethan conta com um grupo forjado meio ao acaso que inclui seu amigo Benji (Simon Pegg), a assassina francesa Paris (Pom Klementieff, de “Guardiões da Galáxia Vol. 3”), o agente Degas (Greg Tarzan Davis), e a habilidosa prestidigitadora Grace (Hayley Atwell, de “Capitão América-O Primeiro Vingador”).

Em sua quarta direção dentro da série “Missão Impossível” –que a partir de “Nação Secreta” ele praticamente ajudou a consolidar como a brilhante cinessérie que é –Christopher McQuarrie realiza um trabalho formidável dentro de um contexto que, à essas alturas, ele conhece como a palma da mão: Essa compreensão instintiva da narrativa, dos meandros da trama e dos maneirismos dos personagens resulta numa obra grandiosa, bem acabada, feita com profissionalismo e, vez ou outra, capaz até de emocionar.

domingo, 9 de julho de 2023

Missão Impossível - Acerto de Contas Parte 1


 Há quase três décadas atrás (vinte e sete anos, para ser mais exato), o astro Tom Cruise debutou como produtor tentando transpor um conceito de série de TV para o cinema. Hoje, sete longa-metragens depois, podemos dimensionar os frutos rendidos por sua tenacidade. Ainda que hajam exemplares oscilantes em qualidade (tal qual o segundo filme), e que, deveras, os acertos mais expressivos tenham demorado a chegar (sendo “Protocolo Fantasma” o momento em que isso finalmente aconteceu), a franquia entrou nos eixos de fato com a adição do diretor e roteirista Christopher McQuarrie ao projeto (em “Nação Secreta”). Até então um realizador subestimado (a despeito do Oscar de Melhor Roteiro Original por “Os Suspeitos”) e relegado pelos estúdios à ingrata tarefa de polir roteiros produzidos por terceiros, McQuarrie caiu nas graças de Tom Cruise quando se conheceram no set de “Operação Valquíria”, mais tarde trabalhando juntos no ótimo “Jack Reacher-O Último Tiro”. McQuarrie passou a integrar o, digamos, time de confiança de Tom Cruise, e a trabalhar com ele em praticamente todos os seus projetos –é dele, por exemplo, o excelente roteiro para “Top Gun-Maverick” –e tornou-se oficialmente o capitão da franquia “Missão Impossível”. Seu talento e habilidade moldaram em “Nação Secreta” uma obra pulsante sobre as verdades e mentiras do mundo da espionagem e, no longa-metragem seguinte, “Efeito Fallout”, um tratado de cinema tanto dramático quanto cinético sobre as consequências de não se tolerar o sacrifício de um amigo em ação. Hoje, é seguro afirmar, toda uma nova geração de expectadores cresceu testemunhando a exuberância de “Missão Impossível” como uma franquia inquestionavelmente cinematográfica –e certamente, muitos nem sabem que tudo começou com um seriado até bem modesto dos anos 1960.

Agora, contudo, chegou a hora de Tom Cruise e Christopher McQuarrie darem sua cartada final. Prepararem o palco para uma despedida em grande estilo, conscientes talvez de que não é possível contar aventuras de Ethan Hunt (personagem de Cruise) para sempre –o astro, é bom lembrar, já está com 61 anos.

A trama concebida por McQuarrie (sempre um entusiasta apaixonado e hábil de enredos intrincados, perfeitos ao gênero de espionagem) para tal despedida é rocambolesca, povoada de personagens dotados das mais variadas motivações (e algumas ainda mudam ao sabor das circunstâncias!), cheias de surpresas de última hora, guinadas improváveis e/ou inesperadas e um esperto componente de paranóia bastante característica desses novos tempos: Em meio a discussões sobre um advento inesperadamente incontrolado da tecnologia de ponta, o grande vilão de “Acerto de Contas Parte 1” é uma Inteligência Artificial.

Criado inicialmente como um formidável algoritmo para manejo de informações nas redes sociais pelos centros mundiais de inteligência, o programa denominado ‘A Entidade’ se aperfeiçoou de tal forma em meio às vastas possibilidades da internet que acabou criando autonomia própria e tornou-se perigoso demais. Na surdina, as grandes potências mundiais (entre as quais, é claro, os EUA) querem mobilizar agentes para encontrar assim as duas partes do que seria um mecanismo conhecido como ‘A Chave’ capaz de desligar a ‘Entidade’ ou (como eles preferem) controlá-la. O agente de campo mais próximo de concluir tal façanha aparentemente é Ethan Hunt, membro da IMF (Impossible Mission Force), cujo senso moral e considerável independência operativa ordena que a ‘Entidade’ seja destruída imediatamente.

E é nesse ponto –ainda nos primeiros quinze minutos dos sensacionais cento e sessenta e três minutos de filme –que a obra de McQuarrie engata uma nova marcha e complica consideravelmente a vida de nossos heróis: Cegos para o perigo da ‘Entidade’ e unicamente interessados no poder abrangente de controle sem precedentes de dados digitais que ela oferece, o Diretor de Inteligência Americana (Cary Elwes, de “Tempo de Glória”) e o diretor adjunto da própria IMF (Henry Czerny) renegam Hunt e seu grupo –formado pelos agentes de campo Luther (Ving Rhames) e Benji (Simon Pegg), além do constante auxílio da agente britânica Ilsa (a sempre maravilhosa Rebecca Fergunson) –e despacha um novo grupo na sua cola, comandados pelo nada amistoso e muito truculento Jasper (Shea Whigham, de “O Lado Bom da Vida” e “O Abrigo”).

Entretanto, aqueles que de fato dificultam a situação de Hunt são a jovem prestidigitadora Grace (a linda e fulgurante Hayley Atwell) imbuída do talento para deixar o Agente Hunt para trás, à serviço da tentacular e manipuladora Allana Mitsopolis (a fantástica Vanessa Kirby), e o misterioso e perigoso Gabriel (Esai Morales, de “Rapa Nui-Uma Aventura No Paraíso”), agente sombrio e assassino, grande responsável pela tragédia que empurrou em definitivo Ethan Hunt na vida de agente secreto.

Tantos personagens a ir e vir, e a enganar uns aos outros (muitas vezes numa profusão vertiginosa que deliberadamente engana o próprio público) poderia representar uma verdadeira armadilha para um realizador mais despreparado, mas, McQuarrie usa a abusa do talento mais que comprovado que ele ostentou nos dois últimos longas da franquia e transforma “Acerto de Contas Parte 1” numa obra-prima do entretenimento hollywoodiano. Seu filme tem relevância, autenticidade, competência técnica e arrojo artístico em níveis que muitos críticos duvidavam ser capazes de serem atingidos por uma superprodução atual. Os quarenta minutos finais trazem uma sucessão de cenas de ação e suspense que farão qualquer expectador grudar na poltrona, e ainda compõem uma espirituosa referência ao clímax à bordo de um trem do primeiro “Missão Impossível” –é, no entanto, preciso alertar os mais ansiosos: Como já é sugerido em seu título, “Acerto de Contas Parte 1” deixa margem para a vindoura “Parte 2”, terminando com um instigante sabor de ‘quero mais’, tal e qual “Duna-Primeira Parte” e “Homem-Aranha Através do Aranhaverso”, só para citar os exemplos mais recentes.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Band Of Brothers

A experiência de realizar em conjunto o clássico “O Resgate do Soldado Ryan” havia sido tão marcante para Steven Spielberg e para o astro Tom Hanks que eles resolveram, em 2006, se aventurar por um projeto de espírito muito parecido, e escopo ainda mais ambicioso.
A minissérie “Band Of Brothers” levava para a tela da TV a mesma concepção visual e narrativa que tornava “Soldado Ryan” majestosamente cinematográfico, desta vez, contando a história muito real (e muito Impressionante) da Companhia Easy, o 506º Regimento da 101ª Divisão de paraquedistas dos EUA.
A história, oriunda do livro de Stephen E. Ambrose, detalha com minúcia espetacular o modo como as circunstâncias fizeram com que a 101 fosse uma das Divisões de desempenho definitivo na Segunda Guerra Mundial, em ocasiões assombrosamente estratégicas, inclusive sendo os primeiros a chegar ao famigerado Ninho da Águia, o Q.G. de Adolph Hitler.
Oscilando episódio a episódio em seu protagonismo –em virtude de possuir numerosos personagens –mas, ainda assim, mantendo o foco central quase sempre no destemido capitão Winters (a quem Damian Lewis confere uma interpretação à altura), a história tem início no epísodio “Currahee”, onde vemos, não a guerra, mas o treinamento submetido aos recrutas –durante o qual a tropa como um todo já demonstra sinais de que virá a ser um dos grupos de desempenho mais destacado do batalhão.
Somente a partir do segundo episódio, “O Dia dos Dias”, somos testemunhas da guerra de fato, numa reconstituição espetacular das operações aéreas do Dia D quando legiões de paraquedistas norte-americanos saltaram na França sob artilharia pesada.
Do ponto de vista do perplexo recruta Blithe (Marc Warren), vemos, no episódio “Caretan” a Companhia Easy se reagrupar e tentar repelir os invasores alemães da cidade francesa de Caretan, numa das mais fabulosas batalhas já filmadas na TV norte-americana.
É no episódio “Os Substitutos” que Winters é promovido de tenente para capitão quando toda a companhia retorna à Inglaterra para então ser encaminhada como apoio numa operação nos Países Baixos. Na Hollanda, uma ofensiva sofrida pela Easy leva o hábil soldado Denver ‘Bull’ Randleman (Michael Cudlitz) a perder-se de sua tropa durante uma tensa noite em meio à fazendeiros refugiados e soldados inimigos espreitando em cada canto.
Ainda pela região da Hollanda, em “Encruzilhadas”, a Companhia Easy frustra mais uma operação alemã, para então lançar-se a uma penosa incursão à Bélgica, no que o capitão Winters compreende ser um desafio de vida ou morte para seus soldados.
O primoroso episódio “Bastogne” chegou a ganhar o prêmio Writers Guild Award, em 2003, por seu roteiro. Nele, testemunhamos através dos olhos do médico Eugene ‘Doc’ Roe (Shane Taylor) o definhar gradativo, tétrico e desumano dos soldados da Easy, a medida que os dias gélidos se passam enquanto eles se veem entrincheirados nas redondezas da cidade belga de Bastogne, nos arredores da ocupada Vila Foy.
O episódio alterna o relacionamento hesitante, furtivo e efêmero de Roe com uma enfermeira belga nas bases aliadas e sua incapacidade em salvar a totalidade de seus companheiros de bombardeios implacáveis e devastadores perpetrados contra as trincheiras que deveriam manter.
Em “A Gota D’Água”, ao receber reforços dos aliados –alguns proporcionados pela tenacidade do General George Patton, como visto em acontecimentos paralelos mostrados em “Patton-Rebelde Ou Herói?” –a Companhia Easy enfim invade a Vila Foy, prosseguindo em seu árduo avanço rumo à Alemanha.
No que talvez seja o mais fraco dentre todos os episódios, “A Patrulha” –não pelo episódio em si, mas, provavelmente pelo nível elevadíssimo de qualidade de todos os demais –acompanhamos o soldado Webster (Eion Bailey) juntando-se à Easy na cidade de Haguenau e sofrendo uma ligeira discriminação de seus outrora companheiros: Um tiro na perna levou-o a um retiro de meses no hospital militar afastando-o de todos os trágicos acontecimentos vistos nos últimos dois episódios, o que leva seus companheiros a dispor-lhe o mesmo tratamento dado aos substitutos.
A saída? Provar seu valor, junto do destacamento do calejado soldado Malarkey (Scott Grimes), e invadir a área de Haguenau tomada por alemães, numa patrulha audaciosa (e para muitos suicida!).
Em “Por Isso Nós Lutamos”, finalmente estrelado pelo melhor amigo de Winters, o Capitão Nixon (Ron Livingston, de “Como Enlouquecer Seu Chefe”), testemunhamos o estarrecimento dos soldados americanos ao encontrarem, pela primeira vez, os terríveis campos de concentração nazista, assim como as legiões de vítimas lá confinadas.
Dessa forma, chegamos em “Pontos”, o último episódio, quando a Companhia Easy por fim chegada ao covil de Hitler, o Ninho da Águia.
A Segunda Guerra Mundial se aproxima de seu desfecho e os soldados, depois de seis longos anos lutando no conflito se preparam para voltar para casa encerrando assim uma das mais extraordinárias minisséries já realizadas.
O título “Band Of Brothers” tem uma refinada origem, William Shakespeare. Parte de uma frase presente do emocionante discurso final em “Henrique V”, quando o protagonista fala aos seus homens sujos, cansados e vitoriosos:
“Deste dia em diante, nós seremos lembrados! Nós, estes soldados entrincheirados! Nós, este bando de irmãos!”

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Missão Impossível - Efeito Fallout


Houve um tempo em que “Missão Impossível” era associado a uma conhecida série de TV. Esse tempo se acabou.
Desde 1999, o conceito da série –assim, como elementos que a tornavam clássica, como a icônica trilha sonora de Lalo Schifrin –migrou para o cinema e, se no início a sombra do programa televisivo oprimia um pouco do resultado, pelo menos os últimos quatro longa-metragens se desvencilharam completamente dessas amarras.
“Missão Impossível” é, agora e para toda uma nova geração de expectadores, cinema.
E essa convicção se ampara no protagonista Ethan Hunt –sintomaticamente um personagem feito especialmente para cinema –interpretado pelo produtor de cada um dos filmes, Tom Cruise.
Ele quem fez da série algo seu; tornou seu nome, hoje, indivisível do título “Missão Impossível” e transformou Ethan Hunt, filme a filme, num dos grandes agentes secretos do cinema ombreando James Bond e Jason Bourne.
Como ele o fez?
Conferindo qualidade indiscutível ao material.
O filme anterior, “Missão Impossível-NaçãoSecreta” já havia sido agraciado como o melhor da franquia até então graças ao roteiro meticuloso e à direção refinada de Christopher McQuarrie, e como produtor, Cruise garantiu que esse talento se mantivesse neste novo “Efeito Fallout” –a primeira vez, portanto, em que um diretor assume dois filmes na franquia.
Tudo começa com a habitual incumbência de uma missão “Sua missão, caso aceite, será...”, culminando no clássico “esta mensagem se auto-destruirá em cinco segundos”.
Basicamente, Hunt deve adquirir três cargas de urânio antes que um grupo terrorista denominado “Os Apóstolos” o façam. Durante a negociação, porém, seus inimigos se revelam mais ladinos que o esperado e Hunt, ao optar por salvar a vida do amigo Luther (Ving Rhames) coloca o sucesso da missão em risco, o tal do “efeito fallout”.
Quando o filme se inicia de fato, Hunt tem a própria CIA em seu pescoço, acompanhando cada passo que sua equipe dá a fim de remediar o ocorrido –e o representante da CIA para tal tarefa vem a ser o beligerante e nada sutil August Walker (Henry Cavill, o único membro falho do elenco), um assassino nato com toda propensão para deixar os colegas de lado que Hunt não tem. Eles devem estabelecer um contato com a vendedora de armas conhecida como Viúva Branca (Vanessa Kirby, um charme só), ao mesmo tempo em que simulam a identidade do negociador que pode estar por trás de tudo, o misterioso agente duplo John Lark –cuja identidade é a única reviravolta fácil de prever do filme.
Todas as complicações levam à libertação do perigoso e psicótico Solomon Lane (Sean Harris, o notável vilão derrotado e capturado em “Nação Secreta”), e com isso, entra em cena mais uma vez a maravilhosa Agente Ilsa (Rebecca Ferguson, tão sensacional e surpreendente quanto no filme anterior), cujo MI-6 (o Serviço Secreto Inglês), para quem trabalha, lhe cobra uma prova de lealdade matando Lane –o quê a coloca, desta vez, em rota de colisão com Hunt e sua equipe.
Avançando por caminhos sempre intrincados, este magistral filme de espionagem não nega o fato de seu realizador ter sido premiado pelo rocambolesco “Os Suspeitos”: McQuarrie tece uma trama brilhante e bem amarrada onde cada índole, cada decisão humana e tática, cada pormenor conduz a uma guinada em seus acontecimentos, enfileirando, como conseqüência disso, uma cena de ação atrás da outra; todas concebidas com um entusiasmo e um rigor que imediatamente eleva “Efeito Fallout” ao status de Melhor Filme de Ação do Ano: O salto arrepiante de um avião em grande altitude (proeza executada de fato pelo astro Tom Cruise); a luta brutal dentro de um banheiro público; uma perseguição pelas ruas de Paris; uma outra perseguição (desta vez, a pé) pelos telhados de Londres; e uma assombrosa seqüência final envolvendo helicópteros –em todas elas, fica evidente a entrega absurdamente audaz de Tom Cruise.
Assim, como cinema, “Missão Impossível” chega neste sexto e magnífico filme, também ele, ostentando suas próprias características das quais se faz indivisível (o personagem de Cruise, ação desenfreada, trama intrincada, ameaças mirabolantes, produção requintada, a trilha sonora inconfundível).
Em “Efeito Fallout”, o diretor e roteirista McQuarrie, contudo, se dá o luxo de inserir um novo elemento: O dilema moral que acomete mesmo o mais implacável dos agentes quando cada ínfima decisão que toma pode levar ao salvamento (ou à perda) de milhões de vidas.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Jogador Nº 1

Talvez só fosse possível mesmo que Steven Spielberg dirigisse este filme: Da forma como está, “Jogador Nº 1” é um caldeirão tão amplo e diversificado de referências à cultura pop (a exemplo do livro escrito por Ernest Cline que o inspirou) que somente alguém com a influência de Spielberg conseguiria uma aprovação para todos os personagens, itens e menções que proliferam em cena –este é um daqueles filmes que podemos ver quatro, cinco vezes, e em todas notar um elemento novo, uma outra informação visual.
Com toda sua atenção aos detalhes voltada para a cultura pop do final do século XX e início do século XIX, o “Jogador Nº 1” tem, contudo, sua trama ambientada num denso e detalhado futuro, o ano de 2045, quando a humanidade, cuja desigualdade entre ricos e pobres atingiu um extremo ainda mais superlativo que o dos dias de hoje, escolheu parar de importar-se com seus problemas e emergir coletivamente num mundo virtual chamado “Oásis” –uma espécie de “Matrix” à qual seus usuários se perdem de muito bom grado.
“Oásis”, porém, não é um mundo que replica a realidade do nosso, muito pelo contrário: É um lugar de cenários assombrosos e impossíveis (concebidos com singular noção de espetáculo pela direção de fotografia de Janusz Kaminski) no qual todos podem ser e ter aquilo que quiserem, criando avatares para si mesmos onde são fortes, hábeis e belos na medida proporcional de sua própria vontade, e onde conseguem obter utensílios tão preciosos e inacreditáveis como ter o DeLorean da Trilogia “De Volta Para OFuturo” como carro de corrida, a ‘granada santa’ de “Monty Python Em Busca do Cálice Sagrado”, a arma giratória do filme “Krull”, ou uma carcaça de robô idêntica ao do “Gigante de Ferro” –e estas são só algumas das referências intensas e simultâneas que se atropelam em cena!
Prova de que a caracterização futurista de Ernest Cline, e agora do diretor Spielberg obedece a uma natureza tão nostálgica quanto referencial é que sua trama guarda bem disfarçados elementos de “A Fantástica Fábrica de Chocolates”: Como naquele clássico, o grande e cultuado proprietário criador do “Oásis”, o lendário James Halliday (vivido por aquele que Spielberg elegeu seu mais recente ator-assinatura, Mark Rylance, vencedor do Oscar por “Ponte dos Espiões”) faleceu sem deixar herdeiros que cuidem (e usufruem) daquela que, sem sombras de dúvida, é a maior e mais lucrativa empresa do planeta Terra.
No entanto, Halliday tinha um plano: Antes de morrer, ele deixou um ‘easter egg’ escondido em algum lugar das imensidões incalculáveis do “Oásis”. Aquele que tiver a sorte de achá-lo, após uma enigmática trilha de pistas que se iniciam com uma chave, será dono de tudo. Entretanto, cinco anos depois, absolutamente ninguém chegou sequer perto de encontrar uma pista de onde tal tesouro está.
Isso até o jovem e inteligente Wade Watts (Tye Sheridan, de “X-Men Apocalypse” e “Como Sobreviver A Um Ataque Zumbi”), na forma de seu avatar, Parcival, descobrir um meio de obter a primeira chave (dentre três) graças à improvável dica encontrada por acaso num dos incontáveis vídeos digitais deixados por Halliday –com isso, ele ganha a primeira chave numa corrida que envolve a moto icônica de “Akira”, o veículo de “Christine-O Carro Assassino”, o batmóvel da série do “Batman” dos anos 1960 e tem, em sua perigosa fase final, o gorila gigantesco de “King Kong”.
Se antes Watts era só mais um jovem usuário do “Oásis” em meio à tantos, essa descoberta fez de seu avatar, uma verdadeira celebridade. Ele agora é o ‘Jogador N° 1’ –e tal privilégio agora faz dele inesperado alvo de Ártemis, o avatar de uma garota que há muito Watts queria conhecer (e que é interpretada pela gracinha Olívia Cooke, de “Eu, Você e A Garota Que Vai Morrer”), além de também colocá-lo no radar de Nolan Sorrento (Ben Mendelsohn, de “Rogue One”), atual chefe corporativo da tentacular “Ioi”, uma organização que não vai medir esforços (e nem escrúpulos) para ganhar tal torneio e se tornar proprietário de todo o “Oásis”.
Além de exercer sua técnica brilhante ostentada em praticamente todos os seus grandes filmes e visivelmente aprimorada ao longo de suas décadas de experiência, Spielberg tem a chance, em “Jogador N° 1”, de extravasar toda sua faceta de cinéfilo (normalmente, mais contida que a de Martin Scorsese, por exemplo), e nerd: Saltam na tela detalhes que remetem a jogos de videogames, músicas dos anos 1980, desenhos animados e filmes, muitos filmes: São visíveis, em inúmeros momentos, citações implícitas ou explícitas de “Indiana Jones”, “O Senhor das Feras”, “Alien-O 8º Passageiro”, “Superman-O Filme”, “As Aventuras de Buckaroo Banzai”, “Os Embalos de Sábado À Noite”, o assassino Jason de “Sexta-Feira 13”, o Freddy Krueger de “A Hora do Pesadelo”, o Chucky de “Brinquedo Assassino” e “Godzilla” –ou mais necessariamente o “Mecha-Godzilla”!
Nada, contudo, se compara à homenagem extraordinária que ele presta –em meio à uma seqüência inteira –ao seu grande amigo Stanley Kubrick e à “O Iluminado”, cujas cenas o filme recria com exatidão embasbacante; só faltou mesmo uma participação de Jack Nicholson!
Spielberg, após uma sucessão de trabalhos de orientação mais séria, criou a maior e mais eletrizante sucessão de referências já acumuladas no cinema, e que dificilmente será superada nos próximos anos.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Missão Impossível - Protocolo Fantasma

Tendo mostrado o caminho a ser seguido em “Missão Impossível 3” –e assumido a co-produção dos filmes posteriores –o diretor J.J. Abrahams deixou caminho livre para que a série pudesse crescer. E foi o que de fato ocorreu, aliás, num momento bem propício para Tom Cruise: A época do lançamento deste quarto filme da série coincidiu com um dos períodos de mais baixa popularidade de sua carreira devido à uma bizarra entrevista no programa de Oprah Winfrey e à sua ligação com a cientologia.
Sorte para ele que Brad Bird, um aclamado diretor de animação (dos espetaculares "Os Incríveis" e "Ratatouile") resolveu fazer, com este trabalho, sua estréia em filmes live-action e realizou um filmaço de ação e espionagem.
Após a explosão de uma bomba no Kremlin, a tensão entre os EUA e a Rússia chega às vias de uma iminente guerra nuclear, uma vez que esse atentado terrorista recai sobre a equipe da IMF (Impossible Mission Force) que estava no local.
Ao ser instaurado o "protocolo fantasma", toda a IMF é desativada inclusive a equipe renegada, cujo líder –o agente Ethan Hunt, quem mais? –deve agora inocentar seu time que inclui, além dele, a linda agente Carter (Paula Patton, de “Preciosa” e “Idlewild”), o analista-chefe Brandt (Jeremy Renner, de “Vingadores” e “Guerra Ao Terror”) e o agente de campo Benji (Simon Pegg), para juntos deterem uma conspiração que tem por finalidade a Terceira Guerra Mundial.
Se o filme anterior, de JJ. Abrahams, começava a colocar as coisas em ordem dando relevantes características humanas a Ethan Hunt, este novo filme o coloca como um grande personagem de ação, equivalendo-o às figuras icônicas do gênero como Jason Bourne e James Bond; e o astro Tom Cruise, que já não é nenhum garoto, não nega fogo nas espetaculares cenas de ação.
Foi durante a realização deste filme que o astro Tom Cruise começou uma parceria com o roteirista e diretor Christopher McQuarrie –aqui contratado para aperfeiçoar o roteiro, uma prática na qual ele é especialista –protagonizando um projeto seu, o ótimo “Jack Reacher-O Último Tiro” e depois chamando-o para dirigir “Missão Impossível-Nação Secreta”, até então o melhor filme da série.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Missão Impossível 3

O fecho da primeira trilogia –a partir deste, os filmes posteriores deixaram de apresentar numeração em seu título optando por derivações –com a qual Tom Cruise se aventurou a levar a famosa série televisiva aos cinemas é provavelmente a produção a partir da qual finalmente a estrutura e o tom narrativo foi enfim acertado: Superando as incompatibilidades autorais dos diretores como nos dois filmes anteriores e a pretensão de mesclar inteligência ostensiva e ação imposta num produto comercial, este filme se harmoniza com a fórmula que já estava lá nos episódios da antiga série de TV e com os valores de produção que fazem dele cinema de verdade.
Muito dessa fidelidade às características originais da série e a sua boa mistura de ação, trama de espionagem e suspense se deve pelo ótimo diretor J.J. Abrahams –cuja produtora Bad Robot, não por acaso, passou a co-produzir os filmes da série a partir daqui –que conferiu à narrativa uma empatia, uma urgência e uma percepção comercial de espetáculo que já existia em sua bem-sucedida série “Alias-Codinome Perigo”, também ela, uma série de espionagem –e por isso mesmo, um molde ideal para uma produção hollywoodiana não afundar no anacronismo inerente à sua fonte (a série de TV data dos anos 1960).
Faz-se perceber assim todo um processo de humanização do protagonista Ethan Hunt –algo deixado de lado até mesmo do segundo filme onde ele chega a se apaixonar (!) –quando vemos que, no início do filme ele está prestes a se casar com uma jovem médica (a bela Michelle Monagham) que sequer faz idéia do perigo de sua profissão –e já nisso há uma forte proximidade das características que norteavam a tensão do seriado “Alias”.
Naturalmente dadas as circunstâncias, Ethan Hunt (que finalmente começa aqui a tirar proveito do carisma de Tom Cruise) busca uma forma de se aposentar das suas peripécias no departamento das "missões impossíveis".
Pela primeira vez na série, portanto, o protagonista é confrontado com escolhas e dilemas emocionais –pela primeira vez (salvo uma menção muito breve quase prolixa feita no primeiro filme) descobrimos que ele tem entes queridos, um lugar para o qual voltar ao fim das missões.
É justamente isso que torna as atribulações surgidas neste filme mais intensas que as bem elaboradas (mas, no fundo pouco eficientes) enrascadas nos filmes anteriores: E o filme de Abrahams ainda por cima entrega um dos melhores vilões da série quando surge um perigoso e inescrupuloso milionário (Philip Seymour Hoffman, brilhante e ameaçador), que financia uma série de operações ilícitas e terroristas ao redor do mundo para obter um artefato tecnológico, misteriosamente conhecido apenas como "pé-de-coelho".
Outra contribuição do filme –ou melhor dizendo, outra recuperação de uma característica da série televisiva –foi a de tirar um pouco (mas, só um pouco) do peso dos ombros do protagonista Ethan e distribuí-lo em outros personagens que passaram a aparecer com freqüência nas continuações: Além do personagem de Ving Rhames (o único que acompanhava Ethan em todos os filmes), este filme introduz Benji (Simon Pegg, do festejado “Todo Mundo Quase Morto”) que não faltou em nenhum filme desde então, e a esporádica presença de Julia, a noiva de Ethan vivida por Michelle.

sábado, 10 de setembro de 2016

Star Trek - Sem Fronteiras

Quando resolveu assumir a direção de “Star Wars-O Despertar da Força”, J.J. Abrahams deixou uma lacuna incômoda para muitos fãs de outra franquia: Quem seria o diretor que conduziria, com a mesma excelência dele, a terceira parte da renovada “Star Trek”?
O escolhido foi Justin Lin, que revitalizou muito da franquia “Velozes e Furiosos” quando assumiu a série a partir da parte 4. Entretanto, era natural que um realizador oriundo de um produto tão diferente (e, para alguns, bem mais vulgar) despertasse desconfiança.
Os detratores antecipados queimaram a língua: Justin Lin (contando, é bem verdade, com o sensacional roteiro do ator Simon Pegg) fez o que é, até aqui, o melhor filme de toda a saga!
Ainda na metade da “missão de cinco anos” (iniciada ao fim do filme anterior), o Capitão James Kirk (Chris Pine, revelando-se perfeito no papel) e sua tripulação da nave U.S.S. Enterprise chegam aos limites conhecidos da Federação Interplanetária, na base espacial de Yorktown (um primor de cenário espacial concebido pelos mais arrojados efeitos visuais em colaboração com uma imaginativa direção de arte).
Para além dessa estação, uma missão arriscada os aguarda: Um resgate num planeta desconhecido onde as hordas do beligerante Krall (Idris Elba, uma bela adição aos vilões memoráveis da saga) prepararam uma cilada, e aguardam com um plano sinistro para destruir Yorktown e, em breve, toda a Federação.

Primoroso do ponto de vista do roteiro e da direção (Lin consegue obter alguns enquadramentos insanos que são um verdadeiro deleite para a apreciação nas telas de cinema), o filme ainda acrescenta uma nova personagem (a sensual alienígena Jaylah, interpretada por Sofia Boutella), tão plena de carisma e de graça, que desde já anseio para que esteja nos próximos filmes!

Star Trek - Além da Escuridão

A segunda incursão de J.J. Abrahams na famosa saga trazia a pressão de superar o primeiro filmes, que satisfez bastante os fãs antigos e os não-iniciados.
E Abrahams foi bastante esperto e sábio ao conceber este novo filme, não só por concentrar-se na figura bastante popular do vilão Khan (um dos antagonistas mais louvados pelos fãs da série), rimando bastante com a estrutura dos filmes clássicos de cinema, dois quais o segundo exemplar também trás a presença de Khan, mas também por escolher com precisão e austeridade do intérprete desse personagem: O magnífico Benedict Cumberbath (que na época gozava de uma aclamação um pouco restrita por sua ótima personificação do protagonista da série inglesa “Sherlock”).
Após uma audaciosa operação para salvar a vida de moradores de um planeta instável e fora da Federação dos Planetas Unidos, o capitão da U.S.S.Enterprise, James Kirk (Chris Pine, muito mais à vontade no papel, a exemplo de todos os outros atores), é removido de seu posto. Sua patente só lhe é restituída, porém, quando a própria Federação sofre um ataque promovido pelo desconhecido Khan (Cumberbath, elevando o nível do filme com seu vilão sensacional), que após matar, entre outros, o comandante Pike (Bruce Greenwood), refugia-se no planeta Kronos, no sistema dominado pelos Klingons. Para vingar a morte de seu mentor, Kirk terá de ir lá, e arriscar-se a envolver toda a Federação em uma guerra.

Dessa forma, o diretor J. J. Abrahams dá continuidade à sua notável reformulação de "Jornada Nas Estrelas" (agora "Star Trek") com um filme melhor e mais sombrio, agora brincando com ótimas referências à série clássica de TV e ao longa "Jornada Nas Estrelas - A Ira de Khan".

Star Trek

Em meados de 2009, a icônica saga “Jornada Nas Estrelas” começava a pedir uma repaginação, com seu elenco original já sexagenário, e a glória e sucesso dos filmes de cinema (oriundos da célebre série de TV), lembrados numa longínqua década de 1980.
A Paramount incumbiu, então, o bem-sucedido J.J. Abrahams de reformular a franquia, dando a ela novas caras, novas direções, e uma nova abordagem para toda uma nova geração, sem esquecer claro o fundamental respeito a um material tão amado pelos fãs, e pelo legado do criador Gene Rodenberry.
“Star Trek” –preservado o título original –é, portanto, um esforço criativa dos mais louváveis no sentido de honrar tudo o quê antes foi feito, e ao mesmo tempo, valer-se da premissa e dos personagens para se realizar ao novo em folha. E seu bom resultado é um testemunho ao talento e à competência de Abrahams.
A escolha do elenco, como não podia deixar de ser, foi um trabalho minucioso e preciso: O jovem Chris Pine, substituindo William Shatner, como Cap. James Kirk; Zachary Quinto, no lugar de Leonard Nimoy (que faz uma ponta ilustre) como Senhor Spock; a bela Zoe Saldana (que se tornaria uma atriz assídua em filmes de ficção científica com sua participação também em “Avatar” e “Guardiões da Galáxia”) como Uhura; John Cho como Sulu; Anton Yelchin como Chekov; e Simon Pegg como Montgomery Scott.
No vôo inaugural da Nave USS Enterprise, vemos assim, essa inusitada e familiar tripulação se formar quando por acaso, a nave se vê envolvida os planos de vingança do romulano Nero (um vilanesco e eficiente Eric Bana). Contudo, Nero veio do futuro, e sua presença cria uma espécie de bifurcação no tempo, originando uma nova realidade alternativa: E nessa sacada de gênio, Abrahams consegue manter intactos todos os acontecimentos que abrangem as produções com o elenco original, enquanto obtém liberdade para seguir em frente com este novo elenco.
Nem tudo, porém, são flores nesta reinvenção da franquia conhecida por "Jornada Nas Estrelas": Ao mostrar a "origem" de personagens icônicos como o Capitão Kirk, o Senhor Spock e muitos outros, o diretor e seus atores não escapam da sensação de que estão ‘pisando em ovos’ e muitas vezes ostentam uma superficialidade às vezes irritante, sobretudo quando o roteiro explora algumas dinâmicas de relação entre certos personagens.
Quando o filme mergulha em questões mais práticas –a tensão das batalhas, as táticas de combate e o militarismo implícito na premissa –o filme parece ganhar mais descontração.
Pode-se dizer que este primeiro “Star Trek”, como espetáculo comercial, e sobretudo em função da catástrofe que poderia ter sido, cumpre seu papel: O elenco mais jovem, e no geral todos bastante parecidos com os atores originais, dá uma nova roupagem aos clássicos personagens, dando ênfase à rivalidade inicial, e posterior amizade, que se forma entre Kirk e Spock.
Era o início de algo, que viria a melhorar muito nos filmes seguintes.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Todo Mundo Quase Morto

Há hoje uma defasagem brutal que acomete o sub-gênero dos filmes de zumbi. Existem tantos à disposição no circuito que parece enfadonha a tarefa de encarar a todos. Isso e mais a onipresença da série de TV “The Walking Dead”, hoje uma das mais forte referências para esses exemplares.
Houve um tempo, contudo, que não era assim. E o diretor inglês Edgar Wright foi sagaz ao realizar, por volta de 2004, este brilhante “Todo Mundo Quase Morto”, em parceria com os atores Simon Pegg e Nick Frost (parceria esta que se repetiria em outros bons filmes).
Aqui, Wright honrou os filmes de zumbi ressaltando tudo o quê neles tinha mérito, mesmo que esta fosse, no fim das contas, uma sátira: O sub-gênero (e sua importância sócio-cultural) são analisados e desconstruídos com inteligência e minúcia, fazendo lembrar os bons tempos de George Romero e seu ainda inovador “Despertar dos Mortos”.
O sempre ótimo Simon Pegg é Shaun, um inglês suburbano de classe media-baixa que está na pior: Levou um fora da namorada que o considera imaturo demais, sua mãe reclama da ausência do filho, e seu padrasto o cobra por isso, seu emprego é uma porcaria, e seu companheiro de aluguel lhe deu um ultimato, pois não aguenta mais os modos grosseiros do melhor amigo de Shaun (Nick Frost), um verdadeiro porcalhão.
Tudo isso acontece exatamente quando o mundo é assolado por uma epidemia de mortos-vivos que atacam as pessoas. Mas, como em todos os demais problemas de sua vida, Shaun não consegue sair da inércia; ele mal se dá conta da gravidade da situação, indo à uma lojinha de conveniência e passando completamente despercebido (e sem percebê-los!) pelos mortos-vivos! Entretanto, é justamente Shaun quem se vê transformado em líder do pequeno grupo de sobrevivência que eles formam.

Um daqueles raríssimos casos em que a sátira acaba rendendo um trabalho digno de ser considerado um dos melhores do próprio gênero que ele quer parodiar.

domingo, 16 de agosto de 2015

Missão Impossível - Nação Secreta

É ótimo poder ver um filme muito bom no cinema depois de uma desgraça completa como esse novo "Quarteto Fantástico". Talvez, seja empolgação do momento (embora isto não costume me acontecer muito) mas este último "Missão Impossível" é excelente, um dos melhores da série e, possivelmente, um dos melhores do ano, também.
A série começou irregular, lá em 1998, adaptando um seriado de TV famoso, com Tom Cruise em sua estréia como produtor. O primeiro filme, dirigido por Brian De Palma, fez sucesso, mas não foi um produto perfeito. Notícias a respeito de desentendimentos no set foram muito divulgadas, e a história parece ter sido refeita e repensada várias vezes. Talvez tenha sido isso que tenha levado a uma mudança de tom no segundo filme, dirigido desta vez por John Woo, com todo o seu gabarito de cenas de ação em câmera lenta.
O resultado foi morno, e eu considero, de longe o mais fraco de todos.
Uma nova mudança de direção trouxe J.J. Abrahams ao comando do terceiro filme, onde, enfim, tudo começou a funcionar. A franquia encontrou um estilo, uma personalidade. Ironicamente, igualando-se a muitas das características já presentes na série de TV, da qual a versão de cinema parecia querer uma certa distância.
Seguido pelo bem-sucedido terceiro filme, veio o melhor de todos até então, o maravilhoso "Missão Impossível - Protocolo Fantasma", dirigido por Brad Bird (de "Os Incríveis" e "Ratatouille" estreando na direção de live actions), que conseguiu, com originalidade e qualidade dar um novo fôlego à série.
E dar novo fôlego à "Missão Impossível" parece estar se tornando a especialidade de Tom Cruise ao assistirmos esse "Nação Secreta".
Dirigido desta vez pelo austero e habilidoso Christopher McQuarie (que já trabalhou com Tom Cruise em "Jack Reacher - O Último Tiro"), este novo filme trás mais realismo que os anteriores, embora não lhe faltem sequências de ação que beiram o mirabolante. O que mais surpreende, porém, a exemplo do belo trabalho do filme anterior, é o ótimo cuidado com o roteiro. Todas as surpresas, reviravoltas e manobras da trama têm aquele ritmo e atmosfera dos melhores e mais instigantes filmes de espionagem.
Em "Nação Secreta", Ethan Hunt (Cruise) se vê prestes a descobrir o mistério por trás de um certo Sindicato, uma organização terrorista que agiu nas sombras nos últimos anos, e da qual muitos sequer duvidam da existência. Isso acontece num momento complicado para a agência IMF, quando a própria CIA resolve dissolver o departamento, deixando Hunt meio que sozinho em campo.
Um de seus poucos aliados acaba sendo Ilza, uma agente do Sindicato que revela ter intenções dúbias e parece jogar para os dois lados. Ilza, diga-se de passagem, é uma personagem sensacional. Ambígua e enigmática, daquelas que, até uma boa parte do filme, não sabemos se está do lado do herói ou contra ele, inicialmente Tom Cruise queria Jessica Chastain para o papel (e dá para imaginar o quão fantástico seria se ela tivesse topado fazer!) em seu lugar entrou a pouco conhecida Rebbeca Fergunson que faz um trabalho muito bom.
Completam a "equipe" de Ethan Hunt, por assim dizer, o hacker Benji (Simon Pegg), o amigo Luther (Ving Rhames, o único além de Tom Cruise a ter participado de todos os filmes!), e o agente Brandt (Jeremy Renner).
"Missão Impossível -Nação Secreta" é aquele tipo de filme que dá gosto ver no cinema. Bem conduzido, bem escrito, bem produzido e bem interpretado, feito com a dose certa de ação, humor e intriga, ele acaba tornando-se ainda mais precioso numa época em que o cinema tem tão poucos exemplares de qualidade a oferecer.